segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Guevara

Che Guevara e os mortos que nunca morrem
Diz Eduardo Galeano, que conheceu o Che Guevara: ele foi um homem que disse exatamente o que pensava, e que viveu exatamente o que dizia. Assim seria ele hoje. Já não há tantos homens talhados nessa madeira. Aliás, já não há tanto dessa madeira no mundo. Mas há os mortos que nunca morrem. Como o Che. E, dos mortos que nunca morrem, é preciso honrar a memória, merecer seu legado, saber entendê-lo. Não nas camisetas: nos sonhos, nas esperanças, nas certezas. Para que eles não morram jamais. O artigo é de Eric Nepomuceno.
Eric Nepomuceno



No dia em que executaram o Che Guevara em La Higuera, uma aldeola perdida nos confins da Bolívia, Julio Cortázar – que na época trabalhava como tradutor na Unesco – estava em Argel. Naquele tempo – 9 de outubro de 1967 – as notícias demoravam muito mais que hoje para andar pelo mundo, e mais ainda para ir de La Higuera a Argel.

Vinte dias depois, já de volta a Paris, onde vivia, Cortázar escreveu uma carta ao poeta cubano Roberto Fernández Retamar contando o que sentia: “Deixei os dias passarem como num pesadelo, comprando um jornal atrás do outro, sem querer me convencer, olhando essas fotos que todos nós olhamos, lendo as mesmas palavras e entrando, uma hora atrás da outra, no mais duro conformismo... A verdade é que escrever hoje, e diante disso, me parece a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de quase dissimulação, a substituição do insubstituível. O Che morreu, e não me resta mais do que o silêncio”.

Mas escreveu:

Yo tuve un hermano
que iba por los montes
mientras yo dormía.
Lo quise a mi modo,
le tomé su voz
libre como el agua,
caminé de a ratos
cerca de su sombra.
No nos vimos nunca
pero no importaba,
mi hermano despierto
mientras yo dormía,
mi hermano mostrándome
detrás de la noche
su estrella elegida.

A ansiedade de Cortázar, a angústia de saber que não havia outra saída a não ser aceitar a verdade, a neblina do pesadelo do qual ninguém conseguia despertar e sair, tudo isso se repetiu, naquele 9 de outubro de 1967, por gente espalhada pelo mundo afora – gente que, como ele, nunca havia conhecido o Che.

Passados exatos 44 anos da tarde em que o Che foi morto, o que me vem à memória são as palavras de Cortázar, o poema que recordo em sua voz grave e definitiva: “Eu tive um irmão, não nos encontramos nunca mas não importava, meu irmão desperto enquanto eu dormia, meu irmão me mostrando atrás da noite sua estrela escolhida”.

No dia anterior, 8 de outubro de 1967, um Ernesto Guevara magro, maltratado, isolado do mundo e da vida, com uma perna ferida por uma bala e carregando uma arma travada, se rendeu. Parecia um mendigo, um peregrino dos próprios sonhos, estava magro, a magreza estranha dos místicos e dos desamparados. Foi levado para um casebre onde funcionava a escola rural de La Higuera. No dia seguinte foi interrogado. Primeiro, por um tenente boliviano chamado Andrés Selich. Depois, por um coronel, também boliviano, chamado Joaquín Zenteno Anaya, e por um cubano chamado Félix Rodríguez, agente da CIA. Veio, então, a ordem final: o general René Barrientos, presidente da Bolívia, mandou liquidar o assunto.

O escolhido para executá-la foi um soldadinho chamado Mario Terán. A instrução final: não atirar no rosto. Só do pescoço para baixo. Primeiro o soldadinho acertou braços e pernas do Che. Depois, o peito. O último dos onze disparos foi dado à uma e dez da tarde daquela segunda-feira, 9 de outubro de 1967. Quatro meses e 16 dias antes, o Che havia cumprido 39 anos de idade. Sua última imagem: o corpo magro, estendido no tanque de lavar roupa de um casebre miserável de uma aldeola miserável de um país miserável da América Latina. Seu rosto definitivo, seus olhos abertos – olhando para um futuro que ele sonhou, mas não veria, olhando para cada um de nós. Seus olhos abertos para sempre.

Quarenta e quatro anos depois daquela segunda-feira, o homem novo sonhado por ele não aconteceu. Suas idéias teriam cabida no mundo de hoje? Como ele veria o que aconteceu e acontece? O que teria sido dele ao saber que se transformou numa espécie de ícone de sonhos românticos que perderam seu lugar? Haveria lugar para o Che Guevara nesse mundo que parece se esfarelar, mas ainda assim persiste, insiste em acreditar num futuro de justiça e harmonia? Um lugar para ele nesses tempos de avareza, cobiça, egoísmo?

Deveria haver. Deve haver. O Che virou um ícone banalizado, um rosto belo estampado em camisetas. Mas ele saberia, ele sabe, que foi muito mais do que isso. O que havia, o que há por trás desse rosto? Essa, a pergunta que prevalece.

O Che viveu uma vida breve. Passaram-se mais anos da sua morte do que os anos da vida que coube a ele viver. E a pergunta continua, persistente e teimosa como ele soube ser. Como seria o Che Guevara nesses nossos dias de espanto? Pois teria sabido mudar algumas idéias sem mudar um milímetro de seus princípios.

Diz Eduardo Galeano, que conheceu o Che Guevara: ele foi um homem que disse exatamente o que pensava, e que viveu exatamente o que dizia.

Assim seria ele hoje.

Já não há tantos homens talhados nessa madeira. Aliás, já não há tanto dessa madeira no mundo. Mas há os mortos que nunca morrem. Como o Che.

E, dos mortos que nunca morrem, é preciso honrar a memória, merecer seu legado, saber entendê-lo. Não nas camisetas: nos sonhos, nas esperanças, nas certezas. Para que eles não morram jamais. Como o Che.
(Carta Maior)

De Cipó

E n esqueçamos: primeiro conquistaremos Cipó, depois o Orku. Depois a Internet. Depois o mundo!!!

Psicopatia

O potencial erótico dos psicopatas
By brunocarmelo– 23/06/2011
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Ao associar o homem moderno à agressividade e ao sexo, alguns filmes fazem do serial killer um modelo de masculinidade.





Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.




“Ela o ama. Ele mata. Ela não sabe”. Em menos de dez palavras, o pôster e o trailer deste filme francês resumem todo o conflito, algo que os distribuidores devem ter estimado necessário e/ou interessante comercialmente. Pois entre o amor e os assassinatos, comecemos pelo amor.

Ela se chama Aurore. Se acaso a quiserem, Aurore é dessas mulheres que só dizem sim. Ela é a riquíssima filha de um empresário americano, e não tem muitas vontades nem atividades. Ela encontra Christophe, passa a viver com ele, e aceita todas as vontades do moço. Quando ele quebra seu celular por ciúme, porque ela falava com um amigo, ela diz “Tudo bem”. Quando ele diz “Quero transar com você. Agora”, ela responde “Tá bom”. Quando ela descobre que de vez em quando ele mata jovens prostitutos, ela o acompanha e assiste. Seus olhos são vidrados, quase não piscam, em sinal de ausência de reflexão qualquer. Aurore é um robô com as pernas sempre abertas, à disposição.

Ele se chama Christophe. Christophe é macho, muito macho. Ele conquista todas as garotas da história, e também alguns garotos, e leva-os todos para a cama. Ele faz o tipo viril dominador, bruto, agressivo – algo perfeito para o ambiente em que se encontra, onde todos são submissos. Ele é sempre visto nu, de vez em quando em ereção. Ele diz frases do tipo “Mostra teus mamilos, eu não quero ficar de glande mole”. Um poeta. Seus olhos são igualmente vidrados, também não piscam (engraçada essa direção de atores), com a respiração ofegante e o olhar de um predador maníaco. Ele é um psicopata, e nesta terra de fetiches, os psicopatas agem como animais selvagens enfurecidos.

American Translation alterna entre o mais tosco dos filmes de “ação erótica” e uma vídeoarte que se leva bastante a sério. A câmera digital de baixa qualidade confere o aspecto amador provavelmente involuntário; o som é dos mais precários; o roteiro é recheado de diálogos profundos como os citados acima, e os personagens agem como marionetes sem expressão. Tudo é fetichista e acessório, estas pessoas parecem existir unicamente para criar as tais cenas de sexo e morte. Cada ponto de ônibus ou lavanderia em que nossos personagens passam apresenta um jovem e belo garoto sentado, prestes a ser penetrado e depois morto. Os corpos estão à disposição, o mundo criado é puro desejo.

Algumas pessoas poderiam reclamar que este filme não é pornográfico, pois a pornografia exigiria o sexo explícito (ausente aqui) e a “vocação masturbatória” já explicada por diversos teóricos. Mas a teoria de cinema recente também tem aplicado o termo de pornografia num sentido mais amplo, como a idealização do mundo e do ser humano, e o prazer desconectado da moral e da razão. Assim, diversos filmes de guerra violentos e “slasher movies” tipo Jogos Mortais foram facilmente classificados de pornográficos, apesar da ausência de sexo. Seguindo este raciocínio, American Translation constitui uma pornografia exemplar, na qual as vítimas e as amantes do protagonista encontram-se disponíveis, aos montes; onde o sexo e o prazer masculinos são a origem e a finalidade de todas as ações dramáticas.

O mais curioso é ver que, no final deste faz de conta, os diretores ainda julgam necessário justificar seu discurso. Mal acaba a última imagem, os letreiros informam que o projeto nasceu de leituras sobre psicopatas, e inclui duas citações de psicopatas para provar o realismo e a legitimidade de seus personagens. Para quem ainda esperava que o projeto tivesse um tom paródico ou assumidamente trash, este final confirma que o filme se leva de fato muito a sério. Mais do que isso, por ingenuidade ou arrogância, ele tenta convencer até o fim seus espectadores de que aqueles animais de circo, aquelas máquinas de orgasmo, correspondem à psicologia plausível explicada por psicólogos num livro. Uma noção de realismo e de manipulação do espectador mais incômoda do que a matança alegre dos protagonistas.



American Translation (2010)
Filme francês dirigido por Pascal Arnold e Jean-Marc Barr.
Com Pierre Perrier, Lizzie Brocheré, Jean-Marc Barr.
(Outras Palavras)

Pensamentando

Urariano Mota: Para o retrato de um amigo


Aviso a partir desta linha aos raros leitores que vou cometer uma violência, um abuso, um ato arbitrário. Vou falar de um poeta fundamental de Pernambuco, do Brasil, da América, sem falar uma só linha da sua poesia. E para isso devo ter e possuir e haver punho de ferro, sangue metido em frigorífico. Porque vou falar de Alberto da Cunha Melo sem lhe citar um só verso*. Vou falar apenas de um amigo.


Alberto da Cunha Melo
Tenho agora mesmo, em minha mente, a sua imagem no Bar da Bete, no tempo em que havia o Bar da Bete. A pessoa dele me vem como em uma foto onde se escreve abaixo, Olinda, 1989. E depois, em letras pequenas: "nós atravessamos o tempo e não percebemos". Não fosse o sol de Pernambuco, diria que essa imagem vem entre brumas. Por que recebo assim essa foto na memória? Imagino que essa dissociação entre clima local e lembrança ocorre porque o poeta sempre era encontrado ali mais à noite, ou no fim da tarde, quando o sol declina sem vestígio do clarão. Ou talvez porque seja próprio das fotos que guardamos virem em preto e branco, como uma foto antiga, que vai perdendo a sua tonalidade. E as tonalidades, sabe-se, perdem-se assim sem ruído, caladas, traiçoeiras e ferinas como um câncer. Abandonam o vigor no escuro da noite, furtam-se da vida com a luz dos dias.

Em Bete, o poeta sempre se encontrava em sua mesa. Aquela vida secreta que me envergonhava, a de ser um escritor, só um escritor, só e somente e mais nada, porque seria tudo, Alberto exibia como um despudorado em seu lugar, que não poderia ser de outro, a falar entre sombras, sem ostentação, recuado em uma parede, ao fundo do Bar da Bete: "Eu sou um poeta, o meu nome é Alberto da Cunha Melo". E eu via, embora ele não proclamasse, não erguesse a voz, nem se vestisse com ouro e pedras reluzentes, eu via, como uma pancada funda em meu peito, porque eu via pelos olhos do sentimento, eu via alumbrado e fingia nada ver, eu via, "atenção, canalhas, eu sou a dignidade da literatura"...

Nesta altura, até para manter o frio dos árticos no sangue, devo lembrar também a pessoa de Bete, uma dona de bar meio estranha, quase tão desequilibrada quanto a sua fauna querida. Ela era amiga de Rodolfo Mesquita, e temia com terror fascinado que o pintor Rodolfo Mesquita reaparecesse, porque Rodolfo era um demônio que pintava, e poderia, naqueles tempos, beber mais que um demônio quando pinta o sete. Ela era amiga de Abdias, o sociólogo e jornalista, a quem ela se referia sempre com o respeito dos pobres que admiram quem não é do seu meio.

Ela era amiga de muitos malucos, a quem atraía por ser também uma semelhante. Ela era amiga enfim de toda gente, por ser dona de um talento de cozinhar com as combinações mais inesperadas, loucas, que resultavam em um produto saboroso. Mas era amiga acima de tudo do poeta Alberto da Cunha Melo, por dar a ele privilégios que nós, os outros, jamais poderíamos sequer tentar. A saber, primeiro: um lugar exclusivo, encostado à parede, de frente para o mar de Casa Caiada. A saber, segundo: a compra exclusiva de garrafas de conhaque, servidas tão somente a Alberto, todas as tardes e noites, que ele bebia, gole por gole, bebida que pagava quando chegasse o fim do mês. Às vezes o salário do poeta atrasava, o dia 30 não vinha, a sede em algumas estações era maior, e Alberto entrava nos conhaques do outro mês.

Nesse tempo eu era, mais que estava, bancário. Tinha que sobreviver de alguma forma, esta é a verdade. E para sobreviver sem me trair além do suportável, embora já houvesse ido além do que deveria, eu saía a beber com colegas de trabalho, e os arrastava para o Bar da Bete, sob o pretexto de comer uma fritada de siri. Para quê? Houve uma ocasião em que me fiz acompanhar de um gerente de banco, e já veem todos o quanto eu ultrapassara a fronteira do razoável.

Nessa infeliz vez, avistando ao fim do Bar o nosso poeta, saudei-o, ele respondeu, e continuamos cada um na própria mesa, a minha, com o gerente e demais funcionários, a dele, ele sozinho, enquanto escrevia em uma folha de papel algo que anos mais tarde saberíamos. Para engrandecer o meu gesto, e caminhar na zona anfíbia da literatura e da sobrevivência, eu disse aos colegas de mesa que aquele homem ali era um grande poeta.

- Aquele?

O animal, que era tão importante no comando de uma agência bancária, queria dizer, aquele a fumar cigarro sem filtro, a beber algo que não é uísque, vestido sem roupas de grife, com os óculos de armação pesada, aquele, enfim, com todos os sinais exteriores de não ser uma pessoa de classe?

- Sim, aquele, respondi.

Então o animal gritou para Alberto, gritou como se fizesse uma saudação, pior, como se enviasse uma ordem, típica de quem possui o espírito formado por valores do câmbio de moedas.

- Se você é poeta, improvise uma poesia, agora! Vamos, é uma poesia e duas cervejas, por minha conta.

Eu vi então o poeta não ouvir. Eu vi então o poeta perder o sentido da audição, e mais concentrado olhar o papel sobre a sua mesa, a perpetrar aquela poesia que não se improvisa, que vem como fruto do esforço de toda uma vida, de leituras e talento e espírito que se amadurece no fogo, lento, mais lento que o câncer, a poesia que vence a morte.

Então, ao animal indócil tentei explicar que o gênero do poeta era outro, que ele não era bem um violeiro repentista, que ele não possuía estrofes e sílabas fixas, que a sua poesia... em vão. Há um limite para a ignorância no qual conhecimento nenhum atravessa. É uma couraça mais dura que a pedra. O homenzinho contestava, indignado:

- Ah, se ele faz o mais difícil, faz o mais fácil. Qualquer Camões sabe improvisar....

E eu fiquei então com a pecha de mentiroso, pois apontava como poeta um homem que não sabia sequer o mais fácil, cantar um poema. Certamente, esse "poeta" era um louco ou um fracassado, porque nem operava na vida prática, isto é, jamais fizera qualquer investimento em qualquer letra bancária, o que se notava pela aparência, nem jamais operara na vida cultural, porque era incapaz de realizar as maravilhas que o dinheiro paga. Maldito deveria ser o espírito que não se regia pela recompensa de duas cervejas...

Esse amigo que ora canto, nesse árduo escrever de pulso rijo e gelado sangue, é um homem que sobrevive na contradição de todo artista, como um exemplo vivo do destino de quem cultiva o que não se troca em uma sociedade prosaica e porca. Porque assim dizem os homens de poder e prata:

- Fazer poesia é fácil. Compor uma música é simples. Pintar um quadro qualquer um pinta. Escrever essa coisa que esse idiota aí escreve é uma imbecilidade. Dura e difícil é a vida de quem trabalha pesado, de quem possui o coração aos pulos conforme a cotação da Bolsa de Valores, de quem perde o sono em razão do movimento perturbador do dólar. Pesado e massacrante é comandar um batalhão de empregados, todos simulados e bandidos até prova em contrário. O dinheiro que ganhamos vem ao fim de uma guerra. Matamos leões todos os dias. Agora, sentar-se em um lugarzinho em silêncio, beber uma dose e fumar um cigarro, enquanto se escreve, "ó minha flor, ó meu amor", é um paraíso.

Por isso acham, com muita naturalidade, que gente assim vive com muito pouco, quase nada, porque, afinal, são poetas. Gente enfim que não liga para essas coisas, a saber, comer bem, beber melhor, possuir casa confortável, carro importado, mulheres, amantes, planos de saúde que quase enganam a morte. Bom, se isto não conseguem, bem que conseguem deixar o cidadão morrer com todo e total conforto. Pois melhor é ser infeliz com muito dinheiro. Pero os artistas, não. São felizes com pouco, com nada, menos que nada, são um fenômeno. Compõem um acorde, recebem um trocado. Escrevem cinco linhas, ficam famosos. Pintam um quadro, ficam conhecidos além do seu tempo. Nós, homens práticos, jamais seremos imortais. (Todos temos onde cair mortos, querem dizer. Os artistas que gozem a sua imortalidade, porque não têm onde cair duros para sempre.) Os artistas se contentam com pouco. Nós, os homens práticos, não.

No entanto esse amigo, a viver nessa contradição do sublime e da pobreza, jamais se acostumou aos gostos nos quais é obrigado a viver. Percebem? É natural que um homem, de tanto não conhecer o sabor de vinhos envelhecidos, de qualidade, comece a gostar de vinhos menos nobres e passe a olhar desconfiado para as excelências que jamais irá conhecer. Há quem construa até uma teoria, um sistema de gosto para enquadrar o seu modo possível de ser. O poeta Alberto da Cunha Melo, não. Houve uma vez em que eu, depois de bem observar as cervejas que ele bebia nos bares, convidei-o para a minha casa, para que assistíssemos juntos a um programa de televisão dedicado a Canhoto da Paraíba. Que fiz eu? Pedi a meu filho para que comprasse as marcas de cerveja que eu sabia ser do costume do poeta beber.

O meu amigo se angustiou:

- Por favor, essa daí não. Se puder, mande buscar uma cerveja melhor. Eu bebo as baratas, porque não posso pagar outras.

É esse mesmo homem que é capaz da maior generosidade. Dirão os muito cínicos, "quem tem pouco a oferecer, é generoso com a riqueza que jamais possuirá". Rotundo engano. Nos tempos em que o poeta muito podia oferecer, ou seja, no tempo em que ele era editor do melhor caderno cultural do Nordeste, o suplemento do Jornal do Commercio, não poucas vezes, muitas vezes vieram à luz, por sua conta e risco, poetas iniciantes, escritores novos, estudantes de jornalismo, artistas de toda sorte e gênero. Os protegidos que ele semeou hoje estão por cima na imprensa e nos bons empregos públicos. Ainda há pouco, na semana que passou, fui testemunha de mais um ato seu.

Eu vi o poeta pedir a uma pessoa ligada ao novo governo de Pernambuco que mantivesse o emprego de alguns velhos conhecidos na imprensa do estado, porque afinal todos eram pais de família, e precisavam viver, entende? E com o mesmo ímpeto, antes, o ano passado, vi o poeta partir uma torta ao meio e me dar de presente, no dia do seu aniversário. Logo ele, que tem mulher, filho e sogra que adorariam o prazer de um pouco mais de tempo com a delícia. Não adiantou conselho, ele exigiu que eu levasse para casa a melhor parte. Este é o meu amigo. Generoso com o pouco, generoso com o muito, generoso com o que poderá e poderia ter.

Se querem um motivo para esse retrato de um poeta vivo, eu lhes digo. Encontrei Alberto neste começo de ano abatido e triste**. Tive vontade de lhe dizer, meu amigo, este ano é o começo do melhor tempo de nossas vidas. Será que não você não percebe as promessas que se anunciam? Vontade tive, mas um pudor e uma vergonha imensa me fez cair em silêncio. Isto não é chacota, eu me disse, não é assim que se responde a uma tristeza objetiva e subjetiva de um homem maduro, eu senti. Por isso, pelo que eu não lhe disse, eu lhe digo ao fim estas últimas palavras de Sancho Pança a Dom Quixote:

- Não morra Vossa Mercê, meu amigo, mas tome meu conselho e viva muitos anos, porque a maior loucura que um homem pode fazer nesta vida é deixar-se morrer sem mais nem menos, sem que ninguém o mate, nem deem cabo dele outras mãos que não as da melancolia. Olhe, não seja preguiçoso: levante-se dessa cama e vamo-nos para o campo vestidos de pastores, conforme combinamos. Quem sabe, atrás de algum bosque iremos encontrar desencantada a senhora Dulcinéia...

Por isso, ao poeta Alberto da Cunha Melo dedico esse retrato.

Olinda, janeiro de 2007.

Notas da Redação Vermelho:

* nas próximas edições, Prosa Poesia e Arte vai apresentar aos leitores alguns versos de Alberto da Cunha Melo, enviados por Urariano Mota;

** Alberto da Cunha Melo deixou de viver em 13 de otubro de 2007;
(vermelho.org)

Paris

Essa região do Rio, apelidei de “shopping da ziquizira”: com tantas farmácias, você se pergunta: é normal ter boa saúde?

Por Daniel Cariello, de Chéri à Paris

A menos de dez minutos a pé da minha casa tem seis livrarias e cento e vinte cafés (desde a última contagem, há quinze dias, mas é possível que já haja uns dois ou três novos). Isso é reflexo de um dos programas preferidos dos parisienses: abrir um livro em uma mesa de um café – de preferência na varanda, se o clima for favorável – e ficar ali horas a fio, lendo compenetradamente, pensando na vida.

Nesse mesmo perímetro tem também três farmácias, que são pequenas, fecham aos domingos e vendem… medicamentos. E apenas medicamentos.

Tô contando isso porque na semana passada visitei o Rio de Janeiro e, precisando comprar dois livros, dirigi-me à minha livraria preferida, a Letras & Expressões, em Ipanema. Um lugar que me acostumei a frequentar, pois era também um ponto de encontro, com uma casa de shows e um restaurante simpático.

Era. Porque agora virou farmácia. Ou melhor, vai virar, já que está em obras.

A drogaria que vai abrir no lugar da Letras & Expressões fica exatamente em frente a uma outra, enorme, e a cinco minutos a pé de outras noventa e três (ou já seriam noventa e quatro?). Essa região, eu apelidei de “shopping da ziquizira”, pois com tantas farmácias você começa a se perguntar se é normal estar em boa saúde. Aí conclui que não. E entra em uma delas pra comprar um “remedinho pra curar essa coisa estranha que tá me dando hoje, sabe?”.

Então sai com um carregamento que “vai te fazer sentir melhor, seja lá o que você tenha, bastando tomar duas cápsulas desse aqui e três glóbulos daquele ali antes do jantar”. E já que está em uma farmácia brasileira, você aproveita para levar para casa duas coca-colas, uma lata de sorvete e três pacotes de biscoito de polvilho. Afinal, os shoppings da ziquizira espalhados por aí te vendem a cura, mas também a garantia da sua breve volta ao estabelecimento.

Ao dar de cara com a enorme placa que dizia “Em breve, para a sua comodidade, mais uma farmácia do grupo X”, fiquei pensando que ao invés de tantos comprimidos deveríamos era tomar mais pílulas literárias, de preferência sentados em um café por longas horas. Talvez assim desocupemos a cabeça desse tanto de doença que a gente adora inventar.



Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.
(Outras Palavras)

domingo, 9 de outubro de 2011

Obama

A Paz de Obama é a Guerra!
Por Ali El-Khatib

Barak Obama em seu discurso recente na 66ª Assembléia Geral da ONU ultrapassou o limite da arrogância e por que não dizer fora do rumo da história.
A paz da guerra necessária defendida por Obama, não interessa aos palestinos que desde 1948 sofrem todo tipo de humilhação, discriminação e agressão militar por parte de Israel com total apoio dos Estados Unidos.
Interessante é que os estadunidenses se apregoam como os defensores da liberdade e da democracia para todos os povos do mundo, mas negam no caso palestino. Por que esta parcialidade sempre em defesa de Israel? Será que o povo palestino mão merece a democracia tão apregoada por Obama?
Sim, os palestinos querem a democracia, mas não a democracia que os EUA levaram ao Iraque e à Líbia. Os palestinos querem ter seu estado, livre, soberano, democrático, com capital em Jerusalém e que seu povo tenha direito ao justo retorno.
Fica claro que Obama comete um retrocesso em sua política para o Oriente Médio esquecendo-se da Primavera Árabe, os anseios de transformação de toda a sociedade, de melhor forma de vida, trabalho, educação, bem estar e justiça social. Os EUA estão perdendo seus principais parceiros árabes como o Egito e possivelmente a Arábia Saudita. Até parece que Obama quer desencadear uma nova intervenção bélica na região.
A responsabilidade da comunidade internacional em acabar com as práticas expansionistas de Israel, apoiadas incondicionalmente pelos Estados Unidos que pode vetar no Conselho de Segurança da ONU de admissão da Palestina, com base nas fronteiras de 4 de junho de 1967, com Jerusalém Oiental como sua capital, como membro pleno das Nações Unidas. As discussões do Conselho de Segurança vão até o fim de outubro, e podem se estender até novembro.
A Limpeza Étnica
Os palestinos já romperam as barreiras do medo e do silêncio. Em suas Intifadas deixaram claro que a disposição em conquistar seus direitos é ilimitada.
A Intifada gerou um cenário único. Saíram às ruas com pedras contra um dos exércitos mais poderosos do mundo. Mostraram sua indignação ao sofrimento, humilhação coletiva de um sistema repressivo de um estado agressivo, expansionista que está sufocando todo um povo milenar através da limpeza étnica como bem define o historiador israelense Ilan Pappe.
Israel procura de todas as formas inverter a verdadeira história. Pappe em seu livro A Limpeza étnica na Palestina deixa muito claro como foi a partilha da Palestina promovida pela ONU que a dividiu em três regiões: a palestina com 818 mil palestinos e 10 mil judeus em 42% de suas terras; a judaica com 499 mil judeus e 438 mil árabes em 56% da terra e Jerusalém internacionalizada, com 200 mil de cada comunidade em 2% da terra. Os palestinos maior parte da população com 1.456.000, ficaram com 42% de suas terras e hoje somente com 22% e totalmente ocupados pelas forças israelenses.
O muro da vergonha
O muro de Israel que continua sendo construindo na Palestina tem mais de 700km e tem aproximadamente 9m de altura. O de Berlim, levantado em 1961, tinha em torno de 155 km e 3m de altura. É a brutalidade da história se multiplicando.
A Assembléia Geral da ONU decidiu, em dezembro de 2003, dirigir à Corte Internacional de Justiça a seguinte consulta: “Quais são as conseqüências legais da construção do muro que vem sendo construído por Israel, o poder ocupante, no Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental e perímetro urbano, como descrito no relatório do Secretário Geral, considerando-se as regras e princípios da lei internacional, incluindo a Quarta Convenção de Genebra, de 1949, e as resoluções relevantes do Conselho Geral e da Assembléia?”
Ao ver o mapa da Palestina fica claro que o muro não cerca a Cisjordânia, mas é construído dentro do território ocupado. Os palestinos ficam confinados em verdadeiros bantustões com restrições de ir e vir violando totalmente sua liberdade como nação. O Muro, além dos checkpoints, separa os camponeses de suas terras férteis, as famílias são separadas, os estudantes impedidos de irem às escolas, os doentes, as mulheres grávidas chegam a morrer antes de chegar aos hospitais.
Natanyahu ainda se julga no direito de culpar os palestinos por não quererem negociar. Negociar o quê, se já lhes foi tirado tudo? Agora vem com esta conversa que os palestinos têm que aceitar o Estado Judeu e que Israel continuará implantando novos assentamentos na Cisjordânia.
Os governantes israelenses dizem que os palestinos não querem a paz, mas são eles que ocuparam 78% das terras palestinas, violaram todas as leis internacionais, construindo assentamentos, anexando as Colinas de Golã a Região de Shibhaa do Líbano e o pior Jerusalém Oriental. Hoje, a Palestina virou um grande Campo de Concentração a céu aberto sob constante repressão do exército de Israel onde os direitos humanos são violados diariamente. Israel confisca a água palestina, degrada o meio ambiente, pratica a demolição de casas, escolas e hospitais. Devemos lembrar que O Estado de Israel teve um início conturbado, uma vez que os colonos sionistas passaram a colonizar a Palestina a partir dos anos 30.
ABBAS na ONU
Em seu discurso na 66ª Assembléia Geral da ONU , o presidente palestino Mahmoud Abbas reforçou a disposição palestina em negociar em todos os momentos aceitando as Resoluções da ONU, mas que são desconstruídas sistematicamente por Israel intensificando-se após os Acordos de Oslo.
Os relatórios das missões das Nações Unidas, bem como de várias instituições israelenses e das sociedades civis, transmitem uma imagem terrível sobre o tamanho da campanha de colonização, da qual o governo israelense não hesita em se gabar e que continua a executar por meio do confisco sistemático de terras palestinas e da construção de milhares de unidades de novas colônias em diversas áreas da Cisjordânia, especialmente em Jerusalém oriental, e da construção acelerada do Muro de anexação, que consome grandes extensões da nossa terra, dividindo-a em ilhas separadas e isoladas e cantões, destruindo a vida familiar, as comunidades e os meios de subsistência de dezenas de milhares de famílias.
A potência ocupante também continua suas incursões em áreas da Autoridade Nacional Palestina por meio de ataques, prisões e assassinatos nos checkpoints. Nos últimos anos, as ações criminosas das milícias de colonos armados, que gozam da proteção especial do exército de ocupação, intensificou-se com a perpetração de ataques freqüentes contra nosso povo, tendo como alvo casas, escolas, universidades, mesquitas, campos, plantações e árvores. Apesar de nossas repetidas advertências, a potência ocupante não agiu para conter esses ataques, e nós a consideramos totalmente responsável pelos crimes dos colonos.
O pronunciamento da presidente Dilma, primeira mulher a fazer a abertura solene da Assembléia Geral da ONU, sem dúvida fortaleceu o apoio internacional.
É bom lembrar sempre os ensinamentos de Edward Said, em um de seus brilhantes artigos “nenhuma cultura ou civilização existe isolada das outras, nenhuma entende estes conceitos de individualidade e de iluminismo como sendo completamente exclusivos. Nenhuma, existe sem os atributos humanos fundamentais que são a comunidade, o amor, a valorização da vida e de todo o resto”.
A Paz para a Palestina significa também a paz para Israel, razão pela qual Israel e os EUA deveriam ser os primeiros a apoiar a criação do Estado da Palestina.
Israel não está entendendo o que acontece,
Israel não quer a Paz.
Obama não quer a Paz.
Querem a guerra e seus vultuosos lucros.
Querem continuar a limpeza étnica do Povo Palestino.
Israel em um momento histórico responde com insanidade e desprezo ao mundo desrespeitando a comunidade internacional e avisa que construirá mais 1.100 casas em Jerusalém Oriental, ocupada militarmente.
Ali El-Khatib é sociólogo, superintendente do Ponto de Cultura Árabe - Instituto Jerusalém do Brasil e coordena o NEAF – Núcleo de Estudos e Pesquisa Árabes da FACAMP.

(Caros Amigos)

Repensar...

Diante dos terremotos que abalam o mundo, Ignacio Ramonet propõe a reinvenção da política para reencantar os seres humanos

Por Ignacio Ramonet, Le Monde Diplomatique en español | Tradução: Daniela Frabasile

Agora que os atentados de 11 de setembro acabam de completar uma década, e passados três anos da quebra do banco Lehman Brothers, quais são as características do novo “sistema-mundo”?

A regra vigente hoje em dia é a dos terremostos. Terremotos climáticos, terremotos financeiros, terremotos nas bolsas de valores, terremotos energéticos e alimentares, terremotos comunicacionais e tecnológicos, terremotos sociais e geopolíticos, como os que causaram as insurreições da “Primavera Árabe”…

Existe uma falta de visibilidade geral. Acontecimentos imprevistos irrompem com força sem que nada — ou quase nada — os faça emergir. Se governar é prever, vivemos uma evidente crise de governança. Os dirigentes atuais não conseguem prever nada. A política se revela impotente. O Estado que protegia os cidadãos deixou de existir. Existe uma crise na democracia representativa: “não nos representam”, dizem com razão os “indignados”. As pessoas constatam a falência da autoridade política e reclamam que ela volte a assumir seu papel de condutora da sociedade, por ser a única que dispõe da legitimidade democrática. Insistem na necessidade de que o poder político limite o poder econômico e financeiro. Outra constatação: uma carência de liderança política em escala nacional. Os líderes atuais não estão a altura dos desafios.

Os países ricos (América do Norte, Europa e Japão) padecem do maior terremoto econômico-financeiro desde a crise de 1929. Pela primeira vez, a União Europeia vê ameaçada sua coesão e sua existência. E o risco de uma grande recessão econômica debilita a liderança internacional da América do Norte, ameaçada também pelo surgimento de novos pólos de poder (China, Índia, Brasil) em escala internacional.

Em discurso recente, o presidente dos Estados Unidos anunciou que dava por terminadas “as guerras do 11 de setembro” — ou seja, as do Iraque e do Afeganistão — contra o “terrorismo internacional”, que marcaram militarmente a última década. Barack Obama recordou que “cinco milhões de americanos vestiram o uniforme nos últimos dez anos”. Isso não significa que Washington tenha saído vencedor nesses conflitos. As “guerras do 11 de setembro” custaram ao orçamento estadunidense entre 1 bilhão e 2,5 bilhões de dólares: carga financeira astronômica, que teve repercussões no endividamento dos Estados Unidos e, consequentemente, na degradação de sua situação econômica.

As guerras têm-se revelado pírricas. No fim das contas, o Al-Qaeda em certa medida se comportou com Washington do mesmo modo que Ronald Reagan com Moscou quando, nos anos 1980, impôs à URSS uma extenuante corrida armamentista que acabou esgotando o império soviético e provocando sua implosão. A “desclassificação estratégica” dos Estados Unidos começou.

Na diplomacia internacional, a década confirmou a emergência de novos atores e de novos pólos de poder, sobretudo na Ásia e na América Latina. O mundo se “desocidentaliza” e é cada vez mais multipolar. Destaca-se o papel da China, que aparece, em princípio, como a grande potência que nasce no século XXI — embora a estabilidade do Império do Meio não esteja garantida, pois coexistem em seu seio o capitalismo mais selvagem e o comunismo mais autoritário. A tensão entre essas duas forças causará, cedo ou tarde, uma fratura. Mas, por hora, enquanto o poder dos Estados Unidos declina, a ascensão da China se confirma. Já é a segunda potência econômica do mundo (à frente do Japão e da Alemanha). Além disso, por deter parte importante da dívida estadunidense, Pequim tem nas mãos o destino do dólar…

O grupo de Estados gigantes reunidos no BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) já não obedece automaticamente as grandes potências ocidentais tradicionais (Estados Unidos, Reino Unido, França), ainda que estas continuem se autodesignando como “comunidade internacional”. Os BRICS demostraram recentemente, na crise da Líbia e da Síria, que se opõem às decisões das potências da OTAN e no âmbito da ONU.

Dizemos que existe crise quando, em qualquer setor, algum mecanismo deixa de funcionar, começa a ceder e acaba se rompendo. Essa ruptura impede que o conjunto da máquina continue funcionando. É o que está ocorrendo na economia desde que a crise eclodiu, em 2007.

As repercussões sociais do cataclismo econômico são de uma brutalidade inédita: 23 milhões de desempregados na União Europeia, e mais de 80 milhões de pobres… Os jovens aparecem como as vítimas principais. Por isso, de Madri a Telavive, passando por Santiago do Chile, Atenas e Londres, uma onda de indignação levanta a juventude do mundo.

Mas as classes médias também estão assustadas porque o modelo neoliberal de crescimento as abandonou na beira da estrada. Em Israel, uma parte delas uniu-se à juventude para rechaçar o integrismo ultraliberal do governo de Benjamín Netanyahu.

O poder financeiro (os “mercados”) se impuseram ao poder político, e isso irrita os cidadãos. A democracia não funciona. Ninguém entende a inércia dos governos frente à crise econômica. As pessoas exigem que a política assuma sua função e que intervenha para corrigir os erros. Não será fácil: a velocidade da economia é hoje a mesma que um raio, enquanto a velocidade da política é a mesma que um caracol. Será cada vez mais difícil conciliar o tempo econômico com o tempo político — e também crises globais com governos nacionais.

Os mercados financeiros reagem de forma exagerada frente a qualquer informação, enquanto os organismos financeiros globais (FMI, OMC, Banco Mundial) são incapazes de determinar o que vai acontecer. Tudo isso provoca, nos cidadãos, frustração e angústia. A crise global produz perdedores e ganhadores. Os ganhadores se encontram, principalmente, na Ásia e nos países emergentes, que não têm uma visão tão pessimista da situação quanto os europeus. Também existem muitos ganhadores no interior dos países ocidentais, cujas sociedades se encontram fraturadas pelas desigualdades entre ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres.

Na realidade, não estamos suportando uma crise, mas um feixe de crises, uma soma de crises mescladas tão intimamente umas com as outras que não conseguimos distinguir as causas e os efeitos. Porque os efeitos de umas são as causas das outras, e assim até formar um verdadeiro sistema. Ou seja, enfrentamos uma crise sistêmica do mundo ocidental que afeta a tecnologia, a economia, o comércio, a política, a democracia, a guerra, a geopolítica, o clima, o meio ambiente, a cultura, os valores, a família, a educação, a juventude…

Vivemos um tempo de “rupturas estratégicas” cujo significado não compreendemos. Hoje, a internet é o vetor da maioria das mudanças. Quase todas as crises recentes têm alguma relação com as novas tecnologias de comunicação e de informação. Os mercados financeiros, por exemplo, não seriam tão poderosos se as ordens de compra e venda não circulassem na velocidade da luz pelas pistas da comunicação que a internet colocou à sua disposição. Mais que uma tecnologia, a internet é um ator das crises. Basta lembrar o papel do WikiLeaks, Facebook, Twitter nas recentes revoluções democráticas no mundo árabe.

Desde o ponto de vista antropológico, essas crises estão se traduzindo em aumento do medo e do ressentimento. As pessoas vivem num estado de ansiedade e incerteza. Voltam os grandes pânicos frente a ameaças indeterminadas, como a perda do emprego, os choques tecnológicos, as biotecnologias, as catástrofes naturais, a insegurança generalizada… Tudo isso constitui um desafio para as democracias. Porque esse terror se transforma às vezes em ódio e repulsa. Em vários países europeus, esse ódio se dirige hoje contra os estrangeiros, os imigrantes, os diferentes. Está aumentando a rejeição contra todos os “outros” e crescem os partidos xenofóbicos.

Outra grave preocupação mundial: a crise climática. A consciência do perigo que representa o aquecimento global aumentou. Os problemas ligados ao meio ambiente estão voltando a ser altamente estratégicos. A próxima cúpula internacional do clima, que acontecerá no Rio de Janeiro, em 2012, constatará que o número de grandes catástrofes naturais aumentou, assim como sua espetacularização. O recente acidente nuclear em Fukushima aterrorisou o mundo. Vários governos já deram passos para trás em relação à energia nuclear e apostam agora — em um cenário marcado pelo fim próximo do petróleo — nas energias renováveis.

O curso da globalização parece suspenso. Cada vez mais se fala em desglobalização, de declínio… o pêndulo foi longe demais na direção neoliberal e agora poderia ir na direção contrária. Já não é mais tabu falar em protecionismo para limitar os excessos do livre comércio, e pôr fim às realocações e à desindustrialização dos Estados desenvolvidos. Chegou a hora de reinventar a política e reencantar o mundo.

(Outras palavras)