sábado, 12 de março de 2011

WikiLeaks

Segredos do WikiLeaks
Por Guilherme Freitas e Luisa Guedes, do Observatório da Imprensa
Frequentemente retratado como uma espécie de Robin Hood da era da informação, um anti-herói cyberpunk de ternos bem cortados e cabelos descoloridos, o australiano Julian Assange se tornou nos últimos meses um tipo curioso de figura pública, ao mesmo tempo elusiva e onipresente. Antes um hacker arredio, o fundador do WikiLeaks se viu sob os holofotes depois que a organização, em parceria com veículos de todo o mundo, começou a publicar milhares de telegramas diplomáticos americanos, no maior vazamento de documentos oficiais de todos os tempos.

A reação truculenta do governo dos EUA e o processo por crimes sexuais que enfrenta na Suécia (que ganhou novo capítulo quando a Justiça do Reino Unido, onde está asilado, aprovou sua extradição para Estocolmo) levaram o ativista a se defender em uma série de entrevistas e pronunciamentos – um papel que parece diverti-lo, como se nota numa capa recente da Rolling Stone italiana para a qual posou sem camisa sob o título "Rockstar do Ano". Mas a exposição constante só faz adensar o mistério em torno de Assange.

Relação conflituosa

Dois livros que chegam agora ao Brasil procuram jogar luz sobre a personalidade e as estratégias de Assange e sobre o funcionamento da organização que criou em 2006. Em Os bastidores do WikiLeaks (Editora Campus/Elsevier, tradução de Pete Rissatti), o alemão Daniel Domscheit-Berg, ex-colaborador do site, revela as divergências com Assange que o levaram a abandonar o grupo. Domscheit-Berg fundou em setembro o OpenLeaks, com funcionamento e objetivos diferentes do concorrente. Em entrevista ao Globo, ele conta que o OpenLeaks não será responsável por vazamentos; apenas fornecerá tecnologia para aqueles que quiserem divulgar documentos. O acesso à ferramenta será permitido a organizações parceiras, como jornais e ONGs, sob critérios estabelecidos pelas fontes. O site http://openleaks.org/ já está no ar, com uma fase de testes prevista para começar nas próximas semanas. Ainda não há data para o repasse dos primeiros documentos.

Em WikiLeaks: A guerra de Julian Assange contra os segredos de Estado (Verus, tradução de Ana Resende), os jornalistas do Guardian David Leigh e Luke Harding relatam o complicado processo de edição das reportagens sobre os telegramas diplomáticos, no qual o veículo britânico esteve envolvido desde o início. Editor investigativo do jornal, Leigh fala ao Globo da relação conflituosa que Assange mantém com a imprensa, critica seu "amadorismo" jornalístico e destaca a importância das revelações feitas pelo WikiLeaks.

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"Muito barulho e pouco cuidado"

Daniel Domscheit-Berg fala sobre Julian Assange com a intimidade de quem morou com ele. Ou melhor, de quem lhe deu abrigo algumas vezes. O alemão conta que o ex-hacker não tem casa própria, é excêntrico, narcisista e não totalmente confiável. Em entrevista ao Globo por telefone, de Amsterdam, onde participava de um evento, Domscheit-Berg deixa transparecer sua mágoa com o antigo chefe. Diz que "infelizmente" investiu tudo o que tinha no WikiLeaks e que voltou agora a ganhar algum dinheiro com seu livro Os bastidores do WikiLeaks (Editora Campus/Elsevier, tradução de Pete Rissatti). Ele também explica por que rompeu com Assange e conta o que espera de seu site OpenLeaks.

O que o levou a escrever sobre o WikiLeaks?

Daniel Domscheit-Berg – Eu e Julian trabalhamos juntos por três anos e eu fui, além dele, o único porta-voz conhecido desse projeto na maior parte do tempo. Fui responsável por construir a credibilidade do WikiLeaks quando ninguém confiava no projeto. Em 2010, senti que ele estava se desenvolvendo de maneira irresponsável. Ficou muito político. Julian não prestava contas de seu comportamento e estava construindo um culto à sua personalidade. Eu e alguns outros sentimos que não era a direção certa e saímos. A revista alemã Der Spiegel decidiu me entrevistar e fui muito diplomático. Mas Julian continuou uma campanha para descredenciar a mim e aos outros. Isso se repetiu por tanto tempo que achei que precisava ser corrigido. Senti uma certa obrigação porque, além de Julian, era o único que sabia de certas coisas e que era conhecido. Além disso, há boas histórias que o livro conta.

Como entrou para o WikiLeaks e qual era seu papel?

D.D-B. – No início, havia um chat no qual eu entrei em novembro de 2007. Algumas pessoas forneciam materiais, que nem sempre eram confiáveis. Em janeiro de 2008, eu me tornei porta-voz de Julian. Sou jornalista e fazia também trabalhos editoriais e pesquisas. Trabalhávamos de uma forma que se tornou um erro em 2010, quando nós precisávamos de um projeto mais bem organizado, com responsabilidades mais bem definidos. Quando tentamos estabelecer isso, Julian não quis.

"Fui publicamente conhecido por três anos"

No livro, o senhor conta que levou alguns documentos ao sair. Por que fez isso?

D.D-B. – Algumas pessoas que decidiram sair comigo eram responsáveis por armazenar o material entregue ao WikiLeaks. Precisávamos fazer um repasse seguro desse material e Julian disse que não estava preocupado. Ninguém achava que aqueles que permaneceriam podiam recebê-lo.

Alguma fonte reclamou do site por irresponsabilidade?

D.D-B. – A maioria de nossas fontes são anônimas, então não podem reclamar, mas sei por algumas pessoas que elas não estão muito felizes com isso. Essas pessoas nos deram material para ser publicado e não para fazer publicidade.

A ameaça do WikiLeaks de o processar o preocupa?

D.D-B. – Não, porque não fiz nada ilegal. E posso provar tudo que digo.

Por que estão tentando minimizar sua importância?

D.D-B. – Isso também é parte de por que escrevi esse livro. Outras pessoas criticaram Julian e foram descredenciadas. Sou a única pessoa com quem ele não pode fazer isso pois fui publicamente conhecido por três anos.

"Julian me ameaçou algumas vezes"

O que diferencia os vazamentos de 2010 dos anteriores?

D.D-B. – Na escala política, eles foram maiores do que qualquer coisa feita antes. Os telegramas são como um recorde mundial. E o problema foi que, para vazar algo assim, você precisa ser muito responsável. Uma história que está no livro é sobre os documentos do Afeganistão. Tínhamos um acordo com a Der Spiegel, o New York Times e o Guardian e eles exigiram que nós editássemos esses documentos porque havia nomes de informantes inocentes neles. Só quatro dias antes da divulgação Julian nos disse que, semanas antes, ele prometera editar 90 mil documentos. Era impossível fazer.

Isso prejudicou alguém?

D.D-B. – O problema é que nunca poderemos provar. O que podemos dizer, por exemplo, é que documentos foram vendidos à Bielorrússia por um homem chamado Israel Schmier que trabalha para o WikiLeaks. Ele é antissemita e está fazendo o que quer com os documentos.

Quantos trabalhavam para o site como o senhor?

D.D-B. – Em tempo integral? Julian e eu. Talvez mais três pessoas.

Como foi o rompimento com ele?

D.D-B. – Foi um processo. Julian me ameaçou algumas vezes em 2010. Disse que se eu colocasse qualquer fonte em perigo me mataria, que tinha material comprometedor sobre mim. Ele se recusava a responder qualquer pergunta sobre como usava o dinheiro de doações. Isso se juntou à maneira como ele estava divulgando os documentos. Não era profissional.

"Fazer política é papel de outros"

As acusações contra Assange têm fundo político?

D.D-B. – Tenho certeza que agora são uma questão política. No início, tinha 100% de certeza que não eram. Julian tem uma visão muito tradicional dos papéis de homens e mulheres e acho que isso se chocou com as duas feministas com quem ele se envolveu. Só sei o que está na mídia, mas parece que ele fez sexo desprotegido com elas e se recusou a fazer teste de Aids. Mas, agora, os EUA estão trabalhando duro para causar problemas a Julian.

O senhor espera que o OpenLeaks tenha o mesmo impacto do WikiLeaks?

D.D-B. – Acredito que nosso impacto será maior, embora não se possa comparar nada aos telegramas. Mas o OpenLeaks não publica material como o WikiLeaks. Só oferecemos tecnologia, semelhante a uma caixa postal, que fornecemos para parceiros. Se tivermos parcerias no Brasil, poderão usar aí nossa tecnologia, com segurança, em anonimato, para passar informação a um jornal ou a uma ONG.

Vocês pretendem ter alguma atuação política?

D.D-B. – Não, porque não publicamos documentos. Se você tem controle sobre o documento e sobre sua publicação, você pode usá-lo politicamente.

E por que vocês não querem ter um papel político?

D.D-B. – Fazer política é papel de outros. É para jornais, ONGs que usem esse material. Se você faz política com uma ferramenta, ela fica muito vulnerável.

"Informações podem criar mudanças"

O OpenLeaks terá algum chefe? Será o senhor?

D.D-B. – Não (risos). Somos 10 ou 12 pessoas e estamos num nível igual.

Qual a importância de sites como o OpenLeaks?

D.D-B. – Há muitas pessoas no mundo que têm informações, querem levá-las a público, e precisam de meios para fazer isso em segurança. No mundo globalizado, é cada vez mais importante ter esses "vazadores" que nos mostrem como o mundo funciona. Informações podem criar mudanças.

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"Relação de amor e ódio com a imprensa"

Há alguns anos, o editor investigativo do Guardian David Leigh começou a receber e-mails de um certo Julian Assange, um hacker australiano baseado em Nairóbi que enchia sua caixa de entrada com furos de reportagem, relatos pessoais e longas diatribes contra a imprensa internacional. A relação surgiu antes da criação do WikiLeaks e se manteve, nunca sem percalços, até a publicação dos telegramas diplomáticos, numa operação que envolveu veículos de diversos países e que é narrada em WikiLeaks: A guerra de Julian Assange contra os segredos de Estado, escrito por Leigh em parceria com Luke Harding. Nesta entrevista, Leigh fala sobre a atribulada relação do ativista com a imprensa e avalia o impacto do trabalho de Assange para o jornalismo.

O livro mostra a desconfiança com que Assange lida com os veículos parceiros do WikiLeaks. Que desafios essa postura trouxe para o trabalho da sua equipe no caso dos telegramas?

David Leigh – Durante o processo de edição dos telegramas, ele agia como uma mistura de editor, fonte e intermediário. Certa vez dissemos que Julian discutiu conosco e com o New York Times, e ele respondeu que nunca discutiu com Der Spiegel porque "eles nunca me contestaram". Esse é o ponto: Julian só confia em quem nunca o contesta e permite que faça exatamente o que quer. Nós não fizemos isso. O New York Times fez um perfil dele que não o agradou e nós publicamos os detalhes das acusações sexuais contra ele na Suécia.

Como vê o tipo de figura pública que Assange se tornou?

D.L. – Julian é um expert em computação e um jornalista amador. Como hacker, ele descobriu que podia pôr as mãos em enormes bancos de dados online e então achou que podia se transformar num jornalista, só que faz isso de forma irresponsável, às vezes. Mas sua atuação tem pontos muito positivos, claro. As revelações do WikiLeaks sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão foram importantíssimas. Mas é importante também lembrar que é preciso uma grande equipe para editar essas informações porque vazamento sem edição não significa nada. Só no Guardian, foram 40 profissionais envolvidos no caso dos telegramas.

"É importante aprender a lidar com grandes bancos de dados"

Acredita que as informações vazadas pelo WikiLeaks tiveram influência na onda de protestos em países árabes?

D.L. – Seria muito extremo dizer que foi isso que causou as revoltas. Muita gente na Tunísia, no Egito e na Líbia diria que sim, mas acho que nem o próprio Julian concordaria. Mas a resposta que tivemos de países sem imprensa livre mostra que havia uma demanda enorme por aquelas informações entre esse público.

Muitos comentaristas desdenham dos telegramas como "fofoca diplomática" e o governo americano acusou o WikiLeaks de pôr vidas em risco ao revelar informações confidenciais. A que atribui essas reações?

D.L. – Veículos jornalísticos rivais e pessoas que tiveram seus interesses afetados pela divulgação dos telegramas tentaram diminuir sua importância. Mas as informações eram tão importantes e tão sensíveis que nosso correspondente na Rússia, Luke Harding (co-autor do livro), foi expulso do país depois que as publicamos. Quanto às queixas dos Estados Unidos, bem, não é responsabilidade de nenhum jornal proteger os segredos do governo americano. Eles falharam em fazer isso, os segredos vazaram e nada disso tem a ver com a mídia. Se recebemos essas informações, vamos publicá-las, desde que sejam importantes para o público. É o nosso trabalho.

No livro vocês deixam uma pergunta em aberto: "O que aprendemos com o WikiLeaks?" Já é possível responder essa questão?

D.L. – O que aprendemos é que a tecnologia da internet se desenvolveu a tal ponto que gigantescos bancos de dados estão sendo criados, com uma quantidade de informação sem precedentes. Isso facilita vazamentos. Para os jornalistas, é importante aprender a lidar com esse grandes bancos de dados e extrair deles informações úteis. Julian foi pioneiro nisso e é algo que todos teremos que aprender a fazer.

(Envolverde/Observatório da Imprensa)

Um comentário:

  1. WikiLeaks e os mitos da democracia
    (publicado na revista Caros Amigos)

    A notoriedade conquistada pelo WikiLeaks teve inúmeros efeitos positivos, louvados à exaustão. Também conhecemos os questionamentos de seus adversários, alguns bem espinhosos e insolúveis, como os que debatem a necessidade de proteger dados governamentais estratégicos. Passado o furor das polêmicas iniciais, porém, é necessário apontar alguns equívocos menos evidentes de ambas as facções.
    As informações divulgadas trouxeram pouca novidade àquilo que o leitor atento de jornais já sabia há décadas. Mesmo a infame perseguição a Julian Assange é típica do regime político em vigor nos EUA, que sempre combateu antagonistas com os instrumentos usados pelas chamadas ditaduras contra seus dissidentes. Assange, indefeso como qualquer cidadão comum, jamais escaparia das armadilhas jurídicas, econômicas e jornalísticas que esmagam quem ousa confrontar o “sistema”.
    Apesar do discurso iconoclasta, ele precisou recorrer à mídia corporativa para legitimar-se e salvar a própria pele. Governos e empresas atingidos superaram o breve embaraço e voltaram às atividades obscuras de praxe. Assange serviu para elevar a audiência e aprimorar a blindagem de seus inimigos, e depois foi descartado. Pagou um preço demasiado apenas para confirmar que não existe liberdade de imprensa ou direito à informação no mundo real do poder, que esses princípios ocos alimentam fantasias convenientes à natureza totalitária da farsa democrática.
    A ilusória força mobilizadora da internet ameniza nossa amedrontada submissão às engrenagens que não podemos (e talvez não queiramos) destruir. É enganosamente confortável denunciar injustiças e violências no ambiente inofensivo da virtualidade. O ativismo eletrônico, ainda que necessário, não basta para operar mudanças efetivas no cotidiano das populações. E pode também levar a inúteis sacrifícios pessoais.

    www.guilhermescalzilli.blogspot.com

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