quarta-feira, 27 de março de 2013

O filme que o Brasil não conhece


       

    Recife (PE) - A melhor diferença da imprensa na web sobre a do grande capital é, sem dúvida, a liberdade de pensamento.  Mas há um valor a mais de um texto na internet sobre o de papel: é a  sua permanência, com acessos infinitos no tempo  e espaço para a leitura. Assim foi com a coluna  “Procura-se um documentário sobre o Brasil”, publicada em agosto do ano passado. Ela me fez receber nos últimos dias um presente que eu não imaginava.

    Tudo começou com uma mensagem irritada, reenviada pelo robô do Direto da Redação: “Não consigo comunicar-me através do seu email, sempre é rejeitado. Mande seu email correto.  Fernando”. Confesso que até o último minuto pensei em não responder. São tantos os insultos tomados em razão do que escrevemos, de promessas de surras a coisas mais graves, que pensei, se foi rejeitado é porque o spam detectou  vírus ou armadilha. E não estou aqui para receber intimações... Mas antes de jogar na lixeira, um espírito santo  - pois os ateus também possuem um, aquele que nos prende ao respeito que merecem todas as pessoas – me segurou o gesto. E respondi, meio ferido: “o email é este em que lhe respondo”.

     O protetor dos ateus existe. Não recebi bem o documentário de 1961, que o Brasil até hoje desconhece. Mas recebi algo tão bom quanto, pois me chegaram fotos históricas do filme, e a descoberta de um fotógrafo de 76 anos, que os estudiosos do  cinema não sabiam existir. Eu me refiro ao espanhol Fernando Martinez Lopez, que me enviou tantas fotos maravilhosas em preto e branco desse documentário “Brazil, the troubled land”. Fernando Martinez, a partir das perguntas feitas por este curioso, assim se apresentou:

    “Após busca  entre 4000 negativos, encontrei as fotos, algumas estragadas pelo tempo. Sou espanhol, casado com brasileira e filhos e netos brasileiros. Trabalhei no filme como Still fotógrafo e também como cinematographer.

    Still significa aquele que se encarrega das fotografias comuns de um filme  para apresentar o filme como nas carteleras e revistas, jornais etc. Cinematographer é aquele encarregado da fotografia na filmagem, luz,  etc,, no caso de um documentário. O maior valor desta fotografia cabe exclusivamente a quem a executa e faz a tomada de planos. Por conta dele, principalmente no meu caso, eu  tive a incumbência de fazer as duas coisas, calcular luz ambiente tomadas travelling (a câmera se desloca para a direita ou esquerda para cima ou para baixo, tudo fica por sua conta, não pode errar em nada, pois é um acontecimento na hora). Naquele tempo as câmeras não tinham automatismo como hoje em dia, por isso se tornava mais difícil calcular distância, luz e movimentos. Era um Deus nos acuda. Eu fiquei com esta parte principalmente, e Hartigan com a câmera de gravação de som ao vivo, mais entrevistas.

    Helen (Helen Rogers, a diretora do documentário) era uma americana bonita e muito inteligente, casada com um cineasta, eles deixaram dois filhos. Para mim, ela era pró-Estados Unidos, pois este filme foi feito justamente para que o Brasil não se tornasse uma nova Cuba. (Negrito do colunista) Foi filmado na Zona da Mata de Pernambuco, para filmar a vida de um camponês. Na feira de Carpina encontrou um Severino, cortador de cana, que trabalhava para Constâncio Maranhão. A filmagem demorou aproximadamente 25 dias, tendo a contribuição da Sudene para transporte etc.”

    Então olhem só a raridade que selecionei para ilustração do texto: Helen Rogers, Francisco Julião, Eva (tradutora) e Bill Hartigan. Mais atrás, o jornalista Alexandrino Rocha. Tão sorridentes os gringos... Esse flagrante da política traiçoeira dos Estados Unidos, que enviou uma bem intencionada cineasta ao Nordeste do Brasil, para que documentasse uma nova Cuba em território pernambucano, nem precisa de legenda.

    Alexandrino Rocha, que aparece ao fundo da imagem,  era na época secretário de imprensa do governador Miguel Arraes. Hoje com 82 anos, ele me disse por telefone:

    “Eu nunca vi fuzil na mão de qualquer camponês. Isso foi tudo criado. Os Estados Unidos foram os responsáveis por essa mentira. No governo Kennedy, caíram os governos democratas da América Latina, e ele com a cara de galã, de bom moço. Os repórteres do New York Times que chegavam ao Recife já vinham falando bem o português”.
  Urariano Mota
    Em resumo: não teria sido possível a recuperação das imagens do documentário sem a internet. Isso é para curar um descrente, que pesquisava imagens para o cenário  do seu próximo romance, “O filho renegado de Deus”. 
(Direto da Redação)

Desculpem-me

Durante cerca de 30 dias fiquei sem internet. Quando recuperei a net, n consegui postar nos meus blogues. isso, creio, foi sanado agora, graças ao meu assessor de informática, o Souza...
Aliás, a nossa revolução vitoriosa, tudo relacionado a informática socialista ficará a seu encargo.
Obrigado, Souza!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Por tras da renúncia

A história secreta da renúncia de Bento XVI
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Eduardo Febbro



Paris - Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.

Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.

O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.

A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.

Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.

Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.

Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.

João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.

Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.

Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.


Tradução: Katarina Peixoto
(Carta Maior)

Paris

- Din dão, berrou a campainha, com seu sotaque brasileiríssimo.

Fui abrir meio cabreiro, achando tratar-se do vizinho que, dias antes, saíra peladão no corredor para buscar seus jornais, bem na hora em que eu ia para o trabalho. Vai que era ele de novo, querendo, sei lá, um pouco de açúcar, metido em seus (não) trajes habituais.

Espiei cautelosamente pelo olho mágico e não vi ninguém. Voltei pro sofá. A campainha gritou de novo. Olhei e outra vez não visualizei quem teria apertado o botão. Fiquei esperando atrás da porta e a abri de supetão assim que a sineta soou pela terceira vez. Do outro lado, uma mocinha tímida, com um lenço no pescoço e cara de anjo.

- Bom dia, falei.
- Bonjour, respondeu em francês.
- Qui es-tu?
- Sou as suas lembranças parisienses.
- Minhas lembranças?
- Oui.
- E o que você está fazendo aqui?
- Foi você quem me chamou.
- Eu?
- Sim, você. Aliás, chamou a mim e àquele ali.
- Quem? Não estou vendo ninguém.
- Olha de novo, com atenção.
- Eita!, exclamei, surpreso com o súbito aparecimento de um velho ranzinza – E você, quem é?
- Tu ne me reconnais pas? Sou também as suas lembranças, putain!

Não estava entendendo mais nada. Convidei-os para entrar.

- Querem água, café?
- Não, obrigada, sorriu a menina.
- A água tá gelada? Porque eu só gosto de água gelada. E esse café? É arábico? De onde vem? Qual a máquina que você usa? É conservado na geladeira? Porque senão ele perde o gosto.

Depois de revirar a casa até encontrar mel para adoçar o café do velho, que não tomava nada com açúcar, exigi algumas explicações.

- Alors, que faites-vous là?
- Você não escutou a menina? Foi você quem chamou a gente!, gritou o idoso. Se quer que a gente vá embora, é só dizer.
- Calma, só quero entender o que vocês estão fazendo aqui.
- Você nunca notou, mas te acompanhamos desde que você deixou Paris, disse a mocinha num quase sussurro. Você nos trouxe para Brasília.
- Eu?
- É, assim são as lembranças, elas nos acompanham mesmo sem a gente querer. Eu, por exemplo, trago as recordações inocentes das suas primeiras experiências em Paris. A primeira baguete, o primeiro pedaço de comté, a primeira volta no marché d’Aligre, a primeira festa que você tocou como DJ, o primeiro encontro com a Edith, a primeira pelada com o Chico Buarque, o primeiro jantar que você preparou no restaurante associativo da rua, a primeira vez que você esteve em casa com a Louise...
- Só bons momentos.

Fiquei olhando para o nada por um longo instante, até ser interrompido.

- Bons momentos coisa nenhuma, retrucou o velho. Você acha que foram bons porque o tempo apagou as más impressões. Mas estou aqui para te lembrar que a vida não é uma propaganda de margarina.
- De manteiga, você quer dizer, estamos falando da França.
- Isso, a vida não é uma propaganda de manteiga ou de sabão em pó. Você deve se lembrar bem de quando chegou a Paris e as pessoas conversavam ao seu redor. Você não pescava nada.
- Lembro sim. Era duro. Eu ficava perdido...
- Não disse? Quer pior lembrança do que essa?
- Mas também foi ótimo perceber que a língua francesa aos poucos ia fazendo mais sentido para mim. E quando tive minha primeira conversa em francês? Cara, foi sensacional!
- Zut! E do primeiro inverno, lembra? Aquele frio de rachar. Você detesta o frio. Seu dedão congela, seu nariz escorre, sua orelha dói. Isso foi horrível, não foi?
- O frio é dose mesmo. Mas foi no primeiro inverno que eu descobri a neve. Fiquei hipnotizado como uma criança diante de um novo brinquedo. Uma lembrança inesquecível.
- Mais c’est pas possible. O mau humor francês, desse você se recorda bem, né? Tem coisa pior do que o nosso mau humor? Quantas vezes você não teve vontade de estrangular alguém?
- Estrangular nada, guilhotinar! De vez em quando eu queria fatiar um, começando por essa protuberância que vocês carregam no meio do rosto e chamam de nariz.
- Viu só? Nem tudo era flores.
- Mas depois de me irritar algumas vezes eu descobri que o mau humor de vocês não é pra ser levado tão a sério. Faz parte do folclore local, vocês adoram alimentá-lo. E ele ainda me rendeu várias crônicas.
- Mas que droga! Raios de brasileiro otimista! Viveu 5 anos na França e não aprendeu nada? Nem reclamar você reclama mais. Fica achando tudo lindo, fofo, colorido, doce, como se fosse sempre páscoa. Que coisa mais sem graça. Quer saber? Desisto. Fui. Je suis parti!

O velho abriu a porta da casa e desapareceu antes de chegar ao elevador.

- Eita, velho reclamão, disse a menina. Aposto que já foi perturbar outro com sua ranzinzice. Deixa eu ir lá cuidar dele

Abracei-a e ela me deu um beijo no rosto, despedindo-se. Devolvi o beijo e fechei a porta atrás dela. Ao virar-me, vi seu lenço no chão. No mesmo instante, a campainha tocou novamente. Só podia ser ela. Abri.

Era o vizinho, pelado, pedindo açúcar.
(Outras Palavras)

Pensamentando

Kawô Kabiesile! De Xangô a Joaquim Barbosa: a distância entre o rei e o escravo
Raul Longo

Escrito e enviado por Raul Longo
Ilustrações: redecastorphoto (colhidas na internet)

Estou terminando de revisar o seriado “ORIXÁS” e em breve o distribuo completo a todos meus correspondentes e outros também. Resolvi dar cabo do projeto de Édison Braga e por essa razão tenho deixado de produzir crônicas e considerações sugeridas pelos acontecimentos nacionais, internacionais ou regionais daqui desta Santa Catarina que adotei.

Vez por outra algo comove ou provoca a indignação e não há jeito de não me manifestar, mas tenho ocupado a maior parte do tempo me concentrando exclusivamente no cumprimento do compromisso assumido em memória do amigo.

Nem mesmo as manifestações do escandaloso desnível da balança da justiça brasileira têm me demovido desse objetivo. Pudera! Embora permaneça como motivo de grande indignação, entre nós esse desnível é tão vulgar que há muito já não comove mais ninguém. E esse é o grande perigo.


Uma nação onde ninguém reage à impunidade, promovida pela mais alta corte do país, de estelionatários como Naji Nahas, Salvatore Cacciola, Paulo Maluf, Nicolalau dos Santos Neto, Daniel Dantas e tantos outros. Estupradores em série como Roger Abdelmassih. Assassinos como Pimenta Neves que atirou em uma mulher desarmada pelas costas, ou os jovens delinquentes que queimaram vivo o índio Galdino, ou ainda aquele que matou a Irmã Dorothy; dificilmente será encarada como digna pela comunidade internacional.

Econômica e socialmente a imagem do Brasil perante o mundo nunca foi melhor, mas em termos de justiça continuamos sendo equiparados às terras de ninguém da África e do Oriente, para onde se evadem os piores bandidos e escroques do Hemisfério Norte.

Pois pior ainda ficará a imagem da justiça brasileira quando a imprensa internacional, que vem se informando a respeito, concluir quem foram alguns dos recentes condenados pelo nosso Supremo Tribunal Federal.

Uma amiga da Suécia, por exemplo, me escreveu espantada estranhando informações que lhe pareceram desencontradas. Conhece os preconceitos racistas de nossa sociedade e é sobejamente informada sobre os crimes de nossa ditadura militar de orientação inconfundivelmente nazifascista. Também sabe que José Genoíno e José Dirceu foram heroicos líderes da luta contra aquele regime e por isso me escreveu atônita e desconfiada dos elogios dessa sociedade acintosamente racista ao juiz negro que condenou destacados combatentes em prol da liberdade do povo brasileiro.

Tive de colher algumas informações para lhe explicar quem é Joaquim Barbosa. Orgulhosa de seus conhecimentos sobre o Brasil, que realmente são muitos, apenas me retornou a pergunta como se não encontrasse qualquer relevância no que lhe consegui passar: “Quem é Joaquim Barbosa?”

De fato! Hoje é o presidente do STF, mas do STF que garantiu a impunidade dos internacionalmente mais rumorosos crimes de corrupção e estelionato público e político aqui praticados. Aliás, os mesmos juízes que exigiram prisão imediata de Dirceu e Genoíno foram os que concederam habeas corpus facilitando a fuga ou mantiveram a impunidade todo aquele rol de comprovados criminosos acima citados.


A nossa mídia já não é considerada como fonte de informação confiável sobre o Brasil pelos seus próprios colegas do resto do mundo. Uma publicação inglesa chegou a apontar a principal revista tida de informações no Brasil como “one gossip magazine”, ou uma revista de fofocas. O que não dirão de nosso sistema judiciário quando se derem conta do que realmente foi o julgamento da AP 470 que condenou por literatura, indícios e “gossips” ou fofocas da desqualificada imprensa brasileira, a heróis da luta contra um regime nazifascista?

A coisa é tão vergonhosa e disparatada que prefiro concentrar meu tempo e atenção nos roteiros do seriado “ORIXÁS”, mas ao finalizar o último episódio em que trato de Xangô, o Orixá da Justiça, me veio à lembrança a pergunta da amiga da Suécia: “Quem é Joaquim Barbosa?”

Tardiamente concluo que ao invés de pescar informações pela internet e já que não há nada no histórico do juiz que o compare a grandeza do histórico de um Genoíno ou Dirceu, deveria ter respondido à amiga que afora ser o primeiro presidente negro do STF, não há nada mais de relevante a respeito desse personagem. E para despistar ou escamotear minha insuficiência ou a daqueles que apontam o relator da AP 470 como herói, poderia tergiversar sobre Xangô, que foi o rei de Oyó, principal centro da civilização ioruba. E contaria que também orixá da justiça, Xangô usava um machado de dois gumes para representar o equilíbrio de sua justiça que tanto poderia condenar os de um lado como, se fosse o caso, igualmente condenaria os do outro lado. Diferentemente da balança da justiça brasileira que só garante impunidade aos do prato das elites político/financeiras, como todos aqueles criminosos acima citados.

Ou alguém já ouviu falar de não criminosos que tenham sido beneficiados pela justiça brasileira?

Mas contaria para minha amiga da Suécia que o cabo do machado de Xangô era feito de galho de ayan, árvore da região de Xangô.

Ayan – árvore de tronco muito duro que não é derrubada com machado.
É consagrada à Xangô

Por fim contaria que por ter julgado mal ao seu povo, Xangô cumpriu com o significado de seu machado de dois gumes condenando-se a si mesmo. Condenou-se e foi seu próprio carrasco se enforcando num galho do ayan, árvore da foto que aí copio.

Pensava sobre isso tudo quando recebo a postagem do Antonio Fernando Araujo que também copio logo adiante, mas antes devo comentar que essa postagem e as inquirições da Suécia me fizeram avaliar as diferenças e semelhanças entre o orixá da Justiça do panteão dos cultos afro/brasileiros e o presidente do STF.

Reis como Xangô, mas lembrados por péssima reputação, existem muitos. Escravos que se tornaram lendários por seus feitos, também existem muitos. Esopo, o fabulista, foi um deles. Spartacus, que liderou o primeiro movimento de trabalhadores de que se tem notícia na história, foi outro.

Daqui a um século ou meio, quando se estudar os piores períodos da história do Brasil, sem dúvida se terá informações sobre os lideres dos que tiveram coragem e disposição para lutar contra a ditadura militar e sem dúvida se citará José Genoíno por sua luta nos interiores e José Dirceu por sua luta nos centros urbanos. Assim como hoje estudamos sobre Zumbi, o escravo que foi rei em Palmares no vergonhoso e longo período da escravidão.

Mas, e Joaquim Barbosa? Quem será Joaquim Barbosa? Quem é Joaquim Barbosa?

Depois de ler a postagem do Antonio Araújo, cheguei a conclusão de que a única semelhança entre o juiz Barbosa e Xangô, o orixá da Justiça, é que os dois são negros.

Não sei de quem é Joaquim Barbosa, mas na liberdade de Xangô eu acredito.
Postado por Castor Filho às 14:39:00
(Redecastor)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Paris

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Mistral

Assim que desceu do TGV na Gare St Charles, Raimundô Batistá levou um baita susto, pois não estava acostumado com aquele vento todo. Que vendaval dos infernos é esse, perguntou a si mesmo, enquanto fechava o sobretudo e colocava as luvas de couro, o cachecol de lã e um boné do Senhor do Bonfim pra proteger as ideias, como diz sempre.

Ele não podia reclamar que não havia sido advertido. Raimundô, attention au Mistral, repetia o tempo todo seu colega Sophianne, originário de Marseille, prevenindo do vento que de tão famoso até nome próprio tinha. Brisa também tem em Salvador, desdenhava, sem no entanto fazer ideia da potência daquela ventania capaz até de arrancar os chifres de um boi, segundo famoso ditado local.

Sem se dar por rogado, anunciou vou passear na praia. Vai não, tentaram dissimulá-lo, não bastasse o Mistral forte, ainda estamos em pleno inverno, você vai virar picolé em dois minutos. Eu vou, insistiu, e quando ele colocava alguma coisa na cabeça era muito difícil tirar, e ainda vou levar a sunga, porque baiano quando vê o mar quer mais é se jogar.

Seus amigos ficaram apavorados, pois sabiam que ele era capaz de encarar a sensação térmica de quase zero grau só de birra. Um deles, ao imaginar a situação, começou a ter tonturas e saiu pedindo meus sais, meus sais. Precisou ser amparado pelos outros companheiros, que o sentaram no chão e deram água gasosa.

Baiano frouxo nasce morto, repetia Raimundô em seu francês carregado de um sotaque que podia ser percebido antes mesmo que ele abrisse a boca. Quem quiser que me siga, tô indo pra praia. Todo mundo seguiu, é claro, e um dos amigos achou melhor telefonar para os bombeiros, para preparar o salvamento.

Quem precisa de ajuda, perguntaram do outro lado da linha. Ninguém, por enquanto, mas vai precisar em breve, disse. Vá brincar com outro porque temos muito serviço por aqui, respondeu desaforado o sujeito, desligando na cara.

Ao chegar na Praia do Profeta, compreensivelmente vazia, Raimundô foi ao banheiro e voltou sem as três camadas de roupa, vestindo só a sunga tricolor do Esporte Clube Bahia. Alongou o pescoço, deu uma corrida de cem metros, fez meia dúzia de flexões e disse tô pronto, vou lá. Vai não, repetiram todos em um coro que de tão sincronizado parecia jogral de igreja. Vou sim, tô indo, já fui. E o pior é que foi mesmo, abrindo caminho contra o vento que quase o derrubava.

Acordou quatro dias depois, debaixo de dois cobertores e com uma bolsa de água quente sobre a testa. O que aconteceu, quis saber. Você é louco, entrou no mar em pleno inverno e com um Mistral daqueles, usando só um calção de banho surrado. Surrado coisa nenhuma, mais respeito com a sunga do glorioso Bahia, disse e virou pro lado pra tirar mais um cochilo, que aquela aventura tinha dado um sono da porra.

    Chers amis, o Chéri à Paris voltou por cinco semanas, cinco textos, o tempo das minhas férias na França. Esse é o primeiro deles. O próximo estará no ar na 6a feira que vem.

    Aproveitem para ler os outros dois textos sobre Raimundô Batistá, o baiano arretado que é motorista de táxi em Paris. Tem um aqui e outro aqui.

(Outras Palavras)

Pensamentando

De olhos bem abertos
By
Theotonio de Paiva


Aquele homem parecia um espelhamento, uma versão dolorosamente invertida de Mário. Imaginei-o perguntando, como o poeta: “Onde está o insofrido?”

Por Theotonio de Paiva*

Há muito não ia a São Paulo. Devia ter pelo menos uns quatro anos que não andava pelas ruas daquela cidade. Em outros tempos, geralmente ao chegar, ali pelo Tietê, embicando na rodoviária, me recordava dos versos famosos: “São Paulo! Comoção de minha vida…” e me deixava iluminar por dentro. E vinha um compasso trinado daquilo que a distante cidade significava em mim, desde a primeira visita com meu pai até resvalar nas idas constantes para as minhas pesquisas e alguns projetos.

Era uma sexta-feira e eu acabara de almoçar na Rua Augusta. Estava ali, num misto de trabalho, contatos e, sobretudo, interessado em realizar finalmente uma espécie de visita sentimental.

Uma chuva contínua dera o ar de sua graça lá pelo final da tarde do dia anterior. As calçadas molhadas pareciam insistir para que os meus sensores mais vagabundos ganhassem uma atenção redobrada. Nada poderia escapar daquela vigília realizada com os olhos bem abertos. Absolutamente nada.

Como ia dizendo, acabara de almoçar num restaurante com um jornalista amigo meu. Estávamos acompanhados de uma senhora encantadora, igualmente jornalista, que eu conhecera ali, naquela ocasião.

Na verdade, havia uma sutileza nesse encontro. Efetivamente, eu acabara de conhecer esse meu amigo, naquele exato momento. É claro que isso se explica com algumas poucas palavras. Muito embora nos correspondêssemos há uns três anos, embalados pelas facilidades do mundo virtual, e, nesses contatos, fosse fácil perceber uma certa intimidade, éramos, contudo, ainda distantes um para o outro. Por conta de um trabalho em comum, passamos a nos comunicar com certa frequência, através de emails e mensagens. A mulher, ao contrário, seria desde sempre uma presença real, linda nos seus movimentos e capacidade de perguntar o que ficara em construção pelo pensamento. E ambos me ajudavam a pensar São Paulo como uma cidade, cuja tradução “a berrar nos desertos da América”, se faz necessária emergir em novas equivalências nas suas sensíveis diferenças.

De todo modo, havia uma expressão de segurança, de velhos conhecidos, cujas antigas afinidades se deixavam acontecer. Com um pouco de ironia, dali a algum tempo, ao me afastar deles, esse estado de segurança iria desaparecer em mim, quase sem deixar vestígios.

Há alguns anos, sob um sol escaldante, estive na Barra Funda, antigamente considerada periferia da cidade, a fim de visitar a casa onde morou Mário de Andrade.”Era uma visita para a qual me preparara desde sempre. Começou quando, ainda adolescente, vi algumas fotos de uma São Paulo antiga que embalara a existência do escritor. E aquilo crescera comigo, em meus modestos estudos e num desejo de quem mitifica o mundo, e, nesse compasso, ambiciona trazer para dentro de si aquele mesmo quadrante que os olhos sonolentos abrigavam.

Esforço inútil. Era um sábado e o local, já na época transformado em centro de cultura, a Oficina da Palavra, não abria aos sábados. Fechava-se no seu mobiliário pela voz do guarda aos visitantes desavisados.

Atualmente a situação, parece, mudou bastante. De qualquer maneira, talvez fosse capaz de dizer que apenas aquela lembrança ainda me deixa sem ação. Preso à calçada, contava uma derrota que me retorcia inteiro. Impossibilitado de gerar uma reação tímida que fosse, procurava, com os meus olhos, um sentido qualquer para aquela situação de desalento.

Acreditando ou não, naquele momento, eu fora privado de olhar pela mesma janela por onde o poeta via o mundo. Coisa talvez sem importância, num culto desnecessário ao passado, embora não se tratasse de um poeta qualquer. As horas de dedicação e pesquisa, ao menos para mim, há muito tinham gerado uma intimidade distante e próxima. Diria mesmo perversa, quando, ao final de algum tempo, acabamos por travar com os nossos objetos de estudo uma afeição necessária, porém desmedida. E, nessa curiosa relação, o poeta modernista era alguém que se infiltrava pelas minhas retinas, em seu terno de casimira inglesa, como aqueles que meu pai também usava.

No entanto, a situação agora era integralmente nova. E aquela visita programada voltava a existir enquanto uma modesta possibilidade.

Saímos do almoço, os meus dois amigos jornalistas e eu, conversando sobre amenidades. Os guarda-chuvas se esbarravam e queriam pedir passagem, apressados. Naquele descompasso, o tempo parecia não deixar ver direito o vai-e-vem de ricos e brancos, que bem de perto ficam pobres e pretos.

Passamos novamente pelo local onde fica o bunker da redação. Faço uma pequena hora, despeço-me, e, ansioso, dirijo-me ao metrô.

Ao comprar o bilhete, pensava naquelas distantes ruas da Barra Funda. É para lá que eu ia.

Os anos passados e o tempo chuvoso tornavam o lugar pouco familiar. Não me recordava direito da topografia. Queria me lembrar daquela rua íngreme, por onde imaginava o poeta subindo à noite. Talvez procurasse por algum vizinho próximo a escutar os ecos, às duas horas da manhã, do piano tocando Bach, enquanto os trabalhadores dormiam profundamente.

No entanto, naquela tarde, a rua parecia ter sumido de suas próprias cercanias. Ante o meu desespero, procurei um ambulante que pudesse me informar onde ficava a Rua Lopes Chaves. Avisto um rapaz negro, meio alto, vendendo algumas guloseimas numa esquina, próxima de um enorme viaduto. Daquele lugar, com construções antigas, que soavam estranhas à cidade, ele também não distinguia muito bem o mundo que o rodeava.

Um pouco distante, vejo se aproximar um homem ainda jovem. Os passos contidos ajudavam a organizar os pontilhados da imagem que lentamente se formavam. Era visivelmente um morador de rua. As roupas encardidas, o cabelo, meio gruvinhado, e as mãos que se afagavam mostravam um aspecto visivelmente miserável. No entanto, aquela aparência, veria logo, desdizia o homem. À parte deixar transparecer uma generosidade incomum, exercia um comando meio heróico dos seus seres imaginários e da sua solidão inconclusa, além de efetivamente parecer disposto a encontrar a rua e assim me ajudar.

Naquele passo de alma cambaleante me deixei levar por aquela situação e concordei com a sua oferta. Não tinha muito que perder. Num ato contínuo, o homem vai até uma birosca e retorna decidido. Já sabia onde ficava o local.

Aquilo dura pouco. Logo em seguida, descubro que está enganado. Era um outro Lopes, ou um outro Chaves, que lhe informaram. Mas isso agora não fazia uma diferença significativa.

A princípio, aquilo para mim não estava claro, mas aquele homem, com cerca de seus trinta e poucos anos, via em mim alguém com quem pudesse conversar e, provavelmente, conseguir alguma ajuda, o que logo se confirmaria.

No entanto, o que assoma do nosso amigo é a sua capacidade de entreter o outro. Assim, como um malabarista das palavras, se desdobra em encontrar assuntos e meios para conduzir o tempo. Comentava pelos cotovelos a importância da educação, da cultura e daqueles outros conceitos distantes que ele possuía e, ao mesmo tempo, invejava por não ter, ao menos por não ter da maneira que desejava. E contava de sua compreensão sobre o Príncipe, de Maquiavel. Evidentemente, Emerson, vamos chamá-lo assim, não frequentara uma escola formal, no entanto, lera aquele clássico da ciência política por duas vezes, expondo em detalhes uma concepção bem formada que me nocauteava.

Falava de Napoleão. E apressava-se em discorrer sobre Maquiavel e Sun Tzu, os autores de cabeceira do corso, cuja dedicatória à Heróica fora implacavelmente riscada pelo músico alemão quando aquele se fizera Imperador. E emendava os assuntos. E cantava romanticamente uma espécie de lírica sobre a sua mulher, a doce Elisa, que mais parecia se erguer como um simulacro de Dulcineia. Entretanto, tudo leva a crer, Elisa não ocultava a verdade praquele Quixote das quebradas. Era ela a verdadeira dama.

Num repente, assim de chofre, se revela: – Nós somos soropositivos.

Mais um golpe. Previsível nocaute. Mas de todo modo, constrangedor, apesar da inteligência em falar de si mesmo com uma espécie de distanciamento o que dava às palavras daquele homem uma certa leveza.

Feliz com a atenção que eu lhe dedicava, pedia para tocar as mãos em sinal de amizade. E gentilmente dizia: – Se eu não lhe incomodasse, receberia de bom grado um presente. Que presente seria? Fraldas para ele e a sua mulher. Rapidamente, sem me deixar raciocinar, informava que os recursos dados pelo governo haviam terminado e o coquetel os fragilizava terrivelmente.

Enquanto nos dirigíamos a uma farmácia próxima, observava melhor aquele sujeito. Cruzávamos um viaduto. E as roupas encardidas, os dentes mal conservados, e a verve de um intelectual que poderia ter sido e não foi, gritavam em toda a sua plenitude. Cuido para que não seja importunado no estabelecimento, ouça frases que venham a agredi-lo, ou, quem sabe ainda, seja convidado a se retirar. Nesse sentido, adoto uma postura meio paternal, que me dói um pouco ter de lançar mão, mas julgo necessária assim mesmo.

E nos despedimos mais à frente. Numa confusão vulcânica, encaminhava-me à Rua Lopes Chaves, naquele momento, já devidamente mapeada. A casa, encantadora, não mais pertencia a ninguém, mas à memória de uma cidade e do mundo. E poderá ser compreendida como um patrimônio cultural dos nossos desejos e das nossas tradições mais fecundas.

De volta à minha cidade, um outro amigo, ao ouvir o relato, colocava um reparo. E nele deixava estremecer toda a sorte do mundo, que se apresentava como uma injunção terrível. Aquele homem parecia um espelhamento, uma versão dolorosamente invertida do poeta. Enquanto este seguia morto e reconhecido, às vezes de um modo incompreensivelmente tão antimodernista, por uma sociedade com a qual mantivera conflitos intensos, aquele outro, morador de rua, soropositivo, apesar do sangue ainda lhe correr pelas veias, visto de perto, permanecia uma sombra fugidia de si mesmo, desenhando a cada movimento a sua própria exclusão. Parecia se perguntar como o poeta: “Onde está o insofrido?”

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* Theotonio de Paiva, dramaturgo e diretor de teatro, é doutor em Teoria Literária pela UFRJ. Colaborador do Outras Palavras. Para ler todos os seus textos publicados no site, clique aqui.
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