quarta-feira, 3 de abril de 2013
Iraque
O Iraque é hoje um Estado parasitário de sua população. A corrupção é regra geral, a violência nas ruas é diária e rarearam bairros mistos com xiitas, sunitas e curdos. Mas o legado dos EUA deixado ao país não começou a ser construído com a invasão de 2003, e sim trinta anos antes, com as sanções econômicas lançadas após Saddam ter invadido o Kuwait.
Patrick Cockburn – The Nation
Dez anos atrás, iraquianos, ainda que originalmente opostos a eles, esperavam que a invasão dos Estados Unidos e a ocupação trariam ao menos um fim ao sofrimento que enfrentavam sob as sanções e outros desastres consequentes da derrota na primeira Guerra do Golfo, de 1991. Hoje, o povo em Bagdá reclama ainda o mesmo estado de permanente crise causada pela violência criminosa e sectária, corrupção estrutural, infraestrutura fragilizada e um governo disfuncional. Muitos iraquianos dizem que o que realmente querem em 2013 é o mesmo que queriam em 2003: a possibilidade de visto para outro país, onde podem conseguir emprego.
Bagdá já foi uma cidade onde sunitas, xiitas e cristãos viviam lado a lado, conscientes de suas crenças distintas, mas não amedrontados um pelo outro. Isso tudo mudou durante a guerra civil de 2006-2008, que, em seu pico, matou mais de 3.700 iraquianos num só mês, e desses mortos a grande maioria era de Bagdá. "Não existem mais tantas áreas mistas hoje", diz uma mulher xiita que vive com sua mãe num distrito de maioria sunita e que tenta esconder sua identidade dos seus vizinhos sunitas. A mulher está preocupada com a possibilidade de ser interrogada a fim de entregar evidências que incriminem um destes vizinhos, que está na prisão acusado de matar um xiita cinco anos atrás. Ela suspeita que o detido tenha deixado munições em frente a sua casa como ameaça; a mulher não quer entregar qualquer evidência, porque isso traria às claras seu grupo (sunita) e a deixaria exposta a retaliações.
A guerra civil entre os grupos islâmicos teve maior intensidade em Bagdá e províncias centrais do Iraque, onde vive um terço dos 33 milhões de iraquianos. Ela terminou com uma derrota decisiva para os sunitas, que foram empurrados e expulsos do leste de Bagdá e foram comprimidos e cercados por xiitas no oeste da mesma cidade. Iraquianos pacíficos dizem que "tudo está seguro agora", mas não agem como se acreditassem de fato nisso; ficam nervosos quando entram em áreas hostis controladas por outra comunidade ou, se vivem num distrito misto, entram em pânico com a menor ameaça, como um slogan agressivo deixado numa parede. Depois de tudo o que aconteceu, ninguém está se arriscando. Ainda hoje, há constantes atentados e assassinatos; 220 iraquianos mortos e 571 feridos só em fevereiro.
Desemprego e corrupção
Ali, Abdul-Karim, um corretor bem-sucedido, disse-me que as pessoas estão constantemente tensas, e fogem por boatos. Mas me contou sobre as dificuldades de finalizar uma venda que ele estava tentando providenciar em Bagdá. Disse-me que seu cliente neste caso era um capitão oficial da inteligência de Saddam Hussein, com uma fazenda numa área sunita muito violenta na periferia sul de Bagdá chamada Arab Jabour. O capitão mudou-se de lá porque fora ameaçado pela Al Qaeda por se recusar a cooperar com eles; no entanto, seu pai octogenário se recusa a deixar a fazenda. Neste entremeio, o capitão foi feito prisioneiro pelo governo por seu cargo na polícia secreta de Saddam.
Um problema na compreensão do Iraque de hoje é que os sucessos militares americanos depois de 2007 foram hiperbolizados afim de não deixar a última retirada militar, no fim de 2011, parecendo uma confissão do fracasso. A insurgência – a ofensiva de 30 mil reforços americanos em 2007 – foi louvada pela mídia ocidental naquela época por acabar com uma guerra civil e ter derrotado os rebeldes sunitas, embora na realidade tenha sido um menor bom acordo. Na prática, o estabelecimento das tropas e grandes prédios com paredes imensas de concreto durante a intervenção simplesmente calcou o novo mapa sectário de Bagdá, deixando os xiitas dominantes. Seus territórios são facilmente identificados por conta dos banners religiosos que cobrem os prédios e pôsteres que mostram líderes e mártires, como Muqtada al-Sadr e seu pai, Imam Ali e Imam Hussein, colados em todas as paredes.
Os banners e pôsteres não são só presos nas casas civis, mas em postos militares e polícias, quartéis e até prisões. Não nos deixam qualquer dúvida de que grupo governa. Isso é importante, não menos porque a folha de pagamento do governo é de três milhões de pessoas, e pagar esses empregados absorve grande parte dos 100 bilhões/ano que o governo recebe do petróleo. Acesso à influência política é critério para conseguir um emprego – embora a propina também seja necessária – num país onde pelo menos um terço da população trabalhadora está desempregada. O sistema funciona como uma gigante máquina Tammany Hall (sociedade política), em que os trabalhos são distribuídos de acordo com a lealdade partidária, independente do mérito. Todo ministério é o feudo de um partido ou outro, o que rigorosamente exclui os outros demais partidos ou membros de outras comunidades. Ao fim, os xiitas são incluídos e os sunitas excluídos. Um sunita pacífico tem emprego num ministério onde a norma é que só com propina consegue-se algo, nega que receba tais propinas, mas diz isto porque os outros trabalhadores de sua seção são xiitas, "eu sou aquele quem será acusado de corrupção".
Existem expansão e enraizamento da corrupção em todos os níveis no Iraque. Pessoas na prisão, ainda que inocentes de suas acusações, devem pagar para serem libertos; oficiais que querem ser promovidos na polícia ou exército devem pagar; um civil pacífico trabalhou muito e fez de tudo o que era necessário para entrar e ascender no exército e ser coronel dentro de meses, mas terá de subornar onze pessoas antes de isso acontecer. Um ministro oficial descreve o sistema como uma "cleptocracia institucionalizada". O governo de Nouri al-Maliki, primeiro ministro desde 2006, manobra contratos para aliados e facções políticas que ele quer cultivar. Dinheiro é dado para contratos independente de terem sido tratados ou não. Os efeitos podem ser vistos por toda Bagdá, onde não existe nenhuma nova construção. Eu estive lá recentemente durante dois dias de chuva pesada. Desde 2003, sete bilhões de dólares têm sido gastos num novo sistema de esgoto, que deveria cuidar da água pluvial. Mas ficou evidente que ou não há novos encanamentos de esgoto ou eles não funcionam, porque foi preciso algumas horas para as ruas de Bagdá tornarem-se piscinas escuras de água e esgoto. Eletricidade sofre comumente com 2 horas funcionando e outras duas não, e existe racionamento de água potável.
De fato, há pouco que se mostrar quando levamos em conta os 60 bilhões de dólares que o EUA gastou em projetos de reconstrução. Prova disso é que muitos desses projetos foram levianos ou fraudulentos (para mais leia o artigo de Peter Van Buren, "Why the invasion of Iraq was the single worst foreign policy decision in American History", no TheNation.com), mas isto vai além. A corrupção no Iraque é tão destrutiva ao desenvolvimento por sua natureza ser maior que meramente a de boletos de pagamentos. Maliki ameaça com medidas anticorrupção para intimidar seus inimigos e manter seus aliados na linha. Um empresário americano me contou num ministério que ele estava negociando, pensava que 90% dos oficiais não aceitassem propina, possivelmente porque não lhes eram oferecidas, mas estes 90% estavam tão vulneráveis à corrupção quanto os outros 10%. O caminho mais seguro para aqueles que não recebem propinas é negar seus salários, não fazer nada, não assinar qualquer documento e não concordar com nenhum novo projeto sequer. O resultado desse cenário é a paralisia do sistema administrativo (o governo de Maliki tem um exército, polícia e inteligência fortes, além de controlar milhões de empregos e o orçamento estatal. Ao mesmo tempo, não tem nenhuma autoridade em territórios curdos e poder limitado em províncias de maioria árabe-sunita).
Colapso
O avanço de um Estado tão parasitário de seu povo tem mais a ver com as ações americanas anteriores do que com as posteriores à invasão de 2003. A destruição da economia e sociedade iraquianas começou trinta anos antes, em 1990, quando sanções das Nações Unidas foram impostas, sob pressão dos EUA, depois de Saddam ter invadido Kuwait. O que levou a um cerco econômico de trinta anos impiedoso que não tirou Saddam do poder, e no entanto levou à pobreza milhões de iraquianos. Saúde e educação entraram em colapso e o crime se tornou frequente. O programa "Petróleo para Comida" durante esse período permitiu supostamente suprimentos essenciais de chegarem no Iraque, mas nunca era o bastante. Em 1996, visitei um vilarejo chamado Pejwin na parte curda do Iraque, fora dos controles de Saddam, onde o povo foi dizimado por tentar sobreviver desarmando e extraindo explosivos da mina altamente perigosa, Mina Valmara. Eles venderiam os explosivos, e lâminas de alumínio (o que envolve o explosivo) por alguns dólares. Muitos destes moradores perderam mãos e pés.
Por causa das sanções, a sociedade iraquiana estava já em dissolução quando os Estados Unidos invadiu o país em 2003. O colapso foi contido graças ao braço forte de Saddam. Quando este foi removido, já havia uma ferocidade social revolucionária instalada pelo saque de Bagdá. Um oficial de alto escalão disse que "o Iraque acabou por viver sob um sistema que combina alguns dos piores elementos da gestão de Saddam Hussein e da ocupação americana". Levará, é evidente, muito tempo para se recuperar.
Tradução: Caio Sarack
(Carta maior)
terça-feira, 2 de abril de 2013
Escravas
As empregadas e a escravidão
Publicado em 28/03/2013 por Urariano Motta*
Recife (PE) - Por caminhos tortos, Joaquim Nabuco teve uma das suas iluminações quando escreveu:
A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.
Sim, por caminhos tortos, porque depois de uma frase tão magnífica, de gênio do futuro, Joaquim Nabuco sem pausa continuou, num encanto que esconde a crueldade:
“Ela (a escravidão) espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor...”.
Penso na primeira frase de Nabuco, a da escravidão como característica do Brasil, nestes dias em que o Congresso dá um primeiro passo para a superação da herança maldita.
Não quero falar aqui sobre as conquistas legais para as empregadas domésticas, da nova lei sobre a qual os jornais tanto têm falado como num aviso: “patroas, cuidado, domésticas agora têm direitos”. Falo e penso nas empregadas que vi e tenho visto no Recife e em São Paulo.
No aeroporto de Guarulhos eu vi Danielle Winits, a famosa atriz da Globo, muito envolvida com o seu notebook, concentradíssima, enquanto o filhinho de cabelos louros berrava. Para quê? A sua empregada, vestida em odioso e engomado uniforme, aquele que anuncia “sou de outra classe”, cuidava para que a perdida beleza da atriz não fosse importunada. Tão natural... os fãs de telenovelas não viam nada de mais na mucama no aeroporto, pois faziam gracinhas para o bobinho lindinho.
Em outra ocasião, numa terça-feira de carnaval à noite, vi no Recife uma jovem à minha frente, empenhada em ver a passagem de um maracatu. Tão africano, não é? Junto a ela uma senhora – desta vez sem uniforme, mas carregando no rosto e modos a servidão – abrigava nos braços um bebê.
Os tambores, as fantasias, eram de matar qualquer atenção dirigida à criança, que afinal estava bem cuidada, sob uma corda invisível que amarrava a empregada. Então eu, no limite da raiva, oferecei o meu lugar à sua escrava sobrevivente, com a frase:
A senhora, por favor, venha com o seu filho aqui para a frente.
A empregada quis se explicar, coitada, morta de vergonha, enquanto a doce mamãe não entendia o chamamento irônico, pois me olhava como se eu fosse um marciano. Espantada, parecia me dizer: “como o meu filho pode ser dessa aí?”
O desconhecimento de direitos elementares às empregadas domésticas, como privacidade, respeito, a falta de atenção para ver nelas uma pessoa igual aos patrões, creio que sobreviverá até mesmo à nova lei.
É histórico no Brasil, atravessa gerações e atinge até mesmo os mais jovens e pessoas que se declaram à esquerda. É como se estivesse no sangue, como se fosse genético, de um caráter irreprimível. Até antes delas vão a democracia e a igualdade. A partir delas é outra história. Quantas vezes vemos nos restaurantes jovens casais com suas lindas crias, tendo ao lado as escravas, que nem sequer têm direito a provar da bebida e da comida? Isso nos domingos e feriados, pois esses são os dias das patroazinhas se divertirem. É justo, não é?
O feminismo se faz para que mulheres sejam cidadãs, mas a cidadania só alcança os iguais, é claro.
Em todas as situações desconfortáveis, se ousamos estranhar, ou agir com pelo menos um olhar atravessado para essa infâmia, recebemos a resposta de que as domésticas são pessoas da família. Parentes fora do sangue, apenas separadas por deveres, notamos. É o que se pode chamar de uma opressão disfarçada em laços afetivos.
A ex-escrava é considerada como um bem amoroso, íntimo, mas que por ser da casa come na cozinha e se deita entre as galinhas do quintal. O que, afinal, é mais limpo que se deitar com os porcos no chiqueiro.
Não estranhem, porque não exagero.
Não faz muito tempo no Recife era assim. E por que estranhar esse tratamento? Olhem os grandes e largos e luxuosos apartamentos do Rio e de São Paulo, abram os olhos para os minúsculos quartinhos de empregadas, entrem nos seus banheiros, que Millôr dizia serem a prova de que no Brasil empregadas não têm sexo no WC.
Não posso concluir sem observar que os pobres copiam os ricos, e que o tratamento dado às domésticas se estende em democracia para todas as classes sociais. Menos para as empregadas, é claro.
Dizia Nabuco:
A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil
____________________________
Urariano Motta*é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).
Enviado por Direto da Redação
Publicado em 28/03/2013 por Urariano Motta*
Recife (PE) - Por caminhos tortos, Joaquim Nabuco teve uma das suas iluminações quando escreveu:
A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.
Sim, por caminhos tortos, porque depois de uma frase tão magnífica, de gênio do futuro, Joaquim Nabuco sem pausa continuou, num encanto que esconde a crueldade:
“Ela (a escravidão) espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor...”.
Penso na primeira frase de Nabuco, a da escravidão como característica do Brasil, nestes dias em que o Congresso dá um primeiro passo para a superação da herança maldita.
Não quero falar aqui sobre as conquistas legais para as empregadas domésticas, da nova lei sobre a qual os jornais tanto têm falado como num aviso: “patroas, cuidado, domésticas agora têm direitos”. Falo e penso nas empregadas que vi e tenho visto no Recife e em São Paulo.
No aeroporto de Guarulhos eu vi Danielle Winits, a famosa atriz da Globo, muito envolvida com o seu notebook, concentradíssima, enquanto o filhinho de cabelos louros berrava. Para quê? A sua empregada, vestida em odioso e engomado uniforme, aquele que anuncia “sou de outra classe”, cuidava para que a perdida beleza da atriz não fosse importunada. Tão natural... os fãs de telenovelas não viam nada de mais na mucama no aeroporto, pois faziam gracinhas para o bobinho lindinho.
Em outra ocasião, numa terça-feira de carnaval à noite, vi no Recife uma jovem à minha frente, empenhada em ver a passagem de um maracatu. Tão africano, não é? Junto a ela uma senhora – desta vez sem uniforme, mas carregando no rosto e modos a servidão – abrigava nos braços um bebê.
Os tambores, as fantasias, eram de matar qualquer atenção dirigida à criança, que afinal estava bem cuidada, sob uma corda invisível que amarrava a empregada. Então eu, no limite da raiva, oferecei o meu lugar à sua escrava sobrevivente, com a frase:
A senhora, por favor, venha com o seu filho aqui para a frente.
A empregada quis se explicar, coitada, morta de vergonha, enquanto a doce mamãe não entendia o chamamento irônico, pois me olhava como se eu fosse um marciano. Espantada, parecia me dizer: “como o meu filho pode ser dessa aí?”
O desconhecimento de direitos elementares às empregadas domésticas, como privacidade, respeito, a falta de atenção para ver nelas uma pessoa igual aos patrões, creio que sobreviverá até mesmo à nova lei.
É histórico no Brasil, atravessa gerações e atinge até mesmo os mais jovens e pessoas que se declaram à esquerda. É como se estivesse no sangue, como se fosse genético, de um caráter irreprimível. Até antes delas vão a democracia e a igualdade. A partir delas é outra história. Quantas vezes vemos nos restaurantes jovens casais com suas lindas crias, tendo ao lado as escravas, que nem sequer têm direito a provar da bebida e da comida? Isso nos domingos e feriados, pois esses são os dias das patroazinhas se divertirem. É justo, não é?
O feminismo se faz para que mulheres sejam cidadãs, mas a cidadania só alcança os iguais, é claro.
Em todas as situações desconfortáveis, se ousamos estranhar, ou agir com pelo menos um olhar atravessado para essa infâmia, recebemos a resposta de que as domésticas são pessoas da família. Parentes fora do sangue, apenas separadas por deveres, notamos. É o que se pode chamar de uma opressão disfarçada em laços afetivos.
A ex-escrava é considerada como um bem amoroso, íntimo, mas que por ser da casa come na cozinha e se deita entre as galinhas do quintal. O que, afinal, é mais limpo que se deitar com os porcos no chiqueiro.
Não estranhem, porque não exagero.
Não faz muito tempo no Recife era assim. E por que estranhar esse tratamento? Olhem os grandes e largos e luxuosos apartamentos do Rio e de São Paulo, abram os olhos para os minúsculos quartinhos de empregadas, entrem nos seus banheiros, que Millôr dizia serem a prova de que no Brasil empregadas não têm sexo no WC.
Não posso concluir sem observar que os pobres copiam os ricos, e que o tratamento dado às domésticas se estende em democracia para todas as classes sociais. Menos para as empregadas, é claro.
Dizia Nabuco:
A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil
____________________________
Urariano Motta*é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).
Enviado por Direto da Redação
Papa
Conclave: a escolha de um papa inaudito
Escrito por Virgilio Arraes
2013 já representa um ano extremamente importante para a história da Santa Sé por um par de motivações: a renúncia espontânea de um pontífice e a escolha de um improvável sucessor até poucos dias, por duas causas.
Quanto ao primeiro item, não se assistia ao despojar-se de um sumo pontífice desde o Grande Cisma, na fase final da Idade Média (1378-1417), quando três papas concorrentes foram influenciados a retirar-se do principal proscênio eclesial.
Naquela época, Roma e Avinhão, apoiada inicialmente pelos reis ibéricos após o despontar da crise, disputaram a primazia física da representação da cristandade ocidental. Durante a última fase da estranha disputa, existiu até mesmo a tentativa de estabelecer-se uma terceira sede na península itálica, Pisa.
No tocante ao segundo ponto, houve, até a primeira metade de março último, duas históricas interdições informais constantes nos processos sucessórios: o ‘antijesuitismo’, em vista do temor do aparente poderio da Companhia de Jesus dentro da Igreja, e o europeísmo, em face da tradição milenar da instituição.
Desta maneira, o apontamento do Arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, para o trono petrino eliminou de maneira simultânea aquelas duradouras restrições, mesmo tendo direcionado a liderança da Santa Sé para um religioso de extração italiana.
De forma isolada, a escolha de um cardeal da América do Sul aparentava ser menos surpreendente que a de um jesuíta. Desde o conclave de 1978, relativo à substituição de Paulo VI, americanos têm sido cogitados para o papado. Cite-se o caso pioneiro de dom Ivo Lorscheider, aludido até em filme de Francis Ford Coppola – O Poderoso Chefão III, de 1990.
No presente processo, cogitou-se ao longo de dias a possibilidade de um canadense, brasileiro, hondurenho, argentino, mexicano ou até norte-americano assumir a Santa Sé. Asiáticos e africanos foram mencionados também, o que simboliza de modo premente a necessidade de ‘deseuropeizar’ a Igreja Católica.
Quanto à nacionalidade do primeiro cardeal, ele (Marc Ouellet) seria a ponte entre o mundo latino e o americano, sem retirar-se a Santa Sé da extensão norte-atlântica, de características mais tradicionais.
Paralelamente, sua indicação proporcionaria à sociedade francesa a retomada do prestígio de uma cultura com vínculos com a Igreja contados desde o remoto século V, quando o rei dos francos, Clóvis (modernamente Luís), se converteu ao cristianismo. Desde então, a França se considera a filha dileta da instituição.
No tocante aos purpurados hispano-americanos, um deles representaria a conexão com a maioria da população católica em todo o globo. Sob a perspectiva cultural, seria um sumo pontífice cujo idioma de nascença atingiria três continentes.
De modo indireto, são os hispanos a comunidade renovadora da Igreja nos Estados Unidos, marcada por sucessivas ondas migratórias, ainda que minoritárias no início, desde o século XVII: irlandeses, alemães do sul, italianos, espanhóis e portugueses. Nos dias atuais, o catolicismo, ao ser considerado isoladamente, é a maior denominação cristã naquele país.
Concernente ao brasileiro, ele seria o representante da maior sociedade formalmente católica, apesar de cada vez mais decrescente no número de fiéis, em função do crescimento de adeptos do neopentecostalismo desde a década de 70.
Decidido na escolha do papa um perfil de transição, o que implicaria também idade avançada, o colégio cardinalício teria poucas opções entre os septuagenários americanos se fossem excluídos brasileiros e estadunidenses.
O objetivo pode ter sido o de manter a estrutura representativa cardinalícia sem mudanças abruptas, visto que um deles poderia reformá-la ao levar em conta o número de adeptos em cada um dos países, o que prejudicaria a Europa.
Eis um dos possíveis motivos para o sobressair de um argentino, ainda mais depois do impasse entre os próprios europeus, indecisos entre italianos e alemães.
Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.
Última atualização em Qui, 28 de Março de 2013
Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.
Escrito por Virgilio Arraes
2013 já representa um ano extremamente importante para a história da Santa Sé por um par de motivações: a renúncia espontânea de um pontífice e a escolha de um improvável sucessor até poucos dias, por duas causas.
Quanto ao primeiro item, não se assistia ao despojar-se de um sumo pontífice desde o Grande Cisma, na fase final da Idade Média (1378-1417), quando três papas concorrentes foram influenciados a retirar-se do principal proscênio eclesial.
Naquela época, Roma e Avinhão, apoiada inicialmente pelos reis ibéricos após o despontar da crise, disputaram a primazia física da representação da cristandade ocidental. Durante a última fase da estranha disputa, existiu até mesmo a tentativa de estabelecer-se uma terceira sede na península itálica, Pisa.
No tocante ao segundo ponto, houve, até a primeira metade de março último, duas históricas interdições informais constantes nos processos sucessórios: o ‘antijesuitismo’, em vista do temor do aparente poderio da Companhia de Jesus dentro da Igreja, e o europeísmo, em face da tradição milenar da instituição.
Desta maneira, o apontamento do Arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, para o trono petrino eliminou de maneira simultânea aquelas duradouras restrições, mesmo tendo direcionado a liderança da Santa Sé para um religioso de extração italiana.
De forma isolada, a escolha de um cardeal da América do Sul aparentava ser menos surpreendente que a de um jesuíta. Desde o conclave de 1978, relativo à substituição de Paulo VI, americanos têm sido cogitados para o papado. Cite-se o caso pioneiro de dom Ivo Lorscheider, aludido até em filme de Francis Ford Coppola – O Poderoso Chefão III, de 1990.
No presente processo, cogitou-se ao longo de dias a possibilidade de um canadense, brasileiro, hondurenho, argentino, mexicano ou até norte-americano assumir a Santa Sé. Asiáticos e africanos foram mencionados também, o que simboliza de modo premente a necessidade de ‘deseuropeizar’ a Igreja Católica.
Quanto à nacionalidade do primeiro cardeal, ele (Marc Ouellet) seria a ponte entre o mundo latino e o americano, sem retirar-se a Santa Sé da extensão norte-atlântica, de características mais tradicionais.
Paralelamente, sua indicação proporcionaria à sociedade francesa a retomada do prestígio de uma cultura com vínculos com a Igreja contados desde o remoto século V, quando o rei dos francos, Clóvis (modernamente Luís), se converteu ao cristianismo. Desde então, a França se considera a filha dileta da instituição.
No tocante aos purpurados hispano-americanos, um deles representaria a conexão com a maioria da população católica em todo o globo. Sob a perspectiva cultural, seria um sumo pontífice cujo idioma de nascença atingiria três continentes.
De modo indireto, são os hispanos a comunidade renovadora da Igreja nos Estados Unidos, marcada por sucessivas ondas migratórias, ainda que minoritárias no início, desde o século XVII: irlandeses, alemães do sul, italianos, espanhóis e portugueses. Nos dias atuais, o catolicismo, ao ser considerado isoladamente, é a maior denominação cristã naquele país.
Concernente ao brasileiro, ele seria o representante da maior sociedade formalmente católica, apesar de cada vez mais decrescente no número de fiéis, em função do crescimento de adeptos do neopentecostalismo desde a década de 70.
Decidido na escolha do papa um perfil de transição, o que implicaria também idade avançada, o colégio cardinalício teria poucas opções entre os septuagenários americanos se fossem excluídos brasileiros e estadunidenses.
O objetivo pode ter sido o de manter a estrutura representativa cardinalícia sem mudanças abruptas, visto que um deles poderia reformá-la ao levar em conta o número de adeptos em cada um dos países, o que prejudicaria a Europa.
Eis um dos possíveis motivos para o sobressair de um argentino, ainda mais depois do impasse entre os próprios europeus, indecisos entre italianos e alemães.
Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.
Última atualização em Qui, 28 de Março de 2013
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Israel
Roger Waters, do Pink Floyd, prega bloqueio a Israel semelhante ao feito à África do Sul durante apartheid
Posted: 22 Mar 2013 07:10 AM PDT
Um dos fundadores do Pink Floyd, Roger Waters é o artista mais famoso a participar do Tribunal Russell para a Palestina. Waters defende sanções a Israel nos moldes às aplicadas à África do Sul, durante o apartheid. Ele defende Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel pelos crimes cometidos contra palestinos e pelo não reconhecimento da Palestina.
No último final de semana o Tribunal se reuniu em Bruxelas:
Na reunião que encerrou os trabalhos, que contou com a presença de centenas de pessoas em Bruxelas, os membros do "júri", entre os quais a ativista dos direitos humanos Angela Davis e o ex-líder da banda Pink Floyd Roger Waters, adotaram 26 recomendações para ações futuras.
Além da mobilização da opinião pública para que "Israel ponha fim às violações do direito internacional", o júri reclamou o encaminhamento do caso para o Tribunal Penal Internacional (TPI).
O reconhecimento da Palestina como Estado observador na ONU, a 29 de novembro, dá aos palestinos o direito de o fazer, defende o tribunal.
"O tribunal apoia os apelos da sociedade civil palestina para que o TPI abra imediatamente uma investigação aos crimes contra a humanidade e de guerra que lhe sejam apresentados", refere o documento com as conclusões dos trabalhos que foi divulgado no domingo.
O Tribunal Russell recomendou ainda a retomada da comissão especial da ONU para o Apartheid, desta vez para examinar a situação dos palestinos, e apelou à suspensão do acordo de cooperação entre a União Europeia e Israel e ao fim das importações de produtos de colónias israelitas nos territórios ocupados. [Fonte]
(Blog do Mello)
Posted: 22 Mar 2013 07:10 AM PDT
Um dos fundadores do Pink Floyd, Roger Waters é o artista mais famoso a participar do Tribunal Russell para a Palestina. Waters defende sanções a Israel nos moldes às aplicadas à África do Sul, durante o apartheid. Ele defende Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel pelos crimes cometidos contra palestinos e pelo não reconhecimento da Palestina.
No último final de semana o Tribunal se reuniu em Bruxelas:
Na reunião que encerrou os trabalhos, que contou com a presença de centenas de pessoas em Bruxelas, os membros do "júri", entre os quais a ativista dos direitos humanos Angela Davis e o ex-líder da banda Pink Floyd Roger Waters, adotaram 26 recomendações para ações futuras.
Além da mobilização da opinião pública para que "Israel ponha fim às violações do direito internacional", o júri reclamou o encaminhamento do caso para o Tribunal Penal Internacional (TPI).
O reconhecimento da Palestina como Estado observador na ONU, a 29 de novembro, dá aos palestinos o direito de o fazer, defende o tribunal.
"O tribunal apoia os apelos da sociedade civil palestina para que o TPI abra imediatamente uma investigação aos crimes contra a humanidade e de guerra que lhe sejam apresentados", refere o documento com as conclusões dos trabalhos que foi divulgado no domingo.
O Tribunal Russell recomendou ainda a retomada da comissão especial da ONU para o Apartheid, desta vez para examinar a situação dos palestinos, e apelou à suspensão do acordo de cooperação entre a União Europeia e Israel e ao fim das importações de produtos de colónias israelitas nos territórios ocupados. [Fonte]
(Blog do Mello)
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Cuba
Com dificuldades e contradições, um povo revolucionário sobrevive em Cuba Escrito por Alexandre Haubrich, de Cuba, especial para o Correio da Cidadania
Nas estreitas ruas de Vedado, um dos bairros centrais de Havana, é difícil cruzar uma quadra sem ter de desviar de algum cubano que, sentado na soleira da porta de casa, com as pernas dobradas em direção ao peito, lê um jornal, fuma um charuto ou simplesmente observa o movimento de alguns carros antigos ou de senhoras que andam poucos metros para comprar frutas em uma pequena banca privada. Geralmente são aposentados. À tarde os mais jovens estão todos trabalhando, e os ainda mais jovens estão todos na escola.
Na pequena praia de Siboney, há 12 km de Santiago de Cuba, na outra ponta da ilha, é muito difícil encontrar uma mulher na rua. Os homens, sim, estão todos zanzando entre as casas, conversando. Alguns trabalham reconstruindo o patrimônio que o furacão mais recente destruiu. As mulheres estão em casa, cuidando dos afazeres domésticos. No fim da tarde chegam alguns caminhões carregados de trabalhadores, outros de crianças que há pouco se despediram dos professores em alguma cidade próxima.
Em um hotel de grande porte em uma região turística de Havana, diversos atendentes com cara de poucos amigos estão na recepção ou em guichês menores, onde se alugam carros ou se trocam euros ou dólares – mais o primeiro do que o segundo – por CUCs, a moeda cubana exclusiva para turismo e que criou um abismo de desigualdade entre os que trabalham nesse setor e todos os outros. Não é improvável que um funcionário hoteleiro esteja oferecendo a um turista gringo com quem conversa uma caixa de charutos por um preço dez vezes mais barato do que nas lojas oficias. A probabilidade de o charuto não ser da marca que diz ser é grande, mas também é possível que seja verdadeiro e tenha sido “retirado” da fábrica por algum funcionário padrão.
À frente do hotel, atrás do hotel e aos lados do hotel, outdoors lembram os feitos dos revolucionários e trazem como lemas frases de Martí, Fidel, Che, Raúl e Camilo. Outdoors como estes também estão nas estradas que levam a Siboney e em todas as pequenas cidades que se deve deixar para trás para ir de Havana, no extremo ocidente cubano, até Santiago de Cuba, a maior cidade ao Leste.
As quatro pequenas histórias são representativas de uma grande parte do cotidiano do povo cubano. Mas Cuba são muitas. Dizia Marx que apenas no comunismo as individualidades poderiam ser plenamente usufruídas. Na tentativa socialista de igualdade também se destacam as diferenças, seja entre as pessoas, seja entre cidades de grande e de pequeno porte, seja entre as regiões Ocidental e Oriental. Mesmo assim, em medidas variáveis, algumas questões estão sempre presentes para todos os cubanos. Para o bem e para o mal.
Escola e segurança
Durante o dia as ruas cubanas estão vazias de crianças. Nada. Nenhuma. Estão todas na escola, e só podem ser vistas ao meio dia, quando algumas saem para almoçar, ou no fim da tarde, quando voltam para casa – com exceção das menores, quase sempre sozinhas ou com amigos. A violência não é uma preocupação de ninguém. “Em Cuba estás sempre seguro”, parece um mantra combinado entre todos os que respondem sobre qualquer perigo em sair à noite por ruas nem sempre bem iluminadas.
Os Comitês de Defesa da Revolução (CDR`s) estão em todos os quarteirões, e deles participa grande parte dos vizinhos. Ali desenvolvem ações culturais, cuidam para que todos os adultos estejam trabalhando e para que todas as crianças estejam nas escolas, e cuidam para que nada aconteça na região sem que toda a comunidade saiba e se empenhe em resolver um possível problema. Não são espaços armados, é a própria relação de comunidade estabelecida entre os vizinhos que impede qualquer movimento estranho ao bairro e aos interesses da população. Quase não se vê guardas nas ruas, e é ainda mais difícil encontrá-los armados. É a população quem, armada principalmente de coesão e solidariedade, garante a segurança geral.
Enquanto as crianças estão na escola, os pais e mães estão trabalhando. Cada vez menos em serviços estatais. Para combater a crise econômica iniciada com o fim da União Soviética, o governo começou a abrir possibilidades de trabalho na iniciativa privada. Para tentar aumentar os salários, recentemente 400 mil pessoas foram demitidas, e estimuladas a se lançarem em negócios próprios. Saem com aporte financeiro e a possibilidade de voltar ao setor estatal caso não se acertem em suas novas empresas, mas saem. E muitos mais ainda devem sair. A crise econômica é séria. Mantém os salários baixos e faz os preços subirem.
Soluções se transformaram em problemas
O forte estímulo ao turismo a partir dos anos 1990 e a criação de uma segunda moeda, puramente turística – o CUC –, foram soluções imediatas para inserir divisas na economia cubana, mas agora se tornaram problemas que acentuam a desigualdade e levam a parte do povo a ilusão da riqueza fácil e da ideologia capitalista. Quem trabalha com turismo ganha muito mais por conta da moeda supervalorizada em relação ao Peso Cubano e, no contato com os turistas, muitas vezes passa a acreditar que sair do país traria grandes vantagens financeiras.
São exceções, mas não é impossível encontrar cubanos que dizem abertamente querer sair do país. Mas nenhum deles quer ir embora por questões políticas. Todos os que pretendem deixar Cuba reclamam dos baixos salários e dos altos preços e acreditam que em outros países sua situação seria diferente – é o que veem, por exemplo, nas novelas brasileiras que infestam a televisão cubana todas as manhãs, bem cedo, e gruda os cubanos nos dramas burgueses de Por Amor e Insensato Coração. Nem todos têm a informação de que terão que pagar por privilégios que em Cuba são direitos, a começar por Saúde e Educação.
Direitos básicos garantidos
Todo cubano nasce com direito garantido à Saúde e à Educação. De uma simples gripe a um violento câncer, tudo será tratado de graça. Há pequenos postos médicos por todos os lados, inclusive nos museus e hotéis. E nada é pago. O filho de Maria, uma senhora de cerca de 60 anos que aluga quartos para turistas em Havana, teve aos 17 anos uma doença que subitamente o deixou sem os movimentos nas pernas e com outras limitações motoras. Desde lá, 18 anos atrás, três vezes por semana uma ambulância o busca para levá-lo ao hospital, onde segue seu tratamento. Nunca pagou um centavo por nada disso.
O mesmo acontece com a Educação. Faltam canetas em toda Cuba, mas não falta escola para ninguém. E é muito difícil encontrar um cubano com mais de 30 anos que não tenha pelo menos uma formação de Ensino Superior. Taxistas-engenheiros e agricultores-agrônomos são o que mais se encontra. É possível inclusive encontrar agricultores-filósofos. Até antes do fim da União Soviética, quando o país tinha melhores condições econômicas, todo cubano cursava alguma faculdade. Hoje nem todos o fazem, muitos passam da escola para cursos técnicos, buscando trabalhos que os podem pagar melhor – em Cuba são os trabalhos privados que dão mais dinheiro, por conta da dificuldade do Estado em manter um bom nível salarial.
A maior parte dos cubanos que trabalham no setor estatal ganha entre 350 e 500 pesos. Um diretor de escola ou um médico com muita estrada podem chegar a ganhar 600. O problema é que a dupla moeda, com o CUC valendo 24 pesos, e a predominância do turismo fazem com que os preços subam muito. Um pacote de bolacha recheada custa cerca de 2 CUC – o que quer dizer 48 Pesos, mais de um décimo do salário da maioria. Uma televisão nova custa 250 Pesos, mas todos as têm, muitas compradas usadas, outras presenteadas por parentes que trabalham fora do país.
A alimentação básica, em contrapartida, está garantida graças à instituição da libreta, um caderninho que controla o consumo de uma cesta básica altamente subsidiada pelo Estado. Alimentação e higiene básicas recebem esses subsídios até determinado limite de consumo pessoal. Por exemplo, todo cubano tem direito a um pão francês por dia na libreta, a cinco centavos de Peso. Pode comprar mais, fora da libreta, mas aí vai custar um Peso cada. Algo semelhante acontece com o leite: 20 centavos de Peso na libreta, 5 Pesos fora dela.
Os salários são baixos, é verdade, mas além de Saúde e Educação totalmente gratuitas e da cesta básica subsidiada, também o setor cultural é absolutamente acessível. Nos fins de semana se formam filas em frente aos cinemas e teatros, que cobram apenas dois Pesos Cubanos por sessão. A sorveteria Copélia, a maior e mais famosa do país, também recebe filas enormes, que fazem curvas em torno do parque que a cerca. A bola de sorvete custa 1 Peso Cubano, mesmo preço de alguns dos livros expostos na Feira do Livro de Havana – embora a maioria custe um pouco mais, cerca de 20 Pesos –, que acontece em um antiquíssimo castelo em um canto da cidade. Ônibus quase enfileirados saem do centro da capital todos os dias durante a Feira para levar a multidão ao reino dos livros.
Quando a Revolução acompanha a sociedade
O trânsito de veículos está longe de ser um problema em Cuba, mas nenhum dos carros antigos que circulam por qualquer cidade cubana precisa parar para que seu motorista ou seus passageiros observem os grandes outdoors revolucionários que estão por todos os lados. Os painéis trazem imagens de heróis como Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Frank País e José Martí, sempre acompanhadas de frases fortes, marcantes. Os lemas revolucionários, nas vozes deles, de Fidel ou de Raúl são estímulos a seguir a luta ou lembranças sobre como aprimorar ações pessoais. “Sejamos como o Che”, dizem algumas, reproduzindo frase de Fidel.
A Revolução está em todos os lugares de Cuba, seja com os painéis seja com o povo organizado. Uma grande parte da população participa de alguma das organizações de massa – Central dos Trabalhadores Cubanos (CTC), União dos Jovens Comunistas (UJC), Federação das Mulheres Cubanas (FMC), Federação dos Estudantes Universitários (FEU), Associação Nacional dos Pequenos Agricultores Cubanos (ANAP, na sigla em espanhol), FAR (Forças Armadas Revolucionárias). Além dos espaços dessas instituições, presentes também de forma local e setorial, os cubanos estão organizados nos já citados Comitês de Defesa da Revolução, e também lá participam efetivamente, em reuniões deliberativas que chegam a reunir 40 pessoas do mesmo quarteirão em uma noite de domingo. Os CDR`s são como associações de bairro com funções político-cultural-sociais que vão muito além do comum nessas associações no Brasil.
Quando a sociedade acompanha a Revolução
O povo cubano é um povo educado, politizado e solidário – ainda que muitas vezes bastante fechado. Acostumou-se às dificuldades, acostumou-se a participar de toda a vida do país, acostumou-se a pensar e acostumou-se a pensar para além do próprio umbigo. Nenhum cubano é uma ilha. Todos souberam e se solidarizaram profundamente com o incêndio na boate em Santa Maria. Difícil encontrar alguém que, identificando um brasileiro, não engolisse em seco para dar os pêsames e manifestar solidariedade. Não há banalização da morte. Tremem de indignação contra injustiças cometidas em qualquer lugar do mundo, com a exata atitude que, para o Che, definia um revolucionário.
Internacionalistas, a morte de um presidente aliado é a morte de seu próprio líder. Muitos cubanos têm parentes ou amigos trabalhando na Venezuela, nas missões sociais criadas por Hugo Chávez. Mesmo os que não os têm lamentavam profundamente a doença do presidente venezuelano, baixavam a voz e os olhos para falar sobre ela. Os cubanos sentiram toda a doença de Hugo Chávez como a doença de um amigo.
Quando a sociedade não acompanha a Revolução
Mesmo os mais de 50 anos de Revolução não conseguiram ainda criar o “homem novo” sonhado por Che. Expurgados das instituições cubanas, o machismo, o racismo e a homofobia – este aparentemente com menos intensidade do que os outros – ainda persistem com força entre as camadas médias da população.
Em um estádio de beisebol, um ambiente predominantemente masculino, no jogo entre Industrialies – o time de Havana – e Cienfuegos – da cidade de mesmo nome –, alguns casais de homens circulavam tranquilamente nas arquibancadas. Um desses casais, dois homens mirrados, discutiu fortemente durante a partida com um outro homem, talvez o mais musculoso do estádio. Mas a discussão nada tinha a ver com a orientação sexual de ninguém. Era sobre o jogo, e o calor da discussão aos gritos entre desconhecidos em momento algum levou a qualquer ameaça de agressão – mesmo considerando a enorme disparidade entre os “oponentes”. Outras discussões assim aconteceram naquela noite e, mesmo sem separação entre as torcidas, nenhum caso de violência aconteceu.
Ao mesmo tempo, uma senhora que hospeda turistas fica incomodada com uma suíça que, noite atrás de noite, leva um cubano para repartir a cama. O incômodo não é por ser homem, mas por ser negro. “Geralmente esses que não querem trabalhar, que procuram mulheres europeias para tentar ir embora atrás de mais dinheiro, são negros. Não sou racista, mas geralmente são os negros que não querem trabalhar”, diz ela.
Os homens da praia de Siboney, aqueles que estão zanzando pelas ruas enquanto suas esposas cuidam da casa, não só conversam entre eles. A cada mulher que passa os gracejos acontecem, de estalar de lábios simulando beijos até as velhas cantadas grosseiras. Siboney extrapola o nível comum, mas esse tipo de situação é normal em toda a ilha.
Quando a Revolução não acompanha a sociedade
As dificuldades econômicas são uma realidade, e é difícil distinguir o que é resultado do bloqueio estadunidense, do passado colonial e da inserção em uma região historicamente explorada e, como tal, pobre. Fato é que essas dificuldades existem, e o turismo, além de criar desigualdades antes inexistentes, mostra aos cubanos que nos países capitalistas algumas pessoas têm muito. Só esquece de mostrar que muitas outras pessoas não têm nada ou quase nada, já que geralmente não são os pobres os que fazem turismo pelas praias do Caribe. Essa situação cria em alguns cubanos um descontentamento que, em certos, casos, faz com que pensem em sair do país. Em outros casos, mais comuns, o que se procura é melhorar um pouco a condição financeira, poder dar-se alguns luxos a mais, sem precisar sair do país. É aí que entra o “jeitinho cubano”.
Da mesma forma pela qual o turismo virou incremento de renda ao Estado, virou incremento de renda à população. Do charuto retirado da fábrica – ou falsificado – até as corridas de táxi supervalorizadas, as formas de conseguir alguns CUCs a mais – o que faz grande diferença no orçamento, dada a supervalorização em relação ao Peso Cubano – são as mais variadas.
Não existe taxímetro em Cuba. As corridas são negociadas, e o preço é sempre jogado lá em cima para acabar cobrado – se bem negociado – lá embaixo. Mas isso é um problema de turista, os cubanos quase não andam de táxi, a não ser táxis coletivos – carros maiores que vão pegando as pessoas e seguindo o trajeto que melhor se adapte às necessidades de todos. Moedas de Peso Cubano com o rosto de Che Guevara também são vendidas a turistas. Valem três Pesos, ou seja, 12 centavos de CUC – equivalente ao dólar –, mas são vendidas por pelo menos 5 CUCs. Carros alugados parados por policiais rodoviários que subentendem a possibilidade de suborno também não são improváveis. Mas também existem versões legalizadas desse “jeitinho”, como o serviço de guia turístico oferecido a todo instante nas proximidades dos principais museus e praças.
Ao redor de alguns pontos turísticos ou dos hotéis mais caros alguns cubanos pedem aos turistas artigos raros na ilha. A chegada desses artigos a Cuba é dificultada pelo bloqueio, que encarece qualquer importação. Sabonetes e canetas estão entre os mais pedidos. Comida, jamais.
Volta ao capitalismo?
Com participação política e dificuldades econômicas, os cubanos vivem. Sem luxos, com alguma desigualdade recente, mas com os direitos básicos garantidos, eles vivem. Com o bloqueio estadunidense e com parcerias com Venezuela, Rússia e China, a Revolução sobrevive e muda. As possibilidades de volta ao capitalismo abertas pela criação de mais e mais empresas privadas são refutadas pela população. É difícil encontrar alguém que queira desistir do socialismo. A crítica é sempre à economia, mas a manutenção do sistema político parece ser vontade de todos. Um taxista que admite querer o capitalismo de volta usa o modelo chinês como exemplo do que queria para seu país. A discussão sobre as mudanças do modelo, chamadas em Cuba de atualizações, envolve o medo de retorno ao capitalismo, mas o discurso oficial – com o qual a população concorda – é de que não se abrirá mão de nenhuma das conquistas da Revolução.
A dificuldade na renovação de quadros, por outro lado, é uma realidade. Os cubanos mais velhos, que nasceram antes ou junto com a Revolução, mostram preocupação sempre que perguntados sobre a juventude do país. A constante presença de estrangeiros cria nos jovens expectativas e interesses que antes não existiam, quase sempre relacionados ao consumo. Ao mesmo tempo, a União de Jovens Comunistas é uma das organizações mais fortes do país, e o novo nome forte do governo cubano, vice-presidente recém empossado, é Miguel Díaz-Canel, 52 anos, cuja trajetória política está totalmente ligada à UJC.
Em entrevista recente o líder revolucionário Fidel Castro, ao responder pergunta sobre as atualizações do modelo, disse que “a maior mudança foi a Revolução”. Se teremos outra mudança desse tamanho – no caminho inverso –, é impossível prever, mas a sociedade cubana, com todas suas contradições, está convicta de que preservar suas conquistas é essencial. E organizada para isso.
Alexandre Haubrich é jornalista.
Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você po
Nas estreitas ruas de Vedado, um dos bairros centrais de Havana, é difícil cruzar uma quadra sem ter de desviar de algum cubano que, sentado na soleira da porta de casa, com as pernas dobradas em direção ao peito, lê um jornal, fuma um charuto ou simplesmente observa o movimento de alguns carros antigos ou de senhoras que andam poucos metros para comprar frutas em uma pequena banca privada. Geralmente são aposentados. À tarde os mais jovens estão todos trabalhando, e os ainda mais jovens estão todos na escola.
Na pequena praia de Siboney, há 12 km de Santiago de Cuba, na outra ponta da ilha, é muito difícil encontrar uma mulher na rua. Os homens, sim, estão todos zanzando entre as casas, conversando. Alguns trabalham reconstruindo o patrimônio que o furacão mais recente destruiu. As mulheres estão em casa, cuidando dos afazeres domésticos. No fim da tarde chegam alguns caminhões carregados de trabalhadores, outros de crianças que há pouco se despediram dos professores em alguma cidade próxima.
Em um hotel de grande porte em uma região turística de Havana, diversos atendentes com cara de poucos amigos estão na recepção ou em guichês menores, onde se alugam carros ou se trocam euros ou dólares – mais o primeiro do que o segundo – por CUCs, a moeda cubana exclusiva para turismo e que criou um abismo de desigualdade entre os que trabalham nesse setor e todos os outros. Não é improvável que um funcionário hoteleiro esteja oferecendo a um turista gringo com quem conversa uma caixa de charutos por um preço dez vezes mais barato do que nas lojas oficias. A probabilidade de o charuto não ser da marca que diz ser é grande, mas também é possível que seja verdadeiro e tenha sido “retirado” da fábrica por algum funcionário padrão.
À frente do hotel, atrás do hotel e aos lados do hotel, outdoors lembram os feitos dos revolucionários e trazem como lemas frases de Martí, Fidel, Che, Raúl e Camilo. Outdoors como estes também estão nas estradas que levam a Siboney e em todas as pequenas cidades que se deve deixar para trás para ir de Havana, no extremo ocidente cubano, até Santiago de Cuba, a maior cidade ao Leste.
As quatro pequenas histórias são representativas de uma grande parte do cotidiano do povo cubano. Mas Cuba são muitas. Dizia Marx que apenas no comunismo as individualidades poderiam ser plenamente usufruídas. Na tentativa socialista de igualdade também se destacam as diferenças, seja entre as pessoas, seja entre cidades de grande e de pequeno porte, seja entre as regiões Ocidental e Oriental. Mesmo assim, em medidas variáveis, algumas questões estão sempre presentes para todos os cubanos. Para o bem e para o mal.
Escola e segurança
Durante o dia as ruas cubanas estão vazias de crianças. Nada. Nenhuma. Estão todas na escola, e só podem ser vistas ao meio dia, quando algumas saem para almoçar, ou no fim da tarde, quando voltam para casa – com exceção das menores, quase sempre sozinhas ou com amigos. A violência não é uma preocupação de ninguém. “Em Cuba estás sempre seguro”, parece um mantra combinado entre todos os que respondem sobre qualquer perigo em sair à noite por ruas nem sempre bem iluminadas.
Os Comitês de Defesa da Revolução (CDR`s) estão em todos os quarteirões, e deles participa grande parte dos vizinhos. Ali desenvolvem ações culturais, cuidam para que todos os adultos estejam trabalhando e para que todas as crianças estejam nas escolas, e cuidam para que nada aconteça na região sem que toda a comunidade saiba e se empenhe em resolver um possível problema. Não são espaços armados, é a própria relação de comunidade estabelecida entre os vizinhos que impede qualquer movimento estranho ao bairro e aos interesses da população. Quase não se vê guardas nas ruas, e é ainda mais difícil encontrá-los armados. É a população quem, armada principalmente de coesão e solidariedade, garante a segurança geral.
Enquanto as crianças estão na escola, os pais e mães estão trabalhando. Cada vez menos em serviços estatais. Para combater a crise econômica iniciada com o fim da União Soviética, o governo começou a abrir possibilidades de trabalho na iniciativa privada. Para tentar aumentar os salários, recentemente 400 mil pessoas foram demitidas, e estimuladas a se lançarem em negócios próprios. Saem com aporte financeiro e a possibilidade de voltar ao setor estatal caso não se acertem em suas novas empresas, mas saem. E muitos mais ainda devem sair. A crise econômica é séria. Mantém os salários baixos e faz os preços subirem.
Soluções se transformaram em problemas
O forte estímulo ao turismo a partir dos anos 1990 e a criação de uma segunda moeda, puramente turística – o CUC –, foram soluções imediatas para inserir divisas na economia cubana, mas agora se tornaram problemas que acentuam a desigualdade e levam a parte do povo a ilusão da riqueza fácil e da ideologia capitalista. Quem trabalha com turismo ganha muito mais por conta da moeda supervalorizada em relação ao Peso Cubano e, no contato com os turistas, muitas vezes passa a acreditar que sair do país traria grandes vantagens financeiras.
São exceções, mas não é impossível encontrar cubanos que dizem abertamente querer sair do país. Mas nenhum deles quer ir embora por questões políticas. Todos os que pretendem deixar Cuba reclamam dos baixos salários e dos altos preços e acreditam que em outros países sua situação seria diferente – é o que veem, por exemplo, nas novelas brasileiras que infestam a televisão cubana todas as manhãs, bem cedo, e gruda os cubanos nos dramas burgueses de Por Amor e Insensato Coração. Nem todos têm a informação de que terão que pagar por privilégios que em Cuba são direitos, a começar por Saúde e Educação.
Direitos básicos garantidos
Todo cubano nasce com direito garantido à Saúde e à Educação. De uma simples gripe a um violento câncer, tudo será tratado de graça. Há pequenos postos médicos por todos os lados, inclusive nos museus e hotéis. E nada é pago. O filho de Maria, uma senhora de cerca de 60 anos que aluga quartos para turistas em Havana, teve aos 17 anos uma doença que subitamente o deixou sem os movimentos nas pernas e com outras limitações motoras. Desde lá, 18 anos atrás, três vezes por semana uma ambulância o busca para levá-lo ao hospital, onde segue seu tratamento. Nunca pagou um centavo por nada disso.
O mesmo acontece com a Educação. Faltam canetas em toda Cuba, mas não falta escola para ninguém. E é muito difícil encontrar um cubano com mais de 30 anos que não tenha pelo menos uma formação de Ensino Superior. Taxistas-engenheiros e agricultores-agrônomos são o que mais se encontra. É possível inclusive encontrar agricultores-filósofos. Até antes do fim da União Soviética, quando o país tinha melhores condições econômicas, todo cubano cursava alguma faculdade. Hoje nem todos o fazem, muitos passam da escola para cursos técnicos, buscando trabalhos que os podem pagar melhor – em Cuba são os trabalhos privados que dão mais dinheiro, por conta da dificuldade do Estado em manter um bom nível salarial.
A maior parte dos cubanos que trabalham no setor estatal ganha entre 350 e 500 pesos. Um diretor de escola ou um médico com muita estrada podem chegar a ganhar 600. O problema é que a dupla moeda, com o CUC valendo 24 pesos, e a predominância do turismo fazem com que os preços subam muito. Um pacote de bolacha recheada custa cerca de 2 CUC – o que quer dizer 48 Pesos, mais de um décimo do salário da maioria. Uma televisão nova custa 250 Pesos, mas todos as têm, muitas compradas usadas, outras presenteadas por parentes que trabalham fora do país.
A alimentação básica, em contrapartida, está garantida graças à instituição da libreta, um caderninho que controla o consumo de uma cesta básica altamente subsidiada pelo Estado. Alimentação e higiene básicas recebem esses subsídios até determinado limite de consumo pessoal. Por exemplo, todo cubano tem direito a um pão francês por dia na libreta, a cinco centavos de Peso. Pode comprar mais, fora da libreta, mas aí vai custar um Peso cada. Algo semelhante acontece com o leite: 20 centavos de Peso na libreta, 5 Pesos fora dela.
Os salários são baixos, é verdade, mas além de Saúde e Educação totalmente gratuitas e da cesta básica subsidiada, também o setor cultural é absolutamente acessível. Nos fins de semana se formam filas em frente aos cinemas e teatros, que cobram apenas dois Pesos Cubanos por sessão. A sorveteria Copélia, a maior e mais famosa do país, também recebe filas enormes, que fazem curvas em torno do parque que a cerca. A bola de sorvete custa 1 Peso Cubano, mesmo preço de alguns dos livros expostos na Feira do Livro de Havana – embora a maioria custe um pouco mais, cerca de 20 Pesos –, que acontece em um antiquíssimo castelo em um canto da cidade. Ônibus quase enfileirados saem do centro da capital todos os dias durante a Feira para levar a multidão ao reino dos livros.
Quando a Revolução acompanha a sociedade
O trânsito de veículos está longe de ser um problema em Cuba, mas nenhum dos carros antigos que circulam por qualquer cidade cubana precisa parar para que seu motorista ou seus passageiros observem os grandes outdoors revolucionários que estão por todos os lados. Os painéis trazem imagens de heróis como Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Frank País e José Martí, sempre acompanhadas de frases fortes, marcantes. Os lemas revolucionários, nas vozes deles, de Fidel ou de Raúl são estímulos a seguir a luta ou lembranças sobre como aprimorar ações pessoais. “Sejamos como o Che”, dizem algumas, reproduzindo frase de Fidel.
A Revolução está em todos os lugares de Cuba, seja com os painéis seja com o povo organizado. Uma grande parte da população participa de alguma das organizações de massa – Central dos Trabalhadores Cubanos (CTC), União dos Jovens Comunistas (UJC), Federação das Mulheres Cubanas (FMC), Federação dos Estudantes Universitários (FEU), Associação Nacional dos Pequenos Agricultores Cubanos (ANAP, na sigla em espanhol), FAR (Forças Armadas Revolucionárias). Além dos espaços dessas instituições, presentes também de forma local e setorial, os cubanos estão organizados nos já citados Comitês de Defesa da Revolução, e também lá participam efetivamente, em reuniões deliberativas que chegam a reunir 40 pessoas do mesmo quarteirão em uma noite de domingo. Os CDR`s são como associações de bairro com funções político-cultural-sociais que vão muito além do comum nessas associações no Brasil.
Quando a sociedade acompanha a Revolução
O povo cubano é um povo educado, politizado e solidário – ainda que muitas vezes bastante fechado. Acostumou-se às dificuldades, acostumou-se a participar de toda a vida do país, acostumou-se a pensar e acostumou-se a pensar para além do próprio umbigo. Nenhum cubano é uma ilha. Todos souberam e se solidarizaram profundamente com o incêndio na boate em Santa Maria. Difícil encontrar alguém que, identificando um brasileiro, não engolisse em seco para dar os pêsames e manifestar solidariedade. Não há banalização da morte. Tremem de indignação contra injustiças cometidas em qualquer lugar do mundo, com a exata atitude que, para o Che, definia um revolucionário.
Internacionalistas, a morte de um presidente aliado é a morte de seu próprio líder. Muitos cubanos têm parentes ou amigos trabalhando na Venezuela, nas missões sociais criadas por Hugo Chávez. Mesmo os que não os têm lamentavam profundamente a doença do presidente venezuelano, baixavam a voz e os olhos para falar sobre ela. Os cubanos sentiram toda a doença de Hugo Chávez como a doença de um amigo.
Quando a sociedade não acompanha a Revolução
Mesmo os mais de 50 anos de Revolução não conseguiram ainda criar o “homem novo” sonhado por Che. Expurgados das instituições cubanas, o machismo, o racismo e a homofobia – este aparentemente com menos intensidade do que os outros – ainda persistem com força entre as camadas médias da população.
Em um estádio de beisebol, um ambiente predominantemente masculino, no jogo entre Industrialies – o time de Havana – e Cienfuegos – da cidade de mesmo nome –, alguns casais de homens circulavam tranquilamente nas arquibancadas. Um desses casais, dois homens mirrados, discutiu fortemente durante a partida com um outro homem, talvez o mais musculoso do estádio. Mas a discussão nada tinha a ver com a orientação sexual de ninguém. Era sobre o jogo, e o calor da discussão aos gritos entre desconhecidos em momento algum levou a qualquer ameaça de agressão – mesmo considerando a enorme disparidade entre os “oponentes”. Outras discussões assim aconteceram naquela noite e, mesmo sem separação entre as torcidas, nenhum caso de violência aconteceu.
Ao mesmo tempo, uma senhora que hospeda turistas fica incomodada com uma suíça que, noite atrás de noite, leva um cubano para repartir a cama. O incômodo não é por ser homem, mas por ser negro. “Geralmente esses que não querem trabalhar, que procuram mulheres europeias para tentar ir embora atrás de mais dinheiro, são negros. Não sou racista, mas geralmente são os negros que não querem trabalhar”, diz ela.
Os homens da praia de Siboney, aqueles que estão zanzando pelas ruas enquanto suas esposas cuidam da casa, não só conversam entre eles. A cada mulher que passa os gracejos acontecem, de estalar de lábios simulando beijos até as velhas cantadas grosseiras. Siboney extrapola o nível comum, mas esse tipo de situação é normal em toda a ilha.
Quando a Revolução não acompanha a sociedade
As dificuldades econômicas são uma realidade, e é difícil distinguir o que é resultado do bloqueio estadunidense, do passado colonial e da inserção em uma região historicamente explorada e, como tal, pobre. Fato é que essas dificuldades existem, e o turismo, além de criar desigualdades antes inexistentes, mostra aos cubanos que nos países capitalistas algumas pessoas têm muito. Só esquece de mostrar que muitas outras pessoas não têm nada ou quase nada, já que geralmente não são os pobres os que fazem turismo pelas praias do Caribe. Essa situação cria em alguns cubanos um descontentamento que, em certos, casos, faz com que pensem em sair do país. Em outros casos, mais comuns, o que se procura é melhorar um pouco a condição financeira, poder dar-se alguns luxos a mais, sem precisar sair do país. É aí que entra o “jeitinho cubano”.
Da mesma forma pela qual o turismo virou incremento de renda ao Estado, virou incremento de renda à população. Do charuto retirado da fábrica – ou falsificado – até as corridas de táxi supervalorizadas, as formas de conseguir alguns CUCs a mais – o que faz grande diferença no orçamento, dada a supervalorização em relação ao Peso Cubano – são as mais variadas.
Não existe taxímetro em Cuba. As corridas são negociadas, e o preço é sempre jogado lá em cima para acabar cobrado – se bem negociado – lá embaixo. Mas isso é um problema de turista, os cubanos quase não andam de táxi, a não ser táxis coletivos – carros maiores que vão pegando as pessoas e seguindo o trajeto que melhor se adapte às necessidades de todos. Moedas de Peso Cubano com o rosto de Che Guevara também são vendidas a turistas. Valem três Pesos, ou seja, 12 centavos de CUC – equivalente ao dólar –, mas são vendidas por pelo menos 5 CUCs. Carros alugados parados por policiais rodoviários que subentendem a possibilidade de suborno também não são improváveis. Mas também existem versões legalizadas desse “jeitinho”, como o serviço de guia turístico oferecido a todo instante nas proximidades dos principais museus e praças.
Ao redor de alguns pontos turísticos ou dos hotéis mais caros alguns cubanos pedem aos turistas artigos raros na ilha. A chegada desses artigos a Cuba é dificultada pelo bloqueio, que encarece qualquer importação. Sabonetes e canetas estão entre os mais pedidos. Comida, jamais.
Volta ao capitalismo?
Com participação política e dificuldades econômicas, os cubanos vivem. Sem luxos, com alguma desigualdade recente, mas com os direitos básicos garantidos, eles vivem. Com o bloqueio estadunidense e com parcerias com Venezuela, Rússia e China, a Revolução sobrevive e muda. As possibilidades de volta ao capitalismo abertas pela criação de mais e mais empresas privadas são refutadas pela população. É difícil encontrar alguém que queira desistir do socialismo. A crítica é sempre à economia, mas a manutenção do sistema político parece ser vontade de todos. Um taxista que admite querer o capitalismo de volta usa o modelo chinês como exemplo do que queria para seu país. A discussão sobre as mudanças do modelo, chamadas em Cuba de atualizações, envolve o medo de retorno ao capitalismo, mas o discurso oficial – com o qual a população concorda – é de que não se abrirá mão de nenhuma das conquistas da Revolução.
A dificuldade na renovação de quadros, por outro lado, é uma realidade. Os cubanos mais velhos, que nasceram antes ou junto com a Revolução, mostram preocupação sempre que perguntados sobre a juventude do país. A constante presença de estrangeiros cria nos jovens expectativas e interesses que antes não existiam, quase sempre relacionados ao consumo. Ao mesmo tempo, a União de Jovens Comunistas é uma das organizações mais fortes do país, e o novo nome forte do governo cubano, vice-presidente recém empossado, é Miguel Díaz-Canel, 52 anos, cuja trajetória política está totalmente ligada à UJC.
Em entrevista recente o líder revolucionário Fidel Castro, ao responder pergunta sobre as atualizações do modelo, disse que “a maior mudança foi a Revolução”. Se teremos outra mudança desse tamanho – no caminho inverso –, é impossível prever, mas a sociedade cubana, com todas suas contradições, está convicta de que preservar suas conquistas é essencial. E organizada para isso.
Alexandre Haubrich é jornalista.
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José Farhat |
Política e sociedade
Falácias em torno de Israel e do sionismo - parte 4: canetas tupiniquins a serviço de fuzis sionistas
22/03/2013 | José Farhat
Ampliou-se tanto o debate em torno de artigo do Primeiro-Secretário da Embaixada da República Islâmica do Irã no Brasil, Ali Mohaghegh, intitulado O Futuro do Oriente Médio, publicado na edição de 20/08/2012 da Folha de São Paulo, como sempre fazem os defensores do Estado de Israel, que já abrangeu terras mediterrâneas, onde nasce e se põe o sol, e desde o ontem até o amanhã da questão palestina, que inegavelmente é o problema central e maior na região.
Renato Aizenman, Clovis Rossi, Salomão Schvartzmann, Zevi Ghivelder em artigos e outros comentaristas pularam em cima do diplomata iraniano, como se estivessem numa rinha de galo, encorajando a mentes abertas que analisassem o que de fato ativou tanto assanhamento.
Se eu sou mente aberta – e quem julga é quem lê o que escrevo, aqui e alhures, não deixo de ser tão alinhado quanto os acima defensores do estado judeu, só que me situo do outro lado, para cá da linha de quem pertence a uma família que se orgulha de ser brasileira, por opção e amor, há mais de um século, descendente de libanês cujo ramo palestino perdeu toda a sua aldeia de Tarbikha, onde lá estavam no mínimo e comprovadamente desde o século XII (e nenhum dos articulistas acima pode comprovar que ascendente seu jamais lá esteve, no último século, quanto mais lá plantar uma oliveira). Meus parentes da aldeia palestina foram mortos ou tangidos para desterro por sionistas que vieram de longe e só tinham sobre a terra palestina o relacionamento religioso, não exclusivo, que tem qualquer adepto das religiões monoteístas abrahâmicas: judaísmo, cristianismo e islamismo tem, nada além disto, a não ser pelo plano traçado desde o século XVIII pelo movimento sionista, para a exploração da terra da região e procurar colonizar o território palestino e transformá-lo num grande gueto, à força, por cima dos cadáveres dos donos da terra, apropriando-se das riquezas deixadas pelos habitantes expulsos. Por estas razões, declaro-me parcial com relação à Palestina que a quero livre, nas mãos dos palestinos, seus legítimos donos.
Falta sublinhar que nada tenho contra os judeus, precursores da fé que segue a senda de Abrahão, a quem as religiões que sucederam ao judaísmo lhes devem o caminho. No entanto, sou contra os sionistas que usam e abusam da religião, para justificar os crimes que vêm cometendo contra os palestinos.
Aizenman repete o chavão de que o Irã quer destruir Israel. Na verdade, “retórica do ódio e da pregação de extermínio” de um país é muito mais ouvida da parte de Israel contra o Irã do que o inverso. Rossi oportunamente indicou, em seu artigo, haver em Israel uma histeria coletiva encorajada pelo governo com segundas intenções de isto também “funcionar como pressão sobre os Estados Unidos para que se decidam a atacar o Irã sem que Israel se antecipe”. Então, é o governo israelense quem aterroriza sua própria população, não o Irã, e é o mesmo governo israelense quem incita os Estados Unidos a atacar o Irã, não o Irã. Ouve-se a toda hora as autoridades israelenses falando que devem atacar o Irã. Muitas vezes os Estados Unidos já dissuadiram Israel de atacar o Irã, a mídia abunda com detalhes de como Israel atacará o Irã e isto, todos nós sabemos, como também jamais registramos que algum país teve que impedir o Irã de atacar Israel. Aliás, a bem da verdade, o Irã nunca atacou país algum e nem existem publicações relatando tais planos e nem provocou histeria internamente. Não adianta os defensores de Israel negarem: quem faz ameaças concretas é Israel e o que escreveu o diplomata iraniano ou até o que disseram meia dúzia de vezes autoridades iranianas fica muito distante da aludida “pregação de extermínio”.
A repetição de que existem “claros indícios de [o Irã] tentar produzir armas atômicas” é um segredo de Polichinelo. Todo mundo sabe que o Irã desenvolve um programa nuclear. O governo iraniano diz tratar-se de um programa para fins pacíficos e, mesmo admitindo que o Irã simultaneamente esteja querendo chegar à produção de armas nucleares, qual o problema? Israel é detentor de centenas de ogivas, os Estados Unidos têm em todos os lados do Irã dezenas de bases militares e forças navais com capacidade nuclear, o Paquistão e a Índia têm armas nucleares, a China e a Rússia, assim como a Coreia do Norte também. Todos estes têm e qual o problema de o Irã também ter? Israel representa certamente muito mais perigo para seus vizinhos que o Irã, mesmo que não tivesse armas nucleares. Será que Israel, com esta ladainha de programa nuclear iraniano não está querendo esconder seus verdadeiros problemas?
Quando o diplomata iraniano diz que “Sem dúvida, não haverá nenhum lugar na região para os sionistas no futuro” é difícil pescar, como fez Aisenman, uma pregação da destruição de Israel. É útil lembrar que o primeiro levante de agricultores palestinos contra agricultores imigrantes sionistas aconteceu muito tempo antes do estabelecimento de Israel e foi exatamente porque eram, em tudo, absolutamente em tudo, diferentes dos habitantes da terra. Os palestinos sentiam uma concorrência lhes ser imposta e não se conformam com o que continua acontecendo há decênios a fio. Israel já perdeu a oportunidade de conviver com seus vizinhos e a razão disto foi a forma como foi implantado e a realidade de como tem se comportado. A força, a de Israel e daqueles que o apoiam, pode manter o estado enxertado na região por um tempo, decênios talvez, mas sinceramente é difícil acreditar que o estado hebreu se mantenha por séculos. O Terceiro Reich queria e não conseguiu dominar o mundo por mil anos à força, como Israel quer dominar a região, armas em punho e só tem conseguido angariar inimizade onde deveria procurar amizade. A diferença entre Alemanha e Israel é que aquela necessitou de força externa para derrotá-la e Israel, da forma como vem levando a sua vida, não encontrará quem lhe venda uma apólice de seguro. Boas lições, Israel sabe onde encontrar, basta reler a história do Apartheid na África do Sul ou, quem sabe, a da colonização europeia no continente africano, ou a queda do muro de Berlim; exemplos não faltam.
Pior ainda é aceitar o exagero de Rossi ao comparar a falta de aceitação de Israel por seus vizinhos a uma “solução final” e ainda mais quando traz desnecessariamente a um local onde ideias são debatidas uma figura como a de Adolf Hitler e compará-lo sem o cuidado que um colunista de sua categoria deveria ter, ao Líder Supremo do Irã. É um fato gratuito. Ninguém está pregando o extermínio de judeus, Clovis Rossi, não gostaria que alguém o chamasse de leviano, pois sei que não o é, mas é triste ler tais letras vindas de sua caneta. Releia a Carta das Nações Unidas, Rossi, e verá que errou ao dizer que o lugar na região “[d] o Estado de Israel foi determinado pela Assembleia-Geral das Nações Unidas”, pois este órgão da ONU não tem poderes para determinar nada, principalmente dividir a terra de alguém sem consultá-lo e muito menos dá-la de presente para um forasteiro. O máximo que a AGNU tem é poder para propor ao Conselho de Segurança aquilo que foi votado. Essa história da carochinha já foi contada tantas vezes que até um Rossi a repete e isto é péssimo. Rossi, já que despertei a sua curiosidade para reler a Carta das Nações Unidas, veja lá as atribuições do próprio Conselho de Segurança e constatará que lá não existe historinha semelhante à de Salomão, a criança, a mãe e a intrometida. Nem uma gleba de poucos alqueires pode ser dividida sem consentimento de seus donos, mesmo que não sejam donos e nela pacificamente habitam há séculos, pacífica e incontestavelmente. Os palestinos não vieram deslocar, até matar, ninguém, não foram eles, foram os sionistas quem empreenderam tal façanha odienta.
Necessário é que repisemos este ponto: os defensores de Israel – e os articulistas acima mencionados não são, e nem poderiam ser, exceção, repetem ad nauseum uma falácia agigantada que se constitui num escárnio a qualquer pessoa bem informada, ou até mesmo inocente; refere-se ela ao argumento, ao qual lhe vestem roupagem de verdade absoluta, inquestionável: trata-se de afirmar, como disseram que “Israel foi criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas” é mentira. Não há, nas atribuições da Assembleia Geral das Nações Unidas, qualquer referência a um poder de dividir um território de um povo, tirando-lhe parte, para dar a propriedade de 52% do seu todo para o estabelecimento de um estado de alienígenas.
Os defensores de Israel partem sempre de um erro crasso, quando tratam da parte que lhes interessa da questão palestina: dar à Religião um papel, uma força, que na realidade não existe senão para justificar a criação do estado israelense assim como tudo o que se relaciona a ele, através do tempo seguinte e independentemente do local onde o assunto é levantado. É inegável que do lado palestino é irrelevante dividir aqueles que têm suas raízes em terras palestinas em cristãos e muçulmanos, tendo em vista que a agressão sionista não selecionou este ou aquele adepto de uma ou outra religião para destruir suas casas e seus sonhos de um futuro normal para qualquer habitante deste planeta.
É fato notório que os mais importantes movimentos palestinos de resistência à tomada da Palestina pelos sionistas são indistintamente cristãos e muçulmanos. Este esclarecimento é importante para se entender o problema palestino, desde o nascedouro do conflito. Os sionistas conseguiram fazer com que as Nações Unidas se referissem, quando a divisão da Palestina foi submetida à AGNU, que se tratava de uma partilha entre “judeus” e “árabes” quando, na verdade e na realidade, ou seriam judeus de um lado e cristãos e muçulmanos do outro, remetendo a todos suas respectivas religiões, isto é: judeus, cristãos e muçulmanos. A intenção é clara: se os cristãos fossem mencionados traria para a questão palestina um apoio ponderável dos seguidores desta religião, através do mundo, prejudicando a questão sionista. O tempo se encarregaria, como queriam os sionistas, de fazer pensar que os “árabes” eram “muçulmanos” e, com a campanha que se seguiu mostrando ao mundo que os muçulmanos eram fundamentalistas e terroristas, ganhariam mais apoio por mais esta razão (não se deve esquecer que os muçulmanos, árabes ou não, que seguiram o caminho do fundamentalismo e do terrorismo estiveram sempre, com suas ações, favorecendo ao Israel que dizem combater). Além disto, são conhecidas as ações terroristas sionistas antes do estabelecimento de seu estado, através de bandos de destruição e terror e, depois e até os dias atuais, pelas atuações de terrorismo de estado.
Então, a divisão da Palestina ou foi entre judeus, de um lado, e cristãos e muçulmanos de outro; ou, entre árabes de um e alemães, poloneses, checos, russos ET catervas do outro, uma situação que retiraria do sionismo o caráter religioso, e que escondesse o caráter colonizador. Não é por outra razão que Israel quer hoje se apresentar como estado judeu, justificando a sua própria existência, correndo o risco de ser desmascarado e mostrar sua cara real de praticante da apartheid racista.
Convenhamos que não tenho procuração para defender o diplomata iraniano, mas apenas pretendo colocar em evidência as afirmações tendenciosas dos defensores de Israel. O iraniano poderia ser indiano, não faria diferença para mim. Se existem “calúnias fantasiosas” a respeito da extensão de Israel desde o rio Nilo até o rio Eufrates, ele não as inventou. O planeta inteiro sabe que os sionistas defendem direitos divinos sobre Israel porque a Bíblia menciona em diversos versículos os limites das terras prometidas: do Nilo ao Eufrates. Até mesmo Theodor Herzl, o fundador do sionismo, em seus Diários Completos (vol. II pg. 711 da versão inglesa) menciona “desde o rio do Egito até o Eufrates” e, tempos depois, em 09/07/1947, em seu testemunho prestado à Comissão Especial de Inquérito das Nações Unidas, o representante da Agência Judia para a Palestina, Rabino Fischmann, declarou: “A Terra Prometida se estende desde o Rio do Egito para cima até o Eufrates e inclui parte da Síria e do Líbano”. Se a redução das terras para pouco mais de cinquenta por cento do que restou da Palestina (por decisão discriminatória da potência mandatária que lhe retirou o território que denominou Transjordânia) está sendo ampliada à medida que as oportunidades aparecem ou são criadas, pelo uso da força, e já chegaram hoje a setenta e oito por cento do território palestino (excluída a Jordânia), talvez ninguém melhor que Aizenman poderá confirmar e não Mohaghegh ou o autor destas linhas qual o objetivo dessas ampliações.
A prova da extensão da pretendida Terra Prometida pode ser encontrada também em From coexistence to conquest: international law and the origins of the Arab-Israeli conflict, 1891-1949 (de Victor Kattan, Londres, Pluto Press, 2009), onde o autor indica ser este um dos problemas com a coexistência entre árabes e israelenses, dizendo: “De fato, em seus Diários, Herzl descreveu a área do estado Judeu, ele o visionou se estendendo ‘desde o rio do Egito até o Eufrates’”. Porém, caso os articulistas prefiram outra citação, vale indicar-lhes o que disse o grande herói (para os sionistas) e o maior traidor da causa palestina (para os árabes), Anwar Sadat em seu diário: The public Diary of President Sadat: The Road of Diplomacy, 1978-1979, quando escreve: “Se tivéssemos permanecido em silêncio por um momento ou [tivéssemos] fechado os nossos olhos, Israel teria realizado o sonho sionista – a Grande Israel, do Nilo ao Eufrates. Nós no Egito, que é o trampolim da Nação Árabe na História, Civilização, geografia e população, devemos contrariar este plano. A estratégia árabe nos permitirá confrontar a duradoura estratégia hostil rascunhada há muito no Congresso de Basle, chefiado por Herzl”. O leitor certamente concordará que negar evidências e contornar verdades é “um esporte nacional” para Israel e seus defensores, entre eles incluído Sadat, o primeiro árabe a reconhecer Israel, ele sozinho e seus asseclas, pois ninguém mais, a não ser o Rei da Jordânia cometeu tamanha traição contra seu povo.
Concordo com Aizenman que a Palestina não deva se transformar num “estado radical islâmico” e sim num estado onde todos os palestinos, muçulmanos ou cristãos ou judeus tenham seu quinhão de deveres antes de vantagens, pois a construção do Estado Palestino, livre e soberano, é tarefa árdua, mas os palestinos saberão como construí-lo, só eles sabem.
As “divergências internas” em Israel, a que se refere o diplomata, talvez não sejam as mesmas que eu aponto, mas também nada têm com “o caráter democrático de Israel” mencionado por Aizenman. De minha parte, em minha opinião, a tal tão cantada democracia de Israel é não mais que uma das muitas falácias, pois não existe democracia onde reina a apartheid e a discriminação, até mesmo contra judeus de origem não europeia e não somente com relação aos palestinos. O que ocorre atualmente contra os judeus etíopes é notório; chegam a ser escondidos em aldeias distantes, para que não se diga que há judeu negro.
É a realidade que vem demonstrando que Israel não quer negociar com os palestinos. Sempre que se avança um passo Israel tem repetidamente criado condições adversas. Há anos, o então Secretário Geral da Liga dos Estados Árabes e o então Ministro do Exterior do Egito levaram e entregaram, em mãos, ao governo de Israel uma proposta de negociações, aprovada em reunião dos vinte e dois chefes de estado, monarcas e presidentes árabes, oferecendo basicamente o reconhecimento coletivo de Israel por todos os países árabes e nem resposta o governo israelense deu. Todas as condições constantes da decisão árabes são negociáveis; algumas talvez nem fossem aceitáveis, mas assim mesmo Israel nem acusou recebimento do documento. Não há então como Aizenman se admirar quando Mohaghegh disse que “os povos perceberam que são inúteis e frustrantes as negociações”. Agora, quando ele sugere que esta atitude se deve ao respaldo do Ocidente, também é verdade; só que a este respaldo vem faltando qualquer tipo de entusiasmo com o passar dos anos. Ninguém aguenta mais as manhas de Israel, já ultrapassaram os limites do tolerável. Evidências não faltam até mesmo no âmbito das Nações Unidas, onde a Palestina caminha para se tornar membro pleno e vem sendo admitido em órgão após órgão e é pena que Aizenman e os demais não tenham ouvido o relato do chefe da UNRWA recentemente, aqui em São Paulo, para tomar conhecimento de mais uma faceta do comportamento israelense e do que causa aos palestinos através das décadas que se passaram desde o estabelecimento de Israel.
Os movimentos da Primavera Árabe estão ocorrendo não somente por razões econômicas - obviamente distribuição de renda gerando desemprego desenfreado à frente ocorreram também por questões políticas, internas e externas. Os ditadores de plantão não somente se mantinham no poder à força, mas também trabalhavam para perpetuar seus mandos através de herdeiros de suas próprias casas; e todos tinham sido colocados no poder pelos sucessivos imperialismos que os vinha mantendo em governos subservientes. Quem a não serem os Estados Unidos, e por trás destes seus aliados, entre os quais o sempre mais privilegiado Israel, manteve no poder por decênios: Saddam Hussein, Husni Mubarak, Bin Ali, o Saleh e outros, mortos e não chorados ou à beira dela, fora os ainda sobreviventes? Só os aqui nominalmente mencionados seriam capazes de alimentar o ódio dos povos árabes. O próprio estabelecimento do Estado de Israel em terra palestina já é, de per se, o ponto mais importante do temor “[d] as ondas crescentes de sentimentos antiamericanos e antissionistas” motivo para “tentarem insinuar ao mundo uma interpretação falsa deste movimento” de libertação nacional árabe. Há alguma dúvida de que “os governos derrubados na região eram amigos dos Estados Unidos da América e do regime sionista”, como disse o iraniano autor do artigo? Alguém acredita que Mubarak foi derrubado pelo egípcio por ser amigo de seu próprio povo ou porque o privava de gás para uso doméstico enquanto o vendia a preço vil para Israel, para citar uma só entre suas façanhas? Schvartzman e Ghivelder usam um argumento fraquíssimo para comprovar que a Primavera Árabe não teve em seu bojo “um movimento contra Israel e Estados Unidos” pelo simples “fato de que não houve, no Cairo, em Trípoli ou em Túnis, por ocasião das rebeliões populares, queima de bandeiras americanas ou israelenses”.
Os articulistas estão esquecendo-se de algo mais grave que a queima de bandeiras estrangeiras. Eles aparentemente não acompanham os acontecimentos no Egito: a embaixada de Israel foi atacada, o embaixador fugiu e não mais deu as caras, o contrato de fornecimento de gás foi revogado, as fronteiras com a Palestina (Ghaza) foram abertas, as forças armadas estão se deslocando para o deserto do Negueb pisando por cima do Acordo de Paz, o presidente egípcio demitiu os militares amigos dos Estados Unidos e indiretamente de Israel, o presidente reatou com o Irã e tem tomado atitudes favoráveis ao povo egípcio as quais invariavelmente contrariam as dos sionistas.
O ataque à Embaixada de Israel no Cairo não foi, como mencionam Schvartzman e Ghivelder “ataque cometido por um pequeno grupo de vândalos” ele foi, isto sim, uma manifestação popular contra um estado com o qual o regime mantinha relações contrariando a vontade do próprio povo. Não há um só egípcio que aceite manter o acordo de paz com Israel, enquanto durar a ocupação da Palestina. A revisão do acordo não é somente vontade do povo, mas o atual governo já se manifestou a respeito e ocorrerá logo que chegar o momento adequado; não existem dúvidas a respeito e, para constatá-lo, não é necessário ir à Praça Tahrir, é só perguntar a qualquer egípcio. Não há “pequeno grupo de vândalos” fazendo qualquer movimento no Egito; o povo egípcio, de mãos vazias e peito aberto, durante seus movimentos de libertação do jugo de Mubarak, pelo que fez contra seu povo e a favor de Estados Unidos e Israel, chegou a derrotar as forças policiais e fazer as forças armadas pensarem antes de atacar os manifestantes. Dourar pílula, Schvartzman e Ghivelder, não transforma mentiras em verdades. A revolta do povo egípcio não se manifestou apenas pelo ataque à embaixada do estado hebreu já que a embaixada saudita, como sabem os articulistas, árabe e de maioria muçulmana, também o foi, pelas razões que podem mandar seus estagiários pesquisarem.
A propósito, Schvartzman e Ghivelder, também não enganam a ninguém as frases aparentemente civilizadas e educadas de seu artigo e vamos repassá-las. Conforme dito acima, o artigo de Mohaghegh não sugere “de forma explícita, [que] um país soberano exorta a erradicação de outro país soberano” e a ideia inventada só serve de desculpa para o uso do chavão de sempre que diz “Nem o nazismo se atreveu a tanto”, mesmo porque a Alemanha nazista não exortou, ela cometeu um crime contra a humanidade eliminando milhões de pessoas por serem judeus, comunistas, ciganos, homossexuais e outros. Maldita hora que o regime nazista foi mencionado, pois isto traz à mente os crimes que hoje Israel comete contra os palestinos que muito se assemelham àqueles dos nazistas. Lembrar este fato irrita os escribas defensores dos sionistas, mas o tratamento que estes dão aos palestinos e outros árabes tem se demonstrado pior do que aquele que os nazistas deram àqueles que eles os elegeram como seus inimigos.
Fica estranho Schvartzman e Ghivelder quererem negar que Israel não respeita as resoluções das Nações Unidas, tanto da Assembleia-Geral quanto do Conselho de Segurança. O pior é fingirem esquecer que o desrespeito à organização não se limita à desobediência às resoluções, mas também ao conluio dos Estados Unidos que usam o poder de veto sempre que Israel é condenado no Conselho de Segurança. É inadmissível ainda que os dois queiram justificar este comportamento de Israel porque, e aí vem a ladainha de sempre, “o desrespeito maior aconteceu quando a Assembleia-Geral aprovou a partilha da Palestina e, no ano seguinte, logo após a proclamação do Estado de Israel, a nova nação foi invadida por seis exércitos hostis”.
Como a questão da divisão da Palestina já foi mencionada aqui mais de uma vez resta comentar a outra balela de Israel ter sido invadido “por seis exércitos hostis”, pois quem lê pensa que o recém-criado estado era um pequeno David contra inúmeros Golias, o que é mentira. A verdade é que os planos israelenses de guerra começaram a ser executados no dia que passou a Resolução da partilha, em 29 de novembro de 1947, quando todos os judeus entre dezessete e vinte cinco anos foram convocados. Em 5 de dezembro o líder sionista David Ben-Gurion ordenou “ação imediata” para expandir os assentamentos judeus nas três áreas determinadas pela Assembleia-Geral ao Estado Palestino. Em meados de dezembro começaram as ações militares organizadas contra os árabes palestinos de acordo com o Plano Gimmel criado a intenção de ganhar tempo para organizar os ataques militares. Em 19 de dezembro a ordem de Ben-Gurion era clara: “Em cada ataque, um golpe decisivo deve ser alcançado, resultando na destruição de casas e na expulsão da população” (Palumbo, Michael – The Palestinian Catastrophe: The 1948 Expulsion of a People from Their Homeland (Boston: Faber & Faber, 1987, pg 40).
É muito triste ouvir e ler falácias em torno de Israel, sua criação e seu inexorável caminho rumo à autodestruição.
Artigos assinados são responsabilidade do autor, não refletindo
necessariamente a posição do ICArabe.
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José Farhat
José Farhat
Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É diretor de Relações Nacionais e Internacionais do Instituto da Cultura Árabe. http://josefarhat.wordpress.com
(Icaarabe)
Política e sociedade
Falácias em torno de Israel e do sionismo - parte 4: canetas tupiniquins a serviço de fuzis sionistas
22/03/2013 | José Farhat
Ampliou-se tanto o debate em torno de artigo do Primeiro-Secretário da Embaixada da República Islâmica do Irã no Brasil, Ali Mohaghegh, intitulado O Futuro do Oriente Médio, publicado na edição de 20/08/2012 da Folha de São Paulo, como sempre fazem os defensores do Estado de Israel, que já abrangeu terras mediterrâneas, onde nasce e se põe o sol, e desde o ontem até o amanhã da questão palestina, que inegavelmente é o problema central e maior na região.
Renato Aizenman, Clovis Rossi, Salomão Schvartzmann, Zevi Ghivelder em artigos e outros comentaristas pularam em cima do diplomata iraniano, como se estivessem numa rinha de galo, encorajando a mentes abertas que analisassem o que de fato ativou tanto assanhamento.
Se eu sou mente aberta – e quem julga é quem lê o que escrevo, aqui e alhures, não deixo de ser tão alinhado quanto os acima defensores do estado judeu, só que me situo do outro lado, para cá da linha de quem pertence a uma família que se orgulha de ser brasileira, por opção e amor, há mais de um século, descendente de libanês cujo ramo palestino perdeu toda a sua aldeia de Tarbikha, onde lá estavam no mínimo e comprovadamente desde o século XII (e nenhum dos articulistas acima pode comprovar que ascendente seu jamais lá esteve, no último século, quanto mais lá plantar uma oliveira). Meus parentes da aldeia palestina foram mortos ou tangidos para desterro por sionistas que vieram de longe e só tinham sobre a terra palestina o relacionamento religioso, não exclusivo, que tem qualquer adepto das religiões monoteístas abrahâmicas: judaísmo, cristianismo e islamismo tem, nada além disto, a não ser pelo plano traçado desde o século XVIII pelo movimento sionista, para a exploração da terra da região e procurar colonizar o território palestino e transformá-lo num grande gueto, à força, por cima dos cadáveres dos donos da terra, apropriando-se das riquezas deixadas pelos habitantes expulsos. Por estas razões, declaro-me parcial com relação à Palestina que a quero livre, nas mãos dos palestinos, seus legítimos donos.
Falta sublinhar que nada tenho contra os judeus, precursores da fé que segue a senda de Abrahão, a quem as religiões que sucederam ao judaísmo lhes devem o caminho. No entanto, sou contra os sionistas que usam e abusam da religião, para justificar os crimes que vêm cometendo contra os palestinos.
Aizenman repete o chavão de que o Irã quer destruir Israel. Na verdade, “retórica do ódio e da pregação de extermínio” de um país é muito mais ouvida da parte de Israel contra o Irã do que o inverso. Rossi oportunamente indicou, em seu artigo, haver em Israel uma histeria coletiva encorajada pelo governo com segundas intenções de isto também “funcionar como pressão sobre os Estados Unidos para que se decidam a atacar o Irã sem que Israel se antecipe”. Então, é o governo israelense quem aterroriza sua própria população, não o Irã, e é o mesmo governo israelense quem incita os Estados Unidos a atacar o Irã, não o Irã. Ouve-se a toda hora as autoridades israelenses falando que devem atacar o Irã. Muitas vezes os Estados Unidos já dissuadiram Israel de atacar o Irã, a mídia abunda com detalhes de como Israel atacará o Irã e isto, todos nós sabemos, como também jamais registramos que algum país teve que impedir o Irã de atacar Israel. Aliás, a bem da verdade, o Irã nunca atacou país algum e nem existem publicações relatando tais planos e nem provocou histeria internamente. Não adianta os defensores de Israel negarem: quem faz ameaças concretas é Israel e o que escreveu o diplomata iraniano ou até o que disseram meia dúzia de vezes autoridades iranianas fica muito distante da aludida “pregação de extermínio”.
A repetição de que existem “claros indícios de [o Irã] tentar produzir armas atômicas” é um segredo de Polichinelo. Todo mundo sabe que o Irã desenvolve um programa nuclear. O governo iraniano diz tratar-se de um programa para fins pacíficos e, mesmo admitindo que o Irã simultaneamente esteja querendo chegar à produção de armas nucleares, qual o problema? Israel é detentor de centenas de ogivas, os Estados Unidos têm em todos os lados do Irã dezenas de bases militares e forças navais com capacidade nuclear, o Paquistão e a Índia têm armas nucleares, a China e a Rússia, assim como a Coreia do Norte também. Todos estes têm e qual o problema de o Irã também ter? Israel representa certamente muito mais perigo para seus vizinhos que o Irã, mesmo que não tivesse armas nucleares. Será que Israel, com esta ladainha de programa nuclear iraniano não está querendo esconder seus verdadeiros problemas?
Quando o diplomata iraniano diz que “Sem dúvida, não haverá nenhum lugar na região para os sionistas no futuro” é difícil pescar, como fez Aisenman, uma pregação da destruição de Israel. É útil lembrar que o primeiro levante de agricultores palestinos contra agricultores imigrantes sionistas aconteceu muito tempo antes do estabelecimento de Israel e foi exatamente porque eram, em tudo, absolutamente em tudo, diferentes dos habitantes da terra. Os palestinos sentiam uma concorrência lhes ser imposta e não se conformam com o que continua acontecendo há decênios a fio. Israel já perdeu a oportunidade de conviver com seus vizinhos e a razão disto foi a forma como foi implantado e a realidade de como tem se comportado. A força, a de Israel e daqueles que o apoiam, pode manter o estado enxertado na região por um tempo, decênios talvez, mas sinceramente é difícil acreditar que o estado hebreu se mantenha por séculos. O Terceiro Reich queria e não conseguiu dominar o mundo por mil anos à força, como Israel quer dominar a região, armas em punho e só tem conseguido angariar inimizade onde deveria procurar amizade. A diferença entre Alemanha e Israel é que aquela necessitou de força externa para derrotá-la e Israel, da forma como vem levando a sua vida, não encontrará quem lhe venda uma apólice de seguro. Boas lições, Israel sabe onde encontrar, basta reler a história do Apartheid na África do Sul ou, quem sabe, a da colonização europeia no continente africano, ou a queda do muro de Berlim; exemplos não faltam.
Pior ainda é aceitar o exagero de Rossi ao comparar a falta de aceitação de Israel por seus vizinhos a uma “solução final” e ainda mais quando traz desnecessariamente a um local onde ideias são debatidas uma figura como a de Adolf Hitler e compará-lo sem o cuidado que um colunista de sua categoria deveria ter, ao Líder Supremo do Irã. É um fato gratuito. Ninguém está pregando o extermínio de judeus, Clovis Rossi, não gostaria que alguém o chamasse de leviano, pois sei que não o é, mas é triste ler tais letras vindas de sua caneta. Releia a Carta das Nações Unidas, Rossi, e verá que errou ao dizer que o lugar na região “[d] o Estado de Israel foi determinado pela Assembleia-Geral das Nações Unidas”, pois este órgão da ONU não tem poderes para determinar nada, principalmente dividir a terra de alguém sem consultá-lo e muito menos dá-la de presente para um forasteiro. O máximo que a AGNU tem é poder para propor ao Conselho de Segurança aquilo que foi votado. Essa história da carochinha já foi contada tantas vezes que até um Rossi a repete e isto é péssimo. Rossi, já que despertei a sua curiosidade para reler a Carta das Nações Unidas, veja lá as atribuições do próprio Conselho de Segurança e constatará que lá não existe historinha semelhante à de Salomão, a criança, a mãe e a intrometida. Nem uma gleba de poucos alqueires pode ser dividida sem consentimento de seus donos, mesmo que não sejam donos e nela pacificamente habitam há séculos, pacífica e incontestavelmente. Os palestinos não vieram deslocar, até matar, ninguém, não foram eles, foram os sionistas quem empreenderam tal façanha odienta.
Necessário é que repisemos este ponto: os defensores de Israel – e os articulistas acima mencionados não são, e nem poderiam ser, exceção, repetem ad nauseum uma falácia agigantada que se constitui num escárnio a qualquer pessoa bem informada, ou até mesmo inocente; refere-se ela ao argumento, ao qual lhe vestem roupagem de verdade absoluta, inquestionável: trata-se de afirmar, como disseram que “Israel foi criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas” é mentira. Não há, nas atribuições da Assembleia Geral das Nações Unidas, qualquer referência a um poder de dividir um território de um povo, tirando-lhe parte, para dar a propriedade de 52% do seu todo para o estabelecimento de um estado de alienígenas.
Os defensores de Israel partem sempre de um erro crasso, quando tratam da parte que lhes interessa da questão palestina: dar à Religião um papel, uma força, que na realidade não existe senão para justificar a criação do estado israelense assim como tudo o que se relaciona a ele, através do tempo seguinte e independentemente do local onde o assunto é levantado. É inegável que do lado palestino é irrelevante dividir aqueles que têm suas raízes em terras palestinas em cristãos e muçulmanos, tendo em vista que a agressão sionista não selecionou este ou aquele adepto de uma ou outra religião para destruir suas casas e seus sonhos de um futuro normal para qualquer habitante deste planeta.
É fato notório que os mais importantes movimentos palestinos de resistência à tomada da Palestina pelos sionistas são indistintamente cristãos e muçulmanos. Este esclarecimento é importante para se entender o problema palestino, desde o nascedouro do conflito. Os sionistas conseguiram fazer com que as Nações Unidas se referissem, quando a divisão da Palestina foi submetida à AGNU, que se tratava de uma partilha entre “judeus” e “árabes” quando, na verdade e na realidade, ou seriam judeus de um lado e cristãos e muçulmanos do outro, remetendo a todos suas respectivas religiões, isto é: judeus, cristãos e muçulmanos. A intenção é clara: se os cristãos fossem mencionados traria para a questão palestina um apoio ponderável dos seguidores desta religião, através do mundo, prejudicando a questão sionista. O tempo se encarregaria, como queriam os sionistas, de fazer pensar que os “árabes” eram “muçulmanos” e, com a campanha que se seguiu mostrando ao mundo que os muçulmanos eram fundamentalistas e terroristas, ganhariam mais apoio por mais esta razão (não se deve esquecer que os muçulmanos, árabes ou não, que seguiram o caminho do fundamentalismo e do terrorismo estiveram sempre, com suas ações, favorecendo ao Israel que dizem combater). Além disto, são conhecidas as ações terroristas sionistas antes do estabelecimento de seu estado, através de bandos de destruição e terror e, depois e até os dias atuais, pelas atuações de terrorismo de estado.
Então, a divisão da Palestina ou foi entre judeus, de um lado, e cristãos e muçulmanos de outro; ou, entre árabes de um e alemães, poloneses, checos, russos ET catervas do outro, uma situação que retiraria do sionismo o caráter religioso, e que escondesse o caráter colonizador. Não é por outra razão que Israel quer hoje se apresentar como estado judeu, justificando a sua própria existência, correndo o risco de ser desmascarado e mostrar sua cara real de praticante da apartheid racista.
Convenhamos que não tenho procuração para defender o diplomata iraniano, mas apenas pretendo colocar em evidência as afirmações tendenciosas dos defensores de Israel. O iraniano poderia ser indiano, não faria diferença para mim. Se existem “calúnias fantasiosas” a respeito da extensão de Israel desde o rio Nilo até o rio Eufrates, ele não as inventou. O planeta inteiro sabe que os sionistas defendem direitos divinos sobre Israel porque a Bíblia menciona em diversos versículos os limites das terras prometidas: do Nilo ao Eufrates. Até mesmo Theodor Herzl, o fundador do sionismo, em seus Diários Completos (vol. II pg. 711 da versão inglesa) menciona “desde o rio do Egito até o Eufrates” e, tempos depois, em 09/07/1947, em seu testemunho prestado à Comissão Especial de Inquérito das Nações Unidas, o representante da Agência Judia para a Palestina, Rabino Fischmann, declarou: “A Terra Prometida se estende desde o Rio do Egito para cima até o Eufrates e inclui parte da Síria e do Líbano”. Se a redução das terras para pouco mais de cinquenta por cento do que restou da Palestina (por decisão discriminatória da potência mandatária que lhe retirou o território que denominou Transjordânia) está sendo ampliada à medida que as oportunidades aparecem ou são criadas, pelo uso da força, e já chegaram hoje a setenta e oito por cento do território palestino (excluída a Jordânia), talvez ninguém melhor que Aizenman poderá confirmar e não Mohaghegh ou o autor destas linhas qual o objetivo dessas ampliações.
A prova da extensão da pretendida Terra Prometida pode ser encontrada também em From coexistence to conquest: international law and the origins of the Arab-Israeli conflict, 1891-1949 (de Victor Kattan, Londres, Pluto Press, 2009), onde o autor indica ser este um dos problemas com a coexistência entre árabes e israelenses, dizendo: “De fato, em seus Diários, Herzl descreveu a área do estado Judeu, ele o visionou se estendendo ‘desde o rio do Egito até o Eufrates’”. Porém, caso os articulistas prefiram outra citação, vale indicar-lhes o que disse o grande herói (para os sionistas) e o maior traidor da causa palestina (para os árabes), Anwar Sadat em seu diário: The public Diary of President Sadat: The Road of Diplomacy, 1978-1979, quando escreve: “Se tivéssemos permanecido em silêncio por um momento ou [tivéssemos] fechado os nossos olhos, Israel teria realizado o sonho sionista – a Grande Israel, do Nilo ao Eufrates. Nós no Egito, que é o trampolim da Nação Árabe na História, Civilização, geografia e população, devemos contrariar este plano. A estratégia árabe nos permitirá confrontar a duradoura estratégia hostil rascunhada há muito no Congresso de Basle, chefiado por Herzl”. O leitor certamente concordará que negar evidências e contornar verdades é “um esporte nacional” para Israel e seus defensores, entre eles incluído Sadat, o primeiro árabe a reconhecer Israel, ele sozinho e seus asseclas, pois ninguém mais, a não ser o Rei da Jordânia cometeu tamanha traição contra seu povo.
Concordo com Aizenman que a Palestina não deva se transformar num “estado radical islâmico” e sim num estado onde todos os palestinos, muçulmanos ou cristãos ou judeus tenham seu quinhão de deveres antes de vantagens, pois a construção do Estado Palestino, livre e soberano, é tarefa árdua, mas os palestinos saberão como construí-lo, só eles sabem.
As “divergências internas” em Israel, a que se refere o diplomata, talvez não sejam as mesmas que eu aponto, mas também nada têm com “o caráter democrático de Israel” mencionado por Aizenman. De minha parte, em minha opinião, a tal tão cantada democracia de Israel é não mais que uma das muitas falácias, pois não existe democracia onde reina a apartheid e a discriminação, até mesmo contra judeus de origem não europeia e não somente com relação aos palestinos. O que ocorre atualmente contra os judeus etíopes é notório; chegam a ser escondidos em aldeias distantes, para que não se diga que há judeu negro.
É a realidade que vem demonstrando que Israel não quer negociar com os palestinos. Sempre que se avança um passo Israel tem repetidamente criado condições adversas. Há anos, o então Secretário Geral da Liga dos Estados Árabes e o então Ministro do Exterior do Egito levaram e entregaram, em mãos, ao governo de Israel uma proposta de negociações, aprovada em reunião dos vinte e dois chefes de estado, monarcas e presidentes árabes, oferecendo basicamente o reconhecimento coletivo de Israel por todos os países árabes e nem resposta o governo israelense deu. Todas as condições constantes da decisão árabes são negociáveis; algumas talvez nem fossem aceitáveis, mas assim mesmo Israel nem acusou recebimento do documento. Não há então como Aizenman se admirar quando Mohaghegh disse que “os povos perceberam que são inúteis e frustrantes as negociações”. Agora, quando ele sugere que esta atitude se deve ao respaldo do Ocidente, também é verdade; só que a este respaldo vem faltando qualquer tipo de entusiasmo com o passar dos anos. Ninguém aguenta mais as manhas de Israel, já ultrapassaram os limites do tolerável. Evidências não faltam até mesmo no âmbito das Nações Unidas, onde a Palestina caminha para se tornar membro pleno e vem sendo admitido em órgão após órgão e é pena que Aizenman e os demais não tenham ouvido o relato do chefe da UNRWA recentemente, aqui em São Paulo, para tomar conhecimento de mais uma faceta do comportamento israelense e do que causa aos palestinos através das décadas que se passaram desde o estabelecimento de Israel.
Os movimentos da Primavera Árabe estão ocorrendo não somente por razões econômicas - obviamente distribuição de renda gerando desemprego desenfreado à frente ocorreram também por questões políticas, internas e externas. Os ditadores de plantão não somente se mantinham no poder à força, mas também trabalhavam para perpetuar seus mandos através de herdeiros de suas próprias casas; e todos tinham sido colocados no poder pelos sucessivos imperialismos que os vinha mantendo em governos subservientes. Quem a não serem os Estados Unidos, e por trás destes seus aliados, entre os quais o sempre mais privilegiado Israel, manteve no poder por decênios: Saddam Hussein, Husni Mubarak, Bin Ali, o Saleh e outros, mortos e não chorados ou à beira dela, fora os ainda sobreviventes? Só os aqui nominalmente mencionados seriam capazes de alimentar o ódio dos povos árabes. O próprio estabelecimento do Estado de Israel em terra palestina já é, de per se, o ponto mais importante do temor “[d] as ondas crescentes de sentimentos antiamericanos e antissionistas” motivo para “tentarem insinuar ao mundo uma interpretação falsa deste movimento” de libertação nacional árabe. Há alguma dúvida de que “os governos derrubados na região eram amigos dos Estados Unidos da América e do regime sionista”, como disse o iraniano autor do artigo? Alguém acredita que Mubarak foi derrubado pelo egípcio por ser amigo de seu próprio povo ou porque o privava de gás para uso doméstico enquanto o vendia a preço vil para Israel, para citar uma só entre suas façanhas? Schvartzman e Ghivelder usam um argumento fraquíssimo para comprovar que a Primavera Árabe não teve em seu bojo “um movimento contra Israel e Estados Unidos” pelo simples “fato de que não houve, no Cairo, em Trípoli ou em Túnis, por ocasião das rebeliões populares, queima de bandeiras americanas ou israelenses”.
Os articulistas estão esquecendo-se de algo mais grave que a queima de bandeiras estrangeiras. Eles aparentemente não acompanham os acontecimentos no Egito: a embaixada de Israel foi atacada, o embaixador fugiu e não mais deu as caras, o contrato de fornecimento de gás foi revogado, as fronteiras com a Palestina (Ghaza) foram abertas, as forças armadas estão se deslocando para o deserto do Negueb pisando por cima do Acordo de Paz, o presidente egípcio demitiu os militares amigos dos Estados Unidos e indiretamente de Israel, o presidente reatou com o Irã e tem tomado atitudes favoráveis ao povo egípcio as quais invariavelmente contrariam as dos sionistas.
O ataque à Embaixada de Israel no Cairo não foi, como mencionam Schvartzman e Ghivelder “ataque cometido por um pequeno grupo de vândalos” ele foi, isto sim, uma manifestação popular contra um estado com o qual o regime mantinha relações contrariando a vontade do próprio povo. Não há um só egípcio que aceite manter o acordo de paz com Israel, enquanto durar a ocupação da Palestina. A revisão do acordo não é somente vontade do povo, mas o atual governo já se manifestou a respeito e ocorrerá logo que chegar o momento adequado; não existem dúvidas a respeito e, para constatá-lo, não é necessário ir à Praça Tahrir, é só perguntar a qualquer egípcio. Não há “pequeno grupo de vândalos” fazendo qualquer movimento no Egito; o povo egípcio, de mãos vazias e peito aberto, durante seus movimentos de libertação do jugo de Mubarak, pelo que fez contra seu povo e a favor de Estados Unidos e Israel, chegou a derrotar as forças policiais e fazer as forças armadas pensarem antes de atacar os manifestantes. Dourar pílula, Schvartzman e Ghivelder, não transforma mentiras em verdades. A revolta do povo egípcio não se manifestou apenas pelo ataque à embaixada do estado hebreu já que a embaixada saudita, como sabem os articulistas, árabe e de maioria muçulmana, também o foi, pelas razões que podem mandar seus estagiários pesquisarem.
A propósito, Schvartzman e Ghivelder, também não enganam a ninguém as frases aparentemente civilizadas e educadas de seu artigo e vamos repassá-las. Conforme dito acima, o artigo de Mohaghegh não sugere “de forma explícita, [que] um país soberano exorta a erradicação de outro país soberano” e a ideia inventada só serve de desculpa para o uso do chavão de sempre que diz “Nem o nazismo se atreveu a tanto”, mesmo porque a Alemanha nazista não exortou, ela cometeu um crime contra a humanidade eliminando milhões de pessoas por serem judeus, comunistas, ciganos, homossexuais e outros. Maldita hora que o regime nazista foi mencionado, pois isto traz à mente os crimes que hoje Israel comete contra os palestinos que muito se assemelham àqueles dos nazistas. Lembrar este fato irrita os escribas defensores dos sionistas, mas o tratamento que estes dão aos palestinos e outros árabes tem se demonstrado pior do que aquele que os nazistas deram àqueles que eles os elegeram como seus inimigos.
Fica estranho Schvartzman e Ghivelder quererem negar que Israel não respeita as resoluções das Nações Unidas, tanto da Assembleia-Geral quanto do Conselho de Segurança. O pior é fingirem esquecer que o desrespeito à organização não se limita à desobediência às resoluções, mas também ao conluio dos Estados Unidos que usam o poder de veto sempre que Israel é condenado no Conselho de Segurança. É inadmissível ainda que os dois queiram justificar este comportamento de Israel porque, e aí vem a ladainha de sempre, “o desrespeito maior aconteceu quando a Assembleia-Geral aprovou a partilha da Palestina e, no ano seguinte, logo após a proclamação do Estado de Israel, a nova nação foi invadida por seis exércitos hostis”.
Como a questão da divisão da Palestina já foi mencionada aqui mais de uma vez resta comentar a outra balela de Israel ter sido invadido “por seis exércitos hostis”, pois quem lê pensa que o recém-criado estado era um pequeno David contra inúmeros Golias, o que é mentira. A verdade é que os planos israelenses de guerra começaram a ser executados no dia que passou a Resolução da partilha, em 29 de novembro de 1947, quando todos os judeus entre dezessete e vinte cinco anos foram convocados. Em 5 de dezembro o líder sionista David Ben-Gurion ordenou “ação imediata” para expandir os assentamentos judeus nas três áreas determinadas pela Assembleia-Geral ao Estado Palestino. Em meados de dezembro começaram as ações militares organizadas contra os árabes palestinos de acordo com o Plano Gimmel criado a intenção de ganhar tempo para organizar os ataques militares. Em 19 de dezembro a ordem de Ben-Gurion era clara: “Em cada ataque, um golpe decisivo deve ser alcançado, resultando na destruição de casas e na expulsão da população” (Palumbo, Michael – The Palestinian Catastrophe: The 1948 Expulsion of a People from Their Homeland (Boston: Faber & Faber, 1987, pg 40).
É muito triste ouvir e ler falácias em torno de Israel, sua criação e seu inexorável caminho rumo à autodestruição.
Artigos assinados são responsabilidade do autor, não refletindo
necessariamente a posição do ICArabe.
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José Farhat
José Farhat
Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É diretor de Relações Nacionais e Internacionais do Instituto da Cultura Árabe. http://josefarhat.wordpress.com
(Icaarabe)
A Igreja, a Ditadura e o papa
Escrito por Gilberto Calil e Marcos Vinícius Ribeiro
A relação entre Igreja e ditadura na Argentina é anterior ao desencadeamento do golpe terrorista de 1976. Nos seis golpes de Estado, que foram seguidos por controle militar do aparato estatal, houve, em grande medida, participação e atuação da Igreja. Em 1930, com apoio da igreja, o movimento militar da chamada “restauração conservadora” derrubou presidente eleito e retroagiu a estrutura econômica e política do país ao sabor das oligarquias reacionárias. Em 1943, o Grupo de Oficiais Unidos (GOU) arquitetou a tomada de poder numa mistura confusa e eficaz que conjugou catolicismo e nacionalismo. Em 1955, após os dois primeiros governos peronistas, a Igreja Católica entra em choque com Perón, chegando a excomungá-lo, para logo apoiar a chamada “revolução libertadora” que pôs fim à experiência peronista, liderada por militares integristas. Se auto-intitularam como portadores de uma missão redentora cujo objetivo fora a “desperonização do Estado”.
O caráter ativado da mobilização popular no contexto dos anos 1960, cujo Cordobazo foi o ápice, introduz um panorama que põe em xeque a hegemonia capitalista e o status quo.
Em 1966, Juan Carlos Ongania assumiu o poder com apoio deliberado da direita conservadora, alinhada com a igreja, e prometera nova reação à ativação dos movimentos de luta popular, os setores da lucha callejera. À época, o projeto do Onganito contou com o apoio da instituição católica. Postura que coadunou um projeto espiritual e econômico esclarecido, enfim, na nomeação de seu ministro da Economia, Jorge Néstor Salinei, que não possuía outra credencial senão o apoio declarado dos setores conservadores da Igreja.
O Cordobazo e o Rozariazo atropelaram o Onganiato. O olho do furacão, a cidade de Córdoba. Barricadas montadas nas ruas, baseadas na aliança entre setores operários e estudantis, demonstraram a ativação da luta popular em fins dos anos de 1960 e a fragilidade da hegemonia militar encouraçada de repressão. A luta de classes atingia níveis muito intensos.
Em 1976, sob as bênçãos da Igreja, representada na ocasião pelo padre Adolfo Tortolo, houve o golpe de 24 de março. Não se tratava de mais uma ditadura como as anteriores. Tratava-se, em suma, da ativação de um projeto terrorista cujo ensaio fora a “operação independência” em Tucumán. Imbuídos da doutrina Francesa da contra-insurgência, um aparato de guerra, bem azeitado, agrediu e dizimou a iniciativa foquista do Ejercito Revolucionario Del Pueblo (ERP) em 1975, ainda sob o governo constitucional de Isabelita Perón.
O Golpe de 24 de março de 1976, por si, apresentou-se como síntese do processo contrarrevolucionário. Sobre bases amplas de setores apoiadores da sociedade civil, meios de comunicação como o jornal Clarín, a Associação Permanente de Entidades Gremiais (APEGE) – representante do patronato empresarial argentino -, Sociedade Rural Argentina (SRA), e os setores conservadores da Igreja católica, apoiaram o auto-intitulado “Processo de Reorganização Nacional” (PRN), que oficializou o Terrorismo de Estado.
Os objetivos do Terrorismo de Estado, a partir de 1976, eram amplos, de longo prazo e retroativos. Tratava-se de uma intervenção “cirúrgica”, além de um projeto de militarização da sociedade. Constavam nas atas do processo os seguintes objetivos: “O Exército agirá seletivamente sobre os estabelecimentos industriais e empresas do Estado, em coordenação com os organismos estatais relacionados ao âmbito, para promover e neutralizar as situações conflitivas de origem trabalhista, provocadas ou que possam ser exploradas pela subversão, a fim de impedir a agitação e a ação insurrecional de massas, e contribuir para o eficiente funcionamento do aparelho produtivo do país.” (CONADEP, s/d: 280).
Conjugavam-se, no escopo e corpo da ditadura, um projeto de contra-revolução que se baseou no Integrismo Católico, na Doutrina de Segurança Nacional (DSN) e nos “valores ocidentais”. A ditadura de Terrorismo de Estado, na Argentina, contou com apoio massivo da cúpula católica. Desde os primeiros momentos da ditadura terrorista, a posição da Igreja era claramente definida, como revela a nota da Junta Episcopal argentina em reunião com a Junta Militar, ocorrida em 15.11.1976:
“O que pretende a Igreja? Primeiro, que não se misture na política. Frente a isto, os Bispos somos conscientes de que um fracasso levará, com muita probabilidade, ao marxismo, e por isto, acompanhamos o atual processo de reorganização do país, empreendido e encabeçado pelas Forças Armadas, o acompanhamos com compreensão e igualmente com ADESÃO E ACEITAÇÃO” (1).
Como insígnia do referido debate, encontramos alguns pontos nodais da cumplicidade entre Igreja e Ditadura. Para elucidar a questão, é importante lembrar o sequestro e desaparição de duas monjas francesas durante o terrorismo de Estado. Dagmar Hegelin, monja francesa que atuou nas redes de solidariedade aos familiares de desaparecidos, ainda durante a ditadura, foi sequestrada e levada a ESMA onde foi brutalmente torturada. Apesar das vinculações de Dagmar com a instituição, nada se falou à época.
Além do silêncio e cumplicidade da cúpula eclesiástica, encontra-se o caso de cooperação ativa em seções de tortura, como é o caso do Padre Christian Von Wernich. Von Wernich foi capelão da temida bonaerense durante a ditadura, além de ser acusado de participar de cerca de 45 sequestros, três assassinatos e outras tantas apropriações de bebês. Von Wernich foi julgado e condenado à prisão perpétua pela participação ativa em 7 assassinatos e 34 casos de tortura. No marco de seu julgamento, no ano de 2006, desapareceu a principal testemunha de acusação, Julio Lopez. Lopez, que até hoje permanece desaparecido.
É desta Igreja que provém Jorge Bergoglio. Uma Igreja que não deixou de contar com vozes dissonantes e resistentes – alguns dos quais inclusive desaparecidos pela ditadura -, mas que em sua cúpula hierárquica sempre se manteve firmemente aliada aos setores mais reacionários da sociedade argentina.
Um grupo de militares acusados de crimes contra a humanidade durante a ditadura argentina (1976-1983) apareceu na quinta-feira (14/03) em audiência realizada em um tribunal na cidade de Córdoba, trajando broches do Vaticano no lado esquerdo do terno, em alusão à eleição ocorrida um dia antes do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para o novo papa da Igreja Católica.
Bergoglio e a Ditadura
São inúmeras as denúncias de envolvimento de Jorge Bergoglio com a ditadura argentina. Algumas apontam sua conivência, cumplicidade e intimidade com os ditadores enquanto outras o acusam de forma mais direta em ações de terror de Estado.
A cumplicidade com a ditadura foi compartilhada por toda a alta hierarquia católica argentina (o que naturalmente não exime a responsabilidade individual de cada bispo) e, portanto, não é de estranhar que Bergoglio apareça sorridente e muito confortável ao lado de ditadores, em especial daquele que melhor simboliza o terror de Estado – o General Jorge Rafael Videla – e que tenha atuado sistematicamente contra os movimentos católicos renovadores de base popular.
Mais impactantes são as denúncias fartamente documentadas da cumplicidade de Bergoglio com a prisão e tortura de padres pertencentes a sua própria Ordem, Francisco Jalic e Orlando Yorio. Ambos integravam um movimento de renovação no interior da Ordem dos Jesuítas e da Igreja, desenvolvendo trabalhos de alfabetização e assistência na periferia de Buenos Aires, sob influência da Teologia da Libertação, e foram sequestrados em maio de 1976, permanecendo detidos e torturados na famigerada Escola Superior da Marinha (ESMA) até outubro daquele ano, quando foram drogados e deixados em um terreno baldio. No mesmo operativo, foram sequestradas quatro catequistas e os maridos de duas delas, os quais permanecem desaparecidos.
As denúncias de cumplicidade de Bergoglio são sustentadas por diversos religiosos (2). Ainda em março de 1976, Bergoglio acusou a ambos de desenvolverem atividades dissolventes e de conflito de obediência (por recusarem-se a interromper o trabalho desenvolvido na periferia de Buenos Aires), decretando sua expulsão da Ordem dos Jesuítas. Dois meses depois do golpe, o Bispo de Morón, Miguel Raspatini, pediu a transferência de Jalic e Yorio para aquela Diocese, preocupado com o perigo que corriam em Buenos Aires, mas a transferência foi proibida por Bergoglio, e poucos dias depois, a 23 de maio, foram ambos sequestrados pela ditadura. Como acusou Yorio, Bergoglio submeteu a ambos “à proibição e à infâmia pública de não poder exercer o sacerdócio, dando assim ocasião e justificação para que as forças repressivas fizessem com que desaparecêssemos. (...)
Os documentos que incriminam Bergoglio foram revelados por Horácio Verbitsky, um dos principais jornalistas argentinos e autor de inúmeros livros sobre a ditadura daquele país (3). Graciela Yorio, irmã de Orlando (falecido em 2000), sustentou acusação formal contra Bergoglio, que culminou em sua intimação para depoimento em 2011, e frente a sua nomeação como papa, reafirma as denúncias: “Bergoglio os desprotegeu. Como meu irmão e Francisco não seguiram os conselhos de deixar de viver numa favela, foram expulsos da congregação pelas pressões da ditadura, que achava que eram subversivos, e posteriormente presos”. Graciela conta ainda que depois do sequestro de seu irmão procurou Bergoglio e então compreendeu que ele estava envolvido no sequestro: “Ele nos disse que sobre Orlando não se falava mais, dando a entender que ele estava morto. Nossa sensação é de que ele os entregou. Quando meu irmão e Francisco foram soltos, telefonaram para Bergoglio e ele lhes disse que não podia ajudá-los – afirmou Graciela” (4).
Também Lorenzo Riquelme, médico peronista e militante católico sequestrado pela ditadura, acusa Bergoglio de envolvimento na repressão, afirmando que “o grupo que o sequestrou e torturou em 1976 saiu da sede principal da Companhia de Jesus, onde vivia e era responsável o superior provincial Jorge Mario Bergoglio” (5). Sua localização foi extraída de sua noiva em uma sessão de tortura da qual participou ativamente o padre Martín González (6).
Por sua vez o sacerdote Mom Debussy, motorista de Bergoglio à época, revela que em 1974 Bergoglio, então Reitor Provincial dos jesuítas, obrigara seus subordinados a participar e apoiar um comício de Isabelita Perón e também que lhe confidenciara os planos políticos do Almirante Massera, manifestando sua simpatia (7).
Bergoglio é acusado ainda de cumplicidade e envolvimento com o sequestro de bebês, filhos de militantes políticos mortos pela ditadura, tendo sido intimado para depor na causa ESMA a partir de denúncia de Estela de la Cuadra, uma das fundadoras das Abuelas de la Plaza de Mayo, que o acusa de conhecer e omitir o paradeiro de sua sobrinha, roubada de uma delegacia de La Plata (8). Ouvido em Tribunal, Bergoglio sustentou que só teve notícia dos sequestros muitos anos depois. Estela sustenta que sua família procurou Bergoglio após o sequestro de sua irmã Helena (grávida de cinco meses), recebendo como resposta que “a situação era irreversível” e “que Ana, minha sobrinha nascida numa delegacia, estava com uma boa família, que cuidaria muito dela” (9). Ainda segundo de la Cuadra, “muitos dos bebês sequestrados eram distribuídos pelo Movimento de Famílias Cristãs, fortemente vinculado à Igreja” (10).
Com a eleição de Bergoglio como papa e o recrudescimento das denúncias contra ele, o Vaticano não tardou a reagir, qualificando-as, em tom típico da Guerra Fria, como obra destrutiva da “esquerda anticlerical” (11). Sem referir-se ao papel da Igreja Católica na sustentação da ditadura argentina, o porta-voz do Vaticano Federico Lombardi afirmou que “jamais houve uma acusação verossímil contra o Papa. A justiça argentina o interrogou, mas como pessoa informada de fatos, e jamais foi acusado de algo. Ele negou de forma documentada as acusações” (12). Em procedimento pouco usual, Lombardi atacou diretamente o jornal argentino Página 12, responsável pela publicação original das reportagens de Horácio Verbitsky, qualificando-o como “uma publicação que lança, às vezes, notícias caluniosas e difamatórias” e concluindo que “o caráter anticlerical desta campanha e de outras acusações contra Bergoglio é notório e evidente” (13). A nota do Vaticano, evidentemente, não traz qualquer elemento que permita refutar as acusações, o que explica seu tom agressivo. Como lembra o jornal Página 12, “na realidade não se trata de uma esquerda anticlerical (...), mas de dois sacerdotes jesuítas que foram sequestrados e torturados durante a ditadura, e já em democracia fizeram estas denúncias, às quais se somaram os familiares de outros laicos, militantes cristãos, que foram sequestrados nesta oportunidade, a maioria dos quais continua desaparecida” (14).
O significado da eleição de Bergoglio e as perspectivas de seu papado
Logo após a renúncia de Bento XVI, a impressão geral era que a Igreja Católica iniciava um processo de renovação, para recuperar a credibilidade perdida. Para uns poderia ser o início de uma renovação profunda, enquanto outros mais prudentes imaginavam mudanças cosméticas e superficiais. Assim, a muitos pareceu surpreendente a avaliação publicada no jornal espanhol El País, de que a renúncia de Bento XVI seria na realidade um golpe impulsionado pelos setores mais fundamentalistas, ou a extrema-direita católica, em especial o superpoderoso cardeal Angelo Scola (15). Frente ao conhecido conservadorismo de Ratzinger, tal conspiração parecia em um primeiro momento inverossímil, mas uma análise mais cuidadosa da trajetória e das posições políticas de Bergoglio parece indicar o acerto daquela avaliação. Se no campo moral a tendência é continuidade no imobilismo, na intervenção política é provável uma intervenção mais ativa e de conteúdo mais ferrenhamente contrarrevolucionário, muito distinta do conservadorismo passivo de Bento XVI.
Em vista disto, só podemos considerar como extremamente ingênuas as expectativas de renovação manifestadas por religiosos oriundos da Teologia da Libertação, como Frei Betto e Leonardo Boff. O primeiro considera que “o fato de ele escolher o nome Francisco é um sinal muito positivo, porque São Francisco foi o reformador da igreja. Acho positivo também para a América Latina, continente com o maior número de católicos. O que importa é que ele seja uma pessoa aberta para as demandas que a igreja exige hoje. A idade não importa. João 23, o papa mais revolucionário dos últimos séculos, também foi eleito com quase 80 anos” (16). Já Leonardo Boff, considera que “o importante é o nome, Francisco, significa um programa de uma igreja simples, pobre, amante da natureza, ligada ao povo, e disso é que estamos precisando hoje” (17). Muito mais realista parece-nos a lembrança de Dom Pedro Casaldáliga, uma voz cada vez mais isolada na hierarquia católica, que lembra que “paira na memória histórica a atitude da hierarquia argentina nos tempos da ditadura militar. Dessa atitude se reclama a omissão e a colaboração com um regime sangrento. Será bom que o papa Francisco aproveite as ocasiões para condenar profeticamente essa e outras ditaduras; até pedindo perdão em nome de toda a Igreja” (18). Nada indica, no entanto, que Bergoglio vá reconhecer o envolvimento da Igreja com a ditadura, e menos ainda que pedirá perdão...
Nada de novo na moral católica
Não é certamente no campo moral que haverá qualquer movimento de renovação, muito pelo contrário, pois as posições ultra-conservadoras de Bergoglio são sobremaneira conhecidas e apontam para uma rígida defesa de uma moralidade medieval. Sua posição relativa ao matrimônio homossexual e sua visão acerca das mulheres são suficientes para esclarecer a questão. Quanto ao primeiro, declarou, no contexto da discussão de um projeto de regulamentação da união civil entre pessoas do mesmo sexo na Argentina: “Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política; é a pretensão destrutiva ao plano de Deus. Não se trata de um mero projeto legislativo (este é apenas o), mas de uma jogada do Pai da Mentira que pretende confundir e enganar aos filhos de Deus” (19).
Suas primeiras manifestações públicas como papa, recolocando a figura do “diabo” no centro do discurso católico, expressam claramente sua perspectiva contrarreformista. Em relação às mulheres, é conhecida sua manifestação pronunciada em 4 de julho de 2007, às vésperas do lançamento público da candidatura presidencial de Cristina Kirchner, quando o então Arcebispo de Buenos Aires declarou: “As mulheres são naturalmente ineptas para exercer cargos políticos. A ordem natural e os fatos nos ensinam que o homem é o ser político por excelência; as Escrituras nos demonstram que a mulher sempre é o apoio do homem pensador e atuante, mas nada mais do que isto. É necessário ter memória: tivemos uma mulher como presidente da nação e todos sabemos o que se passou (referindo-se à Isabelita Perón)”. Esta declaração, no contexto em que foi emitida, remete igualmente a outra questão que transcende a pregação moralista: a intervenção política de Bergoglio, última questão que trataremos aqui.
A política do papa Francisco
As primeiras ações de Bergoglio como papa pretendem criar a imagem de um papa humilde e apolítico. A humildade do novo papa, na versão laudatória disseminada pela grande mídia, se expressaria na escolha do nome Francisco (omitindo-se a dubiedade da escolha, que poderia remeter igualmente a São Francisco Xavier, fundador da Ordem dos Jesuítas) e aos “hábitos simples” de um papa que costumaria se locomover de metrô – algo que é desmentido categoricamente pelo seu ex-motorista Mom Debussy (20). De muito mais relevância é seu suposto apoliticismo, que é facilmente desmentido mesmo sem que se recorra à sua intervenção na ditadura. Bergoglio sempre assumiu posições políticas muito explícitas, e em particular sob os governos dos Kirchner alinhou-se à oposição de direita, apoiando vigorosamente a paralisação agrário (21), através da qual os latifundiários pretendiam pagar menos impostos, denunciando o suposto caráter “populista” dos governos de Néstor e Cristina Kirchner e suas articulações com o chavismo, grande inimigo a ser combatido.
A escolha de um papa latino-americano, ao contrário de sugerir uma abertura e uma renovação da Igreja, parece expressar a perspectiva de intervenção política mais ativa na oposição ao chamado “populismo” que, com todos os seus limites e contradições, coloca em prática políticas heterodoxas e desafia o ordenamento global unipolar. Para o cientista social argentino Julio Gambina, assim como “um papa polaco chegou à Igreja para acompanhar o princípio do fim da experiência socialista”, Bergoglio teria a missão de confrontar o eixo constituído em torno das experiências venezuelana e boliviana, fortalecendo as oposições de direita, tal como sempre fez na Argentina dos Kirchner: “o rumo unipolar está sendo desafiado pela mudança política em nossa América com o ressurgimento do socialismo, seja da mão da revolução cubana ou pelos processos específicos que emergem em alguns países (Venezuela ou Bolívia), inclusive em vários movimentos políticos, sociais, intelectuais, culturais, em nossa região.
Com a morte de Chávez e milhões mobilizados para constituírem-se em sujeitos pelo cumprimento do legado revolucionário e socialista de Hugo Chávez, a Igreja lança o anel do símbolo de um chefe da Igreja nascido no Sul e compenetrado com o projeto do Norte.
O papa argentino, Francisco, vem cumprir o projeto do poder mundial para disputar o consenso da sociedade, especialmente dos povos. Não se trata somente de sustentar posições contrárias ao matrimônio igualitário, ou contra o aborto, amplamente difundido pelo bispo Bergoglio, mas gerir uma consciência de disciplinamento para a ordem contemporânea, reacionária, de dominação transcendental.
Nossa América é hoje um laboratório de mudanças políticas. A Igreja instituição quer intervir nesse processo não para empurrar essas mudanças, mas para freá-las. A disputa é pelas consciências. É uma batalha de ideias pela mudança ou pelo retrocesso. Preocupam-se com o efeito Chávez na região. Preocupam-se com a sucessão política na Venezuela e a capacidade de estender o rumo socialista. Necessitam disputar o consenso.
Mas, “por mais que as tentativas institucionais para acompanhar a ofensiva do capital contra o trabalho, os trabalhadores e os setores populares, inclusive a igreja dos pobres, o movimento religioso popular, persistem na busca de organizar a sociedade do viver bem (Bolívia), do bem-viver (Equador), do socialismo cubano ou da luta pela emancipação social de grande parte da baixa sociedade em nossa América” (22).
Não é necessário concordar integralmente com a avaliação exageradamente otimista de Gambina em relação aos avanços do chavismo e ao seu caráter socialista para compartilhar com sua conclusão de que os setores mais conservadores “preocupam-se com o efeito Chávez na região”. De fato, mesmo para aqueles que sempre estiveram na oposição pela esquerda ao governo Kirchner, não é difícil perceber que a nomeação de Bergoglio tem como finalidade fortalecer a oposição de direita. O PTS argentino avalia que a eleição de Bergoglio significa “o fortalecimento de uma instituição reacionária e um potencial baluarte estratégico para as classes dominantes” e que sua eleição representa na Argentina “um incentivo para a oposição patronal, mais que para o kirchnerismo. Bergoglio sempre foi porta-voz de slogans que coincidiam com os da oposição e tem relações muito próximas com Gabriela Michetti do PRO ou Elisa Carrió. Ainda que tenha tido maior enfrentamento com Néstor Kirchner do que com Cristina (em parte porque apesar de leis como o matrimônio igualitário, CFK segue sendo fiel opositora ao direito ao aborto legal, seguro e gratuito), Bergoglio sempre se situou na oposição política ao kirchnerismo (23).
Uma nota final: ao mesmo tempo em que repudiava as denúncias contra Bergoglio como obra da “esquerda anticlerical”, o Vaticano enviava um convite para a cerimônia de coroação do papa Francisco a Carlos Pedro Blaquier, dono do Engenho Ledesma e processado pelo sequestro e desaparecimento de 29 dirigentes sindicais e trabalhadores de sua empresa durante a ditadura (24). Blaquier é provavelmente o empresário cuja colaboração com a repressão é mais conhecida. O processo em que é acusado tramita na justiça argentina e ele é proibido de sair do país. Ainda assim, aproveitando-se do convite, Blaquier pediu autorização urgente ao Juizado Federal de Jujuy (onde corre seu processo). O convite enviado pelo cardeal argentino Marcelo Sánchez Sorondo (embaixador da Academia de Ciências Sociais do Vaticano) é muito revelador do tratamento da Igreja para com os terroristas de Estado da ditadura argentina: “Sei que com todos os compromissos importantes que tens na pátria não te será fácil decidir-te a vir, mas sendo tu um doutor do Laterano, me parece que tua presença em Roma constitui uma obrigação moral ineludível. (...) Além disso, há outro motivo para que participe na cerimônia, representas um dos setores mais pujantes do país, que fez esta revolução agrícola e industrial, modelo internacional e celeiro para o mundo” (25).
Sorondo, Bergoglio e a hierarquia católica argentina expressam o rumo tomado pela Igreja Católica. Suas ações e omissões, suas articulações e sua posição política não deixam dúvidas do que se pode esperar do papado que se inicia e desnudam a ingenuidade das esperanças de renovação de alguns, bem como a omissão do passado e das posições políticas de Bergoglio revelam a dimensão da operação midiática voltada à promoção de sua imagem como religioso apolítico e humilde, sobre cujo passado pouco se fala.
Notas:
(1) Disponível em http://www.publico.es/internacional/452122/bergoglio-oculto-la-complicidad-del-episcopado-argentino-con-la-junta-militar-del-dictador-videla
(2) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-144092-2010-04-18.html
(3) Ver farta documentação disponível em seu sítio eletrônico http://iglesiaydictadura.wordpress.com/tag/bergoglio/
(4) http://oglobo.globo.com/mundo/irma-de-jesuita-preso-durante-ditadura-contesta-escolha-do-papa-7834066
(5) http://ea.com.py/los-vinculos-del-nuevo-papa-con-la-dictadura-argentina-la-patota-salio-del-colegio-maximo/
(6) Idem.
(7) Idem.
(8) http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/03/novo-papa-sequestro-bebes-ditadura-argentina.html
(9) http://oglobo.globo.com/mundo/irma-de-jesuita-preso-durante-ditadura-contesta-escolha-do-papa-7834066
(10) Idem.
(11) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215950-2013-03-16.html
(12) http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21748
(13) Idem.
(14) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215951-2013-03-16.html. Deve-se mencionar ainda a manifestação de Adolgo Pérez Esquivel, respeitável militante dos direitos humanos na Argentina, que sustenta que Bergoglio não era cúmplice da ditadura. Sua breve manifestação, no entanto, é extremamente genérica e subjetiva e passa ao largo das denúncias concretas: “Bergoglio é questionado porque se diz que não fez o necessário para tirar da prisão os dois sacerdotes, sendo ele superior da Congregação dos Jesuítas. Mas eu sei pessoalmente que muitos bispos pediam à Junta Militar a liberação de prisioneiros e sacerdotes e não lhes era concedido.”. http://www.cunadelanoticia.com/?p=47844
(15) http://internacional.elpais.com/internacional/2013/02/11/actualidad/1360588257_314838.html
(16) http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1245823-escolha-do-papa-foi-mau-gosto-diz-hector-babenco-leia-o-que-falaram-outros-artistas.shtml
(17) http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1245929-escolha-de-argentino-e-novo-comeco-para-a-igreja-diz-leonardo-boff.shtml
(18) http://quemtemmedodademocracia.com/2013/03/14/casaldaliga-sobre-o-novo-papa-deve-pedir-perdao-em-nome-de-toda-a-igreja/
(19) Idem.
(20) http://ea.com.py/los-vinculos-del-nuevo-papa-con-la-dictadura-argentina-la-patota-salio-del-colegio-maximo/
(21) http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/27808/novo+papa+ajudou+ditadura+argentina+reitera+jornalista.shtml
(22) http://www.brasildefato.com.br/node/12323
(23) http://www.pts.org.ar/spip.php?article22115
(24) Blaquier é acusado de ser o mentor de dois seqüestros. O primeiro em 24 de março de 1976, de três dirigentes do Sindicato dos Operários de Ledesma, dentre os quais o ex-prefeito de Ledesma e assessor do sindicato, e outro ocorrido em julho do mesmo ano, na chamada “Noite do Apagão”, quando foram sequestrados 26 operários, familiares e militantes apoiadores do Sindicato, coordenadamente em três localidades próximas à planta principal do Engenho Ledesma. Os sequestros foram executados usando-se veículos e motoristas do Engenho.
(25) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215944-2013-03-16.html
Um grupo militares acusados de crimes contra a humanidade durante a ditadura argentina (1976-1983) apareceu na quinta-feira, 14/03, em audiência realizada em um tribunal na cidade de Córdoba, trajando broches do Vaticano no lado esquerdo do terno, em alusão à eleição ocorrida um dia antes do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para o novo papa da Igreja Católica.
Vídeo sobre o episódio: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=6_DsNecO3Ds
Fonte: http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215821-2013-03-15.html
Gilberto Calil e Marcos Vinícius Ribeiro são historiadores.
Fonte: Blog Convergência.
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Escrito por Gilberto Calil e Marcos Vinícius Ribeiro
A relação entre Igreja e ditadura na Argentina é anterior ao desencadeamento do golpe terrorista de 1976. Nos seis golpes de Estado, que foram seguidos por controle militar do aparato estatal, houve, em grande medida, participação e atuação da Igreja. Em 1930, com apoio da igreja, o movimento militar da chamada “restauração conservadora” derrubou presidente eleito e retroagiu a estrutura econômica e política do país ao sabor das oligarquias reacionárias. Em 1943, o Grupo de Oficiais Unidos (GOU) arquitetou a tomada de poder numa mistura confusa e eficaz que conjugou catolicismo e nacionalismo. Em 1955, após os dois primeiros governos peronistas, a Igreja Católica entra em choque com Perón, chegando a excomungá-lo, para logo apoiar a chamada “revolução libertadora” que pôs fim à experiência peronista, liderada por militares integristas. Se auto-intitularam como portadores de uma missão redentora cujo objetivo fora a “desperonização do Estado”.
O caráter ativado da mobilização popular no contexto dos anos 1960, cujo Cordobazo foi o ápice, introduz um panorama que põe em xeque a hegemonia capitalista e o status quo.
Em 1966, Juan Carlos Ongania assumiu o poder com apoio deliberado da direita conservadora, alinhada com a igreja, e prometera nova reação à ativação dos movimentos de luta popular, os setores da lucha callejera. À época, o projeto do Onganito contou com o apoio da instituição católica. Postura que coadunou um projeto espiritual e econômico esclarecido, enfim, na nomeação de seu ministro da Economia, Jorge Néstor Salinei, que não possuía outra credencial senão o apoio declarado dos setores conservadores da Igreja.
O Cordobazo e o Rozariazo atropelaram o Onganiato. O olho do furacão, a cidade de Córdoba. Barricadas montadas nas ruas, baseadas na aliança entre setores operários e estudantis, demonstraram a ativação da luta popular em fins dos anos de 1960 e a fragilidade da hegemonia militar encouraçada de repressão. A luta de classes atingia níveis muito intensos.
Em 1976, sob as bênçãos da Igreja, representada na ocasião pelo padre Adolfo Tortolo, houve o golpe de 24 de março. Não se tratava de mais uma ditadura como as anteriores. Tratava-se, em suma, da ativação de um projeto terrorista cujo ensaio fora a “operação independência” em Tucumán. Imbuídos da doutrina Francesa da contra-insurgência, um aparato de guerra, bem azeitado, agrediu e dizimou a iniciativa foquista do Ejercito Revolucionario Del Pueblo (ERP) em 1975, ainda sob o governo constitucional de Isabelita Perón.
O Golpe de 24 de março de 1976, por si, apresentou-se como síntese do processo contrarrevolucionário. Sobre bases amplas de setores apoiadores da sociedade civil, meios de comunicação como o jornal Clarín, a Associação Permanente de Entidades Gremiais (APEGE) – representante do patronato empresarial argentino -, Sociedade Rural Argentina (SRA), e os setores conservadores da Igreja católica, apoiaram o auto-intitulado “Processo de Reorganização Nacional” (PRN), que oficializou o Terrorismo de Estado.
Os objetivos do Terrorismo de Estado, a partir de 1976, eram amplos, de longo prazo e retroativos. Tratava-se de uma intervenção “cirúrgica”, além de um projeto de militarização da sociedade. Constavam nas atas do processo os seguintes objetivos: “O Exército agirá seletivamente sobre os estabelecimentos industriais e empresas do Estado, em coordenação com os organismos estatais relacionados ao âmbito, para promover e neutralizar as situações conflitivas de origem trabalhista, provocadas ou que possam ser exploradas pela subversão, a fim de impedir a agitação e a ação insurrecional de massas, e contribuir para o eficiente funcionamento do aparelho produtivo do país.” (CONADEP, s/d: 280).
Conjugavam-se, no escopo e corpo da ditadura, um projeto de contra-revolução que se baseou no Integrismo Católico, na Doutrina de Segurança Nacional (DSN) e nos “valores ocidentais”. A ditadura de Terrorismo de Estado, na Argentina, contou com apoio massivo da cúpula católica. Desde os primeiros momentos da ditadura terrorista, a posição da Igreja era claramente definida, como revela a nota da Junta Episcopal argentina em reunião com a Junta Militar, ocorrida em 15.11.1976:
“O que pretende a Igreja? Primeiro, que não se misture na política. Frente a isto, os Bispos somos conscientes de que um fracasso levará, com muita probabilidade, ao marxismo, e por isto, acompanhamos o atual processo de reorganização do país, empreendido e encabeçado pelas Forças Armadas, o acompanhamos com compreensão e igualmente com ADESÃO E ACEITAÇÃO” (1).
Como insígnia do referido debate, encontramos alguns pontos nodais da cumplicidade entre Igreja e Ditadura. Para elucidar a questão, é importante lembrar o sequestro e desaparição de duas monjas francesas durante o terrorismo de Estado. Dagmar Hegelin, monja francesa que atuou nas redes de solidariedade aos familiares de desaparecidos, ainda durante a ditadura, foi sequestrada e levada a ESMA onde foi brutalmente torturada. Apesar das vinculações de Dagmar com a instituição, nada se falou à época.
Além do silêncio e cumplicidade da cúpula eclesiástica, encontra-se o caso de cooperação ativa em seções de tortura, como é o caso do Padre Christian Von Wernich. Von Wernich foi capelão da temida bonaerense durante a ditadura, além de ser acusado de participar de cerca de 45 sequestros, três assassinatos e outras tantas apropriações de bebês. Von Wernich foi julgado e condenado à prisão perpétua pela participação ativa em 7 assassinatos e 34 casos de tortura. No marco de seu julgamento, no ano de 2006, desapareceu a principal testemunha de acusação, Julio Lopez. Lopez, que até hoje permanece desaparecido.
É desta Igreja que provém Jorge Bergoglio. Uma Igreja que não deixou de contar com vozes dissonantes e resistentes – alguns dos quais inclusive desaparecidos pela ditadura -, mas que em sua cúpula hierárquica sempre se manteve firmemente aliada aos setores mais reacionários da sociedade argentina.
Um grupo de militares acusados de crimes contra a humanidade durante a ditadura argentina (1976-1983) apareceu na quinta-feira (14/03) em audiência realizada em um tribunal na cidade de Córdoba, trajando broches do Vaticano no lado esquerdo do terno, em alusão à eleição ocorrida um dia antes do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para o novo papa da Igreja Católica.
Bergoglio e a Ditadura
São inúmeras as denúncias de envolvimento de Jorge Bergoglio com a ditadura argentina. Algumas apontam sua conivência, cumplicidade e intimidade com os ditadores enquanto outras o acusam de forma mais direta em ações de terror de Estado.
A cumplicidade com a ditadura foi compartilhada por toda a alta hierarquia católica argentina (o que naturalmente não exime a responsabilidade individual de cada bispo) e, portanto, não é de estranhar que Bergoglio apareça sorridente e muito confortável ao lado de ditadores, em especial daquele que melhor simboliza o terror de Estado – o General Jorge Rafael Videla – e que tenha atuado sistematicamente contra os movimentos católicos renovadores de base popular.
Mais impactantes são as denúncias fartamente documentadas da cumplicidade de Bergoglio com a prisão e tortura de padres pertencentes a sua própria Ordem, Francisco Jalic e Orlando Yorio. Ambos integravam um movimento de renovação no interior da Ordem dos Jesuítas e da Igreja, desenvolvendo trabalhos de alfabetização e assistência na periferia de Buenos Aires, sob influência da Teologia da Libertação, e foram sequestrados em maio de 1976, permanecendo detidos e torturados na famigerada Escola Superior da Marinha (ESMA) até outubro daquele ano, quando foram drogados e deixados em um terreno baldio. No mesmo operativo, foram sequestradas quatro catequistas e os maridos de duas delas, os quais permanecem desaparecidos.
As denúncias de cumplicidade de Bergoglio são sustentadas por diversos religiosos (2). Ainda em março de 1976, Bergoglio acusou a ambos de desenvolverem atividades dissolventes e de conflito de obediência (por recusarem-se a interromper o trabalho desenvolvido na periferia de Buenos Aires), decretando sua expulsão da Ordem dos Jesuítas. Dois meses depois do golpe, o Bispo de Morón, Miguel Raspatini, pediu a transferência de Jalic e Yorio para aquela Diocese, preocupado com o perigo que corriam em Buenos Aires, mas a transferência foi proibida por Bergoglio, e poucos dias depois, a 23 de maio, foram ambos sequestrados pela ditadura. Como acusou Yorio, Bergoglio submeteu a ambos “à proibição e à infâmia pública de não poder exercer o sacerdócio, dando assim ocasião e justificação para que as forças repressivas fizessem com que desaparecêssemos. (...)
Os documentos que incriminam Bergoglio foram revelados por Horácio Verbitsky, um dos principais jornalistas argentinos e autor de inúmeros livros sobre a ditadura daquele país (3). Graciela Yorio, irmã de Orlando (falecido em 2000), sustentou acusação formal contra Bergoglio, que culminou em sua intimação para depoimento em 2011, e frente a sua nomeação como papa, reafirma as denúncias: “Bergoglio os desprotegeu. Como meu irmão e Francisco não seguiram os conselhos de deixar de viver numa favela, foram expulsos da congregação pelas pressões da ditadura, que achava que eram subversivos, e posteriormente presos”. Graciela conta ainda que depois do sequestro de seu irmão procurou Bergoglio e então compreendeu que ele estava envolvido no sequestro: “Ele nos disse que sobre Orlando não se falava mais, dando a entender que ele estava morto. Nossa sensação é de que ele os entregou. Quando meu irmão e Francisco foram soltos, telefonaram para Bergoglio e ele lhes disse que não podia ajudá-los – afirmou Graciela” (4).
Também Lorenzo Riquelme, médico peronista e militante católico sequestrado pela ditadura, acusa Bergoglio de envolvimento na repressão, afirmando que “o grupo que o sequestrou e torturou em 1976 saiu da sede principal da Companhia de Jesus, onde vivia e era responsável o superior provincial Jorge Mario Bergoglio” (5). Sua localização foi extraída de sua noiva em uma sessão de tortura da qual participou ativamente o padre Martín González (6).
Por sua vez o sacerdote Mom Debussy, motorista de Bergoglio à época, revela que em 1974 Bergoglio, então Reitor Provincial dos jesuítas, obrigara seus subordinados a participar e apoiar um comício de Isabelita Perón e também que lhe confidenciara os planos políticos do Almirante Massera, manifestando sua simpatia (7).
Bergoglio é acusado ainda de cumplicidade e envolvimento com o sequestro de bebês, filhos de militantes políticos mortos pela ditadura, tendo sido intimado para depor na causa ESMA a partir de denúncia de Estela de la Cuadra, uma das fundadoras das Abuelas de la Plaza de Mayo, que o acusa de conhecer e omitir o paradeiro de sua sobrinha, roubada de uma delegacia de La Plata (8). Ouvido em Tribunal, Bergoglio sustentou que só teve notícia dos sequestros muitos anos depois. Estela sustenta que sua família procurou Bergoglio após o sequestro de sua irmã Helena (grávida de cinco meses), recebendo como resposta que “a situação era irreversível” e “que Ana, minha sobrinha nascida numa delegacia, estava com uma boa família, que cuidaria muito dela” (9). Ainda segundo de la Cuadra, “muitos dos bebês sequestrados eram distribuídos pelo Movimento de Famílias Cristãs, fortemente vinculado à Igreja” (10).
Com a eleição de Bergoglio como papa e o recrudescimento das denúncias contra ele, o Vaticano não tardou a reagir, qualificando-as, em tom típico da Guerra Fria, como obra destrutiva da “esquerda anticlerical” (11). Sem referir-se ao papel da Igreja Católica na sustentação da ditadura argentina, o porta-voz do Vaticano Federico Lombardi afirmou que “jamais houve uma acusação verossímil contra o Papa. A justiça argentina o interrogou, mas como pessoa informada de fatos, e jamais foi acusado de algo. Ele negou de forma documentada as acusações” (12). Em procedimento pouco usual, Lombardi atacou diretamente o jornal argentino Página 12, responsável pela publicação original das reportagens de Horácio Verbitsky, qualificando-o como “uma publicação que lança, às vezes, notícias caluniosas e difamatórias” e concluindo que “o caráter anticlerical desta campanha e de outras acusações contra Bergoglio é notório e evidente” (13). A nota do Vaticano, evidentemente, não traz qualquer elemento que permita refutar as acusações, o que explica seu tom agressivo. Como lembra o jornal Página 12, “na realidade não se trata de uma esquerda anticlerical (...), mas de dois sacerdotes jesuítas que foram sequestrados e torturados durante a ditadura, e já em democracia fizeram estas denúncias, às quais se somaram os familiares de outros laicos, militantes cristãos, que foram sequestrados nesta oportunidade, a maioria dos quais continua desaparecida” (14).
O significado da eleição de Bergoglio e as perspectivas de seu papado
Logo após a renúncia de Bento XVI, a impressão geral era que a Igreja Católica iniciava um processo de renovação, para recuperar a credibilidade perdida. Para uns poderia ser o início de uma renovação profunda, enquanto outros mais prudentes imaginavam mudanças cosméticas e superficiais. Assim, a muitos pareceu surpreendente a avaliação publicada no jornal espanhol El País, de que a renúncia de Bento XVI seria na realidade um golpe impulsionado pelos setores mais fundamentalistas, ou a extrema-direita católica, em especial o superpoderoso cardeal Angelo Scola (15). Frente ao conhecido conservadorismo de Ratzinger, tal conspiração parecia em um primeiro momento inverossímil, mas uma análise mais cuidadosa da trajetória e das posições políticas de Bergoglio parece indicar o acerto daquela avaliação. Se no campo moral a tendência é continuidade no imobilismo, na intervenção política é provável uma intervenção mais ativa e de conteúdo mais ferrenhamente contrarrevolucionário, muito distinta do conservadorismo passivo de Bento XVI.
Em vista disto, só podemos considerar como extremamente ingênuas as expectativas de renovação manifestadas por religiosos oriundos da Teologia da Libertação, como Frei Betto e Leonardo Boff. O primeiro considera que “o fato de ele escolher o nome Francisco é um sinal muito positivo, porque São Francisco foi o reformador da igreja. Acho positivo também para a América Latina, continente com o maior número de católicos. O que importa é que ele seja uma pessoa aberta para as demandas que a igreja exige hoje. A idade não importa. João 23, o papa mais revolucionário dos últimos séculos, também foi eleito com quase 80 anos” (16). Já Leonardo Boff, considera que “o importante é o nome, Francisco, significa um programa de uma igreja simples, pobre, amante da natureza, ligada ao povo, e disso é que estamos precisando hoje” (17). Muito mais realista parece-nos a lembrança de Dom Pedro Casaldáliga, uma voz cada vez mais isolada na hierarquia católica, que lembra que “paira na memória histórica a atitude da hierarquia argentina nos tempos da ditadura militar. Dessa atitude se reclama a omissão e a colaboração com um regime sangrento. Será bom que o papa Francisco aproveite as ocasiões para condenar profeticamente essa e outras ditaduras; até pedindo perdão em nome de toda a Igreja” (18). Nada indica, no entanto, que Bergoglio vá reconhecer o envolvimento da Igreja com a ditadura, e menos ainda que pedirá perdão...
Nada de novo na moral católica
Não é certamente no campo moral que haverá qualquer movimento de renovação, muito pelo contrário, pois as posições ultra-conservadoras de Bergoglio são sobremaneira conhecidas e apontam para uma rígida defesa de uma moralidade medieval. Sua posição relativa ao matrimônio homossexual e sua visão acerca das mulheres são suficientes para esclarecer a questão. Quanto ao primeiro, declarou, no contexto da discussão de um projeto de regulamentação da união civil entre pessoas do mesmo sexo na Argentina: “Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política; é a pretensão destrutiva ao plano de Deus. Não se trata de um mero projeto legislativo (este é apenas o), mas de uma jogada do Pai da Mentira que pretende confundir e enganar aos filhos de Deus” (19).
Suas primeiras manifestações públicas como papa, recolocando a figura do “diabo” no centro do discurso católico, expressam claramente sua perspectiva contrarreformista. Em relação às mulheres, é conhecida sua manifestação pronunciada em 4 de julho de 2007, às vésperas do lançamento público da candidatura presidencial de Cristina Kirchner, quando o então Arcebispo de Buenos Aires declarou: “As mulheres são naturalmente ineptas para exercer cargos políticos. A ordem natural e os fatos nos ensinam que o homem é o ser político por excelência; as Escrituras nos demonstram que a mulher sempre é o apoio do homem pensador e atuante, mas nada mais do que isto. É necessário ter memória: tivemos uma mulher como presidente da nação e todos sabemos o que se passou (referindo-se à Isabelita Perón)”. Esta declaração, no contexto em que foi emitida, remete igualmente a outra questão que transcende a pregação moralista: a intervenção política de Bergoglio, última questão que trataremos aqui.
A política do papa Francisco
As primeiras ações de Bergoglio como papa pretendem criar a imagem de um papa humilde e apolítico. A humildade do novo papa, na versão laudatória disseminada pela grande mídia, se expressaria na escolha do nome Francisco (omitindo-se a dubiedade da escolha, que poderia remeter igualmente a São Francisco Xavier, fundador da Ordem dos Jesuítas) e aos “hábitos simples” de um papa que costumaria se locomover de metrô – algo que é desmentido categoricamente pelo seu ex-motorista Mom Debussy (20). De muito mais relevância é seu suposto apoliticismo, que é facilmente desmentido mesmo sem que se recorra à sua intervenção na ditadura. Bergoglio sempre assumiu posições políticas muito explícitas, e em particular sob os governos dos Kirchner alinhou-se à oposição de direita, apoiando vigorosamente a paralisação agrário (21), através da qual os latifundiários pretendiam pagar menos impostos, denunciando o suposto caráter “populista” dos governos de Néstor e Cristina Kirchner e suas articulações com o chavismo, grande inimigo a ser combatido.
A escolha de um papa latino-americano, ao contrário de sugerir uma abertura e uma renovação da Igreja, parece expressar a perspectiva de intervenção política mais ativa na oposição ao chamado “populismo” que, com todos os seus limites e contradições, coloca em prática políticas heterodoxas e desafia o ordenamento global unipolar. Para o cientista social argentino Julio Gambina, assim como “um papa polaco chegou à Igreja para acompanhar o princípio do fim da experiência socialista”, Bergoglio teria a missão de confrontar o eixo constituído em torno das experiências venezuelana e boliviana, fortalecendo as oposições de direita, tal como sempre fez na Argentina dos Kirchner: “o rumo unipolar está sendo desafiado pela mudança política em nossa América com o ressurgimento do socialismo, seja da mão da revolução cubana ou pelos processos específicos que emergem em alguns países (Venezuela ou Bolívia), inclusive em vários movimentos políticos, sociais, intelectuais, culturais, em nossa região.
Com a morte de Chávez e milhões mobilizados para constituírem-se em sujeitos pelo cumprimento do legado revolucionário e socialista de Hugo Chávez, a Igreja lança o anel do símbolo de um chefe da Igreja nascido no Sul e compenetrado com o projeto do Norte.
O papa argentino, Francisco, vem cumprir o projeto do poder mundial para disputar o consenso da sociedade, especialmente dos povos. Não se trata somente de sustentar posições contrárias ao matrimônio igualitário, ou contra o aborto, amplamente difundido pelo bispo Bergoglio, mas gerir uma consciência de disciplinamento para a ordem contemporânea, reacionária, de dominação transcendental.
Nossa América é hoje um laboratório de mudanças políticas. A Igreja instituição quer intervir nesse processo não para empurrar essas mudanças, mas para freá-las. A disputa é pelas consciências. É uma batalha de ideias pela mudança ou pelo retrocesso. Preocupam-se com o efeito Chávez na região. Preocupam-se com a sucessão política na Venezuela e a capacidade de estender o rumo socialista. Necessitam disputar o consenso.
Mas, “por mais que as tentativas institucionais para acompanhar a ofensiva do capital contra o trabalho, os trabalhadores e os setores populares, inclusive a igreja dos pobres, o movimento religioso popular, persistem na busca de organizar a sociedade do viver bem (Bolívia), do bem-viver (Equador), do socialismo cubano ou da luta pela emancipação social de grande parte da baixa sociedade em nossa América” (22).
Não é necessário concordar integralmente com a avaliação exageradamente otimista de Gambina em relação aos avanços do chavismo e ao seu caráter socialista para compartilhar com sua conclusão de que os setores mais conservadores “preocupam-se com o efeito Chávez na região”. De fato, mesmo para aqueles que sempre estiveram na oposição pela esquerda ao governo Kirchner, não é difícil perceber que a nomeação de Bergoglio tem como finalidade fortalecer a oposição de direita. O PTS argentino avalia que a eleição de Bergoglio significa “o fortalecimento de uma instituição reacionária e um potencial baluarte estratégico para as classes dominantes” e que sua eleição representa na Argentina “um incentivo para a oposição patronal, mais que para o kirchnerismo. Bergoglio sempre foi porta-voz de slogans que coincidiam com os da oposição e tem relações muito próximas com Gabriela Michetti do PRO ou Elisa Carrió. Ainda que tenha tido maior enfrentamento com Néstor Kirchner do que com Cristina (em parte porque apesar de leis como o matrimônio igualitário, CFK segue sendo fiel opositora ao direito ao aborto legal, seguro e gratuito), Bergoglio sempre se situou na oposição política ao kirchnerismo (23).
Uma nota final: ao mesmo tempo em que repudiava as denúncias contra Bergoglio como obra da “esquerda anticlerical”, o Vaticano enviava um convite para a cerimônia de coroação do papa Francisco a Carlos Pedro Blaquier, dono do Engenho Ledesma e processado pelo sequestro e desaparecimento de 29 dirigentes sindicais e trabalhadores de sua empresa durante a ditadura (24). Blaquier é provavelmente o empresário cuja colaboração com a repressão é mais conhecida. O processo em que é acusado tramita na justiça argentina e ele é proibido de sair do país. Ainda assim, aproveitando-se do convite, Blaquier pediu autorização urgente ao Juizado Federal de Jujuy (onde corre seu processo). O convite enviado pelo cardeal argentino Marcelo Sánchez Sorondo (embaixador da Academia de Ciências Sociais do Vaticano) é muito revelador do tratamento da Igreja para com os terroristas de Estado da ditadura argentina: “Sei que com todos os compromissos importantes que tens na pátria não te será fácil decidir-te a vir, mas sendo tu um doutor do Laterano, me parece que tua presença em Roma constitui uma obrigação moral ineludível. (...) Além disso, há outro motivo para que participe na cerimônia, representas um dos setores mais pujantes do país, que fez esta revolução agrícola e industrial, modelo internacional e celeiro para o mundo” (25).
Sorondo, Bergoglio e a hierarquia católica argentina expressam o rumo tomado pela Igreja Católica. Suas ações e omissões, suas articulações e sua posição política não deixam dúvidas do que se pode esperar do papado que se inicia e desnudam a ingenuidade das esperanças de renovação de alguns, bem como a omissão do passado e das posições políticas de Bergoglio revelam a dimensão da operação midiática voltada à promoção de sua imagem como religioso apolítico e humilde, sobre cujo passado pouco se fala.
Notas:
(1) Disponível em http://www.publico.es/internacional/452122/bergoglio-oculto-la-complicidad-del-episcopado-argentino-con-la-junta-militar-del-dictador-videla
(2) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-144092-2010-04-18.html
(3) Ver farta documentação disponível em seu sítio eletrônico http://iglesiaydictadura.wordpress.com/tag/bergoglio/
(4) http://oglobo.globo.com/mundo/irma-de-jesuita-preso-durante-ditadura-contesta-escolha-do-papa-7834066
(5) http://ea.com.py/los-vinculos-del-nuevo-papa-con-la-dictadura-argentina-la-patota-salio-del-colegio-maximo/
(6) Idem.
(7) Idem.
(8) http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/03/novo-papa-sequestro-bebes-ditadura-argentina.html
(9) http://oglobo.globo.com/mundo/irma-de-jesuita-preso-durante-ditadura-contesta-escolha-do-papa-7834066
(10) Idem.
(11) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215950-2013-03-16.html
(12) http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21748
(13) Idem.
(14) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215951-2013-03-16.html. Deve-se mencionar ainda a manifestação de Adolgo Pérez Esquivel, respeitável militante dos direitos humanos na Argentina, que sustenta que Bergoglio não era cúmplice da ditadura. Sua breve manifestação, no entanto, é extremamente genérica e subjetiva e passa ao largo das denúncias concretas: “Bergoglio é questionado porque se diz que não fez o necessário para tirar da prisão os dois sacerdotes, sendo ele superior da Congregação dos Jesuítas. Mas eu sei pessoalmente que muitos bispos pediam à Junta Militar a liberação de prisioneiros e sacerdotes e não lhes era concedido.”. http://www.cunadelanoticia.com/?p=47844
(15) http://internacional.elpais.com/internacional/2013/02/11/actualidad/1360588257_314838.html
(16) http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1245823-escolha-do-papa-foi-mau-gosto-diz-hector-babenco-leia-o-que-falaram-outros-artistas.shtml
(17) http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1245929-escolha-de-argentino-e-novo-comeco-para-a-igreja-diz-leonardo-boff.shtml
(18) http://quemtemmedodademocracia.com/2013/03/14/casaldaliga-sobre-o-novo-papa-deve-pedir-perdao-em-nome-de-toda-a-igreja/
(19) Idem.
(20) http://ea.com.py/los-vinculos-del-nuevo-papa-con-la-dictadura-argentina-la-patota-salio-del-colegio-maximo/
(21) http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/27808/novo+papa+ajudou+ditadura+argentina+reitera+jornalista.shtml
(22) http://www.brasildefato.com.br/node/12323
(23) http://www.pts.org.ar/spip.php?article22115
(24) Blaquier é acusado de ser o mentor de dois seqüestros. O primeiro em 24 de março de 1976, de três dirigentes do Sindicato dos Operários de Ledesma, dentre os quais o ex-prefeito de Ledesma e assessor do sindicato, e outro ocorrido em julho do mesmo ano, na chamada “Noite do Apagão”, quando foram sequestrados 26 operários, familiares e militantes apoiadores do Sindicato, coordenadamente em três localidades próximas à planta principal do Engenho Ledesma. Os sequestros foram executados usando-se veículos e motoristas do Engenho.
(25) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215944-2013-03-16.html
Um grupo militares acusados de crimes contra a humanidade durante a ditadura argentina (1976-1983) apareceu na quinta-feira, 14/03, em audiência realizada em um tribunal na cidade de Córdoba, trajando broches do Vaticano no lado esquerdo do terno, em alusão à eleição ocorrida um dia antes do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para o novo papa da Igreja Católica.
Vídeo sobre o episódio: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=6_DsNecO3Ds
Fonte: http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215821-2013-03-15.html
Gilberto Calil e Marcos Vinícius Ribeiro são historiadores.
Fonte: Blog Convergência.
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