sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Ditaduras

Os horrores das ditaduras

Um homem em seu leito de morte vira-se para o filho, já adulto, e lhe conta um segredo da vida inteira; "Eu o comprei de um padre em Zaragoza". O que poderia parecer trecho de um folhetim barato aconteceu este ano, na Espanha, e desencadeou uma torrente de histórias semelhantes em todo o país, trazendo à tona um trauma nacional, encoberto por um véu de vergonha e crueldade.
A história começou na Espanha franquista e é reveladora de como as ditaduras podem ser mais cruéis do que imaginamos. A estimativa é de que milhares de bebês tenham sido roubados de suas mães por enfermeiras, padres e médicos, numa prática que, incrivelmente, se estendeu até os anos 1990. Mais de 900 casos estão sendo investigados, novas histórias continuam a ser reveladas, e os advogados acreditam que mais de 300 mil recém-nascidos tenham sido levados de suas mães logo após o parto.
As vítimas eram filhos de pais considerados "indesejáveis" pela ditadura franquista, a maioria de famílias das classes trabalhadoras. Uma espécie de limpeza ideológica, com aprovação do Estado e participação de médicos e da poderosa Igreja católica sob o período de Franco. Posteriormente, o pretexto se tornou econômico, com crianças sendo retiradas de mães pobres para serem entregues a famílias abastadas e sem filhos.
Em contundente e emocionante matéria na BBC, a jornalista Katya Adler valeu-se da condição de ter dado à luz em uma clínica fundada por um médico envolvido com os sequestros para entrevistá-lo, solicitando uma consulta. O doutor Eduardo Vela, cujo nome aparece em muitas investigações, a recebeu em sua casa, em Madri, e confrontado com a revelação de que estava diante de uma jornalista, pegou um crucifixo de metal sobre a sua mesa e disse que sempre atuou em nome de Deus.
Esta história permanecia encoberta até os dias de hoje porque a anistia acordada entre as forças políticas no processo de transição da ditadura franquista para a democracia impedia as investigações. Mesmo em se tratando de crime contra a humanidade, os casos não eram levados adiante pelo temor de tocar em velhas feridas e de romper o pacto que silenciou as atrocidades do período mais terrível da história espanhola.
O governo espanhol ainda resiste a abrir um inquérito nacional, mas as famílias estão indo à luta, descobrindo que não existem corpos nas supostas sepulturas de seus filhos e buscando justiça. Muitos espanhóis acorrem às clínicas para exames de DNA em busca de seus pais verdadeiros. A cicatriz espanhola ainda não se fechou e continuará a sangrar até que sociedade e Estado tenham a dignidade de encará-la de frente.
O Brasil também precisa enfrentar este processo. Parece que temos vergonha da nossa própria história, de nos revoltarmos e de não aceitarmos que um jovem de 26 anos, como Stuart Angel Jones (foto), preso pelo Estado, tenha tido sua boca presa ao cano de descarga de um jipe e sido arrastado pelo pátio interno de uma base militar até a morte. E que sua mãe, assim como as mães espanholas, em busca de justiça, tenha morrido num acidente de causas suspeitas, em São Conrado, no Rio de Janeiro.
Batizar o túnel que liga a Gávea a São Conrado com o nome de Zuzu Angel foi uma forma de começar a enfrentar essa história. Mas falta muito mais. É preciso saber quem foram os executores das torturas, desaparecimentos e mortes, e seus mandantes. Seus nomes precisam ser revelados, como o do doutor Eduardo Vela, em Madri, mesmo que não venham a ser punidos em nome de uma Lei da Anistia obsoleta, estabelecida quando a correlação de forças era completamente diferente da atual.
(Direto da Redação)

Amazônia

Amazônia internacionalizada: Verdade ou alucinação coletiva?
• Postado por Raissa DiLima em 2 setembro 2011 às 11:30
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No nerdcast 78 eu soltei uma “bomba”. Ttenho certeza que deixei muita gente com o cérebro exposto ou, na mesma proporção, me acharam um maluco-doido-insano. Pois é, eu disse que a Amazônia estaria “loteada”, com zonas de acesso restrito e de posse de organização/governos internacionais. Muito bem, aqui estou eu para dissertar um pouco mais sobre este assunto um tanto quanto conspiratório, assim dizendo, e MUITO SÉRIO, e também já estou me preparando pra ser preso em breve.
O assunto surgiu num papo informal com amigos em Petrópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro. Estávamos conversando sobre uma imagem veiculada via e-mail na época, que trazia um mapa do Brasil, onde a Amazônia era mostrada como “zona internacional”. A suposta figura teria sido retirada de um livro escolar de uma escola americana, mas logo foi desmascarada, sendo criação de um pesquisador do Centro de Filosofia e Direitos Humanos – IFHC – da Unicamp.
Em meio à discussão, um dos presentes soltou a seguinte pérola: “o mapa pode até ser falso, mas a informação não é de toda errada!” (sic). O caro leitor deve imaginar como o conspirólogo aqui reagiu, poupando a descrição. Após uns murmurinhos, o rapaz continuou, dizendo que era parente de um soldado do exército brasileiro baseado em Petrópolis, mas que teria sido transferido com sua companhia para a Amazônia, mais ao sul do estado do Amazonas, junto com boa parte dos soldados do Quartel. (identidades e parentescos serão preservados para impedir retaliações) …. -. / .. … / .- .-.. .. …- .
Após passar alguns meses no novo quartel no norte do país o soldado “João” volta para Petrópolis, contado para umas poucas pessoas o que havia presenciado. Segundo “João”, em muitas de suas rondas pela ‘rainforest’ se deparou com cercas e guardas em porteiras, em determinados lugares, com acesso restrito, ou “restrict access”, onde na verdade seriam áreas desabitadas e de posse do governo brasileiro ou até reservas indígenas. Era comum ver ingleses, americanos, holandeses, japoneses… perambulando pela mata e dentro desses terrenos.
Alguns de vocês devem estar pensando, assim como a controversa matéria da Veja (considerada por comunicólogos como uma revista algumas vezes tendenciosa), que isto seria uma coisa boa. A matéria inicia-se da seguinte forma:
“Se o interesse e a presença de estrangeiros na Amazônia fossem mesmo o problema que tanta gente gosta de levantar, seria tarde para tomar alguma providência. Mais de 10 000 pessoas de nacionalidade não brasileira já vivem ou freqüentam regularmente a região, compondo uma comunidade com formação intelectual suficiente para governar a área provavelmente com mais bom senso do que fazem muitos dos políticos locais. Nessa turma há jornalistas, executivos, estudantes, militares, ambientalistas e principalmente cientistas pesquisando as características e os benefícios que se podem obter da biodiversidade da floresta. Para desgosto de madeireiros que acabam de lançar uma campanha de outdoors xingando os militantes do Greenpeace de bêbados e de generais que chegam a recusar ajuda internacional para combater incêndios florestais, o fato é que essa gente contribui mais para o desenvolvimento do país e da região do que boa parte dos proprietários de terras e instrutores de manobras lotados na área.” Leia na integra a matéria.
Mas parem para pensar! Invasão de divisas, tráfico (SIM!), roubos de metais e pedras preciosas, pesquisas ilegais e, pasmem, COMÉRCIO ILEGAL DAS TERRAS seriam coisas boas para o nosso país?
Há uma vertente de conspirólogos brasileiros que vai mais além. Alguns afirmam que a Internacionalização da Amazônia tem um papel estratégico na implantação da Nova Ordem Mundial (assunto pra uma outra coluna), e que os Estados Unidos vem se preparando desde 1816 para assumir o controle do território e de suas riquezas naturais. Mas isso não vem ao caso agora.
O site Brasil.iwarp.com, bastante nacionalista, administrado por oficiais da reserva do exército brasileiro, tem vários textos falando sobre este assunto, inclusive um dos textos afirma que tudo começou quando o FMI, na época do governo Collor, “forçou” o governo a demarcar um imenso território de 94 mil quilômetros quadrados como reserva ianomâmi, para que futuramente a Nação Ianomâmi proclamasse independência e pedisse intervenção da ONU. O resto da história vocês podem deduzir. (fonte: Conspirações. ARAN, Edson. Ed. Geração Editorial).
Eu seria ousado em dizer que existe uma MEGA CONSPIRAÇÃO para abafar e/ou apoiar esta empreitada estrangeira, com apoio de veículos de informação e gente infiltrada no governo! O fato é tão sério que uma repórter do JB iniciou uma investigação sobre o caso (leia matéria) mas nunca mais ouviu-se falar dela nem de sua investigação.
O Blog www.oykosmiguel.blogspot.com publicou no último dia 2 de outubro uma matéria animadora no sentido de combatermos essa invasão:
“Audiência Pública em Manaus vai debater venda de terras na Amazônia por ong britânica.
Na quarta-feira, 03 (de outubro), no plenário da Assembléia Legislativa, em Manaus, será realizada uma audiência pública sobre a venda de terras na Amazônia através do sitewww.coolearth.org, pertencente a uma ong britânica que alega ter comercializado 29.107 acres de áreas florestais, o que equivale a cerca de 110 mil quilômetros quadrados na região.
Esses números representam 65% do total de áreas amazonenses, que hoje estão sendo disponibilizadas por meio do site, sendo que os demais 35% das terras à venda são oriundas de áreas do Equador. No Estado do Amazonas, essas áreas são próximas ao Arco do Desmatamento, que abrange a área sul do Estado, onde o desflorestamento é maior.
Representantes do INCRA, IBAMA, ITEAM, Ministério Público Federal, Polícia Federal, SIPAM e inúmeras instituições governamentais e não-governamentais que atuam na proteção da Amazônia garantem presença num debate que promete desdobramentos em prol da soberania do Brasil.”.
Obs: Se vocês entrarem no site que a matéria se refere, verão que realmente vende-se ‘pedaços’ da Amazônia.
Outro relato assustador extraído de uma matéria do jornal “O Democrata”), conta fatos presenciados por um rapaz que passou em um concurso público federal e foi trabalhar em Roraima. Relato o qual, foi endossado por um professor da Universidade Federal de Manaus, parente de um amigo meu.
“Trata-se de um Brasil que a gente não conhece.
As duas semanas em Manaus foram interessantes para conhecer um Brasil um pouco diferente, mas chegando em Boa Vista (RR) não pude resistir a fazer um relato das coisas que tenho visto e escutado por aqui.
Conversei com algumas pessoas nesses três dias , desde engenheiros até pessoas com um mínimo de instrução.
Pra começar o mais difícil de se encontrar por aqui é roraimense. Pra falar a verdade, acho que a proporção de um roraimense para cada 10 pessoas é bem razoável; tem gaúcho, carioca, cearense, amazonense, piauiense, maranhense e por aí vai.
Na única rodovia que existe em direção ao Brasil (liga Boa Vista a Manaus, cerca de 800 Km), existe um trecho de aproximadamente 200Km (reserva indígena de Waimiri Atroari) por onde você só passa entre 6:00 da manhã e 6:00 da tarde. Nas outras 12 horas a rodovia é fechada pelos índios (com autorização da FUNAI e dos americanos), para que os mesmos não sejam incomodados.
DETALHE: Você não passa se for brasileiro. O acesso é livre aos americanos, europeus e japoneses. Dos 70% de território indígena, diria que em 90% dele ninguém entra sem uma grande burocracia e autorização da FUNAI.
E pásmem, americanos entram na hora que quiserem; se você não tem uma autorização da FUNAI, mas tem dos americanos, então você pode entrar.
A maioria dos índios fala a língua nativa além do inglês ou francês, mas quase ninguém fala português. É comum na entrada das reservas encontrarem-se hasteadas bandeiras americanas ou inglesas. É comum se encontrar por aqui americanos tipo nerds caçando borboletas e joaninhas para catalogá-las, mas, se você quiser montar uma empresa para exportar plantas e frutas típicas como cupuaçú, açaí, camu-camu, etc., medicinais ou componentes para fabricação de remédios, pode se preparar para pagar Royalties para empresas japonesas e americanas que já patentearam a maioria dos produtos típicos da amazônia.
Por três vezes repeti a seguinte frase após ouvir tais relatos: É, os americanos irão acabar tomando conta da Amazônia… e em todas elas ouvi a mesma resposta em diferentes palavras. Irei reproduzir a resposta de uma senhora simples que vendia suco e água na rodovia próximo de Mucajaí:
- Irão não, meu filho, tu não sabe mas tudo aqui já é deles. Eles comandam tudo… Você não entra em lugar nenhum porque eles não deixam!!! Quando acabar essa guerra aí eles virão pra cá e vão fazer o que fizeram no Iraque quando determinaram uma faixa para os curdos onde iraquiano não entra. Aqui vai ser a mesma coisa.
A dona é bem informada, não?!
O pior é que segundo a ONU, o conceito de nação é um conceito de soberania e as áreas demarcadas têm nome de nação indígena, o que pode levar os americanos a alegar que estão libertando os povos indígenas.
Fiquei sabendo que os americanos já estão construindo uma grande base militar na Colômbia, bem próximo da fronteira com o Brasil numa parceria com o governo colombiano com o pseudo objetivo de combater o narcotráfico.
Por falar em narcotráfico, aqui é rota de distribuição, pois, essa mãe chamada Brasil mantém suas fronteiras abertas e aqui tem estrada para as Guianas e Venezuela. Nenhuma bagagem de estrangeiro é fiscalizada, principalmente se for americano, europeu ou japonês (isso pode causar um incidente diplomático).
Pergunto inocentemente às pessoas, porque os americanos querem tanto proteger os índios? E a resposta é absolutamente a mesma:
- Porque as terras indígenas, além das riquezas animais e vegetais, da abundância de água, são extremamente ricas em ouro (encontram-se pepitas que chegam a ser pesadas em quilos), diamante, outras pedras preciosas, minério e nas reservas norte Roraima e Amazonas, ricas em PETRÓLEO!
Parece que as pessoas contam essas coisas como num grito de socorro a alguém que é do sul, como se eu pudesse dizer isso ao presidente ou a alguma autoridade do sul que vá fazer alguma coisa.
É pessoal… Podemos ter certeza de que em breve o Brasil irá diminuir de tamanho. Será que podemos fazer alguma coisa?
Texto de: Juliana Moreira
Extraído de “O Democrata” edição de 16 de outubro de 2004.”
E aqui segue o “endosso” do texto acima:
“Loscar, infelizmente… é verdade. Tenho um aluno na faculdade (CIESA) que durante muitos anos trabalhou na EMBRATEL e viajou pelo interior do Amazonas. O mesmo, em conversa comigo, falou que viu alemães com diamantes nas mãos…. Ele, para realizar manutenção na antena que fica na floresta, precisou da presença do Exército (um oficial o acompanhava) e teve de pedir permissão para uma ONG Alemã (que se encontra no território brasileiro) para adentrar a mesma e realizar a manutenção… Os deputados federais sabem disso mas, não sei por que razão não fazem nada… Precisamos descobrir como são esses “acordos entre o Brasil e as ONGS”. Creio que você, estrategicamente bem localizado” pode conseguir algo por aí”.
Infelizmente, como toda teoria conspiratória, não tenho como provar 100% do que digo, afinal não são relatos pessoais, mas sim de terceiros. Porém acho que deixei aqui bastantes indícios de que a conspiração (ou seria fato?) existe e me assusta. Deveria assustar vocês também!
Só pra registro, a área correspondente à Amazônia não tem fotos de alta resolução no Google Maps. Apenas as áreas oficialmente particulares e os grandes centros da região tem fotos detalhadas.
Colaborou: Loscar Affonso
(De um emeio recebido)

domingo, 13 de novembro de 2011

Palestina

Israel intercepta flotilha com destino a Gaza

A Marinha israelense abordou nesta sexta-feira (04) as duas embarcações da flotilha humanitária que seguia para a Faixa de Gaza com um carregamento de remédios. Os oficiais israelenses entraram nos barcos e prenderam os passageiros, que agora devem ser levados ao porto de Ashdod, onde policiais os esperam. Eles devemdeportados para os países de origem. As informações são do jornal israelense Haaretz.

"Soldados da Marinha israelense operaram conforme planejado, e tomaram todas as precauções necessárias para garantir a segurança dos ativistas a bordo das embarcações e a própria segurança", disse o comunicado.

Uma fonte militar assegurou que ninguém ficou ferido durante a operação. O contato com os passageiros a bordo (55 pessoas de 15 países) foi bloqueado com navios a cerca de 100 quilômetros da Faixa de Gaza, em águas internacionais do Mar Mediterrâneo. Previamente, o Exército tinha se comunicado por rádio com os barcos para pedir-lhes que retornassem ou mudassem seu rumo em direção a Israel ou ao Egito, mas elas se recusaram. "O bloqueio a Gaza é ilegal", disse um dos ativistas a bordo do Tahrir (Liberdade), um dos barcos.

Os passageiros - principalmente do Canadá, Estados Unidos, Austrália e Irlanda - "estão comprometidos com a defesa não violenta da flotilha e com os direitos humanos dos palestinos", disseram os organizadores da viagem em comunicado. Além deles, há ativistas palestinos da Cisjordânia. O Tahrir, de bandeira canadense e o irlandês Saoirse (Liberdade) partiram de porto de Fethiye, na Turquia, na quarta-feira (02).

Nova tentativa

Esta é a 11ª tentativa de romper pelo mar o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza em 2006, reforçado um ano depois, mas aliviado há ano e meio por pressões internacionais após o ataque militar israelense à chamada Flotilha da Liberdade - um incidente ocorrido em águas internacionais que matou nove ativistas turcos.

O organizador do barco canadense, Ehab Lotayef, insistiu na necessidade desta nova iniciativa, apesar do relaxamento do bloqueio. Segundo ele, os habitantes da Faixa de Gaza "querem solidariedade, não caridade" e, "apesar da ajuda humanitária ser útil, eles ainda são prisioneiros sem liberdade de movimentos".

Com Opera Mundi

Arábia

Magreb, Oriente Médio e a esquerda brasileira


Escrito por Milton Temer e Juliano Medeiros
Quarta, 24 de Agosto de 2011

Passados seis meses da derrubada das ditaduras Ben Ali e Mubarak na Tunísia e no Egito, que balanço podemos fazer dos episódios considerados por parte da esquerda – aquela já habituada a ver crises revolucionárias onde existem limitadas crises sociais – importantes processos de revoluções democráticas?

De fato não existem mais os governos anteriores tais como se apresentavam antes, acobertados pelas potências capitalistas ocidentais que ali tinham garantia da ação libertina de suas corporações privadas e onde o Estado agia abertamente na repressão e desmonte do movimento social organizado e dos partidos de esquerda. Hoje, agem de forma bem mais refinada: não existe a polícia secreta, as ruas não escondem segredos. Mas se mantêm inflexíveis na defesa da estrutura sócio-econômica anterior; na intocabilidade dos interesses das grandes corporações multinacionais ali operando e no alto porcentual de participação dos militares na economia nacional – os mesmos que sustentaram e eram aliados de Mubarak.

Em outras palavras, garantem uma “transição tutelada” que ainda não conseguiu sequer assegurar o surgimento de regimes democráticos, mesmo no sentido de uma democracia liberal típica do ocidente. Claro, existe a compensação simbólica da abertura da fronteira de Gaza. Mas sem nenhuma mudança fundamental no posicionamento em organismos internacionais sobre as atrocidades de Israel na região.

E é compreensível que tão pouca coisa tenha mudado. Porque, para além do julgamento dos repressores às manifestações da Praça Tahrir, poucos itens a mais existem como pólo de unidade da frente de oposição, a despeito dos esforços de uns poucos segmentos mais politizados. Depois de tanto tempo desestruturado, o movimento social, fragmentado, sem partidos de esquerda representativos, destruídos pela cooperação entre os militares traidores de Nasser e os interesses políticos da Irmandade Muçulmana, tinha limites estreitos de conquista. Mas, o que é positivo, foram bem mais longe do que os movimentos similares no Catar, Jordânia, Iêmen, Bahrein e Arábia Saudita, onde o status quo se manteve quase na íntegra, com a manutenção dos mesmos capatazes do imperialismo à frente destes diversos governos.

Para quem testemunhou, ao vivo ou a cores, as expectativas e os momentos dramáticos que marcaram processos de grande mobilização no final dos anos 60, na Europa e na América Latina, onde verdadeiras revoluções pareciam estar batendo à porta, não foi difícil concluir que só por ingenuidade alguém imaginaria que estamos diante de processos revolucionários – seja no sentido marxiano do termo, seja naquele consagrado pelo pensamento social do século XX. Mais grave ainda, exigir que fossem movimentos revolucionários capazes de, para além de governos, terem a capacidade de derrubar regimes.

Que fique bem claro: não estamos, com tais premissas, tentando propor apenas mais radicalização. Entendemos, sim, que movimentos sociais, por si, muito pouco podem obter de conclusivo no mundo de hoje por absoluta incapacidade deliberativa. A não ser que consigam uma ruptura ideológica no bojo das Forças Armadas, pelo que podem partir para uma total desconstrução do regime vigente, é dentro da luta institucional que conseguirão as condições capazes de assegurar transformações mais profundas.

E nesse contexto é que devemos propor a análise de perdas e ganhos dos processos, sabendo identificar as características específicas de cada um deles, e admitindo que, em determinadas circunstâncias, somos obrigados a nos localizar no “menos pior” para a solução de conflitos, mesmo que isso nos desagrade. Quem tem tradição na luta democrática como determinante, na busca estratégica do socialismo, não tem problemas em afirmar que a oposição à hegemonia imperialista pode ser o determinante. E é isto, por exemplo, que está em jogo na diferença de tratamento que devemos dar aos casos da Líbia e da Síria, hoje transformados em alvos principais, depois que os ataques e ameaças ao Irã resultaram em absolutamente nada.

Todos louvamos a independência do governo brasileiro com respeito ao governo Ahmadinejad, enquanto o Departamento de Estado americano, a União Européia e todas as forças reacionárias do mundo – as mesmas que não se vexam em tratar o sionismo xenófobo de Israel como vítima do “terrorismo” palestino – se empenhavam em garantir a sobrevivência de uma oposição laica, porém pró-imperialista e até saudosa da ditadura Pahlevi. Por que agora parte da esquerda não se manifesta diante da flagrante omissão do governo de Dilma diante das assumidas pretensões intervencionistas das potências ocidentais na Líbia e na Síria? Pior que isso: não será difícil encontrar quem ache que o Brasil deveria, a exemplo das potências imperialistas, romper imediatamente relações com o governo sírio!

Ahmadinejad era algum modelo de revolucionário que nos pudesse servir de exemplo? Nem de perto. Mas era alvo do imperialismo exatamente por não compor com o governo israelense. Agora, diante do fracasso da investida inicial, ninguém fala mais do perigo nuclear no Irã, e as baterias se voltam para outros alvos - Kadafi, na Líbia, e Bashar Al-Assad, na Síria. Principalmente este último, por conta do empenho da quadrilha familiar que se apropriou da Arábia Saudita – a monarquia Saud, sócios históricos do complexo industrial-militar-petrolífero ianque. A partir da Arábia Saudita, a elite econômica sunita, inimiga dos alauítas, minoria popular a qual pertence Assad, é armada e estimulada à violência contra o regime sírio, que, a bem da verdade, responde na mesma moeda.

E como se comportam agora os mesmos que não tiveram problemas na defesa de Ahmadinejad? Inverteram o rumo para o sentido oposto, e se somaram àquela parte da intelectualidade social-democrata européia, a mesma que embarcou no apoio ao caráter “humanista” da intervenção da OTAN nos Bálcãs, cujas seqüelas trágicas estão até hoje alimentando a violência naquela região. Embarcam, in extremis, no apoio aos bombardeios sobre Trípoli e não se questionam sobre que tipo de opositores se levanta contra os hoje decrépitos Kadafi e Al-Assad. Dão toda credibilidade àquela verdadeira quadrilha que caracteriza o comando rebelde de Benghazi, ou aos mercenários provocadores sunitas, armados e financiados pelos sauditas.

Pois deveriam ler o documento do Partido Comunista Sírio, opositor pela esquerda ao governo sírio, mas que não se mistura com a parte da oposição manipulada pelo exterior e que recebe toda a cobertura para qualquer informação que “uma fonte não identificável” fornece sobre massacrantes ataques das forças leais ao governo.

Em ambos os casos estabelece-se a questão: a esquerda revolucionária mundial ganha ou perde com a vitória das intervenções “humanitárias” agora localizadas na Líbia e em parte mínima da Síria? Quem se beneficiará com a queda dos dois ditadores – tais como são qualificados Kadafi e Assad pelas ditaduras do capital neoliberal ocidental?

Essa é a questão a responder pelas esquerdas racionais, conscientes de suas limitações e das possibilidades de avanço real na conjuntura presente do norte da África e do Oriente Médio. Que eixo-referencial deve nos orientar? Aquele que obriga tais regimes a reformas que impeçam o avanço do neoliberalismo, consciente do enfraquecimento desses países diante do fim da polaridade EUA-URSS? Ou a submissão a conceitos virtuais de uma democracia liberal, na verdade traduzidos em recolonização explícita desses territórios, através de beleguins locais?

Mais cedo ou mais tarde, a história cobra sua conta. O absurdo apoio às “reformas” de Gorbachev na URSS, que culminaram na restauração capitalista controlada pela máfia pró-Washington, ou a entusiasmada defesa em torno da “revolução” que culminou com a unificação das Alemanhas em uma única potência capitalista, deveria servir de lição àqueles que ora outorgam sua solidariedade aos mercenários de Benghazi. Isso porque, tanto na Líbia quanto na Síria, é isso o que está em jogo. Existe uma oposição progressista, pequena e débil, e outra que se consolida no apoio externo, na intervenção direta – por financiamento econômico e militar. Misturar as duas, para se identificar com a segunda, é o que não podemos fazer. E isto, lamentavelmente, é o que parece prevalecer em certas correntes que têm por hábito superestimar avaliações, a despeito de todas as frustrações que já constataram.

Não se trata, para a esquerda racional, de se identificar com Kadafi, Assad ou Ahmadinejad. Mas trata-se, isso sim, de não permitir ao imperialismo ianque e seus acólitos conservadores da União Européia de recuperarem o terreno que perderam nas intervenções criminosas do Afeganistão e do Iraque.

Mas por força da limitação de espaços: o que, então, a esquerda socialista e democrática deve tirar de todas essas experiências que não são, na forma, sequer originais e nem as mais profundas?

Antes de tudo, a conclusão de que, no mundo atual, mais que tudo há que se lutar pela garantia de melhores condições para a luta de massas. Isso passa pela organização de instrumentos políticos a serviço das transformações, profundamente comprometidos com as causas democráticas e orientados por uma estratégia de superação do capitalismo – precisamente o que têm faltado, por exemplo, aos jovens indignados da Europa. Para isso, criar condições à ocupação de espaços nas instituições do Estado burguês que pretendemos desconstruir é um elemento decisivo. Ou seja, não ter medo de ampliar as forças para dentro do campo do inimigo (qual o efeito, por exemplo, da existência de uma frente política com influência de massas na Tunísia diante dos processos que lá tiveram sua origem?).

Nessa batalha também podem ser forjadas operações deliberativas eficazes, em forma de lei, para combater as próprias leis. Diante disso, há os que dirão “Ah... mas não temos forças para isso. A direita sempre dominará as famigeradas instituições republicanas”. Sempre, não. As contradições entre eles já nos levam, no Brasil, a visualizar a possibilidade concreta de pôr fim, por exemplo, ao financiamento privado de campanhas eleitorais, com o que as possibilidades dos socialistas se alteram para melhor.

E se não tivermos forças para aumentar a representação parlamentar, muito menos teremos para nos impor por vias alternativas mais significativas quando as condições históricas e conjunturais assim o exigirem. Esse talvez seja um dos grandes ensinamentos das revoltas no Magreb e Oriente Médio: advogar por um acúmulo de forças que gere condições para as mudanças que defendemos é muito mais eficaz que comemorar qualquer centelha que, longe das condições adequadas, jamais poderá incendiar a pradaria.

Milton Temer e Juliano Medeiros são membros do Diretório Nacional do PSOL.
O primeiro, jornalista e ex-deputado federal. O segundo, Editor do site internacionalista Unamerica e ex-dirigente da UNE.

(Correio da Cidadania)

Torres

• Quem derrubou as torres em NY?

Berna (Suiça) - No 11 de setembro de 2001, ainda na CBN, eu comentava ao vivo diante de minha televisão, aqui em Berna, na Suíça, o ataque às torres gêmeas com Heródoto Barbeiro, em São Paulo, e Sidney Rezende, no Rio.
Pouco antes, estava terminando de almoçar e ouvia a rádio francesa Europa 1. Nessa época, ouvir os noticiários pelo rádio fazia parte da minha rotina diária, para garantir entradas imediatas na CBN, no caso de acontecimentos políticos, acidentes, atentados.
Foi assim que ouvi as primeiras notícias transmitidas num flash, dando conta de que um avião, ao que parecia desviado da rota, entrara num edifício de Nova Iorque. Logo depois, o correspondente nos EUA entrou ao vivo e fui correndo ligar a televisão quando ele anunciou que um outro avião entrara na segunda Torre Gêmea.
Era algo inacreditável, aquela fumaça de querosene em dois edifícios simbolos da força americana. Heródoto, comedido como sempre, não se aventurava a falar em atentado, queria primeiro esperar a confirmação. Eu e Sidney (não sei se a CBN guardou a gravação do programa) não tínhamos dúvida. E me lembro ter afirmado que, fazia alguns dias, um líder islamita prometera atentados nos EUA. Mas não me vinha o nome completo daquele que acabaria se tornando o pesadelo dos americanos.
É alguma coisa como Ossuma. E Sidney Rezendo completou – é Ossuma Ben Laden. Alguns dias depois, a direção da CBN decidiu que a pronúncia certa seria Ossuma Bin Laden.
De repente, enquanto cada um ia fazendo seus comentários, ocorreu a queda das torres como numa implosão de velhos edifícios. E, ali, pronunciei o seguinte comentário, diante do que me parecia óbvio - « mas pelo visto, além de terem entrado nas torres com os aviões, eles tinham minado antes os prédios com explosivos colocados nos andares ».
Nos dias seguintes, fiquei com a impressão de ter dado um fora, porque nenhuma autoridade americana falou na hipótese dos explosivos, e me contentei com a versão oficial.
Mas, algum tempo depois, li alguns depoimentos levantando estranhas hipóteses, pelas quais os atentados teriam de certa forma sido ajudados, dando-lhes uma dimensão ainda maior. Ignorei, mesmo porque sei da tendência dos americanos de verem em tudo um complô ou mentiras, como é a história da ida do homem à Lua e mesmo do vôo do Gagarin.
Porém, hoje, dez anos depois, tem muita gente séria levantando dúvidas, geralmente engenheiros que entendem de resistência de material ao fogo e altas temperaturas. Assim, dizem que o querosene saído dos aviões queima a uma temperatura de 850 graus centígrados, mas que o metal das torres podia suportar calor de 1.250 graus, antes de fundir.
Como onde tem fumaça, há certamente fogo, nessa história de complô para derrubar as Torres Gêmeas, o melhor, para evitar o risco de abuso por esquerdistas ou antiamericanos, seria esperar surgir alguém não político. Ora, justamente, existe um, suíço, professor de História na Universidade de Basiléia. Seu nome Daniele Ganser. Ele diz ter ficado com a pulga atrás da orelha, três anos depois, em 2004, ao ler o relatório oficial da Comissão de Inquérito sobre esses atentados.
Depois de ler o calhamaço de mais de 500 páginas, Ganser não se convenceu, achou falhas, e muitos argumentos destinados a reforçar os ataques ao Iraque, Afganistão, ao islamismo e ao Eixo do Mal apontado pelo cristão Bush. Três mil mortos de um lado, centenas de milhares do outro.
Ganser ficou também impressionado pelo fato da torre 7, do World Trade Center, a WCT7, não constar do documento, embora tivesse caído como um castelo de cartas no fim da tarde do 11 de setembro, e o mais estranho, sem ter sido tocada pelos aviões.
Esse esquecimento da WTC7 não foi só do inquérito, muitas pessoas acham terem sido só duas, as Torres Gêmeas, as que foram ao chão. Se já era estranho as gêmeas terem desmoronado, mais estranho é o fato de um prédio de 43 andares ruir, sem ter sido incendiado e sem ter sido atingido por aviões.
Hugo Bachman, professor de material numa universidade de Zurique acredita que, a maneira pela qual caíram de maneira imediata todos os andares dos prédios, só tem uma explicação – a queda dos prédios foi controlada por explosivos, como se costuma fazer, e se vê na televisão, com os prédios antigos implodidos.
Além disso, o professor de economia Marc Chesney, da Universidade de Zurique, revela ter havido um jogo na bolsa de valores, um dia antes dos atentados, envolvendo as ações das companhias United Airlines e American Airlines, cujos aviões foram sequestrados, e que representaram milhões ou bilhões de dólares, coisa nunca investigada.
Parece também terem sido informados, a tempo, tanto o governo como a CIA, sobre a preparação dos atentados, por que, então, não foram inteceptados os terroristas antes de colocarem em prática o aprendido nas escolas de pilotagem ?
Resta a pergunta, no caso desses indícios provarem ter havido ajuda aos terroristas para completar seus atentados, sobre quem teria tomado essas iniciativas. Se o objetivo era provocar guerras, uma coisa ficou provada – a intervenção no Afganistão e a guerra contra o Iraque beneficiaram amplamente as indústrias de armamentos, porém tiveram efeito boomerangue.
Os EUA de hoje com crise econômica e dólares em baixa acabaram sendo também vítimas da guerra contra o Eixo do Mal, decretada por Bush, pelas enormes despesas representadas. Serão necessários ainda alguns anos para se saber com certeza se houve um complô paralelo no 11 de setembro de 2001, cujo objetivo era criar condições junto à população dos EUA para guerras contra os islamitas, transformados em representantes do Mal, e poder se apossar do petróleo do Iraque.
(De um emeio recebido)

Venezuela

Venezuela: um país mudando o eixo


Escrito por Alexandre Haubrich, de Caracas, para o Correio da Cidadania
Sexta, 26 de Agosto de 2011


Em um pequeno mercado de um bairro na região oeste da cidade, não se pode comprar duas caixas de leite. Uma caixa por pessoa é o limite determinado pela senhora que atende atrás do balcão gradeado. O motivo comentado pelas ruas: mais um boicote das distribuidoras de alimento ao tabelamento dos preços da cesta básica. O racionamento informal não é novidade na Venezuela. O enfrentamento entre o governo do presidente Hugo Chávez e setores do empresariado ligados à oposição é intermitente, e perpassa toda a sociedade venezuelana nas grandes e nas pequenas ações.

Os boicotes da oposição são uma realidade na Venezuela. Havia o boicote ao processo eleitoral, que terminou no ano passado com a participação nas eleições de deputados. Mas seguem se repetindo casos de boicote alimentar. O sufocamento e a queda de popularidade do presidente são os objetivos. A resposta do governo vem na forma de incentivos morais – e institucionais – às tomadas de fábricas pelos trabalhadores e à criação de cooperativas que produzam e distribuam alimentos. Nas estações de metrô que ligam uma ponta da cidade à outra, painéis destacam o aumento de produtividade nas indústrias ocupadas pelos trabalhadores e mostram operários felizes com seu trabalho. Todos os painéis, como muitas outras coisas em Caracas, carregam um slogan como uma marca do sucesso da revolução: “Hecho en socialismo”.


A Praça Bolívar cheia para comemorar o aniversário do presidente

Caracas está profundamente dividida. Não há meio termo: ou se está com o processo revolucionário ou se está contra ele. Em cada um desses grandes grupos existem variações de comprometimento e ideário, mas ninguém está indiferente às mudanças ocorridas na Venezuela desde que o Comandante Hugo Chávez venceu sua primeira eleição, em 1998. Na verdade, o processo já iniciara antes, com o Caracazo de 1989 – uma rebelião popular contra o governo de Carlos Andrés Pérez – e a tentativa de Chávez de tomar o poder pelas armas em 1992. Mas o avanço institucional da revolução bolivariana teve como impulso a chegada do Comandante à presidência e a divisão política que tomou conta do país a partir daí.

Na capital, o chavismo se espraia pela região central e pelo oeste da cidade. A leste, redutos de anti-chavismo, de defesa do neoliberalismo e até de certa indiferença política. Porém, sempre com o ódio por Chávez à flor da pele. Não é desgosto, não é indiferença. As elites venezuelanas nutrem verdadeiro ódio pelo líder idolatrado pelo povo. Povo este que não deixa por menos, e devolve o ódio das elites com ódio às elites. E com ainda mais respeito por Chávez.

O aniversário do presidente, comemorado no dia 28 de julho, foi momento de grande comoção popular em Caracas. Em frente ao Palácio Miraflores, a sede do governo federal, milhares de pessoas se aglomeraram para ouvir Chávez falar. Na Praça Bolívar, centro político da cidade, outras milhares participaram das comemorações cantando, dançando e ouvindo poesias e discursos. Pessoas de todas as idades, vestidas com as cores da Venezuela ou com o vermelho revolucionário. Nem a chuva e o calor que se alternaram durante todo o dia fizeram o povo se recolher. O gigante que esse povo tem vencido dia-a-dia é muito maior do que o clima instável.


Painel no metrô comemora controle operário em fábrica ocupada

Foram espalhados pela Praça Bolívar alguns painéis para que fossem deixados recados de aniversário ao presidente. Mas o povo segue sua própria ordem, sua própria lógica, e os desejos de saúde e muitos anos de vida se direcionaram menos ao aniversário de Chávez do que à doença que o líder enfrenta. Sobre o câncer muito se fala e pouco se diz efetivamente. A oposição já oscilou entre acusar Chávez de inventar a doença e defender a idéia de que ele não terá condições de saúde para seguir no poder. O governo, por sua vez, divulgou que Chávez estava saudável quando já sabia da doença. Nenhuma informação sobre o assunto é confiável, de lado a lado. Nenhuma informação sobre qualquer assunto repassada pela oposição é confiável.

O discurso anti-chavista ganha forte eco nos meios de comunicação privados. Globovisión e Venevisión lideram os ataques desde que a concessão da RCTV venceu e não foi renovada, em 2007. Não há a falsa neutralidade que caracteriza parte da mídia brasileira. A mídia privada venezuelana é abertamente contra o governo, assim como a mídia estatal é abertamente a favor. Há ainda um crescimento importante da chamada “mídia alternativa, comunitária e independente”. Em dez anos, o número de rádios comunitárias saltou de zero para quatrocentas, e o número de emissoras de TV comunitárias foi de zero para cinqüenta. O governo apóia esses veículos, que por sua vez apóiam o governo – mas de forma extremamente crítica. O apoio é ao “processo”, não necessariamente a Chávez.

A mídia comunitária é construída pelo povo, mas a participação popular não se esgota aí. Os Conselhos Comunais são um mecanismo importante de inclusão das comunidades no processo decisório e o interesse é efetivo. Há dificuldades, há uma burocracia corrupta no meio do caminho entre o poder popular e o governo, mas as pontes vão sendo construídas – e derrubadas – na dinâmica do processo.


Che e Lênin nos muros de Caracas

Parte importante dessa dinâmica são as diversas organizações sociais espalhadas pela Venezuela, incluindo um grande número de coletivos operando em Caracas. Tais coletivos levam variadas oficinas às comunidades, de forma que possuem papel importante na formação política dos venezuelanos. São oficinas culturais, que vão desde a operação de rádios comunitárias até o hip hop e o circo, sempre de forma politizada e politizante, sempre com um fundo político fundamental. Os coletivos são, de modo geral, independentes do governo, mas muitos trabalham ombro a ombro com a parte institucional da revolução. Os muros grafitados estão por toda Caracas lembrando à população sua própria história e a luta atual, com referências a Bolívar, Sucre, Miranda, Che Guevara, Fidel Castro e Hugo Chávez.

Com as oficinas, a mídia alternativa e os muros, a política está por todos os lados. A polarização não deixa espaço para meios termos ou para a indiferença. Às vezes Chávez segue o povo, às vezes o povo segue Chávez. Liderança e liderados, lideranças e liderado, difícil determinar até que ponto as ordens vêm de baixo, até que ponto vêm de cima. Fato é que, nos últimos anos, a Venezuela se reinventou. Nas praças, discute-se o rumo do país, o petróleo e a revolução. “Há dez anos éramos todos ignorantes” é uma frase que se ouve facilmente, sempre complementada com o olhar sonhador da mudança em processo: “hoje sabemos quem somos e pra onde queremos ir”.


Alexandre Haubrich é jornalista e editor do Jornalismo B.

Última atualização em Quarta, 31 de Agosto de 2011
(Correio da Cidadania)

Líbia

Sete pontos acerca da Líbia


Escrito por Domenico Losurdo
Quarta, 31 de Agosto de 2011

Doravante mesmo os cegos podem ver e compreender o que está acontecendo na Líbia:
1) O que se passa é uma guerra promovida e desencadeada pela OTAN. Esta verdade acaba por se revelar até mesmo nos órgãos de "informação" burgueses. No La Stampa de 25 de agosto, Lucia Annunziata escreve: é uma guerra "inteiramente externa, ou seja, feita pelas forças da OTAN"; foi "o sistema ocidental que promoveu a guerra contra Kadafi". Uma peça do International Herald Tribune de 24 de agosto mostra-nos "rebeldes" que se regozijam, mas eles estão comodamente instalados num avião que traz o emblema da OTAN.

2) Trata-se de uma guerra preparada desde há muito tempo. O Sunday Mirror de 20 de março revelou que "três semanas" antes da resolução da ONU já estavam em ação na Líbia "centenas" de soldados britânicos, enquadrados num dos corpos militares mais refinados e mais temidos do mundo (SAS). Revelações ou admissões análogas podem ser lidas no International Herald Tribune de 31 de março, a propósito da presença de "pequenos grupos da CIA" e de uma "ampla força ocidental a atuar na sombra", sempre "antes do desencadeamento das hostilidades a 19 de março".

3) Esta guerra nada tem a ver com a proteção dos direitos humanos. No artigo já citado, Lucia Annunziata observa com angústia: "A OTAN que alcançou a vitória não é a mesma entidade que lançou a guerra". Nesse intervalo de tempo, o Ocidente enfraqueceu-se gravemente com a crise econômica; conseguirá ele manter o controle de um continente que, cada vez mais freqüentemente, percebe o apelo das "nações não ocidentais" e em particular da China? Igualmente, este mesmo diário que apresenta o artigo de Annunziata, La Stampa, em 26 de agosto publica uma manchete em toda a largura da página: "Nova Líbia, desafio Itália-França". Para aqueles que ainda não tivessem compreendido de que tipo de desafio se trata, o editorial de Paolo Paroni (Duelo finalmente de negócios) esclarece: depois do início da operação bélica, caracterizada pelo frenético ativismo de Sarkozy, "compreendeu-se subitamente que a guerra contra o coronel ia transformar-se num conflito de outro tipo: guerra econômica, com um novo adversário: a Itália, obviamente".

4) Desejada por motivos abjetos, a guerra é conduzida de modo criminoso. Limito-me apenas a alguns pormenores tomados de um diário acima de qualquer suspeita. O International Herald Tribune de 26 de agosto, num artigo de K. Fahim e R. Gladstone, relata: "Num acampamento no centro de Trípoli foram encontrados os corpos crivados de balas de mais de 30 combatentes pró-Kadafi. Pelo menos dois deles estavam atados com algemas de plástico e isto permite pensar que sofreram uma execução. Dentre estes mortos, cinco foram encontrados num hospital de campo; um estava numa ambulância, estendido numa maca e amarrado por um cinturão e tendo ainda uma transfusão intravenosa no braço".

5) Bárbara como todas as guerras coloniais, a guerra atual contra a Líbia demonstra como o imperialismo se torna cada vez mais bárbaro. No passado, foram inumeráveis as tentativas da CIA de assassinar Fidel Castro, mas estas tentativas eram efetuadas em segredo, com um sentimento de que, se não é por vergonha, é pelo menos de se temer possíveis reações da opinião pública internacional. Hoje, em contrapartida, assassinar Kadafi ou outros chefes de Estado não apreciados no Ocidente é um direito abertamente proclamado. O Corriere della Sera de 26 de agosto de 2011 titula triunfalmente: "Caça a Kadafi e seus filhos, casa por casa". Enquanto escrevo, os Tornado britânicos, aproveitando também a colaboração e informações fornecidas pela França, são utilizados para bombardear Sirte e exterminar toda a família de Kadafi.

6) Não menos bárbara que a guerra foi a campanha de desinformação. Sem o menor sentimento de pudor, a OTAN martelou sistematicamente a mentira segundo a qual suas operações guerreiras não visavam senão a proteção dos civis! E a imprensa, a "livre" imprensa ocidental? Ela, em certo momento, publicou com ostentação a "notícia" segundo a qual Kadafi enchia seus soldados de viagra de modo a que eles pudessem mais facilmente cometer violações em massa. Como esta "notícia" caiu rapidamente no ridículo, surge então uma outra "nova", segundo a qual os soldados líbios atiram sobre as crianças. Nenhuma prova é fornecida, não se encontra nenhuma referência a datas e lugares determinados, nenhuma referência a esta ou aquela fonte: o importante é criminalizar o inimigo a liquidar.

7) Mussolini no seu tempo apresentava a agressão fascista contra a Etiópia como uma campanha para libertar este país da chaga da escravidão; hoje a OTAN apresenta a sua agressão contra a Líbia como uma campanha para a difusão da democracia. No seu tempo, Mussolini não cessava de trovejar contra o imperador etíope Hailé Sélassié chamando-o "Negus dos negreiros"; hoje a OTAN exprime seu desprezo por Kadafi chamando-o "ditador". Assim como a natureza belicista do imperialismo não muda, também as suas técnicas de manipulação revelam elementos significativos de continuidade.
Para esclarecer quem hoje realmente exerce a ditadura em nível planetário, ao invés de citar Marx ou Lênin, quero citar Emmanuel Kant. Num texto de 1798 (O conflito das faculdades), ele escreve: "O que é um monarca absoluto? Aquele que, quando comanda: 'a guerra deve fazer-se', a guerra seguia-se efetivamente". Argumentando deste modo, Kant tomava como alvo em particular a Inglaterra do seu tempo, sem se deixar enganar pelo modelo "liberal" daquele país. É uma lição da qual devemos tirar proveito: os "monarcas absolutos" da nossa época, os tiranos e ditadores planetários da nossa época, têm assento em Washington, em Bruxelas e nas mais importantes capitais ocidentais.

Domenico Losurdo é filósofo e diretor do instituto de Filosofia e Pedagogia da Universidade de Urbino, Itália.

(Correio da Cidadania)