quarta-feira, 5 de junho de 2013

Guantánamo

CARTA ABERTA DOS PRISIONEIROS DE GUANTÁNAMO EM GREVE DE FOME
Centro de Torturas de Guantánamo


30/5/2013, The Guardian, UK
“Guantánamo Bay prison detainees protest – open letter full text”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Aos médicos militares da Base Naval, Baía de Guantánamo

Senhores médicos:

Não quero morrer, mas estou preparado para o risco de vir a morrer, porque estou em ato de protesto contra o fato de permanecer preso por mais de uma década, sem julgamento, submetido a tratamento desumano e degradante, sem acesso à justiça.

Não tenho outro meio para fazer ouvir essa mensagem. Os médicos sabem que as autoridades tiraram de mim todos os meios e objetos pelos quais pudesse me comunicar.

Por essa razão, respeitosamente peço que me seja garantida a assistência por profissionais médicos independentes, que sejam autorizados a entrar em Guantánamo para me tratar, e que lhes seja dado pleno acesso aos meus registros médicos, para que possam determinar o melhor tratamento para o meu caso.

Os senhores médicos militares aos quais tenho acesso dizem que cumprem seu dever médico de preservar minha vida. Essa atitude vai de encontro ao meu desejo expresso de não me alimentar.

Como os senhores devem saber, sou competente para tomar decisão própria sobre tratamento médico para mim mesmo. Quando tento recusar o tratamento que os senhores trazem, os senhores o impõem, às vezes com violência. Por essas razões, não tenho dúvidas de que os senhores violam o compromisso ético profissional, como a Associação Médica Norte-Americana e a Associação Médica Mundial já declararam bem explicitamente.

Minha decisão de fazer greve de fome e de manter-me em estado de subnutrição por mais de cem dias não foi tomada levianamente. Faço o que faço, porque não encontrei outro meio para chamar a atenção do mundo exterior para o que acontece aqui. A resposta que os senhores médicos dão à minha decisão cuidadosamente refletida não permite que se conclua, logicamente, que os senhores estejam tentando salvar a minha vida. Nenhuma de suas ações ao longo já de vários meses comprova essa inferência.

Para aqueles de nós que têm sido alimentados contra nossa vontade, o processo de ter um tubo repetidas vezes forçado para dentro de nossas narinas ou pela garganta até o estômago, para que assim sejamos mantidos em estado de seminutrição, é extremamente doloroso, e as condições sob as quais se executam esses procedimentos é abusiva. Se os senhores realmente tivessem em vista meus melhores interesses, de receber tratamento médico realmente recomendado, seria indispensável que tivessem falado comigo como ser humano, sobre minhas escolhas e decisões, em vez de me impor tratamento, de modo tal que se sinto como se estivesse sendo castigado por alguma coisa.

Os senhores devem saber que os excessos que têm cometido relacionados à minha participação no movimento coletivo de greve de fome de vários outros prisioneiros já foram condenados por mais de uma alta autoridade, dentre as a ONU. O Relator Especial da ONU para Assuntos de Saúde declarou, inequivocamente que “o pessoal médico não pode exercer pressão indevida de qualquer tipo sobre indivíduos que tenham recorrido ao recurso extremo de uma greve de fome, nem é aceitável que usem ameaças de alimentação forçada ou outros tipos de coerção física ou psicológica contra indivíduos que voluntariamente decidam-se por uma greve de fome”.

Seja como for, não posso confiar no que os senhores digam ou façam, sobre minha saúde, porque os senhores devem obediência aos seus superiores militares que exigem que os senhores me imponham qualquer meio inaceitável para mim, e os senhores põem o dever de obedecer aos militares seus superiores acima dos deveres de médico que têm para comigo. Esse tipo de dupla fidelidade impede completamente que eu confie nos senhores.

Por essas razões, a relação médico-paciente que se criou entre nós absolutamente não pode contribuir para diminuir os riscos que essa greve de fome gere para minha saúde. Os senhores talvez sejam capazes de manter-me vivo por longo tempo, em estado de debilitação extrema. Mas aqui, com tantos prisioneiros, como eu, também em greve de fome, os senhores estão, isso sim, conduzindo um experimento, um tratamento experimental, em escala jamais vista. E nada garante que não ocorra erro humano, que resulte na morte de um ou mais de um de nós, não por greve de fome, mas por culpa ativa ou erro dos médicos que nos estão sendo impostos.

Seus superiores, incluindo o presidente Obama, comandante-em-chefe dos seus superiores, reconhecem que minha morte ou de qualquer outro prisioneiro em greve de fome geraria consequências graves e indesejáveis para eles. Os senhores, médicos, receberam portanto ordens para garantir – com certeza absoluta – minha sobrevivência, uma ordem que nem os senhores nem qualquer médico poderá jamais aceitar, porque não pode garantir, com certeza, que possa cumpri-la.

A posição impossível em que estão os médicos de Guantánamo hoje me inspira alguma simpatia. Quer continuem como militares, quer retornem à vida civil, os senhores terão de sobreviver com a consciência do que fizeram e não fizeram aqui em Guantánamo, até o dia de morrerem. Mas se se opuserem às ordens absurdas, os senhores conseguirão fazer alguma diferença. Os senhores podem escolher parar de contribuir ativamente para manter a condição de permanente abuso às quais estou hoje exposto.

Peço apenas que levem aos seus superiores meu pedido urgente para que eu seja submetido a exame médico por médico ou médicos independentes, a serem escolhidos por meus advogados, nos quais eu confie, e que esses médicos recebam todas as notações médicas com as quais os senhores trabalham aqui, para que as estudem antes de me examinarem. É o mínimo que os senhores podem fazer, para manter, minimamente, a palavra que empenharam quando juraram “não causar dano” a ninguém de quem os senhores se aproximem, como médicos.

Atenciosamente,
[assinam] Os prisioneiros em greve de fome na Base Naval, Baía de Guantánamo
[seguem-se as assinaturas dos prisioneiros identificados pelos nomes e por um número; dos advogados que representam os prisioneiros, como testemunhas; e de representantes do Conselho de Defesa de Guantánamo]


   
   
(Prisioneiros)
   
(Advogados, em nome de seus representados)
   
(Advogados Defensores, em Guantánamo)

   

   


Younous Chekkouri, ISN 197
   

Joseph K. Hetrick
abogado de:
   

Charles H. Carpenter
Carpenter
Law
Firm plc
Nabil Hadjarab, ISN 238
   
Abdul Haq Wasiq, ISN 004
Mohammad Nabi Omari, ISN 832
   
David H. Remes
Appeal for Justice
Shaker Aamer, ISN 239
Ahmed Belbacha, ISN 290
Abu Wa’el Dhiab, ISN 722
Samir Mukbel, ISN 043
   
Michael Rapkin
Scott Rapkin

Steve Truitt
Law Offices of Michael Rapkin
Abogados de:

Mohammed Ghanem, ISN 044
   
Carlos Warner
Defensor Público Federal Adjunto

Distrito Norte de Ohio
Adel al-Hakeemy, ISN 168
Sanad al-Kazimi, ISN 1453
Mohammed Hidar, ISN 498
   
Thomas Anthony Durkin
Janis D. Roberts

Durkin & Roberts
Abogados de:
Abdullatif Nasser, ISN 244
   
Buz Eisenberg, Weinberg & Garber
Jerry Cohen, Burns and Levinson LLP
Martha Rayner
Fordham University
School of Law

Abogados de:
Sanad al-Kazimi, ISN 1453

   
Peter B. Ellis & Kiran Ghia
Foley Hoag LLP, Boston

Abogados de:
Mohammed Ghanem, ISN 498

Postado por Castor Filho às 09:29:00
(Redecastor)

Detroit

Viagem a Detroit, a cidade fantasma        
Escrito por Marcello Musto  



Um garoto solitário avança ao longo da margem da estrada que liga o aeroporto ao centro da cidade. Veste a típica jaqueta esporte norte-americana, dessas que na parte de trás geralmente leva-se vistosamente o nome de um time de basquete ou as estrelas e listras da bandeira. No entanto, sua jaqueta continha uma palavra de cinco letras: black.



Eu me aproximo para falar e perguntar notícias sobre o lugar onde estou. Ele responde, lacônico, que vive aqui desde que nasceu, já está acostumado. O cenário onde acontece nossa conversa é surreal. Eu jamais havia visto nada igual. Eu continuo olhando ao meu redor e percebo o quanto são verdadeiras as coisas que li sobre este lugar. Estou rodeado de uma série de prédios abandonados. Velhas fábricas, abandonadas durante décadas, com a aparência de gigantescas ruínas, corroídas pelo tempo e intempéries. Prédios destripados, cacos de vidro espalhados por toda parte, máquinas cobertas por gelo e neve. Um deserto habitado apenas por cães vadios, dependentes de drogas sem abrigo e outras pessoas marginalizadas na sociedade. Estou em Detroit: a cidade fantasma. Um dos exemplos mais impactantes da outra América, aquela que nunca aparece nas aveludadas séries televisivas ambientadas em Manhattan ou nos filmes tridimensionais produzidos em Hollywood.



Chamavam-na de Cidade Motor



Se a arqueologia industrial era uma ciência, então Detroit seria sua prova irrefutável. E, no entanto, a sua história inclui o desenvolvimento e o esplendor. Conhecida como a Cidade Motor – a partir de onde surgiu a marca Motown, tomada da famosa discografia de soul e rhythm and blues –, Detroit foi durante décadas o principal centro automotivo do mundo. Em 1902, a cidade deu à luz o
Cadillac
. E aqui, um ano mais tarde, Henry Ford abriu fábricas onde, em 1908, veio a primeira edição do Modelo T, o primeiro carro produzido em linha de montagem. A General Motors abriu nesse ano e a Chrysler logo depois, em 1925. Em suma, tudo sobre a indústria automobilística nos Estados Unidos começou em Detroit.



Nas asas do progresso, a cidade cresceu consideravelmente. Na segunda década do século XX, a população dobrou e Detroit tornou-se a quarta maior aglomeração urbana do país. Uma parte importante dos seus novos habitantes veio dos estados do sul. Constituía um setor que era um grupo de afro-americanos à procura de trabalho (só neste período Detroit atingiu mais de 120.000 habitantes), que esteve envolvido no fenômeno conhecido como a "primeira grande migração".


A expansão não tem a ver só com o mundo das quatro rodas. Com a explosão da Segunda Guerra Mundial, o principal centro de Michigan foi transformado, de acordo com o slogan cunhado por Franklin Roosevelt, no "grande arsenal da democracia". Detroit desenvolveu-se rapidamente devido à produção de armas e sabe-se que contribuiu com a guerra mais do que qualquer outra cidade norte-americana (após o ataque a Pearl Harbor ,foram deslocados muitos trabalhadores de ambos os sexos). Graças a essa expansão, na década seguinte, o número de habitantes atingiu o seu máximo: 1.865.000, em 1956. Ilustres professores e os principais jornalistas da época a glorificaram como o melhor exemplo do fim da luta de classes; símbolo da meta alcançada, por grandes massas de trabalhadores, de entrar nas filas da classe média e se beneficiar dos prazeres do aburguesamento.



Muita coisa aconteceu desde então! Com os anos 60, começou o declínio, que se acelerou após as crises do petróleo de 1973 e 1979. Detroit tem agora apenas 700.000 habitantes, o menor número nos últimos cem anos. A espiral descendente parece não ter fim. De fato, na primeira década do século XXI, a cidade perdeu um quarto de sua população total, que continua a diminuir progressivamente: a cada 20 minutos uma família reúne seus pertences, se manda para um novo destino e deixa Detroit para trás.



100.000 terrenos vazios



Eu continuo minha jornada pelos bairros e é como estar em um lugar habitado por fantasmas. Em seu perímetro, existem mais de 100 mil terrenos baldios e casas abandonadas. Estas últimas em ruínas ou em uma situação instável. Nos próximos quatro anos teriam de ser demolidas dez mil casas, mas faltam recursos para fazê-lo. O sentimento que permeia toda a cidade é desolador, pois, muitas vezes, em todo um bloco de casas, há apenas uma ainda habitada. Detroit é totalmente deserta e seus espaços vazios caberiam todos em Boston ou San Francisco. Para contrariar este estado de extrema desolação, a administração local está tentando concentrar a população em determinadas áreas e transformar outras em fazendas. Na verdade, a crise expôs esse cenário ainda mais sombrio. A cidade está à beira da falência e do colapso econômico, e recentemente aboliu os últimos serviços públicos, incluindo o ônibus, que é o único meio de transporte para os menos favorecidos, e a iluminação noturna nas áreas periféricas.


A situação social não é melhor do que a ambiental. Em Detroit, uma em cada três pessoas é pobre, uma condição que afeta mais da metade das crianças. O grau de segregação racial ainda é muito elevado. Mais de 80% da população é afro-americana e vive no centro, enquanto os trabalhadores 'brancos', ou melhor, a última parte deles, os que ainda não conseguiram sair, se mudaram para os subúrbios protegidos por lojas de departamento. A prova de que, com uma diferença correspondente no tempo, o racismo que fez desta cidade o teatro de guerra da revolta violenta de julho 1967 – quando Lyndon Johnson enviou tanques que causaram 43 mortes, 7.200 prisões e a destruição de mais de 2.000 edifícios – ainda não foi erradicado.



A taxa de criminalidade é uma das mais altas do país e, ironicamente, mesmo que o carro tenha nascido exatamente nestas ruas, não há na América um lugar mais caro para comprar o seguro. O desemprego real atinge 50% e o dinheiro investido no grande cassino, que ocupa a principal artéria do centro, tem produzido uma única transformação: a de criar uma legião de desesperados que, a cada dia ou noite, apegados à amarga ilusão de salvação pessoal, fazem fila nas máquinas caça-níqueis para jogar suas últimas esperanças e as poucas poupanças ainda disponíveis.



Sucata para a China



Em 2009, golpeadas pela crise, a General Motors e a Chrysler declararam falência, enquanto a Ford padece de uma dura recessão. As ajudas às Big Three, por parte da administração de Bush e também de Obama, no final da década passada, totalizaram 80 bilhões de dólares. Tais ajudas foram acompanhadas por drástica "reestruturação", ou seja, demissões, cortes de salários e mais precarização. Em outras palavras, têm servido para ampliar ainda mais o modelo desenvolvido por empresas como a American Axle & Manufacturing, fundada em 1994 com o objetivo de fornecer, a baixo custo, componentes automotivos para a General Motors e a Chrysler.



Apesar de a empresa registrar lucros enormes, muitos de seus funcionários, contratados por hora, têm visto, como em fevereiro do ano passado, como se rescindem seus contratos. Depois de uma greve contra o corte salarial de 28 a 14 dólares por hora, uma outra fábrica de Detroit demitiu todos os seus trabalhadores e fechou as portas. Assim, com instituições abertas nos últimos anos pela American Axle & Manufacturing no México, no Brasil e na Polônia, em uma recente declaração, supostamente filantrópica, um de seus futuros presidentes nos ilumina o futuro: "construir a Ásia é a nossa prioridade". O próximo capítulo dessa história será escrito na China, onde, de fato, a empresa opera com duas novas fábricas desde 2009.



No fundo, Detroit nos fala não só do século XX, mas das mudanças de hoje e do que o futuro reserva. O epílogo da história nos conta que o desemprego e a pobreza são o resultado das ordens econômicas que impediram conquistas e melhorias tecnológicas de serem postas a serviço da comunidade. Isso mostra que as fábricas estão vazias, não porque não há trabalho, mas porque a produção foi transferida para locais onde os custos trabalhistas são mais baixos e a luta pelo reconhecimento dos direitos sociais é mais fraca.


A noite cai rapidamente no inverno de Detroit. Perto da saída da estrada, algumas pessoas pedem esmolas. Mais tarde, no coração do que foi outrora a zona industrial, pode ser visto um incêndio. Um grupo de jovens que busca desmantelar os restos de uma fábrica para depois enviá-los, por via marítima, ao Oriente. Por estes restos são pagos dois dólares e meio por quilo e são os últimos objetos úteis de que se pode conseguir algo para chegar ao fim do mês. Eles representam um dos principais produtos de exportação norte-americanos para a China, e Detroit é a cidade que mais os oferece. Eles servem para construir em outro lugar o que antes estava aqui. Para criar a infraestrutura que permitirá um maior lucro aos patrões. A exploração gerada por uma maior parcela da mais-valia, para usar as palavras de outro tempo. No entanto, não há ilusões. Com as novas fábricas, surgirão novos conflitos e novas esperanças.



Marcello Musto é sociólogo e filósofo italiano, professor de Teoria Política da Universidade de York (Toronto).

Traduzido por Daniela Mouro, Correio da Cidadania.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Frida

Frida Kahlo: a dor da vida, a dor da arte
publicado em artes e ideias por bianca vale
Alguns artistas ultrapassam a fama adquirida por seu trabalho e tornam-se sua melhor arte. Esse foi o destino de Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, ou Frida Kahlo, a mexicana que transformou sofrimento em arte.


Muitos artistas deixaram sua marca no mundo das artes pelo trabalho que fizeram, pelos quadros que pintaram, pela música que tocaram ou pelo poema que escreveram. Mas alguns poucos foram além e, mais do que a marca deixada por sua obra, confundem-se com ela e ficam eternizados pela sua própria imagem. São esses que se tornam ícones. E foi esse o destino da mexicana Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, ou simplesmente Frida Kahlo.

Simples é obviamente o adjetivo que menos combina com Frida. Sua complexidade tem origem na sua própria história: nascida em 1907, filha de um alemão e de uma mexicana, contraiu poliomielite aos seis anos, o que lhe deixou como sequela uma lesão no pé direito que lhe rendeu o apelido “Frida pata de palo” (Frida perna de pau). A partir daí começou a usar calças e saias longas estampadas, que vieram a se tornar uma de suas referências pessoais. Esse foi só o primeiro marco de como a construção do ícone Frida Kahlo partiu de sua própria dor. E era também só o primeiro de uma série de acontecimentos dolorosos de sua vida.


Aos 18 anos, Frida sofre um grave acidente: o bonde em que seguia colide com um trem, deixando-a meses entre a vida e a morte devido ao pára-choque que atravessou seu pélvis. Foi durante a recuperação que começou a pintar, usando o material de seu pai, que tinha a pintura como passatempo. O acidente deixou severas marcas a Frida, que teve que viver a partir de então com fortes dores no corpo e coletes ortopédicos.


Porém, talvez nenhum destes dois acontecimentos tenham sido tão intensos na vida da artista como seu relacionamento com o pintor mexicano Diego Rivera. A própria Frida resume bem a relação em seu diário, "Diego, houve dois grandes acidentes na minha vida: o bonde e você. Você sem dúvida foi o pior deles."

A vida do casal foi marcada pela intensidade, tanto na paixão como nas calorosas brigas. Rivera e Kahlo dividiam a militância no partido comunista, o amor pelas artes e uma tendência a relacionamentos extraconjugais. Frida era bissexual, mas Rivera dizia não se importar com seus casos com outras mulheres; apenas os casos com outros homens o incomodavam... Um dos mais famosos, mas já depois da separação, foi com o revolucionário russo Leon Trótski.



Mas talvez nenhum dos relacionamentos extraconjugais de Frida a marcou tanto quanto a descoberta de que Diego tinha um caso com sua irmã Cristina há anos. Rivera teve 6 filhos com Cristina, e Kahlo nunca perdoou a irmã. Após saber desta traição, Frida separa-se de Diego, mas voltam a ficar juntos novamente em 1940, e assim permanecem até 1954, quando Frida é encontrada morta em sua casa devido a uma forte pneumonia. "Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar - Frida" foi a última frase escrita pela artista em seu diário.

Um ano antes de sua morte, Frida precisou amputar uns dos pés devido à gangrena, “Pés para que os quero, se tenho asas para voar?” escreveu Kahlo em seu diário, em mais uma demonstração de como era capaz de alterar sua própria percepção do sofrimento.

Em seus quadros, essa capacidade de transformar dor em belas imagens fica clara. É o caso de Columna Rota, de 1944, em que Frida se retrata com a coluna mutilada e o corpo coberto de pregos: a sua dor torna-se tão visível que é possível ao admirador senti-la. Em A árvore da esperança, de 1946, Kahlo pinta novamente sua dor, agora acrescida da esperança de um dia ver-se livre do sofrimento que as sequelas causaram, e para isso pinta duas Fridas: a que convalesce no leito e a que segura um colete agora já inútil. Frida pintou-se como duas em outro quadro, As duas Fridas, de 1939. Mostra-se aqui como uma mulher dividida pela dor lacerante do corpo e da instabilidade de seus relacionamentos, e que ao mesmo tempo é intensa, apaixonada e repleta de esperança. Em seu diário ela ainda acrescenta ''Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.''

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© Frida Kahlo, "Árvore da Esperança" (1946).

Mais de 50 anos após sua morte, Frida Kahlo ainda continua sendo influência para muitos artistas. A personalidade forte que é possível ser notada no modo como se vestia, nas telas que pintava, na intensidade com que vivia e na forma como se comprometia com a cultura de seu país tornaram-na modelo de originalidade.

A casa em que viveu tornou-se um museu em sua homenagem, a Casa Azul. Sua vida foi retratada em dois filmes: em 1983, em Frida, natureza viva de Paul Leduc, e em 2002 em Frida, de Julie Taymor, onde foi interpretada por Salma Hayek.

Frida Kahlo teve na dor sua matéria; sua vida foi um turbilhão de sentimentos que a artista conseguiu canalizar em um só: paixão. Suas obras irradiam calor e vivacidade, mas não é só pelo seu trabalho que ela ainda encanta. Frida teve uma vida que faria muitas mulheres se vestirem de luto, mas ela preferiu vestir-se de flores.




biancavale
bianca vale é apaixonada por Design, Van Gogh, histórias bem contadas e gentileza. Pensa em um milhão de coisas ao mesmo tempo e resolveu começar a escrever para dividir tanta inquietude com outras pessoas. Saiba como fazer parte da obvious.

Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2012/03/frida_kahlo_a_dor_da_vida_a_dor_da_arte.html#ixzz2Ut8QIb2t

O Pasquim

O pingente que deu certo
Sérgio Augusto

   
       


Foi o maior fenômeno editorial da imprensa brasileira. E não adianta discutir. O Cruzeiro? Tinha atrás de si uma poderosa empresa jornalística, os Diários Associados de Assis Chateaubriand. Veja? Ora, veja. Com a editora Abril bancando a aventura, modéstia à parte, até eu. Atrás de O Pasquim, só havia um punhado de porras-loucas.

Assumidamente nanico, moleque, paroquial e abusado, nasceu sob a suspeita de que duraria pouco tempo; menos até que os oito números da Pif-Paf, criada em 1964 por Millôr Fernandes e inviabilizada pela censura dos milicos que naquele ano haviam assumido o poder. Mas durou, afinal, 1072 números ― o equivalente a 22 anos de vida.

As suspeitas iniciais tinham sua razão de ser. Onde já se viu um jornal sem patrão, onde todos os colaboradores podiam escrever o que bem entendessem e como bem entendessem? Pois a velha utopia de dez em cada dez jornalistas revelou-se, mais do que factível, um sucesso ― fulminante e retumbante. A tal ponto que o cético Millôr, que no primeiro número previra menos de três meses de vida para o solerte hebdomadário, admitiu, já no quarto número, que se equivocara.

Claro que se tivesse surgido na Mooca, nem com a Abril de arrimo, o Pasquim (que, de uma hora pra outra, abriu mão do artigo definido) não teria dado certo. Não bastasse ser carioca, o Pasquim era uma cria ipanemense. "É Ipanema engarrafada", proclamou um diplomata brasileiro (não foi o Vinicius, não) ― isso numa época em que Ipanema, já internacionalmente famosa por obra de Tom & Vinicius, orgulhava-se de ser o bairro mais moderno, cosmopolita, liberado e charmoso do Brasil, o nosso Greenwich Village, a nossa Rive Gauche, um Xangri-lá à beira-mar, plantado para onde os olhares do resto do país, morrendo de inveja, convergiam.

(Curiosamente, só na metade de sua trajetória o Pasquim se instalaria em seu "bairro natal", num solar normando fake, bem no cocuruto da ladeira Saint Roman. Sua primeira redação foi na rua do Resende, no centro da cidade, numa sala da Distribuidora Imprensa, 50% dona do negócio; a segunda no Flamengo, na rua Clarisse Índio do Brasil, 32; a terceira no Jardim Botânico. Até em Copacabana a redação operou por um curto e ingrato período.)

Foi, sem dúvida, um risco; quase uma bravata. Entre setembro de 1968, quando a ideia do jornal não era mais que um brilho nos olhos de Jaguar e Tarso de Castro, e 26 de junho de 1969, quando o primeiro número chegou às bancas, os generais haviam "legalizado" a ditadura com o AI-5 e a censura apertara as cravelhas nas redações menos dóceis ao novo regime. O Pasquim não pagou barato pela audácia de nascer já do contra (sobretudo contra as babaquices da classe média) e "livre como um táxi", "equilibrado como um pingente", incômodo como "um folião num velório". E ainda que nos primeiros tempos fosse mais folgazão, gozador, festivo (a expressão "esquerda festiva" foi inventada por um de seus colaboradores, Carlos Leonam) e atento a questões de comportamento, aos poucos deixou-se contaminar pelo inevitável: a indignação política. Sem, contudo, abrir mão do velho preceito de Horácio (reciclado por Jean de Santeuil): o riso é a melhor arma contra todas as imposturas.

Em seus primeiros números, tratou muito de futebol, amenidades, música (naquela base que o Sérgio Cabral apreciava: samba & chorinho), cinema, teatro, do sucesso de Glauber Rocha no Festival da Cannes, do direito de as mulheres tomarem cafezinho no balcão sem ser molestadas (uma das bandeiras de Martha Alencar, a primeira diva da redação). O
mercurial
Tarso de Castro, dínamo do veículo, debochava de tudo, gozava amigos e desafetos, fazia o humor mais petulante e agressivo do grupo ― e também, que pena, o mais perecível. Luís Carlos Maciel encontrou de cara o seu nicho: a contracultura. Salvo engano, foi ele quem inventou (ou pelo menos popularizou) expressões condenadas à imortalidade como "barato", "curtir", "sarro" (no sentido de gozação), que ao lado de outras gírias, ressuscitadas ("balaco", "balacobaco"), liberadas ("bicha") ou eufemísticas ("duca", "paca", "mifu", "sifu", "nusfu"), fizeram o jornal cair na boca do povo e nos verbetes do Aurélio.

Ao núcleo fundador agregaram-se, paulatinamente, três cabeças privilegiadas: Henfil (que entrou no número 2), Paulo Francis (que debutou no número 6, com um texto sobre o Marquês de Sade) e Ivan Lessa (que vivia em Londres e só estreou no número 27). Entre os astros convidados, a fina flor da intelectualidade e da boemia carioca:

Vinicius de Moraes, Otto Maria Carpeaux, Ferreira Gullar, Glauber, Chico Buarque (autoexilado em Roma), Caetano Veloso (idem em Londres), Chico Anísio, Jô Soares, Marcos Vasconcellos, Flávio Rangel, Fernando Sabino, Antonio Callado, Sérgio Noronha, Daniel Más (o enfant terrible do colunismo social), Telmo Martino, Luís Fernando Verissimo, Carlos Heitor Cony, Rubem Fonseca, Ruy Castro, Fausto Wolff, Reynaldo Jardim, Newton Carlos, Luís Garcia (fugaz correspondente em Nova York), Angelo de Aquino, Alfredo Grieco. Sem contar os bambas de fora mesmo, do hemisfério norte, como Jules Feiffer, James Thurber, André François, Wolinski, Copi, Tomi Ungerer, o português Santos Fernando etc.

Quando o jornal estourou ("De tanto ver triunfar as nulidades, o Pasquim acabou dando certo", proclamava um de seus dísticos semanais), quem mais se surpreendeu com aquele imprevisto foram os seus próprios redatores e cartunistas. Mas já que os deuses, para frustração dos milicos, pareciam estar do lado da gente, o jeito foi relaxar e aproveitar o sucesso até a última gota de uísque e o último rabo-de-saia.

Tamanho era o prestígio do jornaleco, que se desse na telha de seus editores imprimir uma edição toda em latim ou grego, a vendagem seria a mesma e não faltaria quem achasse a ideia "duca" (ou seja, do cacete). Isso nunca aconteceu, mas é fato comprovado que um dia, com a página do Tarso em branco e seu deadline vencido, Jaguar fez valer sua autoridade e sua porra-louquice, enchendo todo o espaço com a palavra "blablablá", mantendo a assinatura do Tarso, que afinal levou a fama pela original ideia. Os leitores acharam o máximo, inventivo, o escambau ― especialmente aqueles que entenderam a brincadeira como uma dissimulada cutucada na Censura, não pelo que de fato era: um inconsequente sarro dadaísta.

O leitor padrão do jornal (70% do total) tinha entre 18 e 30 anos, o filé mignon do mercado. Em circunstâncias normais, vendendo (já no número 16) 80 mil exemplares e aumentando a tiragem, em dez semanas, para 200 mil, em sete meses teria se transformado numa mina de ouro. Mas, apesar de todos esses números, os anunciantes fugiam do jornal, a maioria por medo de uma prensa do governo, que muitos deles, aliás, levaram. A ditadura e seus apóstolos não achavam a menor graça no Pasquim e tentaram, por todos os meios, destruí-lo. Para eles, "aquilo" era um antro de comunistas, bêbados, pervertidos e drogados, empenhados em difundir ideologias exóticas e subversivas, desencaminhar a juventude e destruir a família brasileira. Um "panfleto fescenino", na ranzinza avaliação do dr. Gustavo Corção, colunista de O Globo e um dos judas favoritos da turma, ao lado de David Nasser, Roberto Campos e Nelson Rodrigues.

No fundo, o Pasquim não passava de um hebdô anarquista, misto de Harakiri e Village Voice. E, acima de tudo, anárquico ― em todas as suas instâncias, inclusive na vigilância aos que administravam a empresa, uma sucessão inesgotável de larápios e aldrabões. Enquanto estes agiam (demais ou de menos), a redação e agregados curtiam e regiam a boemia ipanemense, de preferência no Flag e no Antonio's, que, aliás, ficavam, respectivamente, em Copacabana e no Leblon.

Muitas outras gerações de jornalistas boêmios animaram o Rio, mas nenhuma delas pôde dar-se ao luxo de estender suas farras ao trabalho na redação como a turma do Pasquim. Suas reuniões de pauta, quando havia, eram uma festa ― ou, melhor, uma esbórnia. Ainda mais zoneadas eram as entrevistas, sempre coletivas e regadas a Buchanan's, e cujo inusitado clima de descontração outros tentaram em vão imitar. Várias fizeram história, como as de Leila Diniz, Madame Satã e a líder feminista Betty Friedan, que, diga-se, quase saiu no pau com o Millôr.

Cabia tudo no Pasquim. Até artigos sérios. Os de Paulo Francis só eram sérios nos temas, na aparência, e às vezes nem isso. Francis foi um dos fenômenos mais intrigantes do jornal: um intelectual cujo rompimento com a sisudez e a linguagem engomada do jornalismo político e cultural abriu-lhe as portas para a popularidade. Algumas expressões de sua autoria, como "raciocinando em bloco" e "inserido no contexto", sempre destacadas e gozadas pelo Jaguar, acabaram virando bordões do Chacrinha.

Outro fenômeno foi Ivan Lessa, cuja frenética inventividade invadia quase todas as páginas do jornal, a começar pela seção de cartas dos leitores, que a partir de uma época passou a responder, oculto pelo pseudônimo de Edélsio Tavares, um consumado cafajeste que tratava os leitores aos pontapés. Os iniciados e os masoquistas adoravam. Não menos agressiva e desbocada era dona Edelmar Barbosa (outra invenção de Ivan), que de gravador em punho fazia entrevistas imaginárias com personalidades internacionais.

Na contracapa Ivan também era absoluto, ora com suas fotonovelas debochadas e surrealistas, volta e meia estreladas por gente famosa (até Fernanda Montenegro protagonizou uma), ora com a coluna "Gip-Gip, Nheco-Nheco" (nome extraído de uma estrofe de "Trepa no Coqueiro"), um mosaico de desaforismos de fazer Groucho Marx e o Barão de Itararé babarem de inveja: "No Brasil morre-se muito de médico"; "Num país onde o futuro a Deus pertence, os agnósticos perguntam: 'E o passado? Quem vai se responsabilizar por ele?"; "Todo homem tem o sagrado direito de ser imbecil por conta própria"; "O brasileiro é um povo com os pés no chão ― e as mãos também"; "Todos os editoriais da imprensa brasileira têm dois dedos de testa e são escritos numa escola militar do Panamá". Um deles ("A cada 15 anos os brasileiros esquecem o que aconteceu nos últimos 15 anos") até virou epígrafe de um filme.

(Que ninguém estranhe a ausência de Edélsio, dona Edelmar e do Gip-Gip neste volume, pois ele cobre somente os primeiros 150 números do Pasquim e essas invenções geniais do Ivan só surgiram depois.)

Millôr gosta de dizer que nenhum humorista atira para matar. Os milicos da ditadura, incrédulos e paranoicos, não foram nessa e vigiaram com crescente rigor as gracinhas do jornal. Seu 39º número chegou às bancas, em março de 1970, com o seguinte aviso: "Este número foi submetido à censura e liberado." Com vários cortes. Mas disso o leitor não podia ser informado. Na capa, Sig fantasiado de Estátua da Liberdade, suando de medo e empunhando, à guisa de tocha, um Pasquim em chamas. Dias antes, uma bomba fora colocada na sede do jornal, na Clarisse Índio do Brasil, que só não explodiu por incompetência dos terroristas, gente da própria polícia.

Como se vê, a censura prévia não liberava o jornal de outros tipos de agressão. Algumas edições, não obstante "aprovadas" e "liberadas", foram inopinadamente recolhidas nas bancas por ordem de alguma "autoridade" que não se dera por satisfeita com os cortes executados por D. Marina, nosso primeiro Catão de saias. Primeiro e último. Depois dela, só deu gorila, com e sem pijama.

D. Marina trabalhava dentro da redação, modus operandi promíscuo e contraproducente para qualquer censor razoavelmente civilizado. Cordial, D. Marina acabou ficando amiga da patota do jornal e, como era chegada a uma birita, entre um gole e outro, aprovava muita coisa que não devia. Caiu em desgraça ao deixar passar um cartum, bolado por Ziraldo e feito em cima do famoso quadro de Pedro Américo sobre o Grito do Ipiranga, com D. Pedro I gritando "Eu quero é mocotó!", em vez de "Independência ou Morte!". No lugar dela entrou o general da reserva Juarez Paes Pinto, até então mais famoso por ser o pai de Helô Pinheiro (née Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto), a "Garota de Ipanema". Depois que o general foi derrubado por aprovar uma entrevista com uma antropóloga americana, que afirmava haver racismo no Brasil, sim senhor, o jornal passou a ser censurado em Brasília, no próprio covil da repressão, o Centro de Informações do Exército, por canetas Pilot anônimas, implacáveis e vingativas. E assim foi até 1975, quando a censura acabou.

Minha relação com o Pasquim começou na tribuna de imprensa do Maracanã, por volta de agosto de 1969. O jornal tinha poucas semanas de vida e de sua equipe original eu só não conhecia o Claudius, o Tarso e o Prósperi. Embora fosse amigo de Jaguar, Millôr, Ziraldo, Fortuna e conhecesse, ainda que mal, o Francis, quem me convidou "para escrever qualquer coisa" foi Sérgio Cabral, no intervalo de um Botafogo x Vasco. A primeira coisa acabou sendo um artigo, pretensamente engraçado, sobre a atriz Sharon Tate, que dois anos antes de ser assassinada por Charles Manson tivera o prazer de passar dez dias tomando banho de piscina comigo num cruzeiro entre Acapulco e Los Angeles.

(Não, não, desculpe, foi o contrário: eu é que tivera o prazer de passar dez dias tomando banho de piscina com ela, a bordo de um daqueles navios celebrizados pela telessérie Love Boat. Tenho fotos para provar.)

Acho que agradei ― ao Pasquim, bem entendido ― mas só voltei a ser convidado a colaborar quando a maior parte da redação foi curtir férias compulsórias no xadrez da Vila Militar e o jornal passou a ser feito por um mutirão de jornalistas, com Millôr, Henfil, Martha e Miguel Paiva na retaguarda.

No dia 1º de novembro de 1970, com o número 72 já na gráfica, Cabral e Fortuna estavam em Campos, no interior do Estado do Rio, quando foram avisados de que Ziraldo, Francis, Maciel, o fotógrafo Paulo Garcez (em plena lua-de-mel!) e Haroldo Zager Tinoco (na época, boy do jornal) haviam sido presos. Fortuna foi agregado ao grupo ao chegar de volta ao Rio, no dia 3. Na companhia de Jaguar, Cabral foi à polícia para depor e tentar libertar os companheiros. De lá saíram para juntar-se aos amigos nas celas da Vila Militar, para onde Tarso também foi levado. As duas semanas de prisão, inicialmente previstas, acabaram esticadas para dois meses. Por que motivo foram presos? Nunca souberam.

Do número 74 ao 80, o Pasquim se transfigurou. Para todos os efeitos, baixara um surto de gripe na redação, atingindo nove integrantes da patota. A metafórica gripe foi a maneira cifrada que Martha, Millôr e Henfil encontraram para informar aos leitores o que acontecera. Com a patota em liberdade e de volta à redação, ganhei um novo padrinho, Francis, e uma atribuição: produzir textos sobre cinema que fugissem ao ramerrão da grande imprensa. Por osmose, acabei caindo na galhofa. E quando me dei conta, já me tornara um arremedo de humorista, afeiçoado a paródias.

Entrei efetivamente para o jornal com o Tarso na porta de saída, em pé de guerra com Millôr e outros membros da equipe. Pouco depois, Paulo Francis mandou-se para Nova York. Pressionado pela Censura, cada vez mais perseguido por terroristas de direita (daí o slogan "Um jornal mais verde de susto que de esperança"), boicotado pelas agências de publicidade e imerso em dívidas, o Pasquim viu-se num beco sem saída e obrigado a experimentar novas formas de sobrevivência. Em janeiro de 1972, pressionado por Ziraldo e Jaguar, assumi a editoria geral. Por sorte, Ivan Lessa, em Londres havia quatro anos, estava voltando para o Brasil. Com Ivan na redação e Millôr empossado, meses depois, na direção do jornal, uma nova fase teve início.

Foi nesse período que surgiram algumas das seções e brincadeiras pelas quais até hoje o Pasquim costuma ser lembrado. Àquela altura, além de editar as dicas, ajudava Ivan a zorrar o jornal, cobrindo-o de minúsculos e zombeteiros grafites, perpetrados com a pena e o nanquim do Jaguar, e a produzir uma coluna de notas ("Os do Pasquim...") sobre filmes, livros, programas de TV e eventos culturais, sem assinatura e inspirada na seção "Talk of the Town" da revista The New Yorker, quando anonimamente redigida pelo inigualável E.B. White.

Na página mais nobre, a 3, Millôr inaugurou uma coluna fixa de notas sobre os mais variados assuntos, cujo título, "Isto É Isto", era uma homenagem a Shakespeare (ou, então, ao Lorenz Hart de The Lady is a Tramp). Sempre encimada por um pensamento alheio (ou pensamentão, como dizia Millôr), só baixou de qualidade nas três semanas em que foi escrita por mim. É nisso que dá permitir que o Millôr tire férias. Não satisfeito em deixar seus leitores na orfandade, ao voltar das férias, o mestre de todos nós sugeriu que eu assumisse de vez aquele espaço. E foi assim que, em abril de 1975, "Isto É Isto" transformou-se em "É Isso Aí", implicante página de tópicos basicamente sobre política e crítica ao comportamento da grande imprensa, que me deu muito trabalho, prazer, leitores e dissabores.

De todo modo, não obstante, apesar dos pesares, foi muito bom enquanto durou. Para mim durou até setembro de 1979. Se pudesse, começaria tudo outra vez. Mesmo sem saber se uma farsa, quando se repete, vira história.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente no primeiro volume da antoogia do Pasquim.
(Digest. Cultural)

A privatização da dor

A privatização da dor    
Escrito por Otto Filgueiras  




Os alimentos sempre foram mercadorias no Brasil e só tem acesso quem pode comprá-los. A terra, moradia, educação e até a segurança pública também são mercadorias neste outro lado do Equador.



No caso da segurança pública, o pacote inclui o direito dos policiais executarem as pessoas infratoras das leis vigentes. Ou seja, licença para que as polícias civil e principalmente militares (PM) possam matar, particularmente se os assassinados forem jovens pobres e negros.



Os grupos de extermínio formados por policiais militares são verdades incontestáveis e presentes no noticiário da mídia. Mas fica por isso mesmo, não acontece nada aos marginais mantidos pelo Estado. Mãos pagas pelo poder público para torturar e matar.



Mais grave ainda é saber que petistas de carteirinha e famosos como José Genoíno (aquele do mensalão), defendem a Rota nas ruas para combater o “crime”. Afinal, petistas e malufistas são íntimos, basta lembrar o abraço caloroso de Luiz Inácio Lula da Silva, Rui Falcão e Cia em

Paulo Maluf no ano passado, no momento que se instalava a Comissão Nacional da Verdade.



A propósito, a mídia alternativa supostamente de esquerda não destacou a corajosa postura do vereador Gilberto Natalini, que não é petista, enfrentando o coronel e torturador do exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, o carniceiro da rua Tutóia, na audiência pública da Comissão da Verdade realizada semana passada em Brasília.



Impune, o torturador Ustra ainda disse que a presidenta Dilma Rousseff foi “terrorista”. E ficou o dito pelo não dito.



O problema é que os grupos de extermínio, condomínios fechados e bolsões, herança da ditadura militar, têm apoio de petistas de carteirinha, com a desculpa que precisam se defender dos “criminosos”, como acontece aqui na City Bussocaba, em Osasco, cuja associação de bairro, Sacity, constrói Cerca de Miseráveis apoiada pela administração municipal do PT na cidade.



Não bastasse isso, a saúde pública e o SUS tornaram-se mercadorias de capitalistas, os inescrupulosos que exploram, aviltando mulheres e homens. A privatização da dor. Antes bandeira corajosa de deputados do PCdoB contrários à utilização de hospitais públicos pelos planos privados de saúde, agora troca de supostas influências de médicos comunistas de logotipo por votos nas eleições burguesas.



A cena é dantesca e aconteceu em 13 de maio passado, no Hospital das Clínicas de São Paulo, administrado pelo governo tucano de Geraldo Alckmin. Com a desculpa de que o sistema não estava funcionando, às 9:30 da manhã, os “camaradas” médicos do Departamento de Urologia do HC ordenaram às enfermeiras avisarem aos pacientes que aguardavam pela consulta que iam embora, deixando de atender mais 200 pessoas idosas, mulheres e homens doentes.



Alguns se arrastando se deslocaram de suas casas ainda de madrugada para chegar a tempo no hospital.



A privatização da dor os condenou à morte.



Otto Filgueiras é jornalista.
Última atualização em Sexta, 17 de Maio de 2013

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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Drummond

A Flor e a Náusea


A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

( Carlos Drummond de Andrade )
(Magia da Poesia)

Guantánamo

Guantánamo

Posted: 23 Nov 2010 06:08 PM PST
REFÉM DE BUSH DURANTE SEIS ANOS E MEIO EM GUANTÁNAMO
Sami El Haj, jornalista da Al Jazeera, testemunha
Hirto, alto, impressionante, libertando um sentimento de intensa interioridade, Sami El Haj avança coxeando, apoiado numa bengala. Nem um riso, nem um sorriso animam o rosto fino deste homem, envelhecido antes do tempo. Uma profunda tristeza habita-o. Tinha 32 anos quando, em Dezembro de 2001, a sua vida, como a de dezenas de milhares de outras pessoas de confissão muçulmana, caiu no horror.
19 DE JULHO DE 2008
Sami El Haj
Sofreu imenso. Enfraquecido por uma greve da fome que durou 438 dias, libertado no 1º de Maio de 2008, acolhe¬ vos com cuidado e doçura. Fala-vos, sem insistir, de um universo cujo horror vos ultrapassa, vos assusta, vos abafa.
É o primeiro escapado dos campos, construídos pela administração Bush na base naval de Guantánamo Bay, a ser autorizado a viajar.
«Vim a Genebra, à cidade da ONU e das liberdades [1], para pedir que sejam respeitados os direitos, para exigir o encerramento do campo de Guantánamo e das prisões secretas, e para acabar com esta situação ilegal» diz calmamente. A palavra saiu. Tudo é “ilegal”; é tudo falso, manipulado, absurdo, kafkiano nesta guerra dirigida essencialmente contra as pessoas de religião muçulmana.
Hoje sabemos muitas coisas, nomeadamente que um certo número de atentados atribuídos aos muçulmanos desde 1996, foram financiados e manipulados pelos agentes secretos do MI 6, da CIA, da Mossad. São testemunhos corajosos, tais como o do antigo ministro alemão Andreas Von Bülow [2], que descobriram e denunciaram este tipo de actividades criminosas, praticadas pelas grandes potências. Se exceptuarmos os novos meios de comunicação, qual foi o jornalista que nos falou das revelações desse grande senhor que é Andreas Von Bülow?
Em Guantánamo, apoiado pela sua paixão pela justiça, pela sua convicção de que todo jornalista tem o dever de testemunhar o que vê, Sami El Haj teve a força psíquica de aguentar, de resistir aos piores abusos, pondo o seu próprio sofrimento de lado. Conheceu sentimentos de grande dor, mas soube, nos piores momentos, guardar a esperança de que sairia de lá vivo. E dizer a si próprio que devia observar tudo, porque amanhã poderia testemunhar, ajudou-o a suportar o indizível.
É assim, pelo olhar do jornalista observando com recuo este universo aterrorizador, desejado por Bush, e que poderia ter sido o seu túmulo, que Sami El Haj pôde sobreviver e guardar a sua razão. Outros, que tiveram menos sorte que ele, morreram ou tornaram-se dementes; logo incapazes de transmitir o seu testemunho.
Sem lápis, nem papel, Sami El Haj esforçou-se em memorizar tudo para continuar, mesmo enclausurado, o seu trabalho de «jornalista da Al Jazeera em reportagem», como diz.
Hoje, está comprometido com a ideia de chamar a atenção do mundo sobre estas dezenas de milhares de prisioneiros que permanecem nas jaulas de Guantánamo, Bagram, Kandahar a sofrer um tratamento desumano. Responde incansavelmente, e com gentileza, a todos os jornalistas que o interrogam, esperando que a sua palavra poderá dar voz àqueles que já não a têm.
A sua exposição dos factos é essencial. À semelhança de todos os outros cativos, abusivamente qualificados, como ele, de “terroristas”, Sami El Haj nunca foi julgado e nunca soube de que era acusado. O que demonstra que Bush, e os jornalistas que apoiaram a sua tese dos “terroristas islamitas”, tiveram de os fabricar. Pessoas como Sami El Haj nunca poderiam ter sido encarceradas, nem permanecer tanto tempo reféns desta barbárie, por serem muçulmanos, sem a cumplicidade dos governos europeus e dos propagandistas islamofobos rendidos a Telavive e Washington que, há décadas, desinformam a opinião e influenciam as elites com base em mentiras.
Silvia Cattori : Como se sente, algumas semanas apenas após a sua libertação?
Sami El Haj : Sinto-me bem, obrigado. Quando vejo que há pessoas que se comprometem para salvar seres humanos e que lutam pela defesa dos seus direitos, isso reconforta-me. Claro, há dois meses, quando saí de Guantánamo, não estava nada bem. Mas agora estou melhor, quando descubro pessoas cá fora que lutam e não esquecem o principal objectivo: obter a paz e a liberdade para todos.
Silvia Cattori : Depois destes anos dolorosos, passados nos campos, quais são os seus sentimentos os seus votos mais queridos?
Sami El Haj : Bem, evidentemente, sinto-me feliz por estar novamente livre. Reencontrei a minha família, a minha esposa, o meu filho. Durante seis anos e meio, não me viu, foi à escola sem mim. Esperou-me e disse-me: «Pai, senti a tua falta tanto tempo! Sofri sobretudo quando via os meus colegas na escola, acompanhados pelos seus pais, que me perguntavam “Onde está o teu pai?” Não tinha resposta para lhes dar. Foi por isso que pedi à mãe para me levar à escola de carro, porque não queria que me fizessem sempre a mesma pergunta».
Respondi ao meu filho: «Agora já posso levar-te à escola, mas deves compreender que tenho uma mensagem a transmitir, uma causa justa a defender. Quero lutar pela causa dos direitos humanos, pelas pessoas que foram privadas da sua liberdade. Não vou lutar sozinho. Há milhares de pessoas que lutam pelos direitos humanos em todos os sítios onde a dignidade dos homens é desprezada. Não te esqueças que lutamos pela paz, para defender os direitos onde estes são violados, para construir um futuro melhor para ti. Talvez consigamos um dia e então poderei ficar ao teu lado e levar-te à escola».
Não sei se percebeu, porque ainda é pequenino, mas sorriu-me. A minha esposa também não queria que me fosse embora novamente. Mas quando lhe lembrei a situação dolorosa em que se encontram as pessoas encarceradas em Guantánamo, pessoas que também têm uma família, filhos, filhas e uma esposa de que sentem falta e que, se ficasse sem lutar, estas pessoas iriam permanecer encarceradas mais tempo, ela compreendeu que devia continuar a viajar, a juntar a minha voz a todas as outras vozes, para que os detidos possam voltar para casa o mais rapidamente possível. Deu-me o seu apoio total. Ao acompanhar-me ao aeroporto, disse-me: vou rezar por ti.
Silvia Cattori : Assim, ao ir para o Afeganistão para filmar os massacres de civis, vítimas da guerra de Bush, você mesmo tornou¬ se uma das suas vítimas? Não receia o que lhe pode ainda acontecer?
Sami El Haj : Para mim, não há dúvidas, vou continuar o meu trabalho de jornalista. Devo continuar a levar uma mensagem de paz a todo o custo. No que me diz respeito, passei seis anos e seis meses na prisão, longe da minha família; mas, para outros, foi muito pior. Perdi um amigo muito querido, jornalista na Al Jazeera: morreu em Bagdade, aquando do bombardeamento do hotel onde se encontrava. Perdi também uma colega, que considerava como uma irmã, que trabalhava comigo na Al Jazeera: morta, ela também, em Bagdade.
Muita gente perdeu a vida por causa desta guerra. Deve saber que a administração Bush quis impedir a cobertura dos meios de comunicação independentes, como Al Jazeera, no Médio Oriente. Os escritórios da Al Jazeera em Cabul e em Bagdade foram bombardeados.
Em 2001, quando deixei o meu filho e a minha esposa para ir filmar a guerra iniciada pelos Estados Unidos contra o Afeganistão, podia encontrar a morte num bombardeamento. Fui, consciente dos riscos. Todo o jornalista sabe que cumpre uma missão e deve estar pronto a sacrificar-se para testemunhar o que se passa, através dos seus filmes e dos seus escritos. E para ajudar as pessoas a perceberem que a guerra não traz nada mais que a morte de inocentes, destruição e sofrimentos. Foi com base nesta convicção que os meus colegas e eu fomos para países em guerra.
Agora, depois de todos estes anos de cativeiro, posso novamente fazer algo em prol da paz. Vou empenhar¬ me nesse sentido até lá chegarmos. Tenho a certeza de que um dia, mesmo que não seja eu a recolher os frutos, acabaremos por obter a paz e o respeito pelos direitos humanos, assim como a protecção dos jornalistas no mundo inteiro. Tenho a certeza de que conseguiremos que os jornalistas já não sejam torturados ou feridos exercendo a sua profissão, defendendo o direito das pessoas à informação e revelando os abusos contra os seres humanos.
Silvia Cattori : Disse, no início, que se sentia bem. Mas, depois de uma experiência tão horrível, e após ter sido libertado sem um pedido de desculpas por parte dos seus torcionários, como pode evocar esse passado sem ressentimentos nem rancor?
Sami El Haj : Claro que esse passado é extremamente duro e a minha situação pessoal é difícil. Mas quando penso naqueles que ainda estão em Guantánamo, que sentem a falta das suas famílias, de que não têm nenhuma notícia, penso que a minha situação, por muito difícil que seja, é melhor que a deles.
Não posso esquecer que deixei em Guantánamo irmãos que estão destruídos, que enlouqueceram. Penso em particular num médico iemenita que vive todo nu na sua célula, porque perdeu a razão.
Silvia Cattori : Que tipo de torturas vos infligiam eles?
Sami El Haj : Todo o tipo de torturas físicas e psíquicas. Como os detidos eram todos muçulmanos, a administração do campo submetia¬ nos a muitas vexações e humilhações tocando a religião. Vi, com os meus próprios olhos, soldados rasgar e deitar para a sanita o Corão. Vi-os, durante os interrogatórios, sentar-se em cima do Corão, enquanto não respondíamos às perguntas. Insultavam as nossas famílias, a nossa religião. Faziam de conta que telefonavam ao nosso Deus, para lhe pedir, troçando de nós, que nos viesse salvar. O único Imã do campo foi acusado de conivência com os detidos e foi despedido, em 2005, por se ter recusado a dizer aos visitantes que o campo respeitava a liberdade religiosa.
Espancavam-nos. Cobriam-nos de insultos racistas. Fechavam-nos em quartos frios, com temperaturas abaixo de zero, com uma única refeição fria por dia. Penduravam-nos pelas mãos. Impediam-nos de dormir e, quando dormitávamos, batiam-nos na cabeça. Mostravam-nos filmes ilustrando sessões de torturas atrozes. Mostravam-nos fotos de torturados falecidos, tumefactos, sanguinolentos. Mantinham-nos sob a ameaça de nos transferir para outro lado para nos torturar ainda mais. Regavam-nos com água gelada. Forçavam-nos a fazer a saudação militar ao som do hino dos Estados Unidos. Forçavam-nos a vestir roupa de mulher. Forçavam-nos a ver fotos eróticas. Ameaçavam-nos de violação. Punham-nos nus e faziam-nos andar como burros, mandando-nos ir para aqui e para acolá. Pediam-nos para nos sentarmos e para nos levantarmos 500 vezes seguidas. Humilhavam os detidos envolvendo-os em bandeiras dos Estados Unidos e de Israel; o que era uma forma de nos dizer que estávamos encarcerados no quadro de uma guerra religiosa.
Quando, coberto de piolhos e sujo, o detido era levado da sua célula para ser submetido a novas torturas, a fim de levá-lo a colaborar, ele acabava por dizer qualquer coisa e não saber mais quem era.
Fui submetido a mais de 200 interrogatórios sob tortura. 95% das perguntas diziam respeito à Al Jazeera. Queriam forçar-me a aceitar trabalhar como espião no seio da Al Jazeera. Em troca, ofereciam-me a nacionalidade estado-unidense, para mim e para a minha família, e um salário em função dos meus resultados. Recusei. Repeti-lhes que o meu ofício era o de jornalista, não o de espião, e que tinha o dever de dar a conhecer a verdade e obrar para que os direitos humanos fossem respeitados.
Silvia Cattori : Hoje, pode perdoar os seus torcionários?
Sami El Haj : Claro que lhes vou perdoar se fecharem Guantánamo. Mas se continuarem a fazer mal, vou dirigir¬ me a um tribunal e intentar uma acção contra eles.
Apesar de saber que a administração Bush fez tanto mal, continuo a pensar que não é tarde demais para que essas pessoas corrijam os seus erros.
Há que saber distinguir entre a administração e o povo. Os detidos de Guantánamo sabem que têm amigos nos Estados Unidos, como o advogado que veio a Guantánamo e que se bateu pelo meu caso.
Silvia Cattori : Ficamos com a sensação de que não conseguiram quebrá-lo?
Sami El Haj : Porque não estou sozinho. Há pessoas por trás de mim; este sentimento dá-me força. Na prisão, fui buscar a minha força à convicção de que nenhum homem livre pode aceitar ser colocado nessa situação de inferioridade e de desumanização. Experimentamos sentimentos de dor, de pena, mas guardamos a esperança de que haverá uma saída; e a ideia de que, mesmo na prisão, se pode continuar o trabalho de jornalista, acaba por limitar o sofrimento.
Silvia Cattori : Enquanto estava em Guantánamo, sabia que havia pessoas no exterior a lutarem para que fosse libertado?
Sami El Haj : Na verdade, não as conhecia, porque, dentro da prisão, as notícias são difíceis de obter, mesmo quando se tem um advogado, porque ele está proibido de vos informar. Hoje conheço as pessoas que trabalham pelos direitos humanos, e aquelas que não gostam da administração Bush. Creio que as suas vozes são cada vez mais fortes.
Silvia Cattori : Quando o viu, o seu irmão disse que parecia um homem velho. É o que sente?
Sami El Haj : Naquilo que me diz respeito, vivo pelo coração e não pelo meu rosto ou pelo meu corpo. Sinto o meu coração sempre jovem e mais forte que antes.
Silvia Cattori : Portanto, foi uma experiência muito dolorosa, mas no fundo regressou rico de um potencial insuspeitável?
Sami El Haj : É exacto. Do tempo passado em Guantánamo, soube tirar algum proveito. Antes de ir para Guantánamo, tinha apenas uma pequena família; agora tenho uma grande família, ganhei centenas de amigos no mundo inteiro. Isso é muito positivo. Perdi seis anos e seis meses, mas agora tenho mais amigos.
Silvia Cattori : Ainda é considerado como um “inimigo combatente” [3]?
Sami El Haj : Não sei, mas quando me libertaram, disseram : Agora já não é perigoso para os Estados Unidos.
Silvia Cattori : E o seu nome já não consta na “lista de terroristas”?
Sami El Haj : Não sei. Penso que, na mentalidade deles, todos os que são qualificados de “terroristas” vão permanecer “terroristas”. E que, agora, têm medo de nós porque nos fizeram mal sem nenhuma razão.
Silvia Cattori : Pensa que os agentes da CIA vão continuar a espiá-lo?
Sami El Haj : Sim. Na verdade, não tenho nada contra este país e o seu povo. Se a administração Bush corrigir os seus erros, não me vou queixar de nada.
Silvia Cattori : Ficou surpreendido quando, no momento em que saiu, um oficial do Pentágono, vendo-o com uma bengala, o acusou de ser manipulador?
Sami El Haj : As pessoas do Pentágono alegam que os prisioneiros de Guantánamo são malfeitores, mas, na verdade, 500 já voltaram para casa. Como é que os teriam deixado ir embora se realmente fossem malfeitores? Eles mentem sempre.
Silvia Cattori : Dois outros sudaneses foram libertados ao mesmo tempo que você, Amir Yacoub Mohamed al Amin e Walid Mohamed. Como estão agora?
Sami El Haj : O governo e a administração do Sudão trataram-nos muito bem. Acolheram-nos aos três directamente no aeroporto. Apesar de os Estados Unidos me terem tirado o passaporte, deram-me outro no espaço de duas horas e não me impediram de viajar para fora do Sudão.
Silvia Cattori : Em Guantánamo, os militares chamavam-no pelo nome ou pela sua matrícula de prisioneiro: “numero 345”?
Sami El Haj : Nunca me chamavam pelo meu nome, mas por “three, four, five”, o meu número de matrícula. Nos últimos tempos chamavam-me “Al Jazeera”. Só os delegados da Cruz Vermelha me chamavam pelo meu nome.
Silvia Cattori : Esses delegados visitaram-no frequentemente?
Sami El Haj : Quando estavam autorizados a visitar-nos, todos os dois ou três meses; falava com eles, traziam-me cartas da minha família.
A administração Bush e os oficiais encarregados de o torturar sabiam que era um homem honesto, um simples jornalista desejoso de dar a conhecer as brutalidades que eles cometiam contra o povo afegão, não um “terrorista”. Sabe por que razão lhe fizeram tanto mal?
Lá a maioria dos soldados obedeciam às ordens dos seus oficiais. Torturavam sem estado de alma. Mas devo à verdade dizer que alguns deles eram bons. Alguns soldados sabiam usar o seu cérebro.
Silvia Cattori : Os agentes da CIA redigiram um relatório sobre as torturas em Guantánamo. Quando o torturavam, tinha a sensação de ser observado, que faziam experiências consigo?
Sami El Haj : Estávamos sob a vigilância constante de médicos psiquiatras em uniforme militar. Não estavam presentes para nos tratar, mas para participar nos interrogatórios, para observar os torturados de forma que nenhum pormenor no comportamento do prisioneiro lhes escapasse. Era sob a responsabilidade do coronel Morgan, médico especialista de psiquiatria, que se faziam os interrogatórios. Este coronel foi colocado em Guantánamo em Março de 2002. Tinha servido na prisão afegã de Bagram desde Novembro de 2001. Dava indicações aos oficiais que nos interrogavam, estudava as nossas reacções, anotava todos os pormenores para, depois, adaptar as torturas às personalidades de cada detido, o que deixou marcas profundas no psiquismo deles.
Falei com eles. Disse-lhes que a missão de médico era nobre, era ajudar as pessoas e não torturᬠlas. Reponderam¬ me: «Somos militares, devemos obedecer às regras; quando um oficial me dá uma ordem, devo executᬠla, senão metem¬ me na prisão como a si; quando assinei o contrato com o exercito, nesse momento, percebi que devia obedecer em tudo».
Silvia Cattori : Entre as torturas praticadas em Guantánamo, vejo semelhanças com as torturas praticadas em Israel sobre os prisioneiros políticos palestinianos. A “tortura” do sono, por exemplo, é a especialidade deles.
Sami El Haj : Penso que a maior parte dos Serviços de informações do mundo inteiro foram a Guantánamo. Vi britânicos, vi canadianos. Vieram para se concentrarem nos interrogatórios, e também para fornecer aos oficiais da CIA e do FBI conselhos sobre a forma de torturar, a forma de interrogar com base nas suas experiências.
Silvia Cattori : Consegue dormir tranquilo?
Sami El Haj : Já não é como antes de Guantánamo. Não durmo mais do que 3 a 4 horas. Hoje, quando estive com pessoas da Cruz Vermelha, pedi-lhes que me ajudassem a ultrapassar as minhas dificuldades, que me aconselhassem um médico que me possa examinar. Sete anos não são pouco.
Silvia Cattori : A grave da fome, não foi um pouco como uma tortura dirigida contra si próprio? Porquê tê-la feito durante períodos tão longos, quando os seus guardiães se serviam disso para lhe infligirem ainda mais humilhações e sofrimentos?
Sami El Haj : Porque pensávamos que não podíamos ficar silenciosos, que devíamos fazer algo. Só tínhamos essa maneira de ser ouvidos. É claro que a greve da fome é um meio de acção muito penoso, muito difícil de suportar. Mas quando se está privado de liberdade, há que lutar para obtê-la. Era a única coisa que tínhamos para dizer à administração Bush, que um detido tem dignidade, que não vive só de pão, que a liberdade é mais importante.
Silvia Cattori : Como é que as coisas se passavam quando vos alimentavam à força?
Sami El Haj : Quando havia mais de quarenta detidos a fazer greve da fome, a administração do campo tentava quebrar a sua resistência infligindo¬ nos ainda mais torturas. Éramos isolados em quartos gelados, despiam-nos, impediam¬ nos de dormir durante longos períodos. Duas vezes por dia os soldados amarravam-nos numa cadeira especial. Aplicavam-nos uma máscara na boca; introduziam-nos um tubo grosso no nariz, não no estômago. Enquanto a ração normal era de 2 latas, castigavam-nos injectando-nos 24 latas e 6 garrafas de água. O estômago, encolhido pelas longas greves da fome, não conseguia conter essas quantidades. Adicionavam produtos que provocavam diarreia. O detido, mantido preso na cadeira mais de 3 horas, vomitava, vomitava. Deixavam-nos no vomitado e nos excrementos. Terminada a sessão, arrancavam o tubo com violência; quando viam o sangue escorrer, riam-se de nós. Como utilizam tubos infectados, nunca limpos, os detidos sofrem de doenças deixadas por tratar.
Silvia Cattori : Foi graças a essa longa greve da fome que foi libertado?
Sami El Haj : Não foi só por causa dela, mas foi uma das razões que levaram a administração a libertar-me.
Silvia Cattori : O que pensar das confissões de Khaled Sheik Mohamed [4], que se acusa de ter organizado mais de 30 atentados em 17 países?
Sami El Haj : Talvez o tenham torturado ao ponto em que já não somos nós próprios. Nunca me encontrei com ele, porque o colocaram num campo especial. Um oficial disse-me que foi duramente atingido; você pode duvidar: torturaram¬¬ no terrivelmente.
Silvia Cattori : Quando os estados Unidos afirmam que ele é o “terrorista n.º 3 da Al-Qaeda”, isso tem alguma coisa a ver com a realidade?
Sami El Haj : Verdadeiramente, não acredito em nada do que vem da administração Bush. Porque, também a mim, me acusaram de ser um “terrorista”. E sei melhor que ninguém do que se trata. Esta gente mente demasiado. Nunca acredito em nada do que vem desta administração. Conheço um prisioneiro que foi tão torturado, que no final disse : sou Ossama Bin Laden. Dizia o que eles queriam para fazer parar as torturas.
Silvia Cattori : Então, a Al-Qaeda, será ela uma invenção dos serviços de informações ocidentais?
Sami El Haj : Pelo que sei, na minha vida, nunca conheci ninguém que me dissesse: pertenço à Al-Qaeda.
Em Guantánamo, conheci a maior parte dos detidos, porque a política dos nossos guardas era de nunca deixar os detidos viver juntos na mesma célula muito tempo. Transferiam¬ nos todas as semanas; assim, conhecíamos novas pessoas. Todas as pessoas que conheci em Guantánamo são pessoas pacíficas.
Desde que saí, falei com mais de 100 deles. Os que eram casados recomeçaram as suas vidas, os solteiros casaram¬ se.
Silvia Cattori : Aqueles que procuram forças nas orações têm mais hipóteses de escapar à loucura?
Sami El Haj : Claro! Se sentimos que alguém nos acompanha, sobretudo se é Deus, seremos pacientes e, a qualquer momento, lembrar¬ nos¬ emos de que Deus tem mais poder que os seres humanos. Devo rezar a Deus e agradecer- lhe. Devo também agradecer a todas as pessoas que me apoiaram. Penso que, mesmo que passasse a minha vida a agradecer, não conseguiria agradecer¬ lhes a todos. Agora, através do meu trabalho em prol dos direitos humanos, talvez possa contribuir para tornar a vida de outras pessoas mais feliz.
Silvia Cattori : Creio que os media e as ONG, entre nós, não deram a devida importância à defesa dos direitos destes prisioneiros muçulmanos [5]. Durante muito tempo, denunciar os abusos cometidos contra eles, era visto como um sinal de simpatia para com os “terroristas”. Sabe que os responsáveis da “Repórteres sem fronteiras”, por exemplo, cuja missão é proteger os jornalistas, foram criticados por terem esperado cinco anos antes de falar do seu caso [6]?
Sami El Haj : Infelizmente, as pessoas acreditaram no que dizia a administração dos Estados Unidos. Agora que perceberam que isso era mentira, irão corrigir. Como lhe disse, se alguém comete um erro, não é um problema; o problema é perseverar no erro.
Se os jornalistas não se sentem tocados quando jornalistas são aprisionados no quadro da sua profissão, quiçá um dia, esses mesmos jornalistas encontrar-se-ão em prisão e não terão ninguém para defendê-los. Devemos trabalhar juntos, devemos ocupar-nos de cada caso. Se sabemos que um jornalista foi preso, devemos apoiá—lo, independentemente da sua cor ou da sua religião.
Enquanto jornalista, quero empenhar-me em apoiar os jornalistas que trabalham para a defesa dos direitos e das liberdades. Há um imenso trabalho pela frente. Devemos empenhar¬ nos totalmente para libertar as pessoas encarceradas em Guantánamo e nas numerosas prisões secretas onde a administração Bush priva dos seus direitos dezenas de milhares de outras.
Esta experiência em Guantánamo marcou-nos profundamente. O que quero reter é a necessidade e a importância da defesa dos direitos do homem. Depois de todo o mal que foi feito, penso que toda a gente se sente mais tocada. Não é aceitável abandonar pessoas que sofrem. Temos a obrigação imperiosa de nos solidarizar com elas.
A Al Jazeera conta associar-se aos meios de comunicação livres para coligir informações em torno dos direitos dos homens e das liberdades. Peço a todos os jornalistas para cooperar connosco neste sentido. Havia mais de 50 nacionalidades em Guantánamo; é uma questão mundial, e não uma questão deste ou daquele detido.
É vergonhoso que, na nossa sociedade, inocentes que foram vendidos se encontrem fechados em jaulas, e que esta violação dos direitos fundamentais seja o feito de um país que pretende ser o garante dos direitos e das liberdades.
Não sinto qualquer ódio. Respeitamos os cidadãos dos Estados Unidos. É o governo actual que deve assumir as consequências destes actos.
Os direitos Humanos e a segurança não são separáveis, não pode haver segurança sem o respeito pelos direitos fundamentais.
Silvia Cattori : Tem razão em apelar aos homens honestos e aos jornalistas a não aceitarem que as leis internacionais sejam violadas e que sejam infligidos tratamentos cruéis e degradantes a seres humanos. Mas esta política não teria podido durar se não tivesse o apoio tácito dos governos das grandes potências; foi com o assentimento deles que pessoas designadas como “inimigos combatentes” foram torturadas [7]. Todos os países europeus, por exemplo, subscreveram o conteúdo do “Patriot Act”, promulgado após o 11 de Setembro nos Estados Unidos. Foi no quadro desses Acordos secretos que os agentes da CIA e do FBI puderam raptar e torturar, na Europa, milhares de inocentes como você.
Sami El Haj : Quero dizer-lhe o seguinte: não acredito na acção dos governos. Porque qualquer governo, de qualquer país, prefere governar sem se confrontar com os verdadeiros problemas das pessoas. Talvez, por vezes, intervenham para dizer que apoiam tal causa, mas, no fundo, não a apoiam. É apenas por razões de oportunismo político que se pronunciam. E talvez também afirmem apoiar, por cálculo político, uma coisa em que não acreditam. Esqueça os governos, porque seguem a sua política. Sim, devemos continuar a trabalhar duro para defender os direitos e as liberdades de cada um.
Silvia Cattori : Podemos concluir dizendo que os "terroristas", tais como foram apresentados pela administração Bush e os meios de comunicação, não existem?
Sami El Haj : Posso assegurar-lhe que os detidos de Guantánamo que conheci não são “terroristas”. Tive a oportunidade de falar com eles, de os conhecer: são pessoas pacíficas.
Silvia Cattori : Então encarceraram-no, assim, porque era preciso mostrar aos outros países europeus que os “terroristas” muçulmanos efectivamente existiam?
Sami El Haj : Fomos presos após o atentado do 11 de Setembro, de que ninguém até agora pode dizer quem foi o autor. Bush não queria dizer: cometi erros, não assegurei a segurança correctamente. Disse: vamos iniciar uma guerra contra esse “terroristas”. Resultado: não trouxe segurança a ninguém.
Mandou bombardear o Afeganistão, enviou os seus soldados fazer a guerra a povos inteiros, mas não prendeu as pessoas que tinha estabelecido prender. Pagou quantias de dinheiro aos paquistaneses para que, em troca, eles começassem a prender pessoas e a enviá-las à sua administração.
89% das pessoas, em Guantánamo, foram compradas por dinheiro sonante às autoridades paquistanesas. Onde as encontraram? Encontraram-nas no Paquistão, não no Afeganistão.
Silvia Cattori : Esses prisioneiros foram depois torturados, com a promessa de pararem, se aceitassem tornar-se espiões ao serviço da CIA!? É um sistema aterrorizador?!
Sami El Haj : Sim. Esperemos que Bush deixe a administração. Quando tenha deixado a sua poltrona, tenho a certeza de que muita gente vai falar das suas más acções.
Silvia Cattori : O seu testemunho é muito importante. Massacraram a sua juventude. E tem a magnanimidade de transformar este desastre em algo construtivo. Recusa considerar-se como vitima. Sois verdadeiramente excepcional! Muita gente na prisão deve esperar a ajuda de pessoas com as suas qualidades.
Sami El Haj : Temos que trabalhar duro, para que aqueles que continuam a apoiar a administração Bush acabem por se sentir envergonhados pelos seus actos. Nesse momento, mais ninguém os irá ajudar. E quando mais ninguém os ajudar, pararão.
Todo a história de Guantánamo é uma mancha negra. A administração Bush quis iludir a opinião dizendo que éramos terroristas. Ora, esses homens que foram encarcerados, são na sua maioria como eu, inocentes.
Silvia Cattori : Obrigado por nos ter concedido esta entrevista.
* * *
Cada um pode constatᬠlo: os presumidos “terroristas” que as nossas sociedades perseguem são na realidade vítimas.
Sami El Haj toca-nos pela sua sabedoria, a sua maturidade e a sua elevação de pontos de vista. Faz-nos pensar no Cristo na cruz, pois o seu calvário não acabou; as feridas são demasiado profundas.
A sua delicadeza contrasta com a descrição dos presumidos “terroristas” que as autoridades e os meios de comunicação tradicionais nos transmitiram durante todos estes anos.
Sem reivindicações, nem queixumes; o seu relato é sóbrio e sem ênfase. Deveria poder fazer mudar as coisas. Coloca a tónica na acção a conduzir para fazer sair, sem tardar, aqueles que permanecem cativos. Diz e repete que não encontrará descanso enquanto não forem libertados todos os detidos de Guantánamo.
Doravante, há urgência e obrigação moral de reagir, de explicar com honestidade o que se passou realmente, a advogar por que as nossas sociedades adoptem uma política onde o mundo árabe e muçulmano possa esperar outra coisa que guerras e racismo.
Se o conjunto dos meios de comunicação suíços relataram correctamente a passagem por Genebra de Sami El Haj, não é menos verdade que a televisão pública local (TSR) minimizou o acontecimento e não se dignou a convidᬠlo para os seus estúdios. Note-se– isto explica aquilo? – que os redactores da TSR deram, nos últimos sete anos, abundantemente a palavra aos “bons árabes”, como Antoine Basbou ou Antoine Sfeir, que vão repetindo aquilo que os nossos redactores dizem ou querem ouvir, trazendo assim um apoio às teses belicistas que têm, ao que parece, o seu favor.
Os raptos, os centros de torturas como Guantánamo, Abou Ghraib, Bagram, Kandahar não são, como nos deixam frequentemente acreditar, simples “deslizes” [8], mas sim a expressão de uma política criminosa que serve os interesses ocultos de dois Estados principalmente: os estados Unidos e Israel. Podemos aliás perguntar¬ nos se este último não será o único vencedor destas guerras, que devastaram povos inteiros, mas também arruinaram as finanças e a imagem dos Estados Unidos no mundo.
Esta “guerra contra o terrorismo”, de que nos enchem os ouvidos, é uma guerra criminosa; uma guerra manipulada pelas grandes potências e os seus serviços de informações.
Há cada vez mais pessoas a perceber que as sanções da ONU, as “listas de terroristas” que a Europa também estabeleceu, as campanhas de difamação contra os muçulmanos, são instrumentos de manipulação da opinião, destinados a manter artificialmente um clima conflitual.
De resto, os atentados do 11 de Setembro serviram de pretexto imediato para orientar a política internacional de Telavive e de Washington no sentido de objectivos militares há muito programados. Serviram nomeadamente para liquidar todo o tipo de resistência à sua política criminosa. Começando pela resistência palestiniana e muçulmana.
Após o desmantelamento do império soviético, o mundo islâmico foi designado como “novo eixo do mal”. Desde o início dos anos 90, os Estados Unidos e Israel manobraram de forma a suscitar o medo e a intolerância contra os muçulmanos e a incentivar os serviços secretos de vários países, a infiltrá-los, manipulá-los, financiá-los, e a encorajar “desequilibrados” a cometer atentados; para, em seguida, apontar-lhes o dedo, justificar medidas coercivas, raptos, torturas e detenções arbitrárias.
Desde 2001, enquanto os principais meios de comunicação faziam complacentemente o eco de campanhas contra “anti-semitas” a maior parte das vezes imaginários, dezenas de milhares de muçulmanos eram raptados, encapuçados, aprisionados, moídos por torcionários com o fim de forçá-los a aceitar trabalhar como espiões para os serviços de informações estatais. Tudo isto decalcado dos métodos dos serviços secretos israelitas do Shin Beth [9], que funcionaram tão bem para esmagar uns quantos 700.000 palestinianos aprisionados arbitrariamente, durante estes últimos 40 anos.
É esta sociedade que queremos?
O que é mais lamentável e desalentador nesta triste história, é o facto de que os governos europeus se serviram desta pretensa “ameaça islamita” para se desembaraçarem de um bom número de protecções constitucionais e aplicaram, eles também, as medidas ilegais ditadas por Bush, permitindo deste modo à CIA raptar muçulmanos no seu território, sabendo que iam ser entregues a centros de torturas, fora da legalidade e por tempo indeterminado.
O que nos interroga igualmente é o lugar que os chefes de redacção deram, e continuam de dar, a estes pretensos “especialistas em terrorismo” que alimentaram o fantasma do “perigo islamita”. “Especialistas” que retomam a propaganda estado-unidense, que associam Islão e “terrorismo”, quando sabem perfeitamente que a estratégia de Washington e de Telavive é de associar, sem nenhuma prova, muçulmanos a “terroristas” [10].
Todos nos lembramos das campanhas enviesadas, destinadas a vilipendiar e destruir a carreira de dois irmãos : Hani e Tariq Ramadan, nomeadamente em França e na Suíça. Nos outros países houve montagens semelhantes.
Se não queremos uma sociedade pervertida, baseada na mentira, que autoriza os raptos, os centros de torturas, os assassinatos dirigidos, as estratégias de infiltração, destinadas a transformar pessoas em informadores, é tempo de reagir.
Ver Sami El Haj, esse retornado do inferno, apelar, sem ódio nem espírito vindicativo, aos jornalistas para trabalharem para fazer triunfar os direitos humanos, para apagar esta “mancha negra da memória”, é uma grande lição.
A nossa “civilização ocidental”, as nossas “democracias” tão louvadas, em nome das quais se fizeram tantas guerras e se cometeram tantos crimes, os nossos meios de comunicação social “livres”, terão doravante que contar com todos estes retornados que apelam ao nosso despertar.
Silvia Cattori
(Blogue da silvia cattori)
Tradução de Ana da Palma (19/07/08):