quarta-feira, 30 de outubro de 2013

EUA e Israel

Um rendimento base para todos



Berna (Suiça) - Pelo menos dois livros já foram publicados na França sobre essa utópica mas revolucionária ideia – a de se garantir a todo cidadão, ao chegar na maioridade, um rendimento (como se fosse um salário), suficiente para viver durante toda vida.

Este ano, essa ideia com mais de cinco séculos, pois o inglês Thomas Morus defendia esse projeto no livro Utopia, se transformou num projeto realista e, será provavelmente submetido à votação popular na Suíça.

Para provocar uma votação popular nacional, na democracia direta suíça, são necessárias 100 mil assinaturas, já foram reunidas 70 mil e ainda existem alguns meses pela frente para angariar novas assinaturas.

A ideia surgiu na Suíça de língua alemã, de um coletivo de visionários formado por artistas, intelectuais e mesmo alguns políticos. E logo teve o apoio de suíços de língua francesa, reunidos na associação Bien-Suisse, fundada em 2001, cuja sigla significa Basic Income Earth Network. O projeto propõe a criação de um rendimento básico de 2.500,00 francos suíços, cerca de 6.000,00 reais, pagos mensalmente mesmo se a pessoa está desempregada.

Sem margem de erro, pode-se imaginar que esse projeto será rejeitado pela grande maioria do povo suíço, porém um importante passo será dado em direção ao futuro, quando as sociedades humanas mais avançadas e mais solidárias não aceitarão a existência de pobres sem condições de vida digna. E é mesmo provável que logo surja um partido político colocando o rendimento básico universal como o principal objetivo do seu programa.

Angela Merkel
Pode parecer absurda e fora de contexto tal iniciativa justamente quanto, na União Europeia, se aplica uma política econômica totalmente inversa. Para fazer face à dívida pública e a uma situação de quase insolvência, alguns países, a Grécia, Portugal e Espanha, estão sendo submetidos a uma austeridade, ditada principalmente pela chanceler alemã Angela Merkel, que consiste em se diminuir salários e aposentadorias.

Ora, é evidente que com salários e pensões reduzidos os gregos, espanhóis e portugueses consomem muito menos. Como na teoria do dominó, a retração do consumo repercute nas indústrias fabricantes de bens, que não conseguem escoar como antes seus produtos e o movimento diário dos supermercados é a constatação dessa nova situação, provocadora de sintomas de recessão. A impressão é a de que o remédio é muito forte e vai matar os doentes.

Ao contrário, se as pessoas têm dinheiro para consumir, isso agiliza o consumo e disso decorre o escoamento rápido dos bens produzidos pelas fábricas, provocando o crescimento econômico do país.

Antes mesmo de alguns visionários suíços e economistas franceses terem lançado a praticabilidade de um rendimento básico para todos, o Brasil tinha sido, sem o alarde esperado, o pioneiro.

Na verdade, o Bolsa Família, Cesta Básica e o Bolsa Escola, e outros tipos de ajuda do governo brasileiro aos menos favorecidos já constituem a aplicação prática da Utopia de Thomas Morus. Para que não haja descontentes na avaliação dessa medida revolucionária, lembramos que foi FHC quem lançou e Lula quem ampliou essa concessão de um rendimento básico, ainda mínimo, para a parcela mais carente da população.

Thomas Morus
E os resultados foram extremamente positivos – com um mínimo disponível para viver, a população beneficiada com essa medida começou a consumir, acionou supermercados e fábricas e o Brasil deslanchou, enquanto a União Europeia fazendo o inverso entrou numa fase de estagnação e de desemprego, da qual não sabe ainda como vai sair, pois já não há, como no passado, as guerras continentais que dizimavam a população e destruíam cidades, impedindo o desemprego e a recessão.

A solução pacífica para o desemprego e contra a recessão não seria o rendimento básico para todos os cidadãos? Ao contrário do aumento da idade da aposentadoria, como querem os neoliberais, isso criaria igualmente condições para se diminuir as horas de trabalho, como se falava nos anos 60, quando as pessoas sonhavam com a nova sociedade do lazer, torpedeada pela ganância neoliberal.

Haveria condições para o Estado garantir tal iniciativa? Imagina-se que sim, pois todos os rendimentos estariam sujeitos aos impostos normais e o funcionamento do consumo e a boa saúde das indústrias garantiriam a contribuição dos outros impostos necessários ao funcionamento do Estado.

Chegamos a um fim de linha – a coletivização não deu certo e o neoliberalismo com sua gula de lucros utiliza a automatização para dispensar empregados em lugar contribuir para a sociedade do lazer. A insistência no atual modelo econômico levará a choque e revoltas.

Tudo indica ter chegado a hora de se buscar novos comportamentos econômicos e novas soluções sociais, criadores de solidariedade social evitando desigualdades e o mergulho na miséria de uma parcela da população. Um rendimento básico para todos será também a garantia de educação, escolas e formação profissional para a juventude.

O mundo futuro não poderá continuar tendo esses bolsões de miséria e pobreza. A concessão de um rendimento básico para todos não impedirá que muitos tenham salários superiores, dependendo da criatividade de cada um. E nem criará aproveitadores e vagabundos.

É hora de se começar a curtir e imaginar a concretização dessa utopia.
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[*] Rui Martins – é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, membro eleito do Conselho Provisório e do atual Conselho de emigrantes (CRBE) junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreveu o livro Dinheiro Sujo da Corrupção sobre as contas suíças secretas de Maluf. Colabora com o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

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sábado, 5 de outubro de 2013
A paz que o mundo anseia

Hassan Rouhani, presidente do Irã

Publicado em 01/10/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

O Presidente do Irã, Hasan Rohani (foto) tem sido a principal figura da política internacional nesta última semana, seguido da Presidenta Dilma Rousseff com a proposta apresentada no plenário das Nações Unidas de fazer frente à espionagem dos Estados Unidos. O Presidente Barack Obama conversou por telefone com Rouhani, o que não acontecia com dirigentes dos dois países desde a revolução de 1979 que derrubou o Xá Pahlevi.

A conduta dos representantes de Israel na ONU, retirando-se quando do pronunciamento de Rohani, confirma que o governo de Benjamin Netanyahu é realmente adepto de ações bélicas na região, como quer também o complexo industrial militar estadunidense. Prefere optar por um bombardeio contra as usinas nucleares iranianas do que pelo menos tentar um acordo com o país que desenvolve programa nuclear que o governo garante ser para fins pacíficos. Netanyahu e o complexo industrial militar norte-americano andam de braços dados e não querem nem ouvir falar em acordo que reduza o estado de tensão na região.

O novo Presidente do Irã apresentou uma proposta concreta, o da desnuclearização no Oriente Médio. Muito positiva a sugestão, que Israel deveria ser obrigado também a seguir, já que tem estocadas armas nucleares, mas prefere o silêncio sobre a matéria.

Mordecai Vannunu
Nesse sentido, uma figura importante já revelou ao mundo, nos anos 80, que Israel possui bombas atômicas. Mordecai Vanunu pagou caro pela revelação, tendo ficado 18 anos preso e 11 em cárcere isolado. Isso depois de ter sido sequestrado em Londres pelo serviço secreto de Israel, o Mossad.

Mesmo tendo cumprido a pena, Vanunu segue monitorado pelo serviço secreto e impedido de deixar o país. Foi convidado para vir ao Brasil receber o prêmio internacional de direitos humanos, instituído pela Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa, mas o pedido às autoridades israelenses para que fosse permitida a viagem sequer foi respondido. Claro, o silêncio é concretamente uma negativa. Vanunu deve ser sempre lembrado, sobretudo no momento em que o tema armas nucleares está na ordem do dia no Oriente Médio e o mundo olha com otimismo uma possível luz no fim do túnel das trevas em que está mergulhada a região.

Quando se aborda o tema Irã, não se pode deixar de analisar o que acontece na Síria, que para muitos analistas é uma questão chave para se entender todo o contexto do Oriente Médio. Há uma luta fratricida estimulada pelos Estados Unidos e países do Golfo que não primam pelo respeito aos direitos humanos, muito pelo contrário. Lá estão também a Arábia Saudita e Qatar, duas monarquias autoritárias que armam e subvencionam os chamados rebeldes sírios, do qual fazem parte grupos vinculados ao grupo terrorista al Qaeda. De quebra, aproveitando o embalo, o governo turco procura ganhar terreno com a guerra civil síria e se cacifar para exercer forte protagonismo na área. E Israel está também presente.

Nesse quadro em que a ONU diz terem sido mortos mais de 100 mil sírios desde o início das hostilidades, um ataque de armas químicas, que os Estados Unidos responsabilizam o governo de Bachar al Assad e a Rússia a oposição bancada pelo Ocidente e monarquias, matou mais de 1.200 pessoas.

A questão das armas químicas merece também algumas observações que não estão sendo levadas em conta. Que empresas fabricam armas químicas? A empresa dos alimentos genéricos, do agente laranja, do napalm, que tantas vítimas provocou no Vietnã e com reflexos nefastos até hoje, para não falar da participação no projeto Manhattan que produziu a bomba atômica, a Monsanto é uma delas.

Outra pergunta que não quer calar: além da Síria, quais os países que têm estocadas armas químicas? Algum organismo internacional já inspecionou Israel e o próprio Estados Unidos?
Se existem armas químicas e países a estocam, significa também que empesas integrantes do complexo industrial militar lucram com isso. Mas esse ângulo da questão tem sido pouco abordado. Ainda está em tempo, portanto, de se colocar o boca no trombone.

O que importa agora é neutralizar o poder da indústria da morte, portanto, pressionar governos no sentido de alcançar uma paz duradoura em que, em vez de se gastar em armamentos, se combata a fome e se direcione os gastos para o bem estar da população mundial. E para alcançar esse objetivo é necessário que a comunidade internacional não assista impassível a ação militarista de governos como o de Israel e das monarquias dos países do Golfo, como a Arábia Saudita e Qatar, não ficando de fora também o dos Estados Unidos.
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[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação

Petróleo

Como matar o setor de petróleo    
Escrito por Paulo Metri  





Na década de 1990, auge do período neoliberal, Betinho escreveu um capítulo do livro “Em defesa do interesse nacional”, cheio de ironia e bom humor mas, muito sério, intitulado “Como matar uma estatal”. No capítulo, ele descreve todas as ações que um “bom administrador” deveria tomar para atingir seu objetivo de matar a estatal. Nos dias atuais, se ainda estivesse entre nós, ele talvez escrevesse sobre como matar o setor de petróleo. Imaginamos que o novo texto ficaria da seguinte forma:



Cria-se um arcabouço jurídico e institucional, que privilegia a competição, não importando se os agentes econômicos são nacionais ou estrangeiros. O fato de ser nacional não significa que deva ter algum privilégio em qualquer disputa.



O petróleo, o gás natural e os derivados devem ser considerados como simples commodities, que não possuem valor geopolítico e estratégico algum, ou seja, não possuem nenhuma atração além da rentabilidade.



Promovem-se leilões em que um único pagamento inicial pode definir a permanência de empresas produzindo petróleo em uma área durante até 35 anos, pagando parcelas mínimas de royalties e, quando for o caso de altas produções, de “participações especiais”.



Facilita-se ao máximo a entrada de bens e serviços estrangeiros no setor, a pedido das empresas petrolíferas estrangeiras, isentando-os de impostos e taxas, que os nacionais não têm.



A cada oportunidade de fala à imprensa, deve-se realçar que as decisões da diretoria do órgão regulador são técnicas, significando que ele verifica a competição e o desempenho das empresas. Nunca se toma uma decisão com o singelo argumento que ela irá beneficiar a sociedade brasileira. O órgão regulador não é um órgão que deve implantar políticas públicas, nem deve levar em conta nas suas decisões que o Brasil é um país em desenvolvimento, com características culturais específicas e inserido no espaço geopolítico mundial.



Doma-se a estatal do setor, para, amofinada, não participar de leilões e permitir a entrega rápida de blocos para as empresas estrangeiras. Mas ela deve participar de um mínimo de leilões de blocos, para não poderem identificar a estratégia de entrega do subsolo nacional.



Escolhe-se um administrador para regular o setor, que diminua ao máximo o risco dos agentes econômicos, usando a União como colchão amortecedor dos riscos empresariais, garantindo, desta forma, a atratividade dos leilões de áreas petrolíferas e comprometendo a arrecadação de tributos do setor.



Todos os administradores deste modelo devem recriminar, claramente, a fase anterior do monopólio estatal, classificando-a de jurássica e nunca entrando no debate dos benefícios e comprometimentos de cada modelo. Inclusive, só os supostos malefícios do monopólio devem ser denunciados, sistematicamente.



A mídia comercial deve ser “comprada” pelos agentes econômicos do setor, exceto a estatal. Obviamente, as notícias serão filtradas para transmitirem só os interesses das empresas estrangeiras.



Notícias ruins da empresa estatal devem ser privilegiadas para irem para a “mídia vendida”. Quanto mais notícias deste tipo “vazarem“, mais os papéis desta empresa irão cair, o que é desejado. Tudo isto para prepará-la para uma privatização futura, quando ela voltará a ser administrada “tecnicamente” e será eficiente. Não falam, mas se referem a uma “eficiência” sob o ponto de vista de remessa de dividendos para os acionistas, principalmente os estrangeiros. Não se trata de uma “eficiência social”.



Entrega-se uma parcela dos royalties para estados e municípios, para existirem adesões cegas ao modelo completo, graças a só um artigo da lei, o dos royalties.



Colocam-se recursos do Fundo Setorial do Petróleo para professores administrarem cursos e programas sobre o petróleo com viés neoliberal, o que deixa alguns membros da academia felizes.



Quando um campo gigante for descoberto pela estatal, ele deve ser rapidamente retomado pelo órgão regulador, para fazer um mega-leilão de petróleo, com endereço conhecido, para o governo de contadores fechar as contas e para a felicidade do Império.



Depois de 20 anos de aplicação destes princípios, os mais jovens, sem possibilidade de comparação com outro modelo e com a mídia os alienando, estarão dominados. Os poucos conscientes remanescentes, que presenciaram os benefícios do monopólio estatal para um país em desenvolvimento como o Brasil, estarão aposentados ou mortos. Neste momento, o golpe fatal pode ser dado com a privatização da Petrobras.

 (Correio da CIdadania)

O. Médio

Provérbio beduíno & Conselho de Segurança
18/10/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline --
“Bedouin at horseshoe table in Turtle Bay”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Reunião do Conselho de Segurança da ONU
Vêm novidades do Oriente Médio, e diplomatas, especialistas e as capitais regionais – e até afamados atores “não estatais”, como a Al-Qaeda – debruçar-se-ão sobre elas, dissecando-as em busca de significados ocultos e declarados. Uma, pelo menos, é grande novidade. A Arábia Saudita jamais se interessou pelo privilégio de servir no Conselho de Segurança da ONU. Agora resolveu que sim, é hora, e acaba de ser eleita membro não permanente com mandato de dois anos, a partir de janeiro.

E então? Como fica? Sem dúvida, é mostra de que os sauditas estão determinados a se fazerem ouvir, sem carecer de garantias que lhes dêem as grandes potências. É uma decisão consciente de falar assertivamente no cenário internacional.

O timing é perfeito: o Oriente Médio está em torvelinho; e uma região completamente transformada luta para nascer. Os sauditas querem estar ali onde as coisas acontecem e tudo é importante, com papel ativo na nova coreografagem.

O cenário não poderia ser mais dramático: o fim de uma era de dominação ocidental que durou quase um século, com novos atores surgindo no horizonte, enquanto, dentro da própria região, novos centros de poder apareceram, a desafiar a supremacia dos sauditas. Há à frente um longo pôr de sol, que traz lembranças misturadas com desejos.

Bem evidentemente, os sauditas querem usar sua prerrogativa para pronunciar-se sobre o conflito na Síria.

Muitas decisões cruciais sobre o futuro da Síria serão tomadas nos próximos um, dois anos, pelo Conselho de Segurança; e os sauditas querem ter influência nesses eventos, em vez de manterem-se como observadores sem voz.

Se tudo isso será bom ou ruim, só o tempo dirá. A notória gangue P5 (EUA, Russia, França, China e Inglaterra) olhará desconfiada para o novo grande fingidor.

Mas o que realmente interessa é que o Conselho de Segurança terá agora cinco membros e meio, com poder de veto. É evento jamais visto, que clama por outra alquimia.

O xis da questão é que os sauditas são mestres consumados na arte de mover os cordões por trás das cortinas e têm capacidade para torpedear, pelo menos, as decisões tomadas pelo P5 que não estejam em harmonia com seus interesses, em questões como a questão síria.

Dentro do P5, os sauditas têm laços privilegiados com a França. O ministro Faisal (foto abaixo), das Relações Exteriores da Arábia Saudita, vive p’ra lá e p’ra cá no Palácio do Eliseu, de quinze em quinze dias.

A embaixadora Samantha Power terá de controlar a paixão por direitos humanos e pelo empoderamento das mulheres que a incendeia, e consultará o diplomata saudita na mesa em formato de ferradura, em tudo – grandes questões e questões pequenas – que tenha a ver com o Oriente Médio e que chegue ao Conselho de Segurança.

A China, que tem laços estratégicos com Riad, estará sob forte pressão para não assumir posições que perturbem os sauditas.

Moscou logo perceberá que já não bastará combinar posições com Washington e “coordenar-se” com Pequim. Ironicamente, os sauditas – regime autocrático – serão a força que obrigará o P5 a abrir-se para uma cultura de trabalho mais democrática.

O corpo “dos P5” entrará em curva de aprendizagem. Será engraçado, se e quando algum deles se atravessar no caminho dos sauditas. Os beduínos têm um ditado famoso:

Eu, contra meu irmão; meus irmãos e eu, contra os primos; os meus primos e eu, contra os estrangeiros.

Na mesa em formato de ferradura não há irmãos. Mas há dois primos – o Chade e a Nigéria – e dois “estrangeiros” – a Rússia e o governo Obama.

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ATUALIZAÇÃO: Arábia Saudita recusa vaga no Conselho de Segurança por “dupla moral” da ONU.

Saud al-Faisal, Chanceler da Arabia Saudita, informou decisão sobre CS da ONU
Segundo um comunicado da chancelaria saudita, “Riad não tem outro remédio a não ser renunciar a integrar o Conselho de Segurança, até que este seja renovado e dotado dos meios necessários para cumprir com suas obrigações e assumir suas responsabilidades, como garantidor da paz e da segurança no mundo”.

Para ler a notícia completa do portal Terra clique no "link" da ATUALIZAÇÃO.

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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.
(Redecastor)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Armas Químicas de Israel

As armas químicas “secretas” de Israel
 Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália 
“Le armi chimiche segrete di Israele”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bomba de fósforo branco (arma química) utilizada por Israel contra a Palestina ocupada
(Gaza) em 11/1/2009
Os inspetores da ONU, que controlam as armas químicas da Síria teriam muito mais trabalho se fossem mandados controlar as armas nucleares, biológicas e químicas (NBQ) de Israel. Mas, pelas regras do “direito internacional”, não podem controlar nenhuma arma israelense. Israel não assinou o Tratado de Não Proliferação, nem a Convenção que proíbe armas biológicas; assinou, mas não ratificou o tratado que proíbe armas químicas.

Segundo o blog Jane’s Defense Weekly, Israel – a única potência nuclear em todo o Oriente Médio – tem de 100 a 300 ogivas nucleares e os respectivos vetores (mísseis balísticos e de cruzeiro e caças-bombardeiros). Segundo estimativas do Centro Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo [Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI)], Israel produziu entre 690 e 950 kg de plutônio e continua a produzir plutônio suficiente para montar, por ano, de 10 a 15 bombas do tipo usado em Nagasaki. Israel também produz trítio, um gás radiativo com o qual se produzem ogivas neurotrônicas, que causam contaminação radiativa menor, mas de mais alta letalidade.

Centro Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (SIPRI)
Segundo vários relatórios internacionais, citados também pelo jornal israelense Ha’aretz, as armas biológicas e químicas são desenvolvidas no Instituto para Pesquisa Biológica, situado em Ness-Ziona, próximo a Telavive. Oficialmente, ali trabalham 160 cientistas e 170 técnicos, e o Instituto trabalha há mais de 50 anos em pesquisas em biologia, bioquímica, biotecnologia, farmacologia, física e outras especialidades. O Instituto é, com o Centro Nuclear de Dimona, “uma das instituições mais secretas de Israel”, sob jurisdição direta do primeiro-ministro.

O maior sigilo cerca a pesquisa de armas biológicas: bactérias e vírus que, lançados contra o inimigo, podem gerar epidemias. Dentre eles, a bactéria da peste bubônica (a “peste negra” da Idade Média) e o vírus Ebola, contagioso e letal, contra o qual ainda não há terapia disponível. A biotecnologia é instrumento para criar novos tipos de agente patogênicos contra os quais as populações-alvo não têm resistências, nem há vacina. Há também informação confiável sobre pesquisas, em Ness-Ziona, para desenvolver armas biológicas suficientemente potentes para neutralizar todo o sistema imunológico humano.

Oficialmente, o Instituto israelense em Ness-Ziona pesquisa vacinas contra bactérias e vírus, como sobre o antrax financiadas pelo Pentágono. Mas é evidente que o mesmo tipo de pesquisa permite desenvolver novos agentes patogênicos a serem usados como arma de guerra. O mesmo tipo de trabalho é feito também nos EUA e em outros países, para escapar às leis, acordos e convenções que proíbem o uso de armas biológicas e químicas.

Karel Knip
Em 1999, a carapaça de sigilo que protege as pesquisas de armas nucleares, biológicas e químicas em Israel foi quebrada em parte pela investigação, realizada com a colaboração de cientistas, do jornalista holandês Karel Knip, editor sênior de ciências do diário holandês NRC - Handelsblad, e publicada sob o título de “Biologia em Ness Ziona”. [1] Ali ficou afinal comprovado que as substâncias tóxicas desenvolvidas pelo Instituto são utilizadas pelo Mossad para assassinar dirigentes palestinos. [2]

Depoimentos de médicos indicam que em Gaza e no Líbano, as forças israelenses utilizaram armas de concepção recente: deixam intactos os cadáveres, vistos externamente, mas agem por dentro, carbonizando o fígado e os ossos e fazendo coagular o sangue. É perfeitamente possível, com recursos de nanotecnologia. A Itália também colabora no desenvolvimento dessas armas, ligada a Israel por um acordo de cooperação militar e principal parceiro dos israelenses na pesquisa & desenvolvimento de armas biológicas. O orçamento italiano prevê dotação anual de 3 milhões de euros para esses projetos de pesquisa conjunta ítalo-israelenses. Exemplo dessa colaboração aparece no mais recente pedido de verbas para pesquisa do Ministério de Relações Exteriores italiano, que pede verbas para “novas abordagens para o combate de agentes patogênicos resistentes aos tratamentos”. Com essas verbas, o Instituto israelense para pesquisa biológica poderá tornar os agentes patogênicos ainda mais resistentes.
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[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.


Notas dos tradutores

[1] O centro IIBR já desenvolvia armas químicas e biológicas em segredo, até que, dia 4/10/1992, um avião, que fazia o voo n. 1862 da empresa El Al, caiu sobre um prédio de apartamentos em Bijlmer, bairro de Amsterdã, Holanda, a caminho de Telavive, levando a bordo três tripulantes, um passageiro e 114 toneladas de carga. Foi o pior desastre aéreo da história holandesa, que deixou 47 mortos em solo e arruinou a saúde de 3.000 moradores da área.
Começaram a surgir doenças misteriosas, irrupções cutâneas, dificuldades respiratórias, doenças neurológicas e muitos casos de câncer, concentrados naquela específica área. 
 IIBR (Israel Institute for Biological Research)
Depois de vários anos de investigações detalhadas e profundas, o jornalista holandês Karel Knip, publicou, em novembro de 1999, a reportagem mais detalhada e mais repleta de fatos sobre o trabalho do IIBR israelense, narrada a partir do acidente aéreo em Bijlmer.
Knip conseguiu provar que o avião levava uma carga da empresa Sokatronic Chemicals, de Morrisville, Pennsylvania, para o Instituto IIBR, em Israel, o que configura clara violação da Convenção para Armas Químicas.
O carregamento incluía 50 galões de DMMP, quantidade suficiente para produzir 250kg de gás sarin, de efeito neurológico, 20 vezes mais letal que o cianureto. Knip descobriu que pelo menos 140 cientistas especializados em armas biológicas do Instituto IIBR tinham laços próximos com o Walter Reed Army Institute, a Uniformed Services University, o American Chemical and Biological Weapons Center em Edgewood e a Universidade de Utah.
Descobriu também a estreita cooperação que há entre o IIBR israelense e o programa de armas biológicas britânico-norte-americano e, também, o extenso programa de pesquisa de armas biológicas que há entre Alemanha e Holanda – o que explica que, até hoje, o governo holandês mantenha o mais absoluto silêncio sobre o avião que caiu em Amsterdam. (Global Research, 29/9/2013 em: “Israel’s History of Chemical Weapons Use”).

[2] Um caso muito bem comprovado de uso de arma química por Israel, em atentado do Mossad contra Khaled Meshall, do Hamás palestino, em Amã, Jordânia, em 1997, está narrado em detalhes fartamente documentados no livro Kill Khalid. The Failed Mossad assassination of Khalid Meshall and the Rise of Hamas, do jornalista australiano Paul McGeough (EUA: The New Press, 1999).

Meshall foi atacado num aparente simples esbarrão na rua, quando agentes do Mossad disfarçados como turistas injetaram uma substância desconhecida dentro de seu ouvido.
Os atacantes foram perseguidos por guardas da segurança de Meshall e, para não serem apanhados, entraram no prédio da embaixada de Israel em Amã.
Meshall só foi salvo por interferência direta do rei da Jordânia, indignado com a ação de terroristas israelenses em território da Jordânia, que denunciou a ação terrorista ao presidente Clinton, dos EUA, o qual ordenou que Israel enviasse imediatamente o antídoto para salvar a vida de Meshall. Israel obedeceu, pressionado também pelo rei da Jordânia que já cercara a embaixada e ameaçava explodir o prédio, o que criaria um incidente internacional que todos os envolvidos tinham interesse em evitar a qualquer custo, gerado, de fato, pela incompetência dos agentes israelenses.
(REdecastor)

Lispector

A última entrevista de Clarice Lispector

    Uma rara entrevista de Clarice Lispector, concedida em 1977, ao repórter Júlio Lerner, da TV Cultura. Depois de gravada, Clarice pediu que a entrevista só fosse divulgada após sua morte. Foi ao ar dez meses depois. Clarice morreu em dezembro de 1977, aos 57 anos

De minha sala até o saguão dos estúdios tenho que percorrer cerca de 150 metros. Estou tão aturdido com a possibilidade de entrevistá-la que mal consigo me organizar naquela curta caminhada. Talvez falar sobre “A Paixão Segundo G.H”… Ou quem sabe sobre “A Maçã no Escuro” e “Perto do Coração Selvagem”… Vou recordando o que Clarice escreveu. Será que li tudo? Em apenas cinco minutos consegui um estúdio para entrevistá-la. São quatro e quinze da tarde e disponho de apenas meia hora. Às cinco entra ao vivo o programa infantil e quinze minutos antes terei de desocupar o estúdio. Estou correndo e antes mesmo de vê-la a pressão do tempo começa a me massacrar. Não terei condições de preparar nada antes, nem mesmo conversar um pouco. Não poderei sequer tentar criar um clima adequado para a entrevista. Eu odeio a TV brasileira! Só meia hora para ouvir Clarice. O pessoal da técnica foi novamente generoso e se empenhou para conseguir essa brecha. Olho o relógio, não consigo me organizar, estou correndo, olho novamente o relógio. Estou desconcertado, atinjo o saguão dos estúdios e a vejo ali, dez metros adiante, Clarice de pé ao lado de uma amiga, perdida no meio do vaivém dos cenários desmontados, de diversos equipamentos e de técnicos que falam alto, no meio de um grande alvoroço.

Paro diante dela, estou um pouco ofegante, estendo-lhe a mão e sou atravessado pelo olhar mais desprotegido que um ser humano pode lançar a semelhante. Ela é frágil, ela é tímida, e eu não tenho condições para explicar que o problema do tempo elevou meus níveis de ansiedade. Clarice me apresenta Olga Borelli, entramos e a conduzo ao centro do pequeno estúdio. Peço para que ela sente numa poltrona de couro de tonalidade café-com-leite. Clarice segura apenas um maço de Hollywood e uma caixa de fósforos, providencio um cinzeiro, os refletores malditos são ligados. Clarice me olha. O olhar de Clarice me interroga, só disponho de uma única câmera, o olhar de Clarice suplica, Olga se ajeita numa lateral escurecida, chega Miriam, a estagiária do programa e fica encolhida e calada, o calor está ficando insuportável e o ar-condicionado não está ajustado, são apenas quatro e vinte, Clarice tenta me dizer alguma coisa mas não falo com ela, preocupado em ajustar uma questão de iluminação, o hálito da fornalha já nos atinge a todos, devemos ter agora no estúdio uns 50 ou 60 graus, maldita TV, bendita TV do terceiro mundo que me possibilita estar agora frente a frente com ela, Clarice me olha melindrosa, assustada e seu olhar me pede para que a tranquilize.

“OK, Júlio, tudo pronto”, a voz metálica vem da caixa dos alto-falantes. Peço a toda equipe para sair, cabo man, iluminador, assistente de estúdio, agradeço. Clarice percebe que caiu numa arapuca e já não há como voltar atrás. Peço silêncio e depois de uns dez segundos ecoa um “gravando”.

Não conversamos antes e disponho apenas de 23 minutos. Estou completamente desconcertado, fico um minuto em silêncio fitando Clarice. Estou oco, vazio, não sei o que dizer. Clarice me olha curiosa, mas vigilante, defendida. Sou o senhor do castelo e — prepotente — guardo comigo a chave desta prisão. Ninguém pode entrar ou sair sem meu expresso consentimento. Todos devem se submeter à minha autoritária vontade.

A fornalha arde, meu coração dispara, minha boca está seca e debaixo destes tirânicos mil sóis sou o maior dos tiranos. Começa a entrevista. A entrevista avança. Seus olhos azuis-oceânicos revelam solidão e tristeza. Clarice está nua, não há perdão, Clarice agora está encapotada, ela se deixa agarrar, mas logo escapa, e volta, e me pega, e me sugere o longe, o não dizível, depois se cala. E quando nada mais espero, ela volta a falar. Faço uma antientrevista, pausas, silêncios, Clarice agora está fugindo para uma galáxia inabitada e inatingível, mas volta em seguida e, tolerante, suporta toda a minha limitação.

Acho que ela vai se levantar a qualquer instante e me dizer: “Chega!”. Clarice pressente que por trás de meu sorriso aparentemente compreensivo e de minha fala suave esconde-se um ser diabólico autodenominado “repórter” e que quer possuir sua intimidade. Seu corpo exprime receios, ela me afasta, mas de novo me atrai, suas pernas se cruzam e se descruzam sem parar e telegrafam que de repente ela poderá se levantar e partir. (Júlio Lerner)



Clarice Lispector, de onde veio esse Lispector?

É um nome latino, não é? Eu perguntei a meu pai desde quando havia Lispector na Ucrânia. Ele disse que há gerações e gerações anteriores. Eu suponho que o nome foi rolando, rolando, rolando, perdendo algumas sílabas e foi formando outra coisa que parece “Lis” e “peito”, em latim. É um nome que quando escrevi meu primeiro livro, Sérgio Milliet (eu era completamente desconhecida, é claro) diz assim: “Essa escritora de nome desagradável, certamente um pseudônimo…”. Não era, era meu nome mesmo.

Você chegou a conhecer o Sérgio Milliet pessoalmente?

Nunca. Porque eu publiquei o meu livro e fui embora do Brasil, porque eu me casei com um diplomata brasileiro, de modo que não conheci as pessoas que escreveram sobre mim.

Clarice, seu pai fazia o que profissionalmente?

Representações de firmas, coisas assim. Quando ele, na verdade, dava era para coisas do espírito.

Há alguém na família Lispector que chegou a escrever alguma coisa?

Eu soube ultimamente, para minha enorme surpresa, que minha mãe escrevia. Não publicava, mas escrevia. Eu tenho uma irmã, Elisa Lispector, que escreve romances. E tenho outra irmã, chamada Tânia Kaufman, que escreve livros técnicos.

Você chegou a ler as coisas que sua mãe escreveu?

Não, eu soube há poucos meses. Soube através de uma tia: “Sabe que sua mãe fazia um diário e escrevia poesias?” Eu fiquei boba…

Nas raras entrevistas que você tem concedido surge, quase que necessariamente, a pergunta de como você começou a escrever e quando?

Antes de sete anos eu já fabulava, já inventava histórias, por exemplo, inventei uma história que não acabava nunca. Quando comecei a ler comecei a escrever também. Pequenas histórias.

Quando a jovem, praticamente adolescente Clarice Lispector, descobre que realmente é a literatura aquele campo de criação humana que mais a atrai, a jovem Clarice tem algum objetivo específico ou apenas escrever, sem determinar um tipo de público?

Apenas escrever.

Você poderia nos dar uma ideia do que era a produção da adolescente Clarice Lispector?

Caótica. Intensa. Inteiramente fora da realidade da vida.

Desse período você se lembra do nome de alguma produção?

Bem, escrevi várias coisas antes de publicar meu primeiro livro. Eu escrevia para revistas — contos, jornais. Eu ia com uma timidez enorme, mas uma timidez ousada. Eu sou tímida e ousada ao mesmo tempo. Chegava lá nas revistas e dizia: “Eu tenho um conto, você não quer publicar?” Aí me lembro que uma vez foi o Raimundo Magalhães Jr. que olhou, leu um pedaço, olhou para mim e disse: “Você copiou isso de quem?” Eu disse: “De ninguém, é meu”. Ele disse: Você traduziu?” Eu disse: “Não”. Ele disse: “Então eu vou publicar”. Era sim, era meu trabalho.

Você publicava onde?

Ah, não me lembro… Jornais, revistas.

Clarice, a partir de qual momento você efetivamente decidiu assumir a carreira de escritora?

Eu nunca assumi.

Por quê?

Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever. Ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu faço questão de não ser uma profissional para manter minha liberdade.

A sua produção ocorre com frequência ou você tem períodos?

Tenho períodos de produzir intensamente e tenho períodos-hiatos em que a vida fica intolerável.

E esses hiatos são longos?

Depende. Podem ser longos e eu vegeto nesse período ou então, para me salvar, me lanço logo noutra coisa, por exemplo, eu acabei uma novela, estou meio oca, então estou fazendo histórias para crianças.

Como você explica a Clarice Lispector voltada para a literatura infantil?

Começou com meu filho quando ele tinha seis anos, seis ou cinco anos, me ordenando que escrevesse uma história para ele. E eu escrevi. Depois guardei e nunca mais liguei. Até que me pediram um livro infantil. Eu disse que não tinha. Eu tinha inteiramente esquecido daquilo. Era tão pouco literatura para mim, eu não queria usar isso para publicar. Era para o meu filho. Aí lembrei: “Bom, tenho, sim”. Então foi publicado. Foram publicados três livros de literatura infantil e estou fazendo o quarto agora.

É mais difícil você se comunicar com o adulto ou com a criança?

Quando me comunico com criança é fácil porque sou muito maternal. Quando me comunico com o adulto, na verdade, estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma.

O adulto é sempre solitário?

O adulto é triste e solitário.

E a criança?

A criança tem a fantasia solta.

A partir de que momento, de acordo com a escritora, o ser humano vai se transformando em triste e solitário?

Ah, isso é segredo. Desculpe, não vou responder. A qualquer momento da vida, basta um choque um pouco inesperado e isso acontece. Mas eu não sou solitária. Tenho muitos amigos. E só estou triste hoje porque estou cansada. No geral sou alegre.

Normalmente o contato do jovem estudante com você revela que tipo de preocupação?

Revela coisas surpreendentes, que eles estão na minha.

O que significa “estar na sua”?

É que eu penso às vezes que eu estou isolada e quando eu vejo estou tendo universitários, gente muito jovem, que está completamente ao meu lado e é gratificante, não é?

Nós ouvimos com frequência que as novas gerações pouco leem no Brasil. Você confirma isso?

Bem, os universitários são obrigados a ler porque impõem a eles a obra. Agora não estou a par dos outros.

De seus trabalhos qual aquele que você acredita que mais atinja o público jovem?

Depende. Por exemplo, o meu livro “A Paixão Segundo G.H”, um professor de português do Pedro II veio até minha casa e disse que leu quatro vezes e ainda não sabe do que se trata. No dia seguinte uma jovem de 17 anos, universitária, disse que este é o livro de cabeceira dela. Quer dizer, não dá para entender.

E isso acontece em relação a outros trabalhos seus?

Também em relação ao outros trabalhos, ou toca ou não toca. Suponho que não entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Tanto que o professor de português e literatura, que deveria ser o mais apto a me entender, não me entendia. E a moça de 17 anos lia e relia o livro, não é? O que é um alívio.

Antes de nos encontrarmos aqui no estúdio você me dizia que está começando um novo trabalho agora, uma novela…

Não, eu acabei a novela.

Que novela é essa, Clarice?

É a história de uma moça que só comia cachorro-quente. A história é de uma inocência pisada, de uma miséria anônima…

O cenário dessa novela é…

É o Rio de Janeiro… Mas o personagem é nordestino, é de Alagoas…

Onde você foi buscar a inspiração, dentro de si mesma?

Eu morei no Recife, me criei no Nordeste. E depois, no Rio de Janeiro tem uma feira de nordestinos no Campo de São Cristóvão e uma vez eu fui lá. E peguei o ar meio perdido do nordestino no Rio de Janeiro. Daí começou a nascer a ideia. Depois eu fui a uma cartomante e ela disse várias coisas boas que iam acontecer e imaginei, quando tomei o táxi de volta, que seria muito engraçado se um táxi me atropelasse e eu morresse depois de ter ouvido todas aquelas coisas boas. Então a partir daí foi nascendo também a trama da história.

Qual o nome da heroína da novela?

Não quero dizer. É segredo.

E o nome da novela, você poderia revelar?

Treze nomes, treze títulos.

Rilke, em seu livro “Cartas a um Jovem Poeta”, respondendo a uma das missivas, pergunta a um jovem que pretendia se tornar escritor: se você não pudesse mais escrever, você morreria? A mesma pergunta eu transfiro a você.

Eu acho que, quando não escrevo estou morta.

Esse período?

É muito duro, esse período entre um trabalho e outro, e ao mesmo tempo é necessário para haver uma espécie de esvaziamento para poder nascer alguma outra coisa, se nascer. É tudo tão incerto…

Clarice, mas como é que você escreve? Existe algum horário específico?

Em geral de manhã cedo. As minhas horas preferidas são as da manhã.

Você acorda a que horas?

Quatro e meia, cinco horas. Fico fumando, tomando café, sozinha sem nenhuma interferência. Quando estou escrevendo alguma coisa eu anoto a qualquer hora do dia ou da noite, coisas que me vêm. O que se chama inspiração, não é? Agora quando estou no ato de concatenar as inspirações, aí sou obrigada a trabalhar diariamente.

Você se considera uma escritora popular?

Não.

Por qual razão?

Me chamam de hermética. Como é que eu posso ser popular sendo hermética?

E como você vê esta observação “hermética”?

Eu me compreendo. De modo que não sou hermética para mim. Bom, tem um conto meu que não compreendo muito bem…

Que conto?

“O ovo e a galinha”.

Entre seus diversos trabalhos existe um filho predileto. Qual aquele que você vê com maior carinho até hoje?

“O ovo e a galinha”, que é um mistério para mim. Uma coisa que eu escrevi sobre um bandido, um criminoso chamado Mineirinho, que morreu com três balas quando uma só bastava. E que era devoto de São Jorge e que tinha uma namorada.

Sobre esse seu trabalho em torno de Mineirinho, qual o enfoque você deu?

Eu não me lembro muito bem, já faz bastante tempo. Há qualquer coisa assim como “o primeiro tiro me espanta, o segundo tiro não sei o que, o terceiro tiro…” Eu me transformei no Mineirinho, massacrado pela polícia. Qualquer que tivesse sido o crime dele uma bala bastava, o resto era vontade de matar. Era prepotência.

Em que medida o trabalho de Clarice Lispector no caso específico de Mineirinho pode alterar a ordem das coisas?

Não altera em nada. Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa.

No seu entender, qual é o papel do escritor brasileiro hoje?

De falar o menos possível

Você tem mantido contato como outros escritores?

Eventualmente.

Quais aqueles que você acredita serem os mais significativos?

Eu prefiro não citar nomes porque eu vou esquecer alguns e vai ofender, vai ferir. Assim, eu não cito ninguém.

Você discute muito com a Clarice Lispector escritora?

Não. Eu me deixo ser…

E convivem em paz?

Ás vezes não em paz, mas…

Normalmente, que tipo de problema a Clarice Lispector escritora traz a você?

Às vezes o fato de me considerar escritora me isola.

Por qual razão?

Me põe um rótulo.

E você acredita que as pessoas olham para você através desse rótulo?

Às vezes através desse rótulo. Tudo o que eu digo, a maior bobagem, é considerada como uma coisa linda ou uma coisa boba. É por isso que não ligo muito para essa coisa de ser escritora e dar entrevistas e tudo.

Você acredita que uma pessoa vá a uma livraria comprar especificamente um livro de Clarice Lispector?

Parece que isso acontece. Eu sei porque às vezes me telefonam e me perguntam em que livraria encontram meu livro. Então eu sei que tem pessoas que vão procurar exatamente o meu livro. É que no fundo eu escrevo muito simples, sabe?

Será que as coisas simples hoje são recebidas de maneira complicada?

Talvez, talvez… Eu escrevo simples. Eu não enfeito.

Na sua formação como escritora quais aqueles autores que você sente que realmente lhe influenciaram, que marcaram?

Eu não sei realmente porque misturei tudo. Eu lia romance para mocinhas, livro cor-de-rosa, misturado com Dostoiévski. Eu escolhia os livros pelos títulos e não pelos autores. Misturei tudo. Fui ler, aos treze anos, Hermann Hesse, [o romance] “O Lobo da Estepe”, e foi um choque. Aí comecei a escrever um conto que não acabava nunca mais. Terminei rasgando e jogando fora.

Isso ainda acontece de você produzir alguma coisa e rasgar?

Eu deixo de lado… Não, eu rasgo sim.

É produto de reflexão ou de uma emoção?

Raiva, um pouco de raiva.

De quem?

De mim mesma.

Por que, Clarice?

Sei lá, estou meio cansada.

Do quê?

De mim mesma.

Mas você não renasce e se renova a cada trabalho novo?

Bom, agora eu morri. Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta. Estou falando do meu túmulo.


Entrevista concedida ao jornalista Júlio Lerner, em 1 de fevereiro de 1977, para o programa “Panorama”, da TV Cultura, de São Paulo.
Revista Bula)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Brasil e EUA

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Brasil distancia-se dos EUA

20/10/2013, [*] Darío Pignotti, Pagina/12, Buenos Aires
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Campos do pré-sal nas bacias de Santos e Rio de Janeiro
As edições eletrônicas do Wall Street Journal e do Financial Times dedicarão amanhã uma cobertura agitada, recolhendo repercussões minuto a minuto do leilão a realizar-se no Brasil, do campo de petróleo Libra, de 1.500 km2, com cerca de 12 milhões de barris em águas profundas a 183 km da costa do Rio de Janeiro, e que, em alguns anos, pode estar produzindo 1,4 milhões de barris/dia, volume equivalente a 70% do que o país produz hoje.
Petrobrás e três petroleiras chinesas (não se descarta a formação de um consórcio sino-brasileiro, à última hora) aparecem entre as onze empresas que participarão da disputa pelo campo de Libra, da qual não participarão as “grandes irmãs” norte-americanas, por causa do estresse diplomático surgido entre Brasília e Washington, depois que se revelaram os atos de espionagem perpetrados pela Agência de Segurança Nacional dos EUA contra a Petrobrás e a presidenta Dilma Rousseff, dentre outros alvos sensíveis.
Por baixo e por trás das notícias em tempo real que já sufocam e mais ainda sufocarão amanhã, de índices da Bolsa e corretores e ‘'especialistas'’ com opiniões de curtíssimo prazo, há uma história de que pouco se falará, transcorrida nos últimos anos, e que permite compreender realmente o que está em jogo: uma reacomodação de forças na geopolítica do petróleo.
Celso Amorim
Celso Amorim era chanceler, em julho de 2008, quando recebeu um telefonema de sua contraparte norte-americana Condoleezza Rice, que lhe sugeria que recebesse sem alarme a notícia de que seria reativada a 4ª Frota, sob jurisdição do Comando Sul dos EUA, anunciada alguns meses depois de que foram descobertas, em 2007, grandiosas reservas de petróleo no litoral de Campos e de Santos, nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Nem o chanceler Amorim, nem seu chefe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, levaram a sério a retórica de tranquilização da serventuária de George W. Bush. Aliás, foi exatamente o contrário: houve alarme no Palácio do Planalto. Lula, Amorim e a então ministra Dilma Rousseff, que começava a aparecer como candidata à presidência, compreenderam imediatamente que a presença da Marinha dos EUA nas costas cariocas seria uma ostentação de poderio militar sobre os 50 bilhões de cru de boa qualidade ali guardados, a mais de 5.000 metros de profundidade, numa zona geológica conhecida como “pré-sal”.
Mas, à parte os questionamentos em foros internacionais, especialmente latino- americanos, pouco o Palácio do Planalto pôde fazer naquele momento, contra a ostentação de supremacia militar dos EUA e sua decisão de que a 4ª Frota – braço armado das petroleiras de bandeira norte-americana Exxon e Chevron no hemisfério – viraria a proa na direção sul.
Camadas do sub-solo marinho

Lula e sua conselheira em assuntos de energia, Dilma Rousseff, viram-se num dilema: ou adotar uma saída à mexicana, como a do atual presidente Enrique Peña Nieto, que se mostrou disposto a privatizar a Pemex, embora o termo empregado tenha sido “modernização”; ou injetar dinheiro e mística nacionalista para fortalecer a Petrobrás como vetor de uma estratégia destinada a salvaguardar a soberania energética. Por fim, o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) optou pela segunda via, e implantou-a, mediante uma bateria de medidas de amplo espectro.
Capitalizou a Petrobrás, com o objetivo de reverter o efeito de esvaziamento da empresa herdado do governo do PSDB, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002); e conseguiu aprovar, ao final de 2010, uma lei “estatizante e intervencionista” para o petróleo – na opinião de políticos neoliberais e do lobby britânico-EUA, sempre ampliada e repercutida infinitas vezes pelos jornalistas das principais empresas de jornalismo no Brasil.
Ressuscitou o projeto de construir um submarino atômico com a França, país com o qual o Brasil assinou em 2009 um acordo militar (que avançou menos que o prometido); exigiu nos organismos internacionais a expansão da plataforma marinha, para assegurar que ninguém aparecesse para disputar a titularidade dos campos de petróleo submarino, e promoveu o Conselho de Defesa da UNASUL, com apoio de Argentina e Venezuela e indefinição dos colombianos.
Como braço auxiliar dessa linha de ação governamental, o PT operou uma perseverante aproximação com o Partido Comunista Chinês, antessala para estabelecer laços de confiança política com a nomenclatura do Estado asiático, com cujo Banco de Desenvolvimento o Brasil assinaria afinal, em 2010, uma série de pré-acordos para concessão e empréstimos de dezenas de milhões de dólares à Petrobrás.
Paralelamente aos movimentos brasileiros para salvaguardar seu interesse nacional e para alcançar um lugar para o Brasil entre as potências do petróleo, a Agência de Segurança Nacional dos EUA dedicava-se a roubar informações estratégicas do Ministério de Minas e Energia, e os diplomatas norte-americanos que operavam em Brasília [e em outras capitais] enviavam telegramas secretos a Washington, nos quais o chanceler Amorim era pintado como “diplomata antiamericano”.
Dilma Rousseff
Há três meses, quando Dilma Rousseff foi informada sobre as manobras da Agência de Segurança Nacional dos EUA, uma fonte do Planalto disse a Página/12 que a presidenta evitaria “radicalizar” a situação, porque confiava numa conciliação com os EUA, em visita oficial marcada para dia 23 de outubro. Mas, em setembro, Dilma se tornou irredutível, ao saber que os espiões norte-americanos haviam violado até as comunicações da Petrobrás.
A decisão de suspender a visita de estado a Washington, mesmo depois de Barack Obama ter renovado pessoalmente o convite, não deve ser interpretada como gesto impensado, que não foi; e suas consequências afetaram decisões cruciais.
O fato de que não haja inscrita nenhuma petroleira dos EUA, para participar do leilão de amanhã do megacampo de Libra, e de que três poderosas empresas chinesas, duas das quais são empresas estatais, estejam na disputa, é sinal claro de que a colisão diplomática teve, sim, repercussão prática.
Que fontes próximas do governo tenham deixado transparecer que há a possibilidade de que se constitua um consórcio entre a Petrobrás e alguma empresa chinesa, revela que a geopolítica de Brasília para o petróleo inclina-se para Pequim – que já é seu principal sócio comercial. E se isso tudo já não bastasse para demarcar o distanciamento estratégico entre o Planalto e a Casa Branca, semana passada o indigesto (para Washington) ministro Celso Amorim, agora no posto de Ministro da Defesa, iniciou conversações com a Rússia, para analisar a compra de caças-bombardeiros Sukoi.
Foi só uma sondagem, mas se essa compra for formalizada, será considerável revés para a corporação industrial-militar dos EUA, que imaginava vender seus caças Super Hornet ao Brasil, durante a visita que Dilma já não fará.
___________________________________

[*] Darío Pignotti é correspondente do jornal argentino Página 12, da  agência de notícias ANSA e colaborador do informativo dos veículos  Le Monde Diplomatique (França) e Milênio do México. Doutorado em Comunicações pela Universidade de São Paulo-Brasil.
(Redecastor)

Brasil e EUA

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Brasil distancia-se dos EUA

20/10/2013, [*] Darío Pignotti, Pagina/12, Buenos Aires
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Campos do pré-sal nas bacias de Santos e Rio de Janeiro
As edições eletrônicas do Wall Street Journal e do Financial Times dedicarão amanhã uma cobertura agitada, recolhendo repercussões minuto a minuto do leilão a realizar-se no Brasil, do campo de petróleo Libra, de 1.500 km2, com cerca de 12 milhões de barris em águas profundas a 183 km da costa do Rio de Janeiro, e que, em alguns anos, pode estar produzindo 1,4 milhões de barris/dia, volume equivalente a 70% do que o país produz hoje.
Petrobrás e três petroleiras chinesas (não se descarta a formação de um consórcio sino-brasileiro, à última hora) aparecem entre as onze empresas que participarão da disputa pelo campo de Libra, da qual não participarão as “grandes irmãs” norte-americanas, por causa do estresse diplomático surgido entre Brasília e Washington, depois que se revelaram os atos de espionagem perpetrados pela Agência de Segurança Nacional dos EUA contra a Petrobrás e a presidenta Dilma Rousseff, dentre outros alvos sensíveis.
Por baixo e por trás das notícias em tempo real que já sufocam e mais ainda sufocarão amanhã, de índices da Bolsa e corretores e ‘'especialistas'’ com opiniões de curtíssimo prazo, há uma história de que pouco se falará, transcorrida nos últimos anos, e que permite compreender realmente o que está em jogo: uma reacomodação de forças na geopolítica do petróleo.
Celso Amorim
Celso Amorim era chanceler, em julho de 2008, quando recebeu um telefonema de sua contraparte norte-americana Condoleezza Rice, que lhe sugeria que recebesse sem alarme a notícia de que seria reativada a 4ª Frota, sob jurisdição do Comando Sul dos EUA, anunciada alguns meses depois de que foram descobertas, em 2007, grandiosas reservas de petróleo no litoral de Campos e de Santos, nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Nem o chanceler Amorim, nem seu chefe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, levaram a sério a retórica de tranquilização da serventuária de George W. Bush. Aliás, foi exatamente o contrário: houve alarme no Palácio do Planalto. Lula, Amorim e a então ministra Dilma Rousseff, que começava a aparecer como candidata à presidência, compreenderam imediatamente que a presença da Marinha dos EUA nas costas cariocas seria uma ostentação de poderio militar sobre os 50 bilhões de cru de boa qualidade ali guardados, a mais de 5.000 metros de profundidade, numa zona geológica conhecida como “pré-sal”.
Mas, à parte os questionamentos em foros internacionais, especialmente latino- americanos, pouco o Palácio do Planalto pôde fazer naquele momento, contra a ostentação de supremacia militar dos EUA e sua decisão de que a 4ª Frota – braço armado das petroleiras de bandeira norte-americana Exxon e Chevron no hemisfério – viraria a proa na direção sul.
Camadas do sub-solo marinho

Lula e sua conselheira em assuntos de energia, Dilma Rousseff, viram-se num dilema: ou adotar uma saída à mexicana, como a do atual presidente Enrique Peña Nieto, que se mostrou disposto a privatizar a Pemex, embora o termo empregado tenha sido “modernização”; ou injetar dinheiro e mística nacionalista para fortalecer a Petrobrás como vetor de uma estratégia destinada a salvaguardar a soberania energética. Por fim, o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) optou pela segunda via, e implantou-a, mediante uma bateria de medidas de amplo espectro.
Capitalizou a Petrobrás, com o objetivo de reverter o efeito de esvaziamento da empresa herdado do governo do PSDB, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002); e conseguiu aprovar, ao final de 2010, uma lei “estatizante e intervencionista” para o petróleo – na opinião de políticos neoliberais e do lobby britânico-EUA, sempre ampliada e repercutida infinitas vezes pelos jornalistas das principais empresas de jornalismo no Brasil.
Ressuscitou o projeto de construir um submarino atômico com a França, país com o qual o Brasil assinou em 2009 um acordo militar (que avançou menos que o prometido); exigiu nos organismos internacionais a expansão da plataforma marinha, para assegurar que ninguém aparecesse para disputar a titularidade dos campos de petróleo submarino, e promoveu o Conselho de Defesa da UNASUL, com apoio de Argentina e Venezuela e indefinição dos colombianos.
Como braço auxiliar dessa linha de ação governamental, o PT operou uma perseverante aproximação com o Partido Comunista Chinês, antessala para estabelecer laços de confiança política com a nomenclatura do Estado asiático, com cujo Banco de Desenvolvimento o Brasil assinaria afinal, em 2010, uma série de pré-acordos para concessão e empréstimos de dezenas de milhões de dólares à Petrobrás.
Paralelamente aos movimentos brasileiros para salvaguardar seu interesse nacional e para alcançar um lugar para o Brasil entre as potências do petróleo, a Agência de Segurança Nacional dos EUA dedicava-se a roubar informações estratégicas do Ministério de Minas e Energia, e os diplomatas norte-americanos que operavam em Brasília [e em outras capitais] enviavam telegramas secretos a Washington, nos quais o chanceler Amorim era pintado como “diplomata antiamericano”.
Dilma Rousseff
Há três meses, quando Dilma Rousseff foi informada sobre as manobras da Agência de Segurança Nacional dos EUA, uma fonte do Planalto disse a Página/12 que a presidenta evitaria “radicalizar” a situação, porque confiava numa conciliação com os EUA, em visita oficial marcada para dia 23 de outubro. Mas, em setembro, Dilma se tornou irredutível, ao saber que os espiões norte-americanos haviam violado até as comunicações da Petrobrás.
A decisão de suspender a visita de estado a Washington, mesmo depois de Barack Obama ter renovado pessoalmente o convite, não deve ser interpretada como gesto impensado, que não foi; e suas consequências afetaram decisões cruciais.
O fato de que não haja inscrita nenhuma petroleira dos EUA, para participar do leilão de amanhã do megacampo de Libra, e de que três poderosas empresas chinesas, duas das quais são empresas estatais, estejam na disputa, é sinal claro de que a colisão diplomática teve, sim, repercussão prática.
Que fontes próximas do governo tenham deixado transparecer que há a possibilidade de que se constitua um consórcio entre a Petrobrás e alguma empresa chinesa, revela que a geopolítica de Brasília para o petróleo inclina-se para Pequim – que já é seu principal sócio comercial. E se isso tudo já não bastasse para demarcar o distanciamento estratégico entre o Planalto e a Casa Branca, semana passada o indigesto (para Washington) ministro Celso Amorim, agora no posto de Ministro da Defesa, iniciou conversações com a Rússia, para analisar a compra de caças-bombardeiros Sukoi.
Foi só uma sondagem, mas se essa compra for formalizada, será considerável revés para a corporação industrial-militar dos EUA, que imaginava vender seus caças Super Hornet ao Brasil, durante a visita que Dilma já não fará.
___________________________________

[*] Darío Pignotti é correspondente do jornal argentino Página 12, da  agência de notícias ANSA e colaborador do informativo dos veículos  Le Monde Diplomatique (França) e Milênio do México. Doutorado em Comunicações pela Universidade de São Paulo-Brasil.

domingo, 20 de outubro de 2013

Gia e suas lições

General Vo Nguyen Giap, 1911-2013 (in memoriam)
Iraque: Por que as lições do Vietnã ainda são importantes

20/8/2003, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
“Why the lessons of Vietnam do matter”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Incluímos também este excelente vídeo-documentário, que se segue, realizado por Sílvio Tendler com o general Giap em 2011


De Hanói. Assim como em apenas poucos anos os norte-americanos perderam os corações e mentes dos sul-vietnamitas, eles perderam também, em apenas poucas semanas, os corações e mentes da maioria dos iraquianos – o que, em resumo, significa perder a guerra, seja qual for o resultado estratégico final. Negativas topográficas – aqui é o deserto da Mesopotâmia, não a selva da Indochina – não funcionam, nem funcionam as negativas que dizem que os iraquianos não são tão politizados quanto eram, pelo comunismo, os vietnamitas. Nada disso sequer se aproxima do que interessa: como aconteceu no Vietnã, o que acontece agora no Iraque tem tudo a ver com patriotismo e nacionalismo.

Tariq Aziz
Como dizia, antes da invasão norte-americana, o ex-vice-premiê do Iraque, Tariq Aziz, “que nossas cidades sejam nossos pântanos e nossos prédios, nossas selvas”. Mohammed Saeed al-Sahaf, codinome “Ali Cômico” [orig. Comical Ali], o inesquecível ex-ministro da Informação, costumava dizer que o Iraque seria “outra Indochina”.

A estratégia de guerra de guerrilhas contra o que se considerava uma inevitável invasão norte-americana foi aperfeiçoada no Iraque durante anos. E o estrategista-professor não era general, nem assírio, nem mesopotâmico, mas o legendário Vo Nguyen Giap, general vietnamita que coordenou as vitórias contra o colonialismo francês e a intromissão dos EUA.

"Ali Cômico"
Os estrategistas iraquianos – de oficiais do exército a membros do Partido Ba’ath – sempre foram aplicados estudiosos da Guerra do Vietnã, que no Vietnã é chamada “Guerra Americana”. Além disso, a população iraquiana urbana é muito bem educada e analisa os eventos com profundo senso histórico – tanto quanto os vietnamitas. Os iraquianos não são ingênuos ou enganáveis a ponto de acreditarem no que dizem as forças de ocupação, que se trataria de “construir uma nação” – e não veem nenhum resultado tangível desde a “queda” de Bagdá, dia 9/4 [de 2003]. Desde o início – a primeira gigantesca manifestação popular partiu da mesquita Abu Hanifa em Bagdá, dia 18/4 [de 2003] –, a “libertação” do povo iraquiano pelos EUA foi vista por muitos setores no Iraque como guerra de libertação nacional, uma “guerra popular” no sentido de Giap, contra um agressor imperialista.

Está tudo escrito em Vo Nguyen Giap - Selected Writings, [1] seleção de escritos dos anos 1969-91 publicada por Gioi Editions em Hanói: a estratégia e as táticas de uma guerra de libertação nacional e como foi organizada “a guerra popular contra a agressão norte-americana”. O Partido Ba’ath e os Guardas Republicanos não implementaram o que haviam aprendido – com os principais comandantes militares, depois de uma campanha de intimidação preventiva, afinal comprados com dinheiro do Pentágono e promessas de refúgio seguro (ver “O negócio em Bagdá”, 25/4[2003]). Mas basicamente, a mesma estratégia está sendo agora implementada pelos vários grupos que constituem hoje a resistência nacional iraquiana.

Em todos os casos, sempre se trata de confundir, atormentar e desmoralizar exército muitas vezes maior. Veteranos da Guerra Americana em Hanói – que se reúnem diariamente às margens do Lago Hoam Kien para conversar sobre o passado e o presente – dizem que sempre se tratou de consciência nacional, patriotismo e tradições locais: segundo Giap, “o amor à terra natal, associado ao espírito democrático e ao amor ao socialismo”. No Iraque o ímpeto é o mesmo – com “amor ao Islã” substituindo o “amor ao socialismo”. O nacionalismo iraquiano e o sentimento anti-imperialista é tão forte aqui quanto foi no Vietnã.

Giap escreveu que: “(...) devem-se criar as condições para atacar o inimigo por todos os meios adequados e as forças urbanas revolucionárias devem ser coordenadas com as áreas rurais”: hoje, significa atacar em Bagdá e no cinturão sunita (já avançando na direção do sul sunita). O passo seguinte da resistência iraquiana deve ser, aplicando-se Giap, “combinar forças armadas e forças políticas, insurreição armada e guerra revolucionária”. Implica uma estratégia concertada do cinturão sunita aliado a grupos xiitas, muitos dos quais já adotaram uma posição de “esperar para ver”, de mal disfarçada hostilidade contra o regime pró-consular norte-americano.

Giap é claro e direto: “A estratégia da guerra popular é estratégia de guerra prolongada”. A resistência iraquiana segue Giap, ao pé da letra. A ideia não é que não possa haver saddamistas fiéis, por trás dos ataques contra os norte-americanos: se houver, serão apenas um item a mais, na mesma equação. Giap escreveu que os norte-americanos e o governo fantoche do Vietnã do Sul são apoiados por “uma repressão brutal e uma máquina de coerção, e aplicam contra nossos compatriotas uma política de barbárie fascista”. É exatamente assim que a resistência – e cada dia mais o próprio povo do Iraque – veem os soldados norte-americanos, cada dia mais apavorados e desmoralizados, atirar contra mulheres e crianças inocentes e, até, contra jornalistas estrangeiros que não conheçam. Contra a “máquina de repressão”, Giap recomenda “guerrilha e milícias de autodefesa” em zonas estratégicas – exatamente o que a resistência iraquiana tem providenciado.

O Iraque hoje [2003] já é como o Vietnã depois da Ofensiva do Tet de 1968. Os norte-americanos poderiam ter deixado o Vietnã a qualquer momento – mas teria significado vexame, no sentido asiático, e admitir a derrota. Mas, sim, foi o que aconteceu quando aquele último helicóptero decolou da embaixada dos EUA em Saigon, em abril de 1975. Ainda que tivessem alguma intenção de fazê-lo, o que não têm, a Casa Branca e o Pentágono – apesar de já terem declarado vitória – simplesmente não podem sair do Iraque [é verdade ainda hoje, dez anos depois! (NTs)]. Eles sabem que, no instante em que os EUA saírem de lá, um governo democraticamente eleito, de maioria xiita e antiamericano assumirá o poder (já aconteceu [2])– assim como um governo comunista antiamericano assumiu o poder no Vietnã. Se os EUA permanecerem no Iraque “por anos” – como diz o Pentágono – a questão será sempre a mesma: quantos sacos de cadáveres serão necessários, antes de que a opinião pública norte-americana exija a retirada?

Os ataques da resistência iraquiana são executados por grupos pequenos, quase todos bem treinados, que em geral conseguem safar-se sem baixas. Seguem o ensinamento clássico de Giap: desmoralizar os soldados dos EUA e, ao mesmo tempo, aumentar o sofrimento já insuportável da população, para, assim, manter vivo o ressentimento contra as forças de ocupação. Asia Times Online tem ouvido vários ex-altos oficiais do exército de Saddam – agora desempregados – que têm sido convidados a unir-se à resistência; respondem, invariavelmente, que, sim, acabarão por se unir à resistência, “se os EUA continuarem a nos humilhar”. Outros estão financiando pequenos grupos de guerrilheiros, ao custo de milhares de dólares. A recompensa para qualquer um que lance um foguete contra veículo de combate norte-americano é de cerca de US$350 – o suficiente para comprar o que é hoje um sonho de consumo, encontrável no mercado parcialmente livre em Bagdá: um aparelho de televisão em cores conectado por satélite.

No Vietnã, a resistência foi organizada pelo Partido. No Iraque, é organizada pelas tribos. Chefes de tribos – praticamente todos eles defensores de Saddam – estão já próximos do fim do “período de graça” que concederam aos norte-americanos. A resistência conta tanto com ex-oficiais do exército e membros do ex-Partido Ba’ath, como com jovens desempregados que respondem ao apelo de clérigos sunitas, seus chefes tribais; e, em termos mais gerais, com o patriotismo árabe.

A resistência pode contar, em termos potenciais, com 600 mil indivíduos, que foram desmobilizados pelo regime pró-consular norte-americano. Com mais de 20 anos de guerra, praticamente toda a população masculina do Iraque já está militarizada. Mais de 7 milhões de armas foram distribuídas pelo regime de Saddam Hussein. Milhões de foguetes e morteiros foram abandonados, quando o regime entrou em colapso. A organização da luta armada no Iraque – no sentido de Giap – pode ainda engatinhar, mas os resultados são cada dia mais devastadores. A “guerra popular” se aprofunda: mísseis terra-ar lançados contra aviões de transporte; sabotagem no oleoduto Kirkuk-Ceyhan. O Comando Central dos EUA admite que o número de ataques já chega a 25 ataques por dia.

Esses mujahideen sunitas iraquianos – contraparte dos mujahideen sunitas afegãos que lutaram na jihad antiamericana no Afeganistão – contam com a ativa cumplicidade da população local, exatamente como no Vietnã. Tudo se encaminha para uma “guerra popular” no sentido de que todos, em cada bairro ou comunidade, sabe quem organizou cada ataque, mas nada informam aos invasores. Mas e quanto aos vídeos em que Saddam incita a uma jihad contra os norte-americanos? Saddam não é Ho Chi Minh – líder legítimo de uma luta de libertação nacional. Não há no Iraque muita nostalgia de Saddam. Nem os ex-oficiais do exército têm saudades – ou, vale registrar, mostram-se muito otimistas quanto ao sucesso dos guerrilheiros. Eles sabem que, mais uma vez, o povo iraquiano será a maior vítima – com os norte-americanos obcecados, sobretudo, com a própria segurança, não com a segurança do povo do Iraque. Mas, mesmo assim, muitos ex-oficiais mostram-se prontos a unir-se à resistência.

McNamara encontra  O General Giap em 1995
Em 1995, no 20º aniversário do fim da Guerra Americana (Vietnã), o ex-secretário de Defesa dos EUA, Robert McNamara teve um encontro com o legendário Giap em Hanói. O velho guerreiro disse-lhe que os EUA entraram naquela guerra sem saber coisa alguma da longa e complexa história do Vietnã, de sua cultura e do espírito de luta contra ondas de invasores. McNamara teve de concordar. Os EUA saíram do Vietnã cobertos de vergonha e humilhados. No Iraque, os empresários bushistas esperam levar, pelo menos, o petróleo. E os jovens soldados norte-americanos estão morrendo exatamente por isso: a Ordem Executiva n. 13.303, assinada por George W Bush em maio passado [2003].

A Ordem Executiva n. 13.303 declara que, no que tenha a ver com “todo o petróleo e derivados no Iraque, e interesses associados a esses produtos”, “todos os contratos, sentenças, decretos, ordens executivas, guarda, produção e todos os processos judiciais ficam proibidos, e devem ser considerados nulos e cancelados”. Em outras palavras, segundo Jim Vallette, do Instituto de Estudos Políticos em Washington, “o decreto de Bush, na realidade, declarou que todo o petróleo do Iraque passava a ser propriedade definitiva das empresas de petróleo dos EUA”.


A resistência iraquiana conhece perfeitamente os termos da Ordem Executiva n. 13.303 – e por isso vive a sabotar e continuará sabotando o crucial oleoduto Kirkuk-Ceyhan. Quanto mais os iraquianos sejam obrigados a esperar que o dinheiro do petróleo volte a correr na direção do Iraque e ajude a reconstruir o país, mais o governo de transição imposto pelos EUA perdera sua já fraquejante credibilidade. De tudo isso, a população iraquiana só sabe, com certeza, que a gasolina é vendida a preços altíssimos sempre no mercado negro; e que, nas casas, só há eletricidade durante três horas por dia.

Giap também escreveu que a resistência no Vietnã tinha de “esmagar o projeto maquiavélico do imperialismo norte-americano, de fazer vietnamitas combaterem contra vietnamitas, de alimentarem guerra com guerra”. Os norte-americanos estão cometendo o mesmo erro no Iraque.

Os EUA foram ao Vietnã, dentre outros fatores, para reforçar a própria credibilidade simbólica e exibir novas tecnologias militares. No Iraque, a demonstração teatral foi, sem dúvida, poderosa, mas a credibilidade simbólica está sendo reduzida a cinzas. No Vietnã, os EUA quiseram fazer uma demonstração de como esmagar regimes revolucionários nacionais, no sempre depreciativamente ainda chamado Terceiro Mundo. Falharam miseravelmente. No Iraque, os EUA sonharam com mostrar como “corrigir” regimes ex-fregueses que se desencaminhem. Também estão falhando miseravelmente – com as condições ali cada dia mais maduras para uma guerra popular que leve ao surgimento de mais um regime nacional revolucionário.

A ideia do n. 2 do Pentágono, Paul Wolfowitz, para uma ordem política e econômica no Iraque é em tudo semelhante ao que os EUA queriam no Vietnã do Sul – e semelhante também ao que os EUA estavam forçando em todo o Terceiro Mundo nos anos 1950s e 1960s. No Vietnã, os EUA tinham o poder e o controle de um governo fantoche (do Vietnã do Sul). Mas falharam completamente e não conseguiram criar sistema político, econômico e ideológico viável, capaz de resistir à revolução dos vietnamitas. Implica que a derrota não militar dos EUA foi ainda mais crucial que o impasse militar em que se meteram.

O mesmo pode estar acontecendo no Iraque. Wolfowitz e companhia não estão, não, de modo algum, interessados em alguma democracia, porque sabem que em eleições livres, justas e democráticas, o Iraque se encaminhará para governo xiita, provavelmente regido pela lei da Xaria, e com absoluta certeza antiamericano [como hoje sabemos que aconteceu. NTs]. No Iraque, como no Vietnã, os EUA só implantaram um sistema militar de fato. Esse sistema deverá controlar – ou, eufemisticamente, “supervisionar” – a estrutura política e, mais importante, como Asia Times Online já demonstrou, a nova ordem econômica subsidiada pelos EUA. Em todos os sentidos, pelo projeto de Wolfowitz, o Iraque deve ser convertido em colônia dos EUA.

No Vietnã, os EUA não foram capazes de converter seu descomunal poder de fogo em algum tipo de sedução política. Dialéticos refinados, os veteranos da Guerra Americana, hoje, em Hanoi, dizem que, de tanto bombardear indiscriminadamente o Vietnã, os EUA provocaram trauma psicológico e econômico quase insuperável: desse modo, os EUA jamais conquistarão corações e mentes. Sobre o Iraque, hoje, do qual também falam, dizem que o Pentágono ainda não aprendeu uma lição de importância crucial: é absoluta e completamente impossível abordar com violência uma sociedade complexa, sem provocar corrosões sociais que, na continuidade, sempre levarão ao colapso de qualquer regime fantoche.

Se Washington subestimar a resistência iraquiana, o risco é seu. A resistência está aprendendo depressa, na luta, as lições do Vietnã – onde os comunistas, em guerra longa, derrotaram a maior máquina de guerra que o mundo jamais produzira, e por três razões, como diria Giap: a descentralização, a mobilização de massa e táticas militares de alta mobilidade. Giap articulou um conjunto de manobras políticas, organizacionais e técnicas, para contrabalançar a gigantesca máquina de guerra dos EUA, que pode ser aplicado pelas forças de resistência em qualquer ponto do mundo, especialmente no Iraque [em 2003, ou na Síria, em 2013, por que não? (NTs)].


Notas dos tradutores

[1] Vo Nguyen GIAP, “Guerra do Povo, Exército do Povo”, Editora Ulmeiro, s/d. Tradução Manuel Reis Ferreira, Edição e Coordenação José Fortunato, Lisboa. Em Textos Marxistas do sítio Primeira Linha lê-se o prólogo à edição cubana de 1962 escrito por Che Guevara (esp.).
[2] “O primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, foi eleito para um terceiro mandato como presidente do Partido Dawa Islâmico, em eleições das quais participaram inúmeros líderes políticos iranianos, mas que mídia ignorou completamente. Essa eleição é o primeiro passo no processo pelo qual Maliki deve renovar pela terceira vez seu mandato como primeiro-ministro. O Partido Dawa Islâmico é um dos mais antigos partidos religiosos do Iraque. Foi fundado em meados dos anos 1950s, inspirado pelas ideias do conhecido clérigo xiita Muhammad Baqir al-Sadr”. (18/3/2013, “Maliki Reelected as Dawa Head for Third Time”, Mushreq Abbas, Al-Monitor).
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
Livros

    Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War, Nimble Books, 2007
    Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007
    Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009
(Redecastpr)

Outra Escola é possível

Para uma escola além dos livros


Filósofo australiano fala sobre um museu da empatia e aposta que mudanças sociais ocorrerão através das relações entre as pessoas, do compartilhamento da “arte de viver”

Por Patricia Gomes, no PorVir

O filósofo Roman Krznaric atrai públicos numerosos para suas palestras sobre amor, trabalho e vida. Mas, apesar da popularidade, ele dispensa formalidades. Senta-se no sofá do lobby de um elegante hotel na avenida Paulista, oferece um café e começa a falar com as pessoas que ele acabara de conhecer como se fossem velhos amigos. Fala sobre seus dias no Brasil, amigos em comum e já envereda para um de seus temas preferidos: o fato de os sistemas educacionais dos quais fez parte, como aluno ou como professor, não o terem preparado para a vida. “Vamos para a escola ou universidade e não aprendemos sobre as coisas que mais nos preocupam na vida, como a forma de construir relacionamentos, de lidar com problemas familiares ou de escolher a carreira”, diz o australiano que passou parte da vida em Hong Kong e atualmente está radicado em Londres.

É principalmente na capital inglesa que Krznaric tem posto em prática a resposta que ele e um grupo de outras pessoas deram para esse descompasso entre vida e escola. Ele começou na cozinha de casa, convidando amigos, depois amigos de amigos, depois amigos de amigos de amigos, para conversar sobre o amor. Daí, claro, a cozinha ficou pequena e os encontros passaram a ocorrer em locais públicos. Era o início da The School of Life, ou Escola da Vida, instituição que dá aulas, oficinas e cria materiais sobre temas relacionados a trabalho, amor, família, política e diversão e que agora chega ao Brasil para trazer para cá oportunidades de discutir os dilemas do cotidiano.

O próximo evento da The School of Life Brazil está marcado para domingo, no Rio de Janeiro, ocasião em que Krznaric vai falar sobre outro tema que lhe é muito caro, a empatia (as inscrições custam R$ 100 ). Ele é tão ligado ao tema que uma de suas maiores ambições na vida é criar o Museu da Empatia, espaço em que estranhos podem tentar se conhecer e estabelecer conexões, um pouco à luz de outra iniciativa que liderou, quando estava à frente da organização Oxfam Muse. Na época, ele promovia encontros um tanto inusitados: chamava grupos heterogêneos – 100 empresários e 100 moradores de rua, por exemplo – e promovia espaços em que representantes de cada um dos grupos pudesse ter conversas pessoais e profundas com desconhecidos sobre suas experiências com as diferentes formas de amor, com a morte ou algum outro tema existencial.

“Primeiro, eu achava que só poderíamos mudar a sociedade por meio de partidos políticos. Mas então eu comecei a entender que a melhor forma de transformar a sociedade era mudando a maneira como as pessoas se relacionam”, disse Krznaric, que além de professor universitário de sociologia e política, já experimentou – e adorou – ser jardineiro, é apaixonado por tênis e gosta de fazer móveis. Dentre os livros que já escreveu, Sobre a Arte de Viver (Zahar) e Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida (Objetiva) estão disponíveis em português. Além disso, mantém o blog Oustrospection, em que divide seus pensamentos sobre a empatia e a arte de viver.

Em conversa com o Porvir, Krznaric falou ainda sobre como ele imagina um modelo de escola tradicional que fosse capaz de abordar os assuntos “que realmente importam” e citou modelos bem sucedidos de trabalhos com empatia. Veja os principais destaques da conversa.
“Primeiro, eu achava que só poderíamos mudar a sociedade por meio de partidos políticos. Mas então eu comecei a entender que a melhor forma de transformar a sociedade era mudando a maneira como as pessoas se relacionam”

Como começou sua inquietação com os modelos tradicionais de ensino?

Quando eu olho para a minha própria educação – graduação, pós, doutorado – eu a considero um fracasso porque eu não aprendi nela habilidades para a vida. Nós vamos para a escola e não aprendemos sobre as coisas que mais nos preocupam na vida, como a forma de construir relacionamentos, de lidar com problemas familiares ou de escolher a carreira, como pensar sobre a criatividade e seu potencial. Nada disso se aprende nos nossos sistemas de educação. Sempre achei que tinha alguma coisa faltando na minha própria educação.

Na minha jornada pessoal, eu era um acadêmico tradicional, ensinava sociologia na universidade. Mas a burocracia estava me deixando louco. Eu achava que só poderíamos mudar a sociedade por meio de partidos políticos. Mas então eu comecei a entender que a forma de transformar a sociedade era mudando a maneira como as pessoas se relacionam. Na forma como eu e você aprendemos uns com os outros, como nos colocamos no lugar do outro, como agimos com empatia, como você se compreende enquanto pessoa.

Pode dar um exemplo?

Comecei a trabalhar com isso na Oxfam Muse. A ideia era criar momentos de conversa entre estranhos e cruzar limites sociais. Reuníamos 100 empresários com 100 moradores de rua. Os convidávamos para um jantar em qualquer lugar, num museu, num parque. Entregávamos menus. Não menus de comida, mas de conversa. Havia perguntas sobre aspectos humanos universais: o que você já aprendeu com as diferentes formas de amor na sua vida? De que forma você acha que pode ser mais corajoso? A ideia era criar conversas de 1 para 1, em que as pessoas podiam se conectar umas com as outras para ir além do papo superficial.

Fizemos esses encontros também em escolas entre estudantes de diferentes idades, entre professores e alunos… Quando você tem 14 ou 15 anos, você pensa sobre tudo isso. Pode ser que você não tenha a linguagem ou espaço para falar sobre esses assuntos, mas todo mundo é especialista em sua própria experiência.

Qual era o propósito dessas conversas?

Criar conexões. Quando você tem uma conversa legal com alguém, você sente que mudou um pouco, criou-se uma espécie de igualdade. Nas escolas, estamos sempre cercados de estranhos. O que as outras pessoas pensam são pontos obscuros para nós. Em empresas também. O diretor de uma empresa pode não saber que sua secretária é uma exímia cineasta. Existem muitas coisas que não sabemos sobre pessoas que estão próximas e assim se perde muito potencial. Conversas são importantes para abrir a cabeça das pessoas.

Isso foi o início da The School of Life?

Tive muitas conversas com pessoas sobre os diferentes aspectos da vida. Entendi que eu queria dar aulas sobre a arte de viver. Percebi que havia um tipo de educação que ainda não existia. E nós até sabemos muitas coisas sobre vida, amor e morte porque as pessoas estão pensando sobre isso há milhares de anos, mas sempre podemos aprender mais se entendermos o que as pessoas da Grécia Antiga pensavam sobre o amor, o que as pessoas do Renascimento pensavam sobre morte, como as pessoas no oeste africano pensam sobre relacionamentos, o que podemos aprender, que ideias podemos ‘roubar’.

Então você já tinha a ideia e era só começar?

Eu não tinha um lugar. Aí minha mulher sugeriu que usássemos nossa cozinha no sábado seguinte. Chamei uns amigos para discutir, de manhã, como encontrar um trabalho que nos satisfaça e, de tarde, para repensar as ideias sobre o amor. Fui fazendo isso mais vezes e precisei sair da cozinha. Fui para espaços públicos e comecei a desenvolver uma metodologia sobre o que funcionava, que fosse um aprendizado pessoal e significativo. Queria ensinar filosofia grega de um jeito que não fosse só teoria.
Educação para a arte de viver não existe para crianças e jovens na maior parte dos países.

E como foi isso?

Eu e outras pessoas desenvolvemos cursos em cinco grandes áreas da vida: trabalho, amor, família, diversão e política. Passamos um ano pesquisando, pensando, conversando com pessoas para definir essas cinco áreas. Passamos dois anos desenvolvendo materiais, como as aulas seriam – mais do que um professor ir à frente e falar –, como seria a participação das pessoas, os debates, o tamanho das turmas, o material visual. Começamos a The School of Life e foi um sucesso. Mais de 100 mil pessoas já vieram ouvir o que temos para falar. Fomos para outros países do mundo, agora estamos chegando no Brasil e na Austrália e vamos expandir para outros lugares.

Descobrimos uma espécie de ‘fome existencial’ e estamos agora em um momento de inflexão da história. Temos um nível recorde de insatisfação com a vida. As pessoas estão procurando por significado em suas vidas. É por isso que, mesmo que não saibam quem eu sou e o que eu faço, as pessoas comparecem para ver o que eu tenho a dizer sobre repensar o trabalho. Elas querem alguma coisa. A educação moderna está fracassando. Claro, existem muitas organizações como a The School of Life que estão preocupadas com um aprendizado mais significativo, mas ainda é muito pouco. Educação para a arte de viver não existe para crianças e jovens na maior parte dos países.

Como você imagina uma escola que tenha um programa para ensinar a arte de viver?

Imagine que, numa escola regular, uma tarde por semana seja dedicada para a aula de vida, com três componentes. Em um, é o aprendizado tradicional, na sala de aula e ensina, por exemplo, os seis tipos de amor da Grécia Antiga. O segundo seria de conversas. Os alunos sairiam às ruas para falar com estranhos, visitar casas de repouso para cegos. Essas conversas podem ser de muitas maneiras, inclusive on-line, em que se pode ter contato com crianças no Quênia. O ponto é ir além do papo superficial de duas linhas do Facebook. O terceiro componente seria destinado a experiências de diferentes tipos de vida. Poderia ser ajudar alguém a construir uma casa ou um voluntariado com pessoas muito diferentes de você. Eu adoraria ver as escolas oferecerem esse tipo de educação para a vida, mas também adoraria que as escolas ensinassem empatia.

Como funcionaria?

A boa notícia é que 98% das pessoas têm a capacidade de desenvolver empatia, de se colocar no lugar do outro, ver o mundo pelos olhos de outra pessoa. Mas nós nem sempre usamos isso. Os outros 2% são psicopatas, pessoas com alguns tipos de autismo. Alguns acontecimentos na nossa vida erodem nossa capacidade de ‘empatizar’. A outra boa notícia é que empatia é uma habilidade que se pode aprender e se ensinar. Existem diferentes modelos de ensinar empatia. O mais famoso deles é o Roots of Empathy. Para mim ele é o melhor porque ele tem aqueles três passos sobre aprender, conversar e experimentar. Você coloca um bebê no centro de uma roda e as crianças interagem e falam sobre o bebê. Eles têm feito muitos estudos que mostram mudanças no comportamento das crianças. O programa torna as crianças mais empáticas, preocupadas com o outro, colaborativas, mas também as faz melhorar seus resultados em outras áreas, como autoconfiança e resiliência emocional. Mas há outros modelos.
(Outras Palavras)