quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Cinema
2012: A imagem do cinema brasileiro
Posted in: Destaques, Povos Tradicionais, Sociedade
Por: Bruno Carmelo - 13/11/2012.
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Observando os cartazes dos filmes nacionais, nota-se uma relação de consumo particular com os corpos fetichizados ou erotizados dos atores
Por Bruno Carmelo, editor do Discurso-Imagem.
Em 2012, até o meio de novembro, o cinema brasileiro tem apresentado bilheterias fraquíssimas. Apenas dois filmes ultrapassaram a marca de um milhão de espectadores (Até Que a Sorte nos Separe e E Aí… Comeu?, embora Gonzaga – De Pai pra Filho esteja chegando lá), enquanto outros que esperavam atingir a marca fracassaram amargamente (Xingu, Heleno, Paraísos Artificiais).
Encontrar as razões para estes resultados seria necessário e interessante, mas este artigo propõe refletir sobre um elemento menor, pontual, mas bastante representativo do mercado de cinema: os elementos de venda do filme, ou melhor, os cartazes dos filmes nacionais lançados nos últimos doze meses. Considerando que muitos espectadores ainda decidem o filme que vão ver nos próprios multiplexes, diante dos cartazes, estas imagens servem como boas metáforas da imagem que o filme quer passar de si mesmo. Ou seja, o cartaz mostra não necessariamente o que o filme é, mas qual produto ele gostaria de ser, e qual público ele pretende seduzir.
Certamente, todos os cartazes não podem ser reduzidos às mesmas estratégias, mas é possível perceber algumas tendências gerais. Os cartazes dos filmes mais populares têm apostado em uma simplicidade extrema. Em termos de design, são pôsteres sem profundidade de campo, com os personagens mostrados de corpo inteiro, colados um ao lado do outro, de modo a preencher o espaço. O fundo é apenas uma tela: estas são imagens literalmente superficiais. Não se conta a trama, nem o espaço ou o tempo. Mostra-se apenas o que se julga atrair o público mais amplo: caras, bocas, mulheres belas, atores famosos.
É o caso de As Aventuras de Agamenon, o Repórter (terceiro maior sucesso do ano), Até Que a Sorte nos Separe (o líder) e o ainda inédito Os Penetras. No caso deste último, um primeiro cartaz, levemente mais complexo e com iluminação contrastada, mostrava os dois personagens abraçados, com um fundo desfocado. Ele foi trocado mais tarde por outro cartaz, de leitura direta, sem imagem ao fundo, com luz chapada e personagens vistos praticamente de corpo inteiro. Este enquadramento, pelo menos da cintura para cima, é útil para mostrar as formas do corpo, quando estas são importantes (a corpulência cômica de Hassum em Até Que a Sorte nos Separe, as curvas sedutoras de Mariana Ximenes em Os Penetras). E que a ordem entre os corpos não confunda o espectador: estes cartazes são feitos para agradar, para não forçarem o pensamento. Não há ambiguidade em uma imagem deste tipo.
Isto já não ocorre com grandes produções nacionais que pretendiam alcançar um grande público, mas tiveram resultados abaixo do esperado. Não se pode estabelecer uma relação de causa e consequência (os filmes fracassaram porque foram vendidos de tal maneira), mas coincidentemente muitos deles apostaram na mesma estrutura de imagem: Xingu, Heleno e outros colocaram os rostos de seus personagens principais na metade superior da imagem, com elementos do espaço logo abaixo. Percebe-se: 1) O rosto do elenco global e/ou belo, ocasionalmente com uma figura conhecida (a representação de Gonzaga), 2) O tom do filme, sua época ou gênero representado pela sugestão de cenário na metade inferior. Parece que, pelo menos em 2012, o “cinema comercial de qualidade” apostou nesta combinação clássica de rostos (apelo popular) com paisagens e contexto histórico ou geográfico (apelo “artístico”).
Já os filmes direcionados a um circuito restrito lançaram a mão das convenções e foram, como é de se esperar, radicais como sua proposta estética. Muitos deles inclusive colocaram seus personagens de costas, evitando o olhar do espectador. Febre do Rato surpreendeu pela imagem do personagem em um gesto pouco legível. Girimunho, Histórias Que Só Existem Quando Contadas, Sudoeste e Vou Rifar Meu Coração preferem dar mais importância ao espaço do que aos personagens, meros anônimos espremidos nos cantos do enquadramento. A maior importância, no caso, vem das metáforas, das sugestões, das cores e texturas. De certa maneira, quanto mais se sublimou a representação humana, mais se caminhou às produções propícias aos circuitos dos festivais.
Se as considerações acima podem ser esperadas ou mesmo óbvias (filmes populares apelam para a leitura imediata dos corpos; filmes de circuito restrito evocam metáforas e sensações), a estrutura torna-se mais complexa diante de algumas produções cujos cartazes são incompreensíveis: eles não dizem de que trata o filme, a qual público ele se destina, em qual gênero ele se encaixa. O material promocional de Astro – Uma Fábula Urbana em um Rio de Janeiro Mágico não mostra se a obra é uma animação, se é infantil, dramático, cômico. Menos Que Nada cola rostos flutuantes pelo ar sem criar nenhuma relação entre eles, assim como o evangélico Três Histórias, Um Destino, que lembra as capas de romances de banca de jornal. Pelo menos, no caso deste último, o produto contava principalmente com o boca a boca nos centros de culto para conquistar seu público, não dependendo tanto do cartaz, trailer e instrumentos tradicionais de publicidade.
Seria interessante comparar estas imagens com as dos outros anos, ou então colocá-las em ranking, da maior à menor bilheteria, mas constatemos apenas que em 2012 os filmes tentaram se vender pela relação muito curiosa à figura humana: nas grandes produções populares, o humano é claramente visível, disponível, mas também fetichizado, erotizado ou ridicularizado. Os corpos são fornecidos ao olhar para consumo direto, pelos nomes famosos, pela posição central e majoritária na imagem. Já os filmes menos comerciais, que apostam nos conflitos humanos, são aqueles que justamente esconderam as identidades de seus humanos, sugerindo apenas sua presença, sua relação com o espaço.
O cinema popular apelou para imagens pouco inteligentes, mas ansiosas por agradar – são imagens da oferta, que antecedem o desejo do consumidor. Já o cinema dito alternativo combinou o design complexo com um sentido incompleto – são imagens da procura, que só se completarão caso o espectador já tenha uma vontade prévia de desvendar símbolos do tipo.
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Bruno Carmelo é editor do site Discurso-Imagem. O acervo de seus textos publicados em Outras Palavras pode ser acessado aqui
(Outras palavras)
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Israel
Netanyahu: vitória de Pirro
21/11/2012, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
“Netanyahu wins a Pyrrhic victory”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Considerada à primeira vista, a operação de lançar novo assalto contra Gaza parece movimento vitorioso. Como se Israel tivesse acertado todos os tiros, 10 em 10, em sua “Operação Pilar da Defesa”. Mas é vitória de Pirro.
Faz lembrar a ilusão de segurança que as bruxas inventam em MacBeth de William Shakespeare: “Só o poder de homem não nascido de mulher pode ferir Macbeth”. O impossível, de fato, está bem perto de acontecer: “Macbeth não será derrotado, até que a Grande Floresta de Birnam erga-se contra ele e suba a montanha até Dunsinaine”.
Ahmed al-Jaabari
A ilusão é que os israelenses destruíram o quartel-general do Hamás e explodiram em pedaços Ahmed Jaabari, comandante militar do movimento, em assassinato premeditado, o que, aparentemente, enterraria o movimento da Resistência. Mas a dura realidade é outra: a mesma operação comprovou que o “Domo de Ferro” de Israel, anunciado como impenetrável, não passa de mito: foi facilmente penetrado por mais de 2/3 dos foguetes do Hamás. Agora... Será que só resta a Israel a invasão por terra?
O problema é que essa opção também se pode revelar mais um mito, o que se viu bem claramente em 2006 nas operações de Israel contra o Hezbollah no Líbano, cujos militantes quase sempre invisíveis, também dividem-se em vários subgrupos. A dura e clara realidade parece ser que, como já alertou o presidente Barack Obama dos EUA, “se soldados israelenses entrarem em Gaza, enfrentarão risco maior de serem mortos ou feridos”. [1]
Verdade é que vê-se cada vez mais claramente que a realidade política pode tornar-se mais ameaçadora a cada minuto. Ao final do dia de ontem, Israel fez algo que jamais antes fizera em toda a sua história: sentou-se à mesa de negociações à procura de paz, apenas três dias depois de lançar ataque militar. [2]
Benjamin Netanyahu
O paradoxo está em que é verdade que Netanyahu não perdeu bala e acertou seus tiros no olho do alvo. É verdade que lançou o ataque contra o Hamás como propaganda da sua Grande Israel para o público interno e é bem possível que tenha melhorado a posição de seu partido Likud, dessa vez aliado ao ultranacionalista partido Yisrael Beitnu de Avigdor Lieberman para as eleições de janeiro próximo.
A popularidade do Likud estava em queda, e o partido já se via ameaçado pela aliança de oposição do partido Kadima do ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert, e do partido Yair Labed, do ex-ministro de Relações Exteriores Shaul Mofaz. Netanyahu avaliou, corretamente, que a sociedade israelense volta-se cada vez mais para a direita militarista, e um show de força sob sua liderança daria ao seu partido proeminência suficiente para roubar o vento das velas da oposição israelense.
Netanyahu pode agora jactar-se de que, sob sua liderança, Israel “degradou” a máquina de guerra do Hamás e enfraqueceu a ameaça que o grupo representa contra Israel. Pode dizer também que o Hamás vinha-se tornando cada dia mais ativo e que ele, Netanyahu, forçou o grupo a retroceder.
Há algum acerto na avaliação de Netanyahu, segundo a qual o afastamento entre o Hamás e Damasco (e também entre o Hamás e Teerã) ao longo do ano passado, criaria boa oportunidade para atacar Gaza. Os novos patrocinadores do Hamás – o Qatar, a Turquia, etc. – são conhecidos como cães que mais ladram que mordem, diferentes, nisso, de Síria e Irã. A guerra civil na Síria também cria alguma distância entre o Hamás e o Hezbollah, o que opera a favor de Israel.
Obviamente, os regimes sírio e iraniano estão reduzidos ao papel de coadjuvantes, quando poderiam ser dois atores protagonistas que fariam toda a diferença em relação à capacidade militar do Hamás. Assim, com o Iraque devolvido à Idade da Pedra e a Síria naufragada numa longa guerra civil, Israel só teria de preocupar-se com o Egito e estaria praticamente liberado para fazer o que bem entendesse no plano regional.
Mohamed Mursi
A mais importante conquista de Israel no atual conflito for ter conseguido engajar construtivamente o governo egípcio de Mohamed Mursi, da Fraternidade Muçulmana. Ter enviado dois negociadores israelenses ao Cairo mostra a facilidade com que Telavive engajou o governo de Mursi. Com toda a certeza, é mais que simples vitória simbólica para Telavive que Mursi, pela primeira vez, tenha sido obrigado a articular a palavra “Israel” em declaração pública no Cairo, numa conferência de imprensa, no domingo. [3]
Não há dúvidas de que EUA, a Liga Árabe e Israel estão confiando em Mursi para uma função de “mediação” – e para negociar um cessar-fogo. Do ponto de vista de Telavive, o que quer que se decida como condições para um cessar-fogo negociado hoje (ainda que sob os auspícios da ONU), carregará o selo implícito da aprovação de Mursi, e essa pode ser a abertura de que Israel precisa desesperadamente, pela qual possa ter esperança de arrancar-se (com a ajuda dos EUA) da enrascada em que está, de modo a readquirir capacidade para agir no plano físico e no plano da ONU, no próximo governo. Claro que nem Netanyahu sonha com a volta aos tempos de Hosni Mubarak, mas qualquer coisa é melhor que o atual nada.
Shimon Peres
Bem visivelmente, o presidente de Israel, Shimon Peres não perdeu tempo e apressou-se a colher as vantagens dessa janela de oportunidade, e abertamente elogiou os esforços de Mursi para por fim às hostilidades. Disse que “o Egito é player importante no Oriente Médio”. [4] Israel tentará, daqui em diante, minar os laços que ligam a Fraternidade Muçulmana e o Hamás, que cada dia mais se vai convertendo às políticas de Mursi para Gaza.
O conflito de Gaza também obrigou a opinião pública egípcia a encarar sua hora da verdade – que os egípcios estão sitiados numa espécie de terra-de-ninguém. As simpatias da rua egípcia vão integralmente para os palestinos, mas os egípcios não querem que a escalada na região arraste o Egito para conflito com Israel. Os egípcios sentem afinidades culturais com Gaza, mas estão muito aflitos ante a possibilidade de o enclave palestino virar local de produção de militantes que acabem por criar condições para nova guerra entre Egito e Israel.
No que tenha a ver com a Turquia, outro grande player regional, Israel obrigou o primeiro-ministro islâmico da Turquia, Recep Erdogan também indiretamente, a perceber o que está escrito pelos muros, a saber, que o Cairo, não Ancara, é o centro, hoje, de toda a diplomacia regional sobre o conflito em Gaza. O veterano e influente jornalista Murat Yetkin, escreveu no diário Hurriyet, órgão do establishment turco, que Ancara não está satisfeita com o “papel secundário” e com o doloroso reconhecimento de que a potência regional do Egito já ultrapassou a da Turquia. Escreveu ele, sobre a frustração que grassa em Ancara:
O papel do Egito na região volta à cena depois da Revolução Tahrir, e o governo do Egito é mais forte (...) A oposição síria, que começou nos campos de refugiados na Turquia, já declarou que considera o Cairo como seu quartel-general. A Primavera Árabe funcionou para o Egito e o país está nascendo das cinzas, outra vez, oferecendo modelo realista aos países árabes. E se Mursi conseguir salvar Gaza da ira de Israel, pode vir a ser um segundo Gamal Abdel Nasser, com o aval extra de ser eleito para o mundo árabe.
Recep Tayyip Erdogan
O ataque israelense contra Gaza mudou a bússola da política do Oriente Médio. Com certeza obrigará a reavaliar as políticas turcas. E Israel espera que haja mais realismo de parte de Erdogan sobre os laços da Turquia com Israel. Israel anda dizendo que a fratura dos laços só feriu, até agora, interesses nacionais vitais da Turquia, na medida em que a partilha de inteligência está suspensa; e Ancara perdeu sua capacidade para mediar os conflitos no Oriente Médio.
Mas é caso ainda sem sentença definitiva. Erdogan também é demagogo. Sua retórica estridente ultrapassou em muito a de Mursi, quando Erdogan chamou Israel de “estado terrorista”, e passou a repetir que Telavive pratica “limpeza étnica”. Erdogan parece preferir surfar a crista da onda da opinião pública árabe, em vez de cuidar de algum “reset” nas relações turco-israelenses.
No geral, analisada a coisa do ponto de vista da política externa, Netanyahu parece ter colhido uma sequência de vitórias. De fato, o golpe mais “matador” envolveu Obama. Netanyahu forçou o presidente dos EUA a manifestar clara solidariedade a Israel no teatro do Oriente Médio, apesar das flagrantes diferenças que houve entre os dois, no ano passado, em vários campos, e inobstante a malfadada aliança com Mitt Romney, em momentos críticos da campanha eleitoral nos EUA – que muito irritou Obama.
Percepções e impressões fazem, sim, grande diferença na política do Oriente Médio e, mais uma vez, Netanyahu mostrou-se competentíssimo na arte de levar pelo nariz o governo dos EUA.
Netanyahu é atento observador da política dos EUA, e apostou que conseguiria forçar a mão de Obama, dado o completo controle que Israel tem sobre o Congresso dos EUA, a imprensa e os think-tanks, apesar dos sinais preocupantes que continuaram a aparecer, de tempos em tempos, de que o presidente Obama começava a trabalhar numa correção de curso na fracassada estratégia dos EUA para o Oriente Médio.
Netanyahu não errou. Aliás, a Operação Pilar da Defesa tem algo em comum com a sangrenta Operação Chumbo Derretido (dezembro de 2008): as duas surgiram imediatamente depois de vitórias eleitorais de Obama.
Avigdor Lieberman
Não é pouca coisa, também, que, exceto os países árabes, praticamente ninguém condenou o “direito de defesa” de Israel. Players influentes como Rússia, China e países europeus adotaram posição de neutralidade, com clamores de “restrição” dirigidos aos dois lados do conflito. Rússia e China, ambas, estão à espera de grandes oportunidades de negócios no mercado israelense. (Moscou também conta com as afinidades com Lieberman, imigrado da ex-União Soviética). Não há dúvidas de que os campos gigantes de petróleo e gás no Mediterrâneo catapultou Israel para o status de parceiro energético muito cortejado. Europeus, russos, chineses – o Leviatã é dor de cabeça para todos eles. Dito em outros termos, Israel não é mais amputado quádruplo com economia precária.
Contar as árvores
Finalmente, o conflito de Gaza pode ter sufocado o ameaçador movimento, pela Autoridade Palestina, de forçar uma votação na Assembleia Geral da ONU, dia 29/11, pelo reconhecimento de um Estado palestino – ação à qual Israel se opunha com unhas e dentes. Havia sinais crescentes de que Ramallah conseguiria mobilizar o apoio necessário, mas, no quadro regional em perpétua mudança, haverá agora pressões gigantescas sobre Mahmoud Abbas para que não obre na direção de aumentar as tensões.
Seja como for, os “ganhos” de Israel – políticos, diplomáticos e militares – acabarão por ser aferidos em relação às “perdas” que lhe custará ter atacado com tal fúria, com tal ira desmesurada e “desproporcional” os desamparados e miseráveis habitantes civis de Gaza. A imagem de Israel na comunidade mundial, sem dúvida, sofreu duro golpe. E haverá quem entenda que, feitas as contas, as perdas ultrapassam em muito os ganhos, e que a história apenas se repetiu – Israel responde em fúria e desespero sempre que tem de enfrentar realidades emergentes, o que nada resolve e pode, inclusive, complicar ainda mais o futuro.
É verdade, Israel pode ter reduzido a capacidade do Hamás em termos militares. Mas pode não passar de contragolpe, se tanto, apenas temporário para o Hamás, porque se deve considerar que, em pouco tempo, seus arsenais podem estar recompostos.
Mahmoud Abbas
A realidade em campo é que os foguetes do Hamás continuam a chover sobre Israel e Israel não tem informação aproveitável sobre de onde, precisamente, são lançados. Hoje, quem treme e pede paz é Israel, não o Hamás. Mais importante, o Hamás já conta com os foguetes iranianos, mais letais. O Hamás perceberá rapidamente que o apoio continuado do Irã vale o próprio peso, em ouro, agora que o Hamás busca alcançar o status de que goza o Hezbollah para forçar um confronto estratégico com Israel. É possível, em resumo, que Israel esteja empurrando o Hamás de volta para o abraço iraniano – o que Israel só tem motivos para temer.
Também em termos políticos e diplomáticos, o Hamás vence, de longe, a disputa. O bloqueio israelense contra Gaza não poderá ser mantido. A fila de ministros do Exterior estrangeiros que visitaram Gaza na 3ª-feira (20/11/2012), fala por ela mesma. Não há qualquer dúvida de que o Hamás pôs abaixo a estratégica dos israelenses, de “contenção”. Ironicamente, o que se viu foi que Israel já começou a “lidar” com o Hamás sem sequer se aperceber, enquanto o padrão dos contatos diplomáticos para por fim ao atual conflito vai-se desdobrando até aqui e pelos próximos dias.
Khaled Meshal
Israel já deve ter percebido que a paisagem política regional mudou fenomenalmente a favor do Hamás, a partir, simplesmente, do fato de que Khaled Meshal mostrava-se em conferência de imprensa ao vivo, no Cairo, no momento em que a fúria dos jatos israelenses atacava Gaza. Em forma resumida, pode-se dizer que a Primavera Árabe foi colheita amarga para Israel; e o crescimento do islamismo na região, sob o estandarte dos Irmãos da Fraternidade Muçulmana opera a favor do Hamás.
É possível que Israel, no processo, tenha empurrado o prato da balança, no campo palestino, a favor do Hamás e da Jihad Islâmica (contra o Fatah) como as genuínas vozes da Resistência. A posição do Irã parece afinal vitoriosa, agora que aliados secretos de Israel, como a Jordânia e as oligarquias do Golfo Persa, já estão obrigadas a lutar no contrapé.
A luta para forçar uma “mudança de regime” na Síria torna-se ainda mais complicada, na medida em que a agenda da Resistência avança. Movimentos frenéticos de britânicos e da União Europeia, essa semana, no charivari regional para oficializar o reconhecimento diplomático para a “nova” oposição síria, deixa ver o nervosismo generalizado no “ocidente”.
O xis da questão é que, enquanto a questão palestina permanecer no centro da mesa, o ocidente estará sobre furiosa pressão para “conter-se” e ver com objetividade a prioridade viciosa que tantos atribuem à “mudança de regime” na Síria... ao mesmo tempo em que o mesmo ocidente nada faz a respeito da questão mãe de todas as questões no conflito entre árabes e israelenses. É possível que Israel tenha prestado grave desserviço aos EUA, Grã-Bretanha e França e aos seus aliados regionais, quando chamou toda a atenção do mundo, outra vez, para o problema, ainda não resolvido, dos palestinos.
Assim também, enquanto o Egito talvez negocie um cessar-fogo para o atual conflito, que ninguém espere que ajude a manter o bloqueio de Gaza fechando a passagem de Rafah, ou dando sobrevida à cooperação de inteligência da era Mubarak. Vale dizer que Mursi pode ter simplesmente tentado lidar com as pressões presentes, enquanto seu movimento estratégico geral, na questão palestina e nas relações entre Egito e Israel permanece absolutamente o mesmo de sempre. Mursi também já mostrou competência e talentos táticos, e deve-se prever que manterá Israel sem saber com certeza quais suas intenções.
O teste limite será o Sinai, que é um barril de pólvora. Não há solução simples para pôr sob controle o Sinai sem-lei e os militantes se estão reagrupando onde os serviços egípcios de segurança não controlam absolutamente coisa alguma. Israel não tem escolhas fáceis à frente; e o ataque contra Gaza pode ter complicado as coisas ainda mais.
Nic Robertson
A falha fundamental, o erro, na estratégia de Netanyahu é não ver que o Oriente Médio é hoje região completamente diferente do que antes foi. Nas palavras de Nic Robertson, da CNN [5]:
O Hamás ocupa hoje espaço completamente diferente. Ainda cercado nos becos superpopulosos de Gaza, onde foi eleito há seis anos, mas, agora, com muitos amigos fora de lá. O que mudou, mudou no rastro da Primavera Árabe que varreu de lá alguns tradicionais aliados de Israel e substituiu-os por governantes mais simpáticos aos Hamás (...). O Egito está longe de estar só na revolução regional que começa a isolar Israel...
Assim sendo, onde fica Israel, hoje? Posto em poucas palavras, embora Israel seja mais forte militarmente, está hoje em posição política muito mais fraca do que estava em 2009. A retórica do Egito hoje, embora ainda não se tenha aproximado de suspender o acordo de paz com Israel, já tomou, sim, nítido viés pró=-Hamás. Todo o mundo árabe, universalmente e há muito tempo, rejeita profundamente o modo como o estado de Israel trata os palestinos. Antes, a maioria dos líderes árabes eram ditadores e não precisavam fazer qualquer concessão à rua árabe. Hoje, isso mudou. Os novos governantes regionais pós-Primavera Árabe eleitos democraticamente, sabem muito bem que há radicais linha-dura à espreita, esperando uma oportunidade.
Obama parece compreender o problema que o encara face a face, e vê a imperiosa necessidade de cuidar de reestruturar, desde os fundamentos, todo o discurso dos EUA para o mundo muçulmano. Em sua primeira conferência de imprensa, depois de anunciado o resultado das eleições estava cheia de pistas do que passa por sua cabeça, no trabalho de modelar as políticas dos EUA para situações-problema como a Síria e o Irã.
Isso dito, Obama talvez estivesse mantendo reservados os seus pensamentos, quando Netanyahu jogou-o, precipitadamente, dentro da crise de Gaza, mas isso não significa que seus pensamentos venham a mudar muito. Ao contrário, é provável que Obama sinta a compulsão, antes do que Netanyahu imagina, de romper as amarras que tanto prejudicam os interesses de longo prazo dos EUA no Oriente Médio.
O ponto nuclear, central, de toda essa questão, é que a estratégia dos EUA para o Oriente Médio enfrenta hoje crise profunda. E a menos e até que as contradições mais fundamente enraizadas sejam expostas e resolvidas, os EUA não podem nem congregar nem dispersar os recursos que têm para “reequilibrá-los” na Ásia... onde se vai constituindo um desafio histórico que decidirá o destino mais amplo dos EUA como superpotência.
Há momentos em que, na prontidão para vencer uma batalha, ninguém vê que, ali, perdeu a guerra. O momento presente bem pode ser um desses. Netanyahu talvez tenha ganho a batalha e obrigado Obama a apoiá-lo, mas não demora e também Netanyahu perceberá que isso, de fato, nem vitória foi.
Notas de rodapé
[1] 18/11/2012, USA Today, em: “Obama warns against ramping up in Gaza”
[2] 20/11/2012, USA Today, em: “Conflict puts Gaza blockade back on negotiating table”
[3] 20/11/2012, Haaretz, em: “When Morsi says 'Israel' out loud”
[4] 19/11/2012, Ministério das Relações Exteriores de Israel, em: “President Peres meets with Quartet Special Envoy Tony Blair”
[5] 20/11/2012, CNN (vídeo, em inglês, a seguir) em: “How Middle East has changed since last Gaza conflict”
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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.
(Redecastor)
Memória
o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras
do cheiro a ria e aos bolos de limão
em coisas minhas por m aresta em 14 de set de 2012 às 16:44
Não consigo conceber o que seria a vida sem memória.
A memória, essa entidade, a nossa identidade e registo, aquilo que nos coloca no aqui e no agora tendo como referência um antes e um outro lugar. Aquela que nos transporta. Que nos eleva. Que aviva em nós memórias das coisas que foram e daquelas que poderiam ter sido.
Às vezes basta um cheiro. Um som. Ou um sabor...
As memórias da minha infância têm um cheiro a ria e a bolos de limão. E a fogo a estalar na lareira, feita no chão da casa do meu avô.
Entre um "já vou" e um "espera um pouco", um cheio a sopas de café e pão, memórias da minha tia num escuro de madrugada, antes das saídas - minhas e dela - para o trabalho da distribuição do pão.
E sempre, a todo o instante, a memória que é presente do presente de todos os dias: o aroma da minha filha, feito de cheiro de coisa boa.
Há dias, já não me lembro bem do quando ou do onde, alguém informava que Gabriel Garcia Marquez não voltaria a escrever: perdeu a memória, segundo dizem. Não voltará, nem hoje nem nunca, a escrever as histórias que (decerto) fazem parte das histórias de muita gente.
Confesso – vergonhosamente e com grande vergonha – que nunca li um dos seus livros. Nunca conheci uma história sua. Nunca corri, com os olhos e num discurso mudo, as ideias e as fantasias que encantaram todos os que o leram.
Mas, naqueles segundos em que a notícia era escutada e se guardava naquele lugar do cérebro onde as memórias se refugiam e dançam, olhei para mim - para o meu presente e passado, e para o futuro que ainda não sei e que por isso ainda não guardo – e pensei que, tão triste quanto a própria morte,
é o desaparecimento deste pedaço que vive nas nossas lembranças.
[este é o meu post número doze, o mesmo nome do blog. permitam-me, por isso, que o use para trazer à memória - à minha e à de outros tantos - aqueles instantes do antes que, ainda hoje, fazem parte daquilo que sou ]
monicaaresta
Artigo da autoria de m aresta.
escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
Saiba como fazer parte da obvious.
Nazismo
Em busca de desprendimento
em Crônica por Giovana Damaceno em 30 de abr de 2012 às 01:35
Relato da experiência nos campos de concentração nazista dá a medida exata do que é realmente necessário para viver
“Em busca de sentido”, de Viktor E. Frankl é uma grande lição de desprendimento que o autor, neurologista e psiquiatra, nos oferece, ao relatar detalhes de sua experiência pessoal nos campos de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. A rotina diária como prisioneiro exigia mais que desprendimento e desapego; exigia quase sair do corpo, numa abstração total. Para Frankl, a maior parte dos milhares de pessoas que morreram nos campos, com exceção das friamente assassinadas, padeceu de suas próprias negações, da simples impossibilidade humana de deixar de ser o que é para simplesmente não ser; apenas existir. E para isso seria preciso abrir mão de si, o que para muitos significa a morte em vida. Porém, foi assim que ele sobreviveu – sobrevivendo a si mesmo.
O autor conta que na recepção, no primeiro dia, já lhe tomaram as roupas, substituídas por trapos velhos de prisioneiros mortos, e os cabelos raspados. Ficaram apenas com os sapatos, que foram se desgastando com as marchas, o trabalho forçado, a umidade, a ponto de serem amarrados com arames, quando podiam ser amarrados, pois o estado de fome e desnutrição era tamanho, que o edema nos pés os impediam de calçar. Fora isso havia os piolhos, a fatia mísera de pão que era guardada para uma pequena mordida em vários horários do dia, a sopa aguada, que trazia apenas algumas ervilhas quando a concha descia mais ao fundo da panela. Dormiam tarde – quando dormiam – e de madrugada eram acordados por uma sirene infernal, chamando-os para a marcha até os locais das obras, que eram verdadeiras valas, onde cavavam e cavavam e cavavam. E eram sumariamente humilhados, diariamente, várias vezes ao dia.
Este é um dos maiores exemplos de desprendimento que já pude conhecer, no qual, como disse, o indivíduo precisa sair de si, se quiser encontrar alguma força, algum sentido, para continuar vivendo. Porém, ao ler as poucas páginas do relato de Frankl, dá certa vergonha do próprio dia a dia, da rotina, do trabalho, dos relacionamentos, das exigências que tentamos o tempo todo impor ao mundo, como se para viver o ser humano necessitasse de tantos penduricalhos.
Aprende-se noções básicas de higiene, apresentação pessoal, elegância ao vestir, etiqueta à mesa, que para a convivência em sociedade são fundamentais, mas que se tratados com exagero tornam-se, sim, puramente caso de apego, que levam o ser a nada; apenas os faz sofrer ainda mais num caso limite de privação como no de Frankl. Exigem-se a roupa bem passada, o colarinho esticadinho, sapato engraxado, terno, gravata. Gastam-se fortunas em salões, onde se alisam as madeixas permanentemente. “Não durmo sem meu travesseiro”, “Só tomo leite da marca tal”, “Não bebo isso”, “Não como aquilo”, “Não aceito!”, “Não permito!”. E nem vou me estender aqui nos apegos das relações pessoais do tipo ciúme ou sentimento de posse do outro.
Quem sou eu pra falar de desprendimento e desapego; ainda me faltam algumas reencarnações pela frente para me libertar de mim. Mas a experiência com o câncer – longe de comparar com a experiência de Frankl – pelo menos já mostrou o caminho, ou seja, já pude entender que nada tem importância ao não ser estar viva, me relacionar bem com as pessoas, fazer o que gosto, ler, estudar, aprender sempre e mais, me aceitar e aceitar o outro, sem conceitos ou pré-conceitos, tentar compreender sempre mais e mais, não me sentir o dono do mundo nem de ninguém. Resta-me boa vontade para o exercício diário de colocar estas lições em prática.
E para terminar esta conversa que ficou séria demais, um exemplo de exercício de desprendimento que ouvi de uma mulher em Paraty: a criatura precisa fazer xixi, não há local adequado por perto, entra numa padaria, pede uma água e permissão para usar o banheiro. Enfia a garrafa de água no bolso do casaco e vai. Passa pelo balcão, pega um bolinho de guardanapos. O banheiro tem duas portas: a primeira dá acesso apenas à pia; a segunda, ao gabinete privado. As duas portas possuem apenas os buracos de onde um dia houve fechaduras e maçanetas. O banheiro é imundo, fétido, tem o chão molhado, não há papel higiênico, tampouco luz. A mulher pode desistir, mas não há mais tempo. E então, decide tentar o malabarismo.
Encosta a porta, segura-a com uma das mãos e com a outra precisa fazer todo o resto, além de não poder se sentar. Claro que nada dá certo. A posição de pé, os joelhos levemente flexionados, o braço esticado segurando a porta não lhe permitem a perfeita operação de fazer xixi diretamente dentro do vaso, o que provoca um problema a mais na hora de usar aquele mísero bolinho de guardanapos. Conclusão: ela tem que se conformar que a sensação molhadinha após vestir a calça deve ser superada, ou seja, deve abstrair. Afinal, seu xixi não passa mesmo de líquido corporal, rico em sais minerais, né? Ela segue em frente e continua o que estava fazendo, pois só poderá tomar banho tarde da noite – muitas horas depois.
Está com nojo? Torceu o nariz? Então, que tal ler “Em busca de sentido”?
giovanadamaceno
Artigo da autoria de Giovana Damaceno.
Jornalista e cronista..
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segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Pensamentando
Novo ativismo: Distraídos venceremos?
Posted in: Destaques, Uncategorized
Por: Amanda Safatle - 21/11/2012.
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Segundo encontro da série Primaveras debate significado e potência de ocupações festivas do espaço público, como a da Praça Roosevelt em São Paulo
Por Amália Safatle
Quando uma multidão de cerca de 10 mil pessoas ocupa a recém-reformada Praça Roosevelt em um movimento apartidário, advogando que Existe Amor em São Paulo, a gente se põe a perguntar: isso faz parte de um novo ativismo? Será esta uma outra forma, soft e informal, de fazer política?
Nossa hipótese é de que festa, a arte e a distração fazem parte desse caldo que passa recados fortes de insatisfação com o que está aí: uma sociedade desigual, imersa em crises civilizatórias e prova viva de que o atual sistema não está dando conta de fazer a economia funcionar em prol do bem-estar humano. E ainda por cima avança sobre os próprios limites físicos do ambiente.
Se no primeiro encontro do ciclo “Primaveras – diálogos sobre ativismo, democracia e sustentabilidade” Ricardo Abramovay e Ladislau Dowbor nos ajudaram a mapear essas crises, no segundo evento avançamos na discussão sobre como usar o ativismo e a mobilização social para enfrentá-las.
A pergunta norteadora do diálogo foi: será que assim, às vezes de forma tão distraída, venceremos? A multidão que participou do “Existe Amor em SP” ou do evento “Amor sim, Russomano não”, terá sido meramente atraída pelos shows de Criolo, Emicida e Gaby Amarantos, ou estava lá movida também por alguma indignação e motivação política, no sentido de buscar transformações? Até que ponto esse ativismo difuso, que parece episódico, festivo e sem continuidade, é efetivamente transformador?
Pablo Capilé, um dos criadores do coletivo Fora do Eixo, que esteve por trás do Existe Amor em SP, vivenciou os movimentos de indignação na Espanha e foi um dos convidados do ciclo Primaveras. Traçou um comparativo que coloca o Brasil como um ator de destaque no ativismo mundial. Para ele, enquanto na Europa primeiro se aglutinaram bandeiras para depois buscar formas de criação e articulação de territórios, aqui se dá o contrário: existe uma estruturação permanente de pequenos territórios que aos poucos vão se articulando em rede. Eventos como o Existe Amor ajudam a amarrar esses laços entre grupos que antes não tinham diálogo, mas giram em torno de causas e pautas muito similares entre si. São os bikers, os grafiteiros, os ambientalistas, o pessoal do hip hop, oshackers. São 20 a 30 coletivos que, segundo Capilé, continuam debatendo dentro e fora dos shows.
A soma dessas forças é poderosa: “A cada 1 real captado, esse movimento é capaz de transformar em 100”, diz Capilé. “Por exemplo: para fazer o Existe Amor em SP, o movimento gastou R$20 mil. Se cada um fosse fazer por fora, um evento como esse custaria R$ 500 mil. Só o cachê do Criolo custa R$ 70 mil. O do Emicida é R$ 40 mil. Mais segurança etc.”
“Quem sempre viveu em gambiarra, em época de crise, surfa”, diz Capilé, comparando o Brasil de sempre com a Europa recentemente afundada em crise econômica. Para ele, tem muita gente lá fora querendo saber como a gente faz, qual é nossa tecnologia. “Não tem nenhum continente fazendo o enfrentamento como a América do Sul. E a África está pronta para se conectar com a América Latina, querendo saber como parir este novo mundo possível, que está grávido. Esses grupos continuam discutindo criando observatórios constantes, fazendo pressão social o tempo inteiro”, disse Capilé.
O contraponto ficou por conta de Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas na USP, coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai) e também convidado pelo Primaveras. Para ele, a geração de ativistas de hoje, dos “occupies” não é pragmática e está completamente despreparada para converter essa energia potencial em mudança efetiva.
Não sabe, por exemplo, lidar com a mídia, com as ONGs, com os partidos. Tem dificuldade em trabalhar com aspectos práticos do ativismo político, como captação e gestão de recursos financeiros. “Essas coisas são difíceis, tem que saber como se alinhar, como conseguir dinheiro, doação. São coisas básicas, mas que não são feitas porque esta geração não tem experiência política – não sabe fazer política”, critica.
Ele ainda aponta que é um erro atribuir aos modos de comunicação o florescer de movimentos como a Primavera Árabe e os “ocupas”. Na verdade é o contrário: foi a geração política anterior, nos anos 1990, que desenhou os meios difundidos hoje, como YouTube, Flickr e Twitter para dar suporte aos movimentos que já estavam em curso. O Twitter tem poucos caracteres porque foi inventado justamente para servir como instrumento de mobilização política.
Nesse momento, Ortellado convidou a uma reflexão: vitória ou derrota? Pois o que havia sido inventado como uma forma de fazer frente ao meios de comunicação dominantes e ao sistema econômico viraram as novas grandes corporações da comunicação, estrelas do mundo capitalista.
“A gente desenvolveu um monte de tecnologias nos anos 90: primeiro, a comunicação ponto a ponto, aí tinha listas de emails, depois os sites de publicação aberta, depois os blogs coletivos. São as mesmas pessoas, nossos amigos, que foram desenvolvendo tudo isso. Fundaram empresa, hoje são milionários e estão profundamente integrados ao sistema. Temos agora 2 bilhões de usuários de internet. Vitória ou derrota?
Capilé discorda da afirmação de que falta pragmatismo à atual geração de ativistas. “O problema são as plataformas atuais [sindicatos, partidos, movimento estudantil, conselhos municipais]. São analógicas e não dão conta de ativar os desejos do século XXI. Essa geração atual é pragmática quando se olha o processo, e não o produto final”, disse.
Se as plataformas vigentes são inadequadas, quais seriam as adequadas? Estão para ser criadas? Como afirmou uma participante, ao mesmo tempo em que os partidos políticos podem trazer opressão, também trazem proteção – não é indivíduo sozinho defendendo uma ideia. “Ainda é interessante manter instituições e se combinar com elas?”, questionou.
Outro participante deu seu depoimento: “Tentei me ligar a movimento estudantil, mas as estruturas de reunião, até esteticamente, não condizem com o desejo da galera. Os jovens estão negando tudo isso, mas sem propor coisas no lugar. Como criar novas estruturas de participação política que dialoguem com os centros de decisão?”
“Conversar sobre política é muito difícil em qualquer sala de aula do Brasil. Vamos hackear as escolas porque aí fazem delas o local do debate das novas gerações”, propôs outra participante. “O movimento da mídia livre está crescendo, enquanto a TV Globo perde audiência. Embora eu tenha votado no Haddad, não me filiei ao PT, e sim aos vários coletivos dos quais faço parte. Então existe um novo movimento acontecendo em torno de uma pauta em comum que é a de viver bem”.
“A juventude não entra no partido porque lá não sabe o que pode falar. Já nos coletivos, entra numa roda, senta no chão e fala o que quiser”, comentou-se.
“Fazer memes, fazer arte, fazer festa é muito importante porque assim se consegue falar o que as palavras não dizem”, disse um rapaz. “A gente está muito mais empoderado e isso é uma forma de ativismo. Não dá mais para ser super pragmático, bibliográfico, sistematizado. É importante abrir um pouco mão do pragmatismo.”
Capilé pontuou que é um mito o senso comum de que juventude atual não tem foco. “Ela tem, sim, um multifoco. Está preparada para lidar com várias coisas ao mesmo tempo”. Mas, em vez de trabalhar isso, receita-se Ritalina às crianças e aos adolescentes.
E quando a discussão enveredou para a questão do centro de poder versus periferia, ele a taxou de contraproducente. “Não vale a pena ficarmos aqui discutindo o que é periferia e o que é a periferia da periferia do Brasil. Eu venho de Cuiabá – a capital mais longe do mar de todos os lados [onde o Fora do Eixo foi criado]. O Amapá não tem banda larga – quando o pessoal sai de lá, descobre que o GTalk é instantâneo! Ninguém sabe que Roraima é Brasil. E o ativismo nesses lugares é muito ativo. O Brasil não se define mais por São Paulo e Rio. Isso pra mim é revolucionário”. E assim Capilé fechou sua metralhadora.
O Primaveras é uma iniciativa coletiva de Página22, Matilha Cultural, Escola de Ativismo, Outras Palavras, IDS e Crisantempo. O segundo encontro reuniu cerca de 100 pessoas no espaço Matilha Cultural, em São Paulo, e foi assistido on-line por 350 espectadores. Assista à íntegra do evento em www.ustream.tv/recorded/26971348.
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Amália Safatle é jornalista e editora da revista Página 22
(Outras palavras)
Nazismo
Adestradas para odiar
em Artigo por Gustavo Serrate em 05 de nov de 2012 às 03:28
As jovens gêmeas cantoras do Grupo Prussian Blue que trocaram a mensagem nazista de suas canções após conhecerem a maconha
Nos idos de 2003, influenciadas pela ideologia nazista dos pais, as duas irmãs gêmeas de quatorze anos, Lynx e Lamb Gaede, saíram do anonimato para formar o grupo musical “Prussian Blue”. Com as belas vozinhas infantis, as irmãs cantarolavam um folk americano singelo, porém carregado da temática relacionada à “supremacia racial branca”.
As irmãs Gaede
O aspecto marcante da banda foi a contradição entre a beleza angelical das duas jovens e o conteúdo brutal das músicas. O termo Prussian Blue (Azul da Prússia) designa a cor dos uniformes militares de guerra do Reino da Prússia (entre 1871 e 1945), o maior território administrativo da alemanha durante o terceiro Reich. Algumas das canções recebiam nomes sugestivos como: "O despertar do homem ariano", "ódio por ódio" ou "garoto skin head". O pai das meninas, um caipira grisalho, estampava uma grande suástica no carro, e também marcava o gado com o símbolo do Reich. Para April Gaede, a mãe das meninas, o termo “racista” não é perjorativo. “Um racista é apenas uma pessoa que vê diferença nas raças, todo mundo é racista”, afirmou. April Gaede faz parte da Vanguarda Nacional de Supremacistas Brancos (EUA).
As garotinhas, que começaram a cantar cedo, usavam camisetas com a imagem de um simpático Hitler estilizado e sorridente. Nos shows, elas brincavam de dançar lindamente uma coreografia em torno da suástica desenhada no chão.
Uma das músicas homenageava Rudolf Hess, o sujeito que ajudou Hitler a escrever Mein Kampf, enquanto os dois líderes eram prisioneiros antes da segunda guerra mundial. A música dizia: "Rudolf Hess, um homem de paz. Ele não vai desistir. Ele não vai cessar. Eu deu sua lealdade à nossa causa”. Grupos skin heads logicamente elogiavam a “fofura” das meninas.
Em certo ponto da trajetória familiar, April Gaede decidiu mudar-se do rancho familiar Gaede para um bairro mais próximo da cidade, com a condição de que fosse um bairro bastante “branco”. No novo bairro, porém, eles foram recebidos com rejeição. Assim que os vizinhos souberam quem eram aquelas pessoas, colaram dezenas de cartazes com dizeres do tipo “NO HATE HERE!” (Sem ódio por aqui!). A preocupação de April foi a de que as meninas sofressem rejeição e maus tratos dentro da escola e dentro da comunidade onde o pensamento nazista não se proliferava.
Mas para o terror da mãe, a mudança de bairro e a mudança de escola significou muito mais do que rejeição. A mudança significou a transformação radical do pensamento das jovens. Conforme chegavam a adolescência, experimentavam a vida, conheciam novas pessoas e se distanciaram da mentalidade interiorana, passando a corresponder com pensamento mais tolerante. Explodiu então em toda a mídia, chegando até ao Brasil em tom de notícia bizarra, uma manchete sensacionalista, mas em parte verdadeira: “Irmãs gêmeas abandonam o nazismo por causa da maconha”. As gêmeas descobriram a maconha, e através dela conheceram o estilo de vida hippie. Abriram-se para um mundo mais torelante e liberal e hoje não pretendem mais propagar o ódio racial.
Um documentário realizado sobre o grupo Prussian Blue, veiculado pela ABC News, captou depoimentos de Lynx Gaede, onde ela esclarecia seu novo pensamento: “Sou crescida agora. Eu era uma criança naquela época. E eu disse muitas coisas em que não acredito mais”. A menina afirma que ela e a irmã estudavam em casa, ensinadas pelos pais: “Éramos caipiras. Hoje me sinto orgulhosa da humanidade todos os dias, por termos tantas pessoas e lugares diferentes”, disse Lynx.
Óbvio que a verdade é muito mais profunda do que os boatos. No período dos estudos, Lynx foi diagnosticada com câncer, e o tumor foi removido de seu ombro. A carreira do duo foi deixada temporariamente de lado para o tratamento. Por causa do câncer, Lynx foi medicada com Marijuana para fins medicinais. Mas parece que não foi só Lynx que usou a Marijuana medicinal pois a visão radical da irmã também se transformou. Hoje em dia as meninas tem uma postura liberal, e segundo alegam, seus impulsos criativos receberam um novo estímulo, e hoje, as irmãs se tornaram pintoras.
April Gaede, a mãe das meninas, não aceita a nova postura das filhas e acredita que tudo não passa de uma rebeldia tipicamente adolescente. “Não é popular ser um branco supremacista, e elas querem ser populares”.
Por Gustavo Serrate
gustavoserrate
Artigo da autoria de Gustavo Serrate.
Jornalista e cineasta independente de Brasília. Interesses transitando pelo cinema, quadrinhos, fotografia, video making, motion design e toda forma de cultura independente ou marginalizada.
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domingo, 25 de novembro de 2012
Carpeaux
POR J. C. GUIMARÃES EM 18/11/2012 ÀS 10:09 PM
A odisseia do espírito
publicado em ensaios
A "História da Literatura Ocidental", de Otto Maria Carpeaux, é um dos maiores testemunhos do humanismo no século 20
Jorge Luis Borges escreveu, em “A Biblioteca de Babel”, que “nalguma estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais”. Tal livro, contextualizado, é Deus ou um simulacro de Deus. Inspirado no símbolo borgiano, proponho ao leitor deste suplemento um análogo de proporções mais modestas; outro livro — literalmente falando — que ambicionou compendiar todos os demais (de valor), foi escrito em português e se encontra no Brasil, onde foi também redigido, entre 1944 e 1945. O autor que o engendrou é de algum modo fantástico, e Borges o depararia num crítico — mais coerente falar aqui em historiador da literatura — nascido no império austro-húngaro no ano de 1900, chamado Otto Maria Carpeaux: o homem que leu quase tudo. Não é tanto exagero assim, se nos valermos de uma evidência concreta, bem ao alcance das mãos: a “História da Literatura Ocidental”, sua obra mais importante.
“Livro” ou “biblioteca” é uma permuta aceitável para designar essa obra, na qual estão encerrados os mais importantes e até muitíssimos livros desimportantes de uma área inteira do conhecimento humano: a literatura. Longe de ser o único assunto que o erudito discutia com propriedade, já é o bastante para causar na gente verdadeiro espanto. A começar pelo tamanho invulgar. A obra divide-se em 4 volumes, 10 partes — excluindo-se o prefácio —, e 35 capítulos distribuídos por 2.844 páginas de conteúdo, abrangendo uma quantidade vultosa de escritores, entre nomes totalmente desconhecidos e os canônicos: todos estes, até a data da primeira publicação, em 1959. O percurso coberto se abisma de Homero, no século oitavo antes de Cristo, até Eugen Gomringer, poeta teuto-boliviano concretista da década de 1950. Sem nenhum favor ou chauvinismo, “História da Literatura Ocidental” é, com certeza, o mais completo painel da arte verbal de todos os tempos, em qualquer língua.
Deve existir, por certo, mas ninguém melhor do que Carpeaux nos dá a impressão cabal de abrangência em torno de um assunto. Despreza o padrão usual, que prefere o exame particularizado de casos ou, mesmo em história, julga prudente os cortes cronológicos menos extensos, sob o irreplicável argumento de que ninguém pode esgotar qualquer assunto. E mesmo quando os estudiosos tencionam cobrir uma história do início ao fim, os resultados cobrem as evoluções “nacionais”, no máximo, tornando praxe um padrão herdado da historiografia romântica. Exemplos dessa natureza são numerosos (portanto comuns) e abundam em qualquer país, podendo-se, entre nós, citar uma infinidade de congêneres da “História Concisa da Literatura Brasileira”, de Alfredo Bosi. Mas escrever uma história da literatura que comporte a evolução de quase todas as literaturas nacionais (para ser exato: estilos e obras) — de um hemisfério!?
Antes de conhecer os resultados, estaríamos seguros de prever o fracasso do aventureiro, que teria pela frente uma quantidade insustentável de obstáculos. Entre eles: o acesso às fontes (onde encontrar os livros de, digamos, Anders Osterling? Pior: um acervo, combinado ou não, das literaturas holandesa, dinamarquesa ou catalã?), a variedade de línguas e, talvez, o principal e mais árduo: tempo para ler não centenas, mas milhares de livros, e lê-los com o mínimo de profundidade necessária ao exercício responsável da crítica. O gênio universal e a experiência humana de Carpeaux — quinze idiomas, a peregrinação pela Europa e o exílio final, na América do Sul — facultaram-lhe efetivar essa ambição única e desmedida. Precisou de apenas um ano de dedicação tenaz, aos 44 anos de idade, para esgotá-la no papel.
Carpeaux faz lembrar o que escreveu Harold Bloom na sua proposta de “Cânone Ocidental” — original pelo conceito de “ansiedade da influência”, não pela lista em si —, quando registra, com resignação estóica, os limites humanos de um pesquisador, a fim de justificar as dimensões de seu empreendimento pessoal: “É possível escrever um livro sobre vinte e seis escritores, mas não sobre quatrocentos”. Por se tratar de uma afirmação sensata, ninguém, sobretudo na academia — onde se ensinam as vantagens de se delimitar ao mínimo o objeto de pesquisa —, discordaria. A sentença prevalece para qualquer um até ser surpreendido por um autor tão singular quanto aquele imigrante austríaco, brasileiro por adoção, que escreveu não sobre 400 escritores, mas sobre 400 vezes 20! Para muitos, é tarefa impossível como é impossível decodificar o infinito de tantos romances, poemas, contos e peças já escritos em nossa tradição, durante 100 séculos.
Que saibamos, não há em qualquer outra língua empenho tão extraordinário. Carpeaux nota que em 1782 o jesuíta Juan Andrés publicou “a primeira tentativa de uma história da literatura universal”, a “Dell’Origine, dei Progressi e Dello Statto Attuale D’ogni Letteratura”. Registra as principais bibliografias, fichários, dicionários, florilégios e histórias que se seguiram desde o século 1, porém nenhum outro caso semelhante.
Bloom é apenas um dos muitos nomes internacionais que ignoraram a existência deste ensaísta, embora Carpeaux seja o único a reunir, segundo registro pessoal, pelo menos 8 mil “autores”, dos quais parece ter lido, em parte expressiva dos casos, o conjunto da obra. Pelos resultados alcançados, podemos afirmar que é um dos intelectuais mais significativos do século 20, do porte e eminência de um Erich Auerbach ou de um Arnold Hauser — se bem o século 20 não seja consciente disso e tal importância não tenha, de fato, se confirmado — sequer na Áustria, onde nasceu. Faltou-lhe um auditório externo, atravancado, parece, pela marginalidade da língua portuguesa. É muito triste. Sobremaneira quando se admite que as qualidades científicas da Otto Maria Carpeaux são evidentes, e não menos acapachantes as do escritor como tal, autor de uma prosa admirável e estilista de recursos. Olavo de Carvalho o testifica admiravelmente em “Introdução a um Exame de Consciência”, sobre os ensaios do mestre. De tal sorte que há uma grande injustiça na história dessa mesma literatura ocidental. Uma injustiça e uma lacuna.
Exageros costumam depor contra a credibilidade de um julgamento, traindo parcialidade. Portanto, é verdade que, daqueles oito mil autores pesquisados pelo historiador brasileiro, a maioria é apenas citada ou reduzida a frases pouco elucidativas, como: “Há poucas exceções, entre as quais não se encontram os irmão Rosny desviados do naturalismo para uma atividade poligráfica, fecunda mas de resultados efêmeros. Zolaísta autêntico é Descaves...”. Resumos como esse levam a considerar a possibilidade daquele homem ter tido também, apesar de tanta devoção, uma vida ordinária como a nossa, recheada de intervalos mundanos entre um livro e outro. Ainda assim, só a disciplina permite a um intelectual construir um tão vasto edifício. Pelo menos os nomes mais representativos da literatura ocidental foram analisados a contento, em proporções de artigo e, em alguns casos, até de ensaio. Carpeaux é um autêntico gênio pletórico, o maior que conhecemos entre os críticos e historiadores da literatura de qualquer meridiano, e desafia o pragmatismo daquele discípulo de Pater, para o qual “os setenta anos bíblicos já não bastam para ler mais que uma seleção dos grandes escritores do que se pode chamar de tradição ocidental, quanto mais de todas as tradições do mundo. Quem lê tem de escolher, pois não há, literalmente, tempo suficiente para ler tudo, mesmo que não se faça mais nada além disso”.
O fôlego de Carpeaux exauriu aos 78 anos de idade, numa clínica do Rio de Janeiro, em 1979. Metafóricos ou não, os setenta anos bíblicos coincidentemente lhe bastaram para conhecer e nos transmitir ao menos uma daquelas tradições, praticamente completa, embora em forma de síntese — e toda síntese padece os limites de suas ambições. Por outras palavras — e aí realmente a possível fraqueza desta obra singular — Otto Maria Carpeaux é, em larga medida, uma coletânea de fragmentos, por vezes tão pequenos que se reduzem à monótona relação de centenas de nomes desconhecidos. Podemos tratá-los como arestas, imperfeições aparentes num monumento. Há quem não veja propósito nenhum em tantas “concessões” tendentes à diluição e ao pedantismo. Ou talvez haja também uma justificativa razoável, relacionada à perspectiva privilegiada pelo autor: à crítica não interessam senão os valores indiscutidos, ao passo que a história — disciplina totalizante como certa vez ambicionou a escola francesa dos Annales — comporta tudo. Até toda literatura e os autores que só têm valor histórico.
Com a última sentença abrem-se os amplos horizontes de Carpeaux. Sua originalidade não se reduz às proporções materiais de seu livro capital — diz respeito, também, ao conteúdo, à diversidade de literaturas abrangidas. Inclui não apenas o óbvio, que é a literatura feita na Europa — entenda-se: o pequeno miolo compreendido entre Espanha e Alemanha, de um lado, e Itália e Inglaterra, de outro —, e nos Estados Unidos. Há — ou pelo menos havia — outras províncias literárias desconhecidas do Ocidente, entre elas a América Latina (salvo nomes de exceção do quilate de Borges, Octavio Paz e Alejo Carpentier) e países eslavos e nórdicos (de onde só tínhamos conhecimento de certas obviedades, como o tcheco Franz Kafka e o norueguês Henrik Ibsen), que foram incorporados pela voracidade do espírito, que ignora o fator geográfico e nossas melancólicas diferenças políticas. O conceito carpeauxiano de “ocidente” é inclusivo, e urge esclarecê-lo.
Não se compreende Carpeaux se não se reconhece nele o que é e o que defende: é uma humanista e vindica, em primeira linha, o humanismo, base essencial de sua weltanschauung. O espírito de qualquer obra de caráter científico, como a sua, encontra-se resumido, invariavelmente, na parte introdutória. A “Introdução”, porém, não é o único trecho, no caso da Otto Maria Carpeaux, que responde a esse espírito fundamental, que justifica e orienta qualquer trabalho de natureza gnosiológica equivalente.
Na obra definitiva, o Capítulo III da Parte I — A Herança — chama-se “O Cristianismo e o Mundo”, escrutínio dos padres da Igreja e sua notável contribuição literária. O texto original era outro, “História do Humanismo e das Renascenças”, incluído na primeira edição (“O Cruzeiro”, 1959). A mudança, segundo Carpeaux, se deve ao fato de que lá a “sistemática” da obra foi preservada, enquanto aqui trata-se de “comentários gerais”. Tem razão. Ainda assim, esses comentários são preciosos por constituir um libelo dialético contra a negação futurista do humanismo, abrindo-se com o solilóquio de Hamlet sobre o desaparecimento de um símbolo: “Que lhe interessa Hécuba?” (Cena II, Ato II), para intuir que “a pergunta de Hamlet indica, com maior precisão, a atitude do homem moderno em face da antiguidade”.
O interesse pela antiguidade não é próprio dos historiadores, apenas. É, também, típica dos humanistas, desde os primeiros — que ostentavam o orgulho intelectual e a crítica severa à corrupção católica, ansiando pela Terceira Igreja de joaquimistas e franciscanos —, até os últimos, que ainda vagam por aí. Oxalá seja uma raça invencível, com tendência infelizmente a se constituir em seita exótica, em torno de uma missão cada vez mais difícil: a preservação da memória em forma de livros. Foram os humanistas, de qualquer modo, que reestabeleceram os laços do presente com o passado, cultuando a literatura greco-romana e oxigenando, dessa forma, todas as literaturas modernas, até o presente. Ao retomar este princípio, Carpeaux adverte a nós outros “a continuidade da história, a igualdade essencial dos homens de todos os tempos”, vínculo que não pode ser rompido sem uma traumática perda de sensibilidade poética, qualidade estética e sabedoria.
A pergunta essencial do humanista é: “Quando começa?” O historiador, no papel de revisionista, não pretende dar uma resposta convencional como tantas outras e postula uma origem no século 6, tributária direta da cultura grego-romana. Aí localiza-se o momento decisivo, quando o Ocidente emerge como um acontecimento distinto na história humana: não por acaso é o século dos primeiros guardiões dedicados a velar pelas obras literárias do passado. São eles — homens da Igreja como Gelásio I e Agostinho, Ambrósio e Próspero Aquitanense — os responsáveis pela fusão da filosofia antiga com a teologia cristã, aos quais se soma Justiniano e o Corpus Juris, concluindo o fundamento institucional da nova era. Em resumo, “essas codificações marcam uma data e, ao mesmo tempo, uma delimitação. Religião judaico-cristã, ciência grega, direito romano: eis a herança da Antiguidade, lançando os fundamentos da civilização ocidental”.
Quem poderá negar, dois mil anos depois, essas raízes e sua influência avassaladora sobre tudo o que somos e construímos, até hoje? Esse passado nos conformou e é impossível olhar para frente sem reconhecer que somos a sua cara, muito mais do que um claudicante projeto de futuro. A negação desses padrões é uma negação do próprio homem. Na medida em que se descobre um vínculo umbilical, uma unidade milenar, já não é tão grande a distância que separa o mundo contemporâneo da primeira Idade Média, que se estende, segundo o historiador, Hilário Franco Junior, de “princípios do século 4 a meados do século 8” (cf: “Idade Média, o nascimento do Ocidente”). Já para delimitar espacialmente o conceito de Ocidente, Carpeaux exclui as influências exóticas que não frutificaram, embora comunicadas à Europa pelas grandes civilizações orientais: a indiana, a chinesa e mesmo a muçulmana. Sob este aspecto, a “História do Humanismo e das Renascenças” é um capítulo muito interessante em função do debate historiográfico que propõe, realçando as notáveis qualidades de Carpeaux enquanto intérprete da história.
Dois conceitos sobressaem em sua análise: os de Idade Média e o de Renascença, o primeiro em função de seus significados, o segundo por causa de seus marcos cronológicos, francamente diluídos. O período de mil anos compreendido mais ou menos entre a queda do império romano e as grandes navegações não é simples nem homogêneo a ponto de traduzir-se pelo estigma das trevas (a “Dark Age”, de William Robertson). Em verdade, o cadinho de fermentação que propicia o nascimento da ideia de “Ocidente”, fundindo num mesmo elemento as culturas pagã e cristã, entra em atividade no mesmo século em que Odoacro alcança os portões de Roma e decreta, simbolicamente, o fim da primeira era. De forma que é um didatismo grosseiro creditar ao século 15 a descoberta e revalorização do mundo clássico. Se é verdade que a Renascença coincide com os estertores da Idade Média, também é verdade que há inúmeros momentos como esse, dentro e fora dela. Define-os, senão o mesmo esplendor, ao menos a simbiose e reação com o elemento precedente. “Em última análise, o traço característico da civilização ocidental não é a herança antiga, mas a modificação dela, que se chama renascença.”
E há uma sequência ininterrupta delas, podendo-se partir da corte de Augusto, no começo do século 1, até o transe dionisíaco de Nietzsche, em pleno século 19. A partir deste plano, intercalado aos refluxos sociais e aparentemente providencial, é possível, até, que Carpeaux esperasse por um novo renascimento, quando o seu século emergisse da destruição e das cinzas da Segunda Guerra Mundial para uma nova época de esplendor cultural. Seu sistema interpretativo permite intuir que sim, mas não sabemos.
Parte 2
Como foi lembrado na primeira parte deste ensaio, o capítulo “História do Humanismo e das Renascenças”, excluído da segunda edição da “História da Literatura Ocidental”, foi substituído por outro, “O Cristianismo e o mundo”, já este menos especulativo e submisso ao critério dos demais; no dizer do autor, dentro da “sistemática” do conjunto. Apresenta os escritores marcantes do século 5, d.C., quando se criou “uma das maiores obras, das mais permanentes da literatura universal de todos os tempos: a liturgia romana”. São grandes teólogos de poesia revelada, como Tertuliano, Ambrósio e Jerônimo.
Carpeaux não escreve monografias, incompatíveis com o escopo de uma síntese, mesmo que, no caso, elas permitissem um exame mais circunstanciado da produção em evidência. Mas a forma de exposição não é decisiva e sim a descoberta: é ela que torna este capítulo a contribuição crítica mais fecunda e original do livro de Carpeaux. A opinião se sustenta numa passagem de Franklin de Oliveira: “Em face do hinário e da liturgia romana, a posição de Otto Maria Carpeaux é idêntica, metodologicamente falando, à que assumira em face do direito romano. Se a importância do direito romano já foi focalizada por diversos ‘romanistas’, no caso da liturgia romana a glória da descoberta lhe pertence por inteiro”.
Um achado tal já não interessa apenas a nós outros; aliás, diz menos respeito à nossa do que à cultura europeia. Por aí se nota que o alcance universal da “História da Literatura Ocidental” não é falso proselitismo. Se se pretende deduzir a originalidade do autor, ela há de ser encontrada aqui, tanto quando, em meu entender, na particularíssima extensão conferida ao conceito de Ocidente — que não se conclui com o que foi exposto, até o momento: digamos, um conceito dinâmico, “histórico”. Completa-o o conceito estrutural ou “geográfico”, que resumiremos a seguir. Não menos digno de nota é o fato de que análise estilística, combinada à análise ideológica, em crítica literária, foi adotada por diversos especialistas antes de Carpeaux, como Karl Vossler, Leo Spitzer e Dámaso Alonso. Porém, “só a historiografia ainda não entrou nessa combinação feliz”, avisa o ensaísta em flagrante auto-elogio, quando já introduzia sua obra, inteiramente arquitetada sob aquele instrumental teórico-metodológico. É um divisor de águas mais ambicioso que Valbuena Prat, que escreveu uma história da literatura espanhola ensaiando a adoção de semelhante método.
Prefiro tratar este homem — que foi também crítico, jornalista e polígrafo — como historiador, por razões que me parecem óbvias. Me aprofundarei nos seus aspectos historiográficos em outro ensaio que estou escrevendo. Por hora, basta reafirmar o que o autor registrou, com discernimento: a “História da Literatura Ocidental” é a “apresentação da história literária como interpretação histórica”. Ele não se interessa pela origem individual das obras (objeto da crítica literária). Interessa-lhe traçar, por meio da combinação daquelas análises, a relação histórica entre elas, em função de um “espírito objetivo” de natureza supra-individual (objeto possível da história). Como tal, a “História da Literatura Ocidental” é uma obra de síntese coletiva, de corte transversal e de revisão, “substituindo, em todos os pontos particulares, as ‘fables convenues’ da rotina pelos resultados da análise estilística e da análise sociológica”. Para tanto substitui o naturalismo de Saint-Beuve (crítica biográfica) pela psicologia compreensiva de Wilhelm Dilthey, de forma que a documentação histórica e não os indivíduos constrói tipos ideais que representam a “estrutura psicológica total de determinada época”: “Desta maneira construíram-se panoramas históricos de perspectiva e profundidade inéditas, ‘verdadeiros cortes transversais’ através das épocas”.
Levadas ao extremo, as consequências dessa perspectiva foram realmente inéditas. A transversalidade ampliou, e muito, o conceito de Ocidente, significando a sincronia do mesmo conteúdo mental nas mais variadas culturas do hemisfério. E aí é preciso completar o que foi escrito até aqui, dizendo o que o Ocidente comporta, em termos literários. Um dos traços inconfundíveis da “História da Literatura Ocidental” é, me parece, a ampliação das fronteiras literárias do mundo e seu reconhecimento crítico definitivo. Em “O Cânone Ocidental” Harold Bloom falou em balcanização, termo que designa o estado do ensino das letras há quase 20 anos, de “fragmentação” do gosto a ponto de assimilar a pseudo-literatura, apenas para satisfazer gêneros e minorias, independentemente das qualidades estéticas. É preciso evitar confusões. Aqui, está claro, não se trata de balcanização. O reconhecimento da alta literatura de um Juan Carlos Onetti não é nunca um favor, uma concessão fora dos critérios usuais da crítica mais exigente. E é disso que se trata: de reconhecer na tradição ocidental outras tantas literaturas, ao lado das mais divulgadas e comentadas, que são a inglesa, a francesa, a russa, a espanhola, a norte-americana e a italiana.
Mais de meio século depois de seu lançamento editorial, seria impensável excluir da “História da Literatura Ocidental” a literatura africana, chancelada por nomes de alta qualidade como Nadine Gordimer, J.M. Coetzee, Wole Soyinka, Naguib Mahfouz, Mia Couto, Pepetela e tantos outros. E, mesmo assim, é considerável o que Carpeaux conseguiu abarcar, a partir do método apropriado, que lhe garantiu a coerência interna da síntese pretendida. As características deste método pessoal são três: primeiro, a abolição das fronteiras nacionais (para dar conta da multiplicidade do assunto e ao mesmo tempo das literaturas “europeia” e “americana”). Segundo, a substituição de “nações e autores” por “estilos e obras”, dentro dos períodos consagrados pela tradição; terceiro, a discussão sobre o intercâmbio entre literatura e sociedade (a interdependência dos fatores espirituais com os materiais, onde antevê o calcanhar de Aquiles da “História da Literatura Ocidental” e antecipa-se às censuras futuras por causa de um ecletismo “incapaz de decidir-se”, mas que deve aos limites do relativismo historicista). O aspecto que por hora me interessa é o primeiro, uma vez que que a literatura universal “não pode limitar-se às chamadas ‘grandes’ literaturas: grega, romana, italiana, espanhola, francesa, inglesa, alemã, russa. Entende-se, sem discussão, a inclusão das literaturas escandinavas (...); depois, de mais três literaturas, tão tradicionais como aquelas: a portuguesa, a holandesa e a polonesa; depois, das literaturas provençal e catalã (...); depois, dos ramos americanos de algumas literaturas europeias: a norte-americana e a brasileira. Quem não ignora o assunto não discutirá a necessidade de estudar também as literaturas tcheca e húngara”.
Por um erro de avaliação, estamos acostumados a perceber a Europa e os Estados Unidos como unidades autônomas de criação espiritual, de onde importamos sistemas filosóficos e conceitos científicos acabados, de aplicação sempre duvidosa porque artificial. Tornamo-nos, em comparação, reflexos pálidos e sem interesse, incapazes de gerar valores substanciais, julgamento que se estende aos nossos padrões estéticos. Em filosofia tornamo-nos comentaristas. Falta-nos descobrir nossa essência e com ela moldar uma compreensão do mundo que seja a tradução de nosso ethos, como foi o Pragmatismo de William James para o espírito norte-americano. George Steiner, em “Tolstói ou Dostoiévski”, soube compreender o que torna as literaturas russa e estadunidense tão autênticas e até mais fortes, segundo ele, do que a europeia, num nível que provavelmente ainda não alcançamos, e seus argumentos são plenamente aceitáveis. Fundamentalmente, o que caracteriza Balzac e Flaubert, Dickens e Zola é o realismo como retrato secularista e desumano dos indivíduos, em um mundo deslumbrado com a técnica. O oposto é o gnosticismo de Tolstói e Dostoiévski, Melville e Hawthorne, cheio de vitalidade e ávido pelo sagrado.
Fora disso, não cabe mais censurar as fontes estrangeiras como fermento legítimo, à disposição de qualquer espírito criativo em qualquer lugar, sobretudo em sociedades multiculturais como as de hoje. A “História da Literatura Ocidental” não oferece nada de novo a respeito do assunto “influência”, mas permite compreender, com clareza absoluta e abundância de exemplos, como ela é intensa entre os chamados “povos civilizados”, desde sempre.
Exemplo disso foi a assídua imitação que os românticos espanhóis fizeram do teatro de Alexandre Dumas (pai) e Victor Hugo, “tomando-lhe emprestados os conflitos espetaculares, a eloquência torrencial, os efeitos melodramáticos e, embora nem sempre, a tendência liberal”. O teatro de Zorrilla teria mesmo “nacionalizado” tais influências. Na Alemanha, os irmãos Schlegel cumpriram o papel de verdadeiros “importadores culturais”, dispondo para o seu país, em traduções, obras de Camões, Shakespeare, Petrarca, Lope de Vega e tantos outros poetas de outras terras. August Schlegel, inversamente, influencia grandes franceses como Hugo e Stendhal, em reação ao classicismo, tanto quanto Manzoni, na Itália. As traduções que os irmãos levaram a cabo culminam na criação de uma Weltliteratur (literatura universal em língua alemã): “A leitura das grandes obras de poesia medieval, renascentista e barroca tinha o valor de um narcótico produzindo sonhos pitorescos”, numa referência ao evasionismo motivado pelas guerras napoleônicas para “outros mundos, remotos e longínquos”.
Influência é o tipo de coisa diante da qual não é possível se isolar, venha de onde vier: todas as literaturas ocidentais, rigorosamente falando, resultaram de permutas espirituais com o universo exterior, transformando a herança em manifestações de cor local. A criação do Ocidente é um comércio perpétuo entre sociedades tão diferentes como a portuguesa e a alemã, a alemã e a italiana, a italiana e a inglesa, a inglesa e a francesa — e custaria apenas o impulso das grandes navegações, a partir do século 14, para que, também, se tornasse uma troca fecunda entre europeus e americanos. A chave do problema encontra-se na seguinte constatação: “O fato de, durante treze séculos, o critério da nossa civilização não ser imanente, mas encontrar-se fora, numa outra civilização, alheia e já passada, é a marca mais característica da civilização ocidental”.
A marca das américas é também a marca da velha e orgulhosa Europa, que um dia pretendeu guiar o mundo. Relativiza-se, deste modo, a importância das polêmicas, sempre existentes, sobre o que é transplantado e o que é autêntico. Polêmicas assim são muito comuns quando se discute a natureza do Modernismo de 22, no Brasil, explicando reações impossíveis como o movimento Armorial, de Ariano Suassuna, pretensamente mais puro e mais brasileiro. O segredo a intuir é que se a civilização europeia não é imanente “no tempo”, a das américas não é fundamentalmente imanente “no espaço”, diferença crucial entre uma e outra. Mas o critério da civilização americana é muito parecido com o do velho mundo, uma vez que consiste em buscar “de fora” — seja na África ou no Velho Mundo — os elementos fundamentais de sua constituição espiritual. Na transição entre a Antiguidade e a Idade Moderna europeia, esse “de fora” é o mesmo que “passado”, ao passo que na transição entre Europa e as Américas significa exatamente o “distante”. Aqui o externo é uma relação “sincrônica” entre dois mundos, lá uma relação “diacrônica” entre dois momentos.
As bases antigas do pensamento europeu disseminaram-se de regiões muito específicas como Grécia, Palestina e Roma para países inteiros, primeiro latinos e depois germânicos, e daí conformaram todo o continente, que tampouco foi uma ilha isolada, em qualquer momento de sua história. É inegável que a unidade geográfica estimula uma percepção estática e unitária (porém enganosa) dos povos europeus. A partir do século 15 eles encarregam-se de exportar suas estruturas conceituais, inclusive estéticas, para os lugares mais remotos que encontraram, fora do seu território. O hemisfério se alargara nesse movimento, até incluir as américas, e não faria mais sentido permanecer ignorando metade dele. Mas foi preciso a inteligência de Carpeaux para se admitir o óbvio: a continuidade essencial entre esses dois mundos, estabelecendo entre eles uma “encheiresis”, isto é, a ligação espiritual que os une. Com ele o Ocidente adquire feições inéditas, numa mudança contínua da própria imagem.
“História da Literatura Ocidental” ainda aguarda uma edição de alto nível, e quem sabe, superadas as disputas institucionais com Afrânio Coutinho nos anos 1950 e 60, o reconhecimento da universidade pública brasileira. Carece de uma revisão que a torne acessível para estudantes e para o leitor médio. Tem minúsculos mas persistentes erros de revisão, e sua ortografia é ultrapassada. Sem contar que é necessário rever não apenas seus galicismos, mas principalmente tornar bilíngue todos os poemas e citações que o autor, preocupado com a fidelidade do texto, preservou no idioma original: em francês, inglês, italiano, espanhol e alemão. Não sei se justifica, pois nem todos poderão usufruí-los assim, para tirar suas próprias conclusões semiológicas. É do poeta e amigo Ivan Junqueira o testemunho de que dominava pelo menos 15 idiomas (“Mestre Carpeaux”, em “Ensaios Reunidos”, volume II), mas ele não poderia exigir do leitor a mesma capacidade. Tais detalhes restringem drasticamente seu público, obrigando que a eventual reedição da “História da Literatura Ocidental” passe pelo acréscimo salutar das transposições linguísticas.
Carpeaux é nosso Marcus Fabius Quintilianus (sec. I da Era Cristã), seu mais antigo precursor. Coube àquele antigo professor romano a tarefa pessoal de organizar, para o ensino do aluno de retórica, a primeira “relação de livros-modelos” que se tem notícia na história das letras, instituindo um “código de valores”, expressão associada à tradição e hoje tão nostálgica, maculada por nosso desdém futurista. A motivação pioneira do professor romano foi muito particular e é digna de nota: a decadência estilística e moral dos contemporâneos, na transição entre Nero e Vespasiano. As indicações quintilianas, com o objetivo pragmático de “salvar da destruição pelos bárbaros os tesouros literários do passado”, consolidaram um padrão cultural seguido por monges, humanistas e modernos, sempre que a sociedade entrou em épocas de crise. Para sempre, desde a Idade Antiga, o termo “barbaridade” está no subconsciente da humanidade associado à violência, e neste século a violência está, segundo Carpeaux, associada ao proletariado intelectual constituído pela classe média de técnicos pequeno-burgueses, “expressão triunfal do fascismo” e inimiga mortal da inteligência (ler o ensaio “A ideia da universidade e as ideias das classes médias”). A “História da Literatura Ocidental” é, nesse sentido, uma resposta da inteligência aos bárbaros.
Afinal, uma daquelas épocas, a mais estúpida e sanguinária de todas, foi a primeira metade do século 20, com a ascensão de Leviatã e dos regimes totalitários de esquerda e de direita, que quiseram sombriamente abarcar o mundo. Mas o espírito se opôs, e o mesmo espírito que nutriu Quintilianus permanece vivo na odisseia de Carpeaux. A “História da Literatura Ocidental” cumpre, para nós outros, a função vital e permanente daquela velha “Institutio Oratoria” do sábio romano. Ignorá-lo implica em diminuir nossas reservas de luz, emitidas por um dos grandes humanistas do século 20.
(Revista Bula)
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