Gramsci e seu “grito de guerra” ecoam na blogosfera progressista
Salvo engano, o nome de Antonio Gramsci (1891-1937) não foi citado nos debates do 2º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, que ocorre desde sexta-feira (17) em Brasília. Mas um texto escrito há 95 anos pelo revolucionário italiano sintetiza um dos consensos mais cristalizados do movimento pela democratização da mídia.
Por André Cintra
Em Os Jornais e os Operários, de 1916, Gramsci exortava os trabalhadores a romperem todos os laços com a imprensa burguesa. Numa época em que a TV nem sequer existia e o rádio ainda era uma mídia incipiente e experimental – um “telégrafo sem fio” –, o jornal despontava como a principal arma de dominação ideológica do operariado.
“Antes de mais nada, o operário deve negar decididamente qualquer solidariedade com o jornal burguês. Deveria recordar-se sempre, sempre, sempre, que o jornal burguês (qualquer que seja sua cor) é um instrumento de luta movido por ideias e interesses que estão em contraste com os seus”, denunciava Gramsci. “Tudo o que se publica é constantemente influenciado por uma ideia: servir à classe dominante, o que se traduz sem dúvida num fato: combater a classe trabalhadora.”
Daí a conclamação do pensador italiano a que não se iludissem com a “grande imprensa” da época. Mais ainda, que não comprassem nem assinassem os jornais inimigos, para não garantir a viabilidade financeira do empreendimento. “Não contribuam com dinheiro para a imprensa burguesa que vos é adversária. Eis qual deve ser o nosso grito de guerra neste momento, caracterizado pela campanha de assinatura de todos os jornais burgueses: ‘Boicotem, boicotem, boicotem!’”, arrematava Gramsci.
Quase um século depois, os participantes do encontro da blogosfera parecem decididos a não dar tréguas à grande mídia. Já não se trata apenas de jornais. A imprensa burguesa deixou de ser somente impressa e se converteu num gigantesco aparato multimídia, que inclui também grandes emissoras de TV e rádio, revistas (sobretudo as semanais), portais na internet e provedores de conteúdo para dispositivos móveis. Como enfrentar esse centauro midiático – verdadeira aberração da civilização contemporânea?
O “medo de se indispor”
Um dos consensos que já é possível extrair do Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, antes mesmo da plenária final deste domingo (19) – e ainda que não haja uma resolução formal –, é que a luta contra a grande mídia tem de se fortalecer. É preciso, claro, que o governo tome medidas aparentemente mais simples, como alastrar a internet via banda larga. Mas urge, acima de tudo, ter ousadia e coragem para lutar contra o oligopólio que toma conta das comunicações.
Na abertura do encontro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ironizou os “falsos formadores de opinião que já não formam opinião nem na casa deles”. Implicitamente, porém, admitiu que o governo federal, tanto com ele quanto com a presidente Dilma Rousseff, não conseguiu alterar a correlação de forças do setor. Ao salientar que as propostas de marco regulatório “mexem com grandes interesses”, Lula deixou claro que a batalha não está ganha – ao contrário, apenas emergiu.
Com conhecimento de causa, dois outros convidados do encontro – a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) e o ex-ministro José Dirceu (PT-SP) – lembraram, em mesas diferentes, que a maioria dos políticos tem medo de se indispor com a grande mídia. Não é por acaso que a Câmara dos Deputados criou apenas neste ano a Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular (Frentecom), com mais de mais de cem entidades e sob a coordenação de Erundina. “Já não me sinto tão só”, afirmou a deputada.
35 grupos
Já o jurista Fábio Konder Comparato sustentou que “todos os poderes do Estado, inclusive a mídia, estão nas mãos de oligarquias. Os órgãos e as instituições do Estado brasileiro não têm poder de fato. Eles agem sob pressão dos grupos que efetivamente detêm poder”.
Comparato acredita que o Executivo “cede fácil às cobranças” das grandes redes de comunicação. Para começar a reverter essa lógica, basta que o Congresso regulamente os artigos da Constituição de 1988 sobre o tema – especialmente o que proíbe a existência de oligopólios no setor. São da autoria de Comparato, aliás, as ações diretas de inconstitucionalidade que cobram a regulamentação dessas medidas.
O desafio até lá, é resistir a tais pressões dos 35 grupos que controlam 516 empresas de comunicação do Brasil. Ou, em outras palavras, fazer valer o “grito de guerra” proposto por Gramsci: “Boicote, boicote, boicote” ao oligopólio midiático. Já!
(vermelho.org)
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Sexo
Sexo - II
Esquizo versus trans?
Não escolhemos um projeto, não precisamos. Podemos jogar na coluna do meio: a de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para quem queira fugir dos fascismos do momento
Fabiane Borges, Hilan Bensusan
(10/04/2008)
Vesículas, assembléias, clavículas, autoridades, cutículas, ancas, palanques, clitóris, lucidez. Essa justaposição desorienta. Parece que a política fica umbigocêntrica, que o corpo fica ralo de materialidade. Será que são as amareladas idéias de que corpos são pré-políticos que nos deixam com essa impressão? De todo modo, políticas esquizotrans não são políticas de corpos prontos – nem de políticas prontas. Nossos corpos e nossas políticas são feitas de justaposições; e de interdições de justaposições. A biopolítica da intersexualidade – que corpos com genitália que não é claramente masculina ou feminina podem continuar vivos sem órgãos definidos –, por exemplo, não é apenas a disputa pela inteligibilidade dos corpos; é também a batalha pela autonomia de justapor. Encontrar política no corpo é pensá-lo como um sintoma dos desejos (das partículas de subjetividade), como uma vitrine dos produtos dos dispositivos de fazer certos tipos de gente (fazendo coisas como matrizes de inteligibilidade), como um terreno em disputa da evolução natural e artificial das espécies (que deixa pistas pelo genoma). Justapor corpo e política é contaminar o corpo de política – ele vira um palanque – e embrenhar a política das potências (e dos limites de velocidade) dos corpos. O corpo disciplinado, o corpo doente, o corpo mutilado, o corpo em êxtase são palanques porque são plataformas a partir das quais os desejos fazem campanha (não fazem campanha eleitoral, fazem campanha infecciosa). Também assim o corpo sexuado, inserido em uma bipolaridade, embrenhado das normas de gênero ou constituído pelas artimanhas inatas e adquiridas da diferença sexual.
— Doutor, quantas vezes uma pessoa pode mudar de sexo?
— Olhe, eu não sou a pessoa mais adequada para responder a sua pergunta, porque há mais de 22 anos eu venho me recusando a participar de qualquer procedimento de normalização sexual de recém-nascidos. Eu simplesmente deixo a genitália como ela nasceu. Outro dia encontrei uma menina de 15 anos com sua mãe na praia. A mãe me reconheceu: eu era o chefe da equipe no hospital em que ela fez o parto. Eu olhei para a menina, que vestia um bikini azul, e não pude parar de pensar no que havia dentro da parte debaixo daquele biquíni.
— O que havia?
— Tudo.
Judith Butler [1], em um livro que marcou uma época há 18 anos, exalou uma certa fragrância de política pós-corporal. Nas entrelinhas de Butler de Gender Troubles (1990), ela apresentava a inteligibilidade dos corpos em termos de sua capacidade para alguma performance e, assim, podia ser que os corpos tivessem deixado de importar. Ou seja, podia ser que o gênero, com todo o seu ímpeto normativo, tornasse irrelevante os contornos (materiais, demasiado materiais) dos corpos. Butler recentemente confessou que sempre que tenta falar do corpo, acaba tratando da linguagem (Undoing Gender, 2004, p. 198). Ela torce o foco da materialidade do sexo para a sexualidade da matéria, Há manivelas o suficiente em sua engrenagem para mover esse guindaste. Porém fica a fragrância: não seriam estes corpos irreverentemente descolados dos órgãos genitais – irrelevantes? Pensemos agora no esquizo: fugido da organicidade do corpo, solto dos órgãos, preso apenas a um corpo sem inteligibilidade. E eis o contraste.
— Para que você quer fazer uma operação de mudança de sexo? O sexo não importa mais, seja um sujeito lesbiano (ou invente sua performance sexual a cada dia, ou trate seu corpo como se ele não tivesse órgãos).
— Ah?
Consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória
Trans versus esquizo. A política sexual dos cyborgs da diferença sexual de um lado e a política sexual dos corpos múltiplos, rarefeitos, quase epifenomênicos. Em Em busca do que é trans, falamos dos problemas em tratar com um doutor Grinder que recusa a colocar seu bisturi a serviço de uma trans-inter. Ele talvez estivesse a serviço da ordem estabelecida de gênero. Mas a paciente: ela trans, ela esquizo. Para ser nada, às vezes precisamos ser tudo – era uma de suas maneiras de criar para si um corpo sem órgãos: criar para si um corpo com órgãos demais. Porém, nossa personagem não é apenas uma ficção trans de uma esquizo ou uma divagação esquizo acerca do desejo trans?
Parece uma tensão familiar: o projeto político dos corpos sem sexo (a matéria liquidificada em política) e o desejo de ter um corpo com outro sexo. [2] Nos movemos por essa tensão muito freqüentemente, e aqui as nuances dão o tom das escolhas. E consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória. Ninguém nasce mulher (ou homem), torna-se, mas em um percurso assim atravessa-se o inaudito do fascismo: o trânsito, os subterrâneos da ordem. Andréa Stefani, colunista da Tribuna do Brasil, por exemplo, conta que o mero exercício de um cross-dressing eventual, já faz atravessar pelo menos a epiderme de alguns mecanismos dos desejos. Ocupando o espaço que as transsexuais percorrem (ou inspiradas pelas horas em que Flávio de Carvalho caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e meia-calça) surgem pessoas transgênero, trans, travestidas, espécies de Orlans da genitália que querem transitar, fazer um ninho no meio do trânsito, querendo tudo ou quase tudo.
— Ah? É isso que eu quero. Teu projeto político vai determinar o que eu posso e o que eu não posso querer? Graças a mim outras pessoas podem querer levar isso mais a fundo e desmaterializar-se exatamente na velocidade da minha trans–formação? Experimentar algumas mudanças de função dos órgãos? Experimentar ter um pinto e uma cona cunhado no coração? Eu, por enquanto, quero apenas transitar: atravessar a rua e ficar do outro lado.
A tensão esquizo X trans também é reminiscente do contraste entre dois tipos de projetos feministas já clássicos e que ainda marcam as interações em torno da querela da diferença sexual. O esforço para desencavar uma escritura feminina era um esforço por pensar de uma maneira própria das mulheres. A tradição em torno da écriture féminine tenta afirmar a diferença sexual: é preciso que a mulher deixe ser tomada como a outra do homem, ela é antes aquilo para o que não há espaço em um regime falocêntrico. Luce Irigaray [3] propôs uma heterossexualidade radical; onde o hetero é radical, a diferença sexual não é pensada desde nenhum dos lados, mas como uma diferença. A diferença sexual não é uma oposição sexual, mas uma alteridade – o projeto político de encontrar as mulheres sob os escombros do papel de outras dos homens. Uma vez afirmada a diferença sexual – não composta de pares opostos, mas ainda de pares – uma pessoa pode ir de um pólo a outro, talvez mesmo ficar no meio entre esses pólos. Os pólos não são nem um sucursal do outro e nem um satélite na órbita de outro: apenas diferença sem hierarquia.
Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais de binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão:
O contraste é com um projeto como aquele que foi proposto por Monique Wittig (que, para nossos propósitos está próximo do projeto de Butler). Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais uma erótica da binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão: ao invés de cuidar dos órgãos, pense seu corpo como independente deles. Seja lésbica com a trosoba, faça ela entrar em um devir antifálico, em um processo de clitorização.
Não escolhemos um projeto, não temos que escolher. Podemos jogar na coluna do meio: a coluna do meio é a coluna de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para que quem queira possa fugir dos fascismos do momento. Todas as partes de qualquer todo tem algum direito de escapar. Políticas esquizotrans são políticas das exceções.
A menina do biquíni azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação — deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o biquíni azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Quando uma onda faz a parte de baixo do biquíni descer um pouco de seu caimento, ela é acometida de vários raios do céu no cu e eles diziam que sua perna direita transformara-se num mensageiro desengonçado cuja missão era cortar o mundo com voz afiada; o começo da política é o corpo. Se o corpo não puder ser discutido não haverá crescimento que não seja por cima das exceções, elas continuaram como saci do mato rodopiando o imaginário de uma política sem imaginação no senado. Que tipo de crescimento econômico me garantem os homenzinhos engravatados nos seus falismos de fala e de façanhas ministeriais? Com seu mundo não compactuamos com sede, ele não é devidamente esquizotrans. Esquizotrans é a categoria de quem transita – de quem quer outra coisa.
A menina de biquíni de bolinha se chamava Alex e mijava de pé segurando o próprio pinto. O diálogo mais bonito do filme XXY foi conversa entre a hermafrodita e o menino que acabara de ser enfiado pela hermafrodita. Ele pergunta: qual dos dois você é? Ela: os dois. Ele: isso não pode ser. Ela: é você que me diz o que posso ser. Silêncio. Ele: você gosta de homens ou de mulheres. Ela responde: eu não sei, e você (sic) ? É que os desejos são emaranhados no que colocamos para jogo. A esquizerda não prende a respiração diante do abjeto, ela respira e por isso inspira e logo conspira. Coube aos fascismos a erotização de mão única dos discursos políticos — o falocentrismo virou logocentrismo e a exceção sem cabimento. A esquizerda veio para politizar as eróticas, as mais miudinhas e as mais escandalosas.
(Le monde Diplomatique)
Esquizo versus trans?
Não escolhemos um projeto, não precisamos. Podemos jogar na coluna do meio: a de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para quem queira fugir dos fascismos do momento
Fabiane Borges, Hilan Bensusan
(10/04/2008)
Vesículas, assembléias, clavículas, autoridades, cutículas, ancas, palanques, clitóris, lucidez. Essa justaposição desorienta. Parece que a política fica umbigocêntrica, que o corpo fica ralo de materialidade. Será que são as amareladas idéias de que corpos são pré-políticos que nos deixam com essa impressão? De todo modo, políticas esquizotrans não são políticas de corpos prontos – nem de políticas prontas. Nossos corpos e nossas políticas são feitas de justaposições; e de interdições de justaposições. A biopolítica da intersexualidade – que corpos com genitália que não é claramente masculina ou feminina podem continuar vivos sem órgãos definidos –, por exemplo, não é apenas a disputa pela inteligibilidade dos corpos; é também a batalha pela autonomia de justapor. Encontrar política no corpo é pensá-lo como um sintoma dos desejos (das partículas de subjetividade), como uma vitrine dos produtos dos dispositivos de fazer certos tipos de gente (fazendo coisas como matrizes de inteligibilidade), como um terreno em disputa da evolução natural e artificial das espécies (que deixa pistas pelo genoma). Justapor corpo e política é contaminar o corpo de política – ele vira um palanque – e embrenhar a política das potências (e dos limites de velocidade) dos corpos. O corpo disciplinado, o corpo doente, o corpo mutilado, o corpo em êxtase são palanques porque são plataformas a partir das quais os desejos fazem campanha (não fazem campanha eleitoral, fazem campanha infecciosa). Também assim o corpo sexuado, inserido em uma bipolaridade, embrenhado das normas de gênero ou constituído pelas artimanhas inatas e adquiridas da diferença sexual.
— Doutor, quantas vezes uma pessoa pode mudar de sexo?
— Olhe, eu não sou a pessoa mais adequada para responder a sua pergunta, porque há mais de 22 anos eu venho me recusando a participar de qualquer procedimento de normalização sexual de recém-nascidos. Eu simplesmente deixo a genitália como ela nasceu. Outro dia encontrei uma menina de 15 anos com sua mãe na praia. A mãe me reconheceu: eu era o chefe da equipe no hospital em que ela fez o parto. Eu olhei para a menina, que vestia um bikini azul, e não pude parar de pensar no que havia dentro da parte debaixo daquele biquíni.
— O que havia?
— Tudo.
Judith Butler [1], em um livro que marcou uma época há 18 anos, exalou uma certa fragrância de política pós-corporal. Nas entrelinhas de Butler de Gender Troubles (1990), ela apresentava a inteligibilidade dos corpos em termos de sua capacidade para alguma performance e, assim, podia ser que os corpos tivessem deixado de importar. Ou seja, podia ser que o gênero, com todo o seu ímpeto normativo, tornasse irrelevante os contornos (materiais, demasiado materiais) dos corpos. Butler recentemente confessou que sempre que tenta falar do corpo, acaba tratando da linguagem (Undoing Gender, 2004, p. 198). Ela torce o foco da materialidade do sexo para a sexualidade da matéria, Há manivelas o suficiente em sua engrenagem para mover esse guindaste. Porém fica a fragrância: não seriam estes corpos irreverentemente descolados dos órgãos genitais – irrelevantes? Pensemos agora no esquizo: fugido da organicidade do corpo, solto dos órgãos, preso apenas a um corpo sem inteligibilidade. E eis o contraste.
— Para que você quer fazer uma operação de mudança de sexo? O sexo não importa mais, seja um sujeito lesbiano (ou invente sua performance sexual a cada dia, ou trate seu corpo como se ele não tivesse órgãos).
— Ah?
Consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória
Trans versus esquizo. A política sexual dos cyborgs da diferença sexual de um lado e a política sexual dos corpos múltiplos, rarefeitos, quase epifenomênicos. Em Em busca do que é trans, falamos dos problemas em tratar com um doutor Grinder que recusa a colocar seu bisturi a serviço de uma trans-inter. Ele talvez estivesse a serviço da ordem estabelecida de gênero. Mas a paciente: ela trans, ela esquizo. Para ser nada, às vezes precisamos ser tudo – era uma de suas maneiras de criar para si um corpo sem órgãos: criar para si um corpo com órgãos demais. Porém, nossa personagem não é apenas uma ficção trans de uma esquizo ou uma divagação esquizo acerca do desejo trans?
Parece uma tensão familiar: o projeto político dos corpos sem sexo (a matéria liquidificada em política) e o desejo de ter um corpo com outro sexo. [2] Nos movemos por essa tensão muito freqüentemente, e aqui as nuances dão o tom das escolhas. E consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória. Ninguém nasce mulher (ou homem), torna-se, mas em um percurso assim atravessa-se o inaudito do fascismo: o trânsito, os subterrâneos da ordem. Andréa Stefani, colunista da Tribuna do Brasil, por exemplo, conta que o mero exercício de um cross-dressing eventual, já faz atravessar pelo menos a epiderme de alguns mecanismos dos desejos. Ocupando o espaço que as transsexuais percorrem (ou inspiradas pelas horas em que Flávio de Carvalho caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e meia-calça) surgem pessoas transgênero, trans, travestidas, espécies de Orlans da genitália que querem transitar, fazer um ninho no meio do trânsito, querendo tudo ou quase tudo.
— Ah? É isso que eu quero. Teu projeto político vai determinar o que eu posso e o que eu não posso querer? Graças a mim outras pessoas podem querer levar isso mais a fundo e desmaterializar-se exatamente na velocidade da minha trans–formação? Experimentar algumas mudanças de função dos órgãos? Experimentar ter um pinto e uma cona cunhado no coração? Eu, por enquanto, quero apenas transitar: atravessar a rua e ficar do outro lado.
A tensão esquizo X trans também é reminiscente do contraste entre dois tipos de projetos feministas já clássicos e que ainda marcam as interações em torno da querela da diferença sexual. O esforço para desencavar uma escritura feminina era um esforço por pensar de uma maneira própria das mulheres. A tradição em torno da écriture féminine tenta afirmar a diferença sexual: é preciso que a mulher deixe ser tomada como a outra do homem, ela é antes aquilo para o que não há espaço em um regime falocêntrico. Luce Irigaray [3] propôs uma heterossexualidade radical; onde o hetero é radical, a diferença sexual não é pensada desde nenhum dos lados, mas como uma diferença. A diferença sexual não é uma oposição sexual, mas uma alteridade – o projeto político de encontrar as mulheres sob os escombros do papel de outras dos homens. Uma vez afirmada a diferença sexual – não composta de pares opostos, mas ainda de pares – uma pessoa pode ir de um pólo a outro, talvez mesmo ficar no meio entre esses pólos. Os pólos não são nem um sucursal do outro e nem um satélite na órbita de outro: apenas diferença sem hierarquia.
Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais de binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão:
O contraste é com um projeto como aquele que foi proposto por Monique Wittig (que, para nossos propósitos está próximo do projeto de Butler). Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais uma erótica da binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão: ao invés de cuidar dos órgãos, pense seu corpo como independente deles. Seja lésbica com a trosoba, faça ela entrar em um devir antifálico, em um processo de clitorização.
Não escolhemos um projeto, não temos que escolher. Podemos jogar na coluna do meio: a coluna do meio é a coluna de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para que quem queira possa fugir dos fascismos do momento. Todas as partes de qualquer todo tem algum direito de escapar. Políticas esquizotrans são políticas das exceções.
A menina do biquíni azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação — deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o biquíni azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Quando uma onda faz a parte de baixo do biquíni descer um pouco de seu caimento, ela é acometida de vários raios do céu no cu e eles diziam que sua perna direita transformara-se num mensageiro desengonçado cuja missão era cortar o mundo com voz afiada; o começo da política é o corpo. Se o corpo não puder ser discutido não haverá crescimento que não seja por cima das exceções, elas continuaram como saci do mato rodopiando o imaginário de uma política sem imaginação no senado. Que tipo de crescimento econômico me garantem os homenzinhos engravatados nos seus falismos de fala e de façanhas ministeriais? Com seu mundo não compactuamos com sede, ele não é devidamente esquizotrans. Esquizotrans é a categoria de quem transita – de quem quer outra coisa.
A menina de biquíni de bolinha se chamava Alex e mijava de pé segurando o próprio pinto. O diálogo mais bonito do filme XXY foi conversa entre a hermafrodita e o menino que acabara de ser enfiado pela hermafrodita. Ele pergunta: qual dos dois você é? Ela: os dois. Ele: isso não pode ser. Ela: é você que me diz o que posso ser. Silêncio. Ele: você gosta de homens ou de mulheres. Ela responde: eu não sei, e você (sic) ? É que os desejos são emaranhados no que colocamos para jogo. A esquizerda não prende a respiração diante do abjeto, ela respira e por isso inspira e logo conspira. Coube aos fascismos a erotização de mão única dos discursos políticos — o falocentrismo virou logocentrismo e a exceção sem cabimento. A esquizerda veio para politizar as eróticas, as mais miudinhas e as mais escandalosas.
(Le monde Diplomatique)
terça-feira, 28 de junho de 2011
Pensamentando
Fim de festa
Posted on 28/06/2011 by boitempoeditorial| Deixar um comentário
Por Urariano Mota.
- Deus não está do nosso lado – João fala.
- Ainda acredita em Deus? – Vevê pergunta.
- Que pergunta! – João responde. – Se existe ou não, Ele não está do nosso lado. Isso é o que importa.
- Fecho – Miro diz. – Há muito que Deus não está por nós. Às vezes está conosco, mas é contra nós.
- Eu sinto Dele um desprezo solene – João fala. – Não se trata nem de ser contra. O problema é que de nós Ele nem toma conhecimento. Somos uns grãozinhos sem significação. Com tantas estrelas no infinito, nós somos menos que grãozinhos de pó. Poeirinha de matéria dispersa, só. O meu pau, o meu pênis, vai se esfarelar. O meu cérebro é toucinho que se dissolve. O que é que fica do toucinho quando uma bomba se acende? Devíamos viver em permanente bebedeira. Que diferença faz entre o nosso ser inútil e o inútil bêbado? Quando chegar a minha hora eu quero estar bêbado.
- Eu prefiro estar lúcido – Miro fala. – Se eu fosse fuzilado, no muro, eu queria estar sem a venda nos olhos. Ia ser o meu último gole. Um gole duro de engolir, mas seria o último. É o último. A dor é vital, entende? A gente não pode deixar de senti-la, pra ser vida.
- E pra quê existe a anestesia, Miro? – Vevê pergunta, querendo sorrir. – Por que é que inventaram a anestesia? Pra morrer, se eu pudesse mandar alguém em meu lugar, eu mandaria.
- Vevê, isso não é muito digno – Miro diz. – Eu te conheço: não tás falando sério.
- Eu não sei se estou brincando – Vevê responde.
- Falar é fôlego – João diz. – Lorca se borrou. Morreu obrado, é o que dizem.
- Eu já li isso – Miro diz. – Mas pode ter sido também da dor. Ou pode ser até mesmo uma invenção dos fascistas de Franco. Pode ser. Mas isso não diminui a grandeza de Lorca.
- Salpica, salpica – João fala a sério. – Pra quê negar?
- Eu não sei – Miro fala, com um movimento na perna cruzada, para evitar um muxoxo nos lábios. – Eu não sei. Eu diria que isso até deixa o poeta mais perto de nós.
- É verdade – João assente. – Mas isso também mostra que nós temos uma exigência baixa. Que esperamos de nós próprios um comportamento sem heroísmo.
- Pode ser – Miro diz. – Mas a gente não pode perder a esperança de ser um pouquinho melhor do que a gente sabe que é.
- Eu respeito muito vocês – Samuel fala. E se cala, perturbado.
- Fala, Samuca – Vevê provoca. – Desembucha.
- Besteira – Samuel diz. – Eu tava ouvindo e pensando, será que João está certo? Será que tudo pelo que lutamos é inútil? Será que toda nossa luta é inglória, é em vão? Porque, se for, então essa luta da gente é delírio. Eu vou ficar muito puto. Eu não acredito nem posso acreditar que seja dessa maneira. Porra, a gente vai afundar, feito macaco. Quando vem a cheia, o macaco sem saída afunda tapando os olhos. E a gente veio pra ser macaco, porra?
- Entre o macaco e o delírio – João diz, – tem que haver um meio termo. Um termo justo. Tem que haver. Ou do contrário o melhor é cair na anarquia, na farra sem medidas.
- É uma proposta – Miro fala, sério. – Não sei, eu não abraço, mas é uma proposta.
- Assim, meu caro… – Samuel diz, com a voz embargada. – Assim não existe futuro. Desse lado não existe futuro. Desse lado vamos terminar ficando doidos.
- A inteligência está em nós, companheiro – Miro fala. – A nossa consciência faz com que a gente resista à loucura, entende?
Samuel cala. Tem medo de dizer “eu tenho visões”, para que não concluam, “estás ficando louco”, e mais adiante afirmem, “isso é porque a tua consciência não é boa”. Ele não está bêbado, nem lhes tem tamanha confiança para se desnudar tão íntimo. No entanto uma visão o assalta, e por isso diz:
- Prefiro este meu caminho. E eu não tenho outro. É um caminho de rosas brancas, eu passo entre elas, e vou me furando de espinhos. No fim do caminho parece que está uma bomba. Vai explodir em cima de mim. Mas eu não tenho outro. Porque, se não fosse o socialismo, eu já estaria bem morto antes.
Os outros rapazes ficam em silêncio.
- Eu venho da Ladeira do Sapoti – Samuel continua. – Vocês sabem o que é viver naquela ladeira? Não sabem. É querer sair, pra atingir no máximo Beberibe. Vocês sabem o que é viver em Beberibe? Ter somente o Beberibe como horizonte? É morrer com o fígado inchado, esperando o céu de Jesus como paga.
- E se nós tivermos outro Jesus? – João pergunta, num impulso, que Samuel recebe como um insulto:
- Quê, que Jesus?
- E se o socialismo não for outro Jesus? – João insiste.
- Conversa, João – Samuel responde. – O socialismo existe, é concreto. Está aqui, ó, na palma da mão da gente. Nós é que fazemos o socialismo.
João se cala. A manhã vem chegando. A conversa prossegue numa interiorização que se aprofunda.
Naquela manhã , ao atingir a Suassuna, João estragou o sapato chutando muros dos jardins de casas na avenida. Miro, mais sereno, acompanhou aquela angústia como um personagem que tudo vê, num pesadelo. Aquela angústia também era sua, mas amenizada, por temperamento e crença. Vevê ficou em casa, para dormir. Terminou por “furar um ponto”, às onze horas do dia. Samuel, nem feliz nem contente, apenas dizia, “João, João …” e não sentia em si forças para conter aquele assalto de desespero. O certo é que todos tinham os olhos vermelhos, marejados, e os corpos dissolutos. Cada um guardava no íntimo, e sabiam que este era um segredo comum, que não se diziam: vida, tu és amarga.
*Do romance Os corações futuristas.
***
Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.
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(Blog do Boitempo)
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Por Urariano Mota.
- Deus não está do nosso lado – João fala.
- Ainda acredita em Deus? – Vevê pergunta.
- Que pergunta! – João responde. – Se existe ou não, Ele não está do nosso lado. Isso é o que importa.
- Fecho – Miro diz. – Há muito que Deus não está por nós. Às vezes está conosco, mas é contra nós.
- Eu sinto Dele um desprezo solene – João fala. – Não se trata nem de ser contra. O problema é que de nós Ele nem toma conhecimento. Somos uns grãozinhos sem significação. Com tantas estrelas no infinito, nós somos menos que grãozinhos de pó. Poeirinha de matéria dispersa, só. O meu pau, o meu pênis, vai se esfarelar. O meu cérebro é toucinho que se dissolve. O que é que fica do toucinho quando uma bomba se acende? Devíamos viver em permanente bebedeira. Que diferença faz entre o nosso ser inútil e o inútil bêbado? Quando chegar a minha hora eu quero estar bêbado.
- Eu prefiro estar lúcido – Miro fala. – Se eu fosse fuzilado, no muro, eu queria estar sem a venda nos olhos. Ia ser o meu último gole. Um gole duro de engolir, mas seria o último. É o último. A dor é vital, entende? A gente não pode deixar de senti-la, pra ser vida.
- E pra quê existe a anestesia, Miro? – Vevê pergunta, querendo sorrir. – Por que é que inventaram a anestesia? Pra morrer, se eu pudesse mandar alguém em meu lugar, eu mandaria.
- Vevê, isso não é muito digno – Miro diz. – Eu te conheço: não tás falando sério.
- Eu não sei se estou brincando – Vevê responde.
- Falar é fôlego – João diz. – Lorca se borrou. Morreu obrado, é o que dizem.
- Eu já li isso – Miro diz. – Mas pode ter sido também da dor. Ou pode ser até mesmo uma invenção dos fascistas de Franco. Pode ser. Mas isso não diminui a grandeza de Lorca.
- Salpica, salpica – João fala a sério. – Pra quê negar?
- Eu não sei – Miro fala, com um movimento na perna cruzada, para evitar um muxoxo nos lábios. – Eu não sei. Eu diria que isso até deixa o poeta mais perto de nós.
- É verdade – João assente. – Mas isso também mostra que nós temos uma exigência baixa. Que esperamos de nós próprios um comportamento sem heroísmo.
- Pode ser – Miro diz. – Mas a gente não pode perder a esperança de ser um pouquinho melhor do que a gente sabe que é.
- Eu respeito muito vocês – Samuel fala. E se cala, perturbado.
- Fala, Samuca – Vevê provoca. – Desembucha.
- Besteira – Samuel diz. – Eu tava ouvindo e pensando, será que João está certo? Será que tudo pelo que lutamos é inútil? Será que toda nossa luta é inglória, é em vão? Porque, se for, então essa luta da gente é delírio. Eu vou ficar muito puto. Eu não acredito nem posso acreditar que seja dessa maneira. Porra, a gente vai afundar, feito macaco. Quando vem a cheia, o macaco sem saída afunda tapando os olhos. E a gente veio pra ser macaco, porra?
- Entre o macaco e o delírio – João diz, – tem que haver um meio termo. Um termo justo. Tem que haver. Ou do contrário o melhor é cair na anarquia, na farra sem medidas.
- É uma proposta – Miro fala, sério. – Não sei, eu não abraço, mas é uma proposta.
- Assim, meu caro… – Samuel diz, com a voz embargada. – Assim não existe futuro. Desse lado não existe futuro. Desse lado vamos terminar ficando doidos.
- A inteligência está em nós, companheiro – Miro fala. – A nossa consciência faz com que a gente resista à loucura, entende?
Samuel cala. Tem medo de dizer “eu tenho visões”, para que não concluam, “estás ficando louco”, e mais adiante afirmem, “isso é porque a tua consciência não é boa”. Ele não está bêbado, nem lhes tem tamanha confiança para se desnudar tão íntimo. No entanto uma visão o assalta, e por isso diz:
- Prefiro este meu caminho. E eu não tenho outro. É um caminho de rosas brancas, eu passo entre elas, e vou me furando de espinhos. No fim do caminho parece que está uma bomba. Vai explodir em cima de mim. Mas eu não tenho outro. Porque, se não fosse o socialismo, eu já estaria bem morto antes.
Os outros rapazes ficam em silêncio.
- Eu venho da Ladeira do Sapoti – Samuel continua. – Vocês sabem o que é viver naquela ladeira? Não sabem. É querer sair, pra atingir no máximo Beberibe. Vocês sabem o que é viver em Beberibe? Ter somente o Beberibe como horizonte? É morrer com o fígado inchado, esperando o céu de Jesus como paga.
- E se nós tivermos outro Jesus? – João pergunta, num impulso, que Samuel recebe como um insulto:
- Quê, que Jesus?
- E se o socialismo não for outro Jesus? – João insiste.
- Conversa, João – Samuel responde. – O socialismo existe, é concreto. Está aqui, ó, na palma da mão da gente. Nós é que fazemos o socialismo.
João se cala. A manhã vem chegando. A conversa prossegue numa interiorização que se aprofunda.
Naquela manhã , ao atingir a Suassuna, João estragou o sapato chutando muros dos jardins de casas na avenida. Miro, mais sereno, acompanhou aquela angústia como um personagem que tudo vê, num pesadelo. Aquela angústia também era sua, mas amenizada, por temperamento e crença. Vevê ficou em casa, para dormir. Terminou por “furar um ponto”, às onze horas do dia. Samuel, nem feliz nem contente, apenas dizia, “João, João …” e não sentia em si forças para conter aquele assalto de desespero. O certo é que todos tinham os olhos vermelhos, marejados, e os corpos dissolutos. Cada um guardava no íntimo, e sabiam que este era um segredo comum, que não se diziam: vida, tu és amarga.
*Do romance Os corações futuristas.
***
Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.
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(Blog do Boitempo)
Capitalismo
Crise terminal do capitalismo?
Ecologia
Leonardo Boff
Sex, 24 de Junho de 2011 12:02
Leonardo BoffTenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.
A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX, Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.
A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.
O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.
Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugal, 12% no pais, e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.
A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentitentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.
Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.
As ruas de vários países europeus e árabes, os "indignados" que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhois gritam: "não é crise, é ladroagem". Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumo-sacerdotes do capital globalizado e explorador.
Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da super-exploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.
Leonardo Boff é teólogo e escritor, autor do livro "Proteger a Terra – cuidar da vida: como evitar o fim do mundo" (Record 2010).
(Fund. Lauro Campos)
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Ecologia
Leonardo Boff
Sex, 24 de Junho de 2011 12:02
Leonardo BoffTenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.
A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX, Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.
A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.
O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.
Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugal, 12% no pais, e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.
A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentitentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.
Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.
As ruas de vários países europeus e árabes, os "indignados" que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhois gritam: "não é crise, é ladroagem". Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumo-sacerdotes do capital globalizado e explorador.
Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da super-exploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.
Leonardo Boff é teólogo e escritor, autor do livro "Proteger a Terra – cuidar da vida: como evitar o fim do mundo" (Record 2010).
(Fund. Lauro Campos)
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Cinema
Um homem sério
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admin
– 04/05/2011Posted in: Posts
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Por José Geraldo Couto, editor do Blog do Zé Geraldo
Sidney Lumet, que morreu hoje aos 86 anos, não foi um grande “autor” de cinema – ou seja, não deixou uma marca pessoal, intransferível, na expressão audiovisual -, mas foi um diretor importante, que realizou filmes fundamentais para uma compreensão mais viva e abrangente da América contemporânea.
Foi um dos primeiros cineastas de alta qualidade saídos da televisão. É bom lembrar que a TV nos Estados Unidos surgiu do cinema (diferentemente do que ocorreu no Brasil, onde ela derivou principalmente do rádio). A entrada de Lumet em Hollywood significa então uma espécie de retorno. Hollwood é modo de dizer, pois ele filmou quase sempre em Nova York.
Prolífico e competente, Lumet esquadrinhou a sociedade e as instituições americanas num punhado de filmes de grande impacto. Abordou o sistema judiciário (em Doze homens e uma sentença, seu longa de estreia, e em O veredito), a corrupção policial (Serpico), a insanidade urbana (Um dia de cão), o perigo nuclear (Limite de segurança), a televisão (Rede de intrigas), o marketing político (Power, filme interessantíssimo, infelizmente pouco visto no Brasil, país onde as técnicas marqueteiras de fabricação de políticos atingiriam um patamar inimaginável).
Mas Lumet tinha grande sensibilidade também para os dramas mais anônimos, para as vidas à margem, conforme mostrou num filme “menor”, como O peso de um passado (sobre a família de um ex-militante pacifista foragido da polícia por conta de um atentado que ele cometeu contra uma fábrica nos anos 60), e naquela que talvez seja sua obra-prima, O homem do prego (1964), em que Rod Steiger encarna o penhorista do título, um judeu de meia idade solitário e atormentado pelas lembranças do Holocausto.
Se nos filmes de Lumet o “tema”, o roteiro e os atores sempre prevalecem sobre o estilo pessoal do cineasta, isso não chega a ser um demérito. Ao contrário, é uma manifestação de sobriedade, pudor ou ausência de vaidade.
A cena a seguir, de O homem do prego, talvez ilustre bem essa sua disposição de espírito substantiva, sóbria, diante da vida e das criações humanas. Nela, o protagonista tenta explicar a um jovem as razões do “sucesso” dos judeus no mundo do comércio.
O vídeo é sem legendas, mas o filme está disponível em DVD. Vale a pena conferir.
Como brinde extra, aqui vai uma cena que considero encantadora de O peso do passado. Quase uma epifania ao som de James Taylor, com direito a um River Phoenix adolescente.
(Outras Palavras)
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admin
– 04/05/2011Posted in: Posts
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Por José Geraldo Couto, editor do Blog do Zé Geraldo
Sidney Lumet, que morreu hoje aos 86 anos, não foi um grande “autor” de cinema – ou seja, não deixou uma marca pessoal, intransferível, na expressão audiovisual -, mas foi um diretor importante, que realizou filmes fundamentais para uma compreensão mais viva e abrangente da América contemporânea.
Foi um dos primeiros cineastas de alta qualidade saídos da televisão. É bom lembrar que a TV nos Estados Unidos surgiu do cinema (diferentemente do que ocorreu no Brasil, onde ela derivou principalmente do rádio). A entrada de Lumet em Hollywood significa então uma espécie de retorno. Hollwood é modo de dizer, pois ele filmou quase sempre em Nova York.
Prolífico e competente, Lumet esquadrinhou a sociedade e as instituições americanas num punhado de filmes de grande impacto. Abordou o sistema judiciário (em Doze homens e uma sentença, seu longa de estreia, e em O veredito), a corrupção policial (Serpico), a insanidade urbana (Um dia de cão), o perigo nuclear (Limite de segurança), a televisão (Rede de intrigas), o marketing político (Power, filme interessantíssimo, infelizmente pouco visto no Brasil, país onde as técnicas marqueteiras de fabricação de políticos atingiriam um patamar inimaginável).
Mas Lumet tinha grande sensibilidade também para os dramas mais anônimos, para as vidas à margem, conforme mostrou num filme “menor”, como O peso de um passado (sobre a família de um ex-militante pacifista foragido da polícia por conta de um atentado que ele cometeu contra uma fábrica nos anos 60), e naquela que talvez seja sua obra-prima, O homem do prego (1964), em que Rod Steiger encarna o penhorista do título, um judeu de meia idade solitário e atormentado pelas lembranças do Holocausto.
Se nos filmes de Lumet o “tema”, o roteiro e os atores sempre prevalecem sobre o estilo pessoal do cineasta, isso não chega a ser um demérito. Ao contrário, é uma manifestação de sobriedade, pudor ou ausência de vaidade.
A cena a seguir, de O homem do prego, talvez ilustre bem essa sua disposição de espírito substantiva, sóbria, diante da vida e das criações humanas. Nela, o protagonista tenta explicar a um jovem as razões do “sucesso” dos judeus no mundo do comércio.
O vídeo é sem legendas, mas o filme está disponível em DVD. Vale a pena conferir.
Como brinde extra, aqui vai uma cena que considero encantadora de O peso do passado. Quase uma epifania ao som de James Taylor, com direito a um River Phoenix adolescente.
(Outras Palavras)
Memória Brasileira
Memória brasileira: Sigilo ou vergonha?, questiona Frei Betto
Há 141 anos terminou a Guerra do Paraguai. Durou de 1864 a 1870. Ao longo de seis anos, Brasil, Argentina e Uruguai, instigados pela Inglaterra, combateram os paraguaios. O pretexto era derrubar o ditador Solano López e impedir que o Paraguai, país independente e sem miséria, abrisse uma saída para o mar.
Por Frei Betto, em Adital
O Brasil enviou 150 mil homens para o campo de batalha. Desses, tombaram 50 mil. Do lado paraguaio foram mortos 300 mil, 20% da população do país. E o Brasil abocanhou 40% do território da nação vizinha.
Até hoje o acesso aos documentos do conflito estão proibidos a quem pretende investigá-los. Por quê? Talvez o sigilo imposto sirva para cobrir a vergonhosa atuação de Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro, que comandou nossas tropas na guerra. E do Conde D’Eu, genro de Dom Pedro II, que sucedeu o duque no massacre aos paraguaios.
Os arquivos ultrassecretos do Brasil podem permanecer sigilosos por 30 anos. O presidente da República pode prorrogar o prazo por mais 30, indefinidamente. Eternamente.
Em 2009, Lula enviou à Câmara dos Deputados projeto propondo o sigilo eterno periodicamente renovado. Cedeu a pressões dos ministérios da Defesa e das Relações Exteriores. Os deputados federais o aprovaram com esta emenda: o presidente da República poderia renovar, por uma única vez, o prazo do sigilo, e os documentos considerados ultrassecretos seriam divulgados em, no máximo, 50 anos.
O projeto passou ao Senado. Caiu em mãos da Comissão de Relações Exteriores, cujo presidente é o senador Fernando Collor. E, para azar de quem torce por transparência na República, ele próprio assumiu a relatoria. E tratou de engavetá-lo. Não deu andamento ao debate nem colocou o projeto em votação.
A presidente Dilma decidira sancionar a lei do fim do sigilo eterno a 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Naquela data, o relator Collor foi a plenário e declarou ser "temerário” aprovar o texto encaminhado pela Câmara dos Deputados.
Na véspera de ser empossada ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti declarou que Dilma estaria disposta a atender pedidos dos senadores José Sarney e Fernando Collor, e patrocinar no Senado mudança no decreto para assegurar sigilo eterno a documentos oficiais. A única diferença é que, agora, o sigilo seria renovado a cada 25 anos.
O Congresso está prestes a aprovar a Comissão da Verdade, que irá apurar os crimes da ditadura militar. Como aprovar esta comissão e vetar para sempre o acesso a documentos oficiais? Isso significa impedir que a nação brasileira tome conhecimento de fatos importantes de sua história.
Collor e Sarney não gostam de transparência por razões óbvias. Seus governos foram desastrosos e vergonhosos. Já o Ministério das Relações Exteriores alega que trazer à tona documentos, como os da Guerra do Paraguai, pode criar constrangimentos com países vizinhos. Com países vizinhos ou com nossas Forças Armadas e personagens que figuram como heróis em nossos livros didáticos?
O sigilo brasileiro a documentos oficiais não tem similar no mundo. Se não for quebrado, a presidente Dilma ficará refém da chamada base aliada. Ontem foi o "diamante de 20 milhões de reais”, hoje o sigilo eterno, amanhã…
Na terça, dia 14 de junho, retornaram ao Brasil os arquivos do livro "Brasil Nunca Mais” (Vozes), que relata os crimes da ditadura militar brasileira. A publicação, patrocinada pelo Conselho Mundial de Igrejas, foi monitorada pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor Jaime Wright.
O mérito do "Brasil Nunca Mais” é que não há ali nenhuma notícia de jornal ou depoimento de vítima da ditadura. Toda a documentação se obteve em fontes oficiais, retirada, por advogados, de auditorias militares e do Superior Tribunal Militar. Microfilmada, foi remetida ao exterior, por razões de segurança. Agora retorna ao Brasil para ficar disponível aos interessados. Muitas informações ali contidas não constam da redação final do livro, da qual participei em parceria com Ricardo Kotscho.
Os arquivos da Polícia Civil (DOPS) sobre a ditadura militar já foram abertos e se encontram à disposição no Arquivo Nacional. Falta abrir o arquivo das Forças Armadas, o que depende da vontade política da presidente Dilma, ela também vítima da ditadura. As famílias dos mortos e desaparecidos têm o direito de saber o que ocorreu a seus entes queridos. E o Brasil, de conhecer melhor a sua história recente.
Um país sem memória corre sempre o risco de repetir, no futuro, o que houve de pior em sua história.
* Frei Betto é escritor, autor de "Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros.
(vermelho.org)
Há 141 anos terminou a Guerra do Paraguai. Durou de 1864 a 1870. Ao longo de seis anos, Brasil, Argentina e Uruguai, instigados pela Inglaterra, combateram os paraguaios. O pretexto era derrubar o ditador Solano López e impedir que o Paraguai, país independente e sem miséria, abrisse uma saída para o mar.
Por Frei Betto, em Adital
O Brasil enviou 150 mil homens para o campo de batalha. Desses, tombaram 50 mil. Do lado paraguaio foram mortos 300 mil, 20% da população do país. E o Brasil abocanhou 40% do território da nação vizinha.
Até hoje o acesso aos documentos do conflito estão proibidos a quem pretende investigá-los. Por quê? Talvez o sigilo imposto sirva para cobrir a vergonhosa atuação de Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro, que comandou nossas tropas na guerra. E do Conde D’Eu, genro de Dom Pedro II, que sucedeu o duque no massacre aos paraguaios.
Os arquivos ultrassecretos do Brasil podem permanecer sigilosos por 30 anos. O presidente da República pode prorrogar o prazo por mais 30, indefinidamente. Eternamente.
Em 2009, Lula enviou à Câmara dos Deputados projeto propondo o sigilo eterno periodicamente renovado. Cedeu a pressões dos ministérios da Defesa e das Relações Exteriores. Os deputados federais o aprovaram com esta emenda: o presidente da República poderia renovar, por uma única vez, o prazo do sigilo, e os documentos considerados ultrassecretos seriam divulgados em, no máximo, 50 anos.
O projeto passou ao Senado. Caiu em mãos da Comissão de Relações Exteriores, cujo presidente é o senador Fernando Collor. E, para azar de quem torce por transparência na República, ele próprio assumiu a relatoria. E tratou de engavetá-lo. Não deu andamento ao debate nem colocou o projeto em votação.
A presidente Dilma decidira sancionar a lei do fim do sigilo eterno a 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Naquela data, o relator Collor foi a plenário e declarou ser "temerário” aprovar o texto encaminhado pela Câmara dos Deputados.
Na véspera de ser empossada ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti declarou que Dilma estaria disposta a atender pedidos dos senadores José Sarney e Fernando Collor, e patrocinar no Senado mudança no decreto para assegurar sigilo eterno a documentos oficiais. A única diferença é que, agora, o sigilo seria renovado a cada 25 anos.
O Congresso está prestes a aprovar a Comissão da Verdade, que irá apurar os crimes da ditadura militar. Como aprovar esta comissão e vetar para sempre o acesso a documentos oficiais? Isso significa impedir que a nação brasileira tome conhecimento de fatos importantes de sua história.
Collor e Sarney não gostam de transparência por razões óbvias. Seus governos foram desastrosos e vergonhosos. Já o Ministério das Relações Exteriores alega que trazer à tona documentos, como os da Guerra do Paraguai, pode criar constrangimentos com países vizinhos. Com países vizinhos ou com nossas Forças Armadas e personagens que figuram como heróis em nossos livros didáticos?
O sigilo brasileiro a documentos oficiais não tem similar no mundo. Se não for quebrado, a presidente Dilma ficará refém da chamada base aliada. Ontem foi o "diamante de 20 milhões de reais”, hoje o sigilo eterno, amanhã…
Na terça, dia 14 de junho, retornaram ao Brasil os arquivos do livro "Brasil Nunca Mais” (Vozes), que relata os crimes da ditadura militar brasileira. A publicação, patrocinada pelo Conselho Mundial de Igrejas, foi monitorada pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor Jaime Wright.
O mérito do "Brasil Nunca Mais” é que não há ali nenhuma notícia de jornal ou depoimento de vítima da ditadura. Toda a documentação se obteve em fontes oficiais, retirada, por advogados, de auditorias militares e do Superior Tribunal Militar. Microfilmada, foi remetida ao exterior, por razões de segurança. Agora retorna ao Brasil para ficar disponível aos interessados. Muitas informações ali contidas não constam da redação final do livro, da qual participei em parceria com Ricardo Kotscho.
Os arquivos da Polícia Civil (DOPS) sobre a ditadura militar já foram abertos e se encontram à disposição no Arquivo Nacional. Falta abrir o arquivo das Forças Armadas, o que depende da vontade política da presidente Dilma, ela também vítima da ditadura. As famílias dos mortos e desaparecidos têm o direito de saber o que ocorreu a seus entes queridos. E o Brasil, de conhecer melhor a sua história recente.
Um país sem memória corre sempre o risco de repetir, no futuro, o que houve de pior em sua história.
* Frei Betto é escritor, autor de "Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros.
(vermelho.org)
General Amidror
O presente do general Amidror: as fronteiras “indefensáveis” de Israel
O general Yaakov Amidror, chefe do Conselho Nacional de Segurança do governo de Israel não é uma pessoa particularmente inteligente. De que outra maneira pode-se explicar seu excelente argumento sobre a defesa das fronteiras de Israel de 1967, em um artigo onde sustenta que essas fronteiras são indefensáveis? O argumento de Amidror baseia-se na ideia de que Israel precisa proteger suas fronteiras mediante a “defesa em profundidade”, uma expressão adotada pelos estrategistas ocidentais na Europa da Guerra Fria. O artigo é de Michael Neumann.
Michael Neumann - Counterpunch
Yaakov Amidror é um general israelense aposentado que hoje é chefe do Conselho Nacional de Segurança, de Benjamin Netanyahu. É algo surpreendente, ainda que não pelos pontos de vista políticos de Amidror: ele se opôs, por exemplo, à retirada de Gaza e defendeu que Israel deveria reconquistá-la. É surpreendente porque Amidror não é particularmente inteligente. De que outra maneira pode-se explicar seu excelente argumento sobre a defesa das fronteiras de Israel de 1967, em um artigo onde sustenta que essas fronteiras são indefensáveis?
O argumento de Amidror baseia-se na ideia de que Israel precisa proteger suas fronteiras mediante a “defesa em profundidade”. Que profundidade é bastante profunda. Ele só nos oferece um número:
“Na Europa da Guerra Fria, os estrategistas militares ocidentais acreditavam que o decisivo não é a ‘fronteira’, mas sim a ‘profundidade defensiva’. Na Europa, isso incluía toda a extensão da Alemanha até o Reno (mais de 200 quilômetros)”.
Ah, sim, e nos diz que com as novas tecnologias militares esses cálculos “quase duplicaram nos últimos anos”. E acrescenta que, em 1967, o Estado Maior conjunto dos EUA recomendou que Israel conservasse um pedaço dos territórios ocupados com propósitos defensivos, a fim de “controlar a posição elevada que vai de Norte a Sul”.
É difícil ver o que ele quer dizer. Controlar uma certa posição elevada não assegura a Israel nada que se pareça a 200 quilômetros, no entanto esse cálculo da Guerra Fria deveria ser duplicado agora? De algum modo, Israel é menos vulnerável que a Europa? Alguém poderia pensar que é o contrário. E “controlar a posição elevada” soa meio medieval considerando os foguetes do Hezbollah, para não falar de material muito superior em mãos de todos os demais países árabes da região. Alguém poderia chegar à conclusão de que a posse total dos territórios ocupados não serviria para nada porque, é óbvio, não asseguraria nada parecido com a profundidade defensiva prescrita pelas autoridades militares de Amidror.
A coisa é ainda pior, porque, se prestamos atenção à autoridade militar, os vizinhos de Israel também necessitam de profundidade defensiva, que segundo qualquer medida comparável incluiria, bem, todo o Estado de Israel. A história recente não sugere exatamente que os vizinhos de Israel devam estar menos preocupados com a defesa de suas fronteiras do que o próprio Israel.
Mas tudo isso não é nada em comparação com a tremenda batata quente que Amidror nos oferece:
“Se é verdade que uma política de ataque preventivo poderia criar em tese a profundidade necessária para a defesa, caso a ameaça a Israel emanar de Estados formalmente signatários de tratados de paz, as probabilidades de que um governo israelense não violasse tais tratados com um ataque preventivo seriam nulas”.
Como dizem os nerds: ROTFL (sigla em inglês para “é de se revirar no chão de tanto rir”). Amidror não tem nenhuma competência profissional na política e sua declaração mostra que tampouco é um amador talentoso. Temo estar insultando a inteligência do leitor ao esclarecer o que isso significa, mas não se impacientem comigo.
Israel é o país da “Opção Sansão”, um nome atribuído a vários primeiros ministros israelenses. Na sua forma moderada, prevê represálias nucleares massivas contra qualquer ataque que ameace a existência de Israel. Sua versão menos moderada é articulada por Martin van Creveld, professor de história militar da Universidade Hebreia de Jerusalém e, ocasionalmente, professor na Academia Naval da Guerra dos EUA. Van Creveld diz que “temos a capacidade de levar o mundo conosco. E posso assegurá-los que é o que acontecerá antes que Israel afunde”.
Agora o mundo, como eu o vejo, contem muitos civis desarmados (para não falar de menores de idade) cujas nações são grandes parceiras de Israel, para não mencionar todas essas pessoas de “Estados que oficialmente firmaram tratados de paz”. Israel afirmou quase com grande deleite, mais de uma vez, sua determinação férrea de não se deter por nada no exercício de seu generosamente concebido direito de autodefesa. A probabilidade de que deixe que suas cidades ardam e seus cidadãos morram nas ruas por escrúpulos relativos a signatários de um tratado de paz é...nula. Mais do que isso, toda a estratégia de dissuasão de Israel depende de sugerir que, como declarou brilhantemente Moshe Dayan: “Israel deve ser como um cão raivoso, demasiado perigoso para ser incomodado”. A declaração de Amidror é exatamente o tipo de coisa com as quais Israel não se compromete e, na sua visão estratégica, não deve se comprometer.
Em resumo, Amidror nos deu um motivo decisivo para pensar que as fronteiras de 1967 são certamente defensáveis. E então fez uma piada pesada. O resultado é um argumento pela defesa das fronteiras de Israel de 1967, proveniente nada mais nada menos do que do atual chefe do Conselho Nacional de Segurança de Israel.
(*) Michael Neumann é professor de Filosofia na Universidade Trent em Ontário, Canadá. Os pontos de vista do professor Neumann não correspondem a posições da universidade onde leciona. É autor de “What’s Left: Radical Politics and the Radical Psyche”, publicado pela Broadview Press. É autor também do ensaio “What is Anti-Semitism”, no livro da Counterpunch “The Politics of Anti-Semitism”. Seu último livro é “The Case Against Israel”. E-mail para contatos: mneumann@trentu.ca.
Tradução: Katarina Peixoto
(Carta Capital)
O general Yaakov Amidror, chefe do Conselho Nacional de Segurança do governo de Israel não é uma pessoa particularmente inteligente. De que outra maneira pode-se explicar seu excelente argumento sobre a defesa das fronteiras de Israel de 1967, em um artigo onde sustenta que essas fronteiras são indefensáveis? O argumento de Amidror baseia-se na ideia de que Israel precisa proteger suas fronteiras mediante a “defesa em profundidade”, uma expressão adotada pelos estrategistas ocidentais na Europa da Guerra Fria. O artigo é de Michael Neumann.
Michael Neumann - Counterpunch
Yaakov Amidror é um general israelense aposentado que hoje é chefe do Conselho Nacional de Segurança, de Benjamin Netanyahu. É algo surpreendente, ainda que não pelos pontos de vista políticos de Amidror: ele se opôs, por exemplo, à retirada de Gaza e defendeu que Israel deveria reconquistá-la. É surpreendente porque Amidror não é particularmente inteligente. De que outra maneira pode-se explicar seu excelente argumento sobre a defesa das fronteiras de Israel de 1967, em um artigo onde sustenta que essas fronteiras são indefensáveis?
O argumento de Amidror baseia-se na ideia de que Israel precisa proteger suas fronteiras mediante a “defesa em profundidade”. Que profundidade é bastante profunda. Ele só nos oferece um número:
“Na Europa da Guerra Fria, os estrategistas militares ocidentais acreditavam que o decisivo não é a ‘fronteira’, mas sim a ‘profundidade defensiva’. Na Europa, isso incluía toda a extensão da Alemanha até o Reno (mais de 200 quilômetros)”.
Ah, sim, e nos diz que com as novas tecnologias militares esses cálculos “quase duplicaram nos últimos anos”. E acrescenta que, em 1967, o Estado Maior conjunto dos EUA recomendou que Israel conservasse um pedaço dos territórios ocupados com propósitos defensivos, a fim de “controlar a posição elevada que vai de Norte a Sul”.
É difícil ver o que ele quer dizer. Controlar uma certa posição elevada não assegura a Israel nada que se pareça a 200 quilômetros, no entanto esse cálculo da Guerra Fria deveria ser duplicado agora? De algum modo, Israel é menos vulnerável que a Europa? Alguém poderia pensar que é o contrário. E “controlar a posição elevada” soa meio medieval considerando os foguetes do Hezbollah, para não falar de material muito superior em mãos de todos os demais países árabes da região. Alguém poderia chegar à conclusão de que a posse total dos territórios ocupados não serviria para nada porque, é óbvio, não asseguraria nada parecido com a profundidade defensiva prescrita pelas autoridades militares de Amidror.
A coisa é ainda pior, porque, se prestamos atenção à autoridade militar, os vizinhos de Israel também necessitam de profundidade defensiva, que segundo qualquer medida comparável incluiria, bem, todo o Estado de Israel. A história recente não sugere exatamente que os vizinhos de Israel devam estar menos preocupados com a defesa de suas fronteiras do que o próprio Israel.
Mas tudo isso não é nada em comparação com a tremenda batata quente que Amidror nos oferece:
“Se é verdade que uma política de ataque preventivo poderia criar em tese a profundidade necessária para a defesa, caso a ameaça a Israel emanar de Estados formalmente signatários de tratados de paz, as probabilidades de que um governo israelense não violasse tais tratados com um ataque preventivo seriam nulas”.
Como dizem os nerds: ROTFL (sigla em inglês para “é de se revirar no chão de tanto rir”). Amidror não tem nenhuma competência profissional na política e sua declaração mostra que tampouco é um amador talentoso. Temo estar insultando a inteligência do leitor ao esclarecer o que isso significa, mas não se impacientem comigo.
Israel é o país da “Opção Sansão”, um nome atribuído a vários primeiros ministros israelenses. Na sua forma moderada, prevê represálias nucleares massivas contra qualquer ataque que ameace a existência de Israel. Sua versão menos moderada é articulada por Martin van Creveld, professor de história militar da Universidade Hebreia de Jerusalém e, ocasionalmente, professor na Academia Naval da Guerra dos EUA. Van Creveld diz que “temos a capacidade de levar o mundo conosco. E posso assegurá-los que é o que acontecerá antes que Israel afunde”.
Agora o mundo, como eu o vejo, contem muitos civis desarmados (para não falar de menores de idade) cujas nações são grandes parceiras de Israel, para não mencionar todas essas pessoas de “Estados que oficialmente firmaram tratados de paz”. Israel afirmou quase com grande deleite, mais de uma vez, sua determinação férrea de não se deter por nada no exercício de seu generosamente concebido direito de autodefesa. A probabilidade de que deixe que suas cidades ardam e seus cidadãos morram nas ruas por escrúpulos relativos a signatários de um tratado de paz é...nula. Mais do que isso, toda a estratégia de dissuasão de Israel depende de sugerir que, como declarou brilhantemente Moshe Dayan: “Israel deve ser como um cão raivoso, demasiado perigoso para ser incomodado”. A declaração de Amidror é exatamente o tipo de coisa com as quais Israel não se compromete e, na sua visão estratégica, não deve se comprometer.
Em resumo, Amidror nos deu um motivo decisivo para pensar que as fronteiras de 1967 são certamente defensáveis. E então fez uma piada pesada. O resultado é um argumento pela defesa das fronteiras de Israel de 1967, proveniente nada mais nada menos do que do atual chefe do Conselho Nacional de Segurança de Israel.
(*) Michael Neumann é professor de Filosofia na Universidade Trent em Ontário, Canadá. Os pontos de vista do professor Neumann não correspondem a posições da universidade onde leciona. É autor de “What’s Left: Radical Politics and the Radical Psyche”, publicado pela Broadview Press. É autor também do ensaio “What is Anti-Semitism”, no livro da Counterpunch “The Politics of Anti-Semitism”. Seu último livro é “The Case Against Israel”. E-mail para contatos: mneumann@trentu.ca.
Tradução: Katarina Peixoto
(Carta Capital)
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