Havia alternativa? Chomsky revisita o 11 de Setembro
A resposta ao 11 de Setembro, um ataque maciço a uma população muçulmana, conduziu os Estados Unidos à 'armadilha diabólica' estendida por Bin Laden. O resultado foi que Washington continuou a ser o único aliado indispensável de Bin Laden, mesmo após a sua morte. Gastos militares grotescamente aumentados e dependência da dívida... pode ser o mais pernicioso legado do homem que pensou que poderia derrotar os Estados Unidos. O artigo é de Noam Chomsky.
Noam Chomsky
Estamos a aproximar-nos do 10º aniversário das horrendas atrocidades do 11 de setembro de 2001, que, como se diz habitualmente, mudaram o mundo. No dia 1° de Maio deste ano, o presumível mentor do crime, Osama Bin Laden, foi assassinado no Paquistão por um comando militar de elite dos EUA, os SEALs da Marinha, depois de ter sido capturado, desarmado e indefeso, na Operação Geronimo.
Uma série de analistas observaram que Bin Laden, apesar de ter sido finalmente morto, obteve importantes sucessos na sua guerra contra os EUA. “Ele afirmou muitas vezes que a única maneira de expulsar os EUA do mundo muçulmano e derrotar os seus sátrapas era atrair os americanos para uma série de pequenas mas caras guerras, que acabariam por arruiná-los”, escreve Eric Margolis. “'Sangrar os EUA', nas suas próprias palavras.
Os Estados Unidos, primeiro sob George W. Bush e depois sob Barack Obama, correram diretamente para a armadilha de Bin Laden... Gastos militares grotescamente aumentados e dependência da dívida... pode ser o mais pernicioso legado do homem que pensou que poderia derrotar os Estados Unidos” – particularmente quando a dívida está a ser cinicamente explorada pela extrema-direita, com a conivência do establishment democrata, para minar o que resta de programas sociais, de educação pública, de sindicatos, e, em geral, das restantes barreiras à tirania empresarial.
Logo se tornou evidente que Washington estava inclinado a realizar os mais fervorosos desejos de Bin Laden. Como discuti no meu livro “9-11”, escrito pouco depois da ocorrência dos ataques, qualquer um que conhecesse a região poderia reconhecer “que um ataque maciço a uma população muçulmana era a resposta às orações de Bin Laden e dos seus seguidores, e conduziria os Estados Unidos e os seus aliados a uma 'armadilha diabólica', nas palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros francês”.
O analista sênior da CIA responsável por perseguir Osama Bin Laden desde 1996, Michael Scheuer, escreveu pouco depois que “Bin Laden tem dito com precisão as razões que o levaram a desencadear a guerra contra nós. [Ele] pretende mudar de forma drástica as políticas dos EUA e do Ocidente em relação ao mundo islâmico”, e com um amplo sucesso: “As forças e as políticas dos EUA estão a provocar a radicalização do mundo islâmico, algo que Osama Bin Laden vem tentando fazer com sucesso substancial, mas incompleto, desde o início dos anos 90. O resultado, parece-me justo concluir, é que os Estados Unidos da América continuam a ser o único aliado indispensável de Bin Laden.” E possivelmente continuam a sê-lo, mesmo após a sua morte.
O primeiro 11/9
Havia uma alternativa? Há todas as probabilidades de que o movimento jihadista, muito do qual altamente crítico a Bin Laden, pudesse ter sido dividido e minado após o 11/9. O “crime contra a humanidade”, como era correctamente chamado, poderia ter sido abordado como um crime, com uma operação internacional para deter os presumíveis suspeitos. Na época esta ideia foi reconhecida, mas a sua execução sequer foi considerada.
Em “9-11”, citei a conclusão de Robert Fisk de que “o crime horrendo” de 11/9 foi cometido “com maldade e crueldade impressionante,” um juízo exato. É útil ter em mente que os crimes poderiam ter sido ainda piores. Suponham, por exemplo, que o ataque tivesse ido tão longe ao ponto de bombardear a Casa Branca, matando o presidente, de impor uma ditadura militar brutal que matasse milhares e torturasse dezenas de milhares, instalando ao mesmo tempo um centro de terror internacional que ajudasse a impor estados similares de tortura-e-terror noutros países, e executando uma campanha internacional de assassinato; e como um incentivo suplementar, tivesse trazido uma equipa de economistas – chamemos-lhes de “os Kandahar boys” – que rapidamente conduzissem a economia a uma das piores depressões da sua história. Claramente, teria sido muito pior do que o 11/9.
Infelizmente, nada disto é especulação. Aconteceu. A única inexatidão neste breve relato é que os números devem ser multiplicados por 25 para produzir equivalentes per capita, a medida apropriada. Refiro-me, naturalmente, àquilo que na América Latina é frequentemente chamado de “o primeiro 11/9”: o 11 de Setembro de 1973, quando os Estados Unidos culminaram com sucesso os seus esforços para derrubar o governo democrático de Salvador Allende, no Chile, com um golpe militar que levou ao poder o regime brutal do general Pinochet. O objetivo, nas palavras da administração Nixon, era matar o “vírus” que poderia estimular todos esses “estrangeiros [que] andam a querer tramar-nos” e que queriam assumir o controle dos seus próprios recursos e aplicar uma política intolerável de desenvolvimento independente. A apoiar esta política estava a conclusão do Conselho de Segurança Nacional que, se os EUA não conseguiam controlar a América Latina, não se podia esperar que conseguissem realizar a sua Ordem “em qualquer outro lugar no mundo.”
O primeiro 11/9, ao contrário do segundo, não mudou o mundo. Não era “nada de grandes consequências”, como garantiu Henry Kissinger ao seu chefe poucos dias depois.
Estes eventos de poucas consequências não se limitaram ao golpe militar que destruiu a democracia chilena e pôs em movimento a história de horror que se seguiu. O primeiro 11/9 foi apenas um ato de um drama que começou em 1962, quando John F. Kennedy alterou a missão dos militares latino-americanos de “defesa hemisférica” – um resquício anacrônico da Segunda Guerra Mundial – para a “segurança interna”, um conceito com uma interpretação arrepiante nos círculos latino-americanos dominados pelos EUA.
Na “História da Guerra Fria”, recentemente publicada pela Universidade de Cambridge, o acadêmico latino-americano John Coatsworth escreve que daquele tempo até “ao colapso soviético em 1990, o número de presos políticos, de vítimas de tortura, e de execuções de dissidentes políticos não violentos na América Latina excedeu amplamente os da União Soviética e seus satélites europeus do Leste,” incluindo também muitos mártires religiosos e massacres em massa, sempre apoiados ou iniciado em Washington. O último grande ato violento foi o assassinato brutal de seis importantes intelectuais latino-americanos, sacerdotes jesuítas, poucos dias depois da queda do Muro de Berlim. Os criminosos foram um batalhão de elite salvadorenho, que já tinha deixado um chocante rasto de sangue, recém saído de um treinamento na Escola de Guerra Especial JFK, que actua sob as ordens diretas do Alto Comando do estado cliente dos Estados Unidos.
Evidentemente, as consequências desta praga hemisférica ainda ecoam.
Dos raptos à tortura e ao assassinato
Tudo isto, e muitas coisas semelhantes, são desvalorizadas como sendo de pouca importância, e esquecidas. Aqueles cuja missão é governar o mundo desfrutam de uma imagem mais reconfortante, muito bem articulada na atual edição do prestigiado (e valioso) jornal do Royal Institute of International Affairs, em Londres. O artigo principal discute “a ordem internacional visionária” da “segunda metade do século XX” marcada pela “universalização de uma visão americana da prosperidade comercial”. Eis uma visão que não chega a exprimir a percepção daqueles que estão do lado errado das armas.
O mesmo vale para o assassinato de Osama Bin Laden, que põe fim, pelo menos, a uma fase da “guerra contra o terror” re-declarada pelo presidente George W. Bush no segundo 11/9. Façamos algumas reflexões sobre esse evento e o seu significado.
Em 1° maio de 2011, Osama Bin Laden foi morto na sua praticamente desprotegida residência por uma incursão de 79 SEALs da Marinha, que entraram no Paquistão de helicóptero. Depois de muitas histórias sensacionalistas fornecidas pelo governo e retiradas, os relatórios oficiais tornaram cada vez mais claro que a operação foi um assassinato planejado, violando multiplamente as normas elementares do direito internacional, começando com a invasão em si.
Não parece ter havido qualquer tentativa de deter a vítima desarmada, como presumivelmente poderia ter sido feito por 79 comandos que não enfrentaram oposição – excepto, relatam, da sua esposa, também desarmada, contra a qual dispararam em legítima defesa, quando ela “arremeteu” sobre eles, de acordo com a Casa Branca.
A reconstrução plausível dos acontecimentos foi feita pelo veterano correspondente no Oriente Médio, Yochi Dreazen, e colegas na revista Atlantic. Dreazen, ex-correspondente militar do Wall Street Journal, é correspondente sênior do Grupo National Journal, cobrindo assuntos militares e de segurança nacional. De acordo com a sua investigação, o planeamento da Casa Branca não parece ter considerado a opção de capturar Bin Laden vivo: “O governo deixou claro ao clandestino Comando Conjunto de Operações Especiais que queria Bin Laden morto, de acordo com uma autoridade sênior dos EUA que teve conhecimento das discussões. Um oficial de alta patente militar que foi informado do assalto disse que os SEALs sabiam que a sua missão não era levá-lo vivo.”
Os autores acrescentam: “Para muitos, no Pentágono e na CIA, que tinham passado quase uma década a caçar Bin Laden, matar o militante foi um ato necessário e justificado de vingança”. Além disso, “a captura de Bin Laden vivo teria também posto a administração diante de uma série de incômodos desafios jurídicos e políticos”. Melhor, então, assassiná-lo, deitar o corpo ao mar sem a autópsia considerada essencial depois de uma morte – um ato que previsivelmente provocou raiva e ceticismo em grande parte do mundo muçulmano.
Como observa a investigação da Atlantic: “A decisão de matar Bin Laden sem rodeios foi a ilustração mais clara até agora de um aspecto pouco notado da política de contra-terrorismo da administração Obama. O governo Bush capturou milhares de militantes suspeitos e enviou-os para campos de detenção no Afeganistão, no Iraque e na Baía de Guantánamo. A administração Obama, em contraste, tem-se concentrado em eliminar terroristas individuais em vez de tentar capurá-los vivos.” Trata-se de uma diferença significativa entre Bush e Obama. Os autores citam o ex-chanceler da Alemanha Ocidental Helmut Schmidt, que “disse à TV alemã que a invasão dos EUA foi 'muito claramente uma violação do direito internacional' e que Bin Laden deveria ter sido detido e levado a julgamento”, contrapondo Schmidt ao Procurador Geral dos EUA, Eric Holder, que “defendeu a decisão de matar Bin Laden, embora este não representasse uma ameaça imediata para os SEALs, dizendo a um painel da Câmara ... que o assalto tinha sido 'legal, legítimo e adequado em todos os sentidos'”.
A eliminação do corpo sem autópsia também foi criticada por aliados. O eminente advogado britânico Geoffrey Robertson, que apoiou a intervenção e se opôs à execução em grande parte por razões pragmáticas, considerou no entanto a afirmação de Obama de que “fora feita justiça” como um “absurdo”, o que deveria ser óbvio para um ex-professor de direito constitucional. A lei do Paquistão “exige um inquérito sobre a morte violenta e a legislação internacional de direitos humanos insiste que o 'direito à vida' obriga a um inquérito sempre que ocorre uma morte violenta por acção de um governo ou da polícia. Os EUA têm, portanto, o dever de realizar um inquérito que satisfaça o mundo quanto às verdadeiras circunstâncias desta morte.”
Robertson, a propósito, recorda-nos que “nem sempre foi assim. Quando chegou a hora de decidir o destino de homens muito mais mergulhados na maldade que Osama Bin Laden – a liderança nazi – o governo britânico queria que eles fossem enforcados seis horas após a captura. O presidente Truman hesitou, citando a conclusão de Robert Jackson, do Supremo Tribunal, que a execução sumária “não se sentaria facilmente na consciência americana nem seria lembrada pelos nossos filhos com orgulho... o único caminho é determinar a inocência ou culpa do acusado depois de uma audiência tão desapaixonada quanto os tempos permitam e após um registo que vai deixar claros as nossas razões e motivos”.
Eric Margolis comenta que “Washington nunca publicou provas da sua afirmação de que Osama bin Laden esteve por trás dos ataques do 11 de Setembro”, presumivelmente uma razão pela qual “as sondagens mostram que pelo menos um terço dos americanos que responderam acredita que o governo de Estados Unidos e/ou Israel estiveram por trás do 11 de Setembro”, enquanto no mundo muçulmano o ceticismo é muito mais alto. “Um julgamento aberto nos Estados Unidos ou em Haia teria exposto essas afirmações à luz do dia”, continua, razão prática pela qual Washington deveria ter seguido a lei.
Em sociedades que professam algum respeito pela lei, os suspeitos são detidos e levados a um julgamento justo. Sublinho "suspeitos". Em junho de 2002, o chefe do FBI Robert Mueller, no que o Washington Post descreveu como “entre os seus comentários públicos mais detalhados sobre a origem dos ataques”, pôde dizer apenas que “os investigadores crêem na ideia de que os ataques do 11 de Setembro ao World Trade Center e ao Pentágono vieram de líderes da Al Qaeda no Afeganistão, a maquinação efectiva foi feita na Alemanha, e o financiamento veio através dos Emirados Árabes Unidos a partir de fontes no Afeganistão.”
O que o FBI acreditou e pensou em junho de 2002 não o sabia oito meses antes, quando Washington repeliu ofertas provisórias dos Taliban (quão sérias, não sabemos) para permitir um novo julgamento de Bin Laden se lhes fossem apresentadas provas. Assim, não é verdade, como o presidente Obama afirmou nas suas declarações da Casa Branca depois da morte de Bin Laden, que “rapidamente soubemos que os ataques do 11 de Setembro foram executados pela Al-Qaeda.”
Nunca houve alguma razão para duvidar do que o FBI acreditou em meados de 2002, mas isto deixa-nos longe da prova da culpa requerida em sociedades civilizadas – e quaisquer que as provas fossem, não justificam o assassinato de um suspeito que, parece, teria sido facilmente detido e levado a julgamento. O mesmo é mais ou menos verdade quanto às provas fornecidas desde então. Assim, a Comissão do 11 de Setembro forneceu provas circunstanciais extensas do papel de Bin Laden no 11 de Setembro, baseando-se principalmente no que lhe tinha sido dito sobre confissões de presos de Guantánamo. É duvidoso que muito disso se sustivesse num julgamento independente, tendo em conta as maneiras como as confissões foram extraídas. Mas, em qualquer caso, as conclusões de uma investigação autorizada pelo Congresso, por muito convincentes que se possam achar, claramente ficariam aquém de uma sentença por um tribunal credível, que é o que passa a categoria do acusado de suspeito para condenado.
Fala-se muito da "confissão" de Bin Laden, mas aquilo foi uma fanfarronice, não uma confissão, com tanta credibilidade quanto a minha "confissão" de que ganhei a maratona de Boston. A fanfarronice diz-nos muito do seu caráter, mas nada da sua responsabilidade pelo que ele considerou como um grande feito, do qual quis ficar com o crédito.
De novo, tudo isso é, de forma transparente, bastante independente do nosso juízo sobre a sua responsabilidade, que pareceu clara imediatamente, mesmo antes do inquérito do FBI, e que ainda parece.
Crimes de Agressão
Vale a pena acrescentar que a responsabilidade de Bin Laden foi reconhecida na maior parte do mundo muçulmano e condenada. Um exemplo significativo é o do eminente clérigo libanês, xeique Fadlallah, muito respeitado em geral pelo Hezbollah e por grupos xiitas, também fora do Líbano. Ele tinha alguma experiência com assassinatos. Tinha sido visado para assassínio: por um caminhão-bomba fora duma mesquita, numa operação organizada pela CIA em 1985. Escapou, mas 80 outros foram mortos, na maior parte mulheres e meninas ao saírem da mesquita – um daqueles crimes inumeráveis que não entram para os anais do terror por causa da falácia “da agência errada.” O xeique Fadlallah condenou marcadamente os ataques do 11 de Setembro.
Um dos especialistas principais do movimento jihadista, Fawaz Gerges, sugere que o movimento poderia ter-se dividido, tivessem os Estados Unidos explorado a oportunidade, em vez de mobilizar o movimento, em particular com o ataque ao Iraque, um grande benefício para Bin Laden, que levou a um aumento acentuado do terror, como as agências de espionagem tinham antecipado. Nas audições Chilcot, ao investigar o contexto da invasão do Iraque, por exemplo, o antigo chefe da agência de informações internas britânica MI5 declarou que tanto a agência britânica como a dos Estados Unidos estavam conscientes de que Saddam não representava qualquer ameaça séria, que a invasão provavelmente aumentaria o terror e que as invasões do Iraque e do Afeganistão tiveram partes de uma geração radicalizada de muçulmanos que viram as acções militares como “um ataque ao Islão”. Como acontece muitas vezes, a segurança não foi uma prioridade alta para a acção do estado.
Poderia ser instrutivo perguntarmo-nos como estaríamos reagindo se comandos iraquianos tivessem aterrado no complexo militar de George W. Bush, o assassinassem e lançassem o corpo no Atlântico (depois dos rituais fúnebres devidos, naturalmente). Sem sombra de controvérsia, ele não era um "suspeito" mas sim o "decisor" que deu as ordens para invadir o Iraque – isto é, cometer “o crime internacional supremo que só se diferencia de outros crimes de guerra por conter dentro de si a maldade acumulada da totalidade” pelo qual os criminosos nazis foram enforcados: as centenas de milhares de mortes, os milhões de refugiados, a destruição da maior parte do país e do seu patrimônio nacional e o conflito sectário assassino que agora se estendeu ao resto da região. Igualmente de forma incontroversa, esses crimes excederam vastamente tudo o atribuído a Bin Laden.
Dizer que tudo isso é incontroverso, conforme é, não quer dizer que não seja negado. A existência de aplanadores da Terra não muda o fato de que, de forma incontroversa, a terra não é plana. De forma semelhante, é incontroverso que Stalin e Hitler foram responsáveis por crimes horrendos, embora os seus partidários o neguem. Tudo isto deveria, de novo, ser demasiado óbvio para ser comentado, e sê-lo-ia, excepto numa atmosfera de histeria tão extrema que bloqueasse o pensamento racional.
De forma semelhante, é incontroverso que Bush e seus parceiros cometeram mesmo o “crime internacional supremo” – o crime da agressão. Aquele crime foi definido de forma suficientemente clara pelo magistrado Robert Jackson, o Chefe do Conselho dos Estados Unidos em Nuremberga. "Um agressor", propôs Jackson ao Tribunal na sua declaração de abertura, é um estado que é o primeiro a cometer tais ações como a “invasão pelas suas forças armadas, com ou sem declaração da guerra, do território de outro estado”. Ninguém, nem mesmo o apoiante mais extremo da agressão, nega que Bush e parceiros fizeram precisamente isso.
Também faríamos bem em lembrar as palavras eloquentes de Jackson em Nuremberga sobre o princípio da universalidade: “Se certos atos na violação de tratados são crimes, são crimes sejam os Estados Unidos ou seja a Alemanha fazê-los e não estamos preparados para estabelecer uma regra da conduta criminal contra outros que não estivéssemos dispostos a ter invocado contra nós”.
É também claro que intenções anunciadas são irrelevantes, mesmo se nelas se acreditar verdadeiramente. Registos internos revelam que os fascistas japoneses aparentemente acreditaram que, ao assolar a China, se esforçavam por a converter “num paraíso terrestre”. E embora possa ser difícil imaginar, é concebível que Bush e companhia acreditassem que protegiam o mundo da destruição pelas armas nucleares de Saddam. Tudo irrelevante, embora partidários ardentes em todos os lados possam tentar convencer-se de outra coisa.
Deixam-nos duas escolhas: ou Bush e seus parceiros são culpados do “crime internacional supremo” incluindo de todos os males que se seguem, ou então declaramos que os processos de Nuremberga foram uma farsa e que os aliados eram culpados de assassinato judicial.
A Mentalidade Imperial e o 11 de Setembro
Alguns dias antes do assassinato de Bin Laden, Orlando Bosch morreu pacificamente na Flórida, onde viveu juntamente com o seu cúmplice Luis Posada Carriles e muitos outros parceiros do terrorismo internacional. Depois de ter sido acusado de dúzias de crimes terroristas pelo FBI, Bosch recebeu um perdão presidencial de Bush I, passando por cima das objecções do Departamento de Justiça que considerou a conclusão “inevitável de que seria prejudicial para o interesse público dos Estados Unidos fornecer um porto seguro a Bosch”. A coincidência dessas mortes imediatamente traz a doutrina de Bush II à lembrança – “já … uma regra de facto das relações internacionais”, segundo o notável especialista de relações internacional de Harvard Graham Allison – que renega “a soberania de estados que fornecem santuário a terroristas”.
Allison refere-se à declaração oficial de Bush II, dirigida aos Taliban, de que “aqueles que abrigam terroristas são tão culpados como os próprios terroristas”. Tais estados, portanto, perderam a sua soberania e são objectivos prontos para bombardeamento e terror – por exemplo, o estado que abrigou Bosch e o seu parceiro. Quando Bush emitiu esta nova “ regra de fato das relações internacionais,” ninguém pareceu notar que ele apelava à invasão e destruição dos Estados Unidos e ao assassínio dos seus presidentes criminosos.
Nada disto é problemático, claro, se rejeitarmos o princípio da universalidade do magistrado Jackson, e adotarmos antes o princípio de que os Estados Unidos são auto-imunes contra o direito internacional e as convenções – como, de fato, o governo tornou frequentemente muito claro.
Vale a pena também pensar no nome dado à operação de Bin Laden: Gerônimo. A mentalidade imperial é tão profunda que poucos parecem capazes de perceber que a Casa Branca está a glorificar Bin Laden chamando-lhe “Gerônimo” - o chefe índio apache que conduziu a resistência corajosa aos invasores das terras Apache.
A escolha descuidada do nome lembra a tranquilidade com que damos nomes às nossas armas de assassinato a partir das vítimas dos nossos crimes: Apache, Blackhawk [1]… Poderíamos reagir diferentemente se a Luftwaffe tivesse chamado aos seus aviões de combate "Judeu" e "Cigano".
Os exemplos mencionados caem dentro da categoria “excepcionalismo americano,” não fosse o facto de uma supressão fácil dos crimes próprios ser virtualmente ubíqua entre estados poderosos, pelo menos naqueles que não são derrotados e obrigados a reconhecer a realidade.
Talvez o assassinato tenha sido percebido pela administração como “um ato de vingança,” como Robertson conclui. E talvez a rejeição da opção legal de um julgamento reflicta uma diferença entre a cultura moral de 1945 e a de hoje, como ele sugere. Qualquer que fosse o motivo, dificilmente podia ter sido apenas a segurança. Como no caso de “crime internacional supremo” no Iraque, o assassinato de Bin Laden é outra ilustração do fato importante de que a segurança é muitas vezes não uma alta prioridade da ação do estado, ao contrário da doutrina que recebemos.
(*) Noam Chomsky é Professor emérito do Instituto no Departamento de Linguística e Filosofia do MIT. É autor de numerosas obras políticas de topo de vendas, incluindo “9-11: Was There an Alternative?” (Seven Stories Press), uma versão atualizada do seu relato clássico, que acaba de ser publicada esta semana juntamente com um novo ensaio destacado – a partir do qual este post foi adaptado – levando em conta os 10 anos desde os ataques do 11 de Setembro.
(**) Tradução de Luis Leiria e Paula Sequeiros para o Esquerda.net
A partir de texto publicado em Tom Dispatch
[1] NT: Blackhawk, líder guerreiro dos nativos Norte-Americanos Sauk que demonstrou ser um poderoso opositor dos invasores colonizadores ingleses
(Carta Maior)
domingo, 31 de março de 2013
Dilminha
Renato Rabelo: A popularidade de Dilma e o desespero da direita
“Significado simbólico e que desagrada a oposição.” Foi como resumiu Renato Rabelo, durante reflexão no programa Palavra do Presidente, ao falar sobre a contínua aprovação do governo da presidenta Dilma Rousseff, publicada nesta terça-feira (19) pela Confederação Nacional da Indústria.
Joanne Mota, da Rádio Vermelho em São Paulo
Ele comemorou os resultados e destacou que essa pesquisa só demonstra o que pensa a população em relação ao modo de governar deste grupo, que iniciou uma nova forma de governar em 2003, quando elegemos, pela primeira vez na história, um metalúrgico, um representante dos trabalhadores.
“Dilma estava neste grupo e começou seu trabalho, pelo Brasil, já no governo Lula e com sua vitória, em 2010, deu não só continuidade como aprofundou muitas questões”, defendeu.
Ouça também:
Renato: 10 anos de mudança: Sim, temos muito que comemorar
Além disso, a correlação de forças, que está na base desse governo, e a popularidade da presidenta tem desagradado, em muito, o bloco de oposição que se une em uma ampla campanha contra as medidas do governo e se arvora com um único objetivo: desgastar a imagem de Dilma, frear as mudanças conquistadas pelos setores progressistas, enfraquecer o base do governo e assim atingir a governabilidade.
Veja também:
Pesquisa CNI: No nordeste Dilma tem avaliação positiva de 72%
O presidente do PCdoB esclareceu que esse grupo que está aí, e que há 10 anos reformula o modo de governar, não herdou nada. Ao contrário, buscou ouvir a população e construir o melhor caminho para um novo Brasil.
“O resultado positivo é fruto de uma política que, no nosso entendimento, age de maneira progressiva ao atender as reivindicações nacionais e do povo. A contínua aprovação da presidenta não é fruto do acaso, é resultado de um trabalho comprometido, que sempre pensou a partir das necessidades o povo, da nação. Observe os resultados da pesquisa, por exemplo, no Nordeste, povo que, historicamente, foi deixado de lado, que sofreu com formas de governo arcaicas”, explicou.
Renato cita, como exemplo, duas questões que atingem o povo de maneira geral e refletem na avaliação da presidente: a valorização do salário mínimo, instituída ainda no governo Lula; e o cenário próximo do pleno emprego. “Somente esses dois pontos são suficientes para explicar a aprovação da presidenta, porque, historicamente, nunca se chegou a estes patamares. E se você garante o emprego e sua valorização, você garante consumo, que garante economia aquecida e crescimento do mercado interno. Mesmo lembrando que o crescimento e as taxas de investimento ainda não estejam em patamares satisfatórios”, equacionou Renato.
Tripé nocivo
Sobre a discussão em relação à política macroeconômica, o dirigente comunista salientou que esse ainda é o nosso maior desafio. Segundo ele, a presidenta tem adotado medidas que redirecionam esse cenário.
“Dilma rompe a ortodoxia das gestões anteriores, que se baseava nos juros altos – cenário que estimula a especulação e drena os recursos que poderiam ir para a produção –, câmbio sobrevalorizado – real mais caro que o dólar, o que inviabiliza nossas exportações –, e a questão da austeridade fiscal – ou seja, superávit primário muito elevado para garantir o pagamento dos juros”, rememora Renato.
Sem investimento não haverá desenvolvimento
Renato Rabelo também falou da luta travada pelo PCdoB e reafirmou: “Não haverá desenvolvimento sem investimento. E para que haja investimento, é preciso que tenhamos juros baixos e um câmbio favorável. Esse raciocínio é fundamental para que para incentivar o investimento e colocar o país em um novo patamar”.
Para o dirigente comunista, o câmbio é um ponto-chave para avançar no desenvolvimento, “reconhecemos os esforços, mas é preciso ir mais além”. “De fato falamos de um governo que tem enfrentado a crise financeira, fabricada pelo imperialismo, com prudência e sem perder de vista o avanço do país. Porém, os setores organizados estão atentos e prontos para ajudar a presidenta a construir um cenário para uma nova arrancada.”
(vermelho.org)
“Significado simbólico e que desagrada a oposição.” Foi como resumiu Renato Rabelo, durante reflexão no programa Palavra do Presidente, ao falar sobre a contínua aprovação do governo da presidenta Dilma Rousseff, publicada nesta terça-feira (19) pela Confederação Nacional da Indústria.
Joanne Mota, da Rádio Vermelho em São Paulo
Ele comemorou os resultados e destacou que essa pesquisa só demonstra o que pensa a população em relação ao modo de governar deste grupo, que iniciou uma nova forma de governar em 2003, quando elegemos, pela primeira vez na história, um metalúrgico, um representante dos trabalhadores.
“Dilma estava neste grupo e começou seu trabalho, pelo Brasil, já no governo Lula e com sua vitória, em 2010, deu não só continuidade como aprofundou muitas questões”, defendeu.
Ouça também:
Renato: 10 anos de mudança: Sim, temos muito que comemorar
Além disso, a correlação de forças, que está na base desse governo, e a popularidade da presidenta tem desagradado, em muito, o bloco de oposição que se une em uma ampla campanha contra as medidas do governo e se arvora com um único objetivo: desgastar a imagem de Dilma, frear as mudanças conquistadas pelos setores progressistas, enfraquecer o base do governo e assim atingir a governabilidade.
Veja também:
Pesquisa CNI: No nordeste Dilma tem avaliação positiva de 72%
O presidente do PCdoB esclareceu que esse grupo que está aí, e que há 10 anos reformula o modo de governar, não herdou nada. Ao contrário, buscou ouvir a população e construir o melhor caminho para um novo Brasil.
“O resultado positivo é fruto de uma política que, no nosso entendimento, age de maneira progressiva ao atender as reivindicações nacionais e do povo. A contínua aprovação da presidenta não é fruto do acaso, é resultado de um trabalho comprometido, que sempre pensou a partir das necessidades o povo, da nação. Observe os resultados da pesquisa, por exemplo, no Nordeste, povo que, historicamente, foi deixado de lado, que sofreu com formas de governo arcaicas”, explicou.
Renato cita, como exemplo, duas questões que atingem o povo de maneira geral e refletem na avaliação da presidente: a valorização do salário mínimo, instituída ainda no governo Lula; e o cenário próximo do pleno emprego. “Somente esses dois pontos são suficientes para explicar a aprovação da presidenta, porque, historicamente, nunca se chegou a estes patamares. E se você garante o emprego e sua valorização, você garante consumo, que garante economia aquecida e crescimento do mercado interno. Mesmo lembrando que o crescimento e as taxas de investimento ainda não estejam em patamares satisfatórios”, equacionou Renato.
Tripé nocivo
Sobre a discussão em relação à política macroeconômica, o dirigente comunista salientou que esse ainda é o nosso maior desafio. Segundo ele, a presidenta tem adotado medidas que redirecionam esse cenário.
“Dilma rompe a ortodoxia das gestões anteriores, que se baseava nos juros altos – cenário que estimula a especulação e drena os recursos que poderiam ir para a produção –, câmbio sobrevalorizado – real mais caro que o dólar, o que inviabiliza nossas exportações –, e a questão da austeridade fiscal – ou seja, superávit primário muito elevado para garantir o pagamento dos juros”, rememora Renato.
Sem investimento não haverá desenvolvimento
Renato Rabelo também falou da luta travada pelo PCdoB e reafirmou: “Não haverá desenvolvimento sem investimento. E para que haja investimento, é preciso que tenhamos juros baixos e um câmbio favorável. Esse raciocínio é fundamental para que para incentivar o investimento e colocar o país em um novo patamar”.
Para o dirigente comunista, o câmbio é um ponto-chave para avançar no desenvolvimento, “reconhecemos os esforços, mas é preciso ir mais além”. “De fato falamos de um governo que tem enfrentado a crise financeira, fabricada pelo imperialismo, com prudência e sem perder de vista o avanço do país. Porém, os setores organizados estão atentos e prontos para ajudar a presidenta a construir um cenário para uma nova arrancada.”
(vermelho.org)
Papa
“Habemus papam”: Francisco Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto
Sexta, 15 de Março de 2013
O papa Francisco – nome adotado pelo cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio –, ao ser eleito novo chefe da Igreja Católica, terá pela frente difíceis desafios. O maior deles, imprimir colegialidade ao governo da Igreja e reformar a Cúria Romana.
Para mexer nesse ninho de cobras, terá de remover presidentes de congregações (que, no Vaticano, equivalem a ministérios) e nomear para dirigi-las prelados que, hoje, vivem fora de Roma e são, portanto, virtualmente imunes à influência da “famiglia curiale”, a que, de fato, exerce o poder na Igreja.
Para modificar a estrutura monárquica da Igreja, Francisco terá de repensar o estatuto das nunciaturas, valorizar as conferências episcopais e o sínodo dos bispos e, quem sabe, criar novas instituições, como um colégio de leigos capaz de representar a Igreja como Povo de Deus, e não como sociedade clericalizada pretensamente perfeita.
Não será surpresa se, em breve, o novo papa promover o seu primeiro consistório, elevando ao cardinalato bispos e arcebispos dos cinco continentes (e talvez até padres e leigos, os chamados “cardeais in pectore”, que não são de conhecimento público).
Tal iniciativa deverá incluir o atual arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta. Paira certa incongruência no fato de a arquidiocese carioca não ter, há anos, cardeal titular, como há em São Paulo. Sobretudo considerando que o Rio acolherá, em julho próximo, a Jornada Mundial da Juventude, à qual o novo pontífice estará presente.
A imagem da Igreja Católica está manchada, hoje, por escândalos sexuais e falcatruas financeiras. Não se espere do novo papa atitudes ousadas enquanto Bento XVI lhe fizer sombra na área do Vaticano. Mas seria uma irresponsabilidade o papa Francisco não abrir, no interior da Igreja, o debate sobre a moral sexual.
Nesse tema, são muitas as questões a serem aprofundadas, a começar pela seleção dos candidatos ao sacerdócio. Já há uma instrução de Roma aos bispos para que não sejam aceitos jovens notoriamente afeminados – o que me parece uma discriminação incompatível com os valores evangélicos. Equivale a impedir o ingresso na carreira sacerdotal de candidatos heterossexuais dotados de uma masculinidade digna de Don Juan.
O problema não é questão de aparência, e sim de vocação. Se a Igreja pretende ampliar o número de padres terá que, necessariamente, retomar o padrão dos seus primeiros séculos e distinguir vocação ao sacerdócio de vocação ao celibato.
Aqueles que se sentem em condições de se abster de vida sexual (já que apenas aos anjos é dado prescindir da sexualidade) devem abraçar a via monástica, religiosa, ainda que alguns se tornem sacerdotes para o serviço comunitário. Já ao clero diocesano seria facultado escolher a vida matrimonial, como ocorre hoje nas Igrejas ortodoxa e anglicana, e com os pastores de Igrejas protestantes.
O caminho mais curto e mais sábio seria o papa admitir a reinserção de padres casados no ministério sacerdotal. Eles são milhares. No mundo, calcula-se cerca de 100 mil; no Brasil, 5 mil. Muitos gostariam de voltar ao serviço pastoral com direito a administrar sacramentos e celebrar missa.
A medida mais inovadora seria permitir o acesso de mulheres ao sacerdócio. Não há precedente na história da Igreja, exceto em países socialistas, onde, clandestinos, bispos despreparados ordenaram mulheres cujo sacerdócio, ao vir a lume, não foi reconhecido por Roma.
Nos evangelhos há mulheres notoriamente apóstolas, embora não figurem na lista canônica dos doze apóstolos. Em Lucas 8, 1, constam os nomes de mulheres pertencentes à comunidade apostólica de Jesus: Maria Madalena, Joana, Susana “e várias outras”.
A samaritana (João 4) foi apóstola, no sentido rigoroso do termo – a primeira pessoa a anunciar Jesus como o Messias. E Maria Madalena, a primeira testemunha da ressurreição de Jesus.
Facultar às mulheres o acesso ao sacerdócio implica modificar um dos pontos mais anacrônicos da ortodoxia católica, que ainda hoje considera a mulher ontologicamente inferior ao homem. É a famosa pergunta em aula de teologia: pode o escravo se tornar padre? Sim, desde que liberto, pois como homem goza da plenitude humana. Já a mulher, ser inferior ao homem, está excluída desse direito, pois não goza da plenitude humana.
Outros desafios se apresentam ao novo papa, como o diálogo inter-religioso. Nos últimos pontificados Roma deu passos significativos para melhorar as relações do catolicismo com o judaísmo, levando o papa a visitar o Muro das Lamentações, em Jerusalém, e isentando os judeus da pecha de assassinos de Jesus.
No entanto, retrocedeu quanto à relação com os muçulmanos. Em sua visita à Universidade de Regensburg, na Alemanha, em 2006, Bento XVI cometeu a infelicidade de citar uma história do século XIV em que o imperador bizantino pede a um persa que lhe mostre "o que Maomé trouxe de novo, e você só encontrará coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar pela espada a fé que pregava". Embora a intenção do papa fosse condenar o uso da violência pela religião – no qual a Igreja da Inquisição foi mestra –, a comunidade islâmica, com razão, se sentiu ofendida.
Ao visitar os EUA, em 2008, Bento XVI esteve numa sinagoga de Nova York, sem, no entanto, dirigir-se a uma mesquita, o que teria demonstrado sua imparcialidade e abertura à diversidade religiosa, além de combater o preconceito estadunidense de que muçulmano rima com terrorista.
Há que aprofundar o diálogo com as religiões do Oriente, como o budismo e as tradições espirituais da Índia. E buscar melhor aproximação com os cultos animistas da África e os ritos indígenas da América Latina.
É chegada a hora de a Igreja Católica admitir a pertinência das razões que provocaram sua ruptura com as Igrejas Ortodoxas e a de Lutero com Roma. E, num gesto ecumênico, buscar a unidade na diversidade, de modo a testemunharem uma única Igreja de Cristo.
Convém reconhecer, como propõe o Concílio Vaticano II, que as sementes do Evangelho vigoram também em denominações religiosas não cristãs, ou seja, fora da Igreja Católica há sim salvação.
O papa Francisco terá que optar entre os três dons do Espírito Santo oferecidos aos discípulos de Jesus: sacerdote, doutor ou profeta. A ser um sacerdote como João Paulo II, teremos uma Igreja voltada a seus próprios interesses como instituição clerical, com leigos tratados como ovelhas subservientes e desconfiança frente aos desafios da pós-modernidade.
A ser um doutor como Bento XVI, o novo pontífice reforçará uma Igreja mais mestra do que mãe, na qual a preservação da doutrina tradicional importará mais do que encarnar a Igreja nos novos tempos em que vivemos, incapaz de ser, como São Paulo, “grego com os gregos e judeu com os judeus”.
Assumindo seu múnus profético, como João XXIII, o papa Francisco se empenhará numa profunda reforma da Igreja, para que nela transpareça a palavra e o testemunho de Jesus, no qual Deus se fez um de nós.
“Habemus papam!”. Já sabemos quem: Francisco. É a primeira vez na história que um papa adota o nome daquele que sonhou que a Igreja desabava e cabia a ele reconstruí-la. O tempo dirá a que veio.
Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.
Website: http://www.freibetto.org/
Twitter:@freibetto.
Copyright 2013 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal(0)terra.com.br)
Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.
Escrito por Frei Betto
Sexta, 15 de Março de 2013
O papa Francisco – nome adotado pelo cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio –, ao ser eleito novo chefe da Igreja Católica, terá pela frente difíceis desafios. O maior deles, imprimir colegialidade ao governo da Igreja e reformar a Cúria Romana.
Para mexer nesse ninho de cobras, terá de remover presidentes de congregações (que, no Vaticano, equivalem a ministérios) e nomear para dirigi-las prelados que, hoje, vivem fora de Roma e são, portanto, virtualmente imunes à influência da “famiglia curiale”, a que, de fato, exerce o poder na Igreja.
Para modificar a estrutura monárquica da Igreja, Francisco terá de repensar o estatuto das nunciaturas, valorizar as conferências episcopais e o sínodo dos bispos e, quem sabe, criar novas instituições, como um colégio de leigos capaz de representar a Igreja como Povo de Deus, e não como sociedade clericalizada pretensamente perfeita.
Não será surpresa se, em breve, o novo papa promover o seu primeiro consistório, elevando ao cardinalato bispos e arcebispos dos cinco continentes (e talvez até padres e leigos, os chamados “cardeais in pectore”, que não são de conhecimento público).
Tal iniciativa deverá incluir o atual arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta. Paira certa incongruência no fato de a arquidiocese carioca não ter, há anos, cardeal titular, como há em São Paulo. Sobretudo considerando que o Rio acolherá, em julho próximo, a Jornada Mundial da Juventude, à qual o novo pontífice estará presente.
A imagem da Igreja Católica está manchada, hoje, por escândalos sexuais e falcatruas financeiras. Não se espere do novo papa atitudes ousadas enquanto Bento XVI lhe fizer sombra na área do Vaticano. Mas seria uma irresponsabilidade o papa Francisco não abrir, no interior da Igreja, o debate sobre a moral sexual.
Nesse tema, são muitas as questões a serem aprofundadas, a começar pela seleção dos candidatos ao sacerdócio. Já há uma instrução de Roma aos bispos para que não sejam aceitos jovens notoriamente afeminados – o que me parece uma discriminação incompatível com os valores evangélicos. Equivale a impedir o ingresso na carreira sacerdotal de candidatos heterossexuais dotados de uma masculinidade digna de Don Juan.
O problema não é questão de aparência, e sim de vocação. Se a Igreja pretende ampliar o número de padres terá que, necessariamente, retomar o padrão dos seus primeiros séculos e distinguir vocação ao sacerdócio de vocação ao celibato.
Aqueles que se sentem em condições de se abster de vida sexual (já que apenas aos anjos é dado prescindir da sexualidade) devem abraçar a via monástica, religiosa, ainda que alguns se tornem sacerdotes para o serviço comunitário. Já ao clero diocesano seria facultado escolher a vida matrimonial, como ocorre hoje nas Igrejas ortodoxa e anglicana, e com os pastores de Igrejas protestantes.
O caminho mais curto e mais sábio seria o papa admitir a reinserção de padres casados no ministério sacerdotal. Eles são milhares. No mundo, calcula-se cerca de 100 mil; no Brasil, 5 mil. Muitos gostariam de voltar ao serviço pastoral com direito a administrar sacramentos e celebrar missa.
A medida mais inovadora seria permitir o acesso de mulheres ao sacerdócio. Não há precedente na história da Igreja, exceto em países socialistas, onde, clandestinos, bispos despreparados ordenaram mulheres cujo sacerdócio, ao vir a lume, não foi reconhecido por Roma.
Nos evangelhos há mulheres notoriamente apóstolas, embora não figurem na lista canônica dos doze apóstolos. Em Lucas 8, 1, constam os nomes de mulheres pertencentes à comunidade apostólica de Jesus: Maria Madalena, Joana, Susana “e várias outras”.
A samaritana (João 4) foi apóstola, no sentido rigoroso do termo – a primeira pessoa a anunciar Jesus como o Messias. E Maria Madalena, a primeira testemunha da ressurreição de Jesus.
Facultar às mulheres o acesso ao sacerdócio implica modificar um dos pontos mais anacrônicos da ortodoxia católica, que ainda hoje considera a mulher ontologicamente inferior ao homem. É a famosa pergunta em aula de teologia: pode o escravo se tornar padre? Sim, desde que liberto, pois como homem goza da plenitude humana. Já a mulher, ser inferior ao homem, está excluída desse direito, pois não goza da plenitude humana.
Outros desafios se apresentam ao novo papa, como o diálogo inter-religioso. Nos últimos pontificados Roma deu passos significativos para melhorar as relações do catolicismo com o judaísmo, levando o papa a visitar o Muro das Lamentações, em Jerusalém, e isentando os judeus da pecha de assassinos de Jesus.
No entanto, retrocedeu quanto à relação com os muçulmanos. Em sua visita à Universidade de Regensburg, na Alemanha, em 2006, Bento XVI cometeu a infelicidade de citar uma história do século XIV em que o imperador bizantino pede a um persa que lhe mostre "o que Maomé trouxe de novo, e você só encontrará coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar pela espada a fé que pregava". Embora a intenção do papa fosse condenar o uso da violência pela religião – no qual a Igreja da Inquisição foi mestra –, a comunidade islâmica, com razão, se sentiu ofendida.
Ao visitar os EUA, em 2008, Bento XVI esteve numa sinagoga de Nova York, sem, no entanto, dirigir-se a uma mesquita, o que teria demonstrado sua imparcialidade e abertura à diversidade religiosa, além de combater o preconceito estadunidense de que muçulmano rima com terrorista.
Há que aprofundar o diálogo com as religiões do Oriente, como o budismo e as tradições espirituais da Índia. E buscar melhor aproximação com os cultos animistas da África e os ritos indígenas da América Latina.
É chegada a hora de a Igreja Católica admitir a pertinência das razões que provocaram sua ruptura com as Igrejas Ortodoxas e a de Lutero com Roma. E, num gesto ecumênico, buscar a unidade na diversidade, de modo a testemunharem uma única Igreja de Cristo.
Convém reconhecer, como propõe o Concílio Vaticano II, que as sementes do Evangelho vigoram também em denominações religiosas não cristãs, ou seja, fora da Igreja Católica há sim salvação.
O papa Francisco terá que optar entre os três dons do Espírito Santo oferecidos aos discípulos de Jesus: sacerdote, doutor ou profeta. A ser um sacerdote como João Paulo II, teremos uma Igreja voltada a seus próprios interesses como instituição clerical, com leigos tratados como ovelhas subservientes e desconfiança frente aos desafios da pós-modernidade.
A ser um doutor como Bento XVI, o novo pontífice reforçará uma Igreja mais mestra do que mãe, na qual a preservação da doutrina tradicional importará mais do que encarnar a Igreja nos novos tempos em que vivemos, incapaz de ser, como São Paulo, “grego com os gregos e judeu com os judeus”.
Assumindo seu múnus profético, como João XXIII, o papa Francisco se empenhará numa profunda reforma da Igreja, para que nela transpareça a palavra e o testemunho de Jesus, no qual Deus se fez um de nós.
“Habemus papam!”. Já sabemos quem: Francisco. É a primeira vez na história que um papa adota o nome daquele que sonhou que a Igreja desabava e cabia a ele reconstruí-la. O tempo dirá a que veio.
Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.
Website: http://www.freibetto.org/
Twitter:@freibetto.
Copyright 2013 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal(0)terra.com.br)
Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.
Israel
Pepe Escobar: “Homens de verdade iriam a Teerã”
21/3/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
“Real liars go to Tehran”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Pepe Escobar
Tio Marx nunca supôs que acontecesse: a história repetindo-se e repetindo-se sempre como tragédia, depois de, na primeira vez, já ter sido grande tragédia.
Examinemos o caso. Antes, deem uma olhada nessa coluna assinada publicada pelo Wall Street Journal em setembro de 2002, no auge da histeria em torno da invasão do Iraque.
Os EUA invadem o Iraque
Título: “Da necessidade de derrubar Saddam”. Autor: Benjamin "Bibi" Netanyahu – então fora do governo de Israel.
Está tudo ali: “um ditador que rapidamente amplia seu arsenal de armas químicas e biológicas” e o qual “tenta febrilmente construir a própria bomba atômica”; equivalente a Saddam, só Hitler; Israel (potência nuclear, de facto e conhecida) pintada como vítima indefesa do “terror” palestino; a “revelação” de que Saddam poderia produzir combustível nuclear em “centrífugas do tamanho de máquinas de lavar roupa que podem ser escondidas no interior do país – e o Iraque é país extenso”; a cantoria monocórdia sobre ataque unilateral preventivo; e a conclusão de sempre: “não nos satisfaremos com nada menos que o desmonte total do governo de Saddam”.
A popularidade de Netanyahu sobe quanto mais Israel assassina palestinos
Faça avançar a fita para essa semana, mais de 10 anos depois daquela coluna de Bibi, no WSJ. Cenário: conferência de imprensa, o Primeiro-Ministro de Israel Bibi Netanyahu e o Presidente dos EUA, Barack Obama, que o visita. Todos que assistiram ao vivo pela rede al-Jazeera, do Oriente Médio ao leste da Ásia, devem ter suposto que assistiam à versão geopolítica de De volta ao futuro – e, francamente, Michael J Fox pelo menos, tinha charme.
Ali, nenhum charme; mais parecia versão em terno e gravata de A volta dos mortos vivos. Bibi e Obama não sabiam o que mais fizessem para repetir e repetir que o laço entre EUA e Israel é “eterno”. Na verdade, Bibi estava mais interessado em repetir e repetir que as armas nucleares iranianas (que não existem) são ameaça existencial contra Israel. E repetiu, e repetiu e repetiu que Obama dissera e repetira e repetira e repetira que Israel tem direito de fazer qualquer coisa para defender-se, e que a segurança de Israel não é responsabilidade de mais ninguém, nem de Washington.
Obama, por sua vez, repetiu mais uma vez que a política oficial de Washington para o Irã não é política de contenção – mas, sim, impedir que o Irã obtenha a bomba atômica. Destacou que a “janela de oportunidade” está cada vez mais estreita; e, claro: todas as opções estão sobre a mesa.
A ideia de que o Presidente dos EUA [President Of The US, POTUS) deliberadamente ignora laudos e relatórios de uma longa lista de suas próprias agências de inteligência sobre o Irã levanta(ria) suspeitas em qualquer mundo racional. Mas aqui não se cogita de mundo racional: é uma espécie de reality show do submundo.
O sonho erótico molhado dos colonos israelenses
Os poderes no poder em Israel – e não importa quantos neguem pela imprensa-empresa norte-americana infestada de neoconservadores – foram determinantes para construir toda a operação-mentiras que levou à guerra do Iraque. Ariel Sharon naquele momento rugia que a coordenação estratégica entre Israel e os EUA havia alcançado “dimensões sem precedentes”.
Assentamentos de Israel exclusivos para judeus em terras roubadas dos palestinos
Bibi não passava de uma engrenagem naquela máquina – como Jim Lobe explica – citando as pérolas de sabedoria que Bibi distribuiu a um muito mal informado Congresso dos EUA, em 2002.
Todos os “funcionários de Israel” e suspeitos de sempre naquele momento repetiam ininterruptamente que Saddam estaria a poucos meses de ter sua bomba atômica. O núcleo de toda a “inteligência” sobre as tais armas de destruição em massa que havia (mas não havia) no Iraque, que foi apresentada ao Congresso e aplicadamente papagueada pela imprensa-empresa, foi implantada, se não integralmente inventada, pela inteligência israelense – tema dissecado, dentre outros, por Shlomo Brom em “An Intelligence Failure” [Um fracasso da inteligência], estudo publicado pelo Jaffee Center for Strategic Studies da Universidade de Telavive, em novembro de 2003.
Claro que não fez qualquer diferença que os inspetores da ONU não tenham encontrado nenhuma prova do tal programa de construção de bombas atômicas no Iraque. Claro que não fez qualquer diferença que o genro de Saddam, Hussein Kamel, que desertou e fugiu para a Jordânia em 1995, tenha explicado em detalhes aos inspetores da ONU que desde 1991 não havia nenhuma arma de destruição em massa no Iraque.
Hoje, aí está, tudo outra vez, a segunda tragédia e a segunda farsa. Até os nepalenses que constroem aquelas torres de purpurina fulgurante em Dubai sabem que a histeria de “bombardeiem o Irã” é tática-golpe de Telavive para desviar a atenção mundial do incansável assalto/roubo de terras palestinas/limpeza étnica que segue em câmera lenta na Palestina e, consequentemente, a total impossibilidade real de chegar-se a alguma solução de dois estados.
Jonathan Cook detalha sucintamente a configuração política francamente apavorante depois das recentes eleições em Israel. O site israelense Ynet noticiou que os colonos israelenses não se cansam de saudar o novo sonho erótico molhado que veem realizado no novo Gabinete. Tradução: já se pregou o último prego no caixão do “processo paz”, morto e enterrado.
Eis pois uma moderna parábola geopolítica que intrigaria até Esopo. Bibi insulta publicamente o presidente dos EUA. Bibi apoiou aberta e desavergonhadamente o candidato Mitt (quem?!) Romney nas eleições presidenciais dos EUA. Atacou o “processo de paz” com fogo cerrado de “fatos” Hellfire “em campo” (e vastos “danos colaterais” palestinos). Só faz repetir e repetir uma única e sempre a mesma mensagem: Bombardeie, bombardeie, bombardeie, bombardeie o Irã. E é quando o presidente dos EUA, em teoria sua excelência Oh, Obama, que tem licença para matar (em listas), mas age, de fato, como turista acidental, aterriza em Israel com a licença para matar escondida entre as pernas, para maior glória de Bibi.
Não surpreende que a sórdida massa de norte-americanos neoconservadores / ”Israel antes dos EUA” / “Bombardeie o Irã” esteja em festa. Há mais de dez anos, o mantra dessa gente era “homens de verdade vão para Teerã”. A questão hoje é quando (ou se!) o Presidente dos EUA arranjará par operante de colhões para obrigar aquela gente a baixar o facho.
(Redecastor)
21/3/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
“Real liars go to Tehran”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Pepe Escobar
Tio Marx nunca supôs que acontecesse: a história repetindo-se e repetindo-se sempre como tragédia, depois de, na primeira vez, já ter sido grande tragédia.
Examinemos o caso. Antes, deem uma olhada nessa coluna assinada publicada pelo Wall Street Journal em setembro de 2002, no auge da histeria em torno da invasão do Iraque.
Os EUA invadem o Iraque
Título: “Da necessidade de derrubar Saddam”. Autor: Benjamin "Bibi" Netanyahu – então fora do governo de Israel.
Está tudo ali: “um ditador que rapidamente amplia seu arsenal de armas químicas e biológicas” e o qual “tenta febrilmente construir a própria bomba atômica”; equivalente a Saddam, só Hitler; Israel (potência nuclear, de facto e conhecida) pintada como vítima indefesa do “terror” palestino; a “revelação” de que Saddam poderia produzir combustível nuclear em “centrífugas do tamanho de máquinas de lavar roupa que podem ser escondidas no interior do país – e o Iraque é país extenso”; a cantoria monocórdia sobre ataque unilateral preventivo; e a conclusão de sempre: “não nos satisfaremos com nada menos que o desmonte total do governo de Saddam”.
A popularidade de Netanyahu sobe quanto mais Israel assassina palestinos
Faça avançar a fita para essa semana, mais de 10 anos depois daquela coluna de Bibi, no WSJ. Cenário: conferência de imprensa, o Primeiro-Ministro de Israel Bibi Netanyahu e o Presidente dos EUA, Barack Obama, que o visita. Todos que assistiram ao vivo pela rede al-Jazeera, do Oriente Médio ao leste da Ásia, devem ter suposto que assistiam à versão geopolítica de De volta ao futuro – e, francamente, Michael J Fox pelo menos, tinha charme.
Ali, nenhum charme; mais parecia versão em terno e gravata de A volta dos mortos vivos. Bibi e Obama não sabiam o que mais fizessem para repetir e repetir que o laço entre EUA e Israel é “eterno”. Na verdade, Bibi estava mais interessado em repetir e repetir que as armas nucleares iranianas (que não existem) são ameaça existencial contra Israel. E repetiu, e repetiu e repetiu que Obama dissera e repetira e repetira e repetira que Israel tem direito de fazer qualquer coisa para defender-se, e que a segurança de Israel não é responsabilidade de mais ninguém, nem de Washington.
Obama, por sua vez, repetiu mais uma vez que a política oficial de Washington para o Irã não é política de contenção – mas, sim, impedir que o Irã obtenha a bomba atômica. Destacou que a “janela de oportunidade” está cada vez mais estreita; e, claro: todas as opções estão sobre a mesa.
A ideia de que o Presidente dos EUA [President Of The US, POTUS) deliberadamente ignora laudos e relatórios de uma longa lista de suas próprias agências de inteligência sobre o Irã levanta(ria) suspeitas em qualquer mundo racional. Mas aqui não se cogita de mundo racional: é uma espécie de reality show do submundo.
O sonho erótico molhado dos colonos israelenses
Os poderes no poder em Israel – e não importa quantos neguem pela imprensa-empresa norte-americana infestada de neoconservadores – foram determinantes para construir toda a operação-mentiras que levou à guerra do Iraque. Ariel Sharon naquele momento rugia que a coordenação estratégica entre Israel e os EUA havia alcançado “dimensões sem precedentes”.
Assentamentos de Israel exclusivos para judeus em terras roubadas dos palestinos
Bibi não passava de uma engrenagem naquela máquina – como Jim Lobe explica – citando as pérolas de sabedoria que Bibi distribuiu a um muito mal informado Congresso dos EUA, em 2002.
Todos os “funcionários de Israel” e suspeitos de sempre naquele momento repetiam ininterruptamente que Saddam estaria a poucos meses de ter sua bomba atômica. O núcleo de toda a “inteligência” sobre as tais armas de destruição em massa que havia (mas não havia) no Iraque, que foi apresentada ao Congresso e aplicadamente papagueada pela imprensa-empresa, foi implantada, se não integralmente inventada, pela inteligência israelense – tema dissecado, dentre outros, por Shlomo Brom em “An Intelligence Failure” [Um fracasso da inteligência], estudo publicado pelo Jaffee Center for Strategic Studies da Universidade de Telavive, em novembro de 2003.
Claro que não fez qualquer diferença que os inspetores da ONU não tenham encontrado nenhuma prova do tal programa de construção de bombas atômicas no Iraque. Claro que não fez qualquer diferença que o genro de Saddam, Hussein Kamel, que desertou e fugiu para a Jordânia em 1995, tenha explicado em detalhes aos inspetores da ONU que desde 1991 não havia nenhuma arma de destruição em massa no Iraque.
Hoje, aí está, tudo outra vez, a segunda tragédia e a segunda farsa. Até os nepalenses que constroem aquelas torres de purpurina fulgurante em Dubai sabem que a histeria de “bombardeiem o Irã” é tática-golpe de Telavive para desviar a atenção mundial do incansável assalto/roubo de terras palestinas/limpeza étnica que segue em câmera lenta na Palestina e, consequentemente, a total impossibilidade real de chegar-se a alguma solução de dois estados.
Jonathan Cook detalha sucintamente a configuração política francamente apavorante depois das recentes eleições em Israel. O site israelense Ynet noticiou que os colonos israelenses não se cansam de saudar o novo sonho erótico molhado que veem realizado no novo Gabinete. Tradução: já se pregou o último prego no caixão do “processo paz”, morto e enterrado.
Eis pois uma moderna parábola geopolítica que intrigaria até Esopo. Bibi insulta publicamente o presidente dos EUA. Bibi apoiou aberta e desavergonhadamente o candidato Mitt (quem?!) Romney nas eleições presidenciais dos EUA. Atacou o “processo de paz” com fogo cerrado de “fatos” Hellfire “em campo” (e vastos “danos colaterais” palestinos). Só faz repetir e repetir uma única e sempre a mesma mensagem: Bombardeie, bombardeie, bombardeie, bombardeie o Irã. E é quando o presidente dos EUA, em teoria sua excelência Oh, Obama, que tem licença para matar (em listas), mas age, de fato, como turista acidental, aterriza em Israel com a licença para matar escondida entre as pernas, para maior glória de Bibi.
Não surpreende que a sórdida massa de norte-americanos neoconservadores / ”Israel antes dos EUA” / “Bombardeie o Irã” esteja em festa. Há mais de dez anos, o mantra dessa gente era “homens de verdade vão para Teerã”. A questão hoje é quando (ou se!) o Presidente dos EUA arranjará par operante de colhões para obrigar aquela gente a baixar o facho.
(Redecastor)
sexta-feira, 29 de março de 2013
Woodstock
BAÚ DO CELSÃO: ÉRAMOS CRIANÇAS, BRINCANDO NO PARAÍSO
Um dos acontecimentos mais emblemáticos e alentadores do século passado, o Festival de Música e Artes de Woodstock só é lembrado pela grande imprensa nas efemérides.
E mesmo quando isto acontece, de 10 em 10 anos, os enfoques da indústria cultural oscilam entre o nostálgico e o pitoresco, como inimiga que foi e é dos ideais que se corporificaram nesse magnífico evento.
Indo na contramão, como sempre, costumo destacar a vitalidade de Woodstock e os caminhos que ainda nos aponta, hoje e agora, para a construção de um mundo melhor.
Para começar, uma constatação óbvia: Woodstock foi uma moeda que caiu em pé. Os deuses de todos os povos e de todos os tempos parecem ter-se mobilizado para que tudo desse certo durante três dias mágicos, maravilhosos, que seriam para sempre lembrados como uma amostra da perfeição possível neste sofrido planeta.
Sem favor nenhum, posso afirmar que Woodstock foi o evento musical que mais influenciou as artes e os costumes na história da humanidade. E a conjunção de fatores que o transformou em marco e lenda dificilmente se repetirá.
Mas, não precisamos acreditar piamente na esnobada de Gilberto Gil: "quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou". Apenas, levar em conta o que houve de específico nesse festival. Outros sonhos virão, com certeza. A História não tem fim, queiram ou não os Fukuyamas agourentos.
"SOME FLOWERS IN YOUR HAIR"
Para começar, o Festival de Woodstock foi o ponto de chegada e a culminância de vários fenômenos e acontecimentos marcantes.
A escalada norte-americana no Vietnã, ao longo da década de 60, engendrara um movimento pacifista de crescente influência entre os jovens dos EUA, com direito a manifestações de protesto, queimas de cartas de recrutamento, choques com a polícia e a uma manifestação-monstro de cerco ao Pentágono
.Em 1965, um estudante de química chamado Owsley Stanley aprendeu como fabricar ácido lisérgico no porão de sua casa e logo inundou San Francisco com o LSD, impulsionando o surgimento da geração das flores, imortalizada pela bela canção de Scott McKenzie: “Se você vier para San Francisco,/ não se esqueça de colocar/ algumas flores no seu cabelo...”
Foi aí que o movimento hippie nasceu, aglutinando jovens que recusavam o american way of life e caíam na estrada, em busca de aventuras e novas experiências.
Em termos mais profundos, pode-se lembrar que era a fase em que a crescente mecanização da indústria mais e mais dispensava o uso da força física, demolindo algumas vigas-mestras da sociedade norte-americana, toda ela construída em cima do ascetismo puritano (a negação do prazer a fim de poupar energias para o trabalho). Na década de 60, o prazer reconquistava suas prerrogativas.
Grandes festivais de rock já haviam ocorrido em Monterey (1967) e na Ilha de Wight. Este último vinha se realizando desde 1968, embora o mais marcante e lembrado seja o de 1970, quando se deu uma das últimas apresentações de Jimi Hendrix.
Quanto a públicos expressivos, também não eram novidade: o festival inglês já reunira 250 mil pessoas.
Mas, foi no de Woodstock que a indústria cultural investiu pesado, pela primeira vez. É que, com algum atraso, os mercadores das artes se deram conta de que tinham um diamante bruto ao alcance das mãos. Prepararam-se, então, para explorar em grande estilo o evento seguinte.
Por último, vale notar que ainda se vivia a época dos compactos, em que eram singles e não elepês que corriam o mundo, com a repercussão dependendo, principalmente, da divulgação nas rádios.
Pouco se conhecia da segunda onda do rock (a primeira, nos anos 50, fora a dos pioneiros Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard, Bill Haley, etc.).
Muitos garotos, como eu, amavam os Beatles e os Rolling Stones. De resto, haviam escutado. “The House of Rising Sun” (Animals), “Sunny” (Johnny Rivers), “A Wither Shade of Pale” (Procol Harum) e quase nada mais.
Existia uma produção musical de grande qualidade represada, não atingindo circuitos mais amplos. Seria a irrupção dessa nova geração de importantes artistas ainda relativamente desconhecidos que asseguraria a surpresa e o enorme impacto causados pelo filme Woodstock e pelo álbum triplo com registros desse evento.
BRINCANDO NA CHUVA
Foram três dias de “paz, música e amor”, de 15 a 17 de agosto de 1969, levando 450 mil jovens até a fazenda do leiteiro Max Yasgur, a 80 quilômetros de Woodstock, estado de Nova York.
Logo no primeiro dia o festival foi declarado livre: quem não tinha comprado antecipadamente o ingresso, não precisou mais fazê-lo. Com isto, os promotores tiveram US$ 100 mil de prejuízo inicial, mas acabaram saindo no lucro: o filme lhes proporcionaria um retorno imediato de US$ 17 milhões.
O torrencial aguaceiro do segundo dia foi tirado de letra pela moçada, que aproveitou para relembrar a infância, chapinhando na lama. De início se tentou afastar a chuva com a força do pensamento positivo, todo mundo gritando “No rain! No rain!”. Depois, o jeito foi se amoldar a ela, brincando de tobogã e cantando. No álbum Woodstock há dois registros disto: no disco I, o improvisado “canto da chuva”; e no II, a multidão entoando em coro o refrão “deixa o sol brilhar!”, da peça Hair.
As boas vibrações não impediram a ocorrência de três mortes: uma overdose, um atropelamento por trator e um ataque de apendicite. O guitarrista e líder do The Who, Peter Townshend, não se limitou, como de hábito, a destruir o instrumento de trabalho no final apocalíptico de sua performance; levou a fúria para os bastidores, quebrando o pau com o líder hippie Abbie Hoffman.
O evento foi processado para o cinema por Michael Wadleigh, que fez uma magnífica edição de imagens e introduziu uma novidade: a bi ou tripartição da tela, oferecendo ao espectador tomadas simultâneas do mesmo grupo, de artistas isoladamente, do público, etc.
Há, além disto, nítido empenho em situar o evento sociologicamente, ao contrário do documentário sobre o Festival de Monterey, que se ateve quase exclusivamente à música. Daí a merecida reputação de Woodstock como o filme que inovou a arte de registrar espetáculos musicais.
NEM TUDO FOI MOSTRADO
Muitos artistas deixaram de ter um número exibido no filme e no álbum triplo. Ficaram de fora Melanie, Mountain e Butterfield Blues Band, com o consolo de aparecerem no segundo álbum Woodstock, duplo, que foi lançado algum tempo depois. O Jefferson Airplane não está no filme, mas sua “Volunteers” consta do álbum triplo e teve mais canções aproveitadas no álbum duplo.
A relação dos que lá estiveram mas ficaram de fora tanto do filme quanto dos álbuns é extensa: Janis Joplin, Grateful Dead, The Band, Blood Sweat & Tears, Creedence Clearwater Revival, Incredible String Band e Johnny Winter. Motivo: problemas contratuais.
[Agora, na onda do MP-3, tudo isso foi finalmente disponibilizado para os saudosistas dos velhos e bons tempos, bem como para os jovens que querem saber saber como era o som que os pais, tios e avós curtiram...]
Os cachês mais altos foram os de Jimi Hendrix (US$ 18 mil), Blood Sweat & Tears (US$ 15 mil), Joan Baez e Creedence Clearwater Revival (US$ 10 mil cada). Santana exibiu sua empolgante fusão de rock e sonoridades latinas, “Soul Sacrifice”, pela bagatela de 750 dólares.
O trovador John Sebastian tirou a sorte grande: não foi convidado, mas apareceu para dar uma olhada e acabou subindo ao palco quando a chuva recém-finda impedia a apresentação de bandas eletrificadas. Ganhou direito a constar do filme e do disco, além de receber mil dólares.
O Crosby, Stills, Nash & Young, que acabava de ser constituído, cativou a platéia com seu folk-rock contestador e obteve êxito instantâneo, lançando as bases da longa carreira de seus integrantes (pouco tempo como quarteto e muito mais como artistas-solo).
No extremo oposto, o Ten Years After foi a principal vítima da síndrome de Woodstock: nunca igualou os 11 esfuziantes minutos de “Goin’ Home”, que valeram para Alvin Lee a reputação de grande guitarrista.
Outra curiosidade: foi marcante a aparição de Arlo Guthrie (“Comin’ Into Los Angeles”), cuja trajetória acabaria sendo eclipsada pela de Bob Dylan. Os estilos vocais e temáticos eram semelhantes, tendo Dylan sido mais eficiente em afirmar-se como herdeiro da arte e da lenda de Woody Guthrie, o precursor dos mochileiros. Correndo na mesma faixa, ele sobrepujou o próprio filho de Woody.
A vertente negra do rock se destacou em duas performances memoráveis. Richie Havens, um talento que depois definharia, arrepiou a platéia com seu camisolão africano e a interpretação fulgurante de “Freedom”. E Jimi Hendrix, no auge de sua genialidade, puniu simbolicamente os militaristas com a implosão do hino nacional norte-americano.
Isto para não falar do herdeiro branco e britânico de Ray Charles, o chapadíssimo Joe Cocker, com sua voz poderosa e postura bizarra, sacudindo o corpo para a frente e para trás como um boneco de mola enquanto as mãos dedilhavam sem parar uma guitarra inexistente.
O rock erudito, que marcaria toda uma época, também se fez presente em Woodstock: o The Who interpretou uma compilação de faixas da ópera-rock Tommy, projetando mundialmente essa sua (para a época) extravagância: um álbum-duplo que, faixa a faixa, vai contando a história de um menino que flagra o adultério da mãe e o assassinato do pai, recebendo então a ordem de apagar aquele episódio da mente e nunca relatá-lo a ninguém. O trauma o torna cego, surdo e mudo, mas ele acaba se libertando e atingindo a iluminação.
SÍNTESE DA CONTRACULTURA
Com Woodstock ganhou repercussão ampla o movimento de paz e amor que fermentava na boêmia San Francisco desde meados daquela década, como um desdobramento lisérgico e roqueiro do antigo movimento beatnik
Suas características externas são ressaltadas no filme:
o amor livre e a desinibição corporal, com o nudismo sendo amplamente praticado, de forma inocente e até singela;
a convivência harmoniosa, sem nenhum resquício de preconceito, entre indivíduos de todas as raças, credos e orientações sexuais;
o consumo explícito e justificado (por alguns entrevistados, como Jerry Garcia) das drogas que, no entender daquela geração, abriam as portas da percepção;
o visual premeditadamente desarrumado do pessoal, com suas roupas coloridas, ponchos e cabeleiras imponentes;
a substituição dos laços familiares por uma comunidade grupal (ou, como se dizia então, tribal);
a volta à natureza e a redescoberta do lúdico (em vários momentos, veem-se marmanjos entregues a brincadeiras pueris, sem nenhum constrangimento);
a profusão de crianças, pois os hippies mandavam às favas o planejamento familiar, os anticoncepcionais e os abortos, assumindo plenamente o amor e suas conseqüências;
o solene desprezo pelas regras e valores dominantes na sociedade, que se evidencia até nas falas dos organizadores do festival, não ligando a mínima para os prejuízos que estavam ameaçados de sofrer.
De certa forma, este comportamento era inspirado por teóricos como Reich, Marcuse e Norman O. Brown, que vincularam o autoritarismo político à repressão instintiva, alegando que a liberdade era cerceada não só pelos mecanismos sociais que mantinham a estrutura de classes (visão da esquerda convencional), como também pelos condicionamentos que embotavam a imaginação e inibiam o desfrute pleno da sexualidade.
Essas teses inspiraram uma nova voga anarquista, que pregava o combate ao stablishment também no íntimo de cada pessoa. As drogas serviriam para o resgate de faculdades esquecidas devido ao desuso; e a liberalidade sexual, incluindo as práticas antes estigmatizadas como perversões (homossexualismo, sodomia, sexo oral, masturbação), seria a premissa de uma visão erótica do mundo, em substituição ao princípio da realidade freudiano.
BRASIL: COMUNIDADES E BICHOS-GRILOS
A influência de Woodstock em nosso país pode ser detectada na música (Raul Seixas, Made in Brazil, a última fase dos Mutantes), no teatro (Oficina, Tuca), na cinematografia (o chamado cinema marginal) e, sobretudo, nos costumes, com os bichos-grilos que percorriam as estradas como caronas, indo e vindo à meca de Arembepe (BA), além de criarem comunidades urbanas e rurais onde exercitavam um estilo alternativo de vida.
Essas tentativas, entretanto, esbarraram no ambiente repressivo dos anos de chumbo, o que levou, p. ex., a ser expulso do Brasil o elenco do Living Theatre de Julian Back, que supôs encontrar aqui seu paraíso tropical; e, em termos mais amplos, na própria impossibilidade de contingentes mais amplos, num país pobre como o nosso, garantirem indefinidamente seu sustento com artesanato, aulas de ioga e que tais.
A grande vitória da Geração Woodstock foi ter conseguido arrancar os Estados Unidos do Vietnã. E seu exemplo repercute até hoje no ativismo em defesa do meio ambiente e a favor de algumas causas justas.
Além disto, ela entronizou a imagem do jovem como centro do universo do consumo, em substituição ao modelo rígido do pai de família, daí derivando a descontração no vestir, no falar e no comportamento.
E ainda lançou alguns modismos que hoje estão em menor evidência, como o ioga, a macrobiótica, o ocultismo e a agricultura natural (sem defensivos e fertilizantes).
Não perduraria, entretanto, aquela militância política idealista e generosa: as gerações seguintes se desinteressaram de mudar o mundo, voltando a priorizar a ascensão profissional e social. O rock, depois de uma fase intensamente criativa e experimental, voltou aos caminhos seguros do marketing.
As drogas, ao invés de abrirem as portas da percepção, se tornaram instrumentos para a fuga à realidade e a ilusão de onipotência, cada vez mais pesadas, até que se chegou ao pesadelo do crack. E o amor livre degenerou em sexo casual, promiscuidade e Aids.
O sonho acabou? Talvez. Mas, quem o partilhou só lamenta que haja durado tão pouco e tenha sido substituído por uma realidade tão insossa.
Eu prefiro mesmo é a postura do inesquecível Raulzito: ele nunca deixou de acreditar que a roda da fortuna giraria de novo, trazendo de volta, desta vez para ficar, o paraíso-agora! que iluminou nossas vidas por um fugaz instante... e, mesmo assim, marcou-nos para sempre.
Oh, baby, a gente ainda nem começou!
(Náufragos da Utopia)
Um dos acontecimentos mais emblemáticos e alentadores do século passado, o Festival de Música e Artes de Woodstock só é lembrado pela grande imprensa nas efemérides.
E mesmo quando isto acontece, de 10 em 10 anos, os enfoques da indústria cultural oscilam entre o nostálgico e o pitoresco, como inimiga que foi e é dos ideais que se corporificaram nesse magnífico evento.
Indo na contramão, como sempre, costumo destacar a vitalidade de Woodstock e os caminhos que ainda nos aponta, hoje e agora, para a construção de um mundo melhor.
Para começar, uma constatação óbvia: Woodstock foi uma moeda que caiu em pé. Os deuses de todos os povos e de todos os tempos parecem ter-se mobilizado para que tudo desse certo durante três dias mágicos, maravilhosos, que seriam para sempre lembrados como uma amostra da perfeição possível neste sofrido planeta.
Sem favor nenhum, posso afirmar que Woodstock foi o evento musical que mais influenciou as artes e os costumes na história da humanidade. E a conjunção de fatores que o transformou em marco e lenda dificilmente se repetirá.
Mas, não precisamos acreditar piamente na esnobada de Gilberto Gil: "quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou". Apenas, levar em conta o que houve de específico nesse festival. Outros sonhos virão, com certeza. A História não tem fim, queiram ou não os Fukuyamas agourentos.
"SOME FLOWERS IN YOUR HAIR"
Para começar, o Festival de Woodstock foi o ponto de chegada e a culminância de vários fenômenos e acontecimentos marcantes.
A escalada norte-americana no Vietnã, ao longo da década de 60, engendrara um movimento pacifista de crescente influência entre os jovens dos EUA, com direito a manifestações de protesto, queimas de cartas de recrutamento, choques com a polícia e a uma manifestação-monstro de cerco ao Pentágono
.Em 1965, um estudante de química chamado Owsley Stanley aprendeu como fabricar ácido lisérgico no porão de sua casa e logo inundou San Francisco com o LSD, impulsionando o surgimento da geração das flores, imortalizada pela bela canção de Scott McKenzie: “Se você vier para San Francisco,/ não se esqueça de colocar/ algumas flores no seu cabelo...”
Foi aí que o movimento hippie nasceu, aglutinando jovens que recusavam o american way of life e caíam na estrada, em busca de aventuras e novas experiências.
Em termos mais profundos, pode-se lembrar que era a fase em que a crescente mecanização da indústria mais e mais dispensava o uso da força física, demolindo algumas vigas-mestras da sociedade norte-americana, toda ela construída em cima do ascetismo puritano (a negação do prazer a fim de poupar energias para o trabalho). Na década de 60, o prazer reconquistava suas prerrogativas.
Grandes festivais de rock já haviam ocorrido em Monterey (1967) e na Ilha de Wight. Este último vinha se realizando desde 1968, embora o mais marcante e lembrado seja o de 1970, quando se deu uma das últimas apresentações de Jimi Hendrix.
Quanto a públicos expressivos, também não eram novidade: o festival inglês já reunira 250 mil pessoas.
Mas, foi no de Woodstock que a indústria cultural investiu pesado, pela primeira vez. É que, com algum atraso, os mercadores das artes se deram conta de que tinham um diamante bruto ao alcance das mãos. Prepararam-se, então, para explorar em grande estilo o evento seguinte.
Por último, vale notar que ainda se vivia a época dos compactos, em que eram singles e não elepês que corriam o mundo, com a repercussão dependendo, principalmente, da divulgação nas rádios.
Pouco se conhecia da segunda onda do rock (a primeira, nos anos 50, fora a dos pioneiros Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard, Bill Haley, etc.).
Muitos garotos, como eu, amavam os Beatles e os Rolling Stones. De resto, haviam escutado. “The House of Rising Sun” (Animals), “Sunny” (Johnny Rivers), “A Wither Shade of Pale” (Procol Harum) e quase nada mais.
Existia uma produção musical de grande qualidade represada, não atingindo circuitos mais amplos. Seria a irrupção dessa nova geração de importantes artistas ainda relativamente desconhecidos que asseguraria a surpresa e o enorme impacto causados pelo filme Woodstock e pelo álbum triplo com registros desse evento.
BRINCANDO NA CHUVA
Foram três dias de “paz, música e amor”, de 15 a 17 de agosto de 1969, levando 450 mil jovens até a fazenda do leiteiro Max Yasgur, a 80 quilômetros de Woodstock, estado de Nova York.
Logo no primeiro dia o festival foi declarado livre: quem não tinha comprado antecipadamente o ingresso, não precisou mais fazê-lo. Com isto, os promotores tiveram US$ 100 mil de prejuízo inicial, mas acabaram saindo no lucro: o filme lhes proporcionaria um retorno imediato de US$ 17 milhões.
O torrencial aguaceiro do segundo dia foi tirado de letra pela moçada, que aproveitou para relembrar a infância, chapinhando na lama. De início se tentou afastar a chuva com a força do pensamento positivo, todo mundo gritando “No rain! No rain!”. Depois, o jeito foi se amoldar a ela, brincando de tobogã e cantando. No álbum Woodstock há dois registros disto: no disco I, o improvisado “canto da chuva”; e no II, a multidão entoando em coro o refrão “deixa o sol brilhar!”, da peça Hair.
As boas vibrações não impediram a ocorrência de três mortes: uma overdose, um atropelamento por trator e um ataque de apendicite. O guitarrista e líder do The Who, Peter Townshend, não se limitou, como de hábito, a destruir o instrumento de trabalho no final apocalíptico de sua performance; levou a fúria para os bastidores, quebrando o pau com o líder hippie Abbie Hoffman.
O evento foi processado para o cinema por Michael Wadleigh, que fez uma magnífica edição de imagens e introduziu uma novidade: a bi ou tripartição da tela, oferecendo ao espectador tomadas simultâneas do mesmo grupo, de artistas isoladamente, do público, etc.
Há, além disto, nítido empenho em situar o evento sociologicamente, ao contrário do documentário sobre o Festival de Monterey, que se ateve quase exclusivamente à música. Daí a merecida reputação de Woodstock como o filme que inovou a arte de registrar espetáculos musicais.
NEM TUDO FOI MOSTRADO
Muitos artistas deixaram de ter um número exibido no filme e no álbum triplo. Ficaram de fora Melanie, Mountain e Butterfield Blues Band, com o consolo de aparecerem no segundo álbum Woodstock, duplo, que foi lançado algum tempo depois. O Jefferson Airplane não está no filme, mas sua “Volunteers” consta do álbum triplo e teve mais canções aproveitadas no álbum duplo.
A relação dos que lá estiveram mas ficaram de fora tanto do filme quanto dos álbuns é extensa: Janis Joplin, Grateful Dead, The Band, Blood Sweat & Tears, Creedence Clearwater Revival, Incredible String Band e Johnny Winter. Motivo: problemas contratuais.
[Agora, na onda do MP-3, tudo isso foi finalmente disponibilizado para os saudosistas dos velhos e bons tempos, bem como para os jovens que querem saber saber como era o som que os pais, tios e avós curtiram...]
Os cachês mais altos foram os de Jimi Hendrix (US$ 18 mil), Blood Sweat & Tears (US$ 15 mil), Joan Baez e Creedence Clearwater Revival (US$ 10 mil cada). Santana exibiu sua empolgante fusão de rock e sonoridades latinas, “Soul Sacrifice”, pela bagatela de 750 dólares.
O trovador John Sebastian tirou a sorte grande: não foi convidado, mas apareceu para dar uma olhada e acabou subindo ao palco quando a chuva recém-finda impedia a apresentação de bandas eletrificadas. Ganhou direito a constar do filme e do disco, além de receber mil dólares.
O Crosby, Stills, Nash & Young, que acabava de ser constituído, cativou a platéia com seu folk-rock contestador e obteve êxito instantâneo, lançando as bases da longa carreira de seus integrantes (pouco tempo como quarteto e muito mais como artistas-solo).
No extremo oposto, o Ten Years After foi a principal vítima da síndrome de Woodstock: nunca igualou os 11 esfuziantes minutos de “Goin’ Home”, que valeram para Alvin Lee a reputação de grande guitarrista.
Outra curiosidade: foi marcante a aparição de Arlo Guthrie (“Comin’ Into Los Angeles”), cuja trajetória acabaria sendo eclipsada pela de Bob Dylan. Os estilos vocais e temáticos eram semelhantes, tendo Dylan sido mais eficiente em afirmar-se como herdeiro da arte e da lenda de Woody Guthrie, o precursor dos mochileiros. Correndo na mesma faixa, ele sobrepujou o próprio filho de Woody.
A vertente negra do rock se destacou em duas performances memoráveis. Richie Havens, um talento que depois definharia, arrepiou a platéia com seu camisolão africano e a interpretação fulgurante de “Freedom”. E Jimi Hendrix, no auge de sua genialidade, puniu simbolicamente os militaristas com a implosão do hino nacional norte-americano.
Isto para não falar do herdeiro branco e britânico de Ray Charles, o chapadíssimo Joe Cocker, com sua voz poderosa e postura bizarra, sacudindo o corpo para a frente e para trás como um boneco de mola enquanto as mãos dedilhavam sem parar uma guitarra inexistente.
O rock erudito, que marcaria toda uma época, também se fez presente em Woodstock: o The Who interpretou uma compilação de faixas da ópera-rock Tommy, projetando mundialmente essa sua (para a época) extravagância: um álbum-duplo que, faixa a faixa, vai contando a história de um menino que flagra o adultério da mãe e o assassinato do pai, recebendo então a ordem de apagar aquele episódio da mente e nunca relatá-lo a ninguém. O trauma o torna cego, surdo e mudo, mas ele acaba se libertando e atingindo a iluminação.
SÍNTESE DA CONTRACULTURA
Com Woodstock ganhou repercussão ampla o movimento de paz e amor que fermentava na boêmia San Francisco desde meados daquela década, como um desdobramento lisérgico e roqueiro do antigo movimento beatnik
Suas características externas são ressaltadas no filme:
o amor livre e a desinibição corporal, com o nudismo sendo amplamente praticado, de forma inocente e até singela;
a convivência harmoniosa, sem nenhum resquício de preconceito, entre indivíduos de todas as raças, credos e orientações sexuais;
o consumo explícito e justificado (por alguns entrevistados, como Jerry Garcia) das drogas que, no entender daquela geração, abriam as portas da percepção;
o visual premeditadamente desarrumado do pessoal, com suas roupas coloridas, ponchos e cabeleiras imponentes;
a substituição dos laços familiares por uma comunidade grupal (ou, como se dizia então, tribal);
a volta à natureza e a redescoberta do lúdico (em vários momentos, veem-se marmanjos entregues a brincadeiras pueris, sem nenhum constrangimento);
a profusão de crianças, pois os hippies mandavam às favas o planejamento familiar, os anticoncepcionais e os abortos, assumindo plenamente o amor e suas conseqüências;
o solene desprezo pelas regras e valores dominantes na sociedade, que se evidencia até nas falas dos organizadores do festival, não ligando a mínima para os prejuízos que estavam ameaçados de sofrer.
De certa forma, este comportamento era inspirado por teóricos como Reich, Marcuse e Norman O. Brown, que vincularam o autoritarismo político à repressão instintiva, alegando que a liberdade era cerceada não só pelos mecanismos sociais que mantinham a estrutura de classes (visão da esquerda convencional), como também pelos condicionamentos que embotavam a imaginação e inibiam o desfrute pleno da sexualidade.
Essas teses inspiraram uma nova voga anarquista, que pregava o combate ao stablishment também no íntimo de cada pessoa. As drogas serviriam para o resgate de faculdades esquecidas devido ao desuso; e a liberalidade sexual, incluindo as práticas antes estigmatizadas como perversões (homossexualismo, sodomia, sexo oral, masturbação), seria a premissa de uma visão erótica do mundo, em substituição ao princípio da realidade freudiano.
BRASIL: COMUNIDADES E BICHOS-GRILOS
A influência de Woodstock em nosso país pode ser detectada na música (Raul Seixas, Made in Brazil, a última fase dos Mutantes), no teatro (Oficina, Tuca), na cinematografia (o chamado cinema marginal) e, sobretudo, nos costumes, com os bichos-grilos que percorriam as estradas como caronas, indo e vindo à meca de Arembepe (BA), além de criarem comunidades urbanas e rurais onde exercitavam um estilo alternativo de vida.
Essas tentativas, entretanto, esbarraram no ambiente repressivo dos anos de chumbo, o que levou, p. ex., a ser expulso do Brasil o elenco do Living Theatre de Julian Back, que supôs encontrar aqui seu paraíso tropical; e, em termos mais amplos, na própria impossibilidade de contingentes mais amplos, num país pobre como o nosso, garantirem indefinidamente seu sustento com artesanato, aulas de ioga e que tais.
A grande vitória da Geração Woodstock foi ter conseguido arrancar os Estados Unidos do Vietnã. E seu exemplo repercute até hoje no ativismo em defesa do meio ambiente e a favor de algumas causas justas.
Além disto, ela entronizou a imagem do jovem como centro do universo do consumo, em substituição ao modelo rígido do pai de família, daí derivando a descontração no vestir, no falar e no comportamento.
E ainda lançou alguns modismos que hoje estão em menor evidência, como o ioga, a macrobiótica, o ocultismo e a agricultura natural (sem defensivos e fertilizantes).
Não perduraria, entretanto, aquela militância política idealista e generosa: as gerações seguintes se desinteressaram de mudar o mundo, voltando a priorizar a ascensão profissional e social. O rock, depois de uma fase intensamente criativa e experimental, voltou aos caminhos seguros do marketing.
As drogas, ao invés de abrirem as portas da percepção, se tornaram instrumentos para a fuga à realidade e a ilusão de onipotência, cada vez mais pesadas, até que se chegou ao pesadelo do crack. E o amor livre degenerou em sexo casual, promiscuidade e Aids.
O sonho acabou? Talvez. Mas, quem o partilhou só lamenta que haja durado tão pouco e tenha sido substituído por uma realidade tão insossa.
Eu prefiro mesmo é a postura do inesquecível Raulzito: ele nunca deixou de acreditar que a roda da fortuna giraria de novo, trazendo de volta, desta vez para ficar, o paraíso-agora! que iluminou nossas vidas por um fugaz instante... e, mesmo assim, marcou-nos para sempre.
Oh, baby, a gente ainda nem começou!
(Náufragos da Utopia)
Misantropo
acusaram-me de ser misantropo. isso, misantropo, sem nuanses ou gradações. apenas a acusação...
afinal, o misantropo seria uma categoria facilmente acusável, como asssassino, ladrão?
e o q é o misantropismo, enfim?
digamos, a grosso modo, uma mescla de anarquismo c niilismo radical...
mas pq eu, é a pergunta seguinte e inevitável....
adepto do socialismo, antípodas em si do misantopismo...
a questão, creio, remonta a acepção em si da entidade.
o misantropismo original e radical abjuga pessoas, entes, instituições, como igreja, estado , tratando-os como execráveis...
seria o caso? n nos precipitemos....n façamos o jogo do anarquismo....
como um misantropo viveria hoje em contato inevitável c o poder executivo e outras instituiç~oes? ignorando-as, talvez?
e a sua vida civil, tornar-se-ia um eterno nomade? mas nomades tb usam camelos, outra instituição....água, fogo, tb são instituições....
o nomadismo já é uma instituição!
se o nosso amado misantropo viver em sociedade - e como n viver? - como evitar entrar em contato c outros viventes?
encapsulando-se em algum lugar ad infinitum?
enfim, 'acusaram-me' e tento defenfer-me de algo insólito.
Obrigado, platéia, pelos muitos bis!
afinal, o misantropo seria uma categoria facilmente acusável, como asssassino, ladrão?
e o q é o misantropismo, enfim?
digamos, a grosso modo, uma mescla de anarquismo c niilismo radical...
mas pq eu, é a pergunta seguinte e inevitável....
adepto do socialismo, antípodas em si do misantopismo...
a questão, creio, remonta a acepção em si da entidade.
o misantropismo original e radical abjuga pessoas, entes, instituições, como igreja, estado , tratando-os como execráveis...
seria o caso? n nos precipitemos....n façamos o jogo do anarquismo....
como um misantropo viveria hoje em contato inevitável c o poder executivo e outras instituiç~oes? ignorando-as, talvez?
e a sua vida civil, tornar-se-ia um eterno nomade? mas nomades tb usam camelos, outra instituição....água, fogo, tb são instituições....
o nomadismo já é uma instituição!
se o nosso amado misantropo viver em sociedade - e como n viver? - como evitar entrar em contato c outros viventes?
encapsulando-se em algum lugar ad infinitum?
enfim, 'acusaram-me' e tento defenfer-me de algo insólito.
Obrigado, platéia, pelos muitos bis!
Obama e Israel
Jonathan Cook: “Só faltaram as bênçãos de Obama...”
Muito palavreado, promessas magras, ação zero contra o roubo de terras da Palestina pelos judeus
20/3/2013, Jonathan Cook, Counterpunch
“Will Israeli Settlers Receive Obama’s Blessing?”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Jonathan Cook
Quem esperava que Barack Obama desembarcasse em Israel para forçar palestinos e israelenses a negociar, depois de quatro anos de impasse total no processo de paz, se decepcionará muito tristemente.
A viagem do presidente dos EUA que se inicia hoje talvez seja “histórica” – a primeira, de Obama, a Israel e aos territórios palestinos – mas o próprio Obama já cuidou de fazer todo o possível para esvaziar qualquer expectativa.
No fim de semana, líderes árabe-norte-americanos revelaram que Obama deixara bem claro que não apresentaria qualquer plano de paz, porque Israel já sinalizara que não tem interesse em acordo com os palestinos.
Dúvidas que por acaso persistissem sobre as intenções de Israel foram varridas, com o anúncio de um novo gabinete, rapidamente empossado antes da chegada de Obama. O novo governo faz o anterior, também de Benjamin Netanyahu – já considerado o mais linha-dura de toda a história de Israel – parecer quase moderado.
Colônias exclusivas para judeus em terras roubadas da Palestina
Ynet, um website de notícias muito popular em Israel, noticiou que os colonos saudaram o novo gabinete como a realização de seu “sonho erótico molhado”.
Zahava Gal-On, líder do partido de oposição Meretz, observou que o novo gabinete “muito fará pelos colonos e nada, absolutamente, pelo resto da sociedade israelense”.
O partido dos próprios colonos, “Lar Judeu”, foi premiado com três ministérios chaves – comércio e indústria, Jerusalém e moradia – além de controlar a comissão de finanças do Parlamento, o que basta para assegurar que as colônias exclusivas para judeus frutificarão durante seu mandato.
Não há sequer a mínima chance de o partido “Lar Judeu” aceitar congelamento de construções nas colônias semelhante ao que Obama propôs e no qual insistiu no primeiro mandato. Em vez disso, o partido acelerará o ritmo das construções e do desenvolvimento de indústrias além da Lista Verde, para tornar mais atraentes as colônias e promover a venda de moradias.
Uzi Landau, do partido de extrema direita “Israel nosso Lar”, de Avigdor Lieberman, ficou com o portfólio de turismo e rapidamente direcionará recursos para promover os muitos endereços bíblicos na Cisjordânia, para encorajar a visitação de israelenses e turistas.
O novo ministro da Defesa, que supervisiona a ocupação, é o único funcionário cuja posição que lhe dá competência para obstruir essa colonização “grátis-para-todos”; mas Moshe Yaalon, do partido Likud, ex-comandante militar, é conhecido pelo fervoroso apoio à ocupação e aos colonos.
É verdade que o grande partido, Yesh Atid, de Yair Lapid, centrista, também está representado. Mas sua influência, só diplomática, será posta sob rédea curta, porque seus cinco ministérios cuidarão de questões domésticas, bem-estar, saúde e ciência.
Moshe Yaalon
A única exceção, Shai Piron, novo Ministro da Educação, é rabino e colono, do qual só se deve esperar prosseguimento do atual programa de viagens escolares às colônias, continuando os bem-sucedidos esforços dos colonos para integrar-se na sociedade.
Longe de preparar-se para fazer concessões ao presidente dos EUA, Netanyahu só faz declarar seu apoio ao plano do partido Lar Judeu, para anexar novas vastas porções da Cisjordânia.
O único ministro com interesse pressuposto em conversações diplomáticas, mas quase exclusivamente orientado por seus esforços de autopromoção para permanecer popular na Casa Branca, é Tzipi Livni. Ela sabe bem o quanto são limitadas as oportunidades para negociar: o processo de paz só foi superficialmente mencionado no acordo da coalizão.
Obama, aparentemente consciente de que estará diante de governo ainda mais intransigente que o anterior, optou por não falar ao Parlamento. Em vez disso, discursará para platéia mais receptiva, de estudantes israelenses, em ação que funcionários dos EUA têm chamado de “uma ofensiva de charme”.
Devem-se esperar muito palavreado, promessas magras e ação zero contra a ocupação.
Yair Lapid
Sinal da relutância da Casa Branca, que foge da questão das colônias ilegais nos territórios ocupados, seus representantes na ONU recusaram-se a participar, na 2ª-feira, de um debate no Conselho de Direitos Humanos que apresentou as colônias como forma de “deplorável anexação” da Cisjordânia e de Jerusalém Leste.
A abordagem “não é comigo” de Obama satisfará seu eleitorado nos EUA. Pesquisa feita pela rede ABC-TV mostrou que o maior número de norte-americanos (55%) apoiam Israel, contra 5% que apóiam os palestinos. Maioria ainda maior, 70%, entende que os EUA devem deixar que os dois lados discutam e decidam o próprio futuro.
Israelenses comuns, o público que o presidente dos EUA quer atingir, tampouco veem com bons olhos qualquer envolvimento dos EUA. Outra pesquisa recente mostra que 53% preveem que Obama não protegerá interesses de Israel; e 80% entendem que com Obama, nos próximos quatro anos, não acontecerá qualquer avanço na questão com os palestinos. O estado de espírito dominante é de indiferença, mais de que de expectativa.
Shai Piron
Todas essas são boas razões para explicar por que nem Obama nem Netanyahu dedicarão grande atenção à questão palestina, durante a visita de três dias. Como o analista Daniel Levy observou: “Obama vem, sobretudo, para fazer declarações sobre os laços que unem EUA e Israel, não para falar da ocupação ilegal”.
É o que entendem também muitos palestinos, cada dia mais exasperados pelo obstrucionismo dos norte-americanos. Funcionários dos EUA que foram a Belém, na preparação da visita que Obama fará à cidade na 6ª-feira, foram colhidos em várias manifestações anti-Obama. E esperam-se novas manifestações hoje, em Ramallah.
Outros palestinos protestam hoje, montando uma nova comunidade de barracas em terra palestina ocupada próxima de Jerusalém. Inúmeros outros acampamentos desse tipo, montados antes, foram violentamente demolidos por soldados israelenses.
Os organizadores esperam chamar a atenção para a hipocrisia dos EUA no apoio à ocupação israelense: colonos judeus são autorizados a construir, com apoio do governo de Israel, em territórios ocupados – o que é flagrante violação da lei internacional; e os palestinos são impedidos por soldados israelenses de desenvolver o próprio território, o mesmo que a comunidade internacional já reconheceu como estado palestino, com representantes na ONU.
Barack Obama, obedientemente, aceita as ordens de "Bibi" Netanyahu
A mensagem escrita nas entrelinhas dessa visita de Obama é que o governo de Netanyahu tem carta branca para fazer avançar sua agenda de violências, sem nada temer de Washington, além, no máximo, de algum protesto simbólico.
O novo gabinete israelense não perdeu tempo para definir suas prioridades legislativas. A primeira nova lei já anunciada é uma “lei básica” que mudará a definição oficial do Estado, de modo a que os aspectos “judeus” sobreponham-se aos elementos “democráticos” – movimento que o jornal Haaretz qualificou de “insano”.
Dentre outras determinações de lei, há uma que limita a aplicação de fundos públicos, que passam a só poder ser aplicados em novas comunidades de judeus. É um arranjo cínico, com o qual Netanyahu visa a aplacar um crescente movimento de protesto em Telavive, que começa a exigir moradia a preços mais acessíveis para todos.
Oferecendo terra a preço subsidiado para novas colônias na Cisjordânia e em Jerusalém Leste, Netanyahu consegue expandir as colônias, rouba mais terra dos palestinos, cala os protestos e desestabiliza a oposição. Só precisava, de fato, das bênçãos de Obama.
____________________________
Postado por Castor Filho às 14:50:00
Enviar por e-mailBlogThis!Compartilhar no TwitterCompartilhar no FacebookCompartilhar no Orkut
(Redecastor)
Assinar:
Postagens (Atom)