sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Bandeira

A última entrevista de Manuel Bandeira publicado em entrevistas Numa tarde de março de 1964, três décadas depois de ter publicado o poema que lhe consagraria: “Vou-me embora pra Pasárgada”, o poeta Manuel Bandeira fala ao jornalista Pedro Bloch, em sua última longa entrevista Ninguém sabe explicar como aquele homem, castigado, tantos anos, pela doença, não amargou. Disse Mário de Andrade: “Eu fico espantado de como há certos homens no mundo! Tu, por exemplo. Essa sublime bondade inconsciente, bem no íntimo, de quem nem sabe que é bom”. Vou além. Acho que Manuel Bandeira nem tem plena consciência de sua imensa envergadura de gente e poeta. Acho que, talvez, os quatro anos que viveu em sua terra, Recife, é que explicam, mais que os males, o homem de hoje. Diante de mim está o gigante de nossa poesia: Manuel Bandeira, em seu modesto apartamento, atulhado de livros e calor humano, na Avenida Beira-Mar, no Rio. Do bem que lhe querem todos, da ternura que desperta em quem dele se aproxima, basta dizer que Mário de Andrade só o tratava de Manu ou Manuelucho; Rodrigo Melo Franco de Andrade lhe deu o nome de Manula; Madame Blank, sua amiga de almoço de todo o dia, o trata de Mané. Creio que nunca ninguém teve tanto apelido, tanta gente querendo chegá-lo à sua amizade. (Edição e seleção de poemas Carlos Willian Leite). Manuel Bandeira: Do Recife tenho quatro anos de existência consciente, mas ali está a raiz de toda a minha poesia. Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros quatro anos de minha vida é que vejo o vazio dos últimos. Rua da União... Como eram lindos os montes das ruas da minha infância Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal) Atrás de casa ficava a Rua da Saudade... Manuel Bandeira: Meu nome todo é Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho. Fisicamente me pareço com mamãe (D. Francelina): míope, dentuça como eu; no resto sou como meu pai Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? — O que eu vejo é o beco Manuel Bandeira: Sabe, que meu avô reprovou Castro Alves num exame? Erámos três irmãos. Os mais velhos (Antônio e Maria Cândida) já não existem. Saí do Recife com 2 anos. Deles nada recordo. Viemos pro Sul e com 6 (quando da revolta da Esquadra, em 1892) meu pai nos levou de volta pra casa de meu avô. Fui com 6 e voltei ao Rio com 10. Mas esses quatros anos... Essa coisa de viver, na infância, num lugar e, depois, ser arrancado dele, isola essa vida dentro da vida da gente. Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? — Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente. Manuel Bandeira: Papai, no Rio, não teve sorte. Aos 40 anos passou por crise religiosa. Dele recordo com intensidade o dia em que exclamou olhando, pra mim, menino de 6 anos: “É impossível que este menino não saiba ler”. Trancou-se comigo na biblioteca, por duas horas. Saí de lá lendo. Outra coisa que me tocou fundo foi ouvi-lo exclamar ao morrer: “Meu Jesus Cristinho!” E eu conto no poema: “Mas Jesus Cristo nem se ‘incomodou!’” Vai por cinquenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A formas a forma. Manuel Bandeira: Foi o livro de D’Amicis [Edmondo De Amicis, escritor italiano] uma das coisas que mais me marcaram. Ali descobri a literatura e a vida. Isto no Recife. No Rio, eu e meu irmão fomos fazer exame para o Ginásio Nacional (Pedro II). Na casa das Laranjeiras, onde morávamos, nunca faltou pão; mas a luta era dura. Nunca briguei com moleque da rua, mas me impregnei do realismo do povo. (Mais tarde conheci a Lapa.) Comecei fazendo versos pretensamente humorísticos. Com a puberdade, versos de amor. Meus namoros eram sempre calados, namoro de caboclo. E eu, menino ainda, vivia amando moças já feitas. Um dia perguntei a meu tio se Vésper rimava com Cadáver. Ele disse que não. Descobri, mais tarde, que meu ouvido é que estava certo. Tanto se rima consoantemente como toantemente e de outras maneiras. Aprendi que a boa rima é a que traz ao ouvido uma sensação de surpresa, não de raridade, senão de uma espécie de resolução musical. Como nas “Pombas” [poema de Raimundo Correia]: “Raia, sanguínea e fresca, a madrugada”. Entre outros eu tinha como colegas do Pedro II o professor [Antenor] Nascentes, o Artur Moses, o Souza Silveira, o Lopes da Costa. Acabei bacharel em Letras. Ó caro ruído embalador, Terno como a canção das amas! Canta as baladas que mais amas, Para embalar a minha dor Manuel Bandeira: Como ainda não havia um bom curso de arquitetura no Rio (eu queria ser arquiteto) fui estudar em São Paulo. Aos 18 anos, nas férias do 1º ano para o 2° da Politécnica, fiquei tuberculoso. Durante muitos anos vivi provisoriamente. Hemoptises, tosse, febre, desesperança. Andei de ceca em meca, alopatia, homeopatia, e em junho de 1913 segui para um sanatório suíço (Clavadel). Meu pai ganhava um conto e novecentos. A passagem, ida e volta, custava 900 mil réis. O sanatório, com balcão e quarto, 360 mil réis que valiam 600 francos suíços. Lá fiquei até outubro de 1914. Com a guerra o franco dobrou e eu não pude continuar lá. Foi quando perguntei ao Dr. Bodmer: “Quanto tempo de vida o senhor me dá?” A resposta: “O senhor tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida, mas nenhum sintoma alarmante. Pode durar uns cinco... dez anos”. Calcule! (“Então, doutor!, não é possível tentar o pneumotórax? — Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”) Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse. Manuel Bandeira: Na Suíça, conheci, como companheiro de sanatório, o poeta Paul Éluard e Gala [Gala Dalí], que veio a ser sua esposa e, atualmente, é a mulher de Salvador Dalí. Não quero mais saber do lirismo que não é libertação. Manuel Bandeira: Voltei. Mal tinha dado pra conhecer Paris. Só 44 anos depois pude voltar à Europa. Aqui no Rio eu ficava até tarde, deitado na praia, no Leme, diante das recriminações de todos. Em 1917 publiquei meu primeiro livro, “A Cinza das Horas”, 200 exemplares me custaram 300 mil réis. Em “Carnaval” (publicado em 1919), depois, eu dizia: “Quero beber! Cantar asneiras!”. Pois um crítico observou: “Conseguiu plenamente o que queria”. Nestes dois volumes e em “Ritmo Dissoluto” estão poemas feitos em estado de lucidez. A partir de “Libertinagem” é que me resignei à condição de poeta. Tomei cedo consciência de que era um poeta menor, consciência de minhas limitações. Devo dizer que aprendi muito com os maus poetas: o que devemos evitar. Ninguém passa na estrada. Nem um bêbado. No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras. Sombras de todos os que passaram. Os que ainda vivem e os que já morreram. Manuel Bandeira: Ao voltar da Suíça eu era um inválido. Basta dizer que papai passou pra mim o montepio de 500 mil réis. Depois dos 50 é que eu pude começar a trabalhar, a ganhar a vida. Fiscal de ensino. Depois fui lecionar Literatura no Pedro II, até 1942. San Tiago Dantas, posteriormente, me convidou para ensinar Literatura Hispano-Americana na Faculdade de Filosofia, onde permaneci até 1956. Traduzi muito, fiz muita crônica, crítica musical, crítica de arte. Mas, durante a minha doença, dependi de meu pai (até que morreu em 1921) e do montepio. Por falar em crítica musical, ocorre-me que sempre fui muito sensível ao desenho e à música. Na verdade, faço versos porque não sei fazer música. Quando morei na Rua do Curvelo conheci melhor Ribeiro Couto, que me aproximou da nova geração literária do Rio e de São Paulo: Ronald, Álvaro Moreyra, Di Cavalcanti, Mário e Oswald de Andrade. Em 1921 Mário veio ler aqui sua “Pauliceia Desvairada”. Foi a última influência que recebi. O que veio depois me encontrou calcificado. Também não quis participar da Semana da Arte Moderna. Pouco me deve o movimento. O que devo a ele é enorme. Mas eu falava de Ribeiro Couto, um dos responsáveis pela minha entrada para a Academia. No tempo da Rua do Curvelo era ele quem me ajudava a ajustar-me ao mundo dos sãos, porque a doença gerara em mim um sentimentalão. Andorinha lá fora está dizendo: — “Passei o dia à toa, à toa!” Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste! Passei a vida à toa, à toa... Manuel Bandeira: Não. Nunca fui um antiacadêmico. O problema é que eu gostava de tomar minhas licenças com a língua. Não aceito que não se possa dizer “me dê isso”, “me dê aquilo” se até o Laet [Carlos de Laet] dizia. Nada mais gostoso que: “pra mim brincar”. Todos os brasileiros deviam querer falar como os cariocas que não sabem gramática. “Ele já mo deu”... é horrível! Horríveis também são quiçá e alhures. A Rua do Curvelo me ensinou muitas coisas. Foi ali que, vendo os moleques de rua, reaprendi os caminhos da infância. A mim sempre agradou o coloquial e até o baixo calão. Meu coração está sedento De tão ardido pelo pranto. Dai um brando acompanhamento À canção do meu desencanto. Manuel Bandeira: Em 1921, papai morto, continuei vivendo com 500 mil réis. Outro dia, fui comprar um queijo: custava 550! Em 1940, houve vaga na Academia, Ribeiro Couto voltou à carga. Eu, inspetor de ensino, tinha perdido o montepio: — os 500 mil réis exatos com que a Academia me acenava. Juntei o meu desejo de segurança ao respeito pela Academia e venci o medo de conspurcá-la com os meus pronomes. (Fora dali, onde só tenho amigos diletos, faço programas e crônicas para a Rádio Ministério da Educação.) É que na tua voz selvagem, Voz de cortante, álgida mágoa, Aprendi na cidade a ouvir Como um eco que vem na aragem A estrugir, rugir e mugir, O lamento das quedas-d'água! Manuel Bandeira: Um dos mais chegados é o Rodrigo Melo Franco de Andrade. Almoço todos os dias com uma cara amiga, de sadios 84 anos, Madame Blank. Já ao Drummond eu quero um bem imenso, mas nunca sentei na mesa dele pra almoçar. Nem ele na minha. Nos admiramos muito, mas não temos convivência doméstica. Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus — ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Manuel Bandeira: A minha poesia tem tomado um aspecto, assim de preparação para a morte. Estou com 77, vou fazer 78 em abril. Nasci a 19 de abril de 1886. Me sinto cansado. Faço algumas outras coisas, mas só no chão da poesia piso com alguma segurança. Estou perdendo a curiosidade. Prefiro ficar em casa a viajar. Do que imaginei ver só “Ronda Noturna”, de Rembrandt, ultrapassou a expectativa. As obras de arte, “Vênus de Milo” e o resto, de tão divulgadas, já não constituem mais surpresa. Não tenho a menor curiosidade pelo Oriente. Me sinto cem por cento Ocidental. Provinciano que nunca soube Escolher bem uma gravata; Pernambucano a quem repugna A faca do pernambucano; Poeta ruim que na arte da prosa Envelheceu na infância da arte, E até mesmo escrevendo crônicas Ficou cronista de província. Manuel Bandeira: Posso dizer que pouco se me dá, quando morrer, morrer completamente para sempre na minha carne e na minha poesia. Entretanto, já não será possível, para alguns de meus versos, aquela serena paz da morte absoluta, não por virtude própria, mas por culpa de Villa-Lobos (o primeiro a musicar verso meu), Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Lorenzo Fernandez, Jaime Ovalle, Radamés e tantos outros. Gosto de ser traduzido, de ser musicado, de ser fotografado. Criancice? Deus conserve minhas criancices. Morrer. Morrer de corpo e de alma. Completamente. Morrer sem deixar o triste despojo da carne, A exangue máscara de cera, Cercada de flores, Que apodrecerão — felizes! — num dia, Banhada de lágrimas Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte. Manuel Bandeira: Espiritualmente... minha filosofia é a de Einstein. “Minha religião — disse ele — consiste numa humilde admiração pelo espírito superior e sem limites que se revela nos menores detalhes que possamos perceber com nossos frágeis espíritos. Essa profunda convicção sentimental da presença de uma razão poderosa e superior revelando-se no incompreensível universo — eis a minha ideia de Deus.” Quando li isto, disse comigo mesmo: “É exatamente o que eu sinto”. Não compreendo a negação absoluta de Deus. Como é que veio essa coisa que não começa nem acaba? Tempo infinito... Espaço infinito... Uma coisa absurda que, no entanto, existe! O pardalzinho nasceu Livre. Quebraram-lhe a asa. Sacha lhe deu uma casa, Água, comida e carinhos. Foram cuidados em vão: A casa era uma prisão, O pardalzinho morreu. O corpo Sacha enterrou No jardim; a alma, essa voou Para o céu dos passarinhos! Manuel Bandeira: Não sei por que, hoje em dia, tenho pudor de fazer poemas de amor. Muitas vezes, isto se reflete na minha poesia. Não digo tudo, por discreto e a muitos parece hermético. É como se não quisesse que os outros entrassem na minha confidência, no meu segredo. Amei, sim. Mas casar não pude. Primeiro era a saúde. Depois... Minhas finanças. Meus amores não podiam levar-me ao casamento com quinhentos mil réis de montepio. Aquele pequenino anel que tu me deste, — Ai de mim — era vidro e logo se quebrou… Assim também o eterno amor que prometeste, — Eterno! era bem pouco e cedo se acabou. Nota: Entrevista concedida ao jornalista Pedro Bloch e publicada na revista “Manchete”, em março de 1964, e republicada no livro “Pedro Bloch Entrevista”, Bloch Editores, em 1989.

Ditadura

Posted: 08 Jun 2012 03:57 PM PDT Luiz Claudio Cunha – A força da palavra, a palavra da força Por Luiz Cláudio Cunha(*) Luiz Claudio Cunha: "Esta é a alentadora herança que fica: qualquer que seja o desafio imposto pela força, pelo silêncio, pelo arbítrio, sempre restará a palavra que redime" (Palestra de encerramento do XIV Congresso Internacional de Humanidades realizado na Universidade de Brasília, entre 19 e 21/10/2011) Agradeço à Prof. Dra. Elga Pérez Laborde o convite para falar neste Congresso Internacional de Humanidades cujo tema maior é “Palavra e cultura na América Latina: heranças e desafios”, com o foco específico na “Dimensão espacial e temporal da linguagem e da cultura nos contextos latino-americanos”. Eu tento aqui ligar os dois temas mostrando que a dimensão espacial de uma cultura latino-americana passa pela dimensão temporal da palavra usada nesse contexto. Não faço aqui uma construção teórica, apenas uma narrativa jornalística, contrapondo a resistência da palavra à truculência da força. Ou, a força da palavra contra a palavra da força. Enfoco neste texto episódios ocorridos na América do Sul, particularmente na região do Cone Sul. Nos episódios narrados, identifico a deturpação, a omissão, a censura ou o completo silenciamento da palavra diante da força bruta sob a ditadura em cinco países da região – Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai – durante a segunda metade do século 20. Inicio minha narrativa não com uma palavra, mas com um palavrão: – Me cago en Dios! Ninguém conhece o nome do jovem estudante que pronunciou a blasfêmia. Nem mesmo quem ouviu a frase, o jornalista uruguaio Rodolfo Porley Corbo. Ambos estavam lado a lado, mas encapuzados, pendurados como gado numa cela do Comando Geral do Exército, em Montevidéu, num dia qualquer de 1977. O que impressionou o jornalista de 31 anos não foi o desabafo angustiado do jovem, mas a indignada reação do militar que comandava a tortura: – Respete las ideas ajenas, mocito! Seria cômico, se não fosse trágico. A cena é talvez a lembrança mais marcante e surreal dos três anos e meio que Porley passou encarcerado em quatro estabelecimentos militares do país, somando 325 dias de prisão incomunicável, 149 deles vendado, paralisado pela dor, destroçado pela violência. Ao desembarcar na Suécia como asilado, em 1979, o jornalista foi recebido como “um embaixador perigoso dos vivos e dos mortos no cárcere”. Sua primeira entrevista em Estocolmo escancarou o perigo: – En mi país gobierna el poder de la locura ciega. Son los brutos, asesinos y verdugos quienes gobiernan. Las cárceles de mi país están llenas. Lo que vemos ahora es la deformación de la propia vida. Frase final Porley deixara para trás o Uruguai, o segundo menor país da América do Sul, com menos de três milhões de habitantes e cerca de 40 mil detidos em prisões e quartéis. Um uruguaio de cada 100 era vítima de torturas. No Brasil de hoje seria uma multidão de quase 2 milhões de torturados, o suficiente para lotar 25 estádios como o Maracanã. Aquele era o Uruguai que devia respeitar as ideias alheias, na cínica frase do torturador de Porley e seu companheiro de cela. Não era um drama particular do país que tinha o melhor padrão de prosperidade econômica da região, o maior nível de educação do continente. Era uma tragédia coletiva, transnacional, das ditaduras que em apenas uma ou duas décadas rebaixaram, em absurda ordem unida, os cinco países do Cone Sul na segunda metade do Século 20. Eram as nações de maior expressão política e força econômica da região, onde hoje vivem mais de 250 milhões de pessoas, duas vezes e meia a população dos outros oito países e três territórios da América do Sul. Ondas sucessivas de governos militares afogaram a democracia e a razão durante quase um século de arbítrio. Foram exatos 92 anos somados de ditaduras que eram de um e eram de todos: Paraguai (1954-89), Brasil (1964-85), Chile (1973-90), Uruguai (1973-85) e Argentina (1976-83). Na quimera do combate ao pensamento, as ditaduras caçaram o suspeito de sempre: a palavra – expressão das vozes, território da cultura, pátria da liberdade. A palavra é sempre perigosa, porque alarga as fronteiras, os idiomas, as ideias, hasta las ideas ajenas. A palavra ensina, mostra, revela, e por isso precisa ser escondida, aprisionada, silenciada. Em nome de sua santa cruzada contra a subversão, militares do Cone Sul conseguiram contrariar a lógica, inverter o pensamento, confundir a razão, subverter a palavra. A força da palavra, de repente, ficou encarcerada pela palavra da força. A força das ditaduras no Chile e no Uruguai conseguiu deformar pelo absurdo o significado de dois ícones da civilização: dignidade e liberdade. ‘Dignidad’ era o nome de uma colônia agrícola, 300 km ao sul de Santiago do Chile, fundada nos anos 1960 por um ex-enfermeiro da Luftwaffe nazista, acusado de abuso sexual contra crianças. Ali, o Exército de Pinochet fabricava gás sarin e a repressão treinava agentes em técnicas de interrogatório e tortura. ‘Libertad’ era o maior presídio masculino do Uruguai, 50 km a oeste de Montevidéu, um depósito de gente onde mofavam 600 presos políticos espremidos num prédio lúgubre de cinco andares povoados por gritos, medo, sofrimento, dor. A ditadura daqueles tempos conseguiu a proeza de transformar ‘Dignidad’ em sinônimo de tortura no Chile, conseguiu a façanha de tornar ‘Libertad’ um endereço de prisão no Uruguai. Naqueles tempos, naqueles lugares, ‘Dignidad’ e ‘Libertad’ machucavam a carne, sangravam a alma. A ditadura, só a ditadura, tem a força para deturpar a palavra, para inverter o sentido moral das coisas, para converter o nexo das ideias no seu avesso. Era “o avesso do avesso do avesso do avesso”, como cantava Caetano Veloso no verso final de Sampa, a mais completa tradução de São Paulo, onde “alguma coisa acontece no coração/… só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”. Quatro quilômetros ao sul da mais popular esquina paulistana estava o cruzamento das ruas Tomás Carvalhal e Tutóia, endereço do prédio mais sinistro da maior cidade do continente, a sede do DOI-CODI do II Exército, o mais notório centro de torturas do Brasil. O verso de Caetano capta o melhor retrato daquele antro: “Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto /Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto”. Ali sucumbiam os homens e as palavras diante do “horror, o horror!”, como na frase final de Kurz, a personagem de Joseph Conrad em Coração das Trevas. Perguntas e respostas O DOI-CODI da rua Tutóia foi criado e administrado por um major de Exército oculto pelo codinome de ‘major Tibiriçá’, o nome mais temido da repressão militar brasileira. Nos 40 meses em que comandou aquele lugar, símbolo mais sangrento dos anos de chumbo do Governo Médici, o então major Carlos Alberto Brilhante Ustra amargou 502 denúncias de tortura, uma a cada 60 horas, e lamentou 40 mortes de presos políticos, uma por mês. Apesar disso, hoje aposentado e refém de seu passado, o coronel da reserva Ustra continua livre, solto, impune. Na Argentina, um companheiro de farda de Ustra teve menor sorte. O general Jorge Rafael Videla, que começou em 1976 a ditadura de sete anos que eliminou pela força a palavra e a vida de 30 mil argentinos, foi destituído de sua patente militar e condenado em 2010 à prisão perpétua por crimes de lesa-humanidade, o que inclui a responsabilidade direta pelo fim de 31 pessoas – nove mortes menos do que as ocorridas na repartição de trabalho do major brasileiro. A força mata pessoas e palavras, mas também inventa um novo léxico para tentar abarcar a dura realidade que ela produz. No Chile de Pinochet emergiu uma nova palavra no dicionário da repressão, já coalhado de presos e mortos. Surgiu a figura intermediária e angustiante do “desaparecido” – que quase sempre era uma coisa e outra, preso ou morto, sequência e consequência um do outro, e que tinha sobre eles a vantagem de isentar o Estado de explicações e justificativas. Um “desaparecido” era uma dúvida, quem sabe um equívoco, talvez uma fatalidade, sempre um mistério que não incriminava ninguém e absolvia a todos – com exceção dos familiares da vítima, condenados ao desespero, subjugados pelo luto iminente, esmagados pela dor incessante. Um “desaparecido” só levantava suspeitas e mais perguntas, sem a garantia de certezas ou possíveis respostas. O “desaparecido” disseminava o medo. Do medo brotava o terror – e novas palavras. O dicionário do terror fabricava uma palavra ainda mais assustadora, mais aflita: os no-nombrados, os N.N., cadáveres sem nome, sem cara, sem história, exumados por um regime de força sem coragem, sem caráter, sem futuro, sem passado. As pessoas com nomes desapareciam separadamente e, de repente, emergiam do solo covas coletivas apinhadas de mortos sem nome. No auge de seu poder, em 1979, Videla fez uma contorcida exegese do que seria esta estranha criação do regime dos generais: – O que é um desaparecido? Como tal, o desaparecido é uma incógnita… Enquanto desaparecido, não pode ter nenhum tratamento especial: é uma incógnita, é um desaparecido, não tem identidade. Não está nem morto, nem vivo. Está desaparecido… Duas décadas depois, já no ostracismo, o general Videla foi menos hermético com as palavras que tentavam disfarçar a força bruta, estúpida, assassina. Confessou o general: – No, no se podia fusilar. ­Não havia outra maneira. É o que ensinavam os manuais da repressão na Argélia, no Vietnã. Estávamos todos de acordo. Dar a conhecer onde estão os restos mortais? Mas, o que é que poderíamos apontar? O mar, o rio da Prata, o Riachuelo? Pensamos, em dado momento, informar sobre a lista [de mortos]. Mas, aí, se os damos por mortos, em seguida virão as perguntas que não se podem responder. Quem matou? Onde? Como? O general mostrou que esse é o drama maior das ditaduras: agem e fazem coisas que geram perguntas para as quais não existem respostas, que não permitem explicações, que não resistem a dúvidas, que não admitem palavras. Neologismo afrontoso Em junho de 1977, em plena ditadura brasileira, o MDB, o partido da oposição, teve espaço para um programa institucional em rede nacional de TV. Alencar Furtado, o líder da bancada na Câmara dos Deputados, desenterrou os no-nombrados do Brasil num dos mais pungentes discursos da história brasileira, mostrando com palavras as perguntas sem respostas que a força do regime produzia. Com coragem, emoção e lirismo, disse o líder: – Hoje, menos que ontem, ainda se denunciam prisões arbitrárias, punições injustas e desaparecimento de cidadãos. O programa do MDB defende a inviolabilidade dos direitos da pessoa humana para que não haja lares em prantos; filhos órfãos de pais vivos – quem sabe?; mortos? – talvez. Órfãos do talvez e do quem sabe. Para que não haja esposas que enviúvem com maridos vivos, talvez; ou mortos, quem sabe? Viúvas do quem sabe e do talvez. A ditadura respondeu horas depois às perguntas do líder do MDB, cassando o mandato do deputado Alencar Furtado – apenas um dos 4.862 políticos cassados no Brasil por usar palavras que a ditadura não queria ouvir ou por fazer perguntas que a ditadura não podia responder. A ditadura brasileira fez isso, e fez muito mais. Investigou 500 mil cidadãos, deteve 200 mil por suspeita de subversão, prendeu 50 mil só nos primeiros cinco meses do golpe de março de 1964. Acusou 11 mil civis nos tribunais militares, condenou quase a metade deles. Torturou 10 mil pessoas só no DOI-CODI da rua Tutóia, exilou outro tanto, aposentou funcionários públicos insubmissos, expulsou professores inconvenientes, baniu estudantes indomáveis, reformou militares dissidentes, colocou interventores em 1.200 sindicatos insubordinados, expurgou 49 juízes dos tribunais e afastou três ministros rebeldes da Suprema Corte brasileira. Fechou o Parlamento por três vezes, colocou sete Assembleias estaduais em recesso, matou 400 opositores na tortura e legou ao país o fantasma de 144 pessoas que ainda hoje são uma incógnita, seres que não têm identidade, não estão mortos, nem vivos, estão apenas “desaparecidos”. A incapacidade para responder às perguntas leva ao cinismo, um atalho rápido para a mentira, o embuste, a fraude – que deturpam as palavras para camuflar a força que as silencia. Um documento revelado pelo jornal O Globo ­em março de 2011 mostra que os atuais comandantes militares do Brasil da democracia continuam se enrolando com as palavras necessárias para definir o Brasil da ditadura. Protestando contra o projeto do próprio governo para a Comissão Nacional da Verdade, destinada a investigar violações aos direitos humanos, os chefes do Exército, Marinha e Aeronáutica escreveram: “Passaram-se quase 30 anos do fim do governo chamado militar…”. Fizeram, desfizeram, cometeram tudo aquilo e os oficiais-generais brasileiros, 30 anos depois do fim do arbítrio, ainda simulam uma dúvida existencial sobre o que seria um governo chamado militar. Como o amor de Oscar Wilde que “não ousa dizer o seu nome”, os cínicos herdeiros do regime de força imposto ao país por longos 21 anos não ousam dizer o nome que o define por sua correta acepção: ditadura. Um Brasil que não tem a coragem de cumprir esse rito de passagem não tem condições, nem palavras, para fazer a travessia da história, deixando a força para trás até alcançar a margem segura da verdade. Um grave sintoma desse cinismo aflorou em 2009, justamente em quem tem o compromisso de zelar pelas palavras e o dever de combater a mentira: a imprensa. Num inusitado editorial, o jornal Folha de S.Paulo abrandou o vernáculo e torturou a verdade carimbando a ditadura brasileira com um afrontoso neologismo: “ditabranda”. O editorialista se esqueceu de dizer que, no auge da repressão, a empresa emprestava as caminhonetes que distribuíam o jornal para gentilmente transportar presos políticos até a repartição nada branda do DOI-CODI do major Ustra. Corações monitorados A palavra perde força e se perde pela força do poder, não pela roupa ou pelo uniforme de quem a pronuncia. Um militar pode subverter a verdade com o mau uso da palavra, mas também pode resgatá-la pela estrita obediência aos fatos e pela firme imposição sobre a mentira. Foi o que aconteceu na histórica noite de 25 de abril de 1995, quando um general de uniforme, porte altivo, voz serena e cabelos brancos aos 61 anos, foi à TV para uma rara entrevista ao vivo. Ao final, antes das despedidas, tirou um papel do bolso e acrescentou uma inesperada declaração, que eletrizou o país. Estas foram as palavras do general: – Nosso país viveu a década de 70, uma década assinalada pela violência, pelo messianismo e pela ideologia. Sem buscar palavras inovadoras, mas apelando aos velhos regulamentos militares, aproveito esta oportunidade para ordenar uma vez mais ao Exército, na presença de toda a sociedade: ninguém está obrigado a cumprir uma ordem imoral ou que se afaste das leis e dos regulamentos militares. Quem o fizer incorre em uma conduta viciosa, digna da sanção que sua gravidade requeira. E continuou o general: – Sem eufemismos, digo claramente: delinque quem vulnera a Constituição nacional. Delinque quem emite ordens imorais. Delinque quem cumpre ordens imorais. Delinque quem, para cumprir um fim que crê justo, emprega meios injustos e imorais. A compreensão desses aspectos essenciais faz a vida republicana de um Estado. E reforçou o general: – Se não pudermos elaborar a dor e cicatrizar as feridas, não teremos futuro. Não devemos mais negar o horror vivido, e assim poder pensar em nossa vida como sociedade que avança, superando a pena e o sofrimento. Em nome da luta contra a subversão, o Exército derrubou o governo constitucional e se instalou no poder em forma ilegítima, num golpe de Estado. Venho pedir perdão por isso e assumir a responsabilidade política pelo desatino cometido no passado. No poder, o Exército cometeu ainda outros delitos. O Exército prendeu, sequestrou, torturou e assassinou – tal qual o fizeram os delinquentes subversivos – e muitos de seus membros viraram delinquentes como eles. O espantoso ato de contrição do general só não emocionou o Brasil porque, infelizmente, não aconteceu aqui. E o general, evidentemente, não era brasileiro. O autor dessas palavras era o comandante supremo do Exército argentino, Martín António Balza, entrevistado pelo jornalista Bernardo Neustadt no mais importante programa de TV da Argentina, o Tiempo Nuevo. A fala firme, límpida do general Balza impressionou sobretudo por acontecer justamente no país que mais sangrou no turbulento Cone Sul da década de 1970, com seus 30 mil desaparecidos. O pronunciamento de fé democrática do comandante argentino numa região marcada pelospronunciamientos militares golpistas prova que a boa, justa palavra não é uma prerrogativa de civis ou militares, mas um apanágio dos homens de bem, de bom caráter. Ao longo do tempo, a palavra no Cone Sul foi acossada pela hipocrisia – para proteger a fronteira do arbítrio – e foi resgatada pela coragem – para ampliar os limites da resistência. Este imemorial confronto entre a força da palavra e a palavra da força assinala os avanços e os retrocessos da democracia em nosso continente. O político brasileiro Carlos Lacerda (1914-1977), um visceral conspirador contra a democracia, não economizou palavras e intenções para externar seu ímpeto golpista nos idos de 1950, quando ficou claro que Getúlio Vargas, o ditador deposto do Estado Novo, tentaria voltar ao poder pelo voto popular. Lacerda deu sua palavra: – O sr. Getúlio Vargas (…) não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, deveremos recorrer à revolução para impedi-lo de governar. O general argentino Ibérico Saint Jean foi ainda mais cortante, empregando apenas 25 palavras para montar o mais rombudo obelisco à barbárie e à boçalidade política. Em maio de 1976, dois meses após o golpe que o nomeou interventor no governo da província de Buenos Aires, o general trovejou: – Primeiro, mataremos todos os subversivos. Depois, seus colaboradores. Mais tarde, os seus simpatizantes. Então, mataremos os que permanecerem indiferentes. E, finalmente, vamos matar os indecisos. Aqui, longe de ser cínico, o militar usa a palavra dura, crua e nua não para esconder, mas para escancarar a doutrina de um serial killer fardado que não respeita las ideas ajenas. Para quem ainda tinha dúvidas, Saint Jean aproveitou uma conferência em 2008 sobre “Democracia e Ética”, no Rotary Club de Mar del Plata, para reafirmar sua despótica visão do mundo com uma desconcertante, transtornada aritmética. Este foi o cálculo do general: – O voto serve para impor a ditadura da maioria. Assim, quando os tiranos são muitos pode ser muito pior do que quando é apenas um. Ainda em 2008, aos 86 anos, Saint Jean foi preso para responder a processo por prisões ilegais, sequestros, tortura e desaparecimento forçado. Seu crime mais famoso foi o sequestro em 1977 do jornalista Jacobo Timerman, fundador do jornal mais crítico e influente do país, o La Opinión. Fichado nos arquivos de inteligência do Exército argentino como ‘un judío muy peligroso’,Timerman ficou detido durante dois anos. Visitado na prisão por congressistas norte-americanos, o jornalista descreveu alguns momentos que padeceu na unidade policial de La Plata, sob jurisdição de Saint Jean. Contou o jornalista: – Fui torturado e atado a uma cama, todo encharcado de água, para receber choques elétricos pelo corpo. É impossível descrever o efeito devastador da picana elétrica. Eles usavam um modulador para reduzir o choque de 220 volts, para evitar que os prisioneiros morressem instantaneamente. Dois médicos participavam para monitorar o coração das vítimas – lembrou Timerman. Última publicação Opinião tem a força de uma palavra maldita, que sempre amedronta os regimes que se sustentam na palavra da força e da violência. La Opinión incomodava na Argentina, o jornal Opinião perturbava no Brasil. O simples anúncio do lançamento do semanário, em novembro de 1972, assustou a ditadura em Brasília. O editor do jornal, Fernando Gasparian, foi preventivamente convocado à sede da Polícia Federal, no Rio. Medindo as palavras para camuflar o constrangimento, o major Braga falou: – Eu quero avisar ao Sr. que aqui no Brasil não existe censura prévia, a não ser por problemas morais. O Sr. pode publicar o que quiser. Em seguida, o major tirou da gaveta uma lista com 210 assuntos que Gasparian e toda a imprensa não podiam publicar – mesmo que quisessem. O editor pediu uma cópia para conhecer a lista, mas ela lhe foi negada. – A lista é secreta – explicou o major, com os termos exatos para definir o absurdo da situação. Era o arbítrio negando a censura e, ao mesmo tempo, recusando a lista que provava sua existência. Era a palavra da força que temia a força da palavra. O major Braga era o bruto que faltava na manada de rinocerontes de Ionesco. E assim, secretamente, o regime asfixiou o Opinião a partir do oitavo número. Primeiro, mandando recados. Depois, com o censor dentro da redação. Por fim, exigindo a remessa do jornal impresso para Brasília, antes de liberar a venda nas bancas. Em quatro anos e meio, Opinião sofreu ameaças, prisões, apreensões de edições inteiras, processos judiciais, o lançamento de uma bomba na redação e um decreto presidencial, baseado num ato de força – o AI-5 –, ratificando a censura prévia que o jornal tinha derrubado, como ilegal, no Tribunal Federal de Recursos. O semanário publicou 5.796 páginas, mas teve que produzir quase o dobro – 10.548 páginas – para suprir a falta do material vetado pela censura que não existia, pela lista que ninguém conhecia. Gasparian cansou da censura e, em 8 de abril de 1977, mandou para as bancas uma edição diferente da que enviara a Brasília para revisão da polícia. Corajosamente, abaixo do título de Opinião, o jornal trazia um carimbo desafiante, retumbante, triunfante: “Livre”. A primeira edição de Opinião sem censura foi apreendida. O jornal nunca mais voltou às bancas. A palavra final do regime de força matou o jornal que ousou ser, pela primeira vez, o Opinião liberado, libertado pela força das palavras. O Uruguai, o algodão incrustado entre os cristais cortantes de Brasil e Argentina, pensou na palavra antes de se pensar como país. O decreto que garantia a liberdade de escrever nasceu em outubro de 1811, 14 anos antes do Uruguai se declarar independente pela insurreição libertadora dos Treinta y três orientales, 19 anos antes de sua primeira Constituição. Até que o advogado Gabriel Terra, eleito presidente em 1931, dois anos depois jogou no chão esta bela história. Em março de 1933, com o apoio do Corpo de Bombeiros (!) e da Polícia, dirigida por seu cunhado, Terra instaurou a sua ditadura. Seu primeiro ato de força foi um decreto que reconhecia a força das palavras. Dizia: Decretase la censura previa de los órganos de publicidad que hayan atribuido o atribuyan propósitos dictatoriales al Presidente de la República. Quarenta anos depois, quase as mesmas palavras ressuscitaram para escancarar a mesma força bruta: Proíbe-se a divulgação pela imprensa oral, escrita ou televisionada, de todo tipo de informação, comentário ou gravação (…) atribuindo propósitos ditatoriais ao Poder Executivo. Era o Art. 3º do decreto 467 de 27 de junho de 1973, o dia do golpe civil-militar na terra de Gabriel Terra, que já não era a nação livre sonhada pelos 33 Orientales e pelo libertador Artigas. Até as palavras da meteorologia assustavam a ditadura. O locutor da rádio já não podia falar sobre o inverno mais rigoroso no país. A censura proibia a palavra correta sobre a previsão do tempo – mucho frio–,ignorando a inclemência da estação e reafirmando a impenitência dos quartéis. Os militares mandavam dizer assim: – Hace frio, pero no mucho. Hay países que están peores… Em apenas cinco meses de 1973, entre julho e novembro, o Uruguai fechou 23 jornais, 273 edições foram confiscadas nas bancas. Foi pior no ano seguinte, 1974: 96 redações destruídas, oito por mês, duas por semana, uma a cada três dias. Na véspera do réveillon de 1975, foi invadida a última publicação, a revista de um padre jesuíta, Andrés Assandri, intitulada Perspectivas de Diálogo. Nada estranho empastelar uma revista com palavras tão provocativas. Afinal, perspectivas, não havia. Diálogo, muito menos. Etiqueta macabra A falta de comunicação estava expressa no encontro improvável de 1977 entre um dos maiores rinocerontes da repressão no Uruguai e um dos maiores virtuoses da música na Argentina. Miguel Ángel nem existia quando seus avós chegaram do Oriente Médio. O funcionário da Imigração de Buenos Aires perguntou seu nome várias vezes, mas o avô não entendia bem o espanhol. Limitou-se a apontar para o céu, sem dizer uma palavra. O funcionário, irritado, mandou anotar no documento: – Póngale Estrella a estos turcos de mierda! Sem querer, ele tinha acertado: Najmah, em árabe, significa estrela. Anos depois, em 1940, nascia em Tucumán o neto predestinado pela harmonia do cosmos: Miguel Ángel Estrella, um menino encantado pela música de Chopin e que começou aos 12 anos a estudar o piano que o transformaria numa estrela da música clássica no mundo. Artista consagrado, alternava seus espetáculos entre a plateia elegante das maiores salas de concerto do mundo e os shows gratuitos para o público humilde das favelas e dos povoados do interior que não tinham música em suas vidas miseráveis. Ele estava em Montevidéu, em dezembro de 1977, quando caiu nas mãos da maior estrela da repressão uruguaia, o major José Nino Gavazzo. Preso sob a falsa acusação de ser um guerrilheiro montonero, Estrella foi levado para uma casa clandestina de interrogatório, próxima ao aeroporto de Carrasco, onde foi torturado com choques elétricos, suspenso do solo por uma roldana. Durante seis dias seguidos, teve suas mãos delicadas atadas às costas, enquanto seus algozes simulavam cortar seus dedos com uma serra elétrica. A tortura fez com que o pianista perdesse a sensibilidade nos braços e nas mãos por 11 meses. O major Gavazzo, racista e prepotente, explicou o motivo de tanta violência: – Você não é um guerrilheiro. É algo pior: com um piano e um sorriso você põe a negrada no bolso e faz os negros acreditarem que podem escutar Beethoven. Formaram você para tocar para nós e agora você prefere tocar para a negrada! Estrella ouvia a ameaça do major: – Não te matamos porque não podemos, mas vamos te destruir totalmente. Nunca mais serás o pai de teus filhos. Nunca mais serás amante de uma mulher. Nunca mais tocarás piano. Temos métodos muitos sofisticados. Se daqui a 18 anos, que é o tempo que vamos te prender aqui, ainda continuares com esse sorriso, vamos te matar. Porque és uma pessoa que tem fé e essa fé nós vamos arrancar. Estrella e sua arte só sobreviveram pela força de um movimento internacional que exigiu a libertação do pianista, em 1980. Aos 71 anos, Miguel Ángel ainda é uma estrela que brilha, fulgurante, com a mesma fé que a tortura não conseguiu arrancar, com o mesmo sorriso que a força bruta não pôde matar. Aos 72 anos, o major Gavazzo não pode nem mesmo sorrir. É um dos primeiros militares processados por crimes de direitos humanos na ditadura e está preso em Montevidéu, condenado desde 2010 a 25 anos de prisão pela morte de 28 uruguaios, sequestrados em Buenos Aires um ano antes da prisão de Estrella. Os profissionais da força têm sérios problemas com as palavras e uma patológica obsessão com as mãos. Isso ficou claro um dia depois do bombardeio do Palácio de La Moneda, onde sucumbiram o presidente Salvador Allende e a dem0cracia. Em 12 de setembro de 1973, no ginásio fechado do Estádio Chile, foram detidos 600 estudantes e professores da Universidad Técnica del Estado (UTE). Entre eles estava Victor Jara, que aos 40 anos usava as mãos e a voz para dar força e lógica às palavras. No seu testamento musical, Manifiesto, no disco póstumo Tiempos que Cambian (de 1974), Jara apregoava: Yo no canto por cantar/ ni por tener buena voz,/ Canto porque la guitarra/ tiene sentido y razón. Jara vivia das palavras, como professor de jornalismo, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e ativista político. Tinha todos os pecados, portanto, para ser odiado pelas palavras de força que iriam caçar e silenciar a força das palavras. No Chile de Pinochet, Victor Jara tinha o mesmo e único prognóstico de Federico García Lorca na Espanha de Franco: a morte O oficial que reconhece Jara na multidão de presos o ataca com pontapés, chutando as costas, a cabeça, o corpo todo. Jogado num corredor, Jara resiste com a arma que lhe resta, que sempre será sua: a palavra. Pede lápis e papel e, superando o sangue e a dor, escreve os últimos versos de sua vida breve: Canto que mal que sales/ Cuando tengo que cantar espanto/ Espanto como el que vivo/ Espanto como el que muero. Jara ainda tem tempo de repassar o poema a um companheiro, antes que dois soldados o arrastem para nova seção de golpes, ainda mais brutais. Um oficial da Força Aérea pergunta ao preso estirado no chão se ele fuma. Jara nega, o oficial insiste: “Pois agora vais fumar!”. E lhe joga um cigarro aceso. Tremendo, Jara estende o braço para pegar a bagana. O militar ergue o pé e esmaga a mão do artista com o seu coturno. A palavra amaldiçoada explica a violência: – Ahora, vamos a ver si aún tocas la guitarra, comunista de mierda! – grita o oficial. No quinto dia após o golpe, Jara foi trucidado com 44 disparos e seu corpo jogado num matagal próximo ao Cemitério Metropolitano, às margens de uma rodovia. O mais conhecido cantor do país foi levado para o depósito de cadáveres e ganhou a etiqueta macabra daqueles tempos sinistros: N.N, mais um no-nombrado. Jara só perdeu o anonimato quando teve seus restos reconhecidos pela viúva. Palavra que fala O Brasil também era varrido por aquela estranha sanha assassina contra as mãos. No início dos anos 1960, o jornalista Antônio Maria (1921-1964) era um artífice das palavras, o maior cronista do Rio de Janeiro. Escrevia no jornal getulista Última Hora, adversário direto da Tribuna da Imprensa, do eterno conspirador Carlos Lacerda. Irritados com os constantes ataques de Maria ao seu chefe, capangas de Lacerda atacaram o jornalista e lhe quebraram os dedos das duas mãos. No dia seguinte, para surpresa de todos, Maria voltou com outro artigo impiedoso, que não falava do espancamento. Na última linha, porém, o cronista escreveu: – Que tolos! Eles pensam que os jornalistas escrevem com as mãos… Os tolos de todos os lugares, de todas as eras, imaginam que os homens e mulheres produzem com as mãos, ou só com as mãos, as maravilhas do pensamento e os monumentos das artes que marcam o processo civilizatório. Censurando a imprensa, reprimindo as artes, silenciando os dissidentes, disseminando o medo e o terror de Estado, tentaram esmagar o homem e seus direitos. A partir de meados dos anos 1980, as ditaduras foram expostas nas suas entranhas, desabando uma a uma num efeito dominó que resgatou a esperança e a dignidade no extremo sul do continente. A versão vazia e triunfalista da história oficial no Cone Sul, que deturpava a palavra pela força, foi confrontada pela palavra liberta e liberada de quem antes se calara pela força da violência, do medo. Surgia o outro lado da história, a história do outro lado. Na palavra do jornalista, do historiador, do político, do escritor, do poeta, do músico, um novo continente de ideias e de verdade aflorou na América, livre dos simbolismos, das metáforas, das alegorias, dos subtextos, das codificações poéticas de letras e músicas que recuperaram sua capacidade de contar livremente o desafio da vida. As novas narrativas da América Latina das décadas de 60 a 80 do século passado surgem, agora, com o testemunho que preenche lacunas e desfaz lendas do poder. Esta é a alentadora herança que fica: qualquer que seja o desafio imposto pela força, pelo silêncio, pelo arbítrio, sempre restará a palavra que redime, a palavra que honra, a palavra que fala. Cedo ou tarde, lembramos e contamos. Palavra por palavra. *Luiz Cláudio Cunha é jornalista. Colabora com o “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “De Talho“. Este texto foi também publicado na revista Intercâmbio, da UnB. Quem quiser se comunicar diretamente com o autor, pode fazê-lo através do e-mail cunha.luizclaudio@gm (Fonte?)

Consciencia

A Consciência das Coisas: Será o Objecto Portador de Espírito? por Miguel Ângelo em 22 de mai de 2012 às 22:38 | 1 comentário Será a matéria provida de espiritualidade? De consciência? De «alma»? Que tipo de questões não têm sido abordadas que conferem ao objecto o preliminar estatuto de «inanimado»? Existe um campo pouco explorado ou, pelo menos, pouco investigado por parte dos designers ou artistas, que foi remetido várias vezes a discussão para os filósofos como Descartes, Bergson, Kant, Heiderberger ou Merlau-Ponty, entre outros. Como futuro profissional de design de moda, a questão metafísica que relaciona a matéria e o espírito ou consciência, ou ainda a «alma», começou a ferver nas minhas ideias a partir do momento em que comecei a trabalhar no meu projecto de licenciatura. Conceber uma colecção não é segredo. É um exercício. Constante. Mas não me interessava apenas fazer um projecto sobre uma colecção de vestuário ou sobre acessórios e continuar simplesmente essa busca ansiosa pelo novo ou por adicionar valor numa componente estética e/ou técnica. Mas percebi que o conceito que introduzi foi o motor que, sem parcimónia, me levou a mundos que nunca me ensinaram na faculdade. Como pode a medicina cirúrgica efectuar um paralelismo com este tipo de questões que ainda ampolam mais questões? Pois bem, foi a cirurgia e o acto da manipulação do corpo/matéria por um motivo maior que fez despoletar em mim essa indagação, sempre tentadora, acerca da matéria e da sua «alma». Pode ser/é o/a objecto/matéria portador/a de consciência em si? Frequentemente se estendem estudos e dissertações acerca de emotional branding e da relação ser-humano - objecto mas que atendem sempre com um denominador comercial ou capitalista da questão. E é quase sempre, a maioria das publicações nesse sentido, demasiado rebuscado no estudo do efeito do consumo e dos seus veiculadores no ser-humano, na pessoa. Na suposta presa a quem se deve requerer a atenção. Nessa perspectiva, penso que empobrece a relação estabelecida entre ambos. E é também isso que me leva a destapar o véu ou, sem arrogâncias tamanhas, a querer tentar. A metafísica é uma área muito nublada. Muitos autores dançam um tango rocambolesco na procura de respostas que não se acham e que fomentam ainda mais perguntas. Daí a tentação. O fio do pensamento nunca se perde. Sempre se persegue, mas desfiado em novas farripas. Mas, houve uma soalheira manhã em que obtive, creio, uma veloz, talvez insípida, clarificação. Ou talvez não, porque a partir do momento comecei a contrapor mais questões e supondo mais situações. Mas eis: O coração bate. Sempre. Existe uma espécie de inteligência superior intangível. Todos sabem: Existe um processo designado por ritmo sinusal que consiste em pequenas descargas eléctricas que provocam o movimento do miocárdio, o músculo do coração, procedendo-se assim ao bombeamento de sangue que produz e perpetua a vida. Mas de onde provém? Porquê? Quem fez? Bom, e existe um pacemaker, criado nessa linha de funcionameto para pessoas que sofrem de insuficiência cardíaca. Em que consiste? No mesmo. Pequenos estímulos eléctricos de modo a ajudar o órgão a não comprometer todo o corpo, continuando o percurso da circulação de sangue. Ora bem, se se manipula o meio/matéria, por motivos vários, neste caso em nome da vida, está-se a fazer da necessidade engenho não importando como ou com que beleza. E Descartes fala do pensamento e da suposta separação do mesmo da matéria, produzindo um discurso prolífico, para atestar por fim que não existe separação. O pensamento é inequívoco: Uma necessidade permanente. Pensa-se porque se questiona. Debruça-se sobre um mistério, mais ou menos deslindável e isso requer que reflictamos acerca, no sentido de achar resposta. Portanto será o pensamento o motor que impregna e mantém viva a existência de consciência ou espírito da matéria através dessa troca e processo de necessidade – engenho – manipulação/transformação caracterizando essa relação de atributos um do outro entre ser e objecto? Bom, gosto de acreditar nesta possibilidade com «ares» de eminente. Não sei se posso responder à questão. Mas pude compreender que Descartes e todos os demais passaram a ser meus amigos para sempre. Imperecíveis e acompanhando a minha demanda e apego a uma realidade quase sempre despercebida, mas emergente. A alma das coisas. A consciência da matéria. Será que Deus cabe nela? miguelangelo Artigo da autoria de Miguel Ângelo. . Saiba como fazer parte da obvious.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Israel

Renato Prata Biar – Israel: um Estado terrorista Vamos ver o que vai acontecer a Israel quando seus interesses começarem a contrariar e a colidir com os interesses expansionistas do Império. Entretanto, enquanto isso não acontece, a única certeza que temos é a de que continuaremos a assistir àqueles que um dia foram vítimas do holocausto, reproduzir e legitimar o mesmo tratamento que receberam nos campos de concentração nazista, só que dessa vez não mais como vítimas, mas como algozes e tendo como alvo principal a “raça inferior” dos palestinos. Por Renato Prata Biar(*), especial para sua coluna no QTMD? As centenas de vítimas palestinas assassinadas (em sua maioria mulheres, idosos e crianças), pelos últimos ataques terroristas israelenses, não deixam dúvidas quanto ao caráter nazista da estratégia de Israel contra a Palestina e seu povo. Não há como negar que os sionistas passaram de vítimas do Nazismo, à simpatizantes dos métodos nazistas para a eliminação de outros povos (cito aqui, especificamente, os sionistas porque foram estes que, dentre os judeus, foram os principais responsáveis pela elaboração do ideal de se criar um Estado composto somente por judeus ainda no século XIX; e também para deixar claro que não são todos os judeus que concordam com esse ideal e muito menos com os seus métodos). É extremamente desproporcional os ataques praticados pelas forças israelenses se comparado ao tipo de ataque que eles sofrem por parte dos palestinos. Além disso, se eles acusam os palestinos de terrorismo, é bom não esquecer que os sionistas foram os pioneiros em usar e abusar de métodos e estratégias terroristas para pressionar o mundo à consolidar a formação do Estado de Israel (mais precisamente a Inglaterra, já que a Palestina era colônia inglesa, e os Estados Unidos, já que estes, após a 2ª Guerra, se consolidaram, definitivamente, como a maior potência mundial). Como muito bem denunciou Moniz Bandeira no seu livro, Formação do Império Americano: “Os sionistas, então, desencadearam sistematicamente uma onda de atentados terroristas atacando, em diversas cidades da Palestina, as forças britânicas e outros alvos, como carros de polícia, estradas de ferro, ônibus, pontes e a refinaria de petróleo em Haifa. Em 22 de julho de 1946, com a aprovação de Ben Gurion (um dos principais líderes políticos do movimento sionista), fizeram explodir em Jerusalém o King David Hotel, matando cerca de 90 pessoas e ferindo 58. [...] Os ataques terroristas, porém, não cessaram e, na noite de 09 de abril de 1948, militantes da Etzel e elementos de outro grupo (Stern) cercaram a vila de Deir Yasin e mataram 254 árabes, a maioria velhos, mulheres e crianças, e feriram mais de 300.” (pág. 159) Analisando esses fatos, fica fácil perceber que o terrorismo foi utilizado como estratégia: primeiro para forçar a formação do Estado de Israel (objetivo idêntico ao dos palestinos que também querem a formação do seu Estado, mas acabam sendo massacrados por isso); e segundo, que os ataques continuam a ser utilizados até hoje com a cínica justificativa de que é necessário para garantir a segurança de Israel. Porém, a diferença básica que existe entre os ataques da década de 1940 para os ataques hodiernos, é que estes não são mais praticados por grupos como o Etzel ou o Stern, mas pelo próprio Estado israelense. Nesse sentido, talvez seja esta a primeira vez em toda a história em que temos um Estado Terrorista reconhecido legalmente pelo restante do mundo. Mesmo sabendo-se que esse estado não possui nenhuma das duas condições fundamentais para que um Estado-Nação seja verdadeiramente reconhecido: Israel não possui uma constituição e nem limites territoriais definidos, sendo este último devido às suas ocupações mantidas por forças militares em países vizinhos. É importante salientar também que a potência militar na qual Israel se transformou tem como objetivo principal servir aos interesses geopolíticos e econômicos do Império Estadunidense. Foram os Estados Unidos quem mais contribuíram para o fortalecimento e o crescimento do aparato militar do Estado de Israel, inclusive no que diz respeito à obtenção de um arsenal atômico e a formação de um serviço secreto, o Mossad, que mais parece um “filhote” da CIA, e que é tão sujo quanto o seu genitor. Para entender melhor todo esse interesse e essa dedicação dos Estados Unidos em relação a Israel, basta observar algumas coisas bem simples. O Estado de Israel tem um posicionamento geográfico extremamente privilegiado para os interesses estadunidenses, pois é através do seu território que se faz a ligação entre o continente africano (através da fronteira com o Egito) e o Oriente Médio, não só por terra como também pelo Canal de Suez. Faz fronteira também com estados como, Líbano, Síria e Jordânia; além de estar bem próximo da Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Irã, países que fazem parte do grupo dos maiores produtores de petróleo do mundo (produto esse que, como todos sabem, interessa diretamente aos Estados Unidos). No caso do Iraque, o interesse vai ainda mais além do que a busca pelo petróleo, pois os dois principais rios que abastecem toda a aquela região do Oriente Médio (os rios Tigre e o Eufrates) passam ambos com a maior parte de sua extensão pelo território iraquiano. E numa região com grandes extensões de terra formada pelo mais seco deserto, isso não é pouca coisa. Não por acaso já estão previstas guerras para as próximas décadas pelo controle das fontes de água doce em todo o mundo. Portanto, quem tiver o domínio sobre a utilização desses dois rios naquela região terá uma ampla vantagem estratégica sobre todos os outros países próximos. Destarte, essa dificuldade de se conseguir formar um Estado palestino vai muito mais além do que o alegado “temor” pela segurança do Estado de Israel e de sua população. Isso está muito mais próximo dos interesses geopolíticos, econômicos e militares do Império Estadunidense. Porém, como nos mostra a história, os Estados Unidos já tiveram outros aliados naquela região como, o Irã e o Iraque, e que depois de serem armados, financiados e treinados pela doutrina imperialista, se voltaram contra o seu criador e tornaram-se seus mais ferozes inimigos. Vamos ver o que vai acontecer a Israel quando seus interesses começarem a contrariar e a colidir com os interesses expansionistas do Império. Entretanto, enquanto isso não acontece, a única certeza que temos é a de que continuaremos a assistir àqueles que um dia foram vítimas do holocausto, reproduzir e legitimar o mesmo tratamento que receberam nos campos de concentração nazista, só que dessa vez não mais como vítimas, mas como algozes e tendo como alvo principal a “raça inferior” dos palestinos. *Renato Prata Biar é historiador. Colabora com o “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Mar de Prata“. => A charge é do cartunista Carlos Latuff. (QTMD)

Medo

Considerações Sobre o Medo em listas por Jéssica Parizotto em 04 de out de 2012 às 16:36 O processo criado pelo cérebro para nos dar a sensação de medo é algo que me encanta. Do filme Rabbit's Moon de Kenneth Anger Ele chega de repente, leva o tempo de piscar ou talvez nem isso. Tudo começa lá no Tálamo, uma região curiosa do cérebro que decide o que fazer com aquilo que você viu (ou acha que viu). Depois disso, ainda temos outras partes da nossa mais avançada máquina que vão interpretar as sensações que percorrem o seu corpo, estabelecer o contexto em que elas ocorrem e tentar encontrar um déjà vu na memória que fazemos dos medos. Mas, é a consequência desse processo o que mais me seduz. O cérebro segue por dois caminhos, e uma guerra entre eles é travada: Um deles diz que o barulho na porta é um ladrão e que você não deve ir lá, este é sempre o mais rápido, chega antes ao campo de batalha. O outro se demora pelo caminho, porém chega com todas as armas na mão para te avisar que o barulho não passa de um galho de árvore que voou e bateu na sua porta devido à tempestade que se encaminha. Todavia, isso são medos “racionais": de um barulho, de um vulto ou de morrer. Por si só, ele é algo irracional, mas há ainda aqueles sentimentos que nos causam temor frente à algo que não foi criado para este fim. Eu tenho três exemplos que me dão um frio na espinha mesmo sem ter esse intuito. 6731610243_c7eed1e58e_z.jpg bisque doll (Flickr © floffimedia) 1. Bonecas de porcelana A infância é um terreno fértil para a imaginação e boa parte do medo floresce aí. Bonecas de porcelana me assustavam quando eu era só uma menina e me assustam até hoje. Acredito que deve ser pelo distanciamento emocional expresso nos seus olhos e sorriso pintados à mão. 549px-Temptation_of_Saint_Anthony_central_panel_by_Bosch (1).jpeg Uma das partes do Tríptico "As tentações de Santo Antão" que encontra-se exposto no Museu de Arte Antiga de Lisboa © Wikimedia Commons 2. As obras de Hieronymus Bosch O pintor holandês do século XVI me dá calafrios. A complexa maneira como ele criticava os pecados, os vícios e os muitos medos que as pessoas tinham na idade média me toca de um modo completamente irracional. Não é que eu não consiga me ligar às suas obras, pelo contrário, desde que as vi pela primeira vez, elas ficaram gravada na minha memória, porém o mundo caótico e surreal que ele antecipou nas suas pinturas são para mim um mistério, daqueles que a gente se sente atraído, mas evita entender. st_20090728_023_500x400.png 3. Rabbit’s Moon de Kenneth Anger Rabbit’s Moon é um curta americano de 1950, mas que só foi concluído em 1972. A história narra as tentativas de um palhaço, Pierrot, de saltar até a lua para alcançar o coelho que vive nela. A ideia de um coelho vivendo na lua não faz muito sentido para nós ocidentais, mas em algumas culturas orientais existem várias lendas a respeito disso, uma delas, da Tradição Hindu, fala de um coelho que sem ter alimento para oferecer à lua, se atira em uma fogueira para que ela sacie sua fome com a carne dele. O diretor underground Kenneth Anger não parece ter tido a vontade de criar um filme assustador, mas para mim acaba sendo: sua trilha sonora contrasta demais com as imagens, aliás o filtro azul usado na filmagem me dá uma sensação incômoda. O palhaço também, ao contrário de ser uma figura que transmite alegria, ele acaba sendo quase um fantasma, vestido as tradicionais roupas brancas de um Pierrot. Na verdade, a história é até romântica, ao final da trama, aparece o Arlequim, que apresenta à Pierrot a Columbina por quem ele acaba se apaixonando. O filme possui ainda outra versão, esta sim muito mais assustadora, em grande parte pela trilha sonora, mas desta eu não posso falar, pois não consegui assistir a mais de um minuto. Medos servem para nos alertar e proteger de algo. Nem sempre a máquina funciona tão bem, existem milhares de medos inexplicáveis por ai. E você, tem medo de quê? jessicaparizotto Artigo da autoria de Jéssica Parizotto. jéssica parizotto é uma proparoxítona, interessa-se por haicais, músicas pouco conhecidas e jogo de palavras. Queria voar de balão, mas tem medo de altura.. Saiba como fazer parte da obvious

Racismo

“Tinha que ser preto mesmo!” e a nossa ignorância diária por Leonardo Sakamoto* negro “Tinha que ser preto mesmo!” e a nossa ignorância diáriaTinha que ser preto mesmo! Preto quando não faz na entrada faz na saída. Sabe quando preto toma laranjada? Quando rola briga na feira. Amor, fecha rápido o vidro que tá vindo um escurinho mal encarado. Olha, meu filho, não sou preconceituoso, não. Até tenho amigos negros. Ouviu aquele batuque? É um terreiro de macumba. Logo aqui na nossa rua! Mas o João Vítor vai dar um jeito nisso, ele conhece uma pessoa na subprefeitura que vai tirar essa gente daí. Essas coisas do diabo me dão arrepios. Eu adoro o Brasil porque é um país onde não existe racismo como nos Estados Unidos. Aqui, brancos e negros vivem em harmonia. Todos com as mesmas oportunidades e desfrutando dos mesmos direitos. Se eu deixaria minha filha casar-se com um negro? Claro! Se ela conhecer um, poderia sem sombra de dúvida. Tá tão difícil encontrar uma empregada decente ultimamente. Ainda bem que achei a Maria. Ela é de cor, mas super honesta. Quilombolas são pessoas indolentes. Erra o governo ao mantê-los naquele estado de selvageria.? A terra poderia estar sendo usada para produzir algo, sabe? É o Brasil… Vê se me entende que eu vou explicar uma vez só. A política de cotas é perigosa e ruim para os próprios negros, pois passarão a se sentir discriminados na sociedade – fato que não ocorre hoje. Meu filho não vai fazer um projeto de escola sobre coisas da África. A gente é evangélico e queremos que ele leia a bíblia e não esses satanismos como… como…como era o nome daquele livro mesmo? Sim, Macunaíma. Cotas ameaçam o princípio de que todos são iguais perante a lei, o que temos conseguido cumprir, apesar das adversidades. Ele é um exemplo. É negro e, mesmo assim, virou ministro do Supremo Tribunal Federal sem ajuda de ninguém. No 20 de novembro, quando se rememora a morte de Zumbi dos Palmares, é celebrado o Dia da Consciência Negra em várias cidades do país. Um momento de reflexão e de resistência sobre os frutos da escravidão, de um 13 de maio incompleto (que significou mais uma mudança na metodologia de exploração da força de trabalho do que uma abolição de fato), sentido no dia a dia. Dia que deveria ser aproveitado por todos aqueles que têm seus direitos fundamentais rasgados para uma análise mais profunda do que têm feito para sair da condição de gado. Alguns vão dizer que o tema é repetido neste blog. Mas era preciso. Porque a nossa idiotice não tem limites. E a ignorância é um lugar quentinho. * Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. ** Publicado originalmente no Blog do Sakamoto. (Blog do Sakamoto)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Maternidade

Do vermelho da vida ao verde veneno por Gabriel da Cruz em 17 de jul de 2012 às 15:44 Existem coisas que temos certeza, são indubitáveis. Dentre essas coisas, existem as que preferimos ter certeza para não abalar o equilíbrio aparente. A maternidade talvez seja a principal delas. Por volta do ano de 427 a.C., Sófocles já trazia na tragédia Édipo Rei as relações maternais para o círculo da arte. No correr da história, autores que exploraram essas relações muniram-se de algumas metáforas e símbolos para representá-las, como a transgressão de Peláguea Nilovna como símbolo de revolução política em A Mãe (1907) de Máximo Gorki ou a superproteção com víeis psicanalítico da The Supermãe (1996) de Ziraldo. Sem contar as inúmeras pinturas, estátuas e fotografias ao longo da história da arte, desde a estatueta de Willendorf do paleolítico até o retrato materno de James McNeill Whistler da era Vitoriana. Apesar das aparentes diferenças, há uma via que agrega grande parte dessas obras em uma única unidade: o mito da criação. O ato de criar sempre esteve atrelado, direta ou indiretamente, às deusas, às mães. Ou seja, tanto nas divindades míticas quanto nas relações sociais humanas, as mães são criadoras de essência, o que, em muitas vezes, precede a ação criadora primordial de Deus. Considerando a narrativa da criação do homem no livro de Gêneses, temos o ser humano sendo criado do barro: “Mas da terra saía uma corrente de água que regava o chão. Então, do pó da terra, o Senhor formou o ser humano. O Senhor soprou no nariz dele uma respiração de vida, e assim ele tornou um ser vivo” (Gn 2:6-7). Na antiga Roma, a terra era cultuada como mãe (tellus mater). Podemos inferir então que Adão foi criado a partir de substância materna. A maternidade necessária para as deusas criarem está, em várias culturas, ligada também à criação artística. As funções de criação vital e poética convivem em um mesmo símbolo. No hinduísmo, por exemplo, a deusa Sarasvati é aclamada como a personificação feminina e esposa do deus criador Brahma, e é a ela calcado o epíteto de criadora da escrita brahmi, além de ser a deusa da sabedoria e protetora dos artistas. Na mitologia suméria, a deusa da fertilidade Nidaba é também honrada como deusa da escrita, a que criou a escrita cuneiforme, uma das mais antigas que se tem conhecimento, datada de cerca de 3500 anos a.C. Criação e maternidade, desse modo, podem gerar obras que fomentam discussões ontológicas e que fundamentam a essência de certos sentimentos arraigados em nossa civilização. É o caso do livro Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (2010) de Evandro Affonso Ferreira. Nele, o narrador-personagem, absorto enquanto escreve suas próprias memórias, observa as pessoas ao redor através de sua “mesa-mirante”. Movido pela melancolia causada pela morte repentina da mãe, discute sobre a dor existencial e os alcances e limites de suas palavras, metáfora da própria obra de arte. O narrador se angustia com o passar das páginas, lamentando e protelando o fim próximo de sua escrita. Mas assim como a morte de sua mãe, o fim de seu livro é penoso, um fardo tão insustentável como a consciência terrena da morte. Assim, o verbo é o único elo do narrador com a vida: “A vida é ruim; eu sei. Mas ainda não vou cortar a teia da própria vida feito ela minha mãe: o vocábulo é minha âncora”. O seu sentimento de orfandade é a ausência 1 - Cópia.jpgde sentido e amparo no mundo, o seu inverso é naturalmente a maternidade, a âncora. As palavras raramente se mostram; chegam ao final sem serem aproveitadas completamente, como a mãe do narrador, suicida que não deixa sequer uma linha escrita. A inexistência da carta-suicídio da mãe entrega ao decrépito personagem a condição inexorável da morte e a impotência da linguagem em relação a ela. Ao mesmo tempo em que o verbo é âncora, é pela sua ausência que o narrador desaparece (sem dizer adeus): “Sei-sinto-pressinto que não conseguirei concluir este livro que a exemplo dos outros não completará a tríade começo e meio e”. Há também no cinema a mítica discussão sobre o paralelo arte e maternidade. Xavier Dolan, em sua estreia como roteirista e diretor no filme Eu Matei a Minha Mãe (2009), exibe os impulsos (às vezes) criativos que Hubert tem devido aos choques com sua mãe, Chantele. Hubert, um jovem de 17 anos, fica atordoado pelo gosto kitsch, pelo comportamento despretensioso e pelo requeijão no canto da boca de sua mãe. Tudo o distancia dela, apesar das constantes tentativas de ambos se aproximarem. Há uma vida paralela na qual o jovem tenta se ancorar: a com o seu namorado, Antonin. Hubert prefere frequentar a casa de Antonin, onde pode fumar maconha e entrar em contato com Coco Chanel, James Dean, Gustav Klimt e com o mundo permissivo proporcionado pela mãe de Antonin, Hélène. O que há entre Hubert e Chantele, além do abismo afetuoso, é a debilidade materna; a morte da mãe é desejada pela inoperância dessa em seu exercício. Mais uma vez é o sentimento de orfandade que guia o personagem na obra. Nas aulas de artes, o jovem cria em suas pinturas o que prefere não expor a sua mãe: o substrato de que ele é feito, a própria mãe. Na cena em que Hubert e Antonin fazem uma pintura gestual juntos, a linguagem artística se imbrica com a linguagem sexual para dizer sobre o silêncio que repousa entre Hubert e sua mãe a cerca da homossexualidade do filho. A arte, aliás, é a linguagem que o jovem utiliza para perceber a si próprio. Odiando a mãe, ele percebe que sua fraqueza é o próprio ódio, já que ao longo do filme, ele se compreende como criação: “Não há outra coisa que matar nesta vida que o inimigo interior, o duplo no duro núcleo. Dominá-lo é uma arte. Até que ponto somos artistas?”. Independentemente das circunstâncias, é a maternidade que ainda cria a nossa existência, toda essência ainda vem do sopro primordial. Pensar nela e em seus desdobramentos é perceber a si mesmo no mundo. A criação é a âncora do criador. Talvez seja por isso que o narrador de Minha Mãe se Matou se prendia com tanta energia à sua escrita e Hubert reclamava tanto o elo materno em suas pinturas. gabrieldacruz Artigo da autoria de Gabriel da Cruz. Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo.. Saiba como fazer parte da obvious.