segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ruptura

A Ruptura, por Ladislau Dowbor Posted in: Alternativas, Capa, Pós-Capitalismo Por: Inês Castilho - 22/11/2012. Print Friendly Novas relações sociais começam a superar consumismo, devastação ambiental e desigualdade. Mas velho poder resiste. Será possível esperar transição tranquila? Entrevista a Inês Castilho | Imagem: Arcangelo Ianelli, Ruptura, 1976 (detalhe deslocado) Duas previsões opostas, porém igualmente verossímeis, são comuns quando se debatem os sentidos do século 21. Há quem mire, com otimismo, as grandes mobilizações sociais; a valorização da autonomia e das redes cidadãs não-hierárquicas; a tentativa de superar a crise da representação e reinventar a democracia; a expansão da consciência ambiental. Um olhar mais pessimista chama atenção para a ultra-concentração de riquezas; o esvaziamento da política, colonizada pelas grandes corporações (especialmente financeiras); a devastação da natureza e a procrastinação, pelos governos, das medidas que poderiam evitar grandes desastres naturais. Coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro (NEF) da PUC-São Paulo, o economista Ladislau Dowbor parece prestes a dar um passo além desta disjuntiva. Ao desnudar alguns dos fatores que estão por trás das incertezas contemporâneas, seus estudos recentes desenham um modelo em que riscos e de oportunidades não são estanques: estão sobrepostos no mesmo cenário. Aparece com clareza, então, uma alternativa além do pessimismo ou do otimismo. Ladislau lembra que, mais uma vez, o futuro está em aberto – e identifica os possíveis pontos da ruptura. Esta visão de conjunto desenhou-se, com clareza, num diálogo que o economista – um dos intelectuais brasileiros mais mergulhados no debate sobre as crises globais – manteve com a pesquisadora e jornalista Inês Castilho, colaboradora de Outras Palavras. Ele ocorreu no âmbito do estudo qualitativo Política Cidadã, que o instituto Ideafix produziu para o IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade). Há uma grande novidade civilizatória, explica Ladislau, por trás de boa parte do que enxergamos como “tendências positivas” da atualidade. A produção imaterial agora ocupa o centro da Economia. O valor dos produtos e serviços está cada vez menos nos materiais neles envolvidos, e mais no conhecimento, cultura e criatividade que permitiram gerá-los. Nenhum destes fatores, explica o professor, é regido pela “lógica da escassez” em que se baseia a teoria econômica convencional. Significa, em outras palavras, que sobre eles não pesa o princípio da propriedade – algo central ao capitalismo. Se divido um prato de comida, ou uma fábrica, resta-me apenas uma parte do que antes possuía. Mas ideias, inovações, talentos e afetos multiplicam-se, quando compartilhados. Esta enorme mudança de paradigma, prossegue Ladislau, está promovendo imensas transformações. O conhecimento e a informação podem circular livremente, graças a iniciativas como a Wikipedia; a sites, blogs e redes sociais; ou movimentos como a Primavera Científica e as grandes bibliotecas abertas de universidades norte-americanas e chinesas. Uma economia baseada no imaterial e no conhecimento exige muito menos intervenções sobre a natureza. Além disso, prossegue Ladislau, “casa muito bem com serviços sofisticados (Saúde, Educação, Cultura, Esporte, Lazer, Segurança) e com sistemas participativos, descentralizados, gestão local, políticas urbanas e redes”. Conjugados, estes dois fatores insinuam uma utopia já em construção. Numa sociedade em que o principal fator de produção (o conhecimento) não é propriedade privada, mas bem-comum, seria perfeitamente possível redistribuir constantemente a riqueza. Imagine, por exemplo, uma renda cidadã paga a cada ser humano independentemente de trabalho, e capaz de assegurar vida digna. Associe esta garantia à possibilidade de dar sentido social a seus talentos e criatividade, participando de uma rede de prestadores de serviços públicos – educadores, profissionais de saúde, operadores do sistema de transporte coletivo, cuidadores de idosos ou produtores de audiovisual, por exemplo. Por que, então, estas tendências não se tornam dominantes? Ladislau chama atenção para a inércia das velhas relações de poder e da economia que foi hegemônica nos séculos passados. Como desencadear políticas públicas que restrinjam o uso do carro individual e desmobilizem, portanto, boa parte da produção automobilística? De que forma desalojar, do aparelho de Estado, as construtoras de grandes obras rodoviárias e projetos faraônicos? Ainda mais difícil: como desmontar os mecanismos financeiros que capturam a riqueza social e a concentram nas mãos de 1% da sociedade, ou ainda menos? Na encruzilhada em que estamos, qual das duas tendências prevalecerá? Ambas têm tanta força que, em diálogos mais recentes (como no lançamento do projeto Primaveras, em 24/10), Ladislau chegou a formular uma terceira hipótese. As transformações históricas exigem, muitas vezes, grandes fraturas. Foram necessárias duas guerras mundiais, e o fantasma da União Soviética, para que surgisse na Europa e América do Norte o Estado de Bem-estar social – hoje moribundo. Será necessária a catástrofe climática para que uma Economia do Bem-Comum e do Compartilhamento torne-se hegemônica? Ou seremos capazes de tramar rupturas mais humanas e suaves? O diálogo entre Ladislau Dowbor e Inês Castilho vem a seguir (A.M.) Gostaria que o senhor falasse do seu trabalho sobre os megatrends, as grandes tendências atuais do planeta, e do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP. Trabalho com a convergência das crises, fatores que antes eram avaliados de maneira independente, como por exemplo as tendências das populações, analisadas por demógrafos, as climáticas, por oceanógrafos e assim por diante. Somos sete bilhões de pessoas no planeta, 80 milhões a mais a cada ano, o que significa mais 220 mil pratos de comida na mesa a cada dia: qual é o impacto disso? Os impactos são cada vez mais visíveis, e exigem estudos permanentes. Estamos contaminando a água, tanto os rios, lagos e lençóis freáticos, como até o Golfo do México, o Báltico e certas regiões do Mediterrâneo, que já estão mortas. Contaminamos os solos por excesso de quimização, de agrotóxicos. As mudanças climáticas são estudadas nas suas diversas manifestações. Não menos importante, as dimensões sociais: a pobreza, as migrações devido aos desastres climáticos, os impactos econômicos da desigualdade. Temos um bilhão de desnutridos, 1,5 bilhão sem acesso a água limpa. Estamos destruindo o planeta em proveito de uma minoria. Há ainda o problema do caos econômico que está sendo gerado – não só o financeiro, mas o mercado mundial de commodities, a especulação com o petróleo e o descontrole nas áreas de comércio de armas, de produtos farmacêuticos, dos produtos químicos. Na ausência de governo mundial, de sistemas multilaterais de controle, gerou-se o caos especulativo. O cenário é mais sombrio do que se imagina? Uma pesquisa da Austrália perguntou aos cientistas por que os fatos se mostram mais graves, no geral, do que as previsões apresentadas nas várias reuniões sobre a questão ambiental – Estocolmo em 1972, Clube de Roma [conhecido pelo relatório Os Limites do Crescimento, de 1972], Eco-92 no Rio de Janeiro, Johanesburgo em 2002. Eles responderam que tentam reduzir os números para ganhar credibilidade, porque as pessoas se assustam. A cada reunião reajustam-se as cifras para cima, cresce a compreensão de que a janela de tempo de que dispomos é limitada. E também porque existe um sistema mundial de construção de opinião pública por grandes empresas de relações públicas. Elas se especializaram em criar uma boa imagem das grandes corporações, como a da British Petroleum depois do desastre do Golfo do México; ou a campanha das empresas particulares de saúde dos EUA para tentar travar a aprovação de uma lei de saúde pública; as grandes campanhas para dizer que o fumo não gera câncer; ou ainda para convencer as populações de que limitar o acesso a armas de fogo seria uma limitação à liberdade. Vale tudo. São imensas campanhas, gerando o chamado “negacionismo”. A campanha para dizer que não há aquecimento global faz parte dessas grandes iniciativas articuladas. Tem um belíssimo livro, Climate Cover-Up: The Crusade to Deny Global Warming, de James Hoggan. Ele explica como funcionam as campanhas de construção de opinião pública, hoje uma grande indústria. Temos aqui na PUC-SP um pequeno Núcleo de Estudos do Futuro que trabalha sobre esses processos e também se articula com outras instituições. Na linha dos megatrends, ou macrotendências, promovemos estudos sobre dinâmicas de longo prazo, e também mudanças metodológicas como sobre o PIB, ou estudos setoriais como o livro sobre energias renováveis no Brasil. Disponibilizamos esses textos online, em regime Creative Commons. A grande mídia estaria articulada com a construção dessas visões da realidade? A grande mídia está visceralmente ligada a quem paga a publicidade. As grandes empresas de publicidade costumam se identificar com os interesses das grandes corporações – que são as que pagam a publicidade. Trata-se em geral de grandes empresas, as padarias não fazem propaganda nesse nível. Os setores financeiro, farmacêutico, automobilístico são típicos. O custo é colocado no produto que a gente paga. Assim, esse dinheiro financia as empresas de publicidade, uma grande indústria internacional, que por sua vez financia a mídia. Isso se reflete na área editorial: primeiro porque a mídia nunca vai falar mal das corporações que a financiam; segundo porque se mantém presa a uma programação atrativa à média da população – já que os custos da publicidade são definidos pela quantidade de espectadores e leitores. O circuito se fecha: não se informa sobre os sistemas econômicos e os problemas e coisas desagradáveis. Em compensação, enche-se a televisão de PMs perseguindo bandidos no morro e coisas do gênero. Vai-se assim gerando uma indústria da burrice e uma indústria do medo. Uma pesquisa dos Estados Unidos diz como aumenta o sentimento de insegurança das pessoas, independentemente do nível de criminalidade, em razão do uso da segurança pública como matéria-prima para atrair leitores ou espectadores de televisão. A solução organizacional e institucional e a forma de financiamento do processo deformam o nosso acesso à informação. Em que medida as novas mídias tornam mais livre o acesso ao conhecimento? Em vários níveis. A mudança importante é que o processo se inverte, a filosofia muda. As coisas circulam pela qualidade, e não porque os Mesquita, Civita, Marinho ou Frias querem que as pessoas pensem assim ou assado. As informações circulam pela demanda, e não pelo que vão render de publicidade. Um bom artigo é repassado nas redes porque as pessoas gostaram, e quando gostamos de algo a reação imediata é compartilhar esse gosto. A tendência é a intensificação da leitura definida pela demanda, e muito menos pela oferta forçada a um leitor ou telespectador passivo. Tem gente, como eu, que disponibiliza toda a sua produção científica online. A tiragem típica de uma revista científica em uma universidade é de 800 exemplares, e a leitura é mínima. A partir do meu site, centenas de textos científicos são baixados diariamente. Como estão na internet, estão permanentemente disponíveis, não é noticiário de momento jogado no lixo, como jornal de ontem. E são utilizados em Angola e outras regiões onde não há dinheiro para comprar livros, nem disponibilidade nas bibliotecas. Além de assegurar muito mais conhecimento na base da sociedade, o conhecimento circula em função da qualidade. Por exemplo: Joan Martínez Alier publicou na Universidade de Barcelona um artigo extremamente competente sobre os impactos ambientais da empresa americana Chevron-Texaco no Equador. Recebo esse artigo porque várias pessoas leram e disseram: “é excelente, o Ladislau precisa ler”. Leio e mando para um monte de gente, porque é excelente. Isso em nível individual. Existem hoje milhões de blogs – estou batalhando para que na PUC todos os professores tenham o seu blog e a gente construa uma comunidade online. A resistência é grande, há uma mudança cultural pela frente. Em nível institucional, um exemplo: o MIT- Massachusetts Institute of Technology criou a partir de 2003 o OCW-Open Course Ware. Todo o trabalho dos professores, mais de dois mil cursos, está disponível online gratuitamente. No ano seguinte já a China conectou nesse sistema as suas 12 principais universidades: todo cientista chinês, ao criar um produto científico – um curso, um livro –, disponibiliza-o online no sistema e recebe um pagamento do governo. É uma solução institucional e organizacional interessante: milhões de chineses têm acesso à ciência gratuitamente, online. E quando se tem acesso à ciência se cria mais ciência, porque inspira e dá ideias. Hoje temos muitos países conectados ao OCW, várias instituições no Brasil – se você entrar no site do OCW Consortium, que articula mundialmente esse conjunto, vai ter os países e as instituições. Na China se chama CORE, China Open Resources for Education. Enquanto isso, na PUC, USP e outras universidades brasileiras ainda trabalhamos com pastas de professores e xerox de capítulos isolados. É pré-histórico. Voltando à questão das novas mídias… É muito mais do que mídia alternativa. É o fato de que as pessoas disponibilizam conhecimento segundo a relevância efetiva que tem para elas e buscam de maneira temática as informações de que necessitam. Isso, em outro nível, gera um sistema de newsletters que começa a concorrer efetivamente. Carta Maior é recebida por centenas de milhares de pessoas, temos o Envolverde, Mercado Ético, IHU, inúmeros grupos que redistribuem e fazem circular informação inteligente. E temos informação tradicional que se adaptou, como o The Guardian, no qual você pode encontrar informação internacional extremamente atualizada, gratuitamente, a partir do celular ou tablet, sem complicações de senhas, pagamentos, cadastros. É um serviço público a partir da esfera privada. Os que se aferram à mídia antiga, e ao controle político e comercial da mídia, declaram guerra a estas formas abertas de acesso. Você liga o rádio e ouve: “seja ético” – o que é uma bobagem. Ser feliz sozinho é deprimente. Quando ouço uma música bonita penso: vou mandar para fulano. Criminalizar isso é patológico: o Brasil é de uma hipocrisia quase escandalosa, ao inverter a noção de ética. O prejudicado não é o músico, que só tem a lucrar com a divulgação. São os grandes intermediários, os donos da chamada indústria cultural, que não criam nada mas travam o acesso. O copyright é legítimo na forma como surgiu: uma editora que produz um livro não quer que outra editora aproveite o eventual sucesso comercial. Mas criminalizar o uso não comercial é inclusive uma burrice econômica, além da deformação do conceito de ética. E existe agora esse fantástico avanço do tagging: o endereço e o código de cada documento. Estamos em um nível que, se quero estudar desemprego jovem em periferias metropolitanas, coloco esses termos no Google ou em qualquer outro buscador e tenho centenas de artigos sobre o que acontece nas periferias de Beijing, Xangai ou Moscou – e posso compor essas visões em uma articulação nova sobre a base do conhecimento acumulado. Fazer articulações inovadoras sobre a base de conhecimento acumulado chama-se ciência. Isso é inovar. Neste sentido, o acesso aberto online é muito mais do que a gratuidade, é a abertura e flexibilidade de cruzamento de informações e avanços científicos de qualquer parte do planeta, de qualquer área científica, que gera a presente explosão de inovações. Não à toa milhares de cientistas americanos geraram o movimento Science Spring, primavera científica, na linha da primavera árabe, e boicotam as revistas indexadas. Chega de intermediários que cobram pedágio sobre as inovações dos outros. A inovação é um processo colaborativo: ninguém inova sozinho. Tem um livro muito bonito, Cognitive Capital, em que o autor Clay Shirky lembra que se não fossem as universidades terem desenvolvido os microprocessadores, os chips etc, um Bill Gates ainda estaria trabalhando com tubos catódicos – aqueles antigos de televisão. A inovação é uma maré que levanta todos os barcos, só que alguns querem cobrar pedágio sobre as inovações de todos. Então, esse talvez seja o megatrend que atravessa todo o conjunto: o conhecimento se desmaterializa. Quando escrevo a letra a, preciso gastar tinta e papel; mas o digital é uma combinação de zeros e uns que pode ser feita com luz acesa ou apagada, polo magnético positivo ou negativo, intensidade maior ou menor de fótons – estou nas ondas eletromagnéticas. Instala-se um sistema de satélites geoestacionários ao redor do planeta que retransmitem esse conhecimento – e o planeta passa a ser banhado em conhecimento. Esses satélites ficam a 36 mil km de altitude, uma altitude da qual podem acompanhar exatamente o movimento da Terra – e tem-se a cobertura completa do planeta em conhecimento. O que está acontecendo é que o conhecimento não está mais na cabeça do professor, está no ambiente, ou na nuvem. Isso significa que a educação tem que passar a ser articuladora, organizadora de conhecimento, muito mais do que lecionadora. Esse fluxo de conhecimento online leva à ruptura do fatiamento: isso é química, aquilo é física, e um não se mete no outro – isso está indo para o brejo. As escolas, as universidades com seus diplomas estão se tornando um conjunto de estruturas desesperadamente desatualizadas, relativamente a todas essas transformações possíveis. E qual é a escola necessária? A escola necessária é muito menos lecionadora e muito mais articuladora de conhecimento. Seymour Pappert escreveu A Máquina das Crianças, The Children’s Machine, um livro sobre as inovações educacionais na era do computador, em 1993. Conta ali a história de uma professora de informática que, sentindo-se cada vez mais sem jeito porque os alunos estavam indo mais rápido que ela, num momento de crise tem um ataque de bom senso e diz: “meninos, vocês claramente estão indo mais rápido que eu. Mas sei organizar conhecimento e sei discutir com vocês como usar esses instrumentos. Então vou parar de dar aula e passar a ser uma assessora organizacional para vocês construírem novos conhecimentos através desse instrumento.” Isso é a nova escola. Se você lê José Pacheco, da Escola da Ponte, a visão é essa. É uma escola-referência? É uma escola-referência. Pegue os Recursos Educacionais Abertos (REA), ou o Projeto Folhas, da secretaria de Educação do estado do Paraná: não tem mais livros-textos na aula. Eles selecionaram professores voluntários, dispostos a elaborar textos com o que acham que as crianças querem aprender, pensando junto com elas. Deram ano sabático para eles poderem se dedicar, e cada texto é elaborado por esses professores junto com os alunos, numa produção online. Eles contam com núcleos universitários de apoio para as dúvidas técnicas, e triangulam isso permanentemente com a secretaria de Educação. Vão assim construindo de forma colaborativa, e incluindo os eixos de interesse dos alunos. Quando aparece uma bobagem, é corrigida na hora: não dá escândalo, a Folha de São Paulo não pode fazer uso político de um erro no livro-texto. E mais, quando surge uma nova pesquisa o professor recebe uma notinha no e-mail, dizendo: “atualize tal coisa no livro.” Os professores vivem a educação, participam do que estão ensinando. E o sentimento do aluno é de que está trabalhando online, com coisas relevantes. Ele aprende a trabalhar por problema. Um texto sobre água, por exemplo: água é vida, é lazer, água é meio de transporte, irrigação, cultura e dinâmica ambiental. Podemos, sim, ir além das disciplinas, do conhecimento fatiado. É uma revolução, e está acontecendo – sempre com muita resistência, da mesma maneira que na área comercial as grandes corporações resistem. Estou batalhando aqui na PUC para adotarem o OCW – o que seria óbvio. É patético que ainda tenhamos que tirar xerox de um capítulo, e não do livro inteiro, porque não pode. Para o aluno, que tem uma bagagem pequena, é ruim ler um capítulo isolado. Assim trabalhamos, em pleno século XXI, quando outros países já estão em outra fase: nesses poucos anos, só no OCW-MIT, mais de 50 milhões de textos foram baixados. Imagine a contribuição ao conhecimento planetário. E os professores passaram a se sentir mais úteis, sem esperar “pontinhos” por publicação. Isso configura uma revolução na economia? O que acontece é que todo o referencial está mudando. Por exemplo: o que estou falando para você não tira nada de mim, e pode acrescentar algo de valor a você. Mais: falando, eu penso, “não tinha percebido tal coisa”. E você vai recriar o que eu disser. Essa máquina aqui [um gravador digital] deve ter 3% de matéria-prima e trabalho físico, 97% é conhecimento incorporado – design, pesquisa etc. No mundo, hoje, 3/4 do valor dos produtos é conhecimento incorporado. Quanto mais se generaliza conhecimento, mais se enriquece a humanidade. Pense no conceito dos economistas – de que economia é a alocação ótima de recursos escassos. Como perceber a economia quando o recurso deixa de ser escasso, e além disso pode ser retransmitido livremente, instantaneamente, sem custos, pois as ondas eletromagnéticas são da natureza? E com custos de transação praticamente nulos? E não é uma inundação, o conhecimento pode circular pelo planeta e ser acessado de maneira inteligente por meio de algoritmos que permitem foco e seleção precisos. Esse é o tamanho da revolução da chamada economia do conhecimento. O conhecimento é um fator de produção cujo consumo não reduz o estoque. E começamos a assistir ao uso das redes sociais para a mobilização política. Como vê isso? O pano de fundo mais amplo para toda essa mobilização, além do twitter e das manifestações, é que os pobres hoje não são mais como os pobres de antigamente. Quando de meu primeiro trabalho, como jornalista do Jornal do Comércio do Recife, na área rural, pobre era sim, sinhô pra tudo, resignado, analfabeto. Hoje ninguém mais está dizendo sim, sinhô. Passando por África, bem no interior, encontrei um descalço, indo a pé, com seu turbante. Tinha havido uma ruptura de chuvas – uma seca, falta de água para a colheita seguinte. Perguntei: “como vocês vão fazer com a safra?” Ele olhou para mim com tranquilidade e disse: “quero saber o que vocês vão fazer.” Viu meu carro, que sou branco, da capital… São muitos os informados, sabem que podem ter acesso a uma saúde decente para os filhos, direitos de cidadania. É um despertar prodigioso. Há algumas cifras de referência que são úteis: somos sete bilhões de habitantes no planeta, dos quais quatro bilhões são “pessoas que não têm acesso aos benefícios da globalização”– como diz o Banco Mundial, educadamente, pois não gosta de dizer “pobres”. Um bilhão dessas pessoas passa fome, e 180 milhões são crianças. Destas, entre 10 e 11 milhões são reduzidas à morte, todo ano. São dados recentes da Unicef e da FAO. Não estamos matando, estamos deixando morrer, isso porque temos os recursos, os conhecimentos, as tecnologias. Estamos vendo morrer 12 milhões de pessoas no Chifre da África, de AIDS já morreram 25 milhões – e estamos discutindo o valor das patentes. É insustentável. Em paralelo, há facilidade de adquirir informações que mudam a atitude das pessoas. Esses 2/3 da população mundial reduzidos à miséria estão em grande parte nas cidades, não mais isolados no campo. No Brasil, 96% dos domicílios têm tevê. Celular, então… Mesmo considerando que a tevê informa mal, deforma? Sem dúvida informa mal – mas as coisas chegam, circulam. Digamos que, com essa expansão do acesso ao conhecimento e acesso inteligente das mensagens, as pessoas podem traduzir o seu desespero individual na compreensão de que se trata de um processo social e não de sua própria incapacidade. Os pobres estão começando a compreender. Um padre latino-americano me falou certa vez: “se ajudo um pobre, dizem que sou santo; se pergunto por que razão ele é pobre, dizem que sou comunista.” Achei interessante… De um lado temos esse imenso desafio ambiental – as situações críticas que estamos provocando; e de outro o desafio social – que está explodindo: até os índios Aymara estão se mobilizando. E tem um terceiro eixo, o caos financeiro que estão gerando, a desorganização do sistema produtivo. São tão gananciosos que querem fazer dinheiro com dinheiro, não sabem sequer financiar de maneira inteligente o processo produtivo, para ser remunerados com ele. Estamos começando a entender as sinergias. Por exemplo, o permafrost da Sibéria, aquele gelo acumulado há séculos sobre toda a Sibéria, que não derretia no verão, só em parte (Outras palavras)

domingo, 2 de dezembro de 2012

Gaza

Paz, de uma vez por todas! 24/11/2012, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel “THE MANTRA of this round was Once And For All” Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu Uri Avnery O mantra dessa vez foi “de uma vez por todas”. “Temos de por fim nisso (nos foguetes, no Hamás, nos palestinos, nos árabes?), de uma vez por todas!” – eis o grito que se ouvia, dúzia de vezes por dia nas televisões, dos moradores das cidades e vilas duramente atingidas do sul de Israel. A ponto de o novo mantra ter deslocado o slogan que dominou durante várias décadas: “Atirar e acabar com aquilo!” Absolutamente não funcionou. O Hamás venceu. O grande vencedor que emergiu da nuvem é o Hamás. Antes desse round, o Hamás era presença importante na Faixa de Gaza, mas praticamente não era visto como organização com estatura internacional. A face internacional do povo palestino era a Autoridade Nacional Palestina de Mahmoud Abbas. Era. Não é mais. A Operação Pilar de Nuvem deu amplo reconhecimento internacional ao miniestado do Hamás em Gaza. (“Pilar de Nuvem” é o nome oficial em hebraico, embora o porta-voz do exército tenha decretado que o nome em inglês, para consumo de estrangeiros, deveria ser “Pilar da Defesa”). Chefes de vários estados e muitos ministros e dignitários estrangeiros já fizeram a necessária peregrinação à Faixa. Primeiro, chegou o poderoso e imensamente rico emir do Qatar, proprietário da rede Al- Jazeera. Foi o primeiro chefe de Estado a pôr os pés na Faixa de Gaza. Depois, chegaram o primeiro-ministro egípcio, o ministro de Relações Exteriores da Tunísia, o secretário da Liga Árabe e vários ministros de Relações Exteriores de países árabes (exceto o de Ramallah). Em todas as deliberações diplomáticas, Gaza foi tratada como Estado de facto, com governo de facto (o Hamás). Nem a mídia israelense escapou. Os israelenses rapidamente perceberam que qualquer acordo, para ser efetivo, teria de ser construído com o Hamás. Entre o povo palestino, o prestígio e a estatura do Hamás alcançaram as alturas. Só a Faixa de Gaza, menor que qualquer condado médio dos EUA, sobrepôs-se a toda a gigante máquina de guerra dos israelenses, das maiores e mais eficientes do mundo. O exército de Israel não sucumbiu apenas. O resultado militar só pode ser apresentado (e com boa vontade a favor de Israel), como empate. E empate entre a minúscula Gaza e a poderosa Israel significa vitória de Gaza. Ehud Barak Quem lembra hoje a orgulhosa fala de Ehud Barak, no meio da guerra: “Não devemos parar até que o Hamás seja posto de joelhos e suplique por um cessar-fogo”? E em que ponto disso tudo fica Mahmoud Abbas? De fato, não fica em ponto algum. Abbas sumiu. Para qualquer palestino comum, esteja em Nablus, Gaza ou Beirute, o contraste é flagrante: o Hamás tem orgulho, coragem, decisão; e o Fatah é frágil, vulnerável, submisso e ignorado. Na cultura árabe, honra e orgulho têm papel central. Depois de mais de meio século de humilhação, qualquer palestino que tenha lutado contra a ocupação é herói das massas árabes, dentro e fora do país. Abbas está identificado só com a íntima colaboração entre suas forças de segurança e o odiado exército israelense ocupante. E, fato decisivo: Abbas nada tem para mostrar, como resultado de tão dedicada colaboração com a potência ocupante. Mahmoud Abbas Se Abbas pudesse exibir, pelo menos, uma grande realização política em troca do muito que padeceu, a situação talvez fosse outra. Os palestinos são gente sensível. Se Abbas tivesse dado pelo menos um passo que o aproximasse de ter conseguido qualquer coisa que se assemelhasse a algum estado palestino, a maioria dos palestinos provavelmente diriam: “não tem lá muito glamour, mas, pelo menos, cumpre o que promete”. Pois está acontecendo exatamente o contrário. O Hamás armado consegue resultados; Abbas e a não-violência nada conseguem. Como disse-me um palestino: “Ele (Abbas) deu a tudo eles (aos israelenses), calma e segurança. E o que obteve [ou continua a obter] em troca? Os israelenses cospem na cara dele!”. Essa mais recente rodada de violência reforçará uma convicção de todos os palestinos: “Os israelenses só entendem a linguagem da violência!” (Israelenses, claro, dizem o mesmo, dos palestinos). Se, pelo menos, os EUA permitissem a Abbas obter o reconhecimento da Palestina como estado não-membro, como observador, por resolução da ONU, Abbas ainda teria algo a apresentar para se promover frente ao Hamás. Mas o governo de Israel está decidido a impedir, custe o que custar, que esse reconhecimento aconteça. Barack Obama E Barack Obama, que já depois de re-eleito decidiu bloquear todos os esforços dos palestinos na ONU, está, de fato, assegurando seu apoio ao Hamás... o que implica que esbofeteia os “moderados”. A superficial, rápida, descuidosa visita de Hillary Clinton a Ramallah essa semana foi interpretada nesse contexto. Examinada de fora, vê-se essa atitude de Israel e dos EUA como o que é: completa loucura. Por que minar a influência dos “moderados” que querem e são capazes de fazer a paz? Por que promover os “extremistas” que se opõem à paz? A resposta veio, plenamente declarada, da boca de Avigdor Lieberman, hoje o No. 2 de Netanyahu no campo político: Lieberman quer destruir Abbas, anexar a Cisjordânia e abrir o caminho para os colonos. Depois do Hamás, o maior vencedor é Mohamed Mursi. Aí está outro resultado quase inacreditável. Quando Mursi foi eleito presidente do Egito, a Israel oficial entrou em estado de histeria. Que horror! Os extremistas islâmicos tomaram o poder no mais importante país árabe! Nosso tratado de paz com nosso maior vizinho, foi-se pelo ralo! Nos EUA, a reação foi praticamente idêntica a essa. E hoje – quase quatro meses depois – aí está Israel, a ouvir com máxima atenção e reverência cada fala de Mursi. Mursi, ele, o homem que conseguiu pôr fim à destruição e à matança mútuas! Mursi, o grande pacificador! Mursi, o único homem capaz de fazer a mediação entre Israel e o Hamás! Mursi, o avalista do acordo de cessar-fogo! É possível tal coisa? Será que falamos do mesmo homem? Do mesmo Mursi? Da mesma Fraternidade Muçulmana? Mohamed Mursi Mursi, 61 anos – cujo nome completo é Mohamed Mursi Isa al-Ayyad (Isa é a palavra, em árabe, para “Jesus”, que é um dos profetas do Islã) – é figura absolutamente desconhecida no cenário mundial. Apesar disso, hoje, todos os principais líderes políticos do mundo confiam integralmente nele. Quando eu festejei, de todo o coração, a Primavera Árabe, tinha em mente gente como esse homem. Agora, praticamente todos os jornalistas, analistas, comentaristas, ex-generais e políticos israelenses, que, antes, diziam os maiores disparates e “alertavam” contra os novos políticos árabes, não se cansam de elogiar o sucesso do acordo de cessar-fogo. Durante a operação Pilar de Nuvem, fiz o que sempre faço nessas situações: assisto, alternadamente, aos canais israelenses de televisão e à rede Al-Jazeera. Volta e meia, quando me distraio e volto repentinamente a prestar atenção à televisão, fico sem saber onde estou, se lá, se cá. Mulheres em prantos, feridos carregados, casas em ruínas, sapatinhos de crianças espalhados entre os escombros, famílias com malas às costas, tentando escapar. Cá, como lá, as cenas se assemelham. Mas, sim: morreram 30 vezes mais palestinos que israelenses – em parte por efeito do Domo de Ferro dos israelenses, de interceptação de mísseis, enquanto os palestinos estavam absolutamente sem defesa alguma. Na 4ª-feira fui convidado para um programa a ser exibido pelo Channel 2, o mais popular (e o mais patriótico-nacionalista) em Israel. O convite, como já aconteceu várias vezes, foi cancelado no último momento. Se tivesse ido ao tal programa, só teria uma pergunta a propor aos israelenses: “Valeu a pena?”. Valeu a pena? Todo o sofrimento, os mortos, feridos, a destruição, as horas e dias de terror, as crianças traumatizadas? Gilad Sharon E, deve-se acrescentar, a cobertura infindável, 24 horas por dia, pelas televisões, com generais aposentados sempre a repetir os press-releases do gabinete do primeiro-ministro. E as mais horrendas, as mais escandalosas ameaças, na boca de políticos e outras variantes de doidos, entre os quais o filho de Ariel Sharon, Gilad Sharon, que propôs a destruição total, de toda a cidade de Gaza e arredores, ou, melhor ainda, logo, de toda a Faixa de Gaza. OK. Tudo isso é passado. Estamos quase exatamente onde estávamos antes. A operação, chamada, em Israel, quase sempre, de “mais uma rodada”, não passou, de fato, de rodada – não levou a lugar algum; tudo ficou onde estava antes de a “rodada” começar. O Hamás assumirá firmemente o controle da Faixa de Gaza, talvez mais firmemente do que antes. Os palestinos odeiam Israel hoje, mais do que já odiavam antes. Muitos dos habitantes da Cisjordânia, os quais, durante a guerra saíram à rua aos milhares em demonstrações de apoio ao Hamás, votarão em ainda maior número, a favor do Hamás, nas próximas eleições. Dentro de dois meses, os israelenses votarão, depois da guerra, exatamente como votariam antes da guerra. Os dois lados celebram vitória impressionante. Se se unissem e fizessem só uma festa, economizariam muito dinheiro. QUAIS SÃO, POIS, as conclusões políticas? A mais óbvia é: FALEM COM O HAMÁS. Diretamente. Cara a cara. Yitzhak Rabin 1922-1995 Yitzhak Rabin disse-me, certa vez, como acabara por concluir que tinha de falar com a OLP, e diretamente com ela: depois de anos de oposição, acabara por entender que a OLP era a única força que contava. “Assim sendo, era ridículo só falar com eles através de intermediários”. Vale exatamente o mesmo, no caso do Hamás. O Hamás está ali. Não desaparecerá, nem partirá dali. É ridículo, para os negociadores israelenses, sentarem-se lá, numa sala do quartel-general da inteligência egípcia, nos arredores do Cairo, enquanto os negociadores do Hamás permanecem na sala ao lado, a apenas poucos metros de distância, com os egípcios, corteses, andando de um lado para o outro. Ao mesmo tempo, que Israel trate de ativar esforços na direção da paz. A sério. No momento, é preciso salvar Abbas, que não tem substituto à vista. Israel bem poderia garantir uma vitória imediata para Abbas, para contrabalançar a grande vitória do Hamás contra a Operação Pilar de Nuvem: Israel bem pode votar a favor de garantir-se aos palestinos o direito de membro-observador – portanto, de estado reconhecido – na Assembleia Geral da ONU. Só assim Israel mostrará ao mundo que, sim, tem interesse em fazer a paz com todo o povo palestinos, incluindo Fatah e Hamas. Só assim Israel mostrará ao mundo que tem interesse em pôr fim à violência, DE UMA VEZ POR TODAS! Postado por Castor Filho às 16:50:00 (Outras palavras)

Futebol

O ex-craque da seleção brasileira, agora deputado, começará na próxima semana a coletar assinaturas para instalar uma CPI para investigar a CBF e o futebol por Fábio Góis | 30/11/2012 07:00 CATEGORIA(s): Copa do Mundo de 2014, Manchetes, Questão de foco Beto Oliveira/Ag. Câmara Romário sugere a saída de Marin (à esquerda) da presidência da CBF O deputado Romário (PSB-RJ) não desiste do ataque. Quem o viu sentado com o olhar distante em uma das primeiras poltronas do Plenário da Câmara, na sessão deliberativa da última quarta-feira (28), pôde ter pensado que o ex-craque da seleção brasileira estava apenas na “banheira”, esperando a hora do arremate. Mera opção tática: depois da participação em audiências públicas e reuniões fechadas no transcorrer desta semana, o “peixe” pôs a bola debaixo do braço e, em entrevista ao Congresso em Foco, emendou, de letra: a CPI destinada a investigar suspeitas de corrupção na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), uma das suas principais metas como parlamentar, está a caminho. Tudo sobre a Copa do Mundo de 2014 Em seu segundo ano como deputado, Romário disse estar finalizando os procedimentos burocráticos necessários para fundamentar o requerimento de criação da comissão parlamentar de inquérito. No que depender dele, a CBF, às vésperas de organizar a Copa das Confederações no ano que vem e a Copa do Mundo em 2014, administrando a troca de Mano Menezes por Luís Felipe Scolari no comando da seleção, terá muito mais trabalho e novos motivos de preocupação. A coleta de assinaturas de adesão à CPI (no mínimo 171 entre as 513 possíveis), diz Romário, vai começar já no início da próxima semana entre os colegas de Câmara. Objeto de investigação, essencial para a viabilidade regimental da comissão, não será problema: “Os problemas não são poucos”, avalia o deputado. “Tem aquele contrato fraudulento entre CBF e TAM, tem o enriquecimento ilícito das pessoas que trabalham na CBF. Tem também esse último fato, agora, que não tem a ver, diretamente, com a CBF – mas envolve o Marco Polo Del Nero. E muitos outros [objetos de fundamentação] que vocês saberão aí pela frente”, insinuou Romário, sem querer adiantar o material que tem em mãos. Era uma menção indireta ao ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e outra direta ao vice-presidente da CBF e presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo Del Nero, um dos alvos da Operação Durkheim, da Polícia Federal, que investiga um esquema de venda de informações sigilosas. Mesmo que as autoridades responsáveis pela investigação tenham dito não se tratar de suspeita de irregularidade ligada ao futebol, o fato de o dirigente ter tido documentos apreendidos pela PF, avalia Romário, já merecia um tratamento diferente ao investigado. “Eu, no lugar do presidente [da CBF, José Maria Marin], teria conversado com ele e já o teria afastado. Ele teria de sair do cargo de vice-presidente da CBF e, principalmente, do de representante do Brasil na Fifa.” “Apoio aos covardes” Em quase dois anos de experiência parlamentar, Romário já sabe o que determina o sucesso de uma CPI. Mas na entrevista a este site, à saída do Plenário da Câmara, o deputado parecia convicto de que o momento conturbado na CBF é o mais propício para enfrentar a chamada “bancada da bola”, grupo de parlamentares com estreitas relações com os dirigentes do futebol brasileiro. E que, por mais de uma vez, já mostrou sua força em duas comissões correlatas – a CPI do Futebol, em 2001; e a CPI da Nike, em 2008. Relembre: Deputados cedem a pressão e CPI da CBF perde força Silvio Torres: futebol precisa de investigação ampla Mesmo depois da renúncia de Ricardo Teixeira, que está sob investigação da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Romário acredita que a tal bancada terá de rever seus conceitos. E, em um contexto político-eleitoral, sua própria atuação. “A bancada da bola não pode mais apoiar sacanagem, corrupção, falcatrua. O Brasil está entrando em outro momento – e, nesse sentido, o que aconteceu no julgamento do mensalão é um exemplo. Então, essa bancada vai pensar bastante, a partir de agora, em quem eles vão apoiar. Aliás, teremos eleições daqui a dois anos”, fustigou o deputado, para quem a CBF é uma instituição “covarde e corrompida”. Na entrevista a seguir, Romário desmonta os rumores de bastidor que davam conta dos conselhos, por parte de aliados, para que ele não queimasse cartucho em uma CPI sem efetividade. Além disso, a turma do deixa disso chegou a suscitar a pouca experiência de Romário como congressista e, em última análise, como membro de CPI com tamanho poder de fogo. Acostumado com confrontos internacionais, o deputado matou o falatório no peito. “Espero e tenho muita fé em que, desta vez, a CPI vai acontecer.” Confira a íntegra da entrevista: Congresso em Foco – A CBF continua a fazer o que quer, sem dar satisfação ao governo ou ao povo? Romário – Infelizmente, tanto no passado, e agora no presente. E o pior: se continuar assim, será bastante desastroso, prejudicial para nosso futebol. O que mostrou a audiência, no Senado, sobre limite para reeleições na presidência de entidades esportivas? O Brasil já está alerta, já entende que está na hora de modernizar. E modernizar é limitar o tempo [de gestores à frente de entidades]. Uma das formas de modernizar qualquer situação hoje, no que se refere ao esporte – tanto em confederação quanto em federação, clubes, enfim –, é limitar o tempo de mandato desses dirigentes. Há clima favorável para a criação da CPI da CBF? Eu estou apenas finalizando o resto da documentação para juntar no processo e, a partir de terça-feira [4], vou começar a recolher as assinaturas… Há quem diga que não há fundamentação a justificar a instalação do colegiado… Claro que tem! Uma é aquele contrato fraudulento entre CBF e TAM. Outra é o enriquecimento ilícito das pessoas que trabalham na CBF. Tem também esse último fato, agora, que não tem a ver, diretamente, com a CBF – mas envolve o Marco Polo Del Nero. E muitos outros [objetos de fundamentação] que vocês saberão aí pela frente… O senhor acredita que vai reunir o número mínimo de assinaturas exigido para a instalação do colegiado? Sim. Estou bastante consciente, entusiasmado. Espero que meus companheiros entendam, de uma vez por todas, que essa “farra do boi” tem que acabar. Romário no ataque, bancada da bola na defesa… Não é bem assim… Eu entendo que, para que as coisas aconteçam, a gente precisa de aliados, de votos. Temos que reunir, no mínimo, 171 assinaturas. Tempos de recolher o máximo possível, porque pode ser que aconteça o que aconteceu outra vez, quando o deputado Anthony Garotinho [PR] colheu duzentas e poucas assinaturas, e muitos retiraram. Por isso, ele não conseguiu alcançar o número suficiente. Mas eu espero e tenho muita fé em que, desta vez, vai acontecer. A chamada “bancada da bola”, que parece em harmonia com a CBF, tem força parlamentar para barrar a CPI? A bancada da bola não pode mais apoiar sacanagem, não pode mais apoiar corrupção, não pode mais apoiar falcatrua. O Brasil está entrando em outro momento – e, nesse sentido, o que aconteceu no mensalão é um exemplo. Então, essa bancada vai pensar bastante, a partir de agora, em quem eles vão apoiar. Aliás, teremos eleições daqui a dois anos… O deputado Vicente Cândido (PT-SP), embora não esteja sob investigação e não figure em qualquer denúncia de irregularidade, é sócio do presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo Del Nero, alvo recente de ação da Polícia Federal. O que isso pode representar? Independentemente de ser sócio do Vicente, quem aparece no escândalo é apenas o Del Nero – então é apenas dele que a gente pode falar. Não posso falar nada sobre meu companheiro Vicente Cândido. O que eu quero dizer é que só o fato de ele aparecer em um escândalo desse… Eu, no lugar do presidente [da CBF, José Maria Marin], teria conversado com ele e já o teria afastado. Ele teria de ser afastado do cargo de vice-presidente da CBF e, principalmente, como representante do Brasil na Fifa – ele representa, hoje, o Brasil no lugar do Ricardo Teixeira. Mas como essa instituição [CBF] é bastante corrompida, covarde e desonesta, não vai acontecer nada. Como o senhor viu a queda do Mano Menezes e, na sequência, de Andrés Sanchez? Tem a ver com a crise na CBF? A saída do Andrés Sanchez foi porque – na concepção dele, e eu respeito bastante – ele foi voto vencido em relação à saída do Mano, que eu comemoro como uma grande decisão, porque estava na hora de ele sair. Mas o Andrés Sanchez tem a bandeira dele, vê o Mano como um cara competente e queria continuar com o Mano. Eu o respeito, [Andrés] é um dos poucos caras sérios que tinha na CBF. O que eu posso dizer é o seguinte: como saíram o Mano e o Andrés, tinha que sair agora o Del Nero e o próprio presidente, para vermos se melhora alguma coisa. (Congresso em foco)

sábado, 1 de dezembro de 2012

Gaza II

Impressões de uma visita a Gaza Na Faixa de Gaza, a área de maior densidade populacional do planeta, um milhão e meio de pessoas estão constantemente sujeitas a eventuais e amiúde ferozes e arbitrárias punições, cujo propósito não é senão humilhar e rebaixar a população palestina e ulteriormente garantir tanto o esmagamento das esperanças de um futuro decente quanto a nulidade do vasto apoio internacional para um acordo diplomático que sancione o direito a essas esperanças. O artigo é de Noam Chomsky. Noam Chomsky Uma noite encarcerado é o bastante para que se conheça o sabor de estar sob total controle de uma força externa. E dificilmente demora mais de um dia em Gaza para que se comece a perceber como é tentar sobreviver na maior prisão a céu aberto do mundo. Na Faixa de Gaza, a área de maior densidade populacional do planeta, um milhão e meio de pessoas estão constantemente sujeitas a eventuais e amiúde ferozes e arbitrárias punições, cujo propósito não é senão humilhar e rebaixar a população palestina e ulteriormente garantir tanto o esmagamento das esperanças de um futuro decente quanto a nulidade do vasto apoio internacional para um acordo diplomático que sancione o direito a essas esperanças. O comprometimento a isso por parte das lideranças políticas israelenses foi ilustrado expressivamente nos últimos dias, quando eles advertiram que ‘enlouqueceriam’ se os direitos palestinos fossem reconhecidos, mesmo que limitadamente, pela ONU. Essa postura não é nova. A ameaça de ‘enlouquecer’ (‘nishtagea’) tem raízes profundas, lá nos governos trabalhistas dos anos 1950 e em seus respectivos “complexos de Sansão”: “se nos contrariarem, implodimos as paredes do Templo à nossa volta”. À época, essa ameaça era inútil; hoje não é mais. A humilhação deliberada também não é nova, apesar de adquirir novas formas constantemente. Há trinta anos, líderes políticos, inclusive alguns dos mais notórios ‘falcões’ (sionistas mais conservadores), apresentaram ao primeiro-ministro um relato detalhado de como colonos regularmente violavam palestinos da forma mais vil e com total impunidade. A proeminente analista Yoram Peri notou com repugnância que a tarefa do exército não é a de defender o Estado, mas de “acabar com os direitos de pessoas inocentes somente porque são araboushim (uma ofensa racial) vivendo numa terra que Deus nos prometeu”. O povo de Gaza foi selecionado para punições particularmente cruéis. É quase miraculoso que eles suportem tal existência. Raja Shehadeh descreveu como eles o fazem num eloquente livro de memórias, A Terceira Via, escrito há 30 anos. O texto relata seu trabalho como advogado empenhado na tarefa de tentar proteger direitos elementares num sistema legal feito para ser insuficiente, além de sua experiência como um resistente que vê sua casa tornar-se uma prisão por ocupantes violentos e nada pode fazer além de “aguentar”. A situação piorou muito desde o texto de Shehadeh. Os acordos de Oslo, celebrados com muita cerimônia em 1993, determinaram que Gaza e a Cisjordânia eram uma só entidade territorial. Os EUA e Israel puseram sua estratégia de separá-los para funcionar já naquela época, de forma a barrar um acordo diplomático e punir os araboushim em ambos os territórios. A punição aos moradores de Gaza tornou-se ainda mais severa em janeiro de 2006, quando eles cometeram um crime hediondo: votaram no “lado errado” na primeira eleição do mundo árabe, elegendo o Hamas. Demonstrando seu amor pela democracia, os EUA e Israel, apoiados pela tímida União Europeia, impuseram um sítio brutal e ataques militares ostensivos logo de cara. Os norte-americanos também imediatamente recorreram ao procedimento operacional padrão para momentos em que populações desobedientes elegem o governo errado: prepararam um golpe militar para restabelecer a ordem. O povo de Gaza cometeu um crime ainda pior um ano depois. Barraram a tentativa de golpe, levando a uma forte escalada do sítio e das ofensivas militares. Isso culminou, no inverno de 2008-9, na Operação Chumbo Fundido, um dos mais covardes e perversos exercícios de poder militar na memória recente, na qual uma população civil sem defesa e enclausurada ficou sujeita à implacável ofensiva de um dos mais avançados sistemas militares do mundo, que conta com o apoio das armas e da diplomacia estadunidense. Um testemunho inesquecível do morticínio – infanticídio, nas palavras deles – é o livro Eyes in Gaza, de dois corajosos doutores noruegueses, Mads Gilbert e Erik Fosse, que à época trabalhavam no principal hospital de Gaza. O Presidente Obama não foi capaz de dizer uma palavra além de reiterar sua sincera simpatia pelas crianças sob ataque – na cidade israelense de Sderot. A investida minuciosamente planejada foi levada a cabo justamente antes do empossamento de Barack, assim ele pôde dizer que era hora de vislumbrar o futuro, não o passado. Obviamente, havia pretextos – sempre há. O de costume, apresentado assim que necessário, é a “segurança”: neste caso, os foguetes caseiros de Gaza. Como de costume, também, o pretexto carecia de credibilidade. Em 2008, estabeleceu-se uma trégua entre Israel e o Hamas. E o governo israelense reconheceu formalmente que o Hamas cumpriu a trégua. Nenhuma bomba do Hamas foi disparada até que Israel rompeu a trégua encoberto pelas eleições presidenciais norte-americanas de 4 de novembro de 2008, invadindo Gaza por motivos ridículos e matando meia-dúzia de membros do Hamas. O governo de Israel foi aconselhado por suas mais altas autoridades de inteligência de que a trégua poderia ser retomada por suavizar o bloqueio criminoso e acabar com as ofensivas militares. Mas o governo de Ehud Olmert, por reputação um “pombo” (termo para os sionistas “moderados”), preferiu rejeitar estas opções e lançar mão de sua enorme vantagem no quesito violência: a Operação Chumbo Fundido. O modelo de bombardeio da Operação Chumbo Fundido foi analisado cuidadosamente pelo respeitado defensor dos direitos humanos Raji Sourani, natural de Gaza. Ele aponta que o bombardeio concentrou-se ao norte, mirando civis indefesos nas áreas de maior densidade populacional, sem qualquer desculpa do ponto de vista militar. O objetivo, ele sugere, talvez tenha sido mover a população intimidada para o sul, próximo à fronteira com o Egito. Mas, apesar da avalanche terrorista, os resistentes não se moveram. Outro objetivo provavelmente era movê-los para lá da fronteira. Desde o início da colonização sionista dizia-se que os árabes não tinham motivo para estar na Palestina. Eles podiam continuar felizes noutro lugar e deveriam ser “transferidos” de maneira educada, sugeriam os pombos. Esta, que claramente não é uma preocupação menor do governo egípcio, talvez seja a razão pela qual o Egito não abre sua fronteira seja para civis, seja para os suprimentos dos quais o país necessita desesperadamente. Sourani e outras fontes dignas de reconhecimento notam que a disciplina dos resistentes oculta um barril de pólvora que pode explodir inesperadamente, como aconteceu na primeira Intifada em Gaza em 1989, após anos de repressão indigna de qualquer interesse ou nota. Só para mencionar um dos inumeráveis casos, pouco antes da eclosão da Intifada, uma menina palestina, Intissar al-Atar, foi assassinada no pátio da escola pelo morador de um assentamento judeu próximo. Ele era um dos milhares de colonos israelenses trazidos para Gaza, o que violava leis internacionais, sob proteção da enorme presença de um exército que assumiu o controle das terras e da escassa água da Faixa. O assassino da estudante, Shimon Yifrah, foi preso. No entanto, foi solto rapidamente quando o tribunal determinou que “o delito não foi severo o suficiente” para justificar a detenção. O juiz comentou que Yifrah só pretendia assustar a garota por atirar na direção dela, não matá-la, assim, “o caso não é o de um criminoso que deve ser punido com um aprisionamento”. Yifrah recebeu uma pena suspensa de 7 meses, o que levou os outros colonos presentes à sala de tribunal a dançar e cantar. E o silêncio, pra variar, reinou. Afinal, a rotina é essa. Assim que Yifrah foi libertado, a imprensa israelense reportou que uma patrulha armada atirou no pátio de um colégio para meninos de 6 a 12 anos num campo de refugiados da Cisjordânia, ferindo cinco crianças. O ataque só pretendia “assustá-los”. Não houve punições e o evento, para variar, não atraiu atenção. Era só mais um episódio do programa de “analfabetismo como punição”, disse a imprensa israelense, programa que incluía o fechamento de escolas, uso de bombas de gás, espancamento de estudantes a coronhadas, bloqueio de auxílio médico para vítimas; e para além das escolas predominou a mesma brutalidade, que até asseverou-se durante a Intifada, sob ordens do Ministro da Defesa Yitzhak Rabin, outro bem conceituado “pombo”. Minha impressão inicial, depois de uma visita de alguns dias, foi de admiração ao povo palestino. Não só pela habilidade de levar a vida, mas também pela vitalidade da juventude, particularmente a universitária, com a qual eu passei um bom tempo numa conferência internacional. Mas também fui capaz de perceber que a pressão pode tornar-se grande demais. Relatos apontam que entre a população masculina jovem há uma frustração crescente e o reconhecimento de que, sob comando dos EUA e de Israel, o futuro não é promissor. A Faixa de Gaza parece uma típica sociedade de terceiro mundo, com bolsões de riqueza rodeados por uma pobreza medonha. Não é, entretanto, um lugar “subdesenvolvido”. Na verdade, é “des-desenvolvido”, e de maneira muito sistemática, pegando emprestado um termo de Sara Ray, a maior especialista acadêmica em Gaza. Gaza poderia ter se tornado uma região mediterrânea próspera, com rica agricultura, uma promissora indústria pesqueira, praias maravilhosas e, como descobriu-se há dez anos, a perspectiva de uma extensa reserva de gás natural dentro dos limites de suas águas. Coincidentemente ou não, foi há uma década que Israel intensificou seu bloqueio naval, levando navios pesqueiros em direção à costa. As perspectivas favoráveis foram frustradas em 1948, quando a Faixa tornou-se abrigo da enxurrada de refugiados palestinos que fugiram ou foram expulsos à força do que hoje é Israel. Na verdade, eles continuaram sendo expulsos quatro anos depois, como informou no periódico Ha’aretz (25.12.2008) o estudioso Beni Tziper. Ele afirma que, já em 1953, “avaliava-se necessário varrer os árabes da região”. Isso foi em 1953, quando a necessidade de militarização ainda não se insinuava. As conquistas israelenses de 1967 ajudaram a administrar os golpes posteriores. Vieram então os terríveis crimes já mencionados, que continuam até hoje. É fácil notar os sinais de tais crimes, mesmo numa visita breve. Num hotel perto da costa pode-se ouvir as metralhadoras israelenses empurrando pescadores para fora das águas de Gaza, em direção à própria costa. Assim, eles são levados a pescar em águas que estão poluidíssimas porque norte-americanos e israelenses não permitem a reconstrução dos sistemas de esgoto e energia que eles próprios destruíram. Os Acordos de Oslo planejavam duas usinas de dessalinização, imprescindíveis em função da aridez da região. Uma, instalação muito avançada, foi construída – em Israel. A segunda é em Khan Yunis, sul da Faixa de Gaza. O engenheiro encarregado de tentar obter água potável para a população explicou que essa usina foi projetada de forma tal que é incapaz de usar água do mar, ela depende de reservas subterrâneas, um sistema mais barato que, no entanto, degrada o aquífero já deficiente. Mesmo assim, a água é limitadíssima. A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), que cuida dos refugiados (mas não dos outros moradores de Gaza), recentemente lançou um relatório advertindo que os danos ao aquífero podem em breve tornar-se “irreversíveis”, e que, sem ações reparadoras, Gaza talvez deixe de ser um “local habitável” em 2020. Israel permite a entrada de concreto para projetos da UNRWA, mas não para os palestinos comprometidos com as enormes necessidades de reconstrução. O equipamento pesado permanece ocioso a maior parte do tempo, já que Israel não permite materiais para reparo. Tudo isso é parte do programa descrito por Dov Weisglass, conselheiro do primeiro-ministro Ehud Olmert, depois de os palestinos terem deixado de seguir certas ordens na eleição de 2006: “a ideia”, disse ele, “é aplicar uma dieta aos palestinos, mas não deixá-los morrer de fome”. Não seria de bom tom. O plano está sendo seguido conscienciosamente. Sara Roy nos dá vasta evidência disso em seus estudos. Recentemente, após anos de esforços, a Gisha, organização israelense pelos direitos humanos, conseguiu obter uma ordem judicial exigindo que o governo divulgue os planos da “dieta”. Jonathan Cook, jornalista em Israel, assim os resume: “oficiais de saúde forneceram cálculos do número mínimo de calorias que Gaza precisa para que os 1.5 milhão de habitantes não fiquem desnutridos. Esse número traduziu-se no número de caminhões de comida que Israel supostamente permite a cada dia, uma média de apenas 67 caminhões – bem menos do que a metade do requerido. E que se compare com isso os 400 caminhões diários de antes do bloqueio”. Segundo relatórios da ONU, mesmo essas estimativas são bastante generosas. O resultado da imposição da dieta, observa o especialista em Oriente Médio Juan Cole, é que “cerca de 10% das crianças palestinas com menos de cinco anos tiveram seu crescimento atrofiado pela desnutrição. Além disso, a anemia hoje afeta dois terços das crianças mais jovens, 58,6% das crianças em idade escolar e mais de um terço das grávidas”. Os EUA e Israel querem ter certeza de que nada além da mera sobrevivência seja possível. “O que devemos ter em mente”, diz Raji Sourani, “é que a ocupação e o encerramento absoluto é um ataque em andamento contra a dignidade humana do povo de Gaza em particular, e contra os palestinos em geral. É degradação, humilhação, isolamento e fragmentação sistemática do povo palestino”. Essa conclusão é confirmada por muitas outras fontes. Em um dos mais importantes periódicos médicos do mundo, The Lancet, um físico de Stanford, horrorizado com o que viu, descreveu a Faixa de Gaza como um tipo de “laboratório de observação da completa ausência de dignidade”, condição que tem efeitos “devastadores” sobre o bem-estar físico, mental e social da população. “A constante vigilância vinda do céu, punições coletivas por bloqueios e isolamentos, invasão de lares e de sistemas de comunicação, além de restrições aos que tentam viajar, casar ou trabalhar, tornam difícil viver de maneira digna em Gaza”. Havia esperanças de que o novo governo egípcio de Mohammed Mursi, menos servil à Israel do que a ditadura de Mubarak, pudesse abrir a Travessia de Rafah, única saída de Gaza que não está sujeita a controle israelense direto. Até houve uma pequena abertura. A jornalista Leila el-Haddad escreve que a reabertura sob Mursi “é simplesmente um retorno ao status quo de anos anteriores: somente os palestinos portadores de identidades de Gaza aprovadas por Israel podem usar a Travessia”, o que exclui inclusive a família da jornalista. Ademais, continua Leila, “Rafah não leva à Cisjordânia e não permite o transporte de bens, restrito às travessias controladas por Israel e sujeito às proibições a materiais de construção e exportação”. A restrição à Travessia de Rafah não muda o fato, também, de que “Gaza permanece sob apertado sítio marítimo e aéreo e fechada para qualquer capital cultural, econômico ou acadêmico que venha do resto dos territórios palestinos, o que viola as obrigações dos EUA e de Israel segundo o Acordo de Oslo˜. Os efeitos disso são dolorosamente evidentes. No hospital de Khan Yunis, o diretor, que também é cirurgião-chefe, descreve enfurecido tanto a falta de remédios para aliviar o sofrimento dos pacientes quanto a dos equipamentos cirúrgicos mais simples. Relatos pessoais dão vivacidade à corrente aversão à obscenidade da ocupação. Um exemplo é o testemunho de uma jovem que desesperou-se quando seu pai, que se orgulharia ao saber que sua filha foi a primeira mulher do campo de refugiados a receber um diploma avançado, “faleceu após seis meses de luta contra o câncer, aos 60 anos. A ocupação israelense negou que ele fosse aos hospitais de Israel para tratar-se. Eu tive de suspender meus estudos, meu trabalho e minha vida para ficar ao lado de sua cama. Todos nós, incluindo meu irmão e minha irmã, sentamo-nos ao lado de meu pai, assistindo seu sofrimento impotentes e sem esperança. Ele morreu durante o desumano bloqueio a Gaza no verão de 2006, com pouquíssimo acesso a serviços de saúde. Sentir-se impotente e sem esperança é o sentimento mais terrível que alguém pode ter. É um sentimento que mata o espírito e quebra o coração. Podemos lutar contra a ocupação, mas não podemos lutar contra o sentimento de impotência. Não se pode nem dissolver esse sentimento”. Aversão à obscenidade combinada com culpa: nós podemos acabar com esse sofrimento e permitir aos resistentes a vida de paz e dignidade que eles merecem. (*) Noam Chomsky visitou a Faixa de Gaza nos dias 25 a 30 de outubro. Tradução de André Cristi. (Outraspalavras)

Gaza

Gaza: relatos chocantes do massacre israelense Massacre provocado pelos ataques israelenses na Palestina, vitimou, sobretudo, crianças inocentes, como o filho de apenas onze meses de um funcionário do escritório da BBC em Gaza Jornalista lembra drama de colega palestino que perdeu bebê em bombardeio em Gaza A morte de civis no conflito entre palestinos e israelenses é trágica, especialmente quando crianças estão entre as vítimas. O correspondente da BBC em Gaza, Jon Donnison, testemunhou esta tragédia de perto e conta os detalhes desta história. O texto a seguir contém descrições chocantes: "Meu amigo e colega Jehad Mashrawi é geralmente o último a deixar o nosso escritório em Gaza. Trabalhador dedicado, mas de fala mansa, ele, frequentemente, ficava até mais tarde, teclando nos laptops da redação. Ele tem a cabeça fria - imperturbável, enquanto outros como eu estão agitados a sua volta. Ele é um editor de imagens, integrante de nossa equipe local do serviço árabe da BBC que fazem o escritório daqui funcionar. Mas na quarta-feira, no meio do expediente - apenas cerca de uma hora após os recentes confrontos em Gaza terem começado, com a morte do líder militar do Hamas Ahmed al-Jabari, por Israel, Jehad saiu da ilha de edição gritando. Ele voou pelas escadas, com as mãos na cabeça e o rosto marcado pela angústia. Acabara de receber um telefonema de um amigo que disse que o Exército israelense havia bombardeado a sua casa e que Omar, seu bebê de 11 meses, havia sido morto. A maioria dos pais vão sempre dizer que seus filhos são lindos. Omar era um daqueles bebês que poderiam ser modelos fotográficos. De pé sobre o que sobrou de sua casa após o ataque, Jehad me mostrou uma foto em seu telefone celular. Era de um pequeno menino traquina, forte, de rosto redondo, vestido com um macaquinho de jeans, rindo, em um carrinho de bebê, com olhos escuros e uma franja de cabelo castanho na testa. 'Ele sabia apenas sorrir', disse-me Jehad, enquanto nós dois tentávamos segurar as lágrimas. 'Ele só sabia dizer duas palavras, baba (papai em árabe) e mama', continuou o pai. Também no celular de Jehad outra foto: um horrível pequeno cadáver. O rosto risonho de Omar havia sido queimado e o seu cabelo parecia ter derretido, fundindo ao seu couro cabeludo. 'Ele sabia apenas sorrir', diz Jehad sobre filho (Foto: Arquivo pessoal) A sogra de Jehad também foi morta no ataque. 'Ainda não encontramos a cabeça dela', diz. E o seu irmão morreu nesta segunda-feira, em decorrência das muitas queimaduras, após ficar uma semana no hospital. Jehad tem outro filho, Ali, de quatro anos de idade, que sofreu ferimentos leves. Ele pergunta constantemente onde está o seu irmão menor. Os onze membros da família Mashrawi viviam em um uma pequena casa de tijolos no distrito de Sabra, na cidade de Gaza. Cinco pessoas dormiam em um quarto. As camas agora só servem para ser usadas como lenha e os armários estavam cheios de trapos de roupas de crianças. Nas estantes da cozinha, havia fileiras de jarras de plástico derretidas cheias de ervas e temperos palestinos. As suas formas distorcidas pareciam o reflexo de um espelho convexo. E, no hall de entrada, um buraco com pouco mais de meio metro no teto frágil de metal, por onde o míssil entrou. Apesar das evidências apontarem para um ataque aéreo israelense, alguns blogs sugeriram que poderia ter ser um disparo acidental de um foguete do Hamas. Mas, naquele momento, segundo fontes militares israelenses, logo após o início da ofensiva de Israel, muitos morteiros foram disparados de Gaza, mas poucos foguetes. O poder de fogo de um morteiro não causaria o incêndio que parece ter engolido a casa de Jehad. Outros blogs sugeriram que o estrago causado na casa de Jehad não tinha as características da destruição causada pelos poderosos ataques israelenses, mas a BBC visitou outros locais bombardeados nesta semana, onde Israel reconheceu ter realizado os chamados "ataques cirúrgicos", e eles apresentavam um estrago muito semelhante. Como na casa de Jehad, houve poucos danos estruturais, mas as vítimas sofreram grandes queimaduras fatais. É mais provável que Omar tenha morrido em um dos mais de 20 bombardeios em Gaza que os militares israelense disseram ter feito no início da onda de ataques. Quarto da casa de Jehad ficou completamente destruído, após o ataque (Foto: Arquivo pessoal) Omar não era um terrorista. Claro que toda a morte de civis, em ambos os lados, é trágica. A ONU disse, após uma investigação preliminar, que 103 das 158 pessoas mortas eram civis. Destas, 30 eram crianças - doze com menos de 10 anos de idade. Mais de mil pessoas foram feridas. O porta-voz do governo israelense, Mark Regev, disse que cada morte ou ferimento de um não-combatente era uma tragédia, fruto de uma "falha operacional". Em Israel, também houve mortes: quatro civis e dois soldados. Muitas pessoas também foram feridas, mas o fato do serviço de ambulância ter informado também sobre pessoas que sofriam de ansiedade e ferimentos é uma indicação da natureza assimétrica deste conflito. Omar, O bebê de Jehad, foi provavelmente a primeira criança a morrer nesta mais recente onda de violência. Entre os últimos, está um menino de seis anos de idade, Abdul Rahman Naeem, que foi morto por um ataque israelense algumas horas antes do cessar-fogo ter sido anunciado. O pai de Abdul Rahman, doutor Majdi, é um dos principais médicos especialistas no hospital Shifa, na cidade de Gaza. Ele ficou sabendo da morte do filho quando foi atender a um paciente e descobriu que se tratava do seu próprio filho. Aparentemente, o médico Majdi não havia visto Abdul Rahman por dias. Ele estava muito ocupado cuidando dos feridos. Antes de sair da casa de Jehad e deixá-lo próximo a uma fogueira de um acampamento com outras vítimas dos ataques, eu perguntei, talvez estupidamente, se ele estava com raiva após a morte de Omar. "Muita, muita raiva", ele disse, com a sua mandíbula tensionada, enquanto olhava as fotos em seu celular. Isto, vindo de um homem que eu nem me lembro de um dia ter levantado a voz por estar irritado. Meus sentimentos, após uma semana, onde tive pouco tempo para pensar, estão com Jehad e sua família. Surpreendentemente e sem ser preciso, ele me disse que seus sentimentos também estavam comigo e com a equipe da BBC. 'Eu sinto muito, Jon, por ter saído e não poder ficar lá para te ajudar com o trabalho", disse ele, antes de nos abraçarmos e nos despedirmos." BBC Brasil

Semitismo

José Farhat | Política e sociedade Reflexões de um semita considerado antissemita 23/11/2012 | José Farhat Copyright © 2012 Icarabe.org Um dia, entre muitos outros dias e muitas outras vezes, fui chamado de antissemita. Antissemita, segundo Antônio Houaiss, é um termo relativo ao grupo étnico e linguístico ao qual se atribui Sem, filho de Noé (ver: Gênesis 5:31) como ancestral, e que compreende os hebreus, os assírios, os aramaicos, os fenícios e os árabes, ou membro desse grupo. A Terra de Sem (Sham em árabe, aramaico etc.) é toda a região da Síria transformada na atualidade, por obra dos ambiciosos impérios coloniais, desde o otomano, o britânico, o francês, o russo, o italiano et caterva até o atual estadunidense em: Síria propriamente dita, Líbano, Palestina (em vias de se libertar do jugo sionista), Jordânia, na região entre nós também conhecida como o Crescente Fértil. Houaiss tem sua origem na mesma aldeia de meus antepassados diretos, do sul de Beirute, e somos semitas, não importando, muito pelo contrário, ser descendente de árabes cristãos. Saladino, como é conhecido Salah ad-Din Yusuf ibn Ayyub (1137-1193) cujo nome era Yusuf (José) e Salah ad-Din era um epíteto que significa em árabe justiça da fé. Ele era kurdo sunita e se tornou, apoiado por suas vitórias militares e conquistas regionais, o primeiro sultão e fundador da dinastia ayyubida que dominou, durante os séculos XII e XIII, Egito, Síria, norte da Mesopotâmia, Hijaz (que é a região da costa leste do que é hoje a Arábia Saudita, margeando o Mar Vermelho), Iêmen, costa norte africana até as fronteiras do que hoje é a Tunísia, a maior parte do Reino de Jerusalém dos Cruzados francos e as terras além do rio Jordão. Saladino nos expulsou da região de Alepo, por sermos xiitas que ele detestava mais que aos Cruzados que combatia à frente dos exércitos que enfrentavam a tentativa europeia, liderada pela Igreja de Roma, para ampliar seus domínios e obter lucros econômicos, nada tendo a ver com a Religião. O termo ‘antissemita’ foi agredido e se tornou qualificativo daquele que fala a verdade contra as barbaridades que vêm sendo cometidas pelo estado patife de Israel, seus apoiadores e os atos de ambos; ou aquele que inversamente defende a Palestina e os palestinos e seus direitos sobre as terras que, no mínimo, foram um dia parte do Império Árabe Islâmico, no século VII, ou mais recentemente parte do Sultanato Ayyubida. Por estas razões, sou e me orgulho de ser ‘antissemita’, mas continuo em minha convicção inabalável de que a terra da Palestina é dos palestinos e de que eles foram e estão sendo privados de seu direito sobre sua terra e de possuir um estado soberano com fronteiras definidas e defensáveis. Sou ‘antissemita’, é claro, quando assisto à falta de vergonha do governo israelense repetindo a cada eleição legislativa, como se fosse novidade, uma troca de tiros diários por parte dos partidos da minúscula faixa de Ghazza contra os grileiros de com armamento pago pelo comparsa de sempre, o governo – e não o povo, dos Estados Unidos e os estados que este puxa como cães obedientes. Seja eu ou não ‘antissemita’, o fato é que posso provar que minha família e muitas outras vivem continua e pacificamente há mais de 800 anos na terra síria (hoje Síria, Líbano, Palestina ocupada e Jordânia) e meus detratores nem que antepassados seus viveram ininterruptamente na mesma terra durante os últimos duzentos anos sequer podem provar. Se o direito à terra é adquirido pela conquista e tentativa de dizimar os seus habitantes valer, absurdo dos absurdos, os sionistas deveriam então reconhecer o direito à Palestina, não somente aos palestinos que eles expulsaram de lá à força, mas também aos muitos e muitos povos que a conquistaram. Seria mais ou menos o caso dos kurdos que deveriam reivindicar a posse da Palestina com base no domínio lá exercido pelo sultanato ayyubida. Que tal a Santa Sé reivindicar o território onde em seu nome se estabeleceu o Reino de Jerusalém, entre outros resultantes das Cruzadas. As tentativas deles de me destratar com agressões verbais, chamando-me de ‘antissemita’ não irão apagar os crimes de Israel e não vão resolver os problemas que os aflige. Israel não precisa de inimigos, pois está se suicidando e sua derrota virá como resultado de suas ações criminosas. O resultado da auto derrota de Israel o tornará, tomando-se como verdade o que sacam contra mim, o maior ‘antissemita’ de todos os tempos. Artigos assinados são responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente a posição do ICArabe. Compartilhe e divulgue! José Farhat José Farhat Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É diretor de Relações Nacionais e Internacionais do Instituto da Cultura Árabe. http://josefarhat.wordpress.com (Icaarabe)

Poesia

Sobre ser por Larissa Caramel em 25 de set de 2012 às 19:34 Porque é mais fácil ser o que se deve. lonely+girl.jpg Muito queremos, pouco podemos, inventamos universos, permanecemos incapazes de compreender o que nos inspira e o que nos equilibra. Nunca estamos satisfeitos. Permitimos que outros digam o que devemos sentir. Tornamo-nos incapazes de chegar ao fundo de nossas reais e particulares motivações. Perdemos nossa sensibilidade. Passamos toda uma vida condicionados a adaptar quem somos ao que esperam que sejamos. Temos vontades fabricadas. Precisamos assumir riscos, conhecer nossos limites e reais capacidades. Sentirmo-nos vivos, e agradecer por cada tombo. Viver. Precisamos viver como jamais nos permitimos. Sem orgulho, vergonha, medo ou preocupação. Precisamos ser piegas, falar de amor, de amizade, precisamos de mais sorrisos, mais ingenuidade e confiança. Quanto mais dificultarmos, quando mais reclamarmos, sentados e apáticos, sem qualquer ação ou empatia, continuaremos amargos prisioneiros de toda pena e dó que sentimos de nós mesmos. larissacaramel Artigo da autoria de Larissa Caramel. Esta que vos escreve não possui compromisso algum com a verdade alheia.. Saiba como fazer parte da obvious.