sexta-feira, 29 de março de 2013

Obama e Israel


Jonathan Cook: “Só faltaram as bênçãos de Obama...”

Muito palavreado, promessas magras, ação zero contra o roubo de terras da Palestina pelos judeus

20/3/2013, Jonathan Cook, Counterpunch
“Will Israeli Settlers Receive Obama’s Blessing?”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jonathan Cook
Quem esperava que Barack Obama desembarcasse em Israel para forçar palestinos e israelenses a negociar, depois de quatro anos de impasse total no processo de paz, se decepcionará muito tristemente.

A viagem do presidente dos EUA que se inicia hoje talvez seja “histórica” – a primeira, de Obama, a Israel e aos territórios palestinos – mas o próprio Obama já cuidou de fazer todo o possível para esvaziar qualquer expectativa.

No fim de semana, líderes árabe-norte-americanos revelaram que Obama deixara bem claro que não apresentaria qualquer plano de paz, porque Israel já sinalizara que não tem interesse em acordo com os palestinos.

Dúvidas que por acaso persistissem sobre as intenções de Israel foram varridas, com o anúncio de um novo gabinete, rapidamente empossado antes da chegada de Obama. O novo governo faz o anterior, também de Benjamin Netanyahu – já considerado o mais linha-dura de toda a história de Israel – parecer quase moderado.

Colônias exclusivas para judeus em terras roubadas da Palestina
Ynet, um website de notícias muito popular em Israel, noticiou que os colonos saudaram o novo gabinete como a realização de seu “sonho erótico molhado”.


Zahava Gal-On, líder do partido de oposição Meretz, observou que o novo gabinete “muito fará pelos colonos e nada, absolutamente, pelo resto da sociedade israelense”.

O partido dos próprios colonos, “Lar Judeu”, foi premiado com três ministérios chaves – comércio e indústria, Jerusalém e moradia – além de controlar a comissão de finanças do Parlamento, o que basta para assegurar que as colônias exclusivas para judeus frutificarão durante seu mandato.

Não há sequer a mínima chance de o partido “Lar Judeu” aceitar congelamento de construções nas colônias semelhante ao que Obama propôs e no qual insistiu no primeiro mandato. Em vez disso, o partido acelerará o ritmo das construções e do desenvolvimento de indústrias além da Lista Verde, para tornar mais atraentes as colônias e promover a venda de moradias.

Uzi Landau, do partido de extrema direita “Israel nosso Lar”, de Avigdor Lieberman, ficou com o portfólio de turismo e rapidamente direcionará recursos para promover os muitos endereços bíblicos na Cisjordânia, para encorajar a visitação de israelenses e turistas.

O novo ministro da Defesa, que supervisiona a ocupação, é o único funcionário cuja posição que lhe dá competência para obstruir essa colonização “grátis-para-todos”; mas Moshe Yaalon, do partido Likud, ex-comandante militar, é conhecido pelo fervoroso apoio à ocupação e aos colonos.

É verdade que o grande partido, Yesh Atid, de Yair Lapid, centrista, também está representado. Mas sua influência, só diplomática, será posta sob rédea curta, porque seus cinco ministérios cuidarão de questões domésticas, bem-estar, saúde e ciência.

Moshe Yaalon
A única exceção, Shai Piron, novo Ministro da Educação, é rabino e colono, do qual só se deve esperar prosseguimento do atual programa de viagens escolares às colônias, continuando os bem-sucedidos esforços dos colonos para integrar-se na sociedade.

Longe de preparar-se para fazer concessões ao presidente dos EUA, Netanyahu só faz declarar seu apoio ao plano do partido Lar Judeu, para anexar novas vastas porções da Cisjordânia.

O único ministro com interesse pressuposto em conversações diplomáticas, mas quase exclusivamente orientado por seus esforços de autopromoção para permanecer popular na Casa Branca, é Tzipi Livni. Ela sabe bem o quanto são limitadas as oportunidades para negociar: o processo de paz só foi superficialmente mencionado no acordo da coalizão.

Obama, aparentemente consciente de que estará diante de governo ainda mais intransigente que o anterior, optou por não falar ao Parlamento. Em vez disso, discursará para platéia mais receptiva, de estudantes israelenses, em ação que funcionários dos EUA têm chamado de “uma ofensiva de charme”.

Devem-se esperar muito palavreado, promessas magras e ação zero contra a ocupação.

Yair Lapid
Sinal da relutância da Casa Branca, que foge da questão das colônias ilegais nos territórios ocupados, seus representantes na ONU recusaram-se a participar, na 2ª-feira, de um debate no Conselho de Direitos Humanos que apresentou as colônias como forma de “deplorável anexação” da Cisjordânia e de Jerusalém Leste.

A abordagem “não é comigo” de Obama satisfará seu eleitorado nos EUA. Pesquisa feita pela rede ABC-TV mostrou que o maior número de norte-americanos (55%) apoiam Israel, contra 5% que apóiam os palestinos. Maioria ainda maior, 70%, entende que os EUA devem deixar que os dois lados discutam e decidam o próprio futuro.

Israelenses comuns, o público que o presidente dos EUA quer atingir, tampouco veem com bons olhos qualquer envolvimento dos EUA. Outra pesquisa recente mostra que 53% preveem que Obama não protegerá interesses de Israel; e 80% entendem que com Obama, nos próximos quatro anos, não acontecerá qualquer avanço na questão com os palestinos. O estado de espírito dominante é de indiferença, mais de que de expectativa.

Shai Piron
Todas essas são boas razões para explicar por que nem Obama nem Netanyahu dedicarão grande atenção à questão palestina, durante a visita de três dias. Como o analista Daniel Levy observou: “Obama vem, sobretudo, para fazer declarações sobre os laços que unem EUA e Israel, não para falar da ocupação ilegal”.

É o que entendem também muitos palestinos, cada dia mais exasperados pelo obstrucionismo dos norte-americanos. Funcionários dos EUA que foram a Belém, na preparação da visita que Obama fará à cidade na 6ª-feira, foram colhidos em várias manifestações anti-Obama. E esperam-se novas manifestações hoje, em Ramallah.

Outros palestinos protestam hoje, montando uma nova comunidade de barracas em terra palestina ocupada próxima de Jerusalém. Inúmeros outros acampamentos desse tipo, montados antes, foram violentamente demolidos por soldados israelenses.

Os organizadores esperam chamar a atenção para a hipocrisia dos EUA no apoio à ocupação israelense: colonos judeus são autorizados a construir, com apoio do governo de Israel, em territórios ocupados – o que é flagrante violação da lei internacional; e os palestinos são impedidos por soldados israelenses de desenvolver o próprio território, o mesmo que a comunidade internacional já reconheceu como estado palestino, com representantes na ONU.

Barack Obama, obedientemente, aceita as ordens de "Bibi" Netanyahu
A mensagem escrita nas entrelinhas dessa visita de Obama é que o governo de Netanyahu tem carta branca para fazer avançar sua agenda de violências, sem nada temer de Washington, além, no máximo, de algum protesto simbólico.

O novo gabinete israelense não perdeu tempo para definir suas prioridades legislativas. A primeira nova lei já anunciada é uma “lei básica” que mudará a definição oficial do Estado, de modo a que os aspectos “judeus” sobreponham-se aos elementos “democráticos” – movimento que o jornal Haaretz qualificou de “insano”.

Dentre outras determinações de lei, há uma que limita a aplicação de fundos públicos, que passam a só poder ser aplicados em novas comunidades de judeus. É um arranjo cínico, com o qual Netanyahu visa a aplacar um crescente movimento de protesto em Telavive, que começa a exigir moradia a preços mais acessíveis para todos.

Oferecendo terra a preço subsidiado para novas colônias na Cisjordânia e em Jerusalém Leste, Netanyahu consegue expandir as colônias, rouba mais terra dos palestinos, cala os protestos e desestabiliza a oposição. Só precisava, de fato, das bênçãos de Obama.
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Postado por Castor Filho às 14:50:00
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(Redecastor)

Venezuela

Venezuela parte agora para eleger Nicolás Maduro
Bonachão, orador cativante, verborrágico, brincalhão e energético, Nicolás Maduro, o sucessor designado, não poderia ser um melhor alterego de Chávez. Ele dá a impressão de que não dorme há 20 dias, porque está em todas as reuniões de cúpula e manifestações populares, que varam pela madrugada, desde que se agravou o estado de saúde do presidente. Por FC Leite Filho

FC Leite Filho


Caracas - Assim como na política, Hugo Chávez conseguiu unir a família. A carta de despedida da filha Maria Gabriela - "...Tiveste que voar e ser livre... Voa, voa livre Gigante, voa alto e sopra forte como os ventos dos furacões"... - ilustra o espírito de coesão de uma família de origem humilde, que poderia estar às turras para repartir o butim. O mesmo pode-se dizer dos militares, entre os quais não se viu uma só voz dicordante com relação aos destinos a tomar para preencher o imenso vazio deixado pela morte do comandante. Outra curiosidade é que, passados onze dias do desenlace presidencial, não se registrou uma rusga sequer no comando civil, que ele escolheu a dedo, a começar pelo agora presidente encarregado.

Bonachão, orador cativante, verborrágico, brincalhão e energético, Nicolás Maduro, o sucessor designado, não poderia ser um melhor alterego de Chávez. Ele dá a impressão de que não dorme há 20 dias, porque está em todas as reuniões de cúpula e manifestações populares, que varam pela madrugada, desde que se agravou o estado de saúde do presidente. Aos 50 anos, 1,99 de altura e parecendo um pouco mais delgado do que lhe mostram as fotografias, o candidato governista não deixa dúvida quanto à continuidade da obra bolivariana, como demonstrou em várias oportunidades em que teve de agir diante de provocações e assédios do poder econômico.

Fui vê-lo, pessoalmente, na quarta-feira, 13 de março, durante a inauguração da IX Feira Internacional do Livro (Filven), um dos grandes acontecimentos culturais da América Latina, no complexo do Teatro Teresa Carreño, em Caracas. Chegou com mais de três horas de atraso, não por negligência de horário, mas porque os serviços de inteligência haviam descoberto um plano para assassinar o candidato opositor Henrique Capriles Radonski, por parte da opositores extremistas, aparentemente obedecendo a ordens emanadas de Miami. Maduro disse que havia destacado, de comum acordo com a Direção Político-Militar do país, novo órgão surgido com o desenlace presidencial, um esquema de segurança à disposição de Capriles e da equipe deste.

Quem é Maduro
Com aparência descansada, o rosto redondo escanhoado e envergando uma túnica verde musgo , Maduro ouviu pacientemente os discursos de cunho literário da presidente da feira, do ministro da Cultura, do escritor homenageado Gustavo Pereira, e uma breve dissertação sobre dois livros. Quando chegou sua vez, falou quase uma hora, em que se defendeu das acusações de homofóbico, que lhe lançara Capriles na véspera. Disse que só tinha apresentado sua mulher, Cília Flores, a Advogada Geral do Governo, fato que o candidato tinha interpretado como uma insinuação às alegações de que o respresentante oposicioista, solteiro e bonitão de 40 anos, seria gay.

Na verdade, Maduro, em alocução anterior, havia dito, na apresentação de Cília, os filhos e os netos, no lançamento de sua candidatura, que "gostava de mulheres", uma alfinetada, quw logicamente não poderia passar despercebida. O candidato governista faz questão de lembrar sua infância pobre, numa casa de taipa e chão de barro, a mesma de Cília, que, antes de licenciar-se em Direito, teve a casa invadida várias vezes pela polícia, na busca de marginais do morro em que residia. Por fim, Capriles, que estava acompanhado da mulher, disse que Cília não será primeira dama, quando for eleito, mas a primeira combatente entre as mulheres para defender o legao de Hugo Chávez. No discurso da Filven, Nicolas Maduro ainda dialogou com vários dos presentes, que faziam questão de manifestar-se, e à saída cumprimentou e tirou fotografias.

Quanto a Henrique Capriles, este começou mal a campanha, lançando acusações aparentemente sem nexo contra a família do presidente, que teria escondido a gravidade de sua doença e mesmo sua morte, que teria ocorrido antes do regresso definitivo de Cuba à Venezuela. Ato de provocação deliberada para gerar o pânico ou desespero diante de uma situação eleitoral francamente desfavorável? O fato é que as declarações provocaram forte indignação, mesmo entre os correligionários oposicionistas e Capriles sentiu-se obrigado a retratar-se pedir desculpas.

Entre as reações à postura do oposicionista, destaca-se a de Maria Gabriela Chávez, que rápida como uma leoa, saiu de sua discrição e recolhimento para dizer: "Não joguem mais com a dor de um povo e uma família, que está devastada diante desta dura realidade. Aos senhores desta oposição doente e especialmente ao Sr. Capriles, digo o seguinte: Sempre se disse que a política é suja. Senhores, pelo bem da pátria, os exorto a fazer política e a não ser tão sujos".

Militarismo
O brasileiro que visita Caracas, a princípio, estranha a devoção que os venezuelanos tem pelos militares. Eles são aplaudidos na rua, exaltados nos dicursos e muito queridos, sobretudo por sua relativa juventude, particularmente entre os soldados, quase imberbes. Mas há uma explicação: os militares forjados por Hugo Chávez, ao longo de sua peregrinação militar, desde que entrou no Exército há 40 anos, tornaram-se homens próximos do povo, porque se distanciavam dos políticos que, na época, envolviam-se na mais desbragada corrupção, que fazia da rica Venezuela em petróleo, um país com 70% de miséria.

Junto com o tenente paraquedista, os militares venezuelanos, que antes haviam recebido, como os brasileiros, as noções castrenses de segurança nacional e guerra psicológica contra o comunismo passadas pelos Estados Unidos, construíram estradas, escolas e casas populares, tornaram-se professores e ajudaram decididamente nas calamidades, muito frequentes nessas zonas castigadas por furacões e tempestades, como as tormentas no estado de Vargas, no início do governo Chávez, quando morreram cerca de 10 mil pessoas.

Por isso eles são tão queridos e objeto de muitas homenagens. Hugo Chávez, que se confessava um "humilde soldado, filho de Bolívar", fez questão que seu corpo fosse velado, não no Miraflores, o palácio do governo, como seria normal a qualquer chefe de estado, mas na Academia Militar, onde ele diz ter feito sua opção pela vida, e enterrado no Quartel da Montanha, hoje Museu da Revolução, guarnição militar que ele quis tomar com seu frustrado levante de 4 de Fevereiro de 1992.

O 4F, hoje, é simbolo de resistência e unidade paraeste país que continua sonhando alto e fazendo muito por seus cidadãos, os latino-americanos e todos os povos na luta pela libertação e soberania, como afiançou Evo Morales, o presidente da Bolívia que estava presente na última homenagem prestada ontem, 15 de fevereiro, ao comandante da Revolução Bolivariana.

(Carta Maior)

Torturas

   
Circo da Notícia
ANOS DE CHUMBO
Quem paga, manda

Por Carlos Brickmann em 26/03/2013 na edição 739

Na época da ditadura militar, muito se falava dos empresários que financiavam a tortura organizada – promovida por entidades como a Operação Bandeirantes (Oban), que se transformaria em DOI-Codi. Parte das verbas destinadas à guerra clandestina e à tortura tinha como origem o desvio de recursos orçamentários; mas o dinheiro grosso, que pagava automóveis descaracterizados, viagens pelo Brasil e a países vizinhos, esquemas para livrar-se de corpos, compra de informações, compra de delações, infiltração, este não tinha como ser oficial. Dava-se como certo que o empresário Henning Albert Boilesen, que seria morto numa emboscada, era um dos grandes financiadores da repressão clandestina; mas outros certamente atuariam na mesma área, já que apenas um Boilesen não teria condições de sustentar um orçamento de tamanho porte.

Comenta-se que muitos empresários colaboraram por motivos ideológicos: queriam evitar a possibilidade de que movimentos apoiados por Cuba, China e União Soviética chegassem ao poder. Outros, também se comenta, foram vítimas de chantagem. E alguns (há muitos depoimentos que citam esse tipo de acontecimento, embora os torturados, até o ponto em que este colunista saiba, não tenham feito depoimentos formais sobre isso) usaram sua proximidade com a repressão para obter favores oficiais e ampliar suas empresas, criando dificuldades para as concorrentes.

Pois bem: discute-se quem matou e quem foi morto, discute-se onde estão os corpos, discute-se os desaparecidos, discute-se a possibilidade de, entre os desaparecidos, alguns terem mudado de lado, pagos ou não, e recebido estrutura e recursos para mudar de aparência, de vida e até de país. Quem pagou?

A Comissão da Verdade ainda não tocou neste assunto. O pedetista gaúcho Carlos Araújo, ex-marido da presidente Dilma Rousseff, cobrou essa investigação; e relatou à própria Comissão sua experiência pessoal, em que empresários com frequência assistiram à tortura, ou a incentivaram. Há pelo menos um caso, narrado a este jornalista, em que um empresário que o torturado não conhecia assistiu à tortura e se masturbou, comentando que há algum tempo não chegava ao orgasmo sem assistir ao sofrimento de alguém.

Quem? Quantos? Por quê? A resposta é complicadíssima: basta acompanhar os casos de corrupção que foram julgados para apurar que o intermediário pagou, que o corrompido recebeu. Na hora de descobrir e julgar quem deu o dinheiro ao intermediário faz-se um ruidoso silêncio. Um bom exemplo é o de PC Farias, condenado por intermediar subornos, e o de subornados por ele que também foram atingidos.

É uma especificidade brasileira: há um intermediário, há vários receptores do dinheiro, e não há quem tenha desembolsado a quantia entregue ao intermediário.

Tudo bem, faz muito tempo. Provavelmente a maior parte dos envolvidos já morreu. Se alguém estiver vivo e ficar provado que financiou a tortura, estará coberto pela Lei de Anistia e não sofrerá punição. Inútil procurar? Talvez. Mas, se tanta gente e tantos recursos são usados para descobrir o que realmente houve, deve haver um esforço para saber quem financiou todo o processo.

 (Observ. da Imprensa)

Marias

 Ouviu falar destas Marias?



Texto de Silvana Barbara.

Nesta semana da Páscoa é muito comum a atenção maior dada a Jesus Cristo, o protagonista, por assim dizer, da chamada Semana Santa. São nestes dias que os(as) cristãos(ãs) se lembram com mais veemência sobre sua vida e morte. Porém, existiram personagens muito importantes que fizeram parte da vida de Cristo, e que não recebem a devida alusão nesta época. Tratam-se das mulheres que participaram da história de Jesus, as quais os Evangelhos Canônicos encobrem o que elas realmente foram e como contribuíram para divulgar a voz feminina, nos tempos em que as mulheres eram ainda mais inferiorizadas. Este post irá tratar das duas mulheres que fizeram parte da vida de Cristo com mais aproximidade, as quais são Maria (sua mãe) e Maria Madalena.

Diferente dos Evangelhos Canônicos, que formam a base da Igreja Romana, os Evangelhos Apócrifos ou Gnósticos apresentam conteúdo e ensinamentos mais voltados para a importância do conhecimento e o lado humanizado das pessoas, inclusive de Jesus Cristo, que é apresentado como um homem mais revolucionário. São também nesta perspectiva que aparecem as duas mulheres mencionadas. Estas são dotadas de uma importante liderança, o que causava até mesmo uma certa inveja vinda dos apóstolos de Cristo.

Os Evangelhos Apócrifos são livros que não fazem parte do Cânon da Bíblia, mas que apareceram em paralelo com estas Escrituras. Foram ocultados pela Igreja Romana por apresentarem ideais gnósticos, considerados como hereges. As Escrituras Apócrifas foram encontradas no ano de 1945, em Nag Hamadi, contando mais de 1950 anos.

Serão aqui destacadas algumas características de Maria, a mãe de Jesus, e Maria Madalena, baseadas na leitura do conteúdo dos Apócrifos que relatam sobre a vida destas mulheres.
Keisha Castle-Hughes no filme "The Nativity History" (2006).

Keisha Castle-Hughes no filme “The Nativity History” (2006).

Maria (a mãe de Jesus)

Deixando de lado o fato de Maria, a mãe de Jesus Cristo, ser uma mulher lutadora, os Evangelhos Canônicos a apresentam como uma passiva mãe, que ficava observando as ações de seu filho apenas como auxiliadora. Mas, pelos Apócrifos, Maria teve uma presença muito mais importante na vida de Cristo.

Maria exercia liderança na época, até mesmo sobre os apóstolos de Cristo. Era muito admirada e respeitada no templo pelos sacerdotes, algo que pode ser considerado bastante evoluído para aqueles tempos.

Desde muito jovem, Maria foi uma mulher à frente de seu tempo. Rejeitava casamentos, estudava (inclusive a Torá, livro sobre leis e conduta). Ela se opunha aos padrões e modo de vida imposto às mulheres pela sociedade. Além de estudar muito, era questionadora e não aceitava tudo que lhe diziam sem fazer alguma crítica. Vale lembrar que, se ainda hoje o sistema não aceita uma mulher à frente das decisões, na época de Maria era quase impossível, diante da soberania existente dos homens cristãos. Pelos Evangelhos Apócrifos, só poderia ser esta mulher determinada, que enfrentou muitos preconceitos, a mãe do homem que iria revolucionar o mundo.

Maria competia a liderança com homens, mas a subestimação a ela infiltrada pelos Evangelhos Canônicos, a coloca em um papel de apenas intercessora.

A relação de Maria com Jesus também é pouca explorada na Bíblia de Cânon. Neste livro, esta mulher é exaltada como a mãe de todos os cristãos, mas mostra poucas conversas entre mãe e filho. Alguns filmes sobre a vida de Cristo apresentam Maria como uma mulher que sentia a falta de seu filho ao seu lado, pois ele vivia na peregrinação. Por vezes, ela aparece até mesmo temerosa com o que possa acontecer com ele, como é o caso do filme “Maria, Filha de seu Filho”.

Já nos Evangelhos Apócrifos, há mais diálogos entre mãe e filho, dando inclusive a entender que eles se entendiam muito bem. Nestes Evangelhos, Jesus escuta mais sua mãe, revelando a importância dela em sua vida. Nos Canônicos, Cristo a trata com inferioridade, pois, na condição de mulher, não entende das ações para propagar as chamadas “Boas Novas”. Também se destaca a imagem de Maria como passiva e submissa, propagada pela Igreja.

Nos livros Apócrifos, a educação de Jesus era de responsabilidade somente de Maria. José, seu marido, não tinha a liderança, e era ela que tomava as rédeas.

A Maria, mulher líder e lutadora, precisa ser mais divulgada nas religiões. Infelizmente, o machismo da Igreja baniu da história esta imagem de uma mulher forte, que se igualava aos homens e se destacava na liderança.

Maria Madalena

Maria Madalena, pelos Apócrifos, foi a mulher que Cristo amou tanto a ponto de a ela informar sobre fatos e conhecimentos não revelados aos apóstolos.

Madalena falava aos apóstolos, com liderança, o que Jesus ocultava a eles. Por inveja, e se sentindo inferiores por Cristo fazer importantes revelações a uma mulher, os apóstolos duvidavam das palavras de Madalena. Em trechos de seus Evangelhos, André e Pedro demonstram repúdio ao fato de Jesus, segundo eles, confiar mais em uma mulher no que neles.


Além da mulher muito amada por Cristo, pelos Apócrifos, Maria Madalena também foi uma liderança feminina, fato que ameaçava os apóstolos. Isto demonstra que Cristo valorizava a imagem das mulheres como lutadoras e líderes, diferente de como é mostrado na Bíblia. E mais, os Apócrifos até mesmo questionam o fato de que Madalena foi realmente uma prostituta. Sabe-se que muitas mulheres, por sua independência e a maneira de como não se submetiam aos homens, eram consideradas prostitutas para que fossem esquecidas da história.

Na relação de Madalena com Jesus, nas Escrituras Apócrifas, ele é mostrado como mais humano, mais homem e menos santo, no sentido literal da palavra, o que a Igreja geralmente renega.

Madalena não era somente a companheira que escutava o que Jesus tinha a dizer. Ela acompanhava-o em suas andanças, ajudando a propagar uma nova revolução, as “Boas Novas”. Segundo consta nos Apócrifos, Pedro era o apóstolo que mais se incomodava com a presença de Maria Madalena entre os homens que seguiam a Cristo. Sua intolerância a ela era tanta que chegou a pedir a Cristo para expulsá-la do grupo. Para Pedro, o fato daquela mulher tomar a palavra e não deixar espaço para os apóstolos, era um atrapalho. Madalena tinha muitos conhecimentos, sendo que estes formam a base do Gnosticismo, seita muito combatida pela Igreja.

Outro fato muito importante sobre Maria Madalena, é o de que na história ela não está relacionada com nenhum homem, ou seja, não é esposa, irmã ou filha. Trata-se de uma independência bastante curiosa para uma época em que dominava a supremacia masculina.

Madalena não é citada em livros importantes da Bíblia, como os Atos dos Apóstolos e o Apocalipse. Isto indica que a presença de uma liderança feminina não era aceitável naquela sociedade patriarcal. Jesus Cristo falava com Madalena sobre assuntos que, segundo ele mesmo diz, os apóstolos não entenderiam. Desta forma, tornou-se mais “viável” para o cristianismo apagar a imagem e existência de Madalena. Afinal, era um absurdo uma mulher ter mais espaço do que os homens. Então ela simplesmente desapareceu.

Ao contrário do que se observa na Bíblia do Cânon, a que a Igreja permitiu divulgar e está nos lares da maioria das famílias brasileiras, os Escritos Apócrifos reservam um espaço feminino em suas histórias. Muitas mulheres que se destacaram nos chamados Velho e Novo Testamento, caíram no ostracismo, pois não é interessante para a Igreja mostrar mulheres determinadas, lutadoras, que faziam questão de mostrar que estavam ali em igualdade com os homens. Inclusive muitas foram líderes muito mais eficazes, mas que ficaram no esquecimento.

O fato é que não se evolui. Os Evangelhos Apócrifos deveriam estar nas religiões que pregam o cristianismo, serem comentados, analisados e debatidos nas missas, incorporados em grupos de jovens e de orações, e divulgado amplamente. Mas isto não acontece porque as forças adquiridas pelas mulheres incomodam e, em religiões onde elas não ocupam determinadas posições, seria um risco causar uma perigosa revolução feminina e desbancar o patriarcado ainda existente.

* As referências sobre os Evangelhos Apócrifos são dos livros: Evangelhos Apócrifos (2007) e Apócrifos e Pseudo-Epígrafes (2004).

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quarta-feira, 27 de março de 2013

Israel

Robert Fisk: Os olhos do mundo são adestrados para não ver Israel, mas...

O que haverá, afinal, que valha a pena ver?

21/3/2013, Robert Fisk, The Independent, UK
“World Focus: The eyes of the world are trained on Israel. But will there be anything to see?”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Fisk
Será o quê? Tragédia, farsa ou turismo? Obama é turista, diz o Davy Crockett da vanguarda do jornalismo norte-americano e rei-filósofo do New York Times (codinome T. Friedman, Esq.). Mas, não, Friedman errou. O vencedor do Prêmio Nobel de Belos Discursos terá de ser, no mínimo, um super-turista – com 10 mil guias turísticos israelenses e norte-americanos armados a cercá-lo, só em Jerusalém. O caso é que, Sr. Presidente... há o muro. Não. É O Muro. Falo daquela paliçada otomana de cada lado da Porta de Damasco.

Mas, claro: se realmente chegar à Gruta da Manjedoura, Obama não terá como não ver – será que fechará os olhos? Nem uma espiadinha? – o muro real (codinome: barreira/cerca de segurança). É verdade: Berlusconi declarou que não viu. Mas até Mussolini perceberia, pelo menos o gigantismo fascista daquele muro. É. As coisas são o que são. O presidente excepcional deve “engajar” o público jovem. Por sobre as cabeças dos donos do mundo, levará A Palavra aos jovens. O caso é que os jovens, da variedade israelense e palestina, não dão sinal de confiar muito naquela conversa.

Barack Obama em Israel
Mas Obama dá dó. Que outro estadista, antes de viajar a Israel, reuniria grupo seleto de líderes da comunidade judaica dos EUA e prometeria – de fato, insistiria, ansioso por convencer – que não tomaria iniciativa alguma, que não se preocupassem?

Todos lembramos a Humilhação de Santo Barack. Quando falou das fronteiras de 1967 na Casa Branca, e Netanyahu interrompeu-o e lhe disse que não, não. Que esquecesse. E Obama lá ficou, sentado, miserabilente [1], parecendo um trapo vivo, triturado pela Britadeira Benjamin. Fim de papo, então, sobre fronteiras de 1967 e Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU. Mas, afinal... Obama ouve os conselhos do conselheiro que se revelou o maior fiasco da política externa dos EUA desde Joseph Kennedy: o muito aclamado zero à esquerda, inutilidade além de qualquer esperança, Dennis Ross.

Teremos de tolerar os clichês de sempre, é claro, tanto de Santo Barack como dos sapos do brejo da imprensa. Esse infame processo de paz tem de ser posto “de volta nos trilhos”, ou talvez ouçamos falar do “mapa do caminho” – o qual, parece, jamais é posto “de volta nos trilhos”, porque trem não anda em tapetes vermelhos de pistas de aeroportos. E não esqueçam o Irã, sobre o qual nosso herói dirá a todos os israelenses que vir que “todas as opções estão sobre a mesa”. E por que, santo deus, “sobre a mesa”?! É claro que as opções estão em bunkers, talvez, até, nos não mencionáveis, indizíveis silos nos quais a Britadeira Benjamin mantém trancados seus mais de 250 mísseis nucleares. Mas, aí, alguém nos lembrará de todos os Macbeths salpicados pela região. Não o degolador de Riad, é claro, porque, esse, é amigo da gente, mas, com certeza o doido de Teerã; ou Mursi, aquela coruja; ou o outro, no palácio presidencial em Damasco; e mais aquele bando de salafistas Calibãs – ou serão Talibãs? – na espreita para destruírem a civilização ocidental (da qual Israel faz parte, ou já não faz?).


Oh yes, vai ser briga de foice no escuro, se Obama não prestar atenção. Os israelenses esconderam os palestinos bem longe, atrás de O Muro; e o único líder palestino histórico (esqueçam Abbas) que Obama verá será o velho Grande Mufti, sentado ao lado de Hitler numa fotografia no memorial do Holocausto, como se al-Husseini tivesse contagiado, com nazismo, todos os palestinos, para sempre.

E Blair? Será que dará as caras? Deus nos proteja de Blair! Já corre sangue de Cristo demais no Oriente Médio, sem aquele Dr. Fausto por lá! E fica-se a conjecturar se alguém se atreverá a dizer que ali vivem palestinos, sob ocupação de israelenses incondicionalmente apoiados por Santo Barack e seus escudeiros. Mas talvez ele cite o “processo de paz”, talvez tente. O “redeslocamento” da política externa dos EUA. É. Como o “redeslocamento” de Napoleão, fugindo de Moscou; ou como o “redeslocamento” dos britânicos, de Dunquerque. Fica-se com pena dos palestinos. E dos israelenses.


Nota dos tradutores
[1]  “Orig. [e Obama lá ficou, sentado], as mimsy as a borogrove. São duas palavras inventadas por Lewis Carroll, que aparecem em Alice através do espelho, tão intraduzíveis que sempre se pode inventar mais uma tradução. Por exemplo, “Jabberwocky”, outra das palavras inventadas por Carrol, para designar um monstro esquisitíssimo, foi traduzida, por Augusto de Campos, ao português, como “Jaguadarte”. Campos explicou sua tradução: “o jaguadarte é mistura de “jaguar” e “espadarte” com “arte”. Gostei, porque ficou com certo ar de monstro brasileiro”.
Sem o talento de poeta de Campos, fizemos o que pudemos. Se mimsy, como explica Carrol, é combinação de miserable e flimsy [“miserável” e “transparente”], inventamos “miserabilente”.
O borogove aparece definido por Humpty Dumpty como “um pássaro magro e caído, com penas espetadas para todos os lados – parecido com um trapo vivo”. Usamos, para borogove a segunda parte da definição de Humpty Dumpty, visualmente muito eloqüente.
Postado por Castor Filho às 23:18:00
(Rede Castor)

Pornografia

Pornografia
Ricardo de Mattos

   
       


Opinião sobre a Pornografia, por Wislawa Szymborska*


Fonte: http://readanywhere.tumblr.com

Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
Num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.
O topete de chamar as coisas pelos nomes,
A dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
A perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,
O tatear indecente dos temas delicados,
A desova das ideias - é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite
Se juntam aos pares, triângulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.
Seus olhos brilham, as faces queimam.
Um amigo desvirtua o outro.
Filhas depravadas degeneram o pai.
O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

Preferem o sabor de outros frutos
Da árvore proibida do conhecimento
Do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
Toda essa pornografia na verdade simplória.
Os livros que divertem não têm figuras.
A única variedade são certas frases
Marcadas com a unha ou com lápis.

É chocante em que posições
Com que escandalosa simplicidade
Um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece.

Durante esses encontros só o chá ferve.
As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.
Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.
Dessa maneira um pé toca o chão,
O outro balança livremente no ar.
Só de vez em quando alguém se levanta,
Se aproxima da janela
E pela fresta da cortina
Espia a rua.

(*) poetisa polonesa, em Poemas, página 85.
(Digest. Cultural)

Papa

É possível um exercício do papado diferente
O importante é que o papa Francisco seja um João XXIII do Terceiro Mundo, um “Papa buono”. Só assim poderá resgatar a credibilidade perdida e ser um luzeiro de espiritualidade e de esperança para todos. Por Leonardo Boff*

Leonardo Boff*


A grave crise moral que atravessa todo o corpo institucional da Igreja fez com que o Conclave elegesse alguém que tenha autoridade e coragem para fazer profundas reformas na Cúria romana e inaugurar uma forma de exercício do poder papal que seja mais conforme ao espírito de Jesus e adequado à nova consciência da humanidade. Francisco é o seu nome.

A figura do papa é talvez o maior símbolo do sagrado no mundo ocidental. As sociedades que pela secularização exilaram o sagrado, a falta de líderes referenciais e a nostalgia da figura do pai como aquele que orienta, cria confiança e mostra caminhos, concentraram na figura do papa estes ancestrais anseios humanos que podiam ser lidos nos rostos dos fiéis na Praça de São Pedro. Por isso é importante analisar o tipo de exercício de poder que o papa Francisco vai exercer. Disse em sua primeira fala que vai “presidir na caridade” e não como os anteriores com poder judicial sobre todas as igrejas.

Para os cristãos é irrenunciável o ministério de Pedro como aquele deve “confirmar os irmãos e as irmãs na fé” segundo o mandato do Mestre. Roma, onde estão sepultados Pedro e Paulo, foi desde os primórdios referência de unidade, de ortodoxia e de zelo pelas demais igrejas.

Esta perspectiva é acolhida também pelas demais igrejas não católicas. A questão toda é a forma como se exerce tal função. O papa Leão Magno (440-461), no vazio do poder imperial, teve que assumir a governança de Roma. Tomou o título de papa e de sumo pontífice, que eram do imperador, incorporou o estilo imperial de poder, monárquico, absoluto e centralizado, com seus símbolos, as vestimentas e o estilo palaciano. Os textos atinentes a Pedro que em Jesus tinham um sentido de serviço e de primazia do amor foram interpretados como estrito poder jurídico. Tudo culminou com Gregório VII, que com o seu “Dictatus papae” (a ditadura do papa) arrogou para si os dois poderes, o religioso e o secular. Surgiu a grande Instituição Total, obstáculo ao caminho da liberdade dos cristãos e da sociedade.

A partir daí o papa emerge como um monarca absoluto com a plenitude de todos os poderes como o cânon 331 bem o expressa. Levanta a pretensão de subordinar ao seu poder toda as demais igrejas. Esse exercício absolutista foi sempre questionado, especialmente, pelos Reformadores. Mas nunca foi amenizado. Como reconhecia João Paulo II, este estilo de exercer a função de Pedro é o maior obstáculo ao ecumenismo e à aceitação pelos cristãos que vem da cultura moderna dos direitos e da democracia. Para suprir esta falta, os últimos dois papas organizaram uma espetacularização da fé, com viagens e eventos massivos, como a dos jovens a se realizar no Rio.

Esta forma monárquica e absolutista representa um desvio da intenção originária de Jesus, e agora com Francisco deve ser repensada à luz da intenção de Jesus. Será um papado pastoral e de serviço à caridade e à unidade e não mais um papado do poder jurídico absolutista. O Concílio Vaticano II estabeleceu os instrumentos para uma reformulação no governo da Igreja: o sínodo dos bispos, esvaziado e feito até agora apenas consultivo, quando foi pensado para ser deliberativo. Criar-se-ia um órgão executivo que com o papa governaria a Igreja. Criou-se pelo Concílio a colegialidade dos bispos, quer dizer, as conferências continentais e nacionais ganhariam mais autonomia para permitir um enraizamento da fé nas culturais locais, sempre em comunhão com Roma.

Representantes do Povo de Deus, cardeais, bispos, clero e leigos e até mulheres ajudariam a eleger um papa para toda a cristandade. Faz-se urgente uma reforma da Cúria na linha da descentralização. Certamente o que fará o papa Francisco. Por que o Secretariado para as Religiões não Cristãs não pudesse funcionar na Ásia? O Dicastério da unidade dos cristãos em Genebra, perto do Conselho Mundial de Igrejas? O das missões, em alguma cidade da África? O dos direitos humanos e justiça, na América Latina?

A Igreja Católica poderia se transformar numa instância não autoritária de valores universais, do cuidado pela Terra e pela vida sob grave ameaça, contra a cultura do consumo, em favor de uma sobriedade condividida, enfatizando a solidariedade e a cooperação a partir dos últimos contra a exacerbação da concorrência. A questão central não é mais a Igreja mas a Humanidade e a civilização que podem desparecer. Como a Igreja ajuda em sua preservação? Tudo isso é possível e realizável, sem renunciar em nada à substância da fé cristã. Importa que o papa Francisco seja um João XXIII do Terceiro Mundo, um “Papa buono”. Só assim poderá resgatar a credibilidade perdida e ser um luzeiro de espiritualidade e de esperança para todos.

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.

(Carta Maior)