domingo, 9 de outubro de 2011

Pensamentando

Por Theotonio de Paiva*

A narrativa a seguir, caro leitor, poderá ser compreendida como uma peça literária de ficção, tanto quanto um relato minucioso de um acontecimento real, ocorrido numa grande cidade. Assim é, se lhe parece. Na certeza de que é sempre melhor tomarmos algumas precauções, as referências objetivas foram devidamente alteradas a fim de se evitar uma identificação grotesca que pudesse atingir pessoas inocentes.

Cidade de Mitra, hemisfério sul. Terça-feira, 16 de agosto de 2011, 14h40min. As luzes do vagão em que me encontro caem repentinamente. Resta ainda uma luminosidade baixa, quase neblínica. O carro parece que desliza por alguma inércia. Suponho que seja pelo feixe da última força de luz. Dessa forma, chegamos à Estação de Bernardone, a penúltima no sentido à zona das lembranças-mais-do-que-arcaicas.

Os passageiros ficam ansiosos. Uma jovem acompanhada pela mãe quer sair do carro a todo custo. Ela acabara de pôr o seu nome num caderno espiralado. Pergunto se seria a primeira aula de algum curso novo. A mãe comenta displicentemente que o interesse da menina não é na aula particular, dando a entender que a filha não suporta ambientes fechados. Mudamos de assunto. O que terá acontecido? Nada sabemos.

Na linha ao lado, um outro trem – é o que tudo indica – se encontra estacionado há algum tempo. Observamos distantes os seus passageiros que saem. Obedecem a um comando que muito em breve será empregado no veículo em que me encontro. As portas se abrem. Uma passageira traz a notícia captada pelo rádio ou algo assim: – Parece que um homem se matou.

Pela primeira vez, as vozes desencontradas começam a se firmar num registro mais ou menos compreensível. – Foi um senhor. – Teria se jogado em alguma estação. – As luzes foram desligadas para que realizassem o trabalho de recolhimento do corpo. – Foi suicídio mesmo ou terá se sentido mal? Às vezes se perde a consciência…

Insistentemente o comando central informa que a estação será fechada. Todos deverão se retirar daquele local. Esclarece ainda aquilo que os passageiros devem fazer e como se comportar. Há uma evidente preocupação em afastar de vez qualquer pânico. A voz martela: houve um problema com um cliente. Assim mesmo: anódino. Há a intenção manifesta de retirar, o que parece lógico, qualquer culpa da empresa.

Embarquei na estação anterior em direção à zona do futuro-do-presente-da-cidade. Pretendia convictamente chegar ao meu médico. Em vão. Encontro-me na estranha condição de testemunha ocular. Não é um trabalho agradável, embora fascinante.

Cruelmente a ordem urbana nos leva a uma dor cuja face deve permanecer oculta. Não há como escapar. A própria morte, na maioria dos seus termos, raramente rompe essa sinonímia. A solidão é a única companhia inevitável. Contrariando Bauman, a grita pelo processo identitário é quase nada frente ao anonimato urbano.

Tudo se desenrola muito rapidamente, apesar da lentidão que se nota na ação física das mulheres e homens que desembarcam da estação. Curiosamente a informação se estabiliza num patamar que antecede os temores. Nesse sentido, ela atende às expectativas do comando de voz quando registramos os comentários dos passageiros – às vezes os rancores e as ignorâncias – se cristalizando.

Uma senhora se irrita com o incidente. Ora, ela mesma testemunha provas de resistência. Graças ao seu deus, pôde encontrar a mais completa superação dos pesados sofrimentos. Portanto, como reconhecer, e, sobretudo, como aceitar aquilo impunemente? – Se matar?… Ela sinceramente não encontra razão.

Encaminhamo-nos para as roletas a fim de sermos ressarcidos do prejuízo causado por aquele ato extremado. Cada passageiro recebe o seu bilhete. Encontramo-nos numa espécie de dança macabra, cuja ritualística é percebida como uma oferenda às avessas: despojos fúnebres que confirmam, aos milhares, aquela experiência.

Do alto de um mezanino, distingue-se o carro da vítima. Funcionários do trem fazem uma espécie de cordão de isolamento impedindo o olhar de curiosos. Daquela distância, podemos observar com clareza a ação de alguns homens na plataforma. Dois deles se agacham junto ao terceiro vagão. Lá, provavelmente, deverá estar o corpo. E parece não restar dúvidas o quanto teria sido arrastado implacavelmente.

Pedem reforços, roupas adequadas e materiais para o resgate. Não há como permanecer mais tempo por ali. A hipótese do suicídio vai se revelando a mais plausível. Inclino-me por ela.

Encaminho-me para o nível do solo como se atravessasse uma época. Hesito em recorrer a uma imagem distante desse fato, mas muito próxima a mim afetivamente. Assim, me encontro quase na mesma medida daquele personagem do Jean-Louis Barrault, em Casanova e a Revolução [La Nuit de Varennes]. Ao final do filme, meio perplexo, meio resignado, ele avista a sua cidade. No entanto, ela ressurge outra: expressa o caos do nosso mundo contemporâneo, deixando para trás aquela densa história de dois séculos passados.

De minha parte, em minhas lembranças, perduram algumas sensações e experiências decorrentes daquilo tudo que se passou, mas encontro apenas ônibus cheios e a estação final fechada. A incredulidade dos rostos igualmente anônimos, que igualmente encontro, se reduz a uma expressão atônita a se perguntar: o que ocorreu?

Medito sobre aquele drama pessoal. Parece significar o fim de uma longa história, quem sabe, o seu trágico início, contada toda ela num flash-back. (Por sinal, espécie de recurso muito antigo na arte de narrar certos mitos.) E, então, o que esse drama quer nos dizer? Qual a sua medida de espanto? Em que medida o tabu que o cerca guarda o silêncio mais íntimo das civilizações? E mais: se pensarmos como se fôssemos movidos por aquela inércia que distinguimos frouxamente no deslocamento do carro, ainda assim poderemos nos indagar sobre o quanto esse mesmo drama nos comove?

Na página da imprensa do trem subterrâneo da Cidade de Mitra, vemos a seguinte nota, postada às 17h13min: “Todas as linhas operam normalmente na tarde desta terça-feira”.

* Theotonio de Paiva, dramaturgo e diretor de teatro, é doutor em Teoria Literária pela UFRJ. Mantém o blog Caderno ENSAiOS



(Outras Palavras)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

W. Street

Internacional| 05/10/2011 | Copyleft
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Ativistas falam sobre o movimento “Ocupar Wall Street”
Quatro ativistas discutem os objetivos do acampamento no distrito financeiro de Nova York. "Deveria estar razoavelmente claro para qualquer um que olhe o que está se passando no movimento Ocupar Wall Street que o objetivo é acabar com a influência corrupta dos extremamente ricos sobre a política democrática. Wall Street controla a América e nós nos opomos a isso", diz o jornalista Jesse Alexander Meyerson, de 25 anos.
Jesse Strauss - Al Jazeera

Em 17 de setembro, um grupo relativamente pequeno de pessoas frustradas com a crise financeira nos EUA e com a resposta que o governo do país deu a ela, acampou no Parque Zuccotti, na cidade de Nova York – próximo ao local onde estavam as Torres Gêmeas e próximo a Wall Street.

Uma semana depois, os nova-iorquinos começaram a acampar, 80 manifestantes foram presos e ao menos quatro foram atingidos por sprays de pimenta da polícia, quando marchavam pelo distrito financeiro de Nova York.

Depois de duas semanas, milhares de manifestantes se dirigiram à Ponte do Brooklyn e 700 foram presos, enquanto marchavam diretamente pelo famoso vão que dá nos bairros nova-iorquinos de Manhattan e do Brooklyn.

A ação se tornou conhecida como “Ocupar Wall Street”, um trending topic que se tornou viral no Twitter, no Facebook e, como os organizadores esperavam, nas ruas.

Enquanto esse texto era escrito, pessoas de aproximadamente 70 outras cidades dos EUA estavam tomando ou planejando tomar as áreas próximas aos centros financeiros, e acampando, marchando e tomando decisões coletivas a respeito de como fazer o melhor uso deste momento, usando o “Ocupar Wall Street” como exemplo. Ações de solidariedade estão ocorrendo ou sendo planejadas no Reino Unido, na Alemanha, na Austrália e na Bósnia.

Mas os aspectos principais desse movimento de ocupação de Wall Street permanecem indefinidos. O grupo não produziu nenhum conjunto de demandas e se orgulha de reunir as pessoas com base numa questão, em vez de visando a um objetivo.

A Al Jazeera falou com quatro ativistas que estão participando do movimento crescente de “ocupação” nos EUA, para ter algumas respostas a respeito de suas motivações, processos de tomadas de decisões, esperanças e dados demográficos.

Elliot Tarver (E.T), 21 anos, é um dos que tem participado da Ocupação de Wall Street organizando o processo desde o planejamento do primeiro encontro, no começo de agosto, e tem estado nas manifestações quase diariamente.

Jesse Alexander Meyerson (JAM), 25, é um jornalista de Nova York que está trabalhando no comitê de apoio ao trabalho da Ocupação de Wall Street.

Mohamed Malik (MM), 29 é ex-diretor executivo do Conselho de Relações Islamo-Americanas no sul da Flórida e hoje está desempregado, organizando o movimento Ocupação de Miami, no estado da Flórida, que está para ser lançado em 15 de outubro.

Malcom Sacks (MS), 22, é um ativista nova-iorquino que tem participado da ocupação do Parque Zuccotti.

AlJazeera – Você poderia explicar, da maneira mais simples possível, o propósito do movimento Ocupar Wall Street? O que vocês estão comunicando e o que significa ter um protesto sem um objetivo definido?

ET: Ocupar Wall Street é um movimento crescente de pessoas que se juntaram por várias razões diferentes – é bastante amplo e não há qualquer estabelecimento explícito de demandas, embora implicitamente, ao se estar em Wall Street tomando a rua com todas as ações que temos feito, estas sejam pessoas que estão com raiva do modo como as corporações e a política e o dinheiro controlam as suas vidas e a sua maneira de viver e respirar e como funciona a sociedade, e que tem algum tipo de visão de um mundo diferente que existe além da ganância, do racismo, do patriarcalismo, do poder corporativo e da opressão política.

MS: Esta é uma expressão da frustração diante do sentimento de que o processo político está sendo comandado por interesses econômicos e em particular pelas corporações gigantes.

MM: Quando as pessoas usam a palavra “ocupar”, o que elas querem dizer é: trazer as pessoas para o papel no qual elas produzam realmente decisões políticas, sobretudo no que concerne à economia e ao nosso bem estar. O modo como as instituições operam no tipo da sociedade em que vivemos não é muito condizente com altos níveis de participação democrática. Eu penso que as pessoas se sentem frequentemente deixadas de lado, desconectadas. Nós temos essas elites em nossa sociedade que na verdade nos fazem questionar se vivemos de fato numa democracia, ou se na verdade vivemos numa plutocracia – um país controlado pelas elites? Neste caso, por uma elite econômica.

JAM: Deveria estar razoavelmente claro para qualquer um que olhe o que está se passando no movimento Ocupar Wall Street que o objetivo é acabar com a influência corrupta dos extremamente ricos sobre a política democrática. Eu realmente não acredito que as pessoas não entendam o que está em jogo aqui. Wall Street controla a América e nós nos opomos a isso.

Só porque não há uma determinada carta de exigências passando de mão em mão, ou alguma lei a ser anulada, isso não deveria nos fazer acreditar que é de algum modo não unificado ou um gesto sem sentido. O sentido está claro.

[Ocupar Wall Street] não é apenas um protesto político, mas também um modelo de sociedade, o que eu penso que é o protesto político verdadeiramente interessante – isto é a própria demanda.

Houve movimentos sociais plenos de sentido antes, sem serem unificados, sem terem uma lista coerente de demandas, e houve movimentos, antes, nos quais as demandas levaram anos para serem desenvolvidas – ao passo que a ocupação [de Wall Street] durou 16 dias até agora.

Em 1949, seria inconcebível que, em 1968, camaradas negros tivessem o direito de votar...Assim como no fim de dezembro de 2010, não havia um só americano expert ou estudioso do Oriente Médio prevendo que, por volta de 25 de janeiro, a Praça Tahir, no Egito estaria fervendo de gente e que, não muitas semanas depois, Hosni Mubarak teria sido deposto.

AlJazeera: O alvo é claro: Wall Street e os americanos mais poderosos e ricos que tomam as decisões que causaram ou levaram adiante a crise econômica. Quem está participando?

MS: Em geral, todos os sequelados da crise econômica, nos EUA, ao menos; é um tipo de resposta à crise econômica que finalmente está atingindo as pessoas. Eu penso que isso é um reflexo dessa crise. As pessoas não brancas nos EUA tem vivido num certo estado de crise, em termos de desemprego e falta de representação política e de falta de apoio do estado frente as suas dificuldades econômicas, nas últimas centenas de anos. Finalmente [esta crise, agora] aparece como crise para a maioria, inclusive a classe média e os trabalhadores brancos, e é por isso que temos visto pessoas brancas à frente das manifestações e ocupando espaço nesses protestos.

ET: Mesmo que a maior parte do espectro demográfico do grupo tenha começado com a classe média branca e com estudantes de graduação, o quadro se tornou muitíssimo mais diverso. Mesmo que isso tenha mudado, as pessoas que se sentem apoderadas e que tem condicionado toda a sua vida para se sentirem confiantes, confortáveis, líderes de um grupo e para falarem para centenas de pessoas são mais aquelas pessoas oriundas de posições privilegiadas – homens brancos em particular – e eu penso que isso é algo que precisa ser fortemente enfrentado.

AlJazeera: Como o grupo decide levar adiante alguma ação específica? Qual é o processo de tomada de decisão do grupo?

ET: O processo é a realização de assembleias gerais duas vezes por dia. Qualquer pessoa pode fazer uma proposta, uma declaração, ou ter um ponto a defender, e as coisas são decididas por consenso.. em vez de simplesmente ser eleito um grupo de líderes que irão decidir as coisas juntos, em seu pequena bolha fechada.

Uma grande tarefa é traduzir a nós mesmos e nos tornarmos mais acessíveis às pessoas que não entendem de fato o que significa tomar decisões horizontalmente – o que significa que não há um líder único que tenha controle e diga a todos o que fazer.

MS: Eu discordo. Estou hesitante em dizer que não há hierarquia, que não há liderança, porque eu realmente penso que há um núcleo de pessoas – jornalistas – que estão fazendo muito da organização e dando uma forma à imagem pública da coisa. Eu e outros camaradas temos encontrado resistência nas lideranças para incorporarem outras ideias ao trabalho e para pensarem criticamente a respeito do que está acontecendo.

Tentamos falar com um dos camaradas da mídia a respeito do problema de não haver gente não branca no movimento e o do problema dessas pessoas não se sentirem confortáveis em participar, e houve resistência da parte deles em reconhecer isto. Eles afastam as críticas dizendo: “Se alguém quiser se envolver pode se envolver. Se quiserem ser representados, eles simplesmente vem e podem fazê-lo, também”. Eu penso que isso é denegar a dinâmica real do poder que está em jogo agora. Eu não estou certo de se este é um modo de a liderança afastar a responsabilidade ou se eles realmente não pensam que estão exercendo poder no movimento.

AlJazeera: Vários sindicatos e organizações não lucrativas estão planejando uma marcha, no dia 5 de outubro, em apoio ao movimento Ocupar Wall Street. Só o sindicato dos trabalhadores no transporte público de Nova York representa 38 000 trabalhadores. O que isso significa e por que é importante?

ET: Eu acho que será realmente grande a marcha, em termos de mobilização das pessoas – pessoas provavelmente mais afetadas por um grande número de medidas de austeridade a que estão respondendo. Eu acho que isso tem um potencial de mudar o espectro demográfico do protesto – ao trazer trabalhadores e mais pessoas não brancas.

JAM: Eu acho que os sindicatos de trabalhadores e outros grupos viabilizam e fornecem a engrenagem para as necessidades daqueles que não têm voz, para os empobrecidos, etc., reconhecerem que esse movimento Ocupar Wall Street que está chamando a atenção de todo o país e todo o mundo tem pessoas realmente comprometidas, que não têm se sentido mobilizadas a dar outras respostas à crise.

De um modo mais cínico e insensível, pode-se suspeitar de que o que as grandes instituições querem é se aproximar, cooptar o movimento, impor a sua agenda a quem está na luta. Mas no meu modo de ver mais generoso, o que eu diria é que os sindicatos ajudariam esse movimento a crescer e expandir e a conseguir criar um movimento social ampliado, porque eles reconhecem que estamos em busca da mesma coisa: a classe oprimida e o desmantelo do poder dos ricos sobre a política.

AlJazeera: Olhando para a frente, o que podemos esperar do Ocupar Wall Street?

MS: Alguém ontem foi citado, dizendo: “ficaremos aqui enquanto pudermos”. Mas isso significa que, assim que eles disserem “vocês não podem ficar”, todo mundo vai embora? Você não pode de fato dizer qual a direção que essa coisa está tentando tomar, ela está simplesmente buscando existir. Eu sou cético a respeito de onde isso pode dar, mas apoio o movimento, porque penso que está claro que a sua existência, mesmo que não vá a lugar algum, é de muita importância.

ET: Agora está crescendo diariamente e o seu fim não parece próximo.

Tradução: Katarina Peixoto
(Carta Maior)

Obama

A Paz de Obama é a Guerra!
Por Ali El-Khatib

Barak Obama em seu discurso recente na 66ª Assembléia Geral da ONU ultrapassou o limite da arrogância e por que não dizer fora do rumo da história.
A paz da guerra necessária defendida por Obama, não interessa aos palestinos que desde 1948 sofrem todo tipo de humilhação, discriminação e agressão militar por parte de Israel com total apoio dos Estados Unidos.
Interessante é que os estadunidenses se apregoam como os defensores da liberdade e da democracia para todos os povos do mundo, mas negam no caso palestino. Por que esta parcialidade sempre em defesa de Israel? Será que o povo palestino mão merece a democracia tão apregoada por Obama?
Sim, os palestinos querem a democracia, mas não a democracia que os EUA levaram ao Iraque e à Líbia. Os palestinos querem ter seu estado, livre, soberano, democrático, com capital em Jerusalém e que seu povo tenha direito ao justo retorno.
Fica claro que Obama comete um retrocesso em sua política para o Oriente Médio esquecendo-se da Primavera Árabe, os anseios de transformação de toda a sociedade, de melhor forma de vida, trabalho, educação, bem estar e justiça social. Os EUA estão perdendo seus principais parceiros árabes como o Egito e possivelmente a Arábia Saudita. Até parece que Obama quer desencadear uma nova intervenção bélica na região.
A responsabilidade da comunidade internacional em acabar com as práticas expansionistas de Israel, apoiadas incondicionalmente pelos Estados Unidos que pode vetar no Conselho de Segurança da ONU de admissão da Palestina, com base nas fronteiras de 4 de junho de 1967, com Jerusalém Oiental como sua capital, como membro pleno das Nações Unidas. As discussões do Conselho de Segurança vão até o fim de outubro, e podem se estender até novembro.
A Limpeza Étnica
Os palestinos já romperam as barreiras do medo e do silêncio. Em suas Intifadas deixaram claro que a disposição em conquistar seus direitos é ilimitada.
A Intifada gerou um cenário único. Saíram às ruas com pedras contra um dos exércitos mais poderosos do mundo. Mostraram sua indignação ao sofrimento, humilhação coletiva de um sistema repressivo de um estado agressivo, expansionista que está sufocando todo um povo milenar através da limpeza étnica como bem define o historiador israelense Ilan Pappe.
Israel procura de todas as formas inverter a verdadeira história. Pappe em seu livro A Limpeza étnica na Palestina deixa muito claro como foi a partilha da Palestina promovida pela ONU que a dividiu em três regiões: a palestina com 818 mil palestinos e 10 mil judeus em 42% de suas terras; a judaica com 499 mil judeus e 438 mil árabes em 56% da terra e Jerusalém internacionalizada, com 200 mil de cada comunidade em 2% da terra. Os palestinos maior parte da população com 1.456.000, ficaram com 42% de suas terras e hoje somente com 22% e totalmente ocupados pelas forças israelenses.
O muro da vergonha
O muro de Israel que continua sendo construindo na Palestina tem mais de 700km e tem aproximadamente 9m de altura. O de Berlim, levantado em 1961, tinha em torno de 155 km e 3m de altura. É a brutalidade da história se multiplicando.
A Assembléia Geral da ONU decidiu, em dezembro de 2003, dirigir à Corte Internacional de Justiça a seguinte consulta: “Quais são as conseqüências legais da construção do muro que vem sendo construído por Israel, o poder ocupante, no Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental e perímetro urbano, como descrito no relatório do Secretário Geral, considerando-se as regras e princípios da lei internacional, incluindo a Quarta Convenção de Genebra, de 1949, e as resoluções relevantes do Conselho Geral e da Assembléia?”
Ao ver o mapa da Palestina fica claro que o muro não cerca a Cisjordânia, mas é construído dentro do território ocupado. Os palestinos ficam confinados em verdadeiros bantustões com restrições de ir e vir violando totalmente sua liberdade como nação. O Muro, além dos checkpoints, separa os camponeses de suas terras férteis, as famílias são separadas, os estudantes impedidos de irem às escolas, os doentes, as mulheres grávidas chegam a morrer antes de chegar aos hospitais.
Natanyahu ainda se julga no direito de culpar os palestinos por não quererem negociar. Negociar o quê, se já lhes foi tirado tudo? Agora vem com esta conversa que os palestinos têm que aceitar o Estado Judeu e que Israel continuará implantando novos assentamentos na Cisjordânia.
Os governantes israelenses dizem que os palestinos não querem a paz, mas são eles que ocuparam 78% das terras palestinas, violaram todas as leis internacionais, construindo assentamentos, anexando as Colinas de Golã a Região de Shibhaa do Líbano e o pior Jerusalém Oriental. Hoje, a Palestina virou um grande Campo de Concentração a céu aberto sob constante repressão do exército de Israel onde os direitos humanos são violados diariamente. Israel confisca a água palestina, degrada o meio ambiente, pratica a demolição de casas, escolas e hospitais. Devemos lembrar que O Estado de Israel teve um início conturbado, uma vez que os colonos sionistas passaram a colonizar a Palestina a partir dos anos 30.
ABBAS na ONU
Em seu discurso na 66ª Assembléia Geral da ONU , o presidente palestino Mahmoud Abbas reforçou a disposição palestina em negociar em todos os momentos aceitando as Resoluções da ONU, mas que são desconstruídas sistematicamente por Israel intensificando-se após os Acordos de Oslo.
Os relatórios das missões das Nações Unidas, bem como de várias instituições israelenses e das sociedades civis, transmitem uma imagem terrível sobre o tamanho da campanha de colonização, da qual o governo israelense não hesita em se gabar e que continua a executar por meio do confisco sistemático de terras palestinas e da construção de milhares de unidades de novas colônias em diversas áreas da Cisjordânia, especialmente em Jerusalém oriental, e da construção acelerada do Muro de anexação, que consome grandes extensões da nossa terra, dividindo-a em ilhas separadas e isoladas e cantões, destruindo a vida familiar, as comunidades e os meios de subsistência de dezenas de milhares de famílias.
A potência ocupante também continua suas incursões em áreas da Autoridade Nacional Palestina por meio de ataques, prisões e assassinatos nos checkpoints. Nos últimos anos, as ações criminosas das milícias de colonos armados, que gozam da proteção especial do exército de ocupação, intensificou-se com a perpetração de ataques freqüentes contra nosso povo, tendo como alvo casas, escolas, universidades, mesquitas, campos, plantações e árvores. Apesar de nossas repetidas advertências, a potência ocupante não agiu para conter esses ataques, e nós a consideramos totalmente responsável pelos crimes dos colonos.
O pronunciamento da presidente Dilma, primeira mulher a fazer a abertura solene da Assembléia Geral da ONU, sem dúvida fortaleceu o apoio internacional.
É bom lembrar sempre os ensinamentos de Edward Said, em um de seus brilhantes artigos “nenhuma cultura ou civilização existe isolada das outras, nenhuma entende estes conceitos de individualidade e de iluminismo como sendo completamente exclusivos. Nenhuma, existe sem os atributos humanos fundamentais que são a comunidade, o amor, a valorização da vida e de todo o resto”.
A Paz para a Palestina significa também a paz para Israel, razão pela qual Israel e os EUA deveriam ser os primeiros a apoiar a criação do Estado da Palestina.
Israel não está entendendo o que acontece,
Israel não quer a Paz.
Obama não quer a Paz.
Querem a guerra e seus vultuosos lucros.
Querem continuar a limpeza étnica do Povo Palestino.
Israel em um momento histórico responde com insanidade e desprezo ao mundo desrespeitando a comunidade internacional e avisa que construirá mais 1.100 casas em Jerusalém Oriental, ocupada militarmente.
Ali El-Khatib é sociólogo, superintendente do Ponto de Cultura Árabe - Instituto Jerusalém do Brasil e coordena o NEAF – Núcleo de Estudos e Pesquisa Árabes da FACAMP.

(Caros Amigos)

Grécia

O povo da Grécia luta pela construção do futuro
Escrito por Miguel Urbano Rodrigues
Quarta, 28 de Setembro de 2011





O agravamento da crise nos países do sul da zona euro intensificou o debate ideológico na Europa. Os governantes, os banqueiros, os dirigentes das transnacionais e a mídia dita de referência repetem monocordiamente que não há alternativa ao capitalismo. Mas é indisfarçável o seu mal-estar perante o avolumar da contestação ao sistema.



Os responsáveis pela recessão e pelo desemprego de dezenas de milhões de trabalhadores constatam que as guerras de agressão imperiais e o saque dos recursos naturais dos povos do Terceiro Mundo não trazem solução à crise estrutural do capitalismo.



Enquanto prosseguem políticas impostas pelo capital que descarregam o custo da crise sobre as suas vítimas, desenvolvem um grande esforço para evitar que os protestos contra o sistema de opressão atinjam um nível que ameace a sua continuidade. Nesse contexto, as campanhas para promover a alienação das massas são especialmente perversas. O objetivo é impedir que os trabalhadores tomem consciência do funcionamento da engrenagem da falsa democracia representativa (que na realidade é uma ditadura de classe) e se mobilizem para um combate permanente e frontal contra o sistema.



A tese bolorenta segundo a qual, através de lentas reformas aprovadas pelos Parlamentos, o capitalismo pode evoluir, humanizando-se, é retomada em toda a Europa pelas classes dominantes. Os governantes repetem que a via eleitoral, a única democrática, aponta o rumo certo para que as reivindicações dos oprimidos se concretizem numa atmosfera de paz social. Tudo se resolveria afinal num diálogo sereno entre o capital e o trabalho, entre os chamados parceiros sociais e o patronato.



Um discurso complementar desse é o dos intelectuais que, afirmando ser antiimperialistas e anti-neoliberais, proclamam que a saída da crise depende da ação dos movimentos sociais. Mas excluem todas as formas de violência na luta que deveria visar reformas graduais.



A criminalização do socialismo e dos partidos operários marxistas-leninistas é uma constante na teorização desses senhores. Nessas campanhas desempenham um papel fundamental os social-democratas.



Não é de estranhar que as forças da direita e os partidos social-democratas tenham recebido com mal disfarçada simpatia a formação do chamado Partido da Esquerda Européia, ao qual aderiram muitos partidos comunistas do velho Continente (o grego e o português foram exceções). Tão benévola atitude é compreensível porque essas organizações se opõem à radicalização da luta de massas, defendendo elas também estratégias reformistas que na prática anestesiam a combatividade dos trabalhadores, neutralizando-os como força de choque.



Lições da História



A comunicação apresentada no Rio pelo representante do Partido Comunista da Grécia, no Seminário promovido pelo Partido Comunista Brasileiro para comemorar o 140º aniversário da Comuna de Paris (ver odiario.info, 18/09/11), é um documento importante que contribui para a clarificação do debate ideológico inseparável de grandes lutas contemporâneas.



É oportuno lembrar que a burguesia francesa não hesitou em se aliar em 1871 ao exército prussiano após a derrota da França, para massacrar na Paris revolucionária os comunards comunistas.



Essa aliança contra natura, rica em ensinamentos para quantos lutam hoje contra o capitalismo, confirmou então uma realidade enunciada por Marx: o capital não tem pátria.



O comunista grego alertou para uma evidência: o Estado burguês não pode ser utilizado contra os interesses da classe dominante. Por outras palavras, as instituições criadas pela burguesia para lhes servir não podem funcionar como trampolim para o socialismo.



Na América Latina, em regimes presidencialistas tem sido possível eleger presidentes com programas anti-neoliberais com pendores socializantes. Mas o resultado desses processos não permite otimismo. No Chile, "a via pacífica para o socialismo" terminou num golpe sanguinário. No Brasil, na Argentina e no Uruguai, Lula, os Kirchner e Tabaré Vasquez arquivaram compromissos assumidos com o povo e levaram adiante políticas que favoreceram o grande capital, aprovadas pelo imperialismo. E na Venezuela, na Bolívia e no Equador, o desfecho das corajosas opções de Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa suscita interrogações sem resposta.



Na União Européia, é ilusória a idéia de que possa instalar-se no poder qualquer governo empenhado em aplicar um programa de esquerda ambicioso. A "democracia parlamentar" é, na prática, uma ditadura da burguesia de fachada democrática.



Um luar de esperança



O Partido Comunista da Grécia presta um serviço aos trabalhadores de todo o mundo ao sublinhar que o Estado burguês tem de ser totalmente destruído. Reformas cosméticas não alteram a sua essência de instrumento de opressão dos explorados.



As lutas dos trabalhadores por reivindicações em múltiplas frentes são não apenas necessárias como indispensáveis. Vitórias setoriais abalam o poder da burguesia e fortalecem a combatividade das massas, mas essas vitórias são ineficazes se não se inserirem numa estratégia de ruptura com o sistema. No âmbito de uma ruptura com a política de um governo, mas dentro do sistema, são neutralizadas.



O mesmo se pode dizer da ação dos Movimentos Sociais. O papel desempenhado por muitos deles foi útil, contribuiu para o desmascaramento e desprestígio do neoliberalismo. Mas o imperialismo logo se apercebeu de que o caráter espontaneísta da contestação ao sistema não configurava uma ameaça real. Algumas ONGs são instrumentos da CIA; uma porcentagem ponderável é dirigida por social-democratas anticomunistas. A evolução do próprio Fórum Social Mundial – aliás, rapidamente infiltrado por políticos a serviço do capital (até Mário Soares!) – demonstrou precisamente isso. Em breve, controlado por social-democratas, passou a defender a impossível humanização do capitalismo.



A mensagem transmitida ao mundo pelo Partido Comunista da Grécia no Rio de Janeiro vale por um convite à reflexão sobre o papel decisivo e insubstituível do partido revolucionário marxista-leninista nas grandes lutas sociais do nosso tempo.



O seu representante nos lembrou que na Grécia houve mais de 20 greves gerais desde 2010, e muitas setoriais. A mobilização maciça dos trabalhadores foi possível devido ao elevado nível da consciência de classe e de consciência política de uma parcela importantíssima do povo grego. Uma frente muito ampla de organizações e forças progressistas – o PAME – uniu partidos, sindicatos, federações e comitês de orientação classista em torno de objetivos consensuais.



A luta permanente das massas, travada em condições dificílimas, sob uma repressão violenta, não visou uma ruptura imediata orientada para a tomada do poder a curto prazo.

O Partido Comunista – o KKE – sabe que tal meta é inatingível na atual conjuntura. A reafirmação da exigência da destruição do Estado burguês não significa que esse objetivo tenha data no calendário.



Numa atmosfera de tensão diária, de denúncia da política de vassalagem perante as imposições da União Européia e do imperialismo estadunidense, o KKE, sem medo das palavras, defende há anos um programa revolucionário. Sustenta com firmeza que a socialização dos meios de produção básicos é, na Grécia, uma exigência da História, assim como a da banca e a das telecomunicações e transportes. Exige a gratuidade total da saúde, da educação e da previdência. E, agora, defende a saída da União Européia, da OTAN e do euro.



Reivindicações essas inaceitáveis para o Estado burguês. Mas justas, traduzindo aspirações profundas de um povo que não esquece a repressão selvagem do exército britânico, em 1945, quando, no final da guerra, expulsos os nazistas alemães, os trabalhadores estavam prestes a conquistar o poder para construir uma sociedade progressista e livre.



Foi essa tenacidade e lucidez na luta do KKE que viabilizou o surgimento do PAME, como organização frentista de perfil revolucionário.



Enquanto de Washington a Berlim os governos do capital, alarmados com a crise pantanosa em que estão atolados, apresentam da Grécia a imagem de uma sucursal do inferno, mundo afora milhões de oprimidos acompanham com admiração e respeito o combate dos trabalhadores revolucionários do país que foi berço de uma civilização que marcou indelevelmente o rumo da humanidade.



A arrogância e o poder do imperialismo desencorajam hoje, é um fato, milhões de pessoas. Mas a maioria das grandes revoluções antigas e contemporâneas irrompeu contra a lógica aparente da História. Os povos, quando destruíram uma ordem social que para eles se havia tornado não somente ilegítima como insuportável, nem sempre pensaram no futuro imediato.



Acumulada, a opressão, ao ultrapassar determinado limite, gera nas vítimas uma quase indiferença perante a morte. E chega um momento em que o desespero, ao generalizar-se, em efeito epidêmico, disponibiliza as massas para lutas que conduzem a rupturas revolucionárias. Isso aconteceu com a Revolução Francesa de 1789, com as Revoluções Russas de Fevereiro e Outubro de 1917, e na segunda metade do século passado no Vietnã, em Cuba, na Argélia.



Em Portugal, era imprevisível que o golpe militar de 25 de Abril fosse o prólogo de uma revolução que iria abalar o mundo, a mais profunda na Europa Ocidental pelas suas conquistas desde a Comuna de Paris.



Manter a esperança firme não é uma atitude romântica, é um dever comunista. O representante do KKE admitiu no Brasil que "o século XXI será marcado por uma nova onda de revoluções socialistas".



Faço minha a sua convicção.



Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor, ex-parlamentar pelo Partido Comunista de Portugal.



O original encontra-se em http://www.odiario.info/?p=2214

Última atualização em Qui, 29 de Setembro de 2011

(Correio da Cidadania)

EUA

apitalismo repudiado nos EUA
Barack e Michelle Obama se casaram no dia 03 de outubro de 1992, em Chicago. Completaram, portanto, na última segunda-feira, 19 anos de casados. Mas a comemoração aconteceu no último sábado.

Mal terminou o discurso em um evento promovido por uma organização de direitos dos gays, em Washington, Obama se apressou em buscar sua Michelle, que o esperava prontinha na porta de casa, para levá-la ao luxuoso restaurante Eva, em Alexandria, Virginia, a sete milhas da Casa Branca.

O preço médio do Eva – um restaurante exclusivo, para apenas 34 pessoas - é de 150 dólares por cabeça. Caro para nós, pobres mortais, mas não para o presidente dos EUA.

O dono do restaurante prefere não divulgar o prato que o primeiro casal degustou, mas jornalistas apuraram que eles comeram salada de tomate com manjericão, contendo legumes cultivados com exclusividade, queijo gruyere, lagosta do Maine, cozida na manteira, com milho do Eastern Shore, servida com molho tártaro e basil, e otras cositas más.

Feliz da vida, Michelle disse que o segredo da longevidade do casamento é rir e não levar as coisas muito a sério em casa.
No mesmo sábado em que o presidente e a mulher comiam lagosta do Maine, 700 pessoas eram presas em Nova York no protesto chamado "Occupy Wall Street" (Ocupar Wall Street), que está entrando em sua terceira semana.

Os manifestantes, que protestam contra a ganância do sistema financeiro e a acumulação da riqueza nas mãos de poucos, resolveram marchar sobre a Ponte do Brooklin. A marcha ia bem até que os manifestantes fecharam a ponte ao tráfego, provocando a intervenção da polícia que efetuou centenas de prisões.

O objetivo dos ativistas é ocupar a área sul de Manhattan, onde está a famosa Wall Street, com 20 mil pessoas. Todos estão dormindo nas ruas e prometem ficar acampados durante meses, se for preciso.

Depois de vários enfrentamentos com a polícia, um dos líderes do movimento destacou que "este não é um protesto contra a polícia de Nova York. É um protesto de 99% da população contra o poder desproporcional de 1% que controla 50% da riqueza do país". E incentivou a polícia a juntar-se aos manifestantes.

“Occupy Wall Street”, que começou com meia dúzia de gatos pingados, na verdade gatas pingadas, porque o movimento partiu de mulheres preocupadas com o destino dos filhos, que acabariam a universidade e não teriam onde se empregar, transformou-se em uma extraordinária manifestação contra o sistema capitalista, mesmo que a maioria dos participantes não tenha consciência do que isso significa.
Da desorganização inicial e da sabotagem da mídia tradicional, o movimento ganhou força a cada dia. Conquistou o apoio de artistas e intelectuais de pensamento progressista, como o cineasta Michael Moore e a atriz Susan Sarandon. Já tem até um jornalzinho, o `The Occupied Wall Street Journal` .
O curioso é que o movimento – que hoje se espalha por cidades importantes, como Chicago e Boston – não é aparentemente partidário ou especificamente contra o governo Obama. A raiva dos manifestantes, a maioria jovem, é contra o sistema que socorre bancos, enquanto faz vistas grossas para o crescimento da pobreza, como provam os números do Censo. O povão está nas ruas pedindo que "não alimentem os bancos" e "taxem os ricos".
O descontentamento popular repudia o sistema tributário – denunciado outro dia pelo bilionário Warren Buffett – que privilegia os ricos com isenções e deduções que não estão ao alcance dos assalariados. No fim, o imposto pago pelos mais ricos é, percentualmente, menor do que o que é tomado à força de quem vive de salário.
Até agora a classe política prefere ignorar o movimento. Os republicanos se desgastam em debates televisivos para definir os nomes dos que serão levados à Convenção do partido que vai escolher o adversário de Obama no ano que vem. E este, com poucas chances de tirar a economia do buraco em que se encontra, tenta conquistar o apoio da classe média, dos pobres e das minorias.
Mas voltando à ocupação de Wall Street, cá pra nós, creio que nem o mais empedernido comunista do século passado poderia imaginar que surgiria uma revolta contra o sistema capitalista de distribuição da riqueza dentro dos Estados Unidos, melhor ainda, em Wall Street, o templo da ganância, da especulação e do desprezível capitalismo selvagem.
Agora, é aguardar os próximos passos do movimento e até onde vai sua força.
(Direto da Redação)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

PT

ntrevista Lincoln Secco

"O PT é a esquerda que o Brasil conseguiu ter"

O professor da USP acaba de lançar livro em que analisa a trajetória do PT e fala sobre o papel de Lula na história da agremiação

Por Júlio Delmanto

“O PT ampliou o seu discurso para cima (burguesia) e para baixo e conquistou parte das classes desamparadas. Assim, não podemos negar que Lula e o PT tiveram a capacidade de compreender as contradições sociais de seu tempo. Eles encontraram a forma na qual as contradições podiam se mover. E este é, no fim das contas, o método pelo qual elas são resolvidas segundo disse Marx. Ao menos até o instante em que o leito em que adormecem os conflitos se torne estreito demais para acomodá-los.”

O parágrafo final do livro História do PT (Ateliê Editorial), de Lincoln Secco, professor da matéria desde 2003 na USP, resume bem o tom e os objetivos da obra recém publicada. Como aponta o autor, não há uma história do Partido dos Trabalhadores, nem mesmo uma oficial feita pela agremiação que governa o país desde 2002.

A partir de um olhar que “não se pretende nem oficial nem de um dissidente”, é a complexidade da trajetória de um partido que nasce negando as vanguardas e o Leste Europeu, em meio a diversidade de formas políticas que voltaram a ganhar fôlego com o ocaso da ditadura configura- se com uma inédita convivência de tendências e com o tempo acaba colocando como horizonte organizador da vida partidária não mais estas tendências, mas os parlamentares e o jogo institucional que Lincoln Secco (autor também de Caio Prado Júnio - o sentido da revolução - Boitempo) apresenta e analisa em seu novo livro, e sobre a qual conversou com a Caros Amigos na entrevista que segue.

Caros Amigos - Em primeiro lugar, gostaria que você comentasse o que o motivou a escrever esta história do PT. Nota-se que há preocupação em que o livro seja leve e acessível ao público em geral, para além da academia, gostaria que comentasse essa opção também.

Lincoln Secco - Eu notei que não havia uma história abrangente do PT e que agora era o momento de alguém fazer isso, porque o PT passou por todas as fases possíveis, das greves do ABC paulista ao governo do Brasil. Eu também fui testemunha ocular de algumas coisas, embora na base do partido. Assim, pude ver bagrinhos de ontem tornarem-se os capas pretas de hoje, como se diz no jargão petista. Numa condição assim, eu nem poderia fazer uma obra estritamente acadêmica. Além disso, eu acho que a história do PT pode ser lida de maneira mais equilibrada pelos jovens que nem tinham nascido em 1989, por exemplo, e por um público amplo, politizado, mas nem sempre partidarizado.

Em diversos momentos do começo da história do PT você tem o cuidado de ressaltar o número de vezes em que a palavra “socialismo” é pronunciada, em encontros e documentos, por exemplo. É possível dizer que o PT nasce como um partido socialista?

Ele nasce como espaço em disputa por muitas tendências socialistas ou não. Florestan Fernandes achava que o PT era operário e socialista, ainda em 1990. Ele tinha que dizer isso, porque estava disputando o PT. Eu sempre fui admirador dele no partido e ainda penso que ele foi o intelectual mais importante que o PT teve. Mas hoje, vejo que o PT nasceu com linguagem radical e extraparlamentar até que se tornasse o contrário disso por volta de 1990. Ou seja: o futuro do PT não estava definido em 1980, mas uma vez que o caminho trilhado se completou, nós podemos vê-lo como uma típica trajetória social democrata.

Em seu livro notam-se algumas datas chave na história do PT, como 1978, 1984, 1989, 2002 e 2005. Algum destes momentos pode ser destacado como mais marcante nesta trajetória?

É difícil escolher. Mas eu apontaria dois muito próximos: a chegada de Lula à presidência em 2002 e a crise do PT em 2005, quando pareceu que Lula poderia ter sofrido um impeachment de consequências mortais para o partido.

Você destaca muito o papel, retórico e prático dos núcleos de base na trajetória do PT, especialmente nos anos 1980. A perda de importância dos núcleos é causa ou consequência da crescente priorização da via eleitoral na vida do partido?

Esta é uma excelente questão, porque ambos os processos andaram combinados. Eu diria que um alimenta o outro. Como eu mostro no livro, os núcleos do PT não desapareceram. Eles estão aí ainda hoje. Por outro lado, mesmo no início eles tinham dificuldade de influenciar a vida partidária. A tensão dialética entre o impulso eleitoral e a força militante se resolveu na forma de um partido ao mesmo tempo parlamentar e hegemônico nos movimentos sociais. Mas lembremos que a burocratização não foi só do PT. Não ocorre o mesmo com a CUT e, em menor medida, com a UNE e o MST?

O PT teve, desde seu início, forte ligação com movimentos sociais. Como você avaliaria o peso de movimentos como CUT e MST na história do PT? O partido sempre criticou a tática de movimentos serem utilizados como “correia de transmissão” de ideais partidários, é possível dizer que, com o tempo, o próprio PT acabou atuando desta forma em relação aos movimentos sociais?

O que aconteceu é que os movimentos sociais também se submeteram à lógica da sociedade que os acolheu. Assim como o PT foi se inserindo na Ordem, os movimentos também foram. A situação mudou em 2002. Ali, sim, os movimentos se submeteram, mas não ao PT e sim ao Governo Federal. O próprio PT submeteu-se inteiramente ao governo.

Qual o papel que a derrota nas eleições de 1989 tem na trajetória subsequente do PT? Caso Lula vencesse, seria possível governar o país com as proposições e a conjuntura daquele momento?

Como historiador, eu devo dizer que só em circunstâncias muito específicas me interessa o que deveria ou poderia ter acontecido. Esta é uma delas, porque nos faz pensar nas vias que a esquerda tentou para chegar ao poder na América Latina. É provável que a um hipotético Governo Lula, em 1990, fosse um fracasso do ponto de vista econômico e terminasse desmoralizado pela inflação, embora não por corrupção, como aconteceu com Alan Garcia no Peru. Mas o que importa é o fato de que a derrota foi importantíssima para que o PT escolhesse de vez o caminho da integração à Ordem estabelecida, até mesmo expulsando as tendências que não concordavam com o aggiornamento.

Para ler a entrevista completa e outras matérias confira edição de setembro da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou clique aqui e compre a versão digital da Caros Amigos.

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(Caros AMIGOS)

Grécia

O povo da Grécia luta pela construção do futuro
Escrito por Miguel Urbano Rodrigues
Quarta, 28 de Setembro de 2011





O agravamento da crise nos países do sul da zona euro intensificou o debate ideológico na Europa. Os governantes, os banqueiros, os dirigentes das transnacionais e a mídia dita de referência repetem monocordiamente que não há alternativa ao capitalismo. Mas é indisfarçável o seu mal-estar perante o avolumar da contestação ao sistema.



Os responsáveis pela recessão e pelo desemprego de dezenas de milhões de trabalhadores constatam que as guerras de agressão imperiais e o saque dos recursos naturais dos povos do Terceiro Mundo não trazem solução à crise estrutural do capitalismo.



Enquanto prosseguem políticas impostas pelo capital que descarregam o custo da crise sobre as suas vítimas, desenvolvem um grande esforço para evitar que os protestos contra o sistema de opressão atinjam um nível que ameace a sua continuidade. Nesse contexto, as campanhas para promover a alienação das massas são especialmente perversas. O objetivo é impedir que os trabalhadores tomem consciência do funcionamento da engrenagem da falsa democracia representativa (que na realidade é uma ditadura de classe) e se mobilizem para um combate permanente e frontal contra o sistema.



A tese bolorenta segundo a qual, através de lentas reformas aprovadas pelos Parlamentos, o capitalismo pode evoluir, humanizando-se, é retomada em toda a Europa pelas classes dominantes. Os governantes repetem que a via eleitoral, a única democrática, aponta o rumo certo para que as reivindicações dos oprimidos se concretizem numa atmosfera de paz social. Tudo se resolveria afinal num diálogo sereno entre o capital e o trabalho, entre os chamados parceiros sociais e o patronato.



Um discurso complementar desse é o dos intelectuais que, afirmando ser antiimperialistas e anti-neoliberais, proclamam que a saída da crise depende da ação dos movimentos sociais. Mas excluem todas as formas de violência na luta que deveria visar reformas graduais.



A criminalização do socialismo e dos partidos operários marxistas-leninistas é uma constante na teorização desses senhores. Nessas campanhas desempenham um papel fundamental os social-democratas.



Não é de estranhar que as forças da direita e os partidos social-democratas tenham recebido com mal disfarçada simpatia a formação do chamado Partido da Esquerda Européia, ao qual aderiram muitos partidos comunistas do velho Continente (o grego e o português foram exceções). Tão benévola atitude é compreensível porque essas organizações se opõem à radicalização da luta de massas, defendendo elas também estratégias reformistas que na prática anestesiam a combatividade dos trabalhadores, neutralizando-os como força de choque.



Lições da História



A comunicação apresentada no Rio pelo representante do Partido Comunista da Grécia, no Seminário promovido pelo Partido Comunista Brasileiro para comemorar o 140º aniversário da Comuna de Paris (ver odiario.info, 18/09/11), é um documento importante que contribui para a clarificação do debate ideológico inseparável de grandes lutas contemporâneas.



É oportuno lembrar que a burguesia francesa não hesitou em se aliar em 1871 ao exército prussiano após a derrota da França, para massacrar na Paris revolucionária os comunards comunistas.



Essa aliança contra natura, rica em ensinamentos para quantos lutam hoje contra o capitalismo, confirmou então uma realidade enunciada por Marx: o capital não tem pátria.



O comunista grego alertou para uma evidência: o Estado burguês não pode ser utilizado contra os interesses da classe dominante. Por outras palavras, as instituições criadas pela burguesia para lhes servir não podem funcionar como trampolim para o socialismo.



Na América Latina, em regimes presidencialistas tem sido possível eleger presidentes com programas anti-neoliberais com pendores socializantes. Mas o resultado desses processos não permite otimismo. No Chile, "a via pacífica para o socialismo" terminou num golpe sanguinário. No Brasil, na Argentina e no Uruguai, Lula, os Kirchner e Tabaré Vasquez arquivaram compromissos assumidos com o povo e levaram adiante políticas que favoreceram o grande capital, aprovadas pelo imperialismo. E na Venezuela, na Bolívia e no Equador, o desfecho das corajosas opções de Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa suscita interrogações sem resposta.



Na União Européia, é ilusória a idéia de que possa instalar-se no poder qualquer governo empenhado em aplicar um programa de esquerda ambicioso. A "democracia parlamentar" é, na prática, uma ditadura da burguesia de fachada democrática.



Um luar de esperança



O Partido Comunista da Grécia presta um serviço aos trabalhadores de todo o mundo ao sublinhar que o Estado burguês tem de ser totalmente destruído. Reformas cosméticas não alteram a sua essência de instrumento de opressão dos explorados.



As lutas dos trabalhadores por reivindicações em múltiplas frentes são não apenas necessárias como indispensáveis. Vitórias setoriais abalam o poder da burguesia e fortalecem a combatividade das massas, mas essas vitórias são ineficazes se não se inserirem numa estratégia de ruptura com o sistema. No âmbito de uma ruptura com a política de um governo, mas dentro do sistema, são neutralizadas.



O mesmo se pode dizer da ação dos Movimentos Sociais. O papel desempenhado por muitos deles foi útil, contribuiu para o desmascaramento e desprestígio do neoliberalismo. Mas o imperialismo logo se apercebeu de que o caráter espontaneísta da contestação ao sistema não configurava uma ameaça real. Algumas ONGs são instrumentos da CIA; uma porcentagem ponderável é dirigida por social-democratas anticomunistas. A evolução do próprio Fórum Social Mundial – aliás, rapidamente infiltrado por políticos a serviço do capital (até Mário Soares!) – demonstrou precisamente isso. Em breve, controlado por social-democratas, passou a defender a impossível humanização do capitalismo.



A mensagem transmitida ao mundo pelo Partido Comunista da Grécia no Rio de Janeiro vale por um convite à reflexão sobre o papel decisivo e insubstituível do partido revolucionário marxista-leninista nas grandes lutas sociais do nosso tempo.



O seu representante nos lembrou que na Grécia houve mais de 20 greves gerais desde 2010, e muitas setoriais. A mobilização maciça dos trabalhadores foi possível devido ao elevado nível da consciência de classe e de consciência política de uma parcela importantíssima do povo grego. Uma frente muito ampla de organizações e forças progressistas – o PAME – uniu partidos, sindicatos, federações e comitês de orientação classista em torno de objetivos consensuais.



A luta permanente das massas, travada em condições dificílimas, sob uma repressão violenta, não visou uma ruptura imediata orientada para a tomada do poder a curto prazo.

O Partido Comunista – o KKE – sabe que tal meta é inatingível na atual conjuntura. A reafirmação da exigência da destruição do Estado burguês não significa que esse objetivo tenha data no calendário.



Numa atmosfera de tensão diária, de denúncia da política de vassalagem perante as imposições da União Européia e do imperialismo estadunidense, o KKE, sem medo das palavras, defende há anos um programa revolucionário. Sustenta com firmeza que a socialização dos meios de produção básicos é, na Grécia, uma exigência da História, assim como a da banca e a das telecomunicações e transportes. Exige a gratuidade total da saúde, da educação e da previdência. E, agora, defende a saída da União Européia, da OTAN e do euro.



Reivindicações essas inaceitáveis para o Estado burguês. Mas justas, traduzindo aspirações profundas de um povo que não esquece a repressão selvagem do exército britânico, em 1945, quando, no final da guerra, expulsos os nazistas alemães, os trabalhadores estavam prestes a conquistar o poder para construir uma sociedade progressista e livre.



Foi essa tenacidade e lucidez na luta do KKE que viabilizou o surgimento do PAME, como organização frentista de perfil revolucionário.



Enquanto de Washington a Berlim os governos do capital, alarmados com a crise pantanosa em que estão atolados, apresentam da Grécia a imagem de uma sucursal do inferno, mundo afora milhões de oprimidos acompanham com admiração e respeito o combate dos trabalhadores revolucionários do país que foi berço de uma civilização que marcou indelevelmente o rumo da humanidade.



A arrogância e o poder do imperialismo desencorajam hoje, é um fato, milhões de pessoas. Mas a maioria das grandes revoluções antigas e contemporâneas irrompeu contra a lógica aparente da História. Os povos, quando destruíram uma ordem social que para eles se havia tornado não somente ilegítima como insuportável, nem sempre pensaram no futuro imediato.



Acumulada, a opressão, ao ultrapassar determinado limite, gera nas vítimas uma quase indiferença perante a morte. E chega um momento em que o desespero, ao generalizar-se, em efeito epidêmico, disponibiliza as massas para lutas que conduzem a rupturas revolucionárias. Isso aconteceu com a Revolução Francesa de 1789, com as Revoluções Russas de Fevereiro e Outubro de 1917, e na segunda metade do século passado no Vietnã, em Cuba, na Argélia.



Em Portugal, era imprevisível que o golpe militar de 25 de Abril fosse o prólogo de uma revolução que iria abalar o mundo, a mais profunda na Europa Ocidental pelas suas conquistas desde a Comuna de Paris.



Manter a esperança firme não é uma atitude romântica, é um dever comunista. O representante do KKE admitiu no Brasil que "o século XXI será marcado por uma nova onda de revoluções socialistas".



Faço minha a sua convicção.



Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor, ex-parlamentar pelo Partido Comunista de Portugal.



O original encontra-se em http://www.odiario.info/?p=2214

Última atualização em Qui, 29 de Setembro de 2011

(Correio da Cidadania)