Xingu: geopolítica e geoeconomia
Escrito por Roberto Malvezzi (Gogó)
Quarta, 31 de Agosto de 2011
Existe uma caixa-preta, comandada por uma espécie de máfia secreta, que efetivamente decide os rumos do país. Ela age em nome do “Estado”, sem que saibamos sequer exatamente quem é.
Sabemos apenas que é um núcleo de decisões que aglutina os chefes do Executivo, a associação empresarial nacional-transnacional e os militares. As corporações técnicas apenas servem como intelectuais e operadores orgânicos do grupo decisório.
Quando realizamos eleições, decidimos apenas quem vai compor parte do grupo, no caso, a presidência da República. De resto, nosso voto decide apenas questões periféricas, subalternas, que em nada altera a essência do rumo do país. Daí o papel ridículo ao qual foi relegada a classe política nacional.
Assim, o conjunto de infra-estrutura a ser implantado no Brasil e na América Latina, sob o codinome de IIRSA (Iniciativa de Integração de Infra-Estrutura Regional Sul-Americana), já está decidido. O PAC, já disseram isto antes de mim, é apenas o IIRSA brasileiro.
Quem decidiu a Transposição, que, segundo um tenente do Exército nos afirmou em Petrolândia esses dias, só terminará em 2025? Isso mesmo, além dos eixos Leste e Oeste semi paralisados, haverá um para a Bahia, outro para o Piauí e o que sairá do Tocantins em direção ao São Francisco ou diretamente ao Pecém, no Ceará.
Quem decidiu Belo Monte, Jirau, Santo Antônio? Esse ente metafísico que se chama Estado. Ele está acima de todos, acima de qualquer suspeita, além das eleições, além da vontade do povo brasileiro. Ele sabe e decide o que é bom para o país.
Fala em nome da geopolítica – defender os interesses nacionais – e da geoeconomia, isto é, criar a infra-estrutura para escoar a produção latino-americana (brasileira), a riqueza natural, mas também para escoar os produtos dos Estados Unidos e Europa, agora China, para dentro do território latino-americano. Estradas, portos, aeroportos, ferrovias etc., tudo em nome da integração, ainda que seja apenas a integração do capital. A energia para sustentar essa economia de rapina é astronômica.
O Brasil continua sem tecnologia, sem educação de nível, sem saneamento, mas quer ser a 5ª economia exportando produtos básicos. Basta olhar nossa pauta de exportação, cada vez mais dependente do agronegócio e mineradoras.
Como vemos, decidem por nós, comuns mortais, que temos que comer o pó da poeira, dizimar a natureza, varrer os índios e ainda agradecer por sermos dirigidos pelos deuses do Olimpo.
Roberto Malvezzi (Gogó) é membro da CPT – Comissão Pastoral da Terra.
(Correio da Cidadania)
domingo, 13 de novembro de 2011
sábado, 12 de novembro de 2011
Bellzinha
Pois é, ela sempre retorna!
Inexiste blogue sem autor, inexiste autor sem uma musa por trás. Sartre daria o seu aval...
Inexiste blogue sem autor, inexiste autor sem uma musa por trás. Sartre daria o seu aval...
Pensamentando II
Xingu: geopolítica e geoeconomia
Escrito por Roberto Malvezzi (Gogó)
Quarta, 31 de Agosto de 2011
Existe uma caixa-preta, comandada por uma espécie de máfia secreta, que efetivamente decide os rumos do país. Ela age em nome do “Estado”, sem que saibamos sequer exatamente quem é.
Sabemos apenas que é um núcleo de decisões que aglutina os chefes do Executivo, a associação empresarial nacional-transnacional e os militares. As corporações técnicas apenas servem como intelectuais e operadores orgânicos do grupo decisório.
Quando realizamos eleições, decidimos apenas quem vai compor parte do grupo, no caso, a presidência da República. De resto, nosso voto decide apenas questões periféricas, subalternas, que em nada altera a essência do rumo do país. Daí o papel ridículo ao qual foi relegada a classe política nacional.
Assim, o conjunto de infra-estrutura a ser implantado no Brasil e na América Latina, sob o codinome de IIRSA (Iniciativa de Integração de Infra-Estrutura Regional Sul-Americana), já está decidido. O PAC, já disseram isto antes de mim, é apenas o IIRSA brasileiro.
Quem decidiu a Transposição, que, segundo um tenente do Exército nos afirmou em Petrolândia esses dias, só terminará em 2025? Isso mesmo, além dos eixos Leste e Oeste semi paralisados, haverá um para a Bahia, outro para o Piauí e o que sairá do Tocantins em direção ao São Francisco ou diretamente ao Pecém, no Ceará.
Quem decidiu Belo Monte, Jirau, Santo Antônio? Esse ente metafísico que se chama Estado. Ele está acima de todos, acima de qualquer suspeita, além das eleições, além da vontade do povo brasileiro. Ele sabe e decide o que é bom para o país.
Fala em nome da geopolítica – defender os interesses nacionais – e da geoeconomia, isto é, criar a infra-estrutura para escoar a produção latino-americana (brasileira), a riqueza natural, mas também para escoar os produtos dos Estados Unidos e Europa, agora China, para dentro do território latino-americano. Estradas, portos, aeroportos, ferrovias etc., tudo em nome da integração, ainda que seja apenas a integração do capital. A energia para sustentar essa economia de rapina é astronômica.
O Brasil continua sem tecnologia, sem educação de nível, sem saneamento, mas quer ser a 5ª economia exportando produtos básicos. Basta olhar nossa pauta de exportação, cada vez mais dependente do agronegócio e mineradoras.
Como vemos, decidem por nós, comuns mortais, que temos que comer o pó da poeira, dizimar a natureza, varrer os índios e ainda agradecer por sermos dirigidos pelos deuses do Olimpo.
Roberto Malvezzi (Gogó) é membro da CPT – Comissão Pastoral da Terra.
(Correio da Cidadania)
Escrito por Roberto Malvezzi (Gogó)
Quarta, 31 de Agosto de 2011
Existe uma caixa-preta, comandada por uma espécie de máfia secreta, que efetivamente decide os rumos do país. Ela age em nome do “Estado”, sem que saibamos sequer exatamente quem é.
Sabemos apenas que é um núcleo de decisões que aglutina os chefes do Executivo, a associação empresarial nacional-transnacional e os militares. As corporações técnicas apenas servem como intelectuais e operadores orgânicos do grupo decisório.
Quando realizamos eleições, decidimos apenas quem vai compor parte do grupo, no caso, a presidência da República. De resto, nosso voto decide apenas questões periféricas, subalternas, que em nada altera a essência do rumo do país. Daí o papel ridículo ao qual foi relegada a classe política nacional.
Assim, o conjunto de infra-estrutura a ser implantado no Brasil e na América Latina, sob o codinome de IIRSA (Iniciativa de Integração de Infra-Estrutura Regional Sul-Americana), já está decidido. O PAC, já disseram isto antes de mim, é apenas o IIRSA brasileiro.
Quem decidiu a Transposição, que, segundo um tenente do Exército nos afirmou em Petrolândia esses dias, só terminará em 2025? Isso mesmo, além dos eixos Leste e Oeste semi paralisados, haverá um para a Bahia, outro para o Piauí e o que sairá do Tocantins em direção ao São Francisco ou diretamente ao Pecém, no Ceará.
Quem decidiu Belo Monte, Jirau, Santo Antônio? Esse ente metafísico que se chama Estado. Ele está acima de todos, acima de qualquer suspeita, além das eleições, além da vontade do povo brasileiro. Ele sabe e decide o que é bom para o país.
Fala em nome da geopolítica – defender os interesses nacionais – e da geoeconomia, isto é, criar a infra-estrutura para escoar a produção latino-americana (brasileira), a riqueza natural, mas também para escoar os produtos dos Estados Unidos e Europa, agora China, para dentro do território latino-americano. Estradas, portos, aeroportos, ferrovias etc., tudo em nome da integração, ainda que seja apenas a integração do capital. A energia para sustentar essa economia de rapina é astronômica.
O Brasil continua sem tecnologia, sem educação de nível, sem saneamento, mas quer ser a 5ª economia exportando produtos básicos. Basta olhar nossa pauta de exportação, cada vez mais dependente do agronegócio e mineradoras.
Como vemos, decidem por nós, comuns mortais, que temos que comer o pó da poeira, dizimar a natureza, varrer os índios e ainda agradecer por sermos dirigidos pelos deuses do Olimpo.
Roberto Malvezzi (Gogó) é membro da CPT – Comissão Pastoral da Terra.
(Correio da Cidadania)
Pensamentando I
Banquete de pobres
Posted on 06/09/2011 by boitempoeditorial| Deixar um comentário
Por Urariano Mota.*
Quando Filadelfo se promoveu para morar numa casinha do beco, mudanças fundas vieram daí. Na recordação de Jimeralto, aqueles foram os anos mais felizes da sua vida. Na sua imaginação, em um curto intervalo de tempo ali houve o reino e pátria da felicidade. Em um processo estranho de mistura de momentos e ideias, chegou mesmo a crer que o céu foram aqueles dias, tão largos e fecundos. Era uma forma de sentir tão absurda, que chegava a transferir a falta de Maria para a sua presença em um céu azul que fosse o beco, cheio de nuvens brancas e papagaios empinados, com uma alegria de domingo de sol em uma praia de Olinda. Ou como um cinema feliz e fora de lugar, a passar numa tela de sala muito escura. E aqui as anotações da vida pulam e saltam das margens como felizes e encantadas rãs, entre grilos e esperanças. Rãs pulam como borboletas que pulassem, ou fossem pássaros em voos rasantes no mato verde e cheiroso de seiva. E vêm com aquele ar de rio, da aproximação da água no nariz, de banho e pulo de flecheiro, sempre como uma etapa do que virá e viria. Algo como uma pátria impossível, utópica, que um dia tenha sido realizada. As anotações da margem, marcas inapagáveis, transbordam.
O beco, dona Maria no beco, tinha cheiro de tanajura frita na panela com banha de porco. Que felicidade no cheiro, no antegosto, na prelibação daquelas pretinhas apetitosas com temperos de só maciez e bondade. Comê-las, antes de ser o fim da festa, era uma festa contínua que não cansava nem atingia o abarrotamento da exaustão. As tanajuras fritas se comiam, para o menino, como o justo coroamento de um trabalho de curumim, como se ele fosse um menino índio e livre, que caçava ao canto de “cai, cai, tanajura, tua bunda é uma doçura” (a rima era gordura, mas só queria dizer doçura). Antes, na procura da festa, havia que pegá-las com cuidado e habilidade para evitar o ferrão nas cabeças, mas que cheiro, que cheiro elas possuíam ainda cruas, cheiro de sovaco de menina-moça, que cheiro! Arrancar-lhes as cabeças, cortar-lhes as perninhas, e como um guerreiro empurrá-las para um caldeirão, imenso na esperança para a quantidade de tanajuras que pegavam. É verdade, a sua habilidade era pequena, sempre haveria de desejar mais que as suas toscas mãos conseguiam, mas era bom ainda assim pela liberdade de errar, tentar e afinal conseguir pelo menos 60 tanajuras para o jantar. Na mesa eram comidas com farinha de mandioca ou pão bolachão, num apetitoso e raro sanduíche. Era melhor que outra iguaria, pão com linguiça.
O curioso e bom é que antes da tanajura tinha a chuva, o toró, a pequena tempestade que descia do céu amplo, cinza, de um cinzento que para os meninos era uma festa, pois transformava o beco num grande chuveiro, num banho coletivo. Ah, suas mães permitiam que os moleques de calção ou nus pulassem na chuva, se emporcalhassem aos gritos “a praia, a praia”. Os meninos escorregavam na lama, que faziam de areia junto ao mar. Se soubessem então que existia algo de nome piscina, chamariam os mergulhos na lama de piscina. Ficavam todos molhados até os ossos, mas sem frio, porque brincar debaixo da chuva era um exercício, uma ginástica entre os pulos e gritos. Debaixo d’água disputavam um bueiro, um grosso cano que descia de um prédio em construção. Durante a chuva o bueiro jorrava, e por isso metiam a cabeça sob esse chuveiro farto, agachados, para melhor desfrute da abundante alegria. O quanto a felicidade era pobre, miserável e boa. Custava tão pouco, porque a liberdade distribuída pelas mães fazia do mísero o feliz.
Infância, Jimeralto lembrava com os olhos úmidos, fechados, com vontade de gritar: Infância, tu eras a liberdade! Então ele, enquanto dormia sob nome falso em uma pensão de outro país, porque São Paulo ou Rio para ele era outro país, então ele sob um novo nome, codinome, batismo forçado de Pedro, rolando no colchão de um cubículo abafado, lembrava o intervalo curto e feliz da vida de Jimeralto. Tudo era tão perto e tão longe. Da idade que ia dos 6 aos 8 anos, até o pulo magnífico para seus 21 anos, uma distância de apenas 13 anos. No entanto, aquele menino de nome real era como um ser de muito longe, de outro planeta.
*Do romance inédito “O filho renegado de Deus”
***
Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.
Posted on 06/09/2011 by boitempoeditorial| Deixar um comentário
Por Urariano Mota.*
Quando Filadelfo se promoveu para morar numa casinha do beco, mudanças fundas vieram daí. Na recordação de Jimeralto, aqueles foram os anos mais felizes da sua vida. Na sua imaginação, em um curto intervalo de tempo ali houve o reino e pátria da felicidade. Em um processo estranho de mistura de momentos e ideias, chegou mesmo a crer que o céu foram aqueles dias, tão largos e fecundos. Era uma forma de sentir tão absurda, que chegava a transferir a falta de Maria para a sua presença em um céu azul que fosse o beco, cheio de nuvens brancas e papagaios empinados, com uma alegria de domingo de sol em uma praia de Olinda. Ou como um cinema feliz e fora de lugar, a passar numa tela de sala muito escura. E aqui as anotações da vida pulam e saltam das margens como felizes e encantadas rãs, entre grilos e esperanças. Rãs pulam como borboletas que pulassem, ou fossem pássaros em voos rasantes no mato verde e cheiroso de seiva. E vêm com aquele ar de rio, da aproximação da água no nariz, de banho e pulo de flecheiro, sempre como uma etapa do que virá e viria. Algo como uma pátria impossível, utópica, que um dia tenha sido realizada. As anotações da margem, marcas inapagáveis, transbordam.
O beco, dona Maria no beco, tinha cheiro de tanajura frita na panela com banha de porco. Que felicidade no cheiro, no antegosto, na prelibação daquelas pretinhas apetitosas com temperos de só maciez e bondade. Comê-las, antes de ser o fim da festa, era uma festa contínua que não cansava nem atingia o abarrotamento da exaustão. As tanajuras fritas se comiam, para o menino, como o justo coroamento de um trabalho de curumim, como se ele fosse um menino índio e livre, que caçava ao canto de “cai, cai, tanajura, tua bunda é uma doçura” (a rima era gordura, mas só queria dizer doçura). Antes, na procura da festa, havia que pegá-las com cuidado e habilidade para evitar o ferrão nas cabeças, mas que cheiro, que cheiro elas possuíam ainda cruas, cheiro de sovaco de menina-moça, que cheiro! Arrancar-lhes as cabeças, cortar-lhes as perninhas, e como um guerreiro empurrá-las para um caldeirão, imenso na esperança para a quantidade de tanajuras que pegavam. É verdade, a sua habilidade era pequena, sempre haveria de desejar mais que as suas toscas mãos conseguiam, mas era bom ainda assim pela liberdade de errar, tentar e afinal conseguir pelo menos 60 tanajuras para o jantar. Na mesa eram comidas com farinha de mandioca ou pão bolachão, num apetitoso e raro sanduíche. Era melhor que outra iguaria, pão com linguiça.
O curioso e bom é que antes da tanajura tinha a chuva, o toró, a pequena tempestade que descia do céu amplo, cinza, de um cinzento que para os meninos era uma festa, pois transformava o beco num grande chuveiro, num banho coletivo. Ah, suas mães permitiam que os moleques de calção ou nus pulassem na chuva, se emporcalhassem aos gritos “a praia, a praia”. Os meninos escorregavam na lama, que faziam de areia junto ao mar. Se soubessem então que existia algo de nome piscina, chamariam os mergulhos na lama de piscina. Ficavam todos molhados até os ossos, mas sem frio, porque brincar debaixo da chuva era um exercício, uma ginástica entre os pulos e gritos. Debaixo d’água disputavam um bueiro, um grosso cano que descia de um prédio em construção. Durante a chuva o bueiro jorrava, e por isso metiam a cabeça sob esse chuveiro farto, agachados, para melhor desfrute da abundante alegria. O quanto a felicidade era pobre, miserável e boa. Custava tão pouco, porque a liberdade distribuída pelas mães fazia do mísero o feliz.
Infância, Jimeralto lembrava com os olhos úmidos, fechados, com vontade de gritar: Infância, tu eras a liberdade! Então ele, enquanto dormia sob nome falso em uma pensão de outro país, porque São Paulo ou Rio para ele era outro país, então ele sob um novo nome, codinome, batismo forçado de Pedro, rolando no colchão de um cubículo abafado, lembrava o intervalo curto e feliz da vida de Jimeralto. Tudo era tão perto e tão longe. Da idade que ia dos 6 aos 8 anos, até o pulo magnífico para seus 21 anos, uma distância de apenas 13 anos. No entanto, aquele menino de nome real era como um ser de muito longe, de outro planeta.
*Do romance inédito “O filho renegado de Deus”
***
Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.
Pensamentando
A falta que o respeito faz
Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor
Adital
A cultura moderna, desde os seus albores no século XVI, está assentada sobre uma brutal falta de respeito. Primeiro, para com a natureza, tratada como um torturador trata a sua vítima com o propósito de arrancar-lhe todos os segredos(Bacon). Depois, para com as populações originárias da América Latina. Em sua "Brevíssima Relação da Destruição das Indias” (1562) conta Bartolomé de las Casas, como testemunho ocular, que os espanhóis "em apenas 48 anos ocuparam uma extensão maior que o comprimento e a largura de toda a Europa, e uma parte da Ásia, roubando e usurpando tudo com crueldade, injustiça e tirania, havendo sido mortas e destruídas vinte milhões de almas de um país que tínhamos visto cheio de gente e de gente tão humana”(Décima Réplica). Em seguida, escravizou milhões de africanos trazidos para as Américas e negociados como "peças” no mercado e consumidos como carvão na produção.
Seria longa a ladainha dos desrespeitos de nossa cultura, culminando nos campos de extermínio nazista de milhões de judeus, de ciganos e de outros considerados inferiores.
Sabemos que uma sociedade só se constrói e dá um salto para relações minimamente humanas quando instaura o respeito de uns para com os outros. O respeito, como o mostrou bem Winnicott, nasce no seio da família, especialmente da figura do pai, responsável pela passagem do mundo do eu para o mundo dos outros que emergem como o primeiro limite a ser respeitado. Um dos critérios de uma cultura é o grau de respeito e de autolimitação que seus membros se impõem e observam. Surge, então, a justa medida, sinônimo de justiça. Rompidos os limites, vigora o desrespeito e a imposição sobre os demais. Respeito supõe reconhecer o outro como outro e seu valor intrínseco seja pessoas ou qualquer outro ser.
Dentre as muitas crises atuais, a falta generalizada de respeito é seguramente uma das mais graves. O desrespeito campeia em todas as instâncias da vida individual, familiar, social e internacional. Por esta razão, o pensador búlgaro-francês Tzvetan Todorov, em seu recente livro "O medo dos bárbaros” (Vozes 2010), adverte que se não superarmos o medo e o ressentimento e não assumirmos a responsabilidade coletiva e o respeito universal não teremos como proteger nosso frágil planeta e a vida na Terra já ameaçada.
O tema do respeito nos remete a Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz de 1952. Da Alsácia, era um dos mais eminentes teólogos de seu tempo. Seu livro "A história da pesquisa sobre a vida de Jesus” é um clássico por mostrar que não se pode escrever cientificamente uma biografia de Jesus. Os evangelhos contêm história; mas não são livros históricos. São teologias que usam fatos históricos e narrativas com o objetivo de mostrar a significação de Jesus para a salvação do mundo. Por isso, sabemos pouco do real Jesus de Nazaré. Schweitzer compreendeu: histórico mesmo é o Sermão da Montanha e importa vivê-lo. Abandonou a cátedra de teologia, deixou de dar concertos de Bach (era um de seus melhores intérpretes) e se inscreveu na faculdade de medicina. Formado, foi a Lambarene no Gabão, na África, para fundar um hospital e servir a hansenianos. E ai trabalhou, dentro das maiores limitações, por todo o resto de sua vida.
Confessa explicitamente: "o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum sentido. O que importa mesmo é, tornar-se um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”.
No meio de seus afazeres de médico, encontrou tempo para escrever. Seu principal livro é: "Respeito diante da vida”, que ele colocou como o eixo articulador de toda ética. "O bem”, diz ele, "consiste em respeitar, conservar e elevar a vida até o seu máximo valor; o mal, em desrespeitar, destruir e impedir a vida de se desenvolver”. E conclui: "quando o ser humano aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante; a grande tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive”.
Como é urgente ouvir e viver esta mensagem nos dias sombrios que a humanidade está atravessando.
[Leonardo Boff é autor de "Convivência, Respeito, Tolerância”, Vozes 2006].
(Adital)
Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor
Adital
A cultura moderna, desde os seus albores no século XVI, está assentada sobre uma brutal falta de respeito. Primeiro, para com a natureza, tratada como um torturador trata a sua vítima com o propósito de arrancar-lhe todos os segredos(Bacon). Depois, para com as populações originárias da América Latina. Em sua "Brevíssima Relação da Destruição das Indias” (1562) conta Bartolomé de las Casas, como testemunho ocular, que os espanhóis "em apenas 48 anos ocuparam uma extensão maior que o comprimento e a largura de toda a Europa, e uma parte da Ásia, roubando e usurpando tudo com crueldade, injustiça e tirania, havendo sido mortas e destruídas vinte milhões de almas de um país que tínhamos visto cheio de gente e de gente tão humana”(Décima Réplica). Em seguida, escravizou milhões de africanos trazidos para as Américas e negociados como "peças” no mercado e consumidos como carvão na produção.
Seria longa a ladainha dos desrespeitos de nossa cultura, culminando nos campos de extermínio nazista de milhões de judeus, de ciganos e de outros considerados inferiores.
Sabemos que uma sociedade só se constrói e dá um salto para relações minimamente humanas quando instaura o respeito de uns para com os outros. O respeito, como o mostrou bem Winnicott, nasce no seio da família, especialmente da figura do pai, responsável pela passagem do mundo do eu para o mundo dos outros que emergem como o primeiro limite a ser respeitado. Um dos critérios de uma cultura é o grau de respeito e de autolimitação que seus membros se impõem e observam. Surge, então, a justa medida, sinônimo de justiça. Rompidos os limites, vigora o desrespeito e a imposição sobre os demais. Respeito supõe reconhecer o outro como outro e seu valor intrínseco seja pessoas ou qualquer outro ser.
Dentre as muitas crises atuais, a falta generalizada de respeito é seguramente uma das mais graves. O desrespeito campeia em todas as instâncias da vida individual, familiar, social e internacional. Por esta razão, o pensador búlgaro-francês Tzvetan Todorov, em seu recente livro "O medo dos bárbaros” (Vozes 2010), adverte que se não superarmos o medo e o ressentimento e não assumirmos a responsabilidade coletiva e o respeito universal não teremos como proteger nosso frágil planeta e a vida na Terra já ameaçada.
O tema do respeito nos remete a Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz de 1952. Da Alsácia, era um dos mais eminentes teólogos de seu tempo. Seu livro "A história da pesquisa sobre a vida de Jesus” é um clássico por mostrar que não se pode escrever cientificamente uma biografia de Jesus. Os evangelhos contêm história; mas não são livros históricos. São teologias que usam fatos históricos e narrativas com o objetivo de mostrar a significação de Jesus para a salvação do mundo. Por isso, sabemos pouco do real Jesus de Nazaré. Schweitzer compreendeu: histórico mesmo é o Sermão da Montanha e importa vivê-lo. Abandonou a cátedra de teologia, deixou de dar concertos de Bach (era um de seus melhores intérpretes) e se inscreveu na faculdade de medicina. Formado, foi a Lambarene no Gabão, na África, para fundar um hospital e servir a hansenianos. E ai trabalhou, dentro das maiores limitações, por todo o resto de sua vida.
Confessa explicitamente: "o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum sentido. O que importa mesmo é, tornar-se um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”.
No meio de seus afazeres de médico, encontrou tempo para escrever. Seu principal livro é: "Respeito diante da vida”, que ele colocou como o eixo articulador de toda ética. "O bem”, diz ele, "consiste em respeitar, conservar e elevar a vida até o seu máximo valor; o mal, em desrespeitar, destruir e impedir a vida de se desenvolver”. E conclui: "quando o ser humano aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante; a grande tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive”.
Como é urgente ouvir e viver esta mensagem nos dias sombrios que a humanidade está atravessando.
[Leonardo Boff é autor de "Convivência, Respeito, Tolerância”, Vozes 2006].
(Adital)
Líbia
Líbia. Equilíbrio precário. Entrevista com Robert Fisk
Com a visão privilegiada de quem enquanto repórter foi testemunha das revoltas populares no Oriente Médio, as de agora e as de antes; e com o olhar analítico de um cientista político, o britânico Robert Fisk falou sobre as possíveis saídas do labirinto que se tornou a “primavera-verão-outono árabe”.
A entrevista é de Carolina Rossetti e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 28-08-2011.
Fisk, conhecido sobretudo pela coluna no jornal The Independent, é autor de um extenso conjunto de crônicas reunidas no livro A Grande Guerra Pela Civilização: A Conquista do Oriente Médio, da editora Planeta. Sediado em Beirute há mais de 25 anos, o jornalista passou os últimos seis meses cobrindo as revoltas no Egito, Bahrein e Líbia.
Com amplo repertório sobre as idiossincrasias do Oriente Médio, Fisk contextualiza os avanços obtidos até agora pelas revoluções ainda inconclusas do despertar árabe. Se o que assistimos nessa semana foi o último capítulo da guerra civil na Líbia, com a tomada de Trípoli pelos rebeldes (e a revelação da decoração kitsch do bunker de Kadafi), não há como ter certeza. O que se sabe, segundo ele, é que a comunidade internacional se precipita ao confiar na difusa liderança rebelde, que já dá sinais de inconsistência. “O Ocidente aceitou o conselho de transição como legítimo representante dos líbios, e estamos dando status de governo para rebeldes que não sabemos quem são.”
O correspondente fala sobre os perigos de um transição sequestrada por velhos baluartes do poder; critica o papel dúbio das potências no trato com os ditadores; quebra o silêncio sobre a constrangedora aliança dos americanos com os sauditas; e, por fim, critica a atitude da única democracia no Oriente Médio: “Israel prefere ser rodeado por ditaduras que conhece do que por democracias que desconhece”.
A entrevista a seguir foi concedida por telefone, durante uma breve pausa para as férias na Irlanda, de onde viajará para a Síria em alguns dias.
Eis a entrevista.
Estamos testemunhando o desfecho da guerra civil na Líbia?
Tornou-se um padrão dos rebeldes, e eu vi isso acontecer repetidas vezes, invadir as ruas, dar tiros para os ar, declarar vitória, quando, na verdade. Kadafi e seus tanques ainda estão lá. A natureza imprevisível da guerra na Líbia não nos permite tirar nenhuma conclusão definitiva do que pode acontecer por lá. Kadafi pode achar que o melhor seria continuar lutando, para desgastar ao máximo os rebeldes e, aos poucos, roubar a credibilidade do conselho de transição.
Afinal, quem são esses rebeldes?
Eles não têm liderança, são formados por diferentes grupos, tribais e políticos. Nações ocidentais aceitaram o conselho de transição como legítimo representante do povo líbio, até cedemos o prédio da embaixada da Líbia em Londres para eles se organizarem. Estamos dando status de governo a rebeldes que, a bem da verdade, não sabemos quem são. Isso é perigoso. Quando o conselho nacional de transição liquida um dos seus e nada acontece, penso que não se pode confiar nele (o comandante Abdul Younes foi morto há um mês em Benghazi num desentendimento entre os rebeldes). A falsa prisão do filho de Kadafi, Saif, também mostra falta de integridade na palavra deles. E o Tribunal Internacional Penal, em Haia, confirmou a informação aceitando a versão dos fatos de um grupo altamente duvidoso. Não são só as forças de Kadafi que cometeram assassinatos. Corpos encontrados em Trípoli com mãos atadas são de vítimas dos rebeldes. A Otan apoia pessoas que estão cometendo execuções.
Na quinta, a ONU descongelou US$ 1, 5 bilhão de fundos líbios que vão para o grupo que você chama de duvidoso. Isso preocupa?
O dinheiro é do povo. Vai ser difícil para a ONU intervir em como as autoridades líbias, quaisquer que sejam, vão usá-lo. Demos prestígio e influência aos rebeldes. Eles dizem querer democracia, liberdade e o bem-estar do povo, mas todo ditador disse isso um dia.
A captura de Kadafi pode ser o ponto final para o choque entre civis ou só o começo?
No Iraque foi depois da prisão de Saddam Hussein que a insurgência pegou fogo, isso porque os que antes tinham medo de que os americanos pudessem colocar o ditador de volta no comando perderam as inibições. Na Líbia a situação é diferente. Se Kadafi for pego, os governistas têm poucas razões para continuar lutando. Há rachas entre os aliados do ditador também. Os líbios têm experiência histórica de ocupação ocidental imperialista e também de ditadura nacionalista, e não parecem gostar de uma coisa nem de outra. Por isso a procura por uma forma de governo mais digna me parece algo que a maioria dos líbios quer. Resta saber se o conselho de transição, que adotou um discurso aparentemente conciliador, realmente pretende aturar os aliados de Kadafi.
A cidade natal de Kadafi, Sirte, foi bombardeada pela Otan na sexta-feira. Em um artigo, você diz que ‘em breve essa cidade será a mais interessante na Líbia’. Por quê?
Sirte se beneficiou no reinado Kadafi com a exploração de petróleo, por isso a lealdade tribal pode se revelar mais forte que o medo da Otan. Há 70 anos, sob o regime de Mussolini, a Líbia era dividida em duas: a Tripolitânia, cuja capital era Trípoli, e a Cirenaica, cuja capital era Benghazi. Sirte sempre foi uma espécie de dobradiça entre as duas regiões e novas perguntas surgem da escuridão da história. Será que as pessoas algum dia foram leais ao ditador ou apenas a uma ideia de que sua cidade é mais importante? Todo libanês que entrevisto se enxerga primeiro como druso, maronita, sunita ou xiita, e só depois ele é libanês. Pode ser que os líbios pensem assim também. Não sabemos. Os repórteres passaram tempo demais correndo atrás das picapes dos rebeldes e não se interessaram pelas questões fundamentais que estão no pano de fundo do conflito.
Qual sua opinião sobre a cobertura da imprensa internacional na Líbia?
Em Trípoli a imprensa foi sequestrada pelas forças de Kadafi. Os jornalistas no hotel Rixos viraram reféns. O máximo que puderam fazer foi olhar pela janela para enxergar alguma coisa do que acontecia lá fora. Não dá para trabalhar assim. Lembro que na guerra do Iraque houve também um jornalismo de hotel, mas por opção. Os repórteres chegavam escoltados do aeroporto, faziam o check-in, comiam, dormiam e trabalhavam no quarto, às vezes cumprindo ordens diretas das redações. Não faço objeção ao jornalista que, por segurança e pela família, não quer ir para a zona de guerra. Mas não escreva como se estivesse nas ruas, conversando com as pessoas, dando a falsa impressão de que tem ampla visão da situação. Muitos contrataram repórteres iraquianos para ir às ruas por eles e depois assinavam “especial de Bagdá”. Ok, estavam lá, mas qualquer um com um telefone em Londres poderia fazer aquele trabalho. Eu e outros jornalistas circulamos de carro e, mesmo não podendo ficar mais que poucos minutos em certos lugares, deu para ter uma visão ao menos dos cacos da guerra.
E como foi cobrir a Primavera Árabe?
Grande parte da vida de um correspondente no Oriente Médio se resume a escrever sobre sofrimento, violência, tortura, morte e injustiça. Suponho que o momento depois da queda de Mubarak, quando comemoravam e cantavam na Praça Tahrir, tenha sido a reportagem mais feliz que já tive oportunidade de escrever. Foi um breve momento de alívio. Mas penso que as raízes do despertar árabe estavam lá muito antes da revolta na Tunísia.
Que raízes são essas?
A primeira revolta popular moderna foi no Líbano, em 2005, depois do assassinato do premiê Rafic Hariri. O povo exigiu a retirada das tropas sírias e foi vitorioso. Quando estava cobrindo a mobilização de milhões em Teerã, em 2009, pessoas me perguntavam como os libaneses tinham feito para mobilizar tanta gente. Os iranianos queriam aprender como fazer o mesmo. No caso do Egito, as sementes de uma revolução futura foram plantadas na cidade de Mahalla, em 2006, num protesto por aumento de salários da indústria. Anos antes das cenas de Tahrir, Mahalla foi uma “cidade-tenda”, com manifestantes com barras de ferro e gás lacrimogêneo por todo lado. Ainda estou tentando entender esse processo, e penso que a história terá que olhar para o papel que os sindicatos tiveram nos levantes árabes. Parece que nos países com sindicatos fortes, Tunísia e Egito, foi possível reduzir a violência quando o despertar eventualmente se consolidou, acelerando a queda do regime. Por outro lado, nos países onde não há sindicatos, Líbia e Iêmen, ou onde sindicatos foram cooptados pelo governo, Síria, as revoluções não foram imediatamente bem-sucedidas e mais sangue foi derramado. A grande pergunta agora é se a Jordânia, que tem sindicatos estruturados, vai pegar fogo ou não.
Como acha que as transições de regime podem se desenrolar na região?
Há algumas possibilidades. Cada um desses países vai descobrir por si o que quer fazer e como construir seu futuro. Talvez aos líderes do passado seja permitido fazer parte do novo governo. No Iraque os americanos não permitiram, e veja só o que aconteceu. Talvez os Parlamentos sejam controlados pelos velhos regimes. No Egito, o Ministério de Interior ainda é controlado por afilhados políticos de Mubarak. Talvez seja preciso fazer concessões a fim de preencher os vácuos de poder e fazer a máquina de governo andar de novo. Talvez para isso seja permitido aos partidos com os melhores maquinários políticos dominarem as eleições, mesmo que não tenham trabalhado pela revolução. Vejo fotos desses líderes gordos e velhos da Irmandade Muçulmana negociando com os militares no Cairo e penso: onde estavam vocês na hora de revolução? Eu estava em Tahrir e nunca vi nenhum deles lá. A primavera-verão-outono árabe vai durar anos.
O que dizer do silêncio sobre o regime fechado saudita em que as mulheres nem podem dirigir?
Aí você tocou no ponto chave. Todo momento decisivo de transição histórica no Oriente Médio envolveu a Arábia Saudita. A primeira revolução do profeta Maomé foi lá; o movimento religioso do wahhabismo, no século XVIII, brotou lá; os pilotos do 11 de Setembro eram sauditas (não havia nenhum afegão); Bin Laden era saudita; o Taleban foi criado com dinheiro saudita. Mas o petróleo também está lá, então eles são nossos amigos, certo? Causei desconforto para um diplomata americano numa coletiva de imprensa ao dizer: “Eu não estou perguntando sobre sua vida sexual, mas meramente sobre Israel e a Arábia Saudita”. Tal é o constrangimento atual de se questionar certas alianças. Aliás, o rei Abdullah suplicou a Obama para que ele deixasse Mubarak no poder. Israel enviou um telegrama aos americanos, dizendo que o egípcio era melhor para a “estabilidade” da região. Justamente os nossos dois aliados na região.
Quais as chances de os líbios consolidarem um governo de princípios democráticos?
Sempre me preocupo com o papel da democracia enquanto fórmula para se atingir o que chamamos de “civilização ocidental”. Os líbios conhecem a história de seu país, a colonização tirana da Europa, lembram-se do corrupto rei Ídris e sabem que às vezes é preciso tomar cuidado também com o que vem do Ocidente. O verdadeiro perigo não é se os líbios aceitarão a democracia, mas quão corrupto será um novo governo. A corrupção, financeira e moral, é o problema fundamental do mundo árabe. O partido Baath é a instituição mais corrupta na Síria. No Egito é a polícia. Quanto tempo vai levar para que o conselho de transição seja comprado? Suspeito que já possa ter sido comprado pelos interesses do Ocidente.
Como viu a posição da comunidade internacional de intervir militarmente na Líbia e apenas emitir sanções contra a Síria?
Duas palavras: petróleo e Israel. Obama deu sua grande cartada com as sanções, mas a Síria não exporta petróleo, aliás, importa dos iraquianos porque é mais barato que usar o próprio. Tem gente em Israel que considera Bashar Assad o único homem capaz de fazer paz pelas Colinas de Golã e por isso é melhor que ele fique no poder. Israel prefere ser cercado por ditaduras que conhece do que por democracias que não conhece. Melhor o inimigo que sabemos quem é. Obviamente tem uma questão moral envolvida aí. A família Assad é responsável pela morte de mais sírios do que Kadafi de líbios. Para ficar num exemplo só, lembre-se do massacre de Hafez Assad (pai de Bashar) na cidade de Rama, em 1982, em que 20 mil morreram. Os americanos não estão falando com Assad no mesmo tom com que os franceses falaram com Kadafi. São curiosos os termos usados pela administração americana para pedir a renúncia de Assad. Falou-se em “step aside”, dê um passo para o lado, mesmo que a certo ponto Hillary Clinton tenha cometido o deslize de dizer “step down”, mas logo se corrigiu. Essas pessoas não escolhem palavras aleatoriamente. Os EUA estão sinalizando para Assad que ele poderá continuar a existir, em alguma medida, na cena política da Síria, mas agora é o momento de sair dos holofotes e parar o massacre de civis.
A comunidade internacional tem algum papel a desempenhar de agora em diante na transição dos regimes?
O grande problema da política externa do Ocidente para o Oriente Médio neste último milênio é que sempre nos oferecemos para proteger pessoas e construir liberdade e democracia, mas para isso desembarcamos com espadas, tanques e helicópteros, oferecendo o nosso tipo de liberdade. Os exemplos óbvio de fracasso disso são Afeganistão e Iraque. Nossa arrogância não é de agora, vem dos tempos da tomada de Bagdá pelo Império Britânico em 1917, quando andávamos pelas ruas como libertadores tiranos que diziam libertar os iraquianos da tirania do Império Otomano. George W. Bush retomou esse discurso em 2003. Mandem médicos e construtores de pontes, e economistas para fazer alianças comerciais, mas, por favor, mais nenhum soldado. Temos hoje seis vezes mais soldados ocidentais per capita no Oriente Médio do que na época das Cruzadas do século XII. Ainda não entendemos que a terra deles não é nossa, achamos que o petróleo deles nos pertence, mas não é verdade. Eles são nossos amigos, compartilhamos o planeta, mas não temos direito nenhum sobre seu destino.
(InsT. Humanitas Unisinos)
Com a visão privilegiada de quem enquanto repórter foi testemunha das revoltas populares no Oriente Médio, as de agora e as de antes; e com o olhar analítico de um cientista político, o britânico Robert Fisk falou sobre as possíveis saídas do labirinto que se tornou a “primavera-verão-outono árabe”.
A entrevista é de Carolina Rossetti e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 28-08-2011.
Fisk, conhecido sobretudo pela coluna no jornal The Independent, é autor de um extenso conjunto de crônicas reunidas no livro A Grande Guerra Pela Civilização: A Conquista do Oriente Médio, da editora Planeta. Sediado em Beirute há mais de 25 anos, o jornalista passou os últimos seis meses cobrindo as revoltas no Egito, Bahrein e Líbia.
Com amplo repertório sobre as idiossincrasias do Oriente Médio, Fisk contextualiza os avanços obtidos até agora pelas revoluções ainda inconclusas do despertar árabe. Se o que assistimos nessa semana foi o último capítulo da guerra civil na Líbia, com a tomada de Trípoli pelos rebeldes (e a revelação da decoração kitsch do bunker de Kadafi), não há como ter certeza. O que se sabe, segundo ele, é que a comunidade internacional se precipita ao confiar na difusa liderança rebelde, que já dá sinais de inconsistência. “O Ocidente aceitou o conselho de transição como legítimo representante dos líbios, e estamos dando status de governo para rebeldes que não sabemos quem são.”
O correspondente fala sobre os perigos de um transição sequestrada por velhos baluartes do poder; critica o papel dúbio das potências no trato com os ditadores; quebra o silêncio sobre a constrangedora aliança dos americanos com os sauditas; e, por fim, critica a atitude da única democracia no Oriente Médio: “Israel prefere ser rodeado por ditaduras que conhece do que por democracias que desconhece”.
A entrevista a seguir foi concedida por telefone, durante uma breve pausa para as férias na Irlanda, de onde viajará para a Síria em alguns dias.
Eis a entrevista.
Estamos testemunhando o desfecho da guerra civil na Líbia?
Tornou-se um padrão dos rebeldes, e eu vi isso acontecer repetidas vezes, invadir as ruas, dar tiros para os ar, declarar vitória, quando, na verdade. Kadafi e seus tanques ainda estão lá. A natureza imprevisível da guerra na Líbia não nos permite tirar nenhuma conclusão definitiva do que pode acontecer por lá. Kadafi pode achar que o melhor seria continuar lutando, para desgastar ao máximo os rebeldes e, aos poucos, roubar a credibilidade do conselho de transição.
Afinal, quem são esses rebeldes?
Eles não têm liderança, são formados por diferentes grupos, tribais e políticos. Nações ocidentais aceitaram o conselho de transição como legítimo representante do povo líbio, até cedemos o prédio da embaixada da Líbia em Londres para eles se organizarem. Estamos dando status de governo a rebeldes que, a bem da verdade, não sabemos quem são. Isso é perigoso. Quando o conselho nacional de transição liquida um dos seus e nada acontece, penso que não se pode confiar nele (o comandante Abdul Younes foi morto há um mês em Benghazi num desentendimento entre os rebeldes). A falsa prisão do filho de Kadafi, Saif, também mostra falta de integridade na palavra deles. E o Tribunal Internacional Penal, em Haia, confirmou a informação aceitando a versão dos fatos de um grupo altamente duvidoso. Não são só as forças de Kadafi que cometeram assassinatos. Corpos encontrados em Trípoli com mãos atadas são de vítimas dos rebeldes. A Otan apoia pessoas que estão cometendo execuções.
Na quinta, a ONU descongelou US$ 1, 5 bilhão de fundos líbios que vão para o grupo que você chama de duvidoso. Isso preocupa?
O dinheiro é do povo. Vai ser difícil para a ONU intervir em como as autoridades líbias, quaisquer que sejam, vão usá-lo. Demos prestígio e influência aos rebeldes. Eles dizem querer democracia, liberdade e o bem-estar do povo, mas todo ditador disse isso um dia.
A captura de Kadafi pode ser o ponto final para o choque entre civis ou só o começo?
No Iraque foi depois da prisão de Saddam Hussein que a insurgência pegou fogo, isso porque os que antes tinham medo de que os americanos pudessem colocar o ditador de volta no comando perderam as inibições. Na Líbia a situação é diferente. Se Kadafi for pego, os governistas têm poucas razões para continuar lutando. Há rachas entre os aliados do ditador também. Os líbios têm experiência histórica de ocupação ocidental imperialista e também de ditadura nacionalista, e não parecem gostar de uma coisa nem de outra. Por isso a procura por uma forma de governo mais digna me parece algo que a maioria dos líbios quer. Resta saber se o conselho de transição, que adotou um discurso aparentemente conciliador, realmente pretende aturar os aliados de Kadafi.
A cidade natal de Kadafi, Sirte, foi bombardeada pela Otan na sexta-feira. Em um artigo, você diz que ‘em breve essa cidade será a mais interessante na Líbia’. Por quê?
Sirte se beneficiou no reinado Kadafi com a exploração de petróleo, por isso a lealdade tribal pode se revelar mais forte que o medo da Otan. Há 70 anos, sob o regime de Mussolini, a Líbia era dividida em duas: a Tripolitânia, cuja capital era Trípoli, e a Cirenaica, cuja capital era Benghazi. Sirte sempre foi uma espécie de dobradiça entre as duas regiões e novas perguntas surgem da escuridão da história. Será que as pessoas algum dia foram leais ao ditador ou apenas a uma ideia de que sua cidade é mais importante? Todo libanês que entrevisto se enxerga primeiro como druso, maronita, sunita ou xiita, e só depois ele é libanês. Pode ser que os líbios pensem assim também. Não sabemos. Os repórteres passaram tempo demais correndo atrás das picapes dos rebeldes e não se interessaram pelas questões fundamentais que estão no pano de fundo do conflito.
Qual sua opinião sobre a cobertura da imprensa internacional na Líbia?
Em Trípoli a imprensa foi sequestrada pelas forças de Kadafi. Os jornalistas no hotel Rixos viraram reféns. O máximo que puderam fazer foi olhar pela janela para enxergar alguma coisa do que acontecia lá fora. Não dá para trabalhar assim. Lembro que na guerra do Iraque houve também um jornalismo de hotel, mas por opção. Os repórteres chegavam escoltados do aeroporto, faziam o check-in, comiam, dormiam e trabalhavam no quarto, às vezes cumprindo ordens diretas das redações. Não faço objeção ao jornalista que, por segurança e pela família, não quer ir para a zona de guerra. Mas não escreva como se estivesse nas ruas, conversando com as pessoas, dando a falsa impressão de que tem ampla visão da situação. Muitos contrataram repórteres iraquianos para ir às ruas por eles e depois assinavam “especial de Bagdá”. Ok, estavam lá, mas qualquer um com um telefone em Londres poderia fazer aquele trabalho. Eu e outros jornalistas circulamos de carro e, mesmo não podendo ficar mais que poucos minutos em certos lugares, deu para ter uma visão ao menos dos cacos da guerra.
E como foi cobrir a Primavera Árabe?
Grande parte da vida de um correspondente no Oriente Médio se resume a escrever sobre sofrimento, violência, tortura, morte e injustiça. Suponho que o momento depois da queda de Mubarak, quando comemoravam e cantavam na Praça Tahrir, tenha sido a reportagem mais feliz que já tive oportunidade de escrever. Foi um breve momento de alívio. Mas penso que as raízes do despertar árabe estavam lá muito antes da revolta na Tunísia.
Que raízes são essas?
A primeira revolta popular moderna foi no Líbano, em 2005, depois do assassinato do premiê Rafic Hariri. O povo exigiu a retirada das tropas sírias e foi vitorioso. Quando estava cobrindo a mobilização de milhões em Teerã, em 2009, pessoas me perguntavam como os libaneses tinham feito para mobilizar tanta gente. Os iranianos queriam aprender como fazer o mesmo. No caso do Egito, as sementes de uma revolução futura foram plantadas na cidade de Mahalla, em 2006, num protesto por aumento de salários da indústria. Anos antes das cenas de Tahrir, Mahalla foi uma “cidade-tenda”, com manifestantes com barras de ferro e gás lacrimogêneo por todo lado. Ainda estou tentando entender esse processo, e penso que a história terá que olhar para o papel que os sindicatos tiveram nos levantes árabes. Parece que nos países com sindicatos fortes, Tunísia e Egito, foi possível reduzir a violência quando o despertar eventualmente se consolidou, acelerando a queda do regime. Por outro lado, nos países onde não há sindicatos, Líbia e Iêmen, ou onde sindicatos foram cooptados pelo governo, Síria, as revoluções não foram imediatamente bem-sucedidas e mais sangue foi derramado. A grande pergunta agora é se a Jordânia, que tem sindicatos estruturados, vai pegar fogo ou não.
Como acha que as transições de regime podem se desenrolar na região?
Há algumas possibilidades. Cada um desses países vai descobrir por si o que quer fazer e como construir seu futuro. Talvez aos líderes do passado seja permitido fazer parte do novo governo. No Iraque os americanos não permitiram, e veja só o que aconteceu. Talvez os Parlamentos sejam controlados pelos velhos regimes. No Egito, o Ministério de Interior ainda é controlado por afilhados políticos de Mubarak. Talvez seja preciso fazer concessões a fim de preencher os vácuos de poder e fazer a máquina de governo andar de novo. Talvez para isso seja permitido aos partidos com os melhores maquinários políticos dominarem as eleições, mesmo que não tenham trabalhado pela revolução. Vejo fotos desses líderes gordos e velhos da Irmandade Muçulmana negociando com os militares no Cairo e penso: onde estavam vocês na hora de revolução? Eu estava em Tahrir e nunca vi nenhum deles lá. A primavera-verão-outono árabe vai durar anos.
O que dizer do silêncio sobre o regime fechado saudita em que as mulheres nem podem dirigir?
Aí você tocou no ponto chave. Todo momento decisivo de transição histórica no Oriente Médio envolveu a Arábia Saudita. A primeira revolução do profeta Maomé foi lá; o movimento religioso do wahhabismo, no século XVIII, brotou lá; os pilotos do 11 de Setembro eram sauditas (não havia nenhum afegão); Bin Laden era saudita; o Taleban foi criado com dinheiro saudita. Mas o petróleo também está lá, então eles são nossos amigos, certo? Causei desconforto para um diplomata americano numa coletiva de imprensa ao dizer: “Eu não estou perguntando sobre sua vida sexual, mas meramente sobre Israel e a Arábia Saudita”. Tal é o constrangimento atual de se questionar certas alianças. Aliás, o rei Abdullah suplicou a Obama para que ele deixasse Mubarak no poder. Israel enviou um telegrama aos americanos, dizendo que o egípcio era melhor para a “estabilidade” da região. Justamente os nossos dois aliados na região.
Quais as chances de os líbios consolidarem um governo de princípios democráticos?
Sempre me preocupo com o papel da democracia enquanto fórmula para se atingir o que chamamos de “civilização ocidental”. Os líbios conhecem a história de seu país, a colonização tirana da Europa, lembram-se do corrupto rei Ídris e sabem que às vezes é preciso tomar cuidado também com o que vem do Ocidente. O verdadeiro perigo não é se os líbios aceitarão a democracia, mas quão corrupto será um novo governo. A corrupção, financeira e moral, é o problema fundamental do mundo árabe. O partido Baath é a instituição mais corrupta na Síria. No Egito é a polícia. Quanto tempo vai levar para que o conselho de transição seja comprado? Suspeito que já possa ter sido comprado pelos interesses do Ocidente.
Como viu a posição da comunidade internacional de intervir militarmente na Líbia e apenas emitir sanções contra a Síria?
Duas palavras: petróleo e Israel. Obama deu sua grande cartada com as sanções, mas a Síria não exporta petróleo, aliás, importa dos iraquianos porque é mais barato que usar o próprio. Tem gente em Israel que considera Bashar Assad o único homem capaz de fazer paz pelas Colinas de Golã e por isso é melhor que ele fique no poder. Israel prefere ser cercado por ditaduras que conhece do que por democracias que não conhece. Melhor o inimigo que sabemos quem é. Obviamente tem uma questão moral envolvida aí. A família Assad é responsável pela morte de mais sírios do que Kadafi de líbios. Para ficar num exemplo só, lembre-se do massacre de Hafez Assad (pai de Bashar) na cidade de Rama, em 1982, em que 20 mil morreram. Os americanos não estão falando com Assad no mesmo tom com que os franceses falaram com Kadafi. São curiosos os termos usados pela administração americana para pedir a renúncia de Assad. Falou-se em “step aside”, dê um passo para o lado, mesmo que a certo ponto Hillary Clinton tenha cometido o deslize de dizer “step down”, mas logo se corrigiu. Essas pessoas não escolhem palavras aleatoriamente. Os EUA estão sinalizando para Assad que ele poderá continuar a existir, em alguma medida, na cena política da Síria, mas agora é o momento de sair dos holofotes e parar o massacre de civis.
A comunidade internacional tem algum papel a desempenhar de agora em diante na transição dos regimes?
O grande problema da política externa do Ocidente para o Oriente Médio neste último milênio é que sempre nos oferecemos para proteger pessoas e construir liberdade e democracia, mas para isso desembarcamos com espadas, tanques e helicópteros, oferecendo o nosso tipo de liberdade. Os exemplos óbvio de fracasso disso são Afeganistão e Iraque. Nossa arrogância não é de agora, vem dos tempos da tomada de Bagdá pelo Império Britânico em 1917, quando andávamos pelas ruas como libertadores tiranos que diziam libertar os iraquianos da tirania do Império Otomano. George W. Bush retomou esse discurso em 2003. Mandem médicos e construtores de pontes, e economistas para fazer alianças comerciais, mas, por favor, mais nenhum soldado. Temos hoje seis vezes mais soldados ocidentais per capita no Oriente Médio do que na época das Cruzadas do século XII. Ainda não entendemos que a terra deles não é nossa, achamos que o petróleo deles nos pertence, mas não é verdade. Eles são nossos amigos, compartilhamos o planeta, mas não temos direito nenhum sobre seu destino.
(InsT. Humanitas Unisinos)
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Grécia
Internacional| 09/11/2011 | Copyleft
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'A Grécia é um naufrágio sem capitão'
O discurso do primeiro ministro Yorgos Papandreu, anunciando o fim do acordo para formar um governo de unidade nacional e sua consequente renúncia deixou para os atenienses um sabor mais amargo do que aquele que carregam desde o início da crise. Ninguém apareceu para substituir Papandreu. “Desaparecemos como país e nosso sistema político se dedica a salvar a si mesmo”, diz, com profunda raiva, Costas Kavanafis, um jovem de apenas 21 anos. A reportagem é de Eduardo Febbro, direto de Atenas.
Eduardo Febbro - Direto de Atenas
Dimitra acaricia com inquietação o bilhete apertado entre os dedos de sua mão esquerda. “É a chave de meu futuro, ou da minha tumba”, diz com ironia festiva. Entre ajuda da família e poupança pessoal juntou 3.200 euros para uma viagem sem retorno programado: uma passagem só de ida para Londres e toda esperança posta em encontrar um trabalho. Ela se cansou das manifestações, da violência policial e da inoperância crônica de uma classe política que funciona em círculo fechado. Os gregos deixaram de acreditar que um novo governo seja capaz de desenhar um país distinto.
O discurso pronunciado pelo primeiro ministro Yorgos Papandreu, anunciando o fim do acordo para formar um governo de unidade nacional e sua consequente renúncia deixou para os atenienses um sabor mais amargo do que aquele que carregam desde o início da crise. Ninguém apareceu para substituir Papandreu. Os políticos gregos seguem encalhados em suas divergências. “Desaparecemos como país e nosso sistema político se dedica a salvar a si mesmo”, diz Costas Kavanafis com profunda raiva. O jovem, de apenas 21 anos, comprou um mapa e joga, a cada manhã, com um lugar do mundo onde “aterrissar com uma pista de futuro”. As imagens que surgem no emaranhado das ruas de Atenas dizem mais que minhas palavras. Na rua da Academia, uma imensa bandeira negra cobre por completo a fachada do edifício da Cruz vermelha. Os moradores estão de luto, pois o pessoal da organização não recebe salários há seis meses.
Yorgos Papandreu deixou o barco com uma mensagem que soa quase como uma brincadeira nas ruelas labirínticas do bairro de Plaka, a zona da moda na capital grega. “Estamos tentando inaugurar uma nova fase em nosso país. Devemos forjar uma Grécia diferente e também garantir que o acordo para o resgate europeu (o plano de 8 bilhões de euros da União Europeia) siga adiante”. O chefe de governo demissionário destacou: “Uniremos nossas forças para seguir no euro”. O discurso foi tragado pelo vento. As divergências entre socialistas e conservadores deixaram em suspenso a formação do novo Executivo.
O nome do próximo primeiro ministro ficou na bruma depois que o candidato favorito, o economista Lukas Papadimos, o número dois do Banco Central Europeu entre 2002 e 2010 e assessor “informal” de Papandreu, desapareceu da lista de candidatos em função das condições que impôs para aceitar o cargo. Segundo a imprensa grega, Papadimos, que era o favorito dos bancos e do mundo dos negócios, rechaçou manter o calendário das eleições antecipadas pactuado pelos partidos políticos para o próximo dia 19 de fevereiro. No caminho da discórdia para a formação do futuro governo se atravessou um novo nome: o socialista Filipos Petsalnikós, presidente do Parlamento. A ele se somam outros três ou quatro perfis suplementares que converteram as negociações políticas em uma loteria.
Ninguém acredita na classe política, nem sequer em quem vai substituir Papandreu ou no próximo que venha. O diário Athens News escreveu ontem que a Grécia é “um naufrágio sem capitão”. Na Praça da Constituição, onde está o Parlamento, os atenienses assimilam o edifício a uma má metáfora da democracia: “um estúdio de cinema onde se monta um espetáculo para que, por trás das câmeras, os produtores não percam dinheiro”, segundo disse Nikos Constantinaus, um jovem com um diploma de arquitetura sob o braço sem trabalho há dois anos. “Tudo isso é um embuste humilhante. Estão todos de acordo, esquerda, direita, centro, pura comédia de sobreviventes. São uns irresponsáveis. Levam semanas e semanas negociando enquanto os cofres do Estado estão vazios, o país paralisado, os salários atrasados, a juventude sem trabalho e a Grécia exposta à humilhação perante o mundo inteiro”, protesta com gestos veementes Ioannis Konstantanarias, um comerciante do bairro da Assembleia.
Os gregos têm ódio nas entranhas. A Grécia está pendurada em um fio delgado, mas a classe política a empurra para o abismo. Em Atenas, a exasperação é um componente central da vida cotidiana, do mesmo modo que a pobreza galopante e visível. O acordo para a formação do governo condiciona o reembolso dos 8 bilhões de euros provenientes do resgate europeu. Sem esse dinheiro, a Grécia derrete, com esse dinheiro a Grécia acentuará ainda mais as políticas de rigor, o corte do gasto público, o congelamento de salários, em suma, o que há de mais pernicioso nas receitas liberais.
No entanto, o presidente da República, Karolos Papulias, ainda não tem governo para anunciar. Os gregos não enxergam a saída do labirinto. Um Executivo renovado não poupará os maus dias que vem por aí. O futuro primeiro ministro interino terá que tomar em pouco tempo – até as eleições de fevereiro – medidas que condicionarão a vida grega durante muito tempo. Espera-o uma dura negociação com Bruxelas e o Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a implementação de um segundo resgate financeiro indispensável para evitar a quebra e estabilizar a situação antes que se aplique uma nova salva de reformas estruturais. “Já sabemos: nos aguarda um avalanche de sacrifícios, de cortes sociais e privações. Um poço escuro por culpa desses mentirosos”, disse Nikos Constantinaus.
A mentira e a inoperância são aqui duas feridas sempre abertas, junto com a pobreza. A Grécia teve cinco greves gerais. O país, que só pesa 2% na economia europeia, aparece como a ovelha negra da UE. “Vivemos há anos em estado de intervenção estrangeira”, assegura Costas Kavanafis, referindo-se à troika composta pela Comissão Europeia, o FMI e o Banco Central Europeu que há dois anos mantem praticamente uma intervenção na economia do país. O maior paradoxo da crise é a alta dos impostos calculados sobre os salários que ainda não foram pagos. “As empresas levam mais de seis meses para colocar os salários em dia”, explica Ioannis Konstantanarias. O home sai de sua loja e indica com um braço o jardim de papéis amarelos que floresceu nos comércios de sua região: “vende-se, aluga-se”, dizem os anúncios.
A mentira grega tem data. Em 2009, quando Papandreu chegou ao poder, encontrou uma montagem falsa, um orçamento nacional disfarçado graças a argúcias financeiras criadas e vendidas por Goldman Sachs. O anunciado déficit de 3,7% foi elevado, na verdade, para 15%. “Mas todas as medidas que se tomaram desde então estiveram destinadas a proteger os ricos e a fazer a classe trabalhadora e a classe média pagarem o tributo da falsificação”, explica Moise Lipsis, jornalista do diário de esquerda Elefterotipia.
Sua análise ganha corpo na rua. Atenas se transfigurou. Um exército de mendigos e vendedores ambulantes de toalhas de papel, lapiseiras e bugigangas emergiu dos escombros da crise. O horizonte está trancado. A dívida grega representa 170% do PIB. O plano de resgate que o próximo Executivo negociará requer a liberação de 130 bilhões de euros. A isso se agrega o pagamento dos bancos privados. Isso deveria deixar no ar a metade do dinheiro que os gregos devem, ou seja, mais uns 100 bilhões de euros.
O presidente do patronato grego, Dimitrious Laskasas, explicou que a grande lição desta crise está em que “se pediu demasiado dinheiro emprestado”. Os gregos aprovam sua análise, mas não que tenham que pagar essa dívida sem um capitão que aponte o rumo. “Estamos perdidos, nos pedem sacrifícios, bom, adiante, não há dúvida de que é preciso reformar o país, mas para ir aonde? Os planos de austeridade seguem sem parar, mas continuamos cada vez pior”, explica Loukiami, um egresso da carreira de economia, também sem trabalho.
A Grécia está cansada de seus dirigentes e das negociações entre os dois grandes partidos, os Conservadores da Nova Democracia e os socialistas do Pasok. O país se resigna a dias sem recursos e sem glória. Nas ruas de Atenas e nas numerosas manifestações diárias, um slogan similar ao que se popularizou na crise argentina de 2001 começa a circular: “que se vão todos!”.
Tradução: Katarina Peixoto
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'A Grécia é um naufrágio sem capitão'
O discurso do primeiro ministro Yorgos Papandreu, anunciando o fim do acordo para formar um governo de unidade nacional e sua consequente renúncia deixou para os atenienses um sabor mais amargo do que aquele que carregam desde o início da crise. Ninguém apareceu para substituir Papandreu. “Desaparecemos como país e nosso sistema político se dedica a salvar a si mesmo”, diz, com profunda raiva, Costas Kavanafis, um jovem de apenas 21 anos. A reportagem é de Eduardo Febbro, direto de Atenas.
Eduardo Febbro - Direto de Atenas
Dimitra acaricia com inquietação o bilhete apertado entre os dedos de sua mão esquerda. “É a chave de meu futuro, ou da minha tumba”, diz com ironia festiva. Entre ajuda da família e poupança pessoal juntou 3.200 euros para uma viagem sem retorno programado: uma passagem só de ida para Londres e toda esperança posta em encontrar um trabalho. Ela se cansou das manifestações, da violência policial e da inoperância crônica de uma classe política que funciona em círculo fechado. Os gregos deixaram de acreditar que um novo governo seja capaz de desenhar um país distinto.
O discurso pronunciado pelo primeiro ministro Yorgos Papandreu, anunciando o fim do acordo para formar um governo de unidade nacional e sua consequente renúncia deixou para os atenienses um sabor mais amargo do que aquele que carregam desde o início da crise. Ninguém apareceu para substituir Papandreu. Os políticos gregos seguem encalhados em suas divergências. “Desaparecemos como país e nosso sistema político se dedica a salvar a si mesmo”, diz Costas Kavanafis com profunda raiva. O jovem, de apenas 21 anos, comprou um mapa e joga, a cada manhã, com um lugar do mundo onde “aterrissar com uma pista de futuro”. As imagens que surgem no emaranhado das ruas de Atenas dizem mais que minhas palavras. Na rua da Academia, uma imensa bandeira negra cobre por completo a fachada do edifício da Cruz vermelha. Os moradores estão de luto, pois o pessoal da organização não recebe salários há seis meses.
Yorgos Papandreu deixou o barco com uma mensagem que soa quase como uma brincadeira nas ruelas labirínticas do bairro de Plaka, a zona da moda na capital grega. “Estamos tentando inaugurar uma nova fase em nosso país. Devemos forjar uma Grécia diferente e também garantir que o acordo para o resgate europeu (o plano de 8 bilhões de euros da União Europeia) siga adiante”. O chefe de governo demissionário destacou: “Uniremos nossas forças para seguir no euro”. O discurso foi tragado pelo vento. As divergências entre socialistas e conservadores deixaram em suspenso a formação do novo Executivo.
O nome do próximo primeiro ministro ficou na bruma depois que o candidato favorito, o economista Lukas Papadimos, o número dois do Banco Central Europeu entre 2002 e 2010 e assessor “informal” de Papandreu, desapareceu da lista de candidatos em função das condições que impôs para aceitar o cargo. Segundo a imprensa grega, Papadimos, que era o favorito dos bancos e do mundo dos negócios, rechaçou manter o calendário das eleições antecipadas pactuado pelos partidos políticos para o próximo dia 19 de fevereiro. No caminho da discórdia para a formação do futuro governo se atravessou um novo nome: o socialista Filipos Petsalnikós, presidente do Parlamento. A ele se somam outros três ou quatro perfis suplementares que converteram as negociações políticas em uma loteria.
Ninguém acredita na classe política, nem sequer em quem vai substituir Papandreu ou no próximo que venha. O diário Athens News escreveu ontem que a Grécia é “um naufrágio sem capitão”. Na Praça da Constituição, onde está o Parlamento, os atenienses assimilam o edifício a uma má metáfora da democracia: “um estúdio de cinema onde se monta um espetáculo para que, por trás das câmeras, os produtores não percam dinheiro”, segundo disse Nikos Constantinaus, um jovem com um diploma de arquitetura sob o braço sem trabalho há dois anos. “Tudo isso é um embuste humilhante. Estão todos de acordo, esquerda, direita, centro, pura comédia de sobreviventes. São uns irresponsáveis. Levam semanas e semanas negociando enquanto os cofres do Estado estão vazios, o país paralisado, os salários atrasados, a juventude sem trabalho e a Grécia exposta à humilhação perante o mundo inteiro”, protesta com gestos veementes Ioannis Konstantanarias, um comerciante do bairro da Assembleia.
Os gregos têm ódio nas entranhas. A Grécia está pendurada em um fio delgado, mas a classe política a empurra para o abismo. Em Atenas, a exasperação é um componente central da vida cotidiana, do mesmo modo que a pobreza galopante e visível. O acordo para a formação do governo condiciona o reembolso dos 8 bilhões de euros provenientes do resgate europeu. Sem esse dinheiro, a Grécia derrete, com esse dinheiro a Grécia acentuará ainda mais as políticas de rigor, o corte do gasto público, o congelamento de salários, em suma, o que há de mais pernicioso nas receitas liberais.
No entanto, o presidente da República, Karolos Papulias, ainda não tem governo para anunciar. Os gregos não enxergam a saída do labirinto. Um Executivo renovado não poupará os maus dias que vem por aí. O futuro primeiro ministro interino terá que tomar em pouco tempo – até as eleições de fevereiro – medidas que condicionarão a vida grega durante muito tempo. Espera-o uma dura negociação com Bruxelas e o Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a implementação de um segundo resgate financeiro indispensável para evitar a quebra e estabilizar a situação antes que se aplique uma nova salva de reformas estruturais. “Já sabemos: nos aguarda um avalanche de sacrifícios, de cortes sociais e privações. Um poço escuro por culpa desses mentirosos”, disse Nikos Constantinaus.
A mentira e a inoperância são aqui duas feridas sempre abertas, junto com a pobreza. A Grécia teve cinco greves gerais. O país, que só pesa 2% na economia europeia, aparece como a ovelha negra da UE. “Vivemos há anos em estado de intervenção estrangeira”, assegura Costas Kavanafis, referindo-se à troika composta pela Comissão Europeia, o FMI e o Banco Central Europeu que há dois anos mantem praticamente uma intervenção na economia do país. O maior paradoxo da crise é a alta dos impostos calculados sobre os salários que ainda não foram pagos. “As empresas levam mais de seis meses para colocar os salários em dia”, explica Ioannis Konstantanarias. O home sai de sua loja e indica com um braço o jardim de papéis amarelos que floresceu nos comércios de sua região: “vende-se, aluga-se”, dizem os anúncios.
A mentira grega tem data. Em 2009, quando Papandreu chegou ao poder, encontrou uma montagem falsa, um orçamento nacional disfarçado graças a argúcias financeiras criadas e vendidas por Goldman Sachs. O anunciado déficit de 3,7% foi elevado, na verdade, para 15%. “Mas todas as medidas que se tomaram desde então estiveram destinadas a proteger os ricos e a fazer a classe trabalhadora e a classe média pagarem o tributo da falsificação”, explica Moise Lipsis, jornalista do diário de esquerda Elefterotipia.
Sua análise ganha corpo na rua. Atenas se transfigurou. Um exército de mendigos e vendedores ambulantes de toalhas de papel, lapiseiras e bugigangas emergiu dos escombros da crise. O horizonte está trancado. A dívida grega representa 170% do PIB. O plano de resgate que o próximo Executivo negociará requer a liberação de 130 bilhões de euros. A isso se agrega o pagamento dos bancos privados. Isso deveria deixar no ar a metade do dinheiro que os gregos devem, ou seja, mais uns 100 bilhões de euros.
O presidente do patronato grego, Dimitrious Laskasas, explicou que a grande lição desta crise está em que “se pediu demasiado dinheiro emprestado”. Os gregos aprovam sua análise, mas não que tenham que pagar essa dívida sem um capitão que aponte o rumo. “Estamos perdidos, nos pedem sacrifícios, bom, adiante, não há dúvida de que é preciso reformar o país, mas para ir aonde? Os planos de austeridade seguem sem parar, mas continuamos cada vez pior”, explica Loukiami, um egresso da carreira de economia, também sem trabalho.
A Grécia está cansada de seus dirigentes e das negociações entre os dois grandes partidos, os Conservadores da Nova Democracia e os socialistas do Pasok. O país se resigna a dias sem recursos e sem glória. Nas ruas de Atenas e nas numerosas manifestações diárias, um slogan similar ao que se popularizou na crise argentina de 2001 começa a circular: “que se vão todos!”.
Tradução: Katarina Peixoto
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