Para uma escola além dos livros
Filósofo australiano fala sobre um museu da empatia e aposta que mudanças sociais ocorrerão através das relações entre as pessoas, do compartilhamento da “arte de viver”
Por Patricia Gomes, no PorVir
O filósofo Roman Krznaric atrai públicos numerosos para suas palestras sobre amor, trabalho e vida. Mas, apesar da popularidade, ele dispensa formalidades. Senta-se no sofá do lobby de um elegante hotel na avenida Paulista, oferece um café e começa a falar com as pessoas que ele acabara de conhecer como se fossem velhos amigos. Fala sobre seus dias no Brasil, amigos em comum e já envereda para um de seus temas preferidos: o fato de os sistemas educacionais dos quais fez parte, como aluno ou como professor, não o terem preparado para a vida. “Vamos para a escola ou universidade e não aprendemos sobre as coisas que mais nos preocupam na vida, como a forma de construir relacionamentos, de lidar com problemas familiares ou de escolher a carreira”, diz o australiano que passou parte da vida em Hong Kong e atualmente está radicado em Londres.
É principalmente na capital inglesa que Krznaric tem posto em prática a resposta que ele e um grupo de outras pessoas deram para esse descompasso entre vida e escola. Ele começou na cozinha de casa, convidando amigos, depois amigos de amigos, depois amigos de amigos de amigos, para conversar sobre o amor. Daí, claro, a cozinha ficou pequena e os encontros passaram a ocorrer em locais públicos. Era o início da The School of Life, ou Escola da Vida, instituição que dá aulas, oficinas e cria materiais sobre temas relacionados a trabalho, amor, família, política e diversão e que agora chega ao Brasil para trazer para cá oportunidades de discutir os dilemas do cotidiano.
O próximo evento da The School of Life Brazil está marcado para domingo, no Rio de Janeiro, ocasião em que Krznaric vai falar sobre outro tema que lhe é muito caro, a empatia (as inscrições custam R$ 100 ). Ele é tão ligado ao tema que uma de suas maiores ambições na vida é criar o Museu da Empatia, espaço em que estranhos podem tentar se conhecer e estabelecer conexões, um pouco à luz de outra iniciativa que liderou, quando estava à frente da organização Oxfam Muse. Na época, ele promovia encontros um tanto inusitados: chamava grupos heterogêneos – 100 empresários e 100 moradores de rua, por exemplo – e promovia espaços em que representantes de cada um dos grupos pudesse ter conversas pessoais e profundas com desconhecidos sobre suas experiências com as diferentes formas de amor, com a morte ou algum outro tema existencial.
“Primeiro, eu achava que só poderíamos mudar a sociedade por meio de partidos políticos. Mas então eu comecei a entender que a melhor forma de transformar a sociedade era mudando a maneira como as pessoas se relacionam”, disse Krznaric, que além de professor universitário de sociologia e política, já experimentou – e adorou – ser jardineiro, é apaixonado por tênis e gosta de fazer móveis. Dentre os livros que já escreveu, Sobre a Arte de Viver (Zahar) e Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida (Objetiva) estão disponíveis em português. Além disso, mantém o blog Oustrospection, em que divide seus pensamentos sobre a empatia e a arte de viver.
Em conversa com o Porvir, Krznaric falou ainda sobre como ele imagina um modelo de escola tradicional que fosse capaz de abordar os assuntos “que realmente importam” e citou modelos bem sucedidos de trabalhos com empatia. Veja os principais destaques da conversa.
“Primeiro, eu achava que só poderíamos mudar a sociedade por meio de partidos políticos. Mas então eu comecei a entender que a melhor forma de transformar a sociedade era mudando a maneira como as pessoas se relacionam”
Como começou sua inquietação com os modelos tradicionais de ensino?
Quando eu olho para a minha própria educação – graduação, pós, doutorado – eu a considero um fracasso porque eu não aprendi nela habilidades para a vida. Nós vamos para a escola e não aprendemos sobre as coisas que mais nos preocupam na vida, como a forma de construir relacionamentos, de lidar com problemas familiares ou de escolher a carreira, como pensar sobre a criatividade e seu potencial. Nada disso se aprende nos nossos sistemas de educação. Sempre achei que tinha alguma coisa faltando na minha própria educação.
Na minha jornada pessoal, eu era um acadêmico tradicional, ensinava sociologia na universidade. Mas a burocracia estava me deixando louco. Eu achava que só poderíamos mudar a sociedade por meio de partidos políticos. Mas então eu comecei a entender que a forma de transformar a sociedade era mudando a maneira como as pessoas se relacionam. Na forma como eu e você aprendemos uns com os outros, como nos colocamos no lugar do outro, como agimos com empatia, como você se compreende enquanto pessoa.
Pode dar um exemplo?
Comecei a trabalhar com isso na Oxfam Muse. A ideia era criar momentos de conversa entre estranhos e cruzar limites sociais. Reuníamos 100 empresários com 100 moradores de rua. Os convidávamos para um jantar em qualquer lugar, num museu, num parque. Entregávamos menus. Não menus de comida, mas de conversa. Havia perguntas sobre aspectos humanos universais: o que você já aprendeu com as diferentes formas de amor na sua vida? De que forma você acha que pode ser mais corajoso? A ideia era criar conversas de 1 para 1, em que as pessoas podiam se conectar umas com as outras para ir além do papo superficial.
Fizemos esses encontros também em escolas entre estudantes de diferentes idades, entre professores e alunos… Quando você tem 14 ou 15 anos, você pensa sobre tudo isso. Pode ser que você não tenha a linguagem ou espaço para falar sobre esses assuntos, mas todo mundo é especialista em sua própria experiência.
Qual era o propósito dessas conversas?
Criar conexões. Quando você tem uma conversa legal com alguém, você sente que mudou um pouco, criou-se uma espécie de igualdade. Nas escolas, estamos sempre cercados de estranhos. O que as outras pessoas pensam são pontos obscuros para nós. Em empresas também. O diretor de uma empresa pode não saber que sua secretária é uma exímia cineasta. Existem muitas coisas que não sabemos sobre pessoas que estão próximas e assim se perde muito potencial. Conversas são importantes para abrir a cabeça das pessoas.
Isso foi o início da The School of Life?
Tive muitas conversas com pessoas sobre os diferentes aspectos da vida. Entendi que eu queria dar aulas sobre a arte de viver. Percebi que havia um tipo de educação que ainda não existia. E nós até sabemos muitas coisas sobre vida, amor e morte porque as pessoas estão pensando sobre isso há milhares de anos, mas sempre podemos aprender mais se entendermos o que as pessoas da Grécia Antiga pensavam sobre o amor, o que as pessoas do Renascimento pensavam sobre morte, como as pessoas no oeste africano pensam sobre relacionamentos, o que podemos aprender, que ideias podemos ‘roubar’.
Então você já tinha a ideia e era só começar?
Eu não tinha um lugar. Aí minha mulher sugeriu que usássemos nossa cozinha no sábado seguinte. Chamei uns amigos para discutir, de manhã, como encontrar um trabalho que nos satisfaça e, de tarde, para repensar as ideias sobre o amor. Fui fazendo isso mais vezes e precisei sair da cozinha. Fui para espaços públicos e comecei a desenvolver uma metodologia sobre o que funcionava, que fosse um aprendizado pessoal e significativo. Queria ensinar filosofia grega de um jeito que não fosse só teoria.
Educação para a arte de viver não existe para crianças e jovens na maior parte dos países.
E como foi isso?
Eu e outras pessoas desenvolvemos cursos em cinco grandes áreas da vida: trabalho, amor, família, diversão e política. Passamos um ano pesquisando, pensando, conversando com pessoas para definir essas cinco áreas. Passamos dois anos desenvolvendo materiais, como as aulas seriam – mais do que um professor ir à frente e falar –, como seria a participação das pessoas, os debates, o tamanho das turmas, o material visual. Começamos a The School of Life e foi um sucesso. Mais de 100 mil pessoas já vieram ouvir o que temos para falar. Fomos para outros países do mundo, agora estamos chegando no Brasil e na Austrália e vamos expandir para outros lugares.
Descobrimos uma espécie de ‘fome existencial’ e estamos agora em um momento de inflexão da história. Temos um nível recorde de insatisfação com a vida. As pessoas estão procurando por significado em suas vidas. É por isso que, mesmo que não saibam quem eu sou e o que eu faço, as pessoas comparecem para ver o que eu tenho a dizer sobre repensar o trabalho. Elas querem alguma coisa. A educação moderna está fracassando. Claro, existem muitas organizações como a The School of Life que estão preocupadas com um aprendizado mais significativo, mas ainda é muito pouco. Educação para a arte de viver não existe para crianças e jovens na maior parte dos países.
Como você imagina uma escola que tenha um programa para ensinar a arte de viver?
Imagine que, numa escola regular, uma tarde por semana seja dedicada para a aula de vida, com três componentes. Em um, é o aprendizado tradicional, na sala de aula e ensina, por exemplo, os seis tipos de amor da Grécia Antiga. O segundo seria de conversas. Os alunos sairiam às ruas para falar com estranhos, visitar casas de repouso para cegos. Essas conversas podem ser de muitas maneiras, inclusive on-line, em que se pode ter contato com crianças no Quênia. O ponto é ir além do papo superficial de duas linhas do Facebook. O terceiro componente seria destinado a experiências de diferentes tipos de vida. Poderia ser ajudar alguém a construir uma casa ou um voluntariado com pessoas muito diferentes de você. Eu adoraria ver as escolas oferecerem esse tipo de educação para a vida, mas também adoraria que as escolas ensinassem empatia.
Como funcionaria?
A boa notícia é que 98% das pessoas têm a capacidade de desenvolver empatia, de se colocar no lugar do outro, ver o mundo pelos olhos de outra pessoa. Mas nós nem sempre usamos isso. Os outros 2% são psicopatas, pessoas com alguns tipos de autismo. Alguns acontecimentos na nossa vida erodem nossa capacidade de ‘empatizar’. A outra boa notícia é que empatia é uma habilidade que se pode aprender e se ensinar. Existem diferentes modelos de ensinar empatia. O mais famoso deles é o Roots of Empathy. Para mim ele é o melhor porque ele tem aqueles três passos sobre aprender, conversar e experimentar. Você coloca um bebê no centro de uma roda e as crianças interagem e falam sobre o bebê. Eles têm feito muitos estudos que mostram mudanças no comportamento das crianças. O programa torna as crianças mais empáticas, preocupadas com o outro, colaborativas, mas também as faz melhorar seus resultados em outras áreas, como autoconfiança e resiliência emocional. Mas há outros modelos.
(Outras Palavras)
domingo, 20 de outubro de 2013
sábado, 19 de outubro de 2013
Paris
Uh la la
- Ding dong, acusou a campainha, com seu carregado sotaque francês.
Achei estranho. Pensei que era um vizinho pedindo açúcar, sei lá. Abri. Parado em frente à porta um homem grande, loiro, que suava pelas ventas. Uma mistura de Gérard Depardieu com o brother do Jim Carrey em Show de Truman, mas um pouco mais bizarro.
- Bonjour, ele disse.
- Bonjour monsieur, respondi, caprichando no sotaque e achando que arrasava.
Daí ele desembestou a falar, rápido, papel na mão. Entendi nada.
- Pardon?
Ele repetiu tudo de novo, na mesmíssima velocidade. Agora pesquei uma palavra aqui e outra ali. Pelo que saquei, era alguma coisa a ver com as férias.
- Posso ler?, pedi, apontando para o papel na mão dele. E aí se enfezou.
- Mas é a mesma coisa que acabei de falar duas vezes!!! Isso eu entendi bem. E o suor passou a sair pelo nariz também, formando umas bolhas de água.
Aí começamos uma guerra de nervos. Ele suando cada vez mais e eu puxando o papel, tentando entender do que se tratava. Nossa relação não começava muito bem, pensei. Não deu pra ler tudo. A coisa degringolou de vez quando empaquei em uma palavra.
- Qu'est-ce que c'est pâques? Nunca tinha visto isso antes, pâques. Comecei a desconfiar que ele trabalhava no zoo, ia sair de férias e tava arrecadando dinheiro pra cuidar das pacas de lá.
Não respondeu. O nível de tensão era alto. Pelo tanto que suava, deduzi que o cara estava prestes a implodir. Era melhor encerrar aquele papo o mais rápido possível. Fiz cara de mau e fiquei olhando pra ele. E ele fez o mesmo. Mas ele era mais feio e já estava encharcado.
- Pardon monsieur, não entendi bulhufas.
- Eu também não, grunhiu. Senti meus cabelos voarem com o calor do bafo do sujeito.
O cara deu as costas e saiu pelo corredor, bufando. Antes que eu pudesse fechar a porta, deu tempo de ouvir um urro de 'putain', algo equivalente ao nosso 'puta merda'.
Dei duas voltas na chave, só pra garantir.
ps: pâques é páscoa. O sujeito devia querer uma ajuda para viajar no feriado. Ou não.
- Ding dong, acusou a campainha, com seu carregado sotaque francês.
Achei estranho. Pensei que era um vizinho pedindo açúcar, sei lá. Abri. Parado em frente à porta um homem grande, loiro, que suava pelas ventas. Uma mistura de Gérard Depardieu com o brother do Jim Carrey em Show de Truman, mas um pouco mais bizarro.
- Bonjour, ele disse.
- Bonjour monsieur, respondi, caprichando no sotaque e achando que arrasava.
Daí ele desembestou a falar, rápido, papel na mão. Entendi nada.
- Pardon?
Ele repetiu tudo de novo, na mesmíssima velocidade. Agora pesquei uma palavra aqui e outra ali. Pelo que saquei, era alguma coisa a ver com as férias.
- Posso ler?, pedi, apontando para o papel na mão dele. E aí se enfezou.
- Mas é a mesma coisa que acabei de falar duas vezes!!! Isso eu entendi bem. E o suor passou a sair pelo nariz também, formando umas bolhas de água.
Aí começamos uma guerra de nervos. Ele suando cada vez mais e eu puxando o papel, tentando entender do que se tratava. Nossa relação não começava muito bem, pensei. Não deu pra ler tudo. A coisa degringolou de vez quando empaquei em uma palavra.
- Qu'est-ce que c'est pâques? Nunca tinha visto isso antes, pâques. Comecei a desconfiar que ele trabalhava no zoo, ia sair de férias e tava arrecadando dinheiro pra cuidar das pacas de lá.
Não respondeu. O nível de tensão era alto. Pelo tanto que suava, deduzi que o cara estava prestes a implodir. Era melhor encerrar aquele papo o mais rápido possível. Fiz cara de mau e fiquei olhando pra ele. E ele fez o mesmo. Mas ele era mais feio e já estava encharcado.
- Pardon monsieur, não entendi bulhufas.
- Eu também não, grunhiu. Senti meus cabelos voarem com o calor do bafo do sujeito.
O cara deu as costas e saiu pelo corredor, bufando. Antes que eu pudesse fechar a porta, deu tempo de ouvir um urro de 'putain', algo equivalente ao nosso 'puta merda'.
Dei duas voltas na chave, só pra garantir.
ps: pâques é páscoa. O sujeito devia querer uma ajuda para viajar no feriado. Ou não.
Marina
Rede por enquanto muito pelo contrário
O ingresso de Marina Silva no PSB mexeu na política brasileira. A ex-senadora conta com grande apoio da mídia conservadora, que desde há muito abre grandes espaços para ela. Um colunista de O Globo, o Merval Pereira, tem se esforçado bastante para ela aparecer como “fenômeno novo” na política brasileira, Claro, a conclusão é do imortal da Academia Brasileira de Letras.
A verdadeira história da tentativa de legalização da Rede está mal contada, até porque os próceres de Marina, ou mesmo ela sozinha, dificilmente decidiriam em uma madrugada a aliança com o Governador Eduardo Campos.
Marina é esperta demais e ao ter percebido que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negaria o registro não deve ter perdido tempo. Conversou com deus e o mundo. Usou o boquirroto Roberto Freire para despistar. O ex-comunista hoje abrigado no PPS, um partido apêndice do PSDB, achava que Marina ingressaria em suas fileiras. Ficou irritado quando soube o que ela tinha decidido. Mas com o tempo tudo isso vai passar, porque afinal de contas ele precisa se agarrar em alguém para sobreviver politicamente. E Aécio Neves, que Freire apoiava até agora, não decola.
Correndo por fora, Eduardo Campos aguardava o desenrolar dos acontecimentos e num sábado morno e sem notícias montou com Marina Silva um piquenique jornalístico que ocupou grandes espaços na mídia eletrônica, sobretudo na Globonews, que cobriu ao vivo toda a festa de filiação que culminou numa entrevista coletiva gênero convescote.
A mídia conservadora explorou sobremaneira um suposto desabafo de Marina na reunião de madrugada com os correligionários em que teria afirmado que um de seus objetivos agora é acabar com o “chavismo” no PT. Na coletiva não confirmou o uso do mesmo adjetivo, mas também não negou, o que na prática significa que ela pensa isso mesmo.
A referida prédica vai ser muito repetida pela mídia de mercado, podem crer os leitores. Tal fato de alguma forma ajuda finalmente a política brasileira a se definir se é de direita, de esquerda, de centro. O que não pode continuar é na base do muito pelo contrário, como ela tenta passar para os incautos.
Marina tambhém se considera fato novo na política brasileira. Mas o que significa exatamente modernidade? Antes disso seria importante que ela definisse vários pontos, como, por exemplo, o atual posicionamento em relação ao leilão do complexo petrolífero de Libra, no pré sal e as demais privatizações que o atual governo está tentando incrementar. Certo que o petróleo é uma energia poluente e que é necessário encontrar outros recursos, como o solar e dos ventos. Mas como a bacia petrolífera é uma realidade, qual a posição da Ministra do Meio Ambiente no governo Lula sobre o pré-sal?
Qual a posição da sua Rede em relação ao capital financeiro? Será que ela conversa sobre o tema com seus correligionários e com sua amigona Maria Alice Setubal, mais conhecida como Neca, herdeira do Banco Itaú? A sustentabilidade da Rede passa pela defesa da soberania nacional? E qual a posição do partido abrigado provisoriamente no PSB no que diz respeito à integração latino-americana? Se fosse presidente, como seria a política externa de seu governo?
Seria também importante uma definição de Marina Silva, em princípio candidata a vice de Eduardo Campos, sobre o bloqueio econômico dos Estados Unidos contra Cuba. Algum repórter poderia perguntá-la o que faria se estivesse ocupando o governo e descobrisse que seus telefones e correios eletrônicos estavam sendo grampeados pela inteligência norte-americana? Como, em suma, enfrentaria uma situação ao se tornar pública a informação segundo a qual a inteligência estadunidense atua no Brasil na maior desenvoltura?
Qual a posição de Marina sobre a política externa de países como o Reino Unido e Estados Unidos? Outra dúvida que ela pode desvendar, se é verdade que a atual filiada ao PSB têm vínculos estreitos com as entidades ecológicas bancadas pelo Príncipe Charles, como dizem seus desafetos?
Para ajudar a definir se a Rede é de direita, de esquerda, de centro e abolir o muito pelo contrário, o que a política brasileira acha das mobilizações dos movimentos sociais no sentido de ampliar os espaços midiáticos, ou seja, para conseguir que no Brasil os meios de comunicação sejam democratizados e todos os setores sociais tenham vez e voz em pé de igualdade?
Qual a posição de sua Rede no que concerne às Comissões da Verdade? Marina Silva agora como correligionária da deputada Luiza Erundina, tratada com destaque no anúncio da entrada no PSB, apoia o posicionamento da parlamentar na defesa da revisão da Lei da Anistia?
(Direto da Redação)
O ingresso de Marina Silva no PSB mexeu na política brasileira. A ex-senadora conta com grande apoio da mídia conservadora, que desde há muito abre grandes espaços para ela. Um colunista de O Globo, o Merval Pereira, tem se esforçado bastante para ela aparecer como “fenômeno novo” na política brasileira, Claro, a conclusão é do imortal da Academia Brasileira de Letras.
A verdadeira história da tentativa de legalização da Rede está mal contada, até porque os próceres de Marina, ou mesmo ela sozinha, dificilmente decidiriam em uma madrugada a aliança com o Governador Eduardo Campos.
Marina é esperta demais e ao ter percebido que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negaria o registro não deve ter perdido tempo. Conversou com deus e o mundo. Usou o boquirroto Roberto Freire para despistar. O ex-comunista hoje abrigado no PPS, um partido apêndice do PSDB, achava que Marina ingressaria em suas fileiras. Ficou irritado quando soube o que ela tinha decidido. Mas com o tempo tudo isso vai passar, porque afinal de contas ele precisa se agarrar em alguém para sobreviver politicamente. E Aécio Neves, que Freire apoiava até agora, não decola.
Correndo por fora, Eduardo Campos aguardava o desenrolar dos acontecimentos e num sábado morno e sem notícias montou com Marina Silva um piquenique jornalístico que ocupou grandes espaços na mídia eletrônica, sobretudo na Globonews, que cobriu ao vivo toda a festa de filiação que culminou numa entrevista coletiva gênero convescote.
A mídia conservadora explorou sobremaneira um suposto desabafo de Marina na reunião de madrugada com os correligionários em que teria afirmado que um de seus objetivos agora é acabar com o “chavismo” no PT. Na coletiva não confirmou o uso do mesmo adjetivo, mas também não negou, o que na prática significa que ela pensa isso mesmo.
A referida prédica vai ser muito repetida pela mídia de mercado, podem crer os leitores. Tal fato de alguma forma ajuda finalmente a política brasileira a se definir se é de direita, de esquerda, de centro. O que não pode continuar é na base do muito pelo contrário, como ela tenta passar para os incautos.
Marina tambhém se considera fato novo na política brasileira. Mas o que significa exatamente modernidade? Antes disso seria importante que ela definisse vários pontos, como, por exemplo, o atual posicionamento em relação ao leilão do complexo petrolífero de Libra, no pré sal e as demais privatizações que o atual governo está tentando incrementar. Certo que o petróleo é uma energia poluente e que é necessário encontrar outros recursos, como o solar e dos ventos. Mas como a bacia petrolífera é uma realidade, qual a posição da Ministra do Meio Ambiente no governo Lula sobre o pré-sal?
Qual a posição da sua Rede em relação ao capital financeiro? Será que ela conversa sobre o tema com seus correligionários e com sua amigona Maria Alice Setubal, mais conhecida como Neca, herdeira do Banco Itaú? A sustentabilidade da Rede passa pela defesa da soberania nacional? E qual a posição do partido abrigado provisoriamente no PSB no que diz respeito à integração latino-americana? Se fosse presidente, como seria a política externa de seu governo?
Seria também importante uma definição de Marina Silva, em princípio candidata a vice de Eduardo Campos, sobre o bloqueio econômico dos Estados Unidos contra Cuba. Algum repórter poderia perguntá-la o que faria se estivesse ocupando o governo e descobrisse que seus telefones e correios eletrônicos estavam sendo grampeados pela inteligência norte-americana? Como, em suma, enfrentaria uma situação ao se tornar pública a informação segundo a qual a inteligência estadunidense atua no Brasil na maior desenvoltura?
Qual a posição de Marina sobre a política externa de países como o Reino Unido e Estados Unidos? Outra dúvida que ela pode desvendar, se é verdade que a atual filiada ao PSB têm vínculos estreitos com as entidades ecológicas bancadas pelo Príncipe Charles, como dizem seus desafetos?
Para ajudar a definir se a Rede é de direita, de esquerda, de centro e abolir o muito pelo contrário, o que a política brasileira acha das mobilizações dos movimentos sociais no sentido de ampliar os espaços midiáticos, ou seja, para conseguir que no Brasil os meios de comunicação sejam democratizados e todos os setores sociais tenham vez e voz em pé de igualdade?
Qual a posição de sua Rede no que concerne às Comissões da Verdade? Marina Silva agora como correligionária da deputada Luiza Erundina, tratada com destaque no anúncio da entrada no PSB, apoia o posicionamento da parlamentar na defesa da revisão da Lei da Anistia?
(Direto da Redação)
Latuff
Latuff volta a ser voz pela Palestina
Por
Marta Molina
Em entrevista a nossa correspondente no México, cartunista brasileiro cuja arte corre o mundo sustenta: “comunicador precisa escolher seu lado”
Por Marta Molina | Tradução: Inês Castilho
As caricaturas em forma de história em quadrinhos do desenhista brasileiro Carlos Latuff conseguiram transpor fronteiras. Fizeram isso durante o ataque de Israel à Faixa de Gaza, no Território Ocupado Palestino; durante a Primavera Árabe, no Egito; e até mesmo nas últimas eleições mexicanas, para evidenciar a fraude eleitoral. Ele tem trabalhos sobre o movimento das Mães de Maio de São Paulo, sobre a guerra na Síria, sobre a luta da APPO (Assembleia Popular dos Povos em Oaxaca) e sobre o duopólio da mídia composto pela Televisa e pela TV Azteca, recentemente denunciado pelo movimento Yosoy132.
Latuff maneja sua indignação com a arma que melhor sabe usar: seus desenhos, sua arte. Na semana passada esteve novamente expressando sua opinião sobre a guerra que acontece no Território Palestino Ocupado e que, segundo ele, é quase um déjà vu do que ocorreu em outros momentos eleitorais: “Quando se aproximam as eleições, Israel decide atacar Gaza. É mais ou menos assim: se você tem problemas ou se sente inseguro diante de uma eleição, inventa uma guerra e assim sua popularidade aumenta. Até mesmo os candidatos de oposição em Israel apoiaram o ataque a Gaza”.
Entramos em conexão com Carlos Latuff por meio de uma videoconferência, de casa para casa, de mesa para mesa, de laptop para laptop, da Cidade do México ao Rio de Janeiro, e recordando um português um pouco oxidado, mas ainda decente. Depois de repassar os movimentos de resistência indígena contra os megaprojetos no Brasil, os indignados da Espanha e a crise, os Ocuppy de Wall Street, os Zapatistas e os YoSoy132, aterrizamos no Oriente Médio, mais concretamente na guerra de Gaza.
Durante aproximadamente uma hora e meia conversamos sobre a importância da criatividade e da arte como formas de resistência. Sobretudo, debatemos a necessidade de que existam artistas, desenhistas e jornalistas independentes, que reportem com liberdade movimentos de resistência ou situações de conflito no mundo. Como ele diz, “fazendo o que a mídia comercial não faz” para viralizar a mensagem com a autonomia – e ao mesmo tempo a responsabilidade – que as redes sociais e a internet, em geral, possibilitam. “Seu trabalho também pode inspirar movimentos”, diz ele. De sua casa no Rio de Janeiro, com uma conta de Twitter (@CarlosLatuf) e seu blog, conseguiu fazer com que seus desenhos fossem impressos em banners durante a Primavera Árabe ou reproduzidos em forma de grafite nas paredes do Bahrein. Semana passada, suas imagens sobre a guerra em Gaza deram novamente a volta ao mundo, levando sua opinião que, como ele diz, “não saiam nunca na mídia mainstream do Ocidente”.
O que você tenta dizer, por meio das suas criações, a respeito do que acontece em Gaza?
Meus desenhos refletem a indignação de alguém que não consegue ver a realidade através dos meios tradicionais de comunicação. Creio que a mídia mainstream toma partido, quando fala sobre o que acontece em Gaza. Todos tomamos partido, mas o lado da mídia comercial é sem dúvida pró-Israel, o lado dos Estados Unidos, do pensamento ocidental. O que tento fazer com meus desenhos é expressar minha opinião e mostrar o outro lado, o dos palestinos, que é o que não se mostra. Quando você assiste televisão, percebe que existe uma tendência para justificar os crimes cometidos pelo estado de Israel em nome de uma pretensa “autodefesa” ou “segurança”. O que tento fazer com as minhas vinhetas é expor essas contradições do discurso da imprensa, do discurso do governo de Israel.
Você vê seu trabalho como um instrumento de resistência?
Sem dúvida. Todo o mundo tem um lado e você, como jornalista independente, também tem o seu. A questão é saber a serviço de quem coloca a sua força de trabalho. Se está trabalhando para uma causa popular ou a serviço de um editor, uma editora ou uma publicação que tem interesses corporativos. Quando se é um jornalista independente, assume-se um lado, claro, mas geralmente é a parte mais desfavorecida, o lado mais fraco da corda e que precisa ser reforçado. Você como jornalista independente e eu como caricaturista devemos fazer o contraponto.
Então existe uma tendência que leva a gente a olhar somente para um lado? Uma espécie de consenso, de todos irem na mesma direção, sem discutir a versão apresentada pela mídia comercial?
A imprensa leva as pessoas a se posicionar do seu lado e nós fazemos exatamente o contrário. Não seguimos a massa, não somos peões nem cordeiros, pensamos por nós mesmos, não temos “o rabo preso”, não nos sentimos amarrados nem obrigados a seguir a posição de alguém. Temos a mente e o coração livres para pensar livremente e trabalhar nossas opiniões sem pressões, de forma independente.
Não seria o momento de começar a construir um movimento de jornalistas e comunicadores organizados para mostrar esse outro ponto de vista, independente e necessário?
Sim. Penso mesmo que a internet chegou para ajudar muito nesse sentido. Nos anos 1980, por exemplo, a única forma que havia de publicar minhas vinhetas era por intermédio de um grande jornal. A única maneira de fazer com que meus desenhos chegassem a um público estrangeiro era publicando-os em revistas como Time e Newsweek, a mídia mainstream internacional. E era bem difícil. Agora, a internet ajuda a viralizar o trabalho e a fazer com que chegue a lugares recônditos do mundo. Sem essa ferramenta, meus desenhos estariam restritos ao Rio de Janeiro ou à imprensa sindical em que trabalho e que, infelizmente, não tem muito alcance. Definitivamente, se não fosse pela internet, pela mídia independente, pelos muitos blogs, pelo Twitter ou pelo Facebook, muitos não me conheceriam.
Que lições nos legou a Primavera Árabe quanto a isso?
Legou muitas lições sobre comunicação. Por exemplo, acompanhei a revolta egípcia do começo ao fim através do Twitter. E posso dizer que as coisas que os egípcios não conseguiam ler nos jornais ou ver nas tevês egípcias – seja porque não era permitido ou porque não queriam divulgar – podiam ler no Twitter. Os desenhos que fiz sobre o início da revolução no Egito não foram publicados nos jornais egípcios – com exceção de alguns. Inclusive, quando a junta militar assumiu, o desenho que fiz dos generais egípcios não foi publicado, mas ainda assim as pessoas tiveram acesso a ele graças à internet.
A internet estimulou a criação de redes de jornalistas independentes?
Sim. Existe hoje a possibilidade de trabalhar por internet um conteúdo que não seja associado a grandes jornais, a grandes redes de tevê. Além disso, precisamos de uma comunicação independente que não esteja vinculada a meios corporativos e creio que a internet ajudou muito nesse sentido.
Seu material, seus desenhos, se viralizaram inclusive fora da rede. As pessoas os imprimiam, faziam banners e iam com eles para as manifestações. Criações como as suas ajudam a fortalecer um movimento social?
Creio que o forte dos meus desenhos é que são utilizados para além da função editorial. As pessoas que vêm meus desenhos não apenas os guardam em um livro, uma revista, um jornal. Levam-nos para protestos, manifestações. As caricaturas têm uma importância chave. Para o militante, passaram a ser um instrumento de luta. O desenho é sua voz e expressa, sem palavras, o que está sentindo. Foi o que aconteceu durante a Primavera Árabe: as pessoas imprimiam o desenho e o levavam para as ruas porque se sentiam identificadas com aquelas imagens.
É importante que se produza uma arte que não seja apenas para ser publicada em um jornal, mas que possa ser reproduzida em qualquer espaço. Seja em um estêncil, uma camiseta ou um grafite, como fizeram no Bahrein. Muitos de meus trabalhos transformaram-se em grafites nas paredes do Bahrein e do Egito. Quando você coloca seu trabalho a serviço das causas sociais populares e os militantes, os manifestantes, os ativistas e organizadores o utilizam para essa luta, então a arte se torna um instrumento de resistência. Assim também com o jornalismo independente.
Você fez alguns desenhos sobre o Occupy Wall Street. Como vê agora esse movimento?
O problema do Occupy Wall Street é que agora não tem um objetivo concreto. Se quer canalizar sua indignação, tudo bem, mas precisa ter um objetivo. Então, ocupamos Wall Street – e o que fazemos agora? Enfim, continuaremos, como se diz em português, “pisando no calo”, isto é, perturbando, incomodando, mas também expressando nossa indignação com a arma de resistência que manejamos melhor – no meu caso, a caricatura.
(Outras Palavras)
Por
Marta Molina
Em entrevista a nossa correspondente no México, cartunista brasileiro cuja arte corre o mundo sustenta: “comunicador precisa escolher seu lado”
Por Marta Molina | Tradução: Inês Castilho
As caricaturas em forma de história em quadrinhos do desenhista brasileiro Carlos Latuff conseguiram transpor fronteiras. Fizeram isso durante o ataque de Israel à Faixa de Gaza, no Território Ocupado Palestino; durante a Primavera Árabe, no Egito; e até mesmo nas últimas eleições mexicanas, para evidenciar a fraude eleitoral. Ele tem trabalhos sobre o movimento das Mães de Maio de São Paulo, sobre a guerra na Síria, sobre a luta da APPO (Assembleia Popular dos Povos em Oaxaca) e sobre o duopólio da mídia composto pela Televisa e pela TV Azteca, recentemente denunciado pelo movimento Yosoy132.
Latuff maneja sua indignação com a arma que melhor sabe usar: seus desenhos, sua arte. Na semana passada esteve novamente expressando sua opinião sobre a guerra que acontece no Território Palestino Ocupado e que, segundo ele, é quase um déjà vu do que ocorreu em outros momentos eleitorais: “Quando se aproximam as eleições, Israel decide atacar Gaza. É mais ou menos assim: se você tem problemas ou se sente inseguro diante de uma eleição, inventa uma guerra e assim sua popularidade aumenta. Até mesmo os candidatos de oposição em Israel apoiaram o ataque a Gaza”.
Entramos em conexão com Carlos Latuff por meio de uma videoconferência, de casa para casa, de mesa para mesa, de laptop para laptop, da Cidade do México ao Rio de Janeiro, e recordando um português um pouco oxidado, mas ainda decente. Depois de repassar os movimentos de resistência indígena contra os megaprojetos no Brasil, os indignados da Espanha e a crise, os Ocuppy de Wall Street, os Zapatistas e os YoSoy132, aterrizamos no Oriente Médio, mais concretamente na guerra de Gaza.
Durante aproximadamente uma hora e meia conversamos sobre a importância da criatividade e da arte como formas de resistência. Sobretudo, debatemos a necessidade de que existam artistas, desenhistas e jornalistas independentes, que reportem com liberdade movimentos de resistência ou situações de conflito no mundo. Como ele diz, “fazendo o que a mídia comercial não faz” para viralizar a mensagem com a autonomia – e ao mesmo tempo a responsabilidade – que as redes sociais e a internet, em geral, possibilitam. “Seu trabalho também pode inspirar movimentos”, diz ele. De sua casa no Rio de Janeiro, com uma conta de Twitter (@CarlosLatuf) e seu blog, conseguiu fazer com que seus desenhos fossem impressos em banners durante a Primavera Árabe ou reproduzidos em forma de grafite nas paredes do Bahrein. Semana passada, suas imagens sobre a guerra em Gaza deram novamente a volta ao mundo, levando sua opinião que, como ele diz, “não saiam nunca na mídia mainstream do Ocidente”.
O que você tenta dizer, por meio das suas criações, a respeito do que acontece em Gaza?
Meus desenhos refletem a indignação de alguém que não consegue ver a realidade através dos meios tradicionais de comunicação. Creio que a mídia mainstream toma partido, quando fala sobre o que acontece em Gaza. Todos tomamos partido, mas o lado da mídia comercial é sem dúvida pró-Israel, o lado dos Estados Unidos, do pensamento ocidental. O que tento fazer com meus desenhos é expressar minha opinião e mostrar o outro lado, o dos palestinos, que é o que não se mostra. Quando você assiste televisão, percebe que existe uma tendência para justificar os crimes cometidos pelo estado de Israel em nome de uma pretensa “autodefesa” ou “segurança”. O que tento fazer com as minhas vinhetas é expor essas contradições do discurso da imprensa, do discurso do governo de Israel.
Você vê seu trabalho como um instrumento de resistência?
Sem dúvida. Todo o mundo tem um lado e você, como jornalista independente, também tem o seu. A questão é saber a serviço de quem coloca a sua força de trabalho. Se está trabalhando para uma causa popular ou a serviço de um editor, uma editora ou uma publicação que tem interesses corporativos. Quando se é um jornalista independente, assume-se um lado, claro, mas geralmente é a parte mais desfavorecida, o lado mais fraco da corda e que precisa ser reforçado. Você como jornalista independente e eu como caricaturista devemos fazer o contraponto.
Então existe uma tendência que leva a gente a olhar somente para um lado? Uma espécie de consenso, de todos irem na mesma direção, sem discutir a versão apresentada pela mídia comercial?
A imprensa leva as pessoas a se posicionar do seu lado e nós fazemos exatamente o contrário. Não seguimos a massa, não somos peões nem cordeiros, pensamos por nós mesmos, não temos “o rabo preso”, não nos sentimos amarrados nem obrigados a seguir a posição de alguém. Temos a mente e o coração livres para pensar livremente e trabalhar nossas opiniões sem pressões, de forma independente.
Não seria o momento de começar a construir um movimento de jornalistas e comunicadores organizados para mostrar esse outro ponto de vista, independente e necessário?
Sim. Penso mesmo que a internet chegou para ajudar muito nesse sentido. Nos anos 1980, por exemplo, a única forma que havia de publicar minhas vinhetas era por intermédio de um grande jornal. A única maneira de fazer com que meus desenhos chegassem a um público estrangeiro era publicando-os em revistas como Time e Newsweek, a mídia mainstream internacional. E era bem difícil. Agora, a internet ajuda a viralizar o trabalho e a fazer com que chegue a lugares recônditos do mundo. Sem essa ferramenta, meus desenhos estariam restritos ao Rio de Janeiro ou à imprensa sindical em que trabalho e que, infelizmente, não tem muito alcance. Definitivamente, se não fosse pela internet, pela mídia independente, pelos muitos blogs, pelo Twitter ou pelo Facebook, muitos não me conheceriam.
Que lições nos legou a Primavera Árabe quanto a isso?
Legou muitas lições sobre comunicação. Por exemplo, acompanhei a revolta egípcia do começo ao fim através do Twitter. E posso dizer que as coisas que os egípcios não conseguiam ler nos jornais ou ver nas tevês egípcias – seja porque não era permitido ou porque não queriam divulgar – podiam ler no Twitter. Os desenhos que fiz sobre o início da revolução no Egito não foram publicados nos jornais egípcios – com exceção de alguns. Inclusive, quando a junta militar assumiu, o desenho que fiz dos generais egípcios não foi publicado, mas ainda assim as pessoas tiveram acesso a ele graças à internet.
A internet estimulou a criação de redes de jornalistas independentes?
Sim. Existe hoje a possibilidade de trabalhar por internet um conteúdo que não seja associado a grandes jornais, a grandes redes de tevê. Além disso, precisamos de uma comunicação independente que não esteja vinculada a meios corporativos e creio que a internet ajudou muito nesse sentido.
Seu material, seus desenhos, se viralizaram inclusive fora da rede. As pessoas os imprimiam, faziam banners e iam com eles para as manifestações. Criações como as suas ajudam a fortalecer um movimento social?
Creio que o forte dos meus desenhos é que são utilizados para além da função editorial. As pessoas que vêm meus desenhos não apenas os guardam em um livro, uma revista, um jornal. Levam-nos para protestos, manifestações. As caricaturas têm uma importância chave. Para o militante, passaram a ser um instrumento de luta. O desenho é sua voz e expressa, sem palavras, o que está sentindo. Foi o que aconteceu durante a Primavera Árabe: as pessoas imprimiam o desenho e o levavam para as ruas porque se sentiam identificadas com aquelas imagens.
É importante que se produza uma arte que não seja apenas para ser publicada em um jornal, mas que possa ser reproduzida em qualquer espaço. Seja em um estêncil, uma camiseta ou um grafite, como fizeram no Bahrein. Muitos de meus trabalhos transformaram-se em grafites nas paredes do Bahrein e do Egito. Quando você coloca seu trabalho a serviço das causas sociais populares e os militantes, os manifestantes, os ativistas e organizadores o utilizam para essa luta, então a arte se torna um instrumento de resistência. Assim também com o jornalismo independente.
Você fez alguns desenhos sobre o Occupy Wall Street. Como vê agora esse movimento?
O problema do Occupy Wall Street é que agora não tem um objetivo concreto. Se quer canalizar sua indignação, tudo bem, mas precisa ter um objetivo. Então, ocupamos Wall Street – e o que fazemos agora? Enfim, continuaremos, como se diz em português, “pisando no calo”, isto é, perturbando, incomodando, mas também expressando nossa indignação com a arma de resistência que manejamos melhor – no meu caso, a caricatura.
(Outras Palavras)
O. Médio
A paz que o mundo anseia
Hassan Rouhani, presidente do Irã
Publicado em 01/10/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind
O Presidente do Irã, Hasan Rohani (foto) tem sido a principal figura da política internacional nesta última semana, seguido da Presidenta Dilma Rousseff com a proposta apresentada no plenário das Nações Unidas de fazer frente à espionagem dos Estados Unidos. O Presidente Barack Obama conversou por telefone com Rouhani, o que não acontecia com dirigentes dos dois países desde a revolução de 1979 que derrubou o Xá Pahlevi.
A conduta dos representantes de Israel na ONU, retirando-se quando do pronunciamento de Rohani, confirma que o governo de Benjamin Netanyahu é realmente adepto de ações bélicas na região, como quer também o complexo industrial militar estadunidense. Prefere optar por um bombardeio contra as usinas nucleares iranianas do que pelo menos tentar um acordo com o país que desenvolve programa nuclear que o governo garante ser para fins pacíficos. Netanyahu e o complexo industrial militar norte-americano andam de braços dados e não querem nem ouvir falar em acordo que reduza o estado de tensão na região.
O novo Presidente do Irã apresentou uma proposta concreta, o da desnuclearização no Oriente Médio. Muito positiva a sugestão, que Israel deveria ser obrigado também a seguir, já que tem estocadas armas nucleares, mas prefere o silêncio sobre a matéria.
Mordecai Vannunu
Nesse sentido, uma figura importante já revelou ao mundo, nos anos 80, que Israel possui bombas atômicas. Mordecai Vanunu pagou caro pela revelação, tendo ficado 18 anos preso e 11 em cárcere isolado. Isso depois de ter sido sequestrado em Londres pelo serviço secreto de Israel, o Mossad.
Mesmo tendo cumprido a pena, Vanunu segue monitorado pelo serviço secreto e impedido de deixar o país. Foi convidado para vir ao Brasil receber o prêmio internacional de direitos humanos, instituído pela Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa, mas o pedido às autoridades israelenses para que fosse permitida a viagem sequer foi respondido. Claro, o silêncio é concretamente uma negativa. Vanunu deve ser sempre lembrado, sobretudo no momento em que o tema armas nucleares está na ordem do dia no Oriente Médio e o mundo olha com otimismo uma possível luz no fim do túnel das trevas em que está mergulhada a região.
Quando se aborda o tema Irã, não se pode deixar de analisar o que acontece na Síria, que para muitos analistas é uma questão chave para se entender todo o contexto do Oriente Médio. Há uma luta fratricida estimulada pelos Estados Unidos e países do Golfo que não primam pelo respeito aos direitos humanos, muito pelo contrário. Lá estão também a Arábia Saudita e Qatar, duas monarquias autoritárias que armam e subvencionam os chamados rebeldes sírios, do qual fazem parte grupos vinculados ao grupo terrorista al Qaeda. De quebra, aproveitando o embalo, o governo turco procura ganhar terreno com a guerra civil síria e se cacifar para exercer forte protagonismo na área. E Israel está também presente.
Nesse quadro em que a ONU diz terem sido mortos mais de 100 mil sírios desde o início das hostilidades, um ataque de armas químicas, que os Estados Unidos responsabilizam o governo de Bachar al Assad e a Rússia a oposição bancada pelo Ocidente e monarquias, matou mais de 1.200 pessoas.
A questão das armas químicas merece também algumas observações que não estão sendo levadas em conta. Que empresas fabricam armas químicas? A empresa dos alimentos genéricos, do agente laranja, do napalm, que tantas vítimas provocou no Vietnã e com reflexos nefastos até hoje, para não falar da participação no projeto Manhattan que produziu a bomba atômica, a Monsanto é uma delas.
Outra pergunta que não quer calar: além da Síria, quais os países que têm estocadas armas químicas? Algum organismo internacional já inspecionou Israel e o próprio Estados Unidos?
Se existem armas químicas e países a estocam, significa também que empesas integrantes do complexo industrial militar lucram com isso. Mas esse ângulo da questão tem sido pouco abordado. Ainda está em tempo, portanto, de se colocar o boca no trombone.
O que importa agora é neutralizar o poder da indústria da morte, portanto, pressionar governos no sentido de alcançar uma paz duradoura em que, em vez de se gastar em armamentos, se combata a fome e se direcione os gastos para o bem estar da população mundial. E para alcançar esse objetivo é necessário que a comunidade internacional não assista impassível a ação militarista de governos como o de Israel e das monarquias dos países do Golfo, como a Arábia Saudita e Qatar, não ficando de fora também o dos Estados Unidos.
_________________________________
[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.
Enviado por Direto da Redação
Hassan Rouhani, presidente do Irã
Publicado em 01/10/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind
O Presidente do Irã, Hasan Rohani (foto) tem sido a principal figura da política internacional nesta última semana, seguido da Presidenta Dilma Rousseff com a proposta apresentada no plenário das Nações Unidas de fazer frente à espionagem dos Estados Unidos. O Presidente Barack Obama conversou por telefone com Rouhani, o que não acontecia com dirigentes dos dois países desde a revolução de 1979 que derrubou o Xá Pahlevi.
A conduta dos representantes de Israel na ONU, retirando-se quando do pronunciamento de Rohani, confirma que o governo de Benjamin Netanyahu é realmente adepto de ações bélicas na região, como quer também o complexo industrial militar estadunidense. Prefere optar por um bombardeio contra as usinas nucleares iranianas do que pelo menos tentar um acordo com o país que desenvolve programa nuclear que o governo garante ser para fins pacíficos. Netanyahu e o complexo industrial militar norte-americano andam de braços dados e não querem nem ouvir falar em acordo que reduza o estado de tensão na região.
O novo Presidente do Irã apresentou uma proposta concreta, o da desnuclearização no Oriente Médio. Muito positiva a sugestão, que Israel deveria ser obrigado também a seguir, já que tem estocadas armas nucleares, mas prefere o silêncio sobre a matéria.
Mordecai Vannunu
Nesse sentido, uma figura importante já revelou ao mundo, nos anos 80, que Israel possui bombas atômicas. Mordecai Vanunu pagou caro pela revelação, tendo ficado 18 anos preso e 11 em cárcere isolado. Isso depois de ter sido sequestrado em Londres pelo serviço secreto de Israel, o Mossad.
Mesmo tendo cumprido a pena, Vanunu segue monitorado pelo serviço secreto e impedido de deixar o país. Foi convidado para vir ao Brasil receber o prêmio internacional de direitos humanos, instituído pela Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa, mas o pedido às autoridades israelenses para que fosse permitida a viagem sequer foi respondido. Claro, o silêncio é concretamente uma negativa. Vanunu deve ser sempre lembrado, sobretudo no momento em que o tema armas nucleares está na ordem do dia no Oriente Médio e o mundo olha com otimismo uma possível luz no fim do túnel das trevas em que está mergulhada a região.
Quando se aborda o tema Irã, não se pode deixar de analisar o que acontece na Síria, que para muitos analistas é uma questão chave para se entender todo o contexto do Oriente Médio. Há uma luta fratricida estimulada pelos Estados Unidos e países do Golfo que não primam pelo respeito aos direitos humanos, muito pelo contrário. Lá estão também a Arábia Saudita e Qatar, duas monarquias autoritárias que armam e subvencionam os chamados rebeldes sírios, do qual fazem parte grupos vinculados ao grupo terrorista al Qaeda. De quebra, aproveitando o embalo, o governo turco procura ganhar terreno com a guerra civil síria e se cacifar para exercer forte protagonismo na área. E Israel está também presente.
Nesse quadro em que a ONU diz terem sido mortos mais de 100 mil sírios desde o início das hostilidades, um ataque de armas químicas, que os Estados Unidos responsabilizam o governo de Bachar al Assad e a Rússia a oposição bancada pelo Ocidente e monarquias, matou mais de 1.200 pessoas.
A questão das armas químicas merece também algumas observações que não estão sendo levadas em conta. Que empresas fabricam armas químicas? A empresa dos alimentos genéricos, do agente laranja, do napalm, que tantas vítimas provocou no Vietnã e com reflexos nefastos até hoje, para não falar da participação no projeto Manhattan que produziu a bomba atômica, a Monsanto é uma delas.
Outra pergunta que não quer calar: além da Síria, quais os países que têm estocadas armas químicas? Algum organismo internacional já inspecionou Israel e o próprio Estados Unidos?
Se existem armas químicas e países a estocam, significa também que empesas integrantes do complexo industrial militar lucram com isso. Mas esse ângulo da questão tem sido pouco abordado. Ainda está em tempo, portanto, de se colocar o boca no trombone.
O que importa agora é neutralizar o poder da indústria da morte, portanto, pressionar governos no sentido de alcançar uma paz duradoura em que, em vez de se gastar em armamentos, se combata a fome e se direcione os gastos para o bem estar da população mundial. E para alcançar esse objetivo é necessário que a comunidade internacional não assista impassível a ação militarista de governos como o de Israel e das monarquias dos países do Golfo, como a Arábia Saudita e Qatar, não ficando de fora também o dos Estados Unidos.
_________________________________
[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.
Enviado por Direto da Redação
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Petróleo III
Como matar o setor de petróleo
Escrito por Paulo Metri
Na década de 1990, auge do período neoliberal, Betinho escreveu um capítulo do livro “Em defesa do interesse nacional”, cheio de ironia e bom humor mas, muito sério, intitulado “Como matar uma estatal”. No capítulo, ele descreve todas as ações que um “bom administrador” deveria tomar para atingir seu objetivo de matar a estatal. Nos dias atuais, se ainda estivesse entre nós, ele talvez escrevesse sobre como matar o setor de petróleo. Imaginamos que o novo texto ficaria da seguinte forma:
Cria-se um arcabouço jurídico e institucional, que privilegia a competição, não importando se os agentes econômicos são nacionais ou estrangeiros. O fato de ser nacional não significa que deva ter algum privilégio em qualquer disputa.
O petróleo, o gás natural e os derivados devem ser considerados como simples commodities, que não possuem valor geopolítico e estratégico algum, ou seja, não possuem nenhuma atração além da rentabilidade.
Promovem-se leilões em que um único pagamento inicial pode definir a permanência de empresas produzindo petróleo em uma área durante até 35 anos, pagando parcelas mínimas de royalties e, quando for o caso de altas produções, de “participações especiais”.
Facilita-se ao máximo a entrada de bens e serviços estrangeiros no setor, a pedido das empresas petrolíferas estrangeiras, isentando-os de impostos e taxas, que os nacionais não têm.
A cada oportunidade de fala à imprensa, deve-se realçar que as decisões da diretoria do órgão regulador são técnicas, significando que ele verifica a competição e o desempenho das empresas. Nunca se toma uma decisão com o singelo argumento que ela irá beneficiar a sociedade brasileira. O órgão regulador não é um órgão que deve implantar políticas públicas, nem deve levar em conta nas suas decisões que o Brasil é um país em desenvolvimento, com características culturais específicas e inserido no espaço geopolítico mundial.
Doma-se a estatal do setor, para, amofinada, não participar de leilões e permitir a entrega rápida de blocos para as empresas estrangeiras. Mas ela deve participar de um mínimo de leilões de blocos, para não poderem identificar a estratégia de entrega do subsolo nacional.
Escolhe-se um administrador para regular o setor, que diminua ao máximo o risco dos agentes econômicos, usando a União como colchão amortecedor dos riscos empresariais, garantindo, desta forma, a atratividade dos leilões de áreas petrolíferas e comprometendo a arrecadação de tributos do setor.
Todos os administradores deste modelo devem recriminar, claramente, a fase anterior do monopólio estatal, classificando-a de jurássica e nunca entrando no debate dos benefícios e comprometimentos de cada modelo. Inclusive, só os supostos malefícios do monopólio devem ser denunciados, sistematicamente.
A mídia comercial deve ser “comprada” pelos agentes econômicos do setor, exceto a estatal. Obviamente, as notícias serão filtradas para transmitirem só os interesses das empresas estrangeiras.
Notícias ruins da empresa estatal devem ser privilegiadas para irem para a “mídia vendida”. Quanto mais notícias deste tipo “vazarem“, mais os papéis desta empresa irão cair, o que é desejado. Tudo isto para prepará-la para uma privatização futura, quando ela voltará a ser administrada “tecnicamente” e será eficiente. Não falam, mas se referem a uma “eficiência” sob o ponto de vista de remessa de dividendos para os acionistas, principalmente os estrangeiros. Não se trata de uma “eficiência social”.
Entrega-se uma parcela dos royalties para estados e municípios, para existirem adesões cegas ao modelo completo, graças a só um artigo da lei, o dos royalties.
Colocam-se recursos do Fundo Setorial do Petróleo para professores administrarem cursos e programas sobre o petróleo com viés neoliberal, o que deixa alguns membros da academia felizes.
Quando um campo gigante for descoberto pela estatal, ele deve ser rapidamente retomado pelo órgão regulador, para fazer um mega-leilão de petróleo, com endereço conhecido, para o governo de contadores fechar as contas e para a felicidade do Império.
Depois de 20 anos de aplicação destes princípios, os mais jovens, sem possibilidade de comparação com outro modelo e com a mídia os alienando, estarão dominados. Os poucos conscientes remanescentes, que presenciaram os benefícios do monopólio estatal para um país em desenvolvimento como o Brasil, estarão aposentados ou mortos. Neste momento, o golpe fatal pode ser dado com a privatização da Petrobras.
(Correio da CIdadania)
Escrito por Paulo Metri
Na década de 1990, auge do período neoliberal, Betinho escreveu um capítulo do livro “Em defesa do interesse nacional”, cheio de ironia e bom humor mas, muito sério, intitulado “Como matar uma estatal”. No capítulo, ele descreve todas as ações que um “bom administrador” deveria tomar para atingir seu objetivo de matar a estatal. Nos dias atuais, se ainda estivesse entre nós, ele talvez escrevesse sobre como matar o setor de petróleo. Imaginamos que o novo texto ficaria da seguinte forma:
Cria-se um arcabouço jurídico e institucional, que privilegia a competição, não importando se os agentes econômicos são nacionais ou estrangeiros. O fato de ser nacional não significa que deva ter algum privilégio em qualquer disputa.
O petróleo, o gás natural e os derivados devem ser considerados como simples commodities, que não possuem valor geopolítico e estratégico algum, ou seja, não possuem nenhuma atração além da rentabilidade.
Promovem-se leilões em que um único pagamento inicial pode definir a permanência de empresas produzindo petróleo em uma área durante até 35 anos, pagando parcelas mínimas de royalties e, quando for o caso de altas produções, de “participações especiais”.
Facilita-se ao máximo a entrada de bens e serviços estrangeiros no setor, a pedido das empresas petrolíferas estrangeiras, isentando-os de impostos e taxas, que os nacionais não têm.
A cada oportunidade de fala à imprensa, deve-se realçar que as decisões da diretoria do órgão regulador são técnicas, significando que ele verifica a competição e o desempenho das empresas. Nunca se toma uma decisão com o singelo argumento que ela irá beneficiar a sociedade brasileira. O órgão regulador não é um órgão que deve implantar políticas públicas, nem deve levar em conta nas suas decisões que o Brasil é um país em desenvolvimento, com características culturais específicas e inserido no espaço geopolítico mundial.
Doma-se a estatal do setor, para, amofinada, não participar de leilões e permitir a entrega rápida de blocos para as empresas estrangeiras. Mas ela deve participar de um mínimo de leilões de blocos, para não poderem identificar a estratégia de entrega do subsolo nacional.
Escolhe-se um administrador para regular o setor, que diminua ao máximo o risco dos agentes econômicos, usando a União como colchão amortecedor dos riscos empresariais, garantindo, desta forma, a atratividade dos leilões de áreas petrolíferas e comprometendo a arrecadação de tributos do setor.
Todos os administradores deste modelo devem recriminar, claramente, a fase anterior do monopólio estatal, classificando-a de jurássica e nunca entrando no debate dos benefícios e comprometimentos de cada modelo. Inclusive, só os supostos malefícios do monopólio devem ser denunciados, sistematicamente.
A mídia comercial deve ser “comprada” pelos agentes econômicos do setor, exceto a estatal. Obviamente, as notícias serão filtradas para transmitirem só os interesses das empresas estrangeiras.
Notícias ruins da empresa estatal devem ser privilegiadas para irem para a “mídia vendida”. Quanto mais notícias deste tipo “vazarem“, mais os papéis desta empresa irão cair, o que é desejado. Tudo isto para prepará-la para uma privatização futura, quando ela voltará a ser administrada “tecnicamente” e será eficiente. Não falam, mas se referem a uma “eficiência” sob o ponto de vista de remessa de dividendos para os acionistas, principalmente os estrangeiros. Não se trata de uma “eficiência social”.
Entrega-se uma parcela dos royalties para estados e municípios, para existirem adesões cegas ao modelo completo, graças a só um artigo da lei, o dos royalties.
Colocam-se recursos do Fundo Setorial do Petróleo para professores administrarem cursos e programas sobre o petróleo com viés neoliberal, o que deixa alguns membros da academia felizes.
Quando um campo gigante for descoberto pela estatal, ele deve ser rapidamente retomado pelo órgão regulador, para fazer um mega-leilão de petróleo, com endereço conhecido, para o governo de contadores fechar as contas e para a felicidade do Império.
Depois de 20 anos de aplicação destes princípios, os mais jovens, sem possibilidade de comparação com outro modelo e com a mídia os alienando, estarão dominados. Os poucos conscientes remanescentes, que presenciaram os benefícios do monopólio estatal para um país em desenvolvimento como o Brasil, estarão aposentados ou mortos. Neste momento, o golpe fatal pode ser dado com a privatização da Petrobras.
(Correio da CIdadania)
Petróleo III
Como matar o setor de petróleo
Escrito por Paulo Metri
Na década de 1990, auge do período neoliberal, Betinho escreveu um capítulo do livro “Em defesa do interesse nacional”, cheio de ironia e bom humor mas, muito sério, intitulado “Como matar uma estatal”. No capítulo, ele descreve todas as ações que um “bom administrador” deveria tomar para atingir seu objetivo de matar a estatal. Nos dias atuais, se ainda estivesse entre nós, ele talvez escrevesse sobre como matar o setor de petróleo. Imaginamos que o novo texto ficaria da seguinte forma:
Cria-se um arcabouço jurídico e institucional, que privilegia a competição, não importando se os agentes econômicos são nacionais ou estrangeiros. O fato de ser nacional não significa que deva ter algum privilégio em qualquer disputa.
O petróleo, o gás natural e os derivados devem ser considerados como simples commodities, que não possuem valor geopolítico e estratégico algum, ou seja, não possuem nenhuma atração além da rentabilidade.
Promovem-se leilões em que um único pagamento inicial pode definir a permanência de empresas produzindo petróleo em uma área durante até 35 anos, pagando parcelas mínimas de royalties e, quando for o caso de altas produções, de “participações especiais”.
Facilita-se ao máximo a entrada de bens e serviços estrangeiros no setor, a pedido das empresas petrolíferas estrangeiras, isentando-os de impostos e taxas, que os nacionais não têm.
A cada oportunidade de fala à imprensa, deve-se realçar que as decisões da diretoria do órgão regulador são técnicas, significando que ele verifica a competição e o desempenho das empresas. Nunca se toma uma decisão com o singelo argumento que ela irá beneficiar a sociedade brasileira. O órgão regulador não é um órgão que deve implantar políticas públicas, nem deve levar em conta nas suas decisões que o Brasil é um país em desenvolvimento, com características culturais específicas e inserido no espaço geopolítico mundial.
Doma-se a estatal do setor, para, amofinada, não participar de leilões e permitir a entrega rápida de blocos para as empresas estrangeiras. Mas ela deve participar de um mínimo de leilões de blocos, para não poderem identificar a estratégia de entrega do subsolo nacional.
Escolhe-se um administrador para regular o setor, que diminua ao máximo o risco dos agentes econômicos, usando a União como colchão amortecedor dos riscos empresariais, garantindo, desta forma, a atratividade dos leilões de áreas petrolíferas e comprometendo a arrecadação de tributos do setor.
Todos os administradores deste modelo devem recriminar, claramente, a fase anterior do monopólio estatal, classificando-a de jurássica e nunca entrando no debate dos benefícios e comprometimentos de cada modelo. Inclusive, só os supostos malefícios do monopólio devem ser denunciados, sistematicamente.
A mídia comercial deve ser “comprada” pelos agentes econômicos do setor, exceto a estatal. Obviamente, as notícias serão filtradas para transmitirem só os interesses das empresas estrangeiras.
Notícias ruins da empresa estatal devem ser privilegiadas para irem para a “mídia vendida”. Quanto mais notícias deste tipo “vazarem“, mais os papéis desta empresa irão cair, o que é desejado. Tudo isto para prepará-la para uma privatização futura, quando ela voltará a ser administrada “tecnicamente” e será eficiente. Não falam, mas se referem a uma “eficiência” sob o ponto de vista de remessa de dividendos para os acionistas, principalmente os estrangeiros. Não se trata de uma “eficiência social”.
Entrega-se uma parcela dos royalties para estados e municípios, para existirem adesões cegas ao modelo completo, graças a só um artigo da lei, o dos royalties.
Colocam-se recursos do Fundo Setorial do Petróleo para professores administrarem cursos e programas sobre o petróleo com viés neoliberal, o que deixa alguns membros da academia felizes.
Quando um campo gigante for descoberto pela estatal, ele deve ser rapidamente retomado pelo órgão regulador, para fazer um mega-leilão de petróleo, com endereço conhecido, para o governo de contadores fechar as contas e para a felicidade do Império.
Depois de 20 anos de aplicação destes princípios, os mais jovens, sem possibilidade de comparação com outro modelo e com a mídia os alienando, estarão dominados. Os poucos conscientes remanescentes, que presenciaram os benefícios do monopólio estatal para um país em desenvolvimento como o Brasil, estarão aposentados ou mortos. Neste momento, o golpe fatal pode ser dado com a privatização da Petrobras.
(Correio da CIdadania)
Escrito por Paulo Metri
Na década de 1990, auge do período neoliberal, Betinho escreveu um capítulo do livro “Em defesa do interesse nacional”, cheio de ironia e bom humor mas, muito sério, intitulado “Como matar uma estatal”. No capítulo, ele descreve todas as ações que um “bom administrador” deveria tomar para atingir seu objetivo de matar a estatal. Nos dias atuais, se ainda estivesse entre nós, ele talvez escrevesse sobre como matar o setor de petróleo. Imaginamos que o novo texto ficaria da seguinte forma:
Cria-se um arcabouço jurídico e institucional, que privilegia a competição, não importando se os agentes econômicos são nacionais ou estrangeiros. O fato de ser nacional não significa que deva ter algum privilégio em qualquer disputa.
O petróleo, o gás natural e os derivados devem ser considerados como simples commodities, que não possuem valor geopolítico e estratégico algum, ou seja, não possuem nenhuma atração além da rentabilidade.
Promovem-se leilões em que um único pagamento inicial pode definir a permanência de empresas produzindo petróleo em uma área durante até 35 anos, pagando parcelas mínimas de royalties e, quando for o caso de altas produções, de “participações especiais”.
Facilita-se ao máximo a entrada de bens e serviços estrangeiros no setor, a pedido das empresas petrolíferas estrangeiras, isentando-os de impostos e taxas, que os nacionais não têm.
A cada oportunidade de fala à imprensa, deve-se realçar que as decisões da diretoria do órgão regulador são técnicas, significando que ele verifica a competição e o desempenho das empresas. Nunca se toma uma decisão com o singelo argumento que ela irá beneficiar a sociedade brasileira. O órgão regulador não é um órgão que deve implantar políticas públicas, nem deve levar em conta nas suas decisões que o Brasil é um país em desenvolvimento, com características culturais específicas e inserido no espaço geopolítico mundial.
Doma-se a estatal do setor, para, amofinada, não participar de leilões e permitir a entrega rápida de blocos para as empresas estrangeiras. Mas ela deve participar de um mínimo de leilões de blocos, para não poderem identificar a estratégia de entrega do subsolo nacional.
Escolhe-se um administrador para regular o setor, que diminua ao máximo o risco dos agentes econômicos, usando a União como colchão amortecedor dos riscos empresariais, garantindo, desta forma, a atratividade dos leilões de áreas petrolíferas e comprometendo a arrecadação de tributos do setor.
Todos os administradores deste modelo devem recriminar, claramente, a fase anterior do monopólio estatal, classificando-a de jurássica e nunca entrando no debate dos benefícios e comprometimentos de cada modelo. Inclusive, só os supostos malefícios do monopólio devem ser denunciados, sistematicamente.
A mídia comercial deve ser “comprada” pelos agentes econômicos do setor, exceto a estatal. Obviamente, as notícias serão filtradas para transmitirem só os interesses das empresas estrangeiras.
Notícias ruins da empresa estatal devem ser privilegiadas para irem para a “mídia vendida”. Quanto mais notícias deste tipo “vazarem“, mais os papéis desta empresa irão cair, o que é desejado. Tudo isto para prepará-la para uma privatização futura, quando ela voltará a ser administrada “tecnicamente” e será eficiente. Não falam, mas se referem a uma “eficiência” sob o ponto de vista de remessa de dividendos para os acionistas, principalmente os estrangeiros. Não se trata de uma “eficiência social”.
Entrega-se uma parcela dos royalties para estados e municípios, para existirem adesões cegas ao modelo completo, graças a só um artigo da lei, o dos royalties.
Colocam-se recursos do Fundo Setorial do Petróleo para professores administrarem cursos e programas sobre o petróleo com viés neoliberal, o que deixa alguns membros da academia felizes.
Quando um campo gigante for descoberto pela estatal, ele deve ser rapidamente retomado pelo órgão regulador, para fazer um mega-leilão de petróleo, com endereço conhecido, para o governo de contadores fechar as contas e para a felicidade do Império.
Depois de 20 anos de aplicação destes princípios, os mais jovens, sem possibilidade de comparação com outro modelo e com a mídia os alienando, estarão dominados. Os poucos conscientes remanescentes, que presenciaram os benefícios do monopólio estatal para um país em desenvolvimento como o Brasil, estarão aposentados ou mortos. Neste momento, o golpe fatal pode ser dado com a privatização da Petrobras.
(Correio da CIdadania)
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