terça-feira, 5 de junho de 2012

Pensamentando

Ivan Lessa: E tome Jubileu Ivan Lessa em ilustração de Baptistão O de 77, que era só de prata, eu perdi. Guardei-me todo para o deste ano, que eu me dou melhor com diamantes de que com o metal mencionado. Esperei, sentado no meio-fio, mas valeu, está valendo e valerá. Quatro dias sacudidos de pedras preciosas. De repente, todo mundo achando que a Rainha, que é meio objeto de controvérsias, virou um doce de côco e todo mundo a adora. O que eu conhecia de jornal cinematográfico ou televisão virou realidade diante de meus olhos e bundinha cansada. Não fui à corrida de cavalinhos, o Derby, com que os festejos têm seu início oficial. Mas vi na TV e, com o favorito ganhando, o Big Joe Public faturou alguns cobres para a cerveja e o bolinho de porco. Ruas se enfeitaram. Parecia um daqueles filmes da Ealing, todos ganharam, ao menos por uns dias, fisionomias de atores característicos que a gente nunca sabe o nome. Devido à data magna, vieram quase todos à minha mente: Kenneth Williams, Barbara Windosor, Sid James, Bernard Breslaw, gente que não cabia mais. Devo ter misturado outros estúdios, o que vale é a intenção de lembrá-los e distribuir minhas imigrantes honrarias. A BBC dando um show, aliás, pensando bem, talvez excessivo show de afeto. Nem parece que houve os dias fatídicos em que “Ela”, Diana, a Princesa de Gales, como que distribuiu pelo reino um legado de má vontade, após bater com as 10 num túnel parisiense. Acabou tudo dando certo. O Príncipe casou-se de novo, a nova cônjuge (chamemo-la de Duquesa de Cornwall) deu um jeito nos dentes, fez peeling e agora já tem fã clube em cidade após cidade. Ganhou uma desenvoltura que só os bons casamentos, lato senso, fornecem. A Rainha é chamada de “fofinha” entre a colônia brazuca e seu marido, como não faz sentido em português, é levado a sério e o pior que se diz dele é tratar-se um “homem muito bacaninha”. Querem mudar o nome do Big Ben para Torre Elizabeth. Tenho minhas dúvidas. Chove no domingo. A cântaros. A brilhantes para os lindos sonhos da Rainha ornamentar. Na expectativa de umas sobras e por motivos que só povo com Família Real pode entender, ninguém deixou de festejar. Nas ruas e no Tâmisa já encharcado de sumidades. Faltaram mesmo foram os aviõezinhos que iam dar sua passadinha em homenagem. Fica para outro jubileu. As festas de rua não desanimam apesar disso. Azul, vermelho e branco pra cima e pra baixo nos buntings (festa de rua, populacho não se esfaqueia, troca apenas de guloseimas de aspecto sombrio). Domingo foi barca e barcaça caindo de sangue real navegando pelo Tâmisa. Quase empata com o Barquinho, do Ronaldo Bôscoli. O resto do mundo bem que tem tentando empanar o brilho do espetáculo. Mubarak no Egito emburrado porque pegou, ou não pegou, apenas X anos de cadeia e não pelotão de fuzilamento. A Síria deveria tomar vergonha na cara e parar com essas – será rebeldias a palavra? Um desenho de Tintin vendido por preço recorde. Tudo bem. Inglaterra ganha de 1 a 0 da Bélgica em amistoso. Em compensação a capa da revista Time, versões americana e europeia, lá tem estampada a figura de pedreiro frustrado de Wayne Rooney ilustrando o que, para a editoria da revista mundial, é o grande drama: o país em estado jubiloso conta com o pior futebol do mundo. Uns desmancha-prazeres esses americanos. Um desmancha-prazer este comentarista que vos fala: entre jubiladas espanto-me de não termos encontrado, nós que sempre fomos tão bons disso, um nome decente para a HQ e os filmes do Dagwood Bumstead e da Blondie. Sim, Dagwood, aquele dos vastos sanduíches, o da cachorrinha Daisy. Que durou de 1938 a 1950 nos gibis e não sei quantos filmes produção classe B não foram feitos, com Arthur Lake e Penny Singleton. Nos filmes, virou Zezé Bumstead e sua graciosa esposa, Blondie, passou a Belinda Bumstead. É pouco, muito pouco, como diria o Henfil. Para nós que tivemos as bolações geniais da família Buscapé – Chulipa! Chulipa! – Dulçurosa Suína e, em outros quadrinhos, Praxedes Porcalhão, Vida Apertada, Pafúncio, Marocas, Zé do Boné e tome que não acaba mais. São pensamentos pouco jubilosos, mergulhos num passado sem diamantes nem lata, mas – que remédio? – em matéria de jubileu é o que posso contribuir. (BBC do Brasil)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Israel

DEBATE ABERTO A bomba israelense em Berlim Segundo o Der Spiegel, o governo israelense está equipando submarinos comprados à Alemanha com ogivas nucleares armadas em mísseis de longo alcance. Declaração do ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, equivale a um reconhecimento explícito de que Israel detém ogivas nucleares, coisa nunca reconhecida oficialmente. Flávio Aguiar Ainda não houve tempo para verificar a repercussão internacional, nesta segunda-feira, mas já se sabe que a notícia caiu como uma bomba em Berlim. Segundo o semanário alemão Der Spiegel, em matéria de capa, o governo israelense está equipando submarinos comprados à Alemanha com ogivas nucleares armadas em mísseis de longo alcance. O nome dessa cooperação é de “Operação Sansão”. Causou maior perplexidade o comentário do ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, à revista, de que os alemães deviam se orgulhar por terem assegurado a existência do estado de Israel “durante tantos anos”. Orgulhos à parte, uma declaração dessas, nesse contexto, equivale a um reconhecimento explícito de que Israel detém ogivas nucleares, coisa nunca dantes navegada ou reconhecida oficialmente. Resta saber se Barak vai confirmar a declaração/reconhecimento. Como fontes alemãs a revista cita Lothar Rühl, conhecido jornalista, professor e político, que foi secretário de estado junto ao Ministério da Defesa de 1982 a 1989, servindo sob ministros de ambos os principais partidos alemães, a CDU e o SPD, e Hans Rühle, ex-chefe de pessoal do Ministério. Ambos reconheceram que o governo alemão sabia da presença desse equipamento nos submarinos que fabricava para Israel. Rühl admitiu que discutiu o assunto diretamente com militares israelenses em Tel Aviv. Segundo a reportagem, o governo alemão começou a cooperação militar com Israel em 1957, ainda sob o governo do chanceler Konrad Adenauer. A partir de 1961 ele saberia da capacitação (ou da sua busca) nuclear israelense. E a última evidência dessa colaboração pro-ativa no setor estaria numa conversa em 1977 entre o então chanceler alemão Helmut Schmidt e o então ministro de Relações Exteriores israelense Moshe Dayan. A Alemanha já forneceu três submarinos a Israel, construídos no estaleiro HDW em Kiel, no norte do país. Tem mais três sob encomenda, para entrega em 2017, e o governo israelense cogita encomendar outros três na seqüência. As condições são muito favoráveis, com o governo alemão pagando por um terço do preço de cada submarino, no valor de 135 milhões de euros, e aceitando que Israel só comece a pagar pelo fornecimento a partir de 2015. Segundo a mesma reportagem, ao assinar o contrato para a construção do sexto submarino, a chanceler Angela Merkel teria imposto, como condições, a suspensão da construção de colônias irregulares em território palestino, e a liberação do término da construção de uma estação de tratamento de esgotos em Gaza, sem que o governo de Benyamyn Netanyahu tenha se pronunciado a respeito até agora. Segundo a própria revista o governo alemão reagiu “com reserva” diante da notícia. Dois porta-vozes, um da chancelaria e outro do Ministério da Defesa, deram declarações comentando o direito de Israel assegurar sua defesa, mas sem entrar na matéria específica das ogivas nucleares. A matéria, que é espinhosa na Alemanha inteira, como demonstra a recente polêmica em torno de poema do escritor alemão Günther Grass, é também particularmente espinhosa para a oposição formada pela coligação SPD/Partido Verde, que esteve no poder de 1998 a 2005, sendo impossível que ignorasse o assunto. O SPD ainda permaneceu no poder até 2009, em coligação com a CDU, quando esta, vitoriosa na eleição, formou uma nova coligação com a CSU bávara e o FDP. De todo modo, líderes do SPD e do PV afirmaram que vão questionar o governo alemão a respeito. A política de exportação de armamentos pela Alemanha está na berlinda desde que o governo de Berlim autorizou a venda de 200 carros de combate para o governo da Arábia Saudita em plena “Primavera Árabe”, enquanto o governo de Riad invadia o vizinho Barhein para sufocar a revolta popular. Apesar da conhecida política de dois pesos e duas medidas por parte das potências do Ocidente, a revelação e o assunto são complicados para os Estados Unidos, que dão uma ajuda militar bilionária ao governo de Israel, sendo que sua legislação proíbe prestar tal ajuda a países que desenvolvam armamento nuclear em condições irregulares diante da legislação internacional – o que seria o caso, uma vez que Terl Aviv jamais reconheceu sequer a existência de armamento dessa espécie, não havendo, portanto, inspeções pela ONU. Outra complicação está no curso das negociações entre as potências ocidentais (incluindo neste caso, a Alemanha), mais a Rússia e a China, com o Irã, a respeito do programa nuclear deste último. As negociações, reabertas recentemente em Bagdá, sob o impacto da notícia de que a Agência Internacional para Energia Nuclear da ONU chegara a um acordo comTeerã para inspecionar as usinas do país, eram vistas com cauteloso otimismo. Entretanto essa revelação certamente reforçará a linha mais dura entre o aiatolado iraniano, que vê com reservas qualquer concessão e está em atrito com o próprio presidente Mahmoud Ahmadinejad. Last, but not least, fica a preocupação de que alguém, algum dia, vai apertar um gatilho desses. Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim. (Carta Maior)

Argentina

Argentina: o que há por trás de um jornal chamado Clarín (II) "Até hoje lembro os rostos de meus torturadores. Porém, nenhum desses rostos, nenhum desses olhares, me persegue e amedronta mais em meus pesadelos que o olhar de Héctor Magnetto me dizendo que ou assinava a venda de Papel Prensa, ou eu e minha filha seríamos mortas", relatou Lidia Papaleo, viúva de David Graiver, ex-proprietário de Papel Prensa, diante de um tribunal. Héctor Magnetto era e continua sendo o principal executivo do grupo Clarín. O artigo é de Eric Nepomuceno. Eric Nepomuceno, de Buenos Aires Na América Latina, não é nada incomum – aliás, muito pelo contrário – que, durante regimes de exceção, que é como os delicados de vocabulário e os débeis de caráter chamam as ditaduras, grandes conglomerados de comunicações tenham surgido, se consolidado e se transformado em impérios. É curioso reparar como a forma em que esses grupos e organizações foram criados corresponde a uma clara divisão do mercado, cuidando sempre de reservar espaço para que atuem, na prática, como monopólios. Assim, passam a impor suas vontades e suas visões do mundo, que no fundo são o eco exato do que dita a voz do poder econômico. Dizem não depender do governo, o que, a propósito, é mentira. Nada dizem de sua dependência vital, direta, do poder econômico, sua verdadeira verdade. Observar essa espécie de fenômeno comum às nossas comarcas mostra a clara existência de um modelo, implantado aqui e acolá com leves variações, mas sempre ao redor do mesmo mecanismo. Por trás da furiosa oposição que o grupo Clarín faz ao governo de Cristina Fernández de Kirchner existe uma história linear, típica desse mecanismo. O grupo apoiou sem pejos uma ditadura espúria, com todos os ingredientes comuns às nossas comarcas (favorecimento do poder econômico à custa do atropelo dos direitos civis mais elementares, sedução e cumplicidade de parcelas das classes médias, omissão diante da atuação brutal dos agentes encarregados de impor o terrorismo de Estado, através de prisões ilegais, torturas, assassinatos e desaparecimentos de opositores). Nesse período, se fortaleceu enormemente. Assim, o retorno da democracia encontrou o grupo consolidado, e oscilando levemente ao sabor dos novos ares. Soube ser crítico na medida exata – medida limite – durante todos os governos seguintes, observando sempre que não fossem tocados de forma direta seus interesses (ou seja, os do poder econômico preponderante, o interno e o externo) e que as manchas do passado não fossem trazidas à luz do sol. Até que tropeçou com um governo de outra tintura, que resolveu correr o risco de enfrentar os tais interesses e atiçar o passado. A crescente polarização que a Argentina vive nos últimos anos não faz mais que fortalecer esse embate. O espaço para a crítica clara e frontal – e o governo de Cristina Kirchner merece e deve ser criticado em copiosos aspectos – perdeu lugar para a confrontação aberta, sem regras e princípios. A manipulação e a distorção de fatos e informações passaram a ser o pão de cada dia. Acontece que, muitas vezes, não basta com ocultar ou sabotar informação. A vida tem seus próprios caminhos, e esses caminhos frequentemente escapam do controle dos que se acreditam capazes de controlar a própria realidade. Agora mesmo tornou a saltar ao sol uma das fontes de tamanha fúria, um dos grandes nós desta questão: o passado do Clarín. Trata-se de uma série de revelações que o jornal já não consegue mais tapar. Dia desses, e uma vez mais, Lidia Papaleo, viúva de David Graiver, falou. Agora, diante de um tribunal. E tornou a repetir, com mais detalhes que antes, o que viveu depois da misteriosa morte do marido no México, em agosto de 1976 (a ditadura de Videla tinha escassos cinco meses de vida), num desastre de avião jamais explicado. Agora, e de novo, ela contou, com todas as letras, como foi coagida a vender ao Clarín as ações com que Graiver, um financistas astuto e brilhante, controlava a Papel Prensa, única fornecedora e distribuidora de papel-jornal no país. Contou como foi presa depois – depois – de ter fechado o negócio. Os compradores foram o desaparecido jornal ‘La Razón’, o ‘La Nación’, e, levando a maior parte, o ‘Clarín’. A certa altura de seu depoimento, Lidia Papaleo contou das sevícias que padeceu. Muitas vezes, depois de vexada, era largada estendida no chão da cela ou da sala de tormento. ‘E então eles vinham e cuspiam e ejaculavam em cima de mim’, contou ela. Antes que o juiz interrompesse a sessão para que o público abandonasse o recinto e ela pudesse continuar com seu rosário de horrores, Lidia disse: – Até hoje lembro os rostos de meus torturadores. Porém, nenhum desses rostos, nenhum desses olhares, me persegue e amedronta mais em meus pesadelos que o olhar de Héctor Magnetto me dizendo que ou assinava a venda de Papel Prensa, ou eu e minha filha seríamos mortas. Pois bem: Héctor Magnetto era e continua sendo o principal executivo do grupo Clarín. Foi quem, naquele distante 1976, e antes do sequestro e das torturas de Lidia Papaleo, se reuniu com ela, e foi diante dele que ela capitulou. Meses depois, assim que a transação foi sacramentada, Lidia acabou sendo levada para os calabouços do horror. Por quê não a prenderam antes? Por uma questão legal: havia uma lei que passava diretamente às mãos do Estado as propriedades dos subversivos presos. E a ditadura não queria se apoderar da fábrica Papel Prensa: queria compensar os bons serviços prestados ao regime pelos três jornais contemplados. Por quê a prenderam? Por achar que havia mais patrimônio a ser espoliado. E porque era mulher, tinha sido casada com um financista acusado de cuidar do dinheiro dos Montoneros e, enfim, porque prender, violar e vexar era parte da rotina do sistema que compensou o silêncio cúmplice e interessado dos Magnettos da vida. Assim começou a fortaleza e o império do grupo Clarín. Depois vieram as concessões de rádio e televisão em cascata, depois veio todo o resto. Essa a história que há por trás da história. Os mesmos métodos aplicados contra Lidia Papaleo continuam sendo aplicados no dia-a-dia do grupo. Nisso, pelo menos, há que se reconhecer uma consistente coerência: os que controlam o grupo Clarín jamais deixaram de ser o que foram. Continuam agindo como agiram, e cuidando, sempre, de jamais se aproximar da perigosa linha que marca o início de um território que desconhecem, chamado dignidade. (Carta Maior)

Histórias

Publicado em 01/06/2012 A morte de uma vítima do capitalismo Meu nome era Antonios Perris, eu tinha 60 anos e era um músico grego. Durante duas décadas cuidei de minha mãe. Há três ou quatro anos ela sofre de Alzheimer e recentemente foi diagnosticada com esquizofrenia e outros problemas de saúde.. Os asilos para idosos não aceitaram uma anciã com tantos problemas. Quando explodiu a crise, eu não estava preparado para enfrentá-la. Vendi todas as propriedades que tinha mas acabei sem nada para comer. Ontem, minha mãe e eu nos atiramos do terraço do quinto andar. Antes de fazer isso, deixei no meu blog uma última pergunta a meus amigos poetas e músicos: Alguém conhece alguma solução? Se lhes escrevo agora já não é por mim nem por minha mãe, pois nós encontramos o descanso. Se lhes escrevo agora é por milhares de pessoas em seu país que estão passando por algo parecido ao que nós, gregos, estamos passando. Há uma solução para elas. E essa solução depende de vocês. Vocês podem e devem fazer isso. Para evitar que outros filhos e outras mães se atirem no espaço como minha mãe e eu fizemos. Já estão fazendo em seu país, mas as mortes não saem nos telejornais. Mas há vítimas. E uma outra maioria de vítimas segue viva e resistindo. Por elas e pela humanidade, senhor presidente, senhores ministros, deputados, façam alguma coisa urgentemente.. Não estou pedindo com a raiva ou o rancor que sentia por vocês ontem, pois a morte me liberou também disso. Se lhes peço, por favor, por dignidade, por respeito e porque é seu dever e podem fazê-lo. Sim, vocês podem. É muito simples. Há 350.000 famílias que foram despejadas em seu país desde que a crise começou a nos atormentar. Há milhares que estão sendo despejadas todo mês pelos mesmos bancos que vocês estão salvando com o dinheiro desses pobres que foram sacrificados durante anos e pagaram seu impostos. Agora essas pessoas nem isso podem fazer. São famílias sem trabalho, com crianças, com idosos, com enfermos. Façam por um momento esse esforço de imaginação, que sempre evitam, e pensem no que estão passando essas pessoas. Imaginem o que é ficar sem casa, ter medo e dormir sobresaltado por cada ruído que podem anunciar o despejo, a vergonha de que seus filhos vejam a polícia arrastando você para fora da sua casa, a vergonha de pedir asilo na casa de um amigo ou parente, que podem estar talvez tão sufocados como você e os seus, e o que é pior, a humilhação de dormir na rua ou em um albergue...Não é preciso muito esforço para sentir-se mal só de pensar. Pois façam com eles o mesmo que fizeram com os bancos. Obriguem os bancos a suspenderem os despejos. Obriguem os bancos a perdoar as dívidas hipotecárias e devolverem as casas que tomaram. E obriguem os bancos a alojar milhares de famílias que necessitam em casas que estão vazias à espera de negócios. Estabeleçam um aluguel razoável, estudem cada caso mas arranjem uma moradia para todos. Momentos de exceção como estes, exigem medidas de exceção como as que foram tomadas para resgatar os bancos. Resgatem as pessoas. Podem fazer isso porque o fizeram com os bancos. Foram salvos sem que lhes tenham imposto condições. Nacionalizaram a entidade que executa 80% das hipotecas, estão dispostos a dar-lhes o que necessitem e dizem que necessitam de 15 bilhões. Este banco é nosso, criem vocês suas próprias normas, salvem aos que necessitam. E façam isso logo. A vida de outros depende hoje de vocês. Minha mãe já não era capaz de saber o que estava acontecendo. Mas vocês não têm Alzheimer, embora pareça algumas vezes que você esqueceram onde deixaram sua conciência. Em meu leito de descanso, cheguei a crer por um momento que a têm. Por isso me atrevi a escrever estas linhas que podem parecer ingênuas, porque estamos construindo um mundo em que defender a justiça parece coisa de inocentes. Deixem-me este último sonho antes de pegar no sono eterno. Estendam as mãos aos que estão a ponto de lançar-se ao espaço. Façam alguma coisa. Nota do editor. Antonios Perris e a mãe dele morreram no último dia 24 de maio no bairro de Metaxourgeio, em Atenas. A notícia e seu bilhete de morte não foram divulgados pela mídia brasileira. (Direto da Redação)

sábado, 2 de junho de 2012

Ditadura

“A luta armada foi uma guerra justa”, diz o bispo de Volta Redonda – especial para o QTMD? Dom Waldyr na varanda de sua casa em Volta Redonda: "quando um país é oprimido e sofre, por estar sob domínio, a Igreja admite que os que estão sofrendo se levantem para se defender das torturas." Foto: Ana Helena Tavares Dom Waldyr Calheiros deu abrigo e facilitou a fuga para outros países de diversos perseguidos políticos. Essa prática aliada à sua proximidade com movimentos sociais, especialmente sindicais, lhe valeu a alcunha de “responsável por toda a subversão no Vale do Paraíba”. Mas “nas costas de um bispo, há uma espécie de proteção natural”, garante. E a isso credita o fato de estar vivo e de nunca ter sido preso. Por Ana Helena Tavares – do “Quem tem medo da democracia?“ Quem anda pela cidade de Volta Redonda, no Vale do Paraíba, sul do estado do Rio de Janeiro, fatalmente passará pela ponte Presidente Médici. Cruzá-la indo para a casa de um bispo que lutou contra a ditadura é, no mínimo, uma experiência inusitada, que mostra o quanto o Brasil ainda precisa avançar no esclarecimento de sua história. Dom Waldyr Calheiros Novaes, bispo emérito de Volta Redonda e Barra do Piraí, abriu as portas de sua casa para conceder entrevista exclusiva ao “Quem tem medo da democracia?“ e se mostrou surpreso com o nome da ponte: “Vou tirar essa placa de lá”, disse rindo, mas expressando um desejo sério. “Médici foi o mais criminoso dos ditadores brasileiros”, completou. Atraso para o Brasil Ele acredita que, com o golpe de 64, “houve atraso para o desenvolvimento do país”. E prossegue: “Dali não poderia sair nenhum futuro, aquilo não poderia dar em nada. Os líderes trancados, proibidos de falar… Quem é que ia tomar iniciativas?” A intervenção sindical em Volta Redonda “Aqui, em Volta Redonda, o problema foi que interferiram diretamente no sindicato (dos metalúrgicos da CSN). Tiraram todos aqueles que eram independentes da ditadura e colocaram, dentro do sindicato, os seus assessores de confiança, afastando os outros. Ainda hoje tem gente aí que foi afastada naquela época. Hoje o sindicato não é mais o mesmo, porque a luta é contra a empresa, não contra a ditadura” Em 1988, durante o governo Sarney, os operários da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) entraram em greve. Em 09 de Novembro daquele ano, o Exército invadiu a fábrica deixando três mortos. Oscar Niemeyer fez um memorial para homenageá-los. Memorial este que foi atacado a bomba em 89. No mesmo ano, um dos líderes da greve, Juarez Antunes, que havia sido recém eleito prefeito de Volta Redonda, foi morto num suposto acidente de carro. Dom Waldyr acompanhou toda essa história e até hoje acredita que foi atentado. Álbum de recordações Na foto histórica, o bispo emérito de Volta Redonda, Dom Waldyr Calheiros, aparece de microfone em punho celebrando missa do velório dos 3 funcionários da CSN mortos na greve de 1988. No quadro, pendurado na parede da casa de Dom Waldyr, vemos o registro do momento em que os operários da CSN decidiram aderir à greve. Foto: Ana Helena Tavares O banqueiro e as tropas Falando sobre a influência do capital financeiro na sustentação da ditadura, Dom Waldyr lembrou que um banqueiro mineiro mobilizou tropas de Juiz de Fora para ajudar no golpe. “Vieram para o Rio de Janeiro e no meio do caminho houve uma negociação. Um dos coronéis era meu conhecido, general Cesar Neves, e ele me contou como foi aquilo tudo.” O poder econômico “dominou, animou e impulsionou” “Quer dizer, houve iniciativa de empresários. Não há dúvida nenhuma, porque os militares sozinhos, por serem militares, não tinham interesse pessoal em torno disso, tinham que ter o poder econômico por trás. Era o econômico que estava dominando, animando e impulsionando”. Omissão da mídia Para o bispo, “a mídia se manteve completamente ausente diante da extravagância da ditadura. Foi totalmente omissa, porque tinha interesses econômicos. Nossa democracia não deve nada a eles, a não ser a um ou outro, como o Pasquim.” Mesmo sabendo que havia censura por parte do governo, ele acredita que “os grandes meios de comunicação, se quisessem, poderiam divulgar informações sem assumi-las como posição própria.” “Porque o problema é que, muitas vezes, havia jornalistas com coragem, dispostos a assinar notícias denunciando o que estava acontecendo, mas os próprios donos não permitiam a veiculação. Para eles, aquilo era comum. Havia todo um comprometimento. O Roberto Marinho de braços dados com Figueiredo não me deixa mentir.”, ironiza Dom Waldyr. O apoio da Igreja Católica ao golpe Quando “estourou” o golpe, que Dom Waldyr garante ter sido em 1º de Abril de 1964, ele era bispo auxiliar do Rio de Janeiro. “Naquela ocasião, o cardeal Dom Jaime de Barros Câmara e Dom Hélder Câmara, que era o secretário da CNBB, pediram uma audiência ao general de plantão (Castelo Branco). Eles se encontraram em Laranjeiras, numa casa pertencente ao governo, junto com mais uns cinco bispos, dentre eles Dom Sigaud, que era da oposição à renovação da Igreja. Hélder ali falou claramente que apoiava as decisões do poder militar e que a Igreja não se ausentava daquela situação, mas não tomou a iniciativa nem estimulou.”, contou Dom Waldyr. A reação da Igreja “No entanto, quando, no mesmo ano, começaram as torturas, que chegaram dentro de casa, houve uma perseguição a muitos membros da Igreja que lutaram contra a ditadura. Aí, houve outra reunião. Foi para desfazer o contentamento da Igreja com o golpe.” Dom Waldyr Calheiros: A Igreja, depois que viu que seus membros não foram livrados das prisões e das torturas, começou a mudar sua postura.” Dom Waldyr Calheiros: A Igreja, depois que viu que seus membros não foram livrados das prisões e das torturas, começou a mudar sua postura.” “Naquela época, havia muitos movimentos sindicais, que faziam passeatas. Naturalmente, aquilo, para a Igreja, era um pouco de desordem. Mas já era uma reação dos operários à ditadura que foi estabelecida. Eles é que reagiram num primeiro momento. A Igreja, depois que viu que seus membros não foram livrados das prisões e das torturas, começou a mudar sua postura.” O Cardeal que mudou de lado “Dentro da Igreja, um dos defensores do golpe era o Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara. Ele, por sua vez, teve um de seus sobrinhos atingido pela ditadura. Foi na Bahia. Colocaram-no no 5º andar de um prédio e começaram a maltratá-lo. Ele, então, pulou para se livrar daquilo. Suicidou-se. Esse suicídio desse menino serviu para Dom Jaime refletir e rever sua posição. Ele afastou toda possibilidade de dar apoio à ditadura”. A morte do representante do papa Dom Waldyr relatou que, na ditadura, teve contato com o representante do papa no Brasil, que é chamado “núncio” (palavra que significa anunciador). “Eu me dirigi ao núncio apostólico, o nome dele era Lombardi. Ele era totalmente contra o regime e, assim, foi instigado pela ditadura a se afastar do Brasil para vir outro núncio. Naquela época, a sede dos representantes do papa era no Rio de Janeiro, mas, nessa luta, Lombardi precisou ir até Brasília. Contrariado, porque as autoridades estavam quase colocando a mão em cima de Dom Hélder Câmara, que era a voz da Igreja contra a ditadura, ele quis se entender com as autoridades. Lá, em Brasília, ele teve um enfarto e morreu.” “Antes da morte dele (do núncio), houve aqui um problema bastante antipático. O comandante do Batalhão de Infantaria Blindada (BIB), que era localizado em Barra Mansa, bem perto de Volta Redonda, para tomar conta da Companhia Siderúrgica, um bem nacional, achou de convocar as autoridades locais para fazer uma exposição muito negativa de mim. Disseram que eu tinha relações com todas as organizações comunistas internacionais.” “Responsável pela subversão no Vale do Paraíba” “O comandante dizia que tinha cartas minhas trocadas com revolucionários do Uruguai, do Paraguai, etc… E convocou delegados, promotores, todas as autoridades da sociedade, para ouvir a exposição dele. Alguns membros da Igreja que foram ouvi-lo me contaram tudo. Ele me acusava de ser o responsável por toda a subversão no Vale do Paraíba. Falava: ‘o bispo comunista incita as pessoas a ingressarem na luta’. E atribuiu a isso a prisão, dentre outros, de Waldyr Bedê, que era um professor aqui em Volta Redonda, um homem muito conceituado e esclarecido, sem compromisso com a ditadura, e que trabalhava comigo. Então, eu tive que reagir um pouco. Pedi uma audiência a ele.” “Não posso prender um bispo” “Isso foi depois do AI-5. Fui acompanhado do meu vigário-geral, Monsenhor Barreto, disse que tinha conhecimento do que ele (o comandante do BIB) havia dito. ‘Sei o conceito que o senhor tem de mim’. E disse mais: ‘Se o senhor acha que prendem pessoas pelo crime de trabalharem comigo, o criminoso sou eu, me prenda’. Ele respondeu: ‘Pode me dar um tiro, pode jogar uma bomba no batalhão, não posso prender um bispo’”, lembrou Dom Waldyr. Nesse dia, o bispo permaneceu lá das 8h às 22h. Queria mesmo ser preso junto com aqueles que trabalhavam com ele, o que deixou os militares incomodados. “Não podemos mantê-lo aqui”, diziam. Dom Waldyr conseguiu com isso a libertação de alguns, mas houve um preço. “Cobraram deles que dissessem tudo o que tinham contra mim. Alguns saíram incumbidos de procurar coisas ruins a meu respeito para permanecerem soltos.”. Facilitando fugas “Uma vez, veio me pedir socorro uma pessoa que se apresentou dizendo que trabalhava com Dom Pedro Casaldáliga (bispo prelado emérito de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso). Queria que eu o ajudasse a fugir do país. Como ele trazia o nome de Dom Casaldáliga, já tinha uma credencial… E ele tinha que fugir, pois estar com Pedro não era possível… Fiz o que estava ao meu alcance, me dirigi ao bispo da fronteira, Foz do Iguaçu, e disse: ‘tem um fulano aqui que eu gostaria que você desse uma ajuda para ele passar para o Uruguai’ Ele atendeu. Esse eu sei que encaminhei.” “E houve também certos companheiros que eu ajudei a fugir daqui (de Volta Redonda) pela perseguição que estava em cima deles. Entre eles, tem um jornalista chamado Aurélio, que ainda é vivo. Ele me disse (naquela época) que estava com receio de que lhe acontecesse alguma coisa. Eu disse a ele: ‘Olha, Aurélio, só há um caminho: é fora daqui, saia daqui’ Ele, então, ‘desapareceu’ por algum tempo. Passada a ditadura, ele voltou e é dono hoje do “Diário do Vale”, que é o jornal da cidade.” “Confessar-se num livro não redime ninguém” Dom Waldyr comentou a atitude do ex-delegado Cláudio Guerra, que foi um matador na ditadura e resolveu escrever um livro – “Memórias de uma guerra suja” – contando o que sabe: “O arrependimento é uma coisa muito pessoal. Alguns usam isso em proveito próprio, aproveitando-se da situação atual para se sentirem ainda acolhidos na comunidade, mas não acredito em conversão no caso dele. Se fosse dentro da sujeira que ele estava fazendo, tudo bem. Converter-se agora? Não acredito. E confessar-se num livro não redime ninguém. Se a Comissão da Verdade existir mesmo, ele tem que ser ouvido e acho que não seria perdoado.” Tortura: “um pedaço da sua carne sofrendo no outro irmão” “Porque o que a gente espera é que essa Comissão não só descubra os criminosos, mas faça justiça com relação aos que ainda estão vivos. É uma satisfação para os familiares das vítimas e para a sociedade. Os torturadores têm que ser julgados e punidos. Porque isso que eles fizeram foi muito doloroso e essa atitude não se faz sem uma opção pessoal. Torturar uma pessoa, sem ela ser criminosa, e mesmo que fosse, é inadmissível. É um pedaço da sua carne sofrendo no outro irmão.” Luta armada: “um instrumento de libertação” Para Dom Waldyr, a luta armada de esquerda foi “totalmente legítima” a partir do momento que funcionou como “um instrumento de libertação para os que lutaram e uma forma de exigir que a prática de tortura não continuasse”. Para ele, “ninguém tem uma vocação suicida, maltratando o seu direito de viver, então eles (os guerrilheiros) fizeram o que era necessário.” E vai além: “Quando um país é oprimido e sofre, por estar sob domínio, a Igreja defende uma guerra justa e admite que aqueles que estão sofrendo e passando mal se levantem para se defender dessas torturas. Uma guerra justa.” Assista ao bispo Dom Waldyr Calheiros falando da legitimidade da luta armada Comissão da Verdade O bispo considera que os nomes escolhidos para integrar a Comissão “são confiáveis, são pessoas que passaram pela experiência (da ditadura) e não falarão genericamente, porque são testemunhas da verdade”. Mas não entende o porquê do espaço de tempo de 1946 a 1988: “Só se for para atrasar o resultado”, disse. Uma sugestão para a Comissão “Tem um casal conhecido meu que o filho deles trabalhava no Exército, no batalhão de Barra Mansa, na época da ditadura. Uma vez, ele vinha de lá para Volta Redonda, num jipe do Exército. Era noite e prenderam um rapaz que estava pintando uma propaganda da Casa Confiança. Colocaram-no dentro da caminhonete, onde começaram a socá-lo. Nisso, ele caiu, bateu com a cabeça numa pedra e morreu. Até hoje a família é enganada pensando que houve um acidente, mas tem uma irmã dele consciente de que o mataram. Esse é um caso que a Comissão da Verdade deveria apurar e descobrir o que aconteceu, porque ele morreu dentro do quartel.” Um comentário sobre FHC “Eu conheci Fernando Henrique Cardoso quando a ditadura ainda o amarrava. Ele era um dos conferencistas privilegiados pela CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil). Quando o regime começou a se endurecer, a CNBB o convidava para ele expor qual seria a melhor atitude. Nós fomos companheiros dele, quando tivemos oportunidade de estudar como nos libertarmos disso. O que aconteceu depois da ditadura foi que os homens começaram a querer tirar vantagem.” A importância do passado para o presente “É importante (que haja o esclarecimento dos crimes da ditadura) primeiro para que o Brasil supere a falta de memória dos que viveram e não se interessaram pelo bem da sociedade. Talvez alguns tenham se afastado, valendo-se daquele velho ditado – ‘Como o fogo não é na minha casa, que os outros tomem conta que não é comigo’. Somente esses – os que não foram atingidos – é que podem ficar indiferentes ao que se passou. É uma espécie de egoísmo exaltado ao máximo. Quem perde a memória do passado não pode saber, diante do presente, que passou aquela experiência”. “Se eu souber de um torturador, abro o bico” Perguntado sobre sua opinião a respeito dos jovens que tem pintado muros e colocado faixas em locais onde moram ou trabalham ex-torturadores, Dom Waldyr reagiu positivamente: “Acho que é uma boa contribuição. Uma atitude dessas é uma participação da comunidade ao repúdio que se tem diante da ditadura e do seu modo de tratar, que foi uma miséria, tratavam as pessoas como se fossem animais. Acho que é uma ajuda importante, porque foi injustíssimo aquilo. Então que se faça justiça hoje, quando se tem um ambiente para isso. Se eu souber de um torturador, abro o bico, grito claramente com os instrumentos de que eu puder dispor. Porque a impunidade dos criminosos de ontem é a pior coisa para que outros cometam novos crimes.” “Quem vai para a delegacia é pobre” Falando sobre o Brasil de hoje, o bispo pergunta-se: “Quem vai para a delegacia?”. Ele mesmo responde: “É pobre!” E prossegue: “Tudo o que fazem lá com ele (com o pobre) é justificado, porque ele fez isso, aquilo e aquilo outro… Aí aparecem pessoas delatando a vida do povo, testemunhas às vezes falsas. Acho que é indecente por parte daqueles que se aproveitam disso.” Dilma: “uma esperança” “Acho que Dilma é uma esperança. Tenho estado de pleno acordo com a maioria das atitudes que ela vem tomando.”, diz o bispo. E conclui: “Espero que ela consiga fazer com que essa Comissão da Verdade funcione, não só reconstituindo a verdade, mas punindo os crimes dos agentes do Estado”. => Esta entrevista é a 13ª de uma série sobre a ditadura. Para conferir as anteriores, clique aqui. Ana Helena Tavares é editora do site “Quem tem medo da democracia?“ (QTMD)

Drummond

Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes. E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil, este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; este orgulho, esta cabeça baixa... Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) (Poemblog)

Lessa

Ivan Lessa: E eis aí – Au! Au! - o Mundo Cão Ivan Lessa em ilustração de Baptistão Ivan Lessa Colunista da BBC Brasil Atualizado em 30 de maio, 2012 - 05:22 (Brasília) 08:22 GMT Facebook Twitter Share o Lá por volta de 1962, entrou para o trivial ligeiro de nosso léxico a expressão "mundo cão". Era quando queríamos nos referir a qualquer bizarria, que poderia se referir desde a uma nota lida em jornal espalhafatoso. Um homem matava, esfolava e comia o colega de trabalho na oficina. Mundo cão. Au! Au! Colunas anteriores Ivan Lessa: De consoladores e vibradores Ivan Lessa: Um consolador na janela Ivan Lessa: VocêTuba? Tópicos relacionados Colunistas Os pobres com sua pobrezas: mundo cão. Tudo devido a dois filmes italianos com esse título que andaram fazendo sucesso mundo afora. Documentais. Exploravam o inusitado (não, não havíamos visto nada) e taca na tela mulheres africanas correndo atrás de presas exóticas ou para degluti-las ou pelo mero esporte beirando o olímpico de perseguir gente. E cemitérios para cães. E culinária americana na base de comer formiga, barata, larva ou minhoca. Um espasmo de nojo na plateia repleta e o gerente do cinema sorria satisfeito. Au! Au! Sabíamos que o mundo tinha dessas coisas, mas a televisão não mostrava e a televisão e a informática não eram mais que um par de brilhos nos olhos de quem ainda não bolara o ponto a que chegamos 50 anos depois. Vale tudo e tem de tudo para todos os gostos. Ninguém mais fala em "mundo cão". Limitamo-nos a ganir com o resto de nossos semelhantes. Somos todos documentais italianos agora. Já vimos de tudo e há, nesses assuntos mais esotéricos, ou um canal de TV ou um website especializado. Au! Au! As nossas estranhezas viraram lugar-comum e chavão. Nada do que é irrazoavelmente desumano nos é estranho. Pegamos intimidade com o inusitado. Não farei um desfile, mas abra comigo um jornal, que seguramente noticiaram pelos 7 ventos e 4 mares, ou vice-versa, essa notícia do rapaz japonês, é claro (por que "claro"?), que tem por nome Mao Sugiyama, e 22 aninhos de idade, que cortou fora os penduricalhos de sua genitália, cozinhou e serviu para seletos gastrônomos de Tóquio. Não ganhou um único Uau! e faturou pouquinho. A carrocinha do Tempo acabou com os cães de 50 anos atrás. Foram-se os cães, ficou esse mundão que aí está... E metade dele desabalado por aí com uma tocha portando a lendária chama olímpica das Olímpiadas armada pelos nazistas nos Jogos Olímpicos de 1936. Não gostam de lembrar, mas que foi bolação do atilado sr. dr. Joseph Goebbles, ministro da propaganda do governo de outro sr. dr., este Adolf Hitler por nome. Correm com um símbolo nazista nas mãos e querem recorde no salto em altura e no tríplice, entre outros. Au! Au! e Bow Wow! como se late propriamente em inglês. Esta semana, na televisão, que nos aperta em seus braços fortes, lá estava a Marcha das Vadias ocorrida no Brasil, cujo objetivo não era outro senão mostrar que, numa sociedade machista, somos todos, digo, todas, umas boas vagabundas com muita honra. Au! Au! Passando a um patamar literário, que nem só de comer barata vive o homem, principalmente o homem brasileiro, é notícia de destaque que a editora Companhia das Letras está editando a terceira versão da, dizem, obra prima de James Joyce, Ulysses, desta vez com pissilone, o que deve mudar tudo, sem dúvida. 1112 páginas de fazer corar um Carlos Zéfiro de pedra, quero crer. Gente pretensiosa que não acaba mais afirmando que o notável artifício, que na verdade constitui de um único alçapão ocultando outros alçapões, é uma obra prima de humor e que dois ou tres livrinhos poderiam servir como guia para sua melhor degustação. A tradução anterior foi feita por Antônio Houaiss, e era, do começo ao fim, uma só idiohouaissografia impagável, com destaque para um "Sins" final e, tentando se esconder lá no meio, a frasezinha "não nado neném nídulo tinha", que foi como ilustre imortal dicionarista decidiu que era a tradução mais correta para before born babe bliss had. E o resto é Au! Au!, sim, senhor. A Cia. Das Letras, para dar um plá de facilitação para o leitor em potencial, ou impotente, optou por uma capa labirintina de difícil leitura (é, eles começam a erguer empecilhos logo na capa e depois juram que aquele milhar e tanto de páginas não é mais que gozação e pleno humor) que mais parece bizantino invólucro incrementado de videogame para maiores de 18 anos. O Mundo Cão aí está a ganir em nossas fuças e a gente nem quer saber. Au! Au! (BBC Brasil)