04.10.11 - Cuba
A luta cubana contra o terrorismo de Estado
Nildo Ouriques
Prof. de Economía na UFSC e Presidente do Instituto de Estudos Latino-americanos/IELA
Adital
O primeiro livro sobre Cuba que eu li foi A Ilha, de Fernando Morais, no final da década de setenta. Em perspectiva, aquele livrinho –que na época cumpriu extraordinário papel educativo– hoje seria desnecessário. O acesso a internet, a possibilidade de viajar diretamente a Havana, a presença de intelectuais e dirigentes políticos cubanos em eventos no Brasil, permite conhecimento mais preciso sobre um país que durante nossa longa ditadura –21 anos– seria impossível. A Ilha, na verdade, uma espécie de livro-reportagem, introduzia o leitor no conhecimento das reformas iniciadas pela Revolução Cubana, este fenômeno histórico que é um verdadeiro divisor de águas na política e na consciência mundial e latino-americana. Atualmente, a "imprensa livre” segue em uníssono a campanha contra o sistema político cubano sem mudar um átomo daquele enfoque típico do período chamado de "guerra fria”. Exceto pelo fato de que qualquer pessoa pode ler na edição dominical do Estadão os textos de Yaomy Sánchez, a "dissidente” que publica artigos com todo tipo de críticas ao sistema político cubano (falsas e/ou verdadeiras), um verdadeiro luxo que nenhum proscrito pela ditadura brasileira jamais teve.
Nestes dias, li de "um tirón” o novo livro de Fernando Morais. À exemplo de A Ilha, do qual minha memória guarda apenas uma cálida recordação, "Os últimos soldados da guerra fria. A história dos agentes secretos infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita nos Estados Unidos” é também um livro reportagem, embora de muito maior fôlego, repleto de informação –e pesquisa– acesso privilegiado a documentos de Estado, pitadas de novela, estilo direto e agradável. E mais importante, é também um livro de análise das relações internacionais (sobre o poder dos estados nacionais), sobre o terrorismo de estado e as formas de combatê-lo.
Como de costume, "Os últimos soldados da guerra fria” foi recebido pela crítica brasileira com ceticismo e desaprovação. O jornal Folha de São Paulo sugeriu que se tratava de um livro débil e indicou como prova cabal duas ou três informações errôneas, como se fosse possível realizar um trabalho relativamente longo e importante de pesquisa sem erros. Eu mesmo encontrei que Luis Miguel, o cantor de boleros mexicanos nasceu, segundo Morais, em Porto Rico. Apesar de errônea, qual a importância desta informação para o argumento central da trama? Há, em quase todos os livros sobre América Latina, grandes e pequenos erros, especialmente quando se trata de relatos que envolvem muitos personagens e longos períodos históricos. Recordo a respeito que "A utopia desarmada”, de Jorge Catañeda, foi um livro aclamado com enorme entusiasmo pelo jornalismo nacional e contém –este sim!– graves erros históricos e não poucas falsificações que comprometem derradeiramente seu argumento central. O livro não poderia ser mais desastroso e a crítica recebeu bastante bem, mas obviamente fazia parte da campanha mundial contra o radicalismo de esquerda na América Latina.
De minha parte, creio que Fernando Morais, vacilou na questão central. Seu precioso relato sobre os agentes cubanos infiltrados nas organizações terroristas –ele as denomina de "extrema direita”– que se proliferam em Miami é, de fato, um capítulo heróico de pessoas dispostas a arriscar a própria vida na defesa de seu povo. É também uma demonstração inequívoca de que os cubanos sempre atuaram de maneira inflexível contra qualquer ato terrorista e não mediram esforços para combatê-lo mesmo em território estadunidense. Contudo, ainda com a abundância de provas e o conhecimento que qualquer latino-americano medianamente informado possui sobre a importância de Miami para a chamada "comunidade latina” nos Estados Unidos –e sua infinita cumplicidade para receber não somente terroristas, mas também os piores ditadores do continente como "exilados”– Fernando Morais não concluiu com uma obviedade: ao contrário da propaganda que indica os Estados Unidos como vítima do terrorismo, a potência imperialista é, na verdade, o maior patrocinador do terrorismo de estado, muitas vezes mais letal e poderoso que as chamadas "organizações terroristas” que eles se empenham, algumas vezes, em combater.
Neste contexto, os agentes secretos infiltrados pela inteligência cubana nas organizações terroristas que se proliferaram na década de sessenta e seguem operando nos Estados Unidos, especialmente em Miami, não representa como de certa forma pretende Fernando Morais, o epílogo da "guerra fria”, mas lamentavelmente, mais um capítulo da ofensiva estadunidense pela destruição da independência e soberania de Cuba. De fato, predominou durante muito tempo na análise das relações internacionais o "paradigma” da Guerra Fria que, em muitos casos, ocultava em grande medida temas mais importantes e duradouros como a dependência e, especialmente, o colonialismo. Ora, é fácil perceber que mesmo tendo desaparecido o mundo criado pela chamada "Guerra Fria”, a ofensiva estadunidense contra Cuba permanece mais forte do que nunca antes. Caso fosse um capítulo a mais naquela trama, por que a ofensiva contra Cuba ainda não desapareceu se a URSS sucumbiu? Ademais, exceto durante a conhecida "crise dos mísseis”, jamais a Revolução Cubana representou uma ameaça militar para os Estados Unidos. Cuba nunca foi, de fato, nem mesmo na cabeça do mais fanático anticomunista, uma ameaça à segurança da potência imperialista. Portanto, ao inscrever a ofensiva permanente dos Estados Unidos contra Cuba no contexto da chamada "Guerra Fria”, Fernando Morais permite, ainda que involuntariamente, o reforço do enfoque liberal dominante no Brasil sobre as relações entre os Estados Unidos e os países latino-americanos. Segundo este enfoque, os Estados Unidos aparecem como defensores da "democracia e dos mercados” e o regime cubano não passa de um anacronismo de um período que não mais existe, razão pela qual precisa se reformar na direção indicada por Washington.
A reflexão crítica sobre o terrorismo de estado jamais foi admitida como programa para as ciências sociais no Brasil. Com o fim da ditadura na metade da década de oitenta, os liberais impuseram o tema da democracia e os críticos – socialistas ou não – aceitaram a pauta sem reparos. Portanto, a tematização do terrorismo de estado parecia obsoleta, sendo também extinta na análise das relações internacionais. Contudo, importantes cientistas sociais em outros países latino-americanos seguiram estudando o terrorismo de estado – caso da Colômbia, especialmente – e também dos Estados Unidos.
Caso os Estados Unidos estivessem realmente interessados no efetivo combate a toda e qualquer modalidade de terrorismo, deveriam condecorar os agentes cubanos, mas, ao contrário, cinco foram condenados a longas penas e, dois deles, Gerardo Hernández Nordelo e Ramón Labañino, à prisão perpétua. No momento em que escrevo esta crônica, René González, que no dia 7 de outubro será liberado após permanecer 13 anos na cadeia, pensava em regressar imediatamente para Cuba. Contudo, sua defesa acaba de ser comunicado pela juíza encarregada do caso que ele deverá permanecer mais três anos nos Estados Unidos em "liberdade supervisionada”, decisão que constitui uma penalidade adicional não prevista e rigorosamente ilegal. A análise deste juízo oferece pistas importantes sobre o colapso do sistema jurídico estadunidense, especialmente golpeado durante os dois mandatos de George Bush. É uma pena que Morais não nos forneceu mais informação sobre as aberrações jurídicas que orientaram este "julgamento” e que, por isso mesmo, revelam o que sobrou do sistema jurídico após a ofensiva republicana contra os tribunais nos EUA. Este mesmo sistema de justiça continua em frangalhos e, em aspectos decisivos, é bastante clara a completa submissão da justiça à razão de estado como se viu no "julgamento” realizado nas cortes de Miami. Lamentavelmente não há indícios de que Barack Obama esteja dando passos firmes em sua reconstrução. Como admitir, por exemplo, que uma figura como Posada Carriles, terrorista confesso, goze de tanta proteção e liberdade dentro dos Estados Unidos? Como admitir a transmissão da Rádio e TV Martí, criada no governo de Ronald Reagan, em completa violação da legislação estadunidense e que, não obstante, funciona plenamente a partir do ridículo mecanismo de balões dirigíveis na Florida, permitida pelo Departamento de Estado?
Eu tenho clareza que o estudo sobre o terrorismo de estado não constitui uma hipótese aceitável para a bem comportada ciência social universitária. Como nós sabemos, no Brasil a categoria "imperialismo” deixou de ser utilizada na análise das relações internacionais. Ainda assim, do impecável jornalismo de Robert Fisk às sólidas interpretações de Noam Chomsky, o tema do terrorismo de estado é central para todo aquele interessado na política externa estadunidense e a relação imperialista que mantém com o continente latino-americano. Em nosso país, a linha editorial dominante –assumida como ordem unida para todo aquele que pretende freqüentar a grande mídia– eliminou sem constrangimento algum os estudos sobre o terrorismo de estado e, em conseqüência, foca quase que exclusivamente, como recomenda a razão de estado, somente o terrorismo de organizações políticas. Ninguém pode desconhecer a capacidade de destruição de uma organização como a Al Qaeda, obviamente. Mas poderemos ignorar que a capacidade de destruição de um Estado é muitas vezes superior ao de qualquer organização terrorista? Acaso podemos ignorar que os Estados Unidos praticam em larga escala o terrorismo de estado?
Talvez Fernando Morais tenha preferido deixar para o leitor concluir que, ao permitir a livre atuação de organizações de "extrema direita” em território estadunidense, a potência imperialista –especialmente em Miami– não pode ser considerada senão como santuário de terroristas. Morais revela com abundância de informação como as organizações situadas em Miami e composta majoritariamente por cubanos exilados, violam sistematicamente as leis estadunidenses e a soberania cubana com ações terroristas contra Cuba de maneira desinibida e com tácita permissão das autoridades políticas, dos órgãos de segurança e do mundo partidário estadunidense (republicanos e/ou democratas).
De qualquer forma, minha crítica não ignora a notável contribuição que uma vez mais Fernando Morais oferece aos brasileiros para entender algo sobre a realidade latino-americana. A ignorância nacional sobre a realidade cubana é parte integrante de nossa ignorância sobre temas, dramas e desafios que também são nossos. Além das críticas rasteiras, estou seguro que conspirará contra o livro de Fernando Morais o silêncio, esta eficaz arma da classe dominante brasileira e de nossa intelectualidade educada contra qualquer tentativa de latino-americanização de nossa nacionalidade.
A imprensa brasileira –que dúvida pode existir!– desqualificará este importante livro por duas vias conhecidas. A primeira é desmerecê-lo, como alimento para a ignorância brasileira sobre a Revolução Cubana e sua luta contra qualquer modalidade de terrorismo, especialmente o terrorismo estatal estadunidense. A segunda, provavelmente mais eficaz, é a produção de um silencio sobre o livro como se ele jamais tivesse existido. Não seria, certamente, a primeira vez que esta política é colocada em prática. O silêncio também conspirou contra o livro de Florestan Fernandes sobre a Revolução Cubana. Vânia Bambirra também escreveu um luminoso livro que sequer possui tradução em português, embora tenha sido editado em vários países da região e em Portugal. Enfim, o desprezo do "mundo culto” brasileiro pela política cubana revela não somente um reacionarismo deplorável, mas, sobretudo, uma ignorância desmedida.
É claro que a luta de Cuba por manter-se soberana e independente é um péssimo exemplo para a elite brasileira, pois esta se especializou em vender o país no mercado mundial com a mesma serenidade com que manda seus filhos adolescentes à Disneylândia. Portanto, a saga de um país pequeno que se revela gigante nas relações internacionais, capaz de desafiar o poder imperialista e indicar ao mundo que é tão necessário quanto possível atuar no conflito das nações com política própria, zelando pela soberania e autodeterminação, não poderia senão receber como resposta o silêncio da elite brasileira. Em poucas palavras: a luta cubana não existe, simplesmente.
Minha esperança é que a leitura de Os últimos soldados da guerra fria desperte em milhares de brasileiros o desejo de buscar de maneira permanente mais informação sobre o destino de cinco homens cubanos de especial grandeza. Nós poderemos perceber –o relato de Fernando Morais deixa muito claro este ponto– que precisamente gente aparentemente comum pode atuar de maneira íntegra e decidida mesmo no piores momentos de suas vidas pessoais e em circunstancias bastante adversas. Não dever ser fácil para qualquer pessoa –como não foi para nenhum dos cinco agentes cubanos– manter-se firme diante das piores situações e renunciar –uma vez descobertos e presos nos Estados Unidos– a qualquer acordo com as autoridades estadunidenses. Alguns agentes sucumbiram –reconheceram que pertenciam a Rede Vespa e que, portanto, eram efetivamente espiões– entraram nos "programas de delação premiada e de proteção a testemunhas” e permanecem até hoje livres nos Estados Unidos.
Outros cinco, a fim de manter firme suas convicções mesmo conscientes que poderiam, por razoes de estado, terminar seus dias numa prisão, longe de suas mulheres, filhos, pais e, também, longe de sua cultura e de seu país, negaram nos tribunais qualquer vínculo com espionagem. Deve parecer muito difícil para um brasileiro médio, doutrinado na adesão anedótica da defesa da pátria, compreender as razoes que levam pessoas com vidas muito semelhantes as nossas, a tomar tão decidida opção. No mundo atual parece ser que não existe mais motivo para este tipo de comportamento e tudo que restaria a qualquer pessoa racional que se importa com política seria, portanto, o elogio da cautela e a condenação de qualquer heroísmo, mesmo quando este não represente, na verdade, mais que a defesa de nossas próprias convicções.
O estado cubano –e os cubanos de maneira geral– destinam aos agentes infiltrados nas organizações terroristas de Miami o tratamento de "heróis”. Não creio tratar-se de exagero. A trama política reconstruída pelas qualidades literárias de Fernando Morais revela o quanto é difícil para um homem cubano simples, a nobre tarefa de defender seu povo dos ataques que todos os dias, durante os últimos 40 anos, são planejados e executados pelos terroristas confortavelmente instalados em Miami, chamados orwelianamente de "exílio cubano” pela imprensa estadunidense. Neste caso, os heróis cubanos são homens que possuem uma vida austera, amam, choram, sofrem e se divertem, virtudes, que como recorda Morais, estão bem distantes do colonialismo hollywoodiano plantado em nossa cultura pelo glamour do "agente 007”, cuja função política e estética é a eliminação do sacrifício por uma causa política.
O caso dos "cinco heróis” que Cuba reclama imediata e justa liberdade é uma luta que não terminou. Na verdade, somente poderá ter fim quando desaparecer a política estadunidense contra a autodeterminação e soberania cubana. Neste contexto, enganam-se aqueles que comodamente supõem que esta luta é exclusivamente daqueles que optaram por este caminho. Aquele heroísmo e aquele drama –ambos– dizem respeito a todos nós.
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(Adital)
terça-feira, 4 de outubro de 2011
EUA
América cruel
Tem havido muitos sinais, recentemente, de que os EUA estão mergulhando fundo num padrão de crueldade. É difícil dizer por que uma coisa dessas está ocorrendo, mas parece que isso tem a ver com uma fé crescente na força como a solução de quase todos os problemas, seja em casa ou fora. O entusiasmo por matar é um sintoma inequívoco de crueldade. Isso é especialmente perturbador quando não são apenas os quadros do governo, mas pessoas comuns que se engajam nessas efusões. O artigo é de Jonathan Schell.
Jonathan Schell - The Nation
Os debates da campanha presidencial são desenhados para dar aos candidatos uma oportunidade deles se expressarem aos eleitores. Mas as platéias, também, algumas vezes tornam seus pontos de vista conhecidos. Isso aconteceu nos debates republicanos ocorridos entre 7 e 12 de setembro, em dois episódios que foram bastante noticiados. No da NBC, do dia 7, Brian Williams perguntou ao governador do Texas, Rick Perry, se em algum momento durante seu mandato, no qual foram executadas 234 pessoas condenadas à pena de morte (que agora subiu para 235) ele “lutou para conseguir dormir à noite, com a ideia de que algum desses condenados pode ter sido inocente”.
Perry tem dormido bem. O Texas, ele disse, tem um sistema judicial muito “bom”. Então, partiu para um certo tipo de desafio. Disse ele: “se você vier ao nosso estado...e matar...um de seus cidadãos...você será executado”. A plateia aplaudiu entusiasticamente.
Williams, claramente surpreso com a manifestação, seguiu em frente perguntando a Perry o que ele tinha feito para que a sua resposta tivesse levantado aplausos. O governador foi impassível e repetiu o seu desafio: “Nossos cidadãos...tornaram claro o motivo, e eles não querem cometer esses crimes contra os nossos cidadãos, e se você o fizer, enfrentará a justiça final”.
Que esses não eram os únicos sentimentos possíveis em relação a execuções penais tornou-se claro rapidamente depois disso. Um movimento de massas, não apenas nos EUA mas nos países ao redor do mundo, levantaram-se, sem sucesso, contra a execução no Estado da Georgia, de Troy Davis, cuja condenação por assassinato há vinte anos tinha sido posta em dúvida por nova evidência, inclusive a retratação de sete de nove testemunhas. Uma petição assinada por mais de 600 mil pessoas foi apresentada à comissão de execução penal, que deixou a execução seguir adiante.
No debate republicano do dia 12, houve outra expressão pública de entusiasmo pela perda da vida no Texas. Wolf Blitzer, da CNN perguntou ao deputado do Texas, Ron Paul, que militou contra o projeto para a saúde apresentado pelo Presidente Obama, qual seria a resposta médica que ele daria se um jovem que tivesse decidido não contratar um plano de saúde entrasse em coma.
Paul respondeu: “É a isso que a liberdade diz respeito: assumir seus próprios riscos”. Ele parecia estar dizendo que se o jovem morresse isso seria problema dele.
Houve palmas na plateia.
Blitzer pressionou: “Mas deputado, você está dizendo que a sociedade deveria deixá-lo morrer?”. Grita alguém na plateia: “Sim!”. E a multidão segue batendo palmas, em apoio.
Uma das características que esses eventos têm em comum é a crueldade. A crueldade é a prima irmã da injustiça, ainda que seja diferente. A injustiça e seu oposto, a justiça – talvez o padrão mais comumente utilizado para julgar a saúde de um corpo político – são critérios por excelência, e se aplicam acima de tudo a sistemas e suas instituições. A crueldade e seus opostos, gentileza, compaixão e decência, são mais pessoais. São qualidades pessoais que têm, no entanto, consequências políticas. Um senso de decência de um país se situa acima de sua política, fiscalizando e estabelecendo limites frente aos abusos. Uma sociedade injusta deve reformar suas leis e instituições. Uma sociedade cruel deve reformar a si mesma.
Tem havido muitos sinais, recentemente, de que os EUA tem mergulhado fundo num padrão de crueldade. É difícil dizer por que uma coisa dessas está ocorrendo, mas parece que isso tem a ver com uma fé crescente na força como a solução de quase todos os problemas, seja em casa ou fora. O entusiasmo por matar é um sintoma inequívoco de crueldade. Ele também apareceu depois da morte de Osama Bin Laden, que mobilizou uma estrondosa celebração ao redor do país. Uma coisa é acreditar na necessidade infeliz de matar alguém; outra é revelar isso. Isso é especialmente perturbador quando não são apenas os quadros do governo, mas pessoas comuns que se engajam nessas efusões.
Em qualquer involução no sentido da barbárie pode-se estabelecer dois estágios. Primeiro, os demônios são apresentados – testados, se houver. Segundo, vem a reação – seja a indignação e a rejeição ou outra aceitação [da indicação do demônio], até mesmo o prazer com a coisa. A escolha pode indicar a diferença entre um país que está restaurando a decência ou um outro, que está afundando num pesadelo. Foi um dia escuro para os Estado Unidos aquele em que a administração Bush ordenou secretamente a tortura de suspeitos de terrorismo. Nesse dia, a civilização dos EUA caiu num buraco. Mas afundou ainda mais baixo quando, tendo os fatos dos crimes se tornado conhecidos, o ex-presidente Bush e o ex vice-presidente Cheney abraçaram publicamente o mal feito, como o fizeram em sua recente tour de divulgação de seus respectivos livros. À impunidade que já desfrutaram eles acrescentaram a insolência, como se desafiando a sociedade a responder ou a, de outra parte, entrar em cumplicidade tácita com seus abusos.
E ainda assim houve pouca reação. Numa outra afundada no buraco, o Presidente Obama, mesmo tendo ordenado o fim da tortura, decidiu na direção contrária, ao impedir qualquer responsabilização pelas patifarias, e de fato afastou qualquer punição em geral. Ele sequer buscou, digamos, algo equivalente a uma Comissão da Verdade como ocorreu na África do Sul, após o fim do apartheid.
Há muitos outros sinais de que o caminho ladeira abaixo está bem estabelecido. Nossa justiça criminal busca a injustiça. A pena de morte desafia padrões de decência aceitos em qualquer país civilizado. O encarceramento de mais de dois milhões de americanos – a maior proporção per capita no mundo – é um reflexo assustador de um país que parece saber que não há outro remédio para as doenças sociais que não a punição. As condições das prisões são temerosas. Atul Gawande, da The New Yorker, apresentou um quadro vasto e terrível do sistema prisional, com técnicas de isolamento que, muitos acreditam, equivalem à tortura. Os prisioneiros podem ser mantidos em solitárias por anos, em pequenas celas, sem janelas, nas quais permanecem por 23 horas por dia.
Muitos prisioneiros – assim como o senador John McCain, que foi mantido prisioneiro durante a Guerra no Vietnã do Norte – reportaram que tamanho isolamento é mais angustiante e destrutivo do que a tortura física. “Isso quebra o nosso espírito e enfraquece a nossa resistência mais efetivamente do que qualquer outra forma de mau trato”, disse McCain. Em muitos casos, o confinamento solitário leva à desintegração mental. Um artigo no Jornal da Academia Americana de Psiquiatria e Direito diz que “o confinamento da solitária ...pode ser tão estressante clinicamente como a tortura física”. A diferença entre uma jaula e uma solitária pode ser maior do que a diferença entre a liberdade e a jaula, mesmo que essa punição possa ser imposta apenas administrativamente, por diretores de presídios.
Em 2010 mais de 25 mil detentos foram mantidos nessas condições.
Um deles – confinado não no sistema de prisão regular, mas em instalações militares – é Bradley Manning, o recruta de 23 anos, suspeito de vazar documentos para o WikiLeaks. Embora prisioneiro modelo, ele foi mantido por anos numa prisão de segurança máxima, enquanto era sujeito ao confinamento de 23 horas, impedido de se exercitar, sob vigilância permanente e, por um tempo, mantido nu. Na época, ele não tinha sido acusado de crime algum.
Gawande estabelece uma conexão entre o abuso dos estadunidenses em casa e a tortura de suspeitos estrangeiros na “guerra contra o terror”. “Com pouca preocupação ou resistência”, escreve, “temos despachado milhares de nossos próprios cidadãos para condições que horrorizariam nossa Suprema Corte há um século. Nossa vontade de nos desfazer desses padrões para os prisioneiros americanos tornou fácil o descarte das Convenções de Genebra proibindo tratamento similar de prisioneiros de guerra estrangeiros”.
Também se pode estabelecer uma conexão entre esses abusos e as atuais diretrizes das decisões orçamentárias, nas quais, como na prontidão para denegar assistência em saúde aos moribundos, uma impiedosa vontade de se desfazer das pessoas em sofrimento de qualquer ajuda que possam receber é evidente. A lista de cortes, alcançados ou propostos na agenda da direita é longa demais para enumerar, mas exemplos recentes, incluindo a assombrosa obstrução de assistência às vítimas do recente furacão Irene e da tempestade Lee, além de outros programas, foram cortados; a oposição a que se amplie o seguro desemprego, a derrota do Dream Act, o qual poderia dar às crianças dos imigrantes um caminho para a cidadania, a oposição ao gasto do estado com o programa de assistência em saúde para as crianças (S-CHIP, na sigla em inglês), assim como do Head Start, e por aí vai. Parece que ninguém é infeliz o suficiente para ser isento ou isenta do corte orçamentário, ao passo que, ao mesmo tempo, ninguém é feliz o suficiente para ser inelegível para ter corte nos impostos. Decisões orçamentárias não envolvem pena de morte, embora para muitos elas sejam questão de vida ou de morte.
A crueldade de uma sociedade não pode ser quantificada mais do que o pode a sua reserva de decência. Nem tampouco pode ser legislada, embora ambas possam estar manifestas na legislação. Por tudo isso, não pode haver dúvidas de que decisões básicas, que antecedem qualquer lei e são provavelmente mais importantes, são silenciosamente tomadas nos corações e mentes de milhões. Se elas seguem um caminho, um movimento de milhões, de repente, aparentemente do nada, aparece para protestar fortemente contra uma execução injusta. Quando vão pelo outro caminho, você acorda um dia para ouvir, com um frio na espinha, uma sala cheia de gente comemorando o assassinato de centenas de seus concidadãos.
Jonathan Schell é correspondente do The Nation, membro Doris Shaffer no The Nation Institute e dá um curso sobre o dilema nuclear na Universidade Yale. É autor de The Unconquerable World: Power, Nonviolence and the Will of the People, [O Mundo Inconquistável: Poder, Não-Violência e a Vontade do Povo] - uma análise do poder popular – e de The Seventh Decade: The New Shape of Nuclear Danger [A Década de Setenta: A Nova Forma do Perigo Nuclear].
Tradução: Katarina Peixoto
(carta Maior)
Tem havido muitos sinais, recentemente, de que os EUA estão mergulhando fundo num padrão de crueldade. É difícil dizer por que uma coisa dessas está ocorrendo, mas parece que isso tem a ver com uma fé crescente na força como a solução de quase todos os problemas, seja em casa ou fora. O entusiasmo por matar é um sintoma inequívoco de crueldade. Isso é especialmente perturbador quando não são apenas os quadros do governo, mas pessoas comuns que se engajam nessas efusões. O artigo é de Jonathan Schell.
Jonathan Schell - The Nation
Os debates da campanha presidencial são desenhados para dar aos candidatos uma oportunidade deles se expressarem aos eleitores. Mas as platéias, também, algumas vezes tornam seus pontos de vista conhecidos. Isso aconteceu nos debates republicanos ocorridos entre 7 e 12 de setembro, em dois episódios que foram bastante noticiados. No da NBC, do dia 7, Brian Williams perguntou ao governador do Texas, Rick Perry, se em algum momento durante seu mandato, no qual foram executadas 234 pessoas condenadas à pena de morte (que agora subiu para 235) ele “lutou para conseguir dormir à noite, com a ideia de que algum desses condenados pode ter sido inocente”.
Perry tem dormido bem. O Texas, ele disse, tem um sistema judicial muito “bom”. Então, partiu para um certo tipo de desafio. Disse ele: “se você vier ao nosso estado...e matar...um de seus cidadãos...você será executado”. A plateia aplaudiu entusiasticamente.
Williams, claramente surpreso com a manifestação, seguiu em frente perguntando a Perry o que ele tinha feito para que a sua resposta tivesse levantado aplausos. O governador foi impassível e repetiu o seu desafio: “Nossos cidadãos...tornaram claro o motivo, e eles não querem cometer esses crimes contra os nossos cidadãos, e se você o fizer, enfrentará a justiça final”.
Que esses não eram os únicos sentimentos possíveis em relação a execuções penais tornou-se claro rapidamente depois disso. Um movimento de massas, não apenas nos EUA mas nos países ao redor do mundo, levantaram-se, sem sucesso, contra a execução no Estado da Georgia, de Troy Davis, cuja condenação por assassinato há vinte anos tinha sido posta em dúvida por nova evidência, inclusive a retratação de sete de nove testemunhas. Uma petição assinada por mais de 600 mil pessoas foi apresentada à comissão de execução penal, que deixou a execução seguir adiante.
No debate republicano do dia 12, houve outra expressão pública de entusiasmo pela perda da vida no Texas. Wolf Blitzer, da CNN perguntou ao deputado do Texas, Ron Paul, que militou contra o projeto para a saúde apresentado pelo Presidente Obama, qual seria a resposta médica que ele daria se um jovem que tivesse decidido não contratar um plano de saúde entrasse em coma.
Paul respondeu: “É a isso que a liberdade diz respeito: assumir seus próprios riscos”. Ele parecia estar dizendo que se o jovem morresse isso seria problema dele.
Houve palmas na plateia.
Blitzer pressionou: “Mas deputado, você está dizendo que a sociedade deveria deixá-lo morrer?”. Grita alguém na plateia: “Sim!”. E a multidão segue batendo palmas, em apoio.
Uma das características que esses eventos têm em comum é a crueldade. A crueldade é a prima irmã da injustiça, ainda que seja diferente. A injustiça e seu oposto, a justiça – talvez o padrão mais comumente utilizado para julgar a saúde de um corpo político – são critérios por excelência, e se aplicam acima de tudo a sistemas e suas instituições. A crueldade e seus opostos, gentileza, compaixão e decência, são mais pessoais. São qualidades pessoais que têm, no entanto, consequências políticas. Um senso de decência de um país se situa acima de sua política, fiscalizando e estabelecendo limites frente aos abusos. Uma sociedade injusta deve reformar suas leis e instituições. Uma sociedade cruel deve reformar a si mesma.
Tem havido muitos sinais, recentemente, de que os EUA tem mergulhado fundo num padrão de crueldade. É difícil dizer por que uma coisa dessas está ocorrendo, mas parece que isso tem a ver com uma fé crescente na força como a solução de quase todos os problemas, seja em casa ou fora. O entusiasmo por matar é um sintoma inequívoco de crueldade. Ele também apareceu depois da morte de Osama Bin Laden, que mobilizou uma estrondosa celebração ao redor do país. Uma coisa é acreditar na necessidade infeliz de matar alguém; outra é revelar isso. Isso é especialmente perturbador quando não são apenas os quadros do governo, mas pessoas comuns que se engajam nessas efusões.
Em qualquer involução no sentido da barbárie pode-se estabelecer dois estágios. Primeiro, os demônios são apresentados – testados, se houver. Segundo, vem a reação – seja a indignação e a rejeição ou outra aceitação [da indicação do demônio], até mesmo o prazer com a coisa. A escolha pode indicar a diferença entre um país que está restaurando a decência ou um outro, que está afundando num pesadelo. Foi um dia escuro para os Estado Unidos aquele em que a administração Bush ordenou secretamente a tortura de suspeitos de terrorismo. Nesse dia, a civilização dos EUA caiu num buraco. Mas afundou ainda mais baixo quando, tendo os fatos dos crimes se tornado conhecidos, o ex-presidente Bush e o ex vice-presidente Cheney abraçaram publicamente o mal feito, como o fizeram em sua recente tour de divulgação de seus respectivos livros. À impunidade que já desfrutaram eles acrescentaram a insolência, como se desafiando a sociedade a responder ou a, de outra parte, entrar em cumplicidade tácita com seus abusos.
E ainda assim houve pouca reação. Numa outra afundada no buraco, o Presidente Obama, mesmo tendo ordenado o fim da tortura, decidiu na direção contrária, ao impedir qualquer responsabilização pelas patifarias, e de fato afastou qualquer punição em geral. Ele sequer buscou, digamos, algo equivalente a uma Comissão da Verdade como ocorreu na África do Sul, após o fim do apartheid.
Há muitos outros sinais de que o caminho ladeira abaixo está bem estabelecido. Nossa justiça criminal busca a injustiça. A pena de morte desafia padrões de decência aceitos em qualquer país civilizado. O encarceramento de mais de dois milhões de americanos – a maior proporção per capita no mundo – é um reflexo assustador de um país que parece saber que não há outro remédio para as doenças sociais que não a punição. As condições das prisões são temerosas. Atul Gawande, da The New Yorker, apresentou um quadro vasto e terrível do sistema prisional, com técnicas de isolamento que, muitos acreditam, equivalem à tortura. Os prisioneiros podem ser mantidos em solitárias por anos, em pequenas celas, sem janelas, nas quais permanecem por 23 horas por dia.
Muitos prisioneiros – assim como o senador John McCain, que foi mantido prisioneiro durante a Guerra no Vietnã do Norte – reportaram que tamanho isolamento é mais angustiante e destrutivo do que a tortura física. “Isso quebra o nosso espírito e enfraquece a nossa resistência mais efetivamente do que qualquer outra forma de mau trato”, disse McCain. Em muitos casos, o confinamento solitário leva à desintegração mental. Um artigo no Jornal da Academia Americana de Psiquiatria e Direito diz que “o confinamento da solitária ...pode ser tão estressante clinicamente como a tortura física”. A diferença entre uma jaula e uma solitária pode ser maior do que a diferença entre a liberdade e a jaula, mesmo que essa punição possa ser imposta apenas administrativamente, por diretores de presídios.
Em 2010 mais de 25 mil detentos foram mantidos nessas condições.
Um deles – confinado não no sistema de prisão regular, mas em instalações militares – é Bradley Manning, o recruta de 23 anos, suspeito de vazar documentos para o WikiLeaks. Embora prisioneiro modelo, ele foi mantido por anos numa prisão de segurança máxima, enquanto era sujeito ao confinamento de 23 horas, impedido de se exercitar, sob vigilância permanente e, por um tempo, mantido nu. Na época, ele não tinha sido acusado de crime algum.
Gawande estabelece uma conexão entre o abuso dos estadunidenses em casa e a tortura de suspeitos estrangeiros na “guerra contra o terror”. “Com pouca preocupação ou resistência”, escreve, “temos despachado milhares de nossos próprios cidadãos para condições que horrorizariam nossa Suprema Corte há um século. Nossa vontade de nos desfazer desses padrões para os prisioneiros americanos tornou fácil o descarte das Convenções de Genebra proibindo tratamento similar de prisioneiros de guerra estrangeiros”.
Também se pode estabelecer uma conexão entre esses abusos e as atuais diretrizes das decisões orçamentárias, nas quais, como na prontidão para denegar assistência em saúde aos moribundos, uma impiedosa vontade de se desfazer das pessoas em sofrimento de qualquer ajuda que possam receber é evidente. A lista de cortes, alcançados ou propostos na agenda da direita é longa demais para enumerar, mas exemplos recentes, incluindo a assombrosa obstrução de assistência às vítimas do recente furacão Irene e da tempestade Lee, além de outros programas, foram cortados; a oposição a que se amplie o seguro desemprego, a derrota do Dream Act, o qual poderia dar às crianças dos imigrantes um caminho para a cidadania, a oposição ao gasto do estado com o programa de assistência em saúde para as crianças (S-CHIP, na sigla em inglês), assim como do Head Start, e por aí vai. Parece que ninguém é infeliz o suficiente para ser isento ou isenta do corte orçamentário, ao passo que, ao mesmo tempo, ninguém é feliz o suficiente para ser inelegível para ter corte nos impostos. Decisões orçamentárias não envolvem pena de morte, embora para muitos elas sejam questão de vida ou de morte.
A crueldade de uma sociedade não pode ser quantificada mais do que o pode a sua reserva de decência. Nem tampouco pode ser legislada, embora ambas possam estar manifestas na legislação. Por tudo isso, não pode haver dúvidas de que decisões básicas, que antecedem qualquer lei e são provavelmente mais importantes, são silenciosamente tomadas nos corações e mentes de milhões. Se elas seguem um caminho, um movimento de milhões, de repente, aparentemente do nada, aparece para protestar fortemente contra uma execução injusta. Quando vão pelo outro caminho, você acorda um dia para ouvir, com um frio na espinha, uma sala cheia de gente comemorando o assassinato de centenas de seus concidadãos.
Jonathan Schell é correspondente do The Nation, membro Doris Shaffer no The Nation Institute e dá um curso sobre o dilema nuclear na Universidade Yale. É autor de The Unconquerable World: Power, Nonviolence and the Will of the People, [O Mundo Inconquistável: Poder, Não-Violência e a Vontade do Povo] - uma análise do poder popular – e de The Seventh Decade: The New Shape of Nuclear Danger [A Década de Setenta: A Nova Forma do Perigo Nuclear].
Tradução: Katarina Peixoto
(carta Maior)
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Histórias...
Mais uma do camarada Koba!
A primeira proposta séria de reunificação das Alemanhas partiu de quem? Do camarada Koba, aliás, Josef Stalin, imaginem! (Ossip Koba era o nome de guerra do camarada nos tempos de clandestinidade no Partido Comunista). Stalin propunha às potências ocidentais a criação de uma só Alemanha - país que, neste dia 3, celebra os 21 anos de reunificação.
Flávio Aguiar
3 de outubro é a data comemorativa da reunificação das Alemanhas divididas no pós-guerra. Há exatos 21 anos houve essa junção, ou, como muitos dizem, a anexação da Alemanha Oriental pela Ocidental, depois da derrota da União Soviética e a derrocada dos regimes comunistas no leste europeu.
A reunificação, portanto, seria um processo ainda em curso, e que levará anos e gerações. De qualquer modo, 3 de outubro é um dia de festa na Alemanha e particularmente em Berlim, a cidade destruída pela guerra e depois fraturada pelo Muro, esse grande equívoco histórico do regime comunista.
Seja como for, há um dado interessante a ser lembrado. A primeira Alemanha a se constituir legalmente foi a Ocidental. A criação da Alemanha Oriental foi uma reposta a este gesto “separatista”, ambas gestadas ainda na década de 40.
A primeira proposta séria de reunificação das Alemanhas partiu de quem? Do camarada Koba, aliás, Josef Stalin, imaginem! (Ossip Koba era o nome de guerra do camarada nos tempos de clandestinidade no Partido Comunista). Foi feita num documento chamado de “Nota de Março”, em 1952, através do chanceler Andrei Gromyko. Stain propunha às potências ocidentais a criação de uma só Alemanha, unificada e desmilitarizada.
Ao longo do ano a proposta acabou rejeitada, à luz da doutrina mantida, sobretudo, pelos Estados Unidos a partir de um documento identificado pela sigla NSCR 68 (National Security Council Report 68), de 1950 (ainda ao tempo de Truman como presidente), mas também à luz do medo atávico da França e da Inglaterra de uma Alemanha unida. Também colaborou para a rejeição a avaliação de que uma Alemanha unificada, desmilitarizada e neutra na Guerra Fria que já galopava pelo mundo acabaria sendo inevitavelmente atraída para a órbita soviética.
A proposta de Stalin colocou a política norte-americana diante de um dilema. A primeira face do dilema era a de que ele poderia estar fazendo uma mera jogada para a platéia mundial, e assim encurralar os Estados Unidos num canto do ringue, além de caracteriza-los como “inimigos eternos” da unidade alemã. Stalin propunha uma Alemanha, livre, com liberdade de imprensa, pluripartidarismo (!), eleições livres, liberdade religiosa, etc.
Também propunha que um ano depois da adoção da proposta as potências vencedoras da Segunda Guerra (o Brasil também foi um vencedor da Segunda Guerra, mas não era uma potência...) deveriam retirar seus exércitos do território alemão. Além disso, a Alemanha deveria ter acesso irrestrito ao mercado internacional – e não deveria ter alianças militares.
A segunda face, porém, foi trazida à baila por James Warburg, banqueiro norte-americano nascido na Alemanha, num depoimento perante o senado em Washington, ainda no mês de março, logo após Gromyko ter entregado a famosa nota aos representantes das potências ocidentais. Warburg, que fora conselheiro de Roosevelt (embora se afastasse dele por causa de certas medidas do New Deal...) e era membro do Conselho de Relações Exteriores, afirmou que uma das dúvidas do governo norte-americano era a de que Stalin poderia muito bem não estar blefando ao fazer a proposta.
Isso poderia trazer muito mais incômodo para a posição norte-americana que, na época, à luz do NSCR 68, privilegiava a consolidação das posições militares ao invés da ação diplomática. A principal objeção norte-americana à proposta era a de que uma Alemanha livre deveria ter a liberdade de integrar a OTAN, cuja criação datava de 1949, e fora acelerada a partir de 1950 com a deflagração da Guerra da Coréia.
A proposta também não teve acolhida na Alemanha Ocidental (criada em maio de 1949, meses antes da criação da Alemanha Oriental, que foi uma retaliação), pois a orientação do então chanceler Konrad Adenauer (democrata-cristão) era privilegiar a integração daquela ao Ocidente. Durante 1950 houve uma troca de mensagens cada vez mais irritadas entre a União Soviética e as potências ocidentais, até que finalmente a proposta foi considerada definitivamente fora do jogo.
Noam Chomsky é citado como um dos que considera que Stalin provavelmente não estava blefando com sua proposta. É muito possível que não estivesse mesmo, pois um estado-tampão (como ficou sendo, mal comparando, o Uruguai entre o Brasil e a Argentina no século XIX...) neutro entre a órbita soviética e o ocidente seria melhor do que a permanente linha de confronto entre as duas Alemanhas. Stalin não deixava de ter razão, como muito bem demonstrou a crise de 1961, quando quase eclodiu um confronto armado entre blindados soviéticos e norte-americanos no ponto conhecido como “Checkpoint Charlie”, cujas conseqüências seriam terríveis em escala mundial).
Até hoje se debate se a adoção da proposta de Stalin teria sido melhor ou não. Vá se saber! Mais uma do camarada Koba!
Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.
(Carta Maior)
A primeira proposta séria de reunificação das Alemanhas partiu de quem? Do camarada Koba, aliás, Josef Stalin, imaginem! (Ossip Koba era o nome de guerra do camarada nos tempos de clandestinidade no Partido Comunista). Stalin propunha às potências ocidentais a criação de uma só Alemanha - país que, neste dia 3, celebra os 21 anos de reunificação.
Flávio Aguiar
3 de outubro é a data comemorativa da reunificação das Alemanhas divididas no pós-guerra. Há exatos 21 anos houve essa junção, ou, como muitos dizem, a anexação da Alemanha Oriental pela Ocidental, depois da derrota da União Soviética e a derrocada dos regimes comunistas no leste europeu.
A reunificação, portanto, seria um processo ainda em curso, e que levará anos e gerações. De qualquer modo, 3 de outubro é um dia de festa na Alemanha e particularmente em Berlim, a cidade destruída pela guerra e depois fraturada pelo Muro, esse grande equívoco histórico do regime comunista.
Seja como for, há um dado interessante a ser lembrado. A primeira Alemanha a se constituir legalmente foi a Ocidental. A criação da Alemanha Oriental foi uma reposta a este gesto “separatista”, ambas gestadas ainda na década de 40.
A primeira proposta séria de reunificação das Alemanhas partiu de quem? Do camarada Koba, aliás, Josef Stalin, imaginem! (Ossip Koba era o nome de guerra do camarada nos tempos de clandestinidade no Partido Comunista). Foi feita num documento chamado de “Nota de Março”, em 1952, através do chanceler Andrei Gromyko. Stain propunha às potências ocidentais a criação de uma só Alemanha, unificada e desmilitarizada.
Ao longo do ano a proposta acabou rejeitada, à luz da doutrina mantida, sobretudo, pelos Estados Unidos a partir de um documento identificado pela sigla NSCR 68 (National Security Council Report 68), de 1950 (ainda ao tempo de Truman como presidente), mas também à luz do medo atávico da França e da Inglaterra de uma Alemanha unida. Também colaborou para a rejeição a avaliação de que uma Alemanha unificada, desmilitarizada e neutra na Guerra Fria que já galopava pelo mundo acabaria sendo inevitavelmente atraída para a órbita soviética.
A proposta de Stalin colocou a política norte-americana diante de um dilema. A primeira face do dilema era a de que ele poderia estar fazendo uma mera jogada para a platéia mundial, e assim encurralar os Estados Unidos num canto do ringue, além de caracteriza-los como “inimigos eternos” da unidade alemã. Stalin propunha uma Alemanha, livre, com liberdade de imprensa, pluripartidarismo (!), eleições livres, liberdade religiosa, etc.
Também propunha que um ano depois da adoção da proposta as potências vencedoras da Segunda Guerra (o Brasil também foi um vencedor da Segunda Guerra, mas não era uma potência...) deveriam retirar seus exércitos do território alemão. Além disso, a Alemanha deveria ter acesso irrestrito ao mercado internacional – e não deveria ter alianças militares.
A segunda face, porém, foi trazida à baila por James Warburg, banqueiro norte-americano nascido na Alemanha, num depoimento perante o senado em Washington, ainda no mês de março, logo após Gromyko ter entregado a famosa nota aos representantes das potências ocidentais. Warburg, que fora conselheiro de Roosevelt (embora se afastasse dele por causa de certas medidas do New Deal...) e era membro do Conselho de Relações Exteriores, afirmou que uma das dúvidas do governo norte-americano era a de que Stalin poderia muito bem não estar blefando ao fazer a proposta.
Isso poderia trazer muito mais incômodo para a posição norte-americana que, na época, à luz do NSCR 68, privilegiava a consolidação das posições militares ao invés da ação diplomática. A principal objeção norte-americana à proposta era a de que uma Alemanha livre deveria ter a liberdade de integrar a OTAN, cuja criação datava de 1949, e fora acelerada a partir de 1950 com a deflagração da Guerra da Coréia.
A proposta também não teve acolhida na Alemanha Ocidental (criada em maio de 1949, meses antes da criação da Alemanha Oriental, que foi uma retaliação), pois a orientação do então chanceler Konrad Adenauer (democrata-cristão) era privilegiar a integração daquela ao Ocidente. Durante 1950 houve uma troca de mensagens cada vez mais irritadas entre a União Soviética e as potências ocidentais, até que finalmente a proposta foi considerada definitivamente fora do jogo.
Noam Chomsky é citado como um dos que considera que Stalin provavelmente não estava blefando com sua proposta. É muito possível que não estivesse mesmo, pois um estado-tampão (como ficou sendo, mal comparando, o Uruguai entre o Brasil e a Argentina no século XIX...) neutro entre a órbita soviética e o ocidente seria melhor do que a permanente linha de confronto entre as duas Alemanhas. Stalin não deixava de ter razão, como muito bem demonstrou a crise de 1961, quando quase eclodiu um confronto armado entre blindados soviéticos e norte-americanos no ponto conhecido como “Checkpoint Charlie”, cujas conseqüências seriam terríveis em escala mundial).
Até hoje se debate se a adoção da proposta de Stalin teria sido melhor ou não. Vá se saber! Mais uma do camarada Koba!
Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.
(Carta Maior)
Wall Street III
Os 99% que ocuparam Wall Street
Duas mil pessoas ocuparam Wall Street no dia 17 de setembro. A sua mensagem era clara: “Somos os 99% da população que não toleram mais a ganância e a corrupção do 1% restante”. Se dois mil ativistas do movimento conservador Tea party se manifestassem em Wall Street, provavelmente haveria a mesma quantidade de jornalistas cobrindo o acontecimento. Mas o interesse da mídia em divulgar protestos contra Wall Street parece ser bem menor. O artigo é de Amy Goodman.
Amy Goodman - Democracy Now
Se dois mil ativistas do movimento conservador Tea party se manifestassem em Wall Street, provavelmente haveria a mesma quantidade de jornalistas a cobrir o acontecimento. Duas mil pessoas ocuparam de fato Wall Street no dia 17 de setembro. Não levavam cartazes do Tea party, nem a bandeira de Gadsden com a serpente em espiral juntamente com a ameaça “Não te metas comigo”. Mas a sua mensagem era clara: “Somos os 99% da população que não toleram mais a ganância e a corrupção do 1% restante”, diziam. Ali estava uma maioria de jovens a protestar contra a especulação praticamente incontrolável de Wall Street, que provocou a crise financeira mundial.
Um dos multimilionários mais conhecidos de Nova York, o presidente da Câmara, Michael Bloomberg, comentou sobre o momento que vivemos: “Muitos jovens saem da universidade e não encontram trabalho. Foi isso que aconteceu no Cairo e em Madri. Não queremos este tipo de distúrbios aqui”. Distúrbios? A Primavera Árabe e os protestos na Europa trataram-se disso?
É provável que, para desilusão do presidente da Câmara Bloomberg, o que aconteceu no Egito e na Europa seja justamente o que inspirou muitas pessoas a ocupar Wall Street. Em comunicado recente, a coligação de organizações que protestam em Nova York informou: “No sábado, realizámos uma assembleia geral com duas mil pessoas. Na segunda-feira, às 20h, ainda estávamos ocupando a praça, apesar da constante presença policial. Estamos construindo o mundo que queremos, tomando por base as necessidades humanas e a sustentabilidade, no lugar da ganância das empresas”.
Falando de Tea Party, o governador do Texas, Rick Perry, tem provocado polêmica durante os debates presidenciais republicanos com a sua declaração de que o elogiado sistema de segurança social dos Estados Unidos é “um esquema do tipo Ponzi”. Charles Ponzi dedicou-se a fraudar milhares de pessoas em 1920 com a promessa enganosa de que receberiam enormes ganhos a partir de investimentos. Um típico esquema Ponzi consiste em tomar o dinheiro de vários investidores e pagá-los com o dinheiro de novos investidores, em vez de pagar a partir de ganhos reais. O sistema de segurança social dos Estados Unidos é de fato sério: tem um fundo confiável de mais de 2,6 mil milhões de dólares. O verdadeiro esquema que ameaça o povo norte-americano é a insaciável ganância dos bancos de Wall Street.
Entrevistei um dos organizadores do protesto “Ocupemos Wall Street”. David Graeber é professor em Goldsmiths, Universidade de Londres, e é autor de vários livros. A sua obra mais recente é "Dívida: os primeiros 5.000 anos". Graeber assinala que, no meio da crise financeira de 2008, renegociaram-se dívidas enormes de bancos. No entanto, pouquíssimas hipotecas receberam o mesmo tratamento. Graeber disse: “As dívidas entre os mais ricos ou entre governos podem sempre ser renegociadas e, de fato, sempre foi assim na história mundial. Não estão gravadas em pedras. Em termos gerais, quando os pobres têm dívidas com os ricos, automaticamente as dívidas convertem-se numa obrigação sagrada, mais importante do que qualquer outra coisa. A ideia de renegociá-las é impensável”.
O presidente Barack Obama propôs recentemente um plano de criação de emprego e maiores esforços para reduzir o défice público. Uma das propostas é o chamado “imposto sobre os milionários”, que conta com o apoio do multimilionário e partidário de Obama Warren Buffet. Os republicanos denominaram o imposto de “guerra de classes”.
Graeber explica: “Durante os últimos 30 anos vimos os mais ricos da nossa sociedade liderarem uma guerra política contra todos os demais, e esta é considerada a mais recente disputa, uma medida totalmente disfuncional do ponto de vista político e económico. Esse é o motivo pelo qual os jovens simplesmente abandonaram qualquer ideia de recorrer aos políticos. Todos sabemos o que acontecerá. Os impostos de Obama são uma espécie de simulação com carácter populista, que todos sabem que será rechaçado. Na realidade, o que provavelmente vai acontecer é que haverá mais cortes nos serviços sociais”.
Lá fora, na manhã fria de quarta-feira, os manifestantes iniciaram o quarto dia de protestos com uma marcha no meio de forte presença policial. Fizeram soar a campainha de abertura da “bolsa do povo” às 9h30, exactamente na mesma hora em que soa a campainha da Bolsa de Nova York. Enquanto os banqueiros continuam seguros dentro dos seus bancos resgatados, lá fora, a polícia prende manifestantes. Num mundo justo, com uma economia justa, caberia perguntar: quem deveria estar passando frio lá fora? Quem deveria ser preso?
(*) Artigo publicado em "Democracy Now" em 22 de Setembro de 2011. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para espanhol. Texto em espanhol traduzido para o português por Rafael Cavalcanti Barreto, e revisto por Bruno Lima Rocha para Estratégia & Análise
Duas mil pessoas ocuparam Wall Street no dia 17 de setembro. A sua mensagem era clara: “Somos os 99% da população que não toleram mais a ganância e a corrupção do 1% restante”. Se dois mil ativistas do movimento conservador Tea party se manifestassem em Wall Street, provavelmente haveria a mesma quantidade de jornalistas cobrindo o acontecimento. Mas o interesse da mídia em divulgar protestos contra Wall Street parece ser bem menor. O artigo é de Amy Goodman.
Amy Goodman - Democracy Now
Se dois mil ativistas do movimento conservador Tea party se manifestassem em Wall Street, provavelmente haveria a mesma quantidade de jornalistas a cobrir o acontecimento. Duas mil pessoas ocuparam de fato Wall Street no dia 17 de setembro. Não levavam cartazes do Tea party, nem a bandeira de Gadsden com a serpente em espiral juntamente com a ameaça “Não te metas comigo”. Mas a sua mensagem era clara: “Somos os 99% da população que não toleram mais a ganância e a corrupção do 1% restante”, diziam. Ali estava uma maioria de jovens a protestar contra a especulação praticamente incontrolável de Wall Street, que provocou a crise financeira mundial.
Um dos multimilionários mais conhecidos de Nova York, o presidente da Câmara, Michael Bloomberg, comentou sobre o momento que vivemos: “Muitos jovens saem da universidade e não encontram trabalho. Foi isso que aconteceu no Cairo e em Madri. Não queremos este tipo de distúrbios aqui”. Distúrbios? A Primavera Árabe e os protestos na Europa trataram-se disso?
É provável que, para desilusão do presidente da Câmara Bloomberg, o que aconteceu no Egito e na Europa seja justamente o que inspirou muitas pessoas a ocupar Wall Street. Em comunicado recente, a coligação de organizações que protestam em Nova York informou: “No sábado, realizámos uma assembleia geral com duas mil pessoas. Na segunda-feira, às 20h, ainda estávamos ocupando a praça, apesar da constante presença policial. Estamos construindo o mundo que queremos, tomando por base as necessidades humanas e a sustentabilidade, no lugar da ganância das empresas”.
Falando de Tea Party, o governador do Texas, Rick Perry, tem provocado polêmica durante os debates presidenciais republicanos com a sua declaração de que o elogiado sistema de segurança social dos Estados Unidos é “um esquema do tipo Ponzi”. Charles Ponzi dedicou-se a fraudar milhares de pessoas em 1920 com a promessa enganosa de que receberiam enormes ganhos a partir de investimentos. Um típico esquema Ponzi consiste em tomar o dinheiro de vários investidores e pagá-los com o dinheiro de novos investidores, em vez de pagar a partir de ganhos reais. O sistema de segurança social dos Estados Unidos é de fato sério: tem um fundo confiável de mais de 2,6 mil milhões de dólares. O verdadeiro esquema que ameaça o povo norte-americano é a insaciável ganância dos bancos de Wall Street.
Entrevistei um dos organizadores do protesto “Ocupemos Wall Street”. David Graeber é professor em Goldsmiths, Universidade de Londres, e é autor de vários livros. A sua obra mais recente é "Dívida: os primeiros 5.000 anos". Graeber assinala que, no meio da crise financeira de 2008, renegociaram-se dívidas enormes de bancos. No entanto, pouquíssimas hipotecas receberam o mesmo tratamento. Graeber disse: “As dívidas entre os mais ricos ou entre governos podem sempre ser renegociadas e, de fato, sempre foi assim na história mundial. Não estão gravadas em pedras. Em termos gerais, quando os pobres têm dívidas com os ricos, automaticamente as dívidas convertem-se numa obrigação sagrada, mais importante do que qualquer outra coisa. A ideia de renegociá-las é impensável”.
O presidente Barack Obama propôs recentemente um plano de criação de emprego e maiores esforços para reduzir o défice público. Uma das propostas é o chamado “imposto sobre os milionários”, que conta com o apoio do multimilionário e partidário de Obama Warren Buffet. Os republicanos denominaram o imposto de “guerra de classes”.
Graeber explica: “Durante os últimos 30 anos vimos os mais ricos da nossa sociedade liderarem uma guerra política contra todos os demais, e esta é considerada a mais recente disputa, uma medida totalmente disfuncional do ponto de vista político e económico. Esse é o motivo pelo qual os jovens simplesmente abandonaram qualquer ideia de recorrer aos políticos. Todos sabemos o que acontecerá. Os impostos de Obama são uma espécie de simulação com carácter populista, que todos sabem que será rechaçado. Na realidade, o que provavelmente vai acontecer é que haverá mais cortes nos serviços sociais”.
Lá fora, na manhã fria de quarta-feira, os manifestantes iniciaram o quarto dia de protestos com uma marcha no meio de forte presença policial. Fizeram soar a campainha de abertura da “bolsa do povo” às 9h30, exactamente na mesma hora em que soa a campainha da Bolsa de Nova York. Enquanto os banqueiros continuam seguros dentro dos seus bancos resgatados, lá fora, a polícia prende manifestantes. Num mundo justo, com uma economia justa, caberia perguntar: quem deveria estar passando frio lá fora? Quem deveria ser preso?
(*) Artigo publicado em "Democracy Now" em 22 de Setembro de 2011. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para espanhol. Texto em espanhol traduzido para o português por Rafael Cavalcanti Barreto, e revisto por Bruno Lima Rocha para Estratégia & Análise
Bancos...
Economia| 03/10/2011 | Copyleft
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Quatro dos maiores bancos mundiais estão em risco de falência?
Levando em conta a situação que os bancos norte-americanos e europeus têm passado, destaca-se o nome de quatro bancos que poderão estar à beira da falência ou de ser salvos novamente pelos governos nacionais, já que são “demasiado grandes para falir”. Os seus nomes são: Bank of America, Crédit Agricole, Commerszbank e Societé Générale. Trecho do artigo “Estamos perante a segunda crise bancária?” de Oscar Ugarteche e Leonel Carranco.
Oscar Ugarteche e Leonel Carranco
A má situação do Bank of America
O Bank of America, - o banco mais importante dos Estados Unidos em ativos e empréstimos – está passando por graves problemas financeiros em tal grau que pode ser comprado pelo JP Morgan, conforme anunciou em 23 de agosto de 2011 o Wall Street Journal através do seu blogue 24/7 Wall St. [1] com base em rumores que estão ganhando força dentro da praça financeira norte-americana. A transação de compra seria feita com a ajuda do governo norte-americano o qual desembolsaria cerca de 100 bilhões de dólares.
O blog do WSJ refere que o Business Insider calcula que o Bank of America necessitará entre 100 e 200 bilhões de dólares para reforçar as suas contas [2]. Isto significa uma falência técnica do Bank of America, mas como se viu na primeira crise bancária de 2008-2009, os grandes bancos não vão à falência, fundem-se porque são demasiado importantes para falir.
Notemos que o Bank of America no seu informe do segundo trimestre publicou as maiores perdas da sua história num montante de 9,127 bilhões de dólares. Estas perdas estão associadas, em grande medida, com hipotecas de segunda geração.[3] Trata-se de hipotecas que foram boas mas que se deterioraram pelo elevado desemprego e pelas más remunerações norte-americanas, em especial a partir de 2008.
No início do ano o preço das acções do Bank of America era de 14,19 dólares e em 22 de setembro (no fechamento da bolsa), - um dia depois da declaração de Bernanke sobre a gestão da política monetária dos Estados Unidos [4] -, o preço das ações foi de 6,06 dólares o que significa uma queda de 57,3% em cerca de nove meses, sem deixar de mencionar que no dia 8 de agosto houve uma forte queda, de 20,32%, causada pela baixa do rating da dívida dos Estados Unidos.
O preço de 6,06 dólares por ação significa que os investidores não acreditam no preço das ações dos livros de contabilidade do Bank of America (21,45 dólares), dado publicado no segundo informe do balancete financeiro deste banco. Isto é, os investidores crêem que o verdadeiro preço das ações do Bank of America vale menos de um terço do que os livros de contabilidade deste banco dizem.
Jonathan Weil, colunista da Bloomberg, disse que o mercado percebe que “mais de metade do valor da empresa que está nos livros é falso, por que os ativos estão sobrevalorizados ou os passivos subestimados, ou por uma combinação dos dois” [5].
A má situação financeira do Bank of America levou-o a tomar a decisão de começar a vender ativos que, segundo o banco, lhe são complementares. Entre estas decisões está a venda de uma carteira de investimentos imobiliários por um valor de um bilhão de dólares assim como outra de hipotecas vendida por 500 milhões de dólares à empresa estatal de hipotecas Fannie Mae. Também vendeu o TD Bank Group um negócio de cartões de crédito avaliado em 8,6 bilhões de dólares [6]. Os dois últimos anúncios foram a 30 de agosto quando vendeu as ações que possuía do Banco de Construção da China por um valor de 8,3 bilhões de dólares [7], e o segundo é a muito possível venda da sua participação na Pizza Hut por um montante de 800 milhões de dólares. [8]
Warren Buffet no resgate
No dia 25 de agosto, e tendo como ambiente uma maior desconfiança dos investidores na solidez financeira deste banco, Buffet, um dos mais poderosos investidores do mundo, participou no resgate do Bank of America comprando ações preferenciais (que não se vendem a qualquer um) num valor de 5 bilhões de dólares [9], o que representa aproximadamente 6,5% do capital social do banco [10]. Isto levou a que as ações aumentassem 20% de 25 a 29 de agosto mas este momento de subida mudou a 30 de agosto registando-se uma queda de 13,6% em relação ao preço de fechamento de 2 de setembro. O saldo geral do impacto da injeção de capital por parte de Buffet a 2 de setembro foi um aumento de 3,8% do preço das ações.
Este fato mostra-nos que o maior banco dos Estados Unidos está passando por grandes problemas financeiros, muito ligados à sua carteira de investimentos imobiliários. Recordemos que há dois processos relacionados com este tema, um da parte da AIG e o montante pedido é de 10 bilhões de dólares [11] e o outro por parte da Agência Federal de Financiamento à Habitação (FHFA, segundo as suas siglas em inglês) num montante de 24,8 bilhões de dólares [12].
O peso do Bank of America
O valor dos ativos do Bank of America no primeiro trimestre de 2011 foi de 2,3 trilhões de dólares enquanto que em derivados foi de 72,7 trilhões de dólares. Uma gestão de valores em derivados equivalente a 32 vezes o montante dos seus ativos [13]. Este banco representa aproximadamente 22,6% do mercado de derivados e 17% do total dos ativos bancários dos Estados Unidos.
Se compararmos o valor dos ativos do banco em 2010 com o Produto Interno Bruto da zona euro, teríamos que os ativos do Bank of America em 2010 representam 88% do PIB da França e 68% do PIB da Alemanha. O valor destes ativos é de 7,4 vezes o PIB da Grécia, 9,9 o PIB de Portugal, 1,1 o da Itália e 1,6 vezes em relação ao de Espanha.
Os problemas do Goldman Sachs e da UBS
A 15 de setembro de 2008 foi dada a notícia da falência do Lehman Brother's; novamente a 15 de setembro, mas deste ano, surgiam duas notícias muito importantes no âmbito financeiro. A primeira do encerramento do que foi o mais importante hedge fund do Goldman Sachs e a segunda das perdas declaradas pelo banco suíco UBS, as quais ascendem ao montante de 2 bilhões de dólares.
O Goldman Sachs anunciou o encerramento, entenda-se como uma falência, do seu hedge fund Alpha Global [14], que fora catalogado como a jóia da coroa daquele banco [15]. Este fundo tinha perdido, durante este ano, 12% do seu valor16, o que representava uma segunda queda em quatro, uma vez que em Setembro de 2008 teve uma queda de 22%17, sendo um dos acontecimentos que iniciou o caminho para a Grande Recessão [18].
A esta notícia somou-se a de que um operador estabelecido em Londres e pertencente ao banco UBS tinha incorrido numa fraude que provocara perdas do banco no montante de 2 bilhões de dólares [19], algo que relembra a fraude no banco francês Societé Générale em janeiro de 2008 num montante de 5 bilhões de dólares [20].
A fraude de 2 bilhões de dólares, segundo a versão do banco UBS, levanta dúvidas sobre como o operador pôde ultrapassar os controles internos num montante de tal tamanho. Se este montante em vez de ser perdas fossem lucros então, como menciona o editor principal da CNBC John Carney, não lhe estariam a chamar desonesto mas teria ascendido a vice-presidente ou diretor geral de algum departamento do banco suíço [21]. Tduo isto levanta a interrogação: Quantas destas fraudes haverá na banca mundial? Recordemos Barinas, falecido em 1994 numa operação análoga em que os controles internos não funcionaram [22].
Os problemas do Commerzbank
À situação de deterioração do Bank of America não é estranha o banco alemão Commerzbank – o segundo mais importante da Alemanha – que está passando por graves problemas financeiros, mas diferentemente do banco norte-americano, o Commerzbank tem problemas pela sua elevada exposição em valores emitidos pelos países europeus altamente endividados.
No início do ano o preço das acções do Commerzbank era de 5,636 euros e a 22 de setembro (no fechamento) o preço das acções foi de 1,56 dólares o que significa uma queda de 72,3% durante este ano. É importante mencionar que a 10 de agosto este banco anunciou que os seus lucros do segundo trimestre, comparados com os do primeiro, tinham caído 93% devido aos problemas que tem a sua carteira de investimentos relacionados com a dívida soberana da Grécia. [23]
A alquimia dos bancos alemães
Um dos problemas que a desregulação financeira e a contabilidade criativa trouxeram, foi o de esconder os problemas financeiros de qualquer empresa, temos exemplos clássicos disso no Long-Term Capital Management e no Enron que faliram em 1998 e 2001, respectivamente.
Yalman Onaran escreveu um importante artigo na Bloomberg intitulado “Global bank capital regime at risk as regulator spar over rules” [24], onde fala sobre os problemas existentes nos bancos europeus e norte-americanos, para que eles cumpram as normas escritas em Basileia III. Destaca-se o caso da banca alemã onde existe um elevado uso dos valores híbridos (também conhecidos como “silent participations”), os quais se contabilizam como dívida e capital ao mesmo tempo mas que estruturalmente são passivos. Estes valores híbridos em certas ocasiões chegam a representar 50% do capital das entidades financeiras dentro da Alemanha; temos um caso concreto no banco Landesbank Hessen-Thuering que foi retirado em 2010 dos testes de stress devido a ter um elevado montante de capitais híbridos.
No caso do banco Commeszbank estes valores estão contabilizados como ativos. [25] É importante mencionar que durante a crise bancária de 2008 este banco vendeu ao governo alemão 2,75 bilhões de euros em valores híbridos que foram convertidos em ações. [26] Isto é os alquimistas do governo alemão a partir da contabilidade creativa e da engenharia financeira (parecidos neste caso com a pedra filosofal) fizeram uma transmutação de um valor que pela sua estrutura espresenta um passivo numa ação financeira convertendo empréstimos em entradas de capital.
A França e a sua banca com problemas
Depois da baixa de qualificação dos Estados Unidos por parte da Standard and Poor's, a pergunta é: Qual país é o próximo? Os rumores começaram a surgir de que o seguinte seria a França. No dia 10 de agosto de 2011, as ações francesas foram afectadas pelo rumor de uma possível baixa do triplo AAA27 na notação financeira da dívida do governo francês por parte da Moody's mas isto não aconteceu, nesse mesmo dia tanto a Moody's como a Standard and Poor's vieram ratificar o nível de qualificação [28].
Estes rumores levaram a que, no dia 24 de agosto, o governo francês tenha anunciado um plano para reduzir o seu déficit fiscal. O plano consiste num aumento das receitas em 10 bilhões de euros por meio de aumentos de impostos assim como cortes nas isenções e incentivos fiscais que estavam a ser utilizados para estimular o crescimento económico. [29] A França finalizou o ano de 2010 com um déficit fiscal no valor de 7% do PIB,30 enquanto que a sua dívida actual é de 86,7% e a privada externa de 208% [31].
Ao problema da notação da dívida pública francesa há que somar-se a má situação da sua banca privada. Em 14 de setembro a Moody's anunciou a baixa da notação dos bancos Societé Générale e Crédit Agricole e pôs em revisão a notação do BNP Paribas; estes são os três mais importantes bancos dentro do país. A causa do rebaixamento da notação financeira deve-se à deterioração financeira provocada pelas dívidas soberanas que mantêm nos seus balancetes, principalmente à dívida grega. [32] Entre 3 de janeiro e 22 de setembro deste ano o preço das ações do BNP Paribas caiu 53,2% o Société Générale 63,4% e o Crédit Agricole 57%.
As demissões no setor bancário
A 12 de setembro, Brian Moynihan, diretor geral do Bank of America anunciou o corte de 30 mil postos de trabalho em nível internacional [33], isto com base no seu plano de reestruturação chamado “New BAC” apresentado em abril deste ano para tentar aumentar a rentabilidade e o capital deste banco [34]. Enquanto que os bancos europeus anunciaram 67 mil demissões entre janeiro e agosto deste ano, dos quais 50 mil foram da banca do Reino Unido [35]. Então temos que durante este ano, (janeiro-setembro) a banca europeia e norte-americana cortaram 97 mil empregos.
Estes números fazem-nos recordar duas situações já vividas, a primeira foi a demissão de 116 mil trabalhadores do setor bancário durante a crise financeira do ano 2001. A segunda tem a ver com a demissão de 130 mil pessoas entre janeiro e outubro de 2008. Recordemos que nesse ano, mas no dia 15 de setembro, o banco de investimentos Lehman Brother's declarou-se em falência, fato que detonou uma crise bancária e a sua consequente recessão econômica.
Considerações finais: Os bancos candidatos à falência, à fusão ou a serem novamente salvos
Tendo em conta a situação que os bancos norte-americanos e europeus têm passado, destaca-se o nome de quatro bancos que poderão estar à beira da falência ou de ser salvos novamente pelos governos nacionais, já que são “demasiado grandes para falir”. Os seus nomes são: Bank of America, Crédit Agricole, Commerszbank e Societé Générale. Os últimos dois bancos apresentaram uma importante queda do preço das suas ações, nos nove meses deste ano, 72,3% e 63,4%, respectivamente.
Quando os preços das ações têm quedas de dois dígitos, começam a soar os alarmes nos investidores e ainda mais quando se apresenta a situação de uma tendência de forte baixa.
Recordemos que a agência de rating Moody's anunciou a 21 de setembro o corte da notação da dívida de curto prazo de três dos mais importantes bancos dos Estados Unidos: Bank of America, Citigroup e Wells Fargo [36].
A forte queda dos preços das ações do setor bancário nos Estados Unidos e na Europa é muito parecida com a crise bancária desencadeada pela falência do Lehman Brother's em setembro de 2008.
Três anos depois desta data, encontramo-nos novamente em vésperas de uma nova crise bancária e, portanto, financeira a nível internacional, assim o assinala a empresa PIMCO, a qual é a maior a nível internacional na comercialização de títulos. [37]
(*) Trecho do artigo “Estamos perante a segunda crise bancária? - Notícias da crise 2011” de Oscar Ugarteche [38] e Leonel Carranco [39], que foi publicado no site do Observatório Económico da América Latina (obela.org). Tradução de Carlos Santos para esquerda.net
NOTAS
[1] Disponível em http://247wallst.com/2011/08/23/jp-morganmay-take-over-bank-of-america/
[2] Disponível em http://www.businessinsider.com/bank-ofamericas-stock-collapse-2011-8?op=1
[3] Bank of America, Supplement information, Second Quarter 2011, Disponível em http://phx.corporateir.net/External.File?item=UGFyZW50SUQ9MTAwNDAzfENoaWxkSUQ9LTF8VHlwZT0z&t=1
[4] Ver: http://www.federalreserve.gov/newsevents/press/monetary/
[5] Disponível em: http://www.bloomberg.com/news/2011-07-21/curse-the-geniuses-who-built-bank-of-america-jonathanweil-1-.html
[6] Disponível em: http://www.businessinsider.com/bank-ofamericas-fire-sale-2011-8
[7] Ver: http://www.reuters.com/article/2011/08/30/usbankofamerica-ccb-idUSTRE77S2MO20110830
[8] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-22/bankof-america-said-to-seek-800-million-in-sale-of-pizza-hutfranchise.html
[9] Ver: http://www.marketwatch.com/story/buffetts-bofainvestment-is-the-new-tarp-2011-08-25?dist=countdown
[10] Ver: http://www.marketwatch.com/story/sorry-warrenbank-of-america-still-stinks-2011-08-30?link=MW_story_investinginsight
[11] Ver: http://www.nytimes.com/2011/08/08/business/aig-tosue-bank-of-america-over-mortgagebonds.html?pagewanted=all
[12] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-02/barclays-bank-of-america-are-sued-by-fhfa-overmortgage-backed-securities.html
[13] “Office of the comptroller of the currency , OCC´s Quarterly report on bank trading and derivatives activities first quarter 2011”. Disponível em http://www.occ.treas.gov/topics/capitalmarkets/financial-markets/trading/derivatives/dq111.pdf
[14] Este hedge fundactuava no comércio quantitativo o qual utiliza modelos computacionais altamente sofisticados para aproveitar rápidamente as oportunidades nos mercados.
[15] Ver: http://www.cnbc.com/id/44549144
[16] Ver: http://www.eleconomista.es/mercadoscotizaciones/noticias/3379250/09/11/ocaso-de-un-hedgefund-goldman-sachs-echara-el-cierre-global-alpha.html
[17] Ver: http://www.reuters.com/article/2011/09/16/usgoldmansachs-hedgefund-idUSTRE78F28Y20110916
[18] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-16/goldman-s-global-alpha-reaches-its-omega-moment-theticker.html
[19] Ver: http://www.businessweek.com/news/2011-09-18/ubschief-gruebel-dismisses-calls-to-resign-after-trading-loss.html
[20] Ver: http://www.elpais.com/articulo/internacional/policia/britanica/acusa/broker/UBS/contabilidad/falsa/delito/fraude/elpepuint/20110916elpepuint_10/Tes
[21] Ver: http://www.cnbc.com/id/44533146
[22] Ver: http://redordead.wordpress.com/2009/08/15/thevictorian-remixes-the-demise-of-barings-bank-a-lesson-inrisk-management-internal-controls-and-regulations/
[23] Ver: http://www.marketwatch.com/story/commerzbankprofit-falls-93-on-greek-impairment-2011-08-10
[24] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-19/globalbank-capital-regime-at-risk-as-regulators-spar-over-rules.html
[25] Ibidem
[26] Ver: http://www.ft.com/intl/cms/s/0/b44410e0-6010-11e0-abba-00144feab49a.html#axzz1X3q1aSC2
[27] Disponível em http://www.marketwatch.com/story/fornext-rating-downgrade-sp-may-look-at-france-2011-08-10?dist=afterbell
[28] Disponível em: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-10/french-aaa-credit-affirmed-by-standard-poor-s-moody-samid-market-rout.html
[29] Disponível em: http://www.reuters.com/article/2011/08/24/france-budgetidUSLDE77N04F20110824
[30] Disponível em: http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITY_PUBLIC/2-26042011-AP/EN/2-26042011-AP-EN.PDF
[31] Ver: http://www.usdebtclock.org/world-debt-clock.html
[32] Ver: http://www.theage.com.au/business/worldbusiness/french-banks-downgraded-by-moodys-20110914-1k95o.html
[33] Ver: http://www.nytimes.com/2011/09/13/business/ceopromises-cuts-at-bank-ofamerica.html?_r=1&ref=layoffsandjobreductions
[34] Ver: http://www.charlotteobserver.com/2011/09/02/2574344/bank-of-america-layoffs-could.html
[35] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-23/european-bank-job-bloodbath-surpasses-40-000-as-ubscuts-workforce-by-5-.html
[36] Ver: http://www.marketwatch.com/story/moodys-cutscitigroup-to-p-2-affirms-p-1-2011-09-21?link=MW_home_latest_news
[37] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-22/elerian-says-world-is-on-eve-of-next-financial-crisis-oversovereign-debt.html
[38] Oscar Ugarteche – Economista peruano e investigador do Instituto de Investigações Econômicas da Universidade Nacional do México (UNAM)
[39] Leonel Carranco - Colaborador do Observatório Econômico da América Latina da UNAM.
(Carta Maior)
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Quatro dos maiores bancos mundiais estão em risco de falência?
Levando em conta a situação que os bancos norte-americanos e europeus têm passado, destaca-se o nome de quatro bancos que poderão estar à beira da falência ou de ser salvos novamente pelos governos nacionais, já que são “demasiado grandes para falir”. Os seus nomes são: Bank of America, Crédit Agricole, Commerszbank e Societé Générale. Trecho do artigo “Estamos perante a segunda crise bancária?” de Oscar Ugarteche e Leonel Carranco.
Oscar Ugarteche e Leonel Carranco
A má situação do Bank of America
O Bank of America, - o banco mais importante dos Estados Unidos em ativos e empréstimos – está passando por graves problemas financeiros em tal grau que pode ser comprado pelo JP Morgan, conforme anunciou em 23 de agosto de 2011 o Wall Street Journal através do seu blogue 24/7 Wall St. [1] com base em rumores que estão ganhando força dentro da praça financeira norte-americana. A transação de compra seria feita com a ajuda do governo norte-americano o qual desembolsaria cerca de 100 bilhões de dólares.
O blog do WSJ refere que o Business Insider calcula que o Bank of America necessitará entre 100 e 200 bilhões de dólares para reforçar as suas contas [2]. Isto significa uma falência técnica do Bank of America, mas como se viu na primeira crise bancária de 2008-2009, os grandes bancos não vão à falência, fundem-se porque são demasiado importantes para falir.
Notemos que o Bank of America no seu informe do segundo trimestre publicou as maiores perdas da sua história num montante de 9,127 bilhões de dólares. Estas perdas estão associadas, em grande medida, com hipotecas de segunda geração.[3] Trata-se de hipotecas que foram boas mas que se deterioraram pelo elevado desemprego e pelas más remunerações norte-americanas, em especial a partir de 2008.
No início do ano o preço das acções do Bank of America era de 14,19 dólares e em 22 de setembro (no fechamento da bolsa), - um dia depois da declaração de Bernanke sobre a gestão da política monetária dos Estados Unidos [4] -, o preço das ações foi de 6,06 dólares o que significa uma queda de 57,3% em cerca de nove meses, sem deixar de mencionar que no dia 8 de agosto houve uma forte queda, de 20,32%, causada pela baixa do rating da dívida dos Estados Unidos.
O preço de 6,06 dólares por ação significa que os investidores não acreditam no preço das ações dos livros de contabilidade do Bank of America (21,45 dólares), dado publicado no segundo informe do balancete financeiro deste banco. Isto é, os investidores crêem que o verdadeiro preço das ações do Bank of America vale menos de um terço do que os livros de contabilidade deste banco dizem.
Jonathan Weil, colunista da Bloomberg, disse que o mercado percebe que “mais de metade do valor da empresa que está nos livros é falso, por que os ativos estão sobrevalorizados ou os passivos subestimados, ou por uma combinação dos dois” [5].
A má situação financeira do Bank of America levou-o a tomar a decisão de começar a vender ativos que, segundo o banco, lhe são complementares. Entre estas decisões está a venda de uma carteira de investimentos imobiliários por um valor de um bilhão de dólares assim como outra de hipotecas vendida por 500 milhões de dólares à empresa estatal de hipotecas Fannie Mae. Também vendeu o TD Bank Group um negócio de cartões de crédito avaliado em 8,6 bilhões de dólares [6]. Os dois últimos anúncios foram a 30 de agosto quando vendeu as ações que possuía do Banco de Construção da China por um valor de 8,3 bilhões de dólares [7], e o segundo é a muito possível venda da sua participação na Pizza Hut por um montante de 800 milhões de dólares. [8]
Warren Buffet no resgate
No dia 25 de agosto, e tendo como ambiente uma maior desconfiança dos investidores na solidez financeira deste banco, Buffet, um dos mais poderosos investidores do mundo, participou no resgate do Bank of America comprando ações preferenciais (que não se vendem a qualquer um) num valor de 5 bilhões de dólares [9], o que representa aproximadamente 6,5% do capital social do banco [10]. Isto levou a que as ações aumentassem 20% de 25 a 29 de agosto mas este momento de subida mudou a 30 de agosto registando-se uma queda de 13,6% em relação ao preço de fechamento de 2 de setembro. O saldo geral do impacto da injeção de capital por parte de Buffet a 2 de setembro foi um aumento de 3,8% do preço das ações.
Este fato mostra-nos que o maior banco dos Estados Unidos está passando por grandes problemas financeiros, muito ligados à sua carteira de investimentos imobiliários. Recordemos que há dois processos relacionados com este tema, um da parte da AIG e o montante pedido é de 10 bilhões de dólares [11] e o outro por parte da Agência Federal de Financiamento à Habitação (FHFA, segundo as suas siglas em inglês) num montante de 24,8 bilhões de dólares [12].
O peso do Bank of America
O valor dos ativos do Bank of America no primeiro trimestre de 2011 foi de 2,3 trilhões de dólares enquanto que em derivados foi de 72,7 trilhões de dólares. Uma gestão de valores em derivados equivalente a 32 vezes o montante dos seus ativos [13]. Este banco representa aproximadamente 22,6% do mercado de derivados e 17% do total dos ativos bancários dos Estados Unidos.
Se compararmos o valor dos ativos do banco em 2010 com o Produto Interno Bruto da zona euro, teríamos que os ativos do Bank of America em 2010 representam 88% do PIB da França e 68% do PIB da Alemanha. O valor destes ativos é de 7,4 vezes o PIB da Grécia, 9,9 o PIB de Portugal, 1,1 o da Itália e 1,6 vezes em relação ao de Espanha.
Os problemas do Goldman Sachs e da UBS
A 15 de setembro de 2008 foi dada a notícia da falência do Lehman Brother's; novamente a 15 de setembro, mas deste ano, surgiam duas notícias muito importantes no âmbito financeiro. A primeira do encerramento do que foi o mais importante hedge fund do Goldman Sachs e a segunda das perdas declaradas pelo banco suíco UBS, as quais ascendem ao montante de 2 bilhões de dólares.
O Goldman Sachs anunciou o encerramento, entenda-se como uma falência, do seu hedge fund Alpha Global [14], que fora catalogado como a jóia da coroa daquele banco [15]. Este fundo tinha perdido, durante este ano, 12% do seu valor16, o que representava uma segunda queda em quatro, uma vez que em Setembro de 2008 teve uma queda de 22%17, sendo um dos acontecimentos que iniciou o caminho para a Grande Recessão [18].
A esta notícia somou-se a de que um operador estabelecido em Londres e pertencente ao banco UBS tinha incorrido numa fraude que provocara perdas do banco no montante de 2 bilhões de dólares [19], algo que relembra a fraude no banco francês Societé Générale em janeiro de 2008 num montante de 5 bilhões de dólares [20].
A fraude de 2 bilhões de dólares, segundo a versão do banco UBS, levanta dúvidas sobre como o operador pôde ultrapassar os controles internos num montante de tal tamanho. Se este montante em vez de ser perdas fossem lucros então, como menciona o editor principal da CNBC John Carney, não lhe estariam a chamar desonesto mas teria ascendido a vice-presidente ou diretor geral de algum departamento do banco suíço [21]. Tduo isto levanta a interrogação: Quantas destas fraudes haverá na banca mundial? Recordemos Barinas, falecido em 1994 numa operação análoga em que os controles internos não funcionaram [22].
Os problemas do Commerzbank
À situação de deterioração do Bank of America não é estranha o banco alemão Commerzbank – o segundo mais importante da Alemanha – que está passando por graves problemas financeiros, mas diferentemente do banco norte-americano, o Commerzbank tem problemas pela sua elevada exposição em valores emitidos pelos países europeus altamente endividados.
No início do ano o preço das acções do Commerzbank era de 5,636 euros e a 22 de setembro (no fechamento) o preço das acções foi de 1,56 dólares o que significa uma queda de 72,3% durante este ano. É importante mencionar que a 10 de agosto este banco anunciou que os seus lucros do segundo trimestre, comparados com os do primeiro, tinham caído 93% devido aos problemas que tem a sua carteira de investimentos relacionados com a dívida soberana da Grécia. [23]
A alquimia dos bancos alemães
Um dos problemas que a desregulação financeira e a contabilidade criativa trouxeram, foi o de esconder os problemas financeiros de qualquer empresa, temos exemplos clássicos disso no Long-Term Capital Management e no Enron que faliram em 1998 e 2001, respectivamente.
Yalman Onaran escreveu um importante artigo na Bloomberg intitulado “Global bank capital regime at risk as regulator spar over rules” [24], onde fala sobre os problemas existentes nos bancos europeus e norte-americanos, para que eles cumpram as normas escritas em Basileia III. Destaca-se o caso da banca alemã onde existe um elevado uso dos valores híbridos (também conhecidos como “silent participations”), os quais se contabilizam como dívida e capital ao mesmo tempo mas que estruturalmente são passivos. Estes valores híbridos em certas ocasiões chegam a representar 50% do capital das entidades financeiras dentro da Alemanha; temos um caso concreto no banco Landesbank Hessen-Thuering que foi retirado em 2010 dos testes de stress devido a ter um elevado montante de capitais híbridos.
No caso do banco Commeszbank estes valores estão contabilizados como ativos. [25] É importante mencionar que durante a crise bancária de 2008 este banco vendeu ao governo alemão 2,75 bilhões de euros em valores híbridos que foram convertidos em ações. [26] Isto é os alquimistas do governo alemão a partir da contabilidade creativa e da engenharia financeira (parecidos neste caso com a pedra filosofal) fizeram uma transmutação de um valor que pela sua estrutura espresenta um passivo numa ação financeira convertendo empréstimos em entradas de capital.
A França e a sua banca com problemas
Depois da baixa de qualificação dos Estados Unidos por parte da Standard and Poor's, a pergunta é: Qual país é o próximo? Os rumores começaram a surgir de que o seguinte seria a França. No dia 10 de agosto de 2011, as ações francesas foram afectadas pelo rumor de uma possível baixa do triplo AAA27 na notação financeira da dívida do governo francês por parte da Moody's mas isto não aconteceu, nesse mesmo dia tanto a Moody's como a Standard and Poor's vieram ratificar o nível de qualificação [28].
Estes rumores levaram a que, no dia 24 de agosto, o governo francês tenha anunciado um plano para reduzir o seu déficit fiscal. O plano consiste num aumento das receitas em 10 bilhões de euros por meio de aumentos de impostos assim como cortes nas isenções e incentivos fiscais que estavam a ser utilizados para estimular o crescimento económico. [29] A França finalizou o ano de 2010 com um déficit fiscal no valor de 7% do PIB,30 enquanto que a sua dívida actual é de 86,7% e a privada externa de 208% [31].
Ao problema da notação da dívida pública francesa há que somar-se a má situação da sua banca privada. Em 14 de setembro a Moody's anunciou a baixa da notação dos bancos Societé Générale e Crédit Agricole e pôs em revisão a notação do BNP Paribas; estes são os três mais importantes bancos dentro do país. A causa do rebaixamento da notação financeira deve-se à deterioração financeira provocada pelas dívidas soberanas que mantêm nos seus balancetes, principalmente à dívida grega. [32] Entre 3 de janeiro e 22 de setembro deste ano o preço das ações do BNP Paribas caiu 53,2% o Société Générale 63,4% e o Crédit Agricole 57%.
As demissões no setor bancário
A 12 de setembro, Brian Moynihan, diretor geral do Bank of America anunciou o corte de 30 mil postos de trabalho em nível internacional [33], isto com base no seu plano de reestruturação chamado “New BAC” apresentado em abril deste ano para tentar aumentar a rentabilidade e o capital deste banco [34]. Enquanto que os bancos europeus anunciaram 67 mil demissões entre janeiro e agosto deste ano, dos quais 50 mil foram da banca do Reino Unido [35]. Então temos que durante este ano, (janeiro-setembro) a banca europeia e norte-americana cortaram 97 mil empregos.
Estes números fazem-nos recordar duas situações já vividas, a primeira foi a demissão de 116 mil trabalhadores do setor bancário durante a crise financeira do ano 2001. A segunda tem a ver com a demissão de 130 mil pessoas entre janeiro e outubro de 2008. Recordemos que nesse ano, mas no dia 15 de setembro, o banco de investimentos Lehman Brother's declarou-se em falência, fato que detonou uma crise bancária e a sua consequente recessão econômica.
Considerações finais: Os bancos candidatos à falência, à fusão ou a serem novamente salvos
Tendo em conta a situação que os bancos norte-americanos e europeus têm passado, destaca-se o nome de quatro bancos que poderão estar à beira da falência ou de ser salvos novamente pelos governos nacionais, já que são “demasiado grandes para falir”. Os seus nomes são: Bank of America, Crédit Agricole, Commerszbank e Societé Générale. Os últimos dois bancos apresentaram uma importante queda do preço das suas ações, nos nove meses deste ano, 72,3% e 63,4%, respectivamente.
Quando os preços das ações têm quedas de dois dígitos, começam a soar os alarmes nos investidores e ainda mais quando se apresenta a situação de uma tendência de forte baixa.
Recordemos que a agência de rating Moody's anunciou a 21 de setembro o corte da notação da dívida de curto prazo de três dos mais importantes bancos dos Estados Unidos: Bank of America, Citigroup e Wells Fargo [36].
A forte queda dos preços das ações do setor bancário nos Estados Unidos e na Europa é muito parecida com a crise bancária desencadeada pela falência do Lehman Brother's em setembro de 2008.
Três anos depois desta data, encontramo-nos novamente em vésperas de uma nova crise bancária e, portanto, financeira a nível internacional, assim o assinala a empresa PIMCO, a qual é a maior a nível internacional na comercialização de títulos. [37]
(*) Trecho do artigo “Estamos perante a segunda crise bancária? - Notícias da crise 2011” de Oscar Ugarteche [38] e Leonel Carranco [39], que foi publicado no site do Observatório Económico da América Latina (obela.org). Tradução de Carlos Santos para esquerda.net
NOTAS
[1] Disponível em http://247wallst.com/2011/08/23/jp-morganmay-take-over-bank-of-america/
[2] Disponível em http://www.businessinsider.com/bank-ofamericas-stock-collapse-2011-8?op=1
[3] Bank of America, Supplement information, Second Quarter 2011, Disponível em http://phx.corporateir.net/External.File?item=UGFyZW50SUQ9MTAwNDAzfENoaWxkSUQ9LTF8VHlwZT0z&t=1
[4] Ver: http://www.federalreserve.gov/newsevents/press/monetary/
[5] Disponível em: http://www.bloomberg.com/news/2011-07-21/curse-the-geniuses-who-built-bank-of-america-jonathanweil-1-.html
[6] Disponível em: http://www.businessinsider.com/bank-ofamericas-fire-sale-2011-8
[7] Ver: http://www.reuters.com/article/2011/08/30/usbankofamerica-ccb-idUSTRE77S2MO20110830
[8] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-22/bankof-america-said-to-seek-800-million-in-sale-of-pizza-hutfranchise.html
[9] Ver: http://www.marketwatch.com/story/buffetts-bofainvestment-is-the-new-tarp-2011-08-25?dist=countdown
[10] Ver: http://www.marketwatch.com/story/sorry-warrenbank-of-america-still-stinks-2011-08-30?link=MW_story_investinginsight
[11] Ver: http://www.nytimes.com/2011/08/08/business/aig-tosue-bank-of-america-over-mortgagebonds.html?pagewanted=all
[12] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-02/barclays-bank-of-america-are-sued-by-fhfa-overmortgage-backed-securities.html
[13] “Office of the comptroller of the currency , OCC´s Quarterly report on bank trading and derivatives activities first quarter 2011”. Disponível em http://www.occ.treas.gov/topics/capitalmarkets/financial-markets/trading/derivatives/dq111.pdf
[14] Este hedge fundactuava no comércio quantitativo o qual utiliza modelos computacionais altamente sofisticados para aproveitar rápidamente as oportunidades nos mercados.
[15] Ver: http://www.cnbc.com/id/44549144
[16] Ver: http://www.eleconomista.es/mercadoscotizaciones/noticias/3379250/09/11/ocaso-de-un-hedgefund-goldman-sachs-echara-el-cierre-global-alpha.html
[17] Ver: http://www.reuters.com/article/2011/09/16/usgoldmansachs-hedgefund-idUSTRE78F28Y20110916
[18] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-16/goldman-s-global-alpha-reaches-its-omega-moment-theticker.html
[19] Ver: http://www.businessweek.com/news/2011-09-18/ubschief-gruebel-dismisses-calls-to-resign-after-trading-loss.html
[20] Ver: http://www.elpais.com/articulo/internacional/policia/britanica/acusa/broker/UBS/contabilidad/falsa/delito/fraude/elpepuint/20110916elpepuint_10/Tes
[21] Ver: http://www.cnbc.com/id/44533146
[22] Ver: http://redordead.wordpress.com/2009/08/15/thevictorian-remixes-the-demise-of-barings-bank-a-lesson-inrisk-management-internal-controls-and-regulations/
[23] Ver: http://www.marketwatch.com/story/commerzbankprofit-falls-93-on-greek-impairment-2011-08-10
[24] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-19/globalbank-capital-regime-at-risk-as-regulators-spar-over-rules.html
[25] Ibidem
[26] Ver: http://www.ft.com/intl/cms/s/0/b44410e0-6010-11e0-abba-00144feab49a.html#axzz1X3q1aSC2
[27] Disponível em http://www.marketwatch.com/story/fornext-rating-downgrade-sp-may-look-at-france-2011-08-10?dist=afterbell
[28] Disponível em: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-10/french-aaa-credit-affirmed-by-standard-poor-s-moody-samid-market-rout.html
[29] Disponível em: http://www.reuters.com/article/2011/08/24/france-budgetidUSLDE77N04F20110824
[30] Disponível em: http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITY_PUBLIC/2-26042011-AP/EN/2-26042011-AP-EN.PDF
[31] Ver: http://www.usdebtclock.org/world-debt-clock.html
[32] Ver: http://www.theage.com.au/business/worldbusiness/french-banks-downgraded-by-moodys-20110914-1k95o.html
[33] Ver: http://www.nytimes.com/2011/09/13/business/ceopromises-cuts-at-bank-ofamerica.html?_r=1&ref=layoffsandjobreductions
[34] Ver: http://www.charlotteobserver.com/2011/09/02/2574344/bank-of-america-layoffs-could.html
[35] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-08-23/european-bank-job-bloodbath-surpasses-40-000-as-ubscuts-workforce-by-5-.html
[36] Ver: http://www.marketwatch.com/story/moodys-cutscitigroup-to-p-2-affirms-p-1-2011-09-21?link=MW_home_latest_news
[37] Ver: http://www.bloomberg.com/news/2011-09-22/elerian-says-world-is-on-eve-of-next-financial-crisis-oversovereign-debt.html
[38] Oscar Ugarteche – Economista peruano e investigador do Instituto de Investigações Econômicas da Universidade Nacional do México (UNAM)
[39] Leonel Carranco - Colaborador do Observatório Econômico da América Latina da UNAM.
(Carta Maior)
Wall Steet II
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Mais de 700 presos em Nova York
Manifestantes do movimento Ocupar Wall Street foram detidos na ponte do Brooklyn e alegam que a polícia os conduziu a uma armadilha. Movimento está a crescer e a estender-se para Washington, São Francisco, Chicago e Boston.
Artigo | 2 Outubro, 2011 - 12:02
As manifestações estão cada vez a ganhar mais peso. Foto de _PaulS_ Mais de 700 manifestantes foram presos sábado nos Estados Unidos, durante um protesto que bloqueou a ponte do Brooklyn, em Nova York, na 15ª jornada promovida pelo movimento Ocupar Wall Street, que mantém uma “acampada” no Zucotti Park, no centro de Manhattan.
A ponte liga a baixa de Manhattan ao bairro do Brooklyn, cruzando o East River.
A polícia alegou que não prendeu ninguém que se manteve no passeio, mas que os manifestantes foram para a estrada e assim bloquearam a ponte, o que é proibido. Mas os jovens dizem que foi a própria polícia que os conduziu e escoltou para a travessia rodoviária da ponte. Acusam, assim, a polícia de Nova York de os ter conduzido a uma armadilha.
Os manifestantes levavam à frente um cartaz onde se podia ler “We the People” (Nós, o Povo), as primeiras palavras do preâmbulo da Constituição dos EUA. Quando começaram as prisões, os manifestantes reagiram gritando “O mundo inteiro está a ver”, em alusão ao live streaming pela Internet que estava a decorrer no momento.
Em seguida, sentaram-se no chão e gritaram “Let them go!” diante de todos os jovens, alguns visivelmente menores, que estavam a se detidos. O protesto foi totalmente pacífico.
Segundo testemunhos citados pelo The New York Times, os detidos foram levados em dez autocarros e libertados em seguida. Há denúncias que alguns deles foram agredidos. Todos foram algemados. Cerca de 3 mil pessoas terão participado na manifestação.
As manifestações estão cada vez a ganhar mais peso, e os “indignados” norte-americanos, que denunciam a injecção de dinheiro público para salvar os bancos e a corrupção do sistema financeiro, recebem a cada dia apoio público de intelectuais como Noam Chomsky, o documentarista Michael Moore ou a actriz Susan Sarandon. Houve manifestações também em Washington, São Francisco e Chicago.
Já há uma nova acampada, desta vez em Boston, no Parque Dewey.
Artigos relacionados:
Ocupar Wall Street: o que todos querem saber sobre o movimento "Quando se tem força suficiente, a dívida desaparece" A acampada chegou a Wall Street
Mais de 700 presos em Nova York
Manifestantes do movimento Ocupar Wall Street foram detidos na ponte do Brooklyn e alegam que a polícia os conduziu a uma armadilha. Movimento está a crescer e a estender-se para Washington, São Francisco, Chicago e Boston.
Artigo | 2 Outubro, 2011 - 12:02
As manifestações estão cada vez a ganhar mais peso. Foto de _PaulS_ Mais de 700 manifestantes foram presos sábado nos Estados Unidos, durante um protesto que bloqueou a ponte do Brooklyn, em Nova York, na 15ª jornada promovida pelo movimento Ocupar Wall Street, que mantém uma “acampada” no Zucotti Park, no centro de Manhattan.
A ponte liga a baixa de Manhattan ao bairro do Brooklyn, cruzando o East River.
A polícia alegou que não prendeu ninguém que se manteve no passeio, mas que os manifestantes foram para a estrada e assim bloquearam a ponte, o que é proibido. Mas os jovens dizem que foi a própria polícia que os conduziu e escoltou para a travessia rodoviária da ponte. Acusam, assim, a polícia de Nova York de os ter conduzido a uma armadilha.
Os manifestantes levavam à frente um cartaz onde se podia ler “We the People” (Nós, o Povo), as primeiras palavras do preâmbulo da Constituição dos EUA. Quando começaram as prisões, os manifestantes reagiram gritando “O mundo inteiro está a ver”, em alusão ao live streaming pela Internet que estava a decorrer no momento.
Em seguida, sentaram-se no chão e gritaram “Let them go!” diante de todos os jovens, alguns visivelmente menores, que estavam a se detidos. O protesto foi totalmente pacífico.
Segundo testemunhos citados pelo The New York Times, os detidos foram levados em dez autocarros e libertados em seguida. Há denúncias que alguns deles foram agredidos. Todos foram algemados. Cerca de 3 mil pessoas terão participado na manifestação.
As manifestações estão cada vez a ganhar mais peso, e os “indignados” norte-americanos, que denunciam a injecção de dinheiro público para salvar os bancos e a corrupção do sistema financeiro, recebem a cada dia apoio público de intelectuais como Noam Chomsky, o documentarista Michael Moore ou a actriz Susan Sarandon. Houve manifestações também em Washington, São Francisco e Chicago.
Já há uma nova acampada, desta vez em Boston, no Parque Dewey.
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Wall Street
Internacional| 30/09/2011 | Copyleft
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Venham todos ocupar Wall Street, pede Michael Moore
Após visitar os acampados em Wall Street e declarar seu apoio ao movimento de ocupação, o cineasta e ativista Michael Moore publicou uma nota em seu blog chamando pessoas de todo o país para se reunirem aos manifestantes em Nova York. Ele considera o fato histórico: “É a primeira vez que uma multidão de milhares toma as ruas de Wall Street”. A manifestação segue sendo ignorada pela "grande imprensa".
Redação
A manifestação “Ocupar Wall Street” chega ao décimo dia ignorada pela grande imprensa e cada vez mais “gritante” na mídia alternativa e blogs. As milhares de pessoas permanecem acampadas no local, enfrentando policiais cada vez mais violentos.
Lawrence O´Donnel, apresentador de uma emissora de TV alternativa, mostra em seu programa “The last World” a cena de um jovem sendo agredido. Ele questiona: “Por que os policiais estão batendo neste rapaz?”
Em seguida, Lawrence reapresenta a mesma cena em câmera lenta e explica: “Os policiais estão batendo no jovem porque ele está armado com uma câmera de vídeo”. Outra cena do programa mostra duas mulheres gritando muito após terem sido atingidas por spray de pimenta. Lawrence condena a brutalidade: “As pessoas são inocentes, pacíficas, não podem ser agredidas nem presas”.
O que causa espanto ainda maior, acrescenta o jornalista, é a falta de reação de quem assiste ao espetáculo de horror de braços cruzados. “Ninguém faz nada a favor dessas pessoas”, denuncia, afirmando que a violência policial contraria a lei, é crime. Diz ainda que a ação policial tem uma explicação: o governo sabe que a manifestação não terminará enquanto a população nas ruas não for ouvida.
Um internauta posta o programa de Lawrence no Youtube e pede: “Por favor, transformem isto num viral”, explicando que tem poucas linhas para expressar o horror que está ocorrendo nas ruas. Ele assina “moodyblueCDN” na postagem.
Abaixo do vídeo, segue o comentário: “E aqui vamos nós aos bastidores de Matrix”, comparando a bem engendrada política imperialista ao enredo do filme de ficção científica, no qual os personagens têm os destinos traçados por máquinas e só podem romper esse circuito de manipulação quando surgir o salvador.
Outro vídeo da internet mostra os jovens e sua demanda: “quem for honesto nos dará apoio, quem for heróico se juntará a nós”.
Lucas Vazquez está entre os jovens de Wall Street, é um dos organizadores do protesto, segundo um vídeo. Ele dá uma declaração tranqüila, mostrando-se surpreso com a reação dos policiais.
Os dez dias de protestos já deram origem a um documentário, O verão da Mudança (Summer of Change), de Velcrow Ripper. Ripper navega na praia hippie dos anos 1960 ao propor: “Como esta crise global pode se transformar em uma história de amor?”. O documentário foi produzido pela Evolve Love.
(Carta Maior)
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Venham todos ocupar Wall Street, pede Michael Moore
Após visitar os acampados em Wall Street e declarar seu apoio ao movimento de ocupação, o cineasta e ativista Michael Moore publicou uma nota em seu blog chamando pessoas de todo o país para se reunirem aos manifestantes em Nova York. Ele considera o fato histórico: “É a primeira vez que uma multidão de milhares toma as ruas de Wall Street”. A manifestação segue sendo ignorada pela "grande imprensa".
Redação
A manifestação “Ocupar Wall Street” chega ao décimo dia ignorada pela grande imprensa e cada vez mais “gritante” na mídia alternativa e blogs. As milhares de pessoas permanecem acampadas no local, enfrentando policiais cada vez mais violentos.
Lawrence O´Donnel, apresentador de uma emissora de TV alternativa, mostra em seu programa “The last World” a cena de um jovem sendo agredido. Ele questiona: “Por que os policiais estão batendo neste rapaz?”
Em seguida, Lawrence reapresenta a mesma cena em câmera lenta e explica: “Os policiais estão batendo no jovem porque ele está armado com uma câmera de vídeo”. Outra cena do programa mostra duas mulheres gritando muito após terem sido atingidas por spray de pimenta. Lawrence condena a brutalidade: “As pessoas são inocentes, pacíficas, não podem ser agredidas nem presas”.
O que causa espanto ainda maior, acrescenta o jornalista, é a falta de reação de quem assiste ao espetáculo de horror de braços cruzados. “Ninguém faz nada a favor dessas pessoas”, denuncia, afirmando que a violência policial contraria a lei, é crime. Diz ainda que a ação policial tem uma explicação: o governo sabe que a manifestação não terminará enquanto a população nas ruas não for ouvida.
Um internauta posta o programa de Lawrence no Youtube e pede: “Por favor, transformem isto num viral”, explicando que tem poucas linhas para expressar o horror que está ocorrendo nas ruas. Ele assina “moodyblueCDN” na postagem.
Abaixo do vídeo, segue o comentário: “E aqui vamos nós aos bastidores de Matrix”, comparando a bem engendrada política imperialista ao enredo do filme de ficção científica, no qual os personagens têm os destinos traçados por máquinas e só podem romper esse circuito de manipulação quando surgir o salvador.
Outro vídeo da internet mostra os jovens e sua demanda: “quem for honesto nos dará apoio, quem for heróico se juntará a nós”.
Lucas Vazquez está entre os jovens de Wall Street, é um dos organizadores do protesto, segundo um vídeo. Ele dá uma declaração tranqüila, mostrando-se surpreso com a reação dos policiais.
Os dez dias de protestos já deram origem a um documentário, O verão da Mudança (Summer of Change), de Velcrow Ripper. Ripper navega na praia hippie dos anos 1960 ao propor: “Como esta crise global pode se transformar em uma história de amor?”. O documentário foi produzido pela Evolve Love.
(Carta Maior)
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