segunda-feira, 2 de maio de 2011

Cinema

Sobre Rosemberg
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Por Jose Sette, de Cabo Frio, Rio de Janeiro


O cinema anárquico, revolucionário e inimaginável de Luiz Rosemberg Filho, num Brasil em que tudo se anistia menos a inteligência.

O mundo pessoal é feito como uma grande coleção de cacos de imagem e som.

Assim, ao nascer do sol, todos nós, aos poucos, descobrimos os sons que nos rodeiam e pouco depois as imagens, em seguida as línguas faladas, as formulações das orações, o pensamento, as associações das ideias, o bem e o mal, o diálogo e, finalmente, podemos contemplar o sonho do caos no grande espetáculo da vida.

No universo da criação, da arte, do saber, os movimentos são ciclos que explodem sem nunca se encontrarem e quase sempre são os mesmos, constituídos da mesma matéria.

É a história do eterno retorno: Nascer. Construir. Esgotar. Renascer...

O artista é fonte de inspiração do que vem a seguir...

Você pode ser prosa, mas também você pode ser poesia.

Só o futuro é moderníssimo e é sempre para ele que o grande artista volta o seu olhar. No futuro não se vê, têm-se visões.

Só no passado pode ser visto o que em um instante presente nos parece real.

Quando se registra uma imagem de rua, com ou sem som, em qualquer tempo, você guarda um momento do presente e teoricamente eterniza-o.

Agora, quando se cria, ou se inventa uma realidade para registro, com encenação, representações, ação determinada em uma urdidura controlada, trabalhando-se com coisas passadas e aprendidas durante um longo tempo de reflexão e sofrimento, pacientemente sendo editada na somatória de tudo isso, com arte e coragem, chamamos isso de cinema, e aí você tem um bom ou um mau filme para ver.

A releitura de um filme produzido há mais de 30 anos é tarefa árdua, pois junto dele caminha a história, todos os fatos de uma época, nuances de um tempo, cacos de imagens e de sons muitas vezes recheados de gritos de horror.

A história do homem moderno, seja medíocre ou sábia, foi registrada antes no nitrato de prata, depois em celulóide, hoje, magnética, binária e digital, é fonte inesgotável de bons filmes em todas as épocas de sua existência e é um prazer inenarrável quando chega às nossas mãos, aos nossos olhos e ouvidos, à nossa boca, um banquete de ideias e reflexões criativas que estavam guardadas, preservadas no óleo da perseverança, na força do cinema e na alma do seu criador, durante tanto tempo.

A$$untina & O Santo e a Vedete

Estavam ali na telinha do meu computador, como dois livros raros, esses dois filmes de longa-metragem ainda desconhecidos para mim e também, acredito, para o seu grande público oculto. Filmes estes que não foram, ou foram poucos exibidos e que o artista cinematográfico, meu amigo, Luiz Rosemberg Filho, gentilmente me remeteu via correio.

Dos filmes de Rosemberg da década de 70, só tinha assistido à Crônica de um industrial, de que gostei muito na época, mas, confesso, preciso e quero revê-lo hoje, com outros olhos, outros ouvidos.

Toca na rádio MEC, neste momento que estou escrevendo, o genial Michael Legrand e seus belíssimos temas de filmes... Não me canso de ouvi-los. Nessa trilha vou navegando na memória do tempo com esse grande artista do cinema. Certos filmes com suas trilhas, sendo também um bom som, não me canso de revê-los e de ouvi-los quando são exibidos. A boa música é fundamental nos nossos filmes.

No cinema de arte poética que fazemos, vejo sempre, de cara, a trilha e o som das palavras na sua construção sequencial, em cada uma de suas metásteses cinematográficas as trocas linguísticas no mesmo plano, nas mesmas palavras, nos seus poéticos diálogos a consubstanciação de uma mesma matéria, a matéria do homem em sua luta eterna entre o saber e o ignorar.

Um bom filme, um bom livro, um bom quadro, uma boa música, um bom teatro, sempre que apresentados, têm que trazer ao saber, ao espírito da arte, uma novidade, uma sensação nova de prazer, de descobrir o novo que já foi antigo e hoje é mais novo que o antigo que já foi novo. Assim me senti assistindo aos dois filmes, um depois do outro, do cinema inimaginável de Luiz Rosemberg.

Seus filmes são concebidos em plano-sequência de ideias, pois em cada um deles está contada uma história completa, mas não definitiva. São planos que se justapõem em conflitos estéticos entre uma loucura e outra, e vão, aos poucos, desenlaçando a rede e reconstruindo a trama de um grande poema épico.

É tudo filmado de forma clássica, com a câmera muito bem posicionada, um bom diretor tem de saber primeiro o equilíbrio do quadro, o que se pode notar de cara na sua maneira de enquadrar a cena. Noção de enquadramento adquirido pelo alto conhecimento de uma paixão em busca de uma linguagem própria, anárquica e ao mesmo tempo subversiva, em uma época de horror em que viveu a nossa geração.

Dois filmes diferentes sobre uma só juventude. Eu nunca havia visto em toda a minha história de visões cinematográfica nada igual.

Com a inteligência de uma mente privilegiada, Rosemberg chega às vezes ao limite de suas obsessões ao retratar a bandalheira humana e despudoradamente se abre para o mundo, desnudando, na tela, o seu país, a sua época, ele mesmo.

Todo santo é uma vedete. Todas as mulheres querem se regenerar. Todos os homens querem mamar. Toda vedete tem um santo. Isso ninguém pode negar. A$$untina, minha nêga! Acertei no milhar...

Este não é um filme datado, navega com desenvoltura fora do seu tempo.

Todo bom filme se distingue pela apresentação das suas primeiras sequências.

- O que me diz das cenas regadas a sangue na voz radiofônica de Carmem Miranda cantando as belezas do Brasil?
- No filme A$$untina, Rosemberg gosta de trabalhar com as peças da memória presente, matéria viva. Ele não concede ao espectador o tempo de perceber que a morte senta-se ao seu lado, pois vai construindo a sua colagem cinematográfica com os cacos de situações muito bem estudadas no seu contexto estético, retratando a vida caótica com discursos filosóficos, políticos, ideológicos e muitas vezes panfletários, mas nunca óbvios na linguagem comum a um cinema novelesco, mesmo dito marginal, udigrude, pois estes são elaborados sem a informação histórica, sem a sensibilidade, a rebeldia necessária à criação da grande arte.

O poeta Murilo Mendes dizia que um poeta escreve sempre a mesma poesia e eu digo que um cineasta faz sempre o mesmo filme, buscando encontrar em todos os seus personagens aquilo que ainda está perdido pelo saber, pelo ser.

Posso dizer ainda que a arte cinematográfica de Rosemberg apega-se às tradições cariocas do samba, da algazarra, da gozação, da anarquia, do desleixo, da melancolia, do sexo e do desejo do carnaval.

O seu cinema não é uma salada oculta, não é para poucos o prazer das suas descobertas, o luxo do entender, a magnificência do sentir.

Eu digo a ele como artista o que o papa disse sobre o Padre Vieira como católico: graças a deus ele existe e está do nosso lado.

Mesmo sem tê-lo antes conhecido, o seu cinema me influenciou bastante, vejo nos dois filmes situações que me lembram alguns dos meus melhores filmes.

A cena em que Nelson Dantas, com sua cara nordestina, dançando roliude na seca, me é qualquer coisa de sensacional. Ela me passa a emoção cênica do grande ator que ele é, desempenhando, sem dúvidas, o seu melhor papel.

A anarquia brasileira no seu maior desempenho. A$$untina tem muito do meu filme Bandalheira, até algumas locações são as mesmas. A época é a mesma. Havia uma sintonia em um só pensamento: liberdade...

Neste nosso cinema toda a nudez não será castigada.

Quando Rogério Sganzerla me perguntou um dia qual era o filme do Welles que eu mais gostava, imaginando a resposta clichê do Cidadão Kane, eu disse a ele, de pronto, que gostava era do outro Cidadão, o Arkadin, do Confidencial Report, e ele não se espantou. Agora, se me perguntarem de qual desses dois filmes do Rosemberg eu mais gostei, eu direi, sem dúvida, que é do segundo que assisti nesta noite, O Santo e a Vedete. É um filme espetacular, uma obra prima da comédia burlesca brasileira.

A$$untina é a morte que dança nas ruas do Rio. Tiros e mais tiros ecoam pelos seus becos mascarados. Liberdade dolente de carnavais passados. Orgia de Momo. Janus deus bifronte, que protege as entradas e as saídas, o interior e o exterior. Tabu oswaldiano exposto em imagens, colagens de contrários, como nos ensinou o cinema revolucionário de inomináveis gênios.

No desenrolar do filme, o espectador fica supostamente perdido nas entranhas de suas combinadas sequências, onde se cria um labirinto onírico de personagens inebriados de desejos reprimidos onde não existe saída a não ser a morte.

Já em O Santo e a Vedete... todo o mais é previsível... Em A$$untina, a orgia em que o país havia se metido é elaborada na mentira, na galhofa e é de trágica memória.

O Santo e a Vedete é uma chanchada da melhor qualidade, um filme universal, único, debochado com tudo e com todos, com muito humor inteligente e ótimos diálogos, o mais puro cinema brasileiro, que faz sucesso no mundo da mesma forma que um bom pasticho italiano dirigido por Pasolini faz sucesso na Itália.

Em A$$untina a escolha da trilha sonora é o espírito da terra, chega a ser parnasiano, como o poema de Bilac que serve de prólogo para a opereta trágica “porque ufano do meu país ao contrário”, muito bem representada, exposta e cantada pela beleza deslumbrante, sensual, de Analu Prestes, uma grande atriz.

O filme O Santo e a Vedete inicia-se com um gago, ou seria uma gague de palanque?

A televisão é o seu principal objeto de cena. O filme é paradoxalmente dirigido ao mercado e faria um grande sucesso se hoje fosse lançado. O ator Lutero Luis está impagável. Ele é o nosso Otelo. A trilha sonora criada pelo arguto Jardes Macalé e a montagem ágil e correta de Marta Luz, além da equilibrada e sensível fotografia de Pedro Moraes, já valiam o ingresso na grande sala escura das obras que ficam.

Nota Pessoal

Se isso não bastasse, esse filme ainda me proporcionou um reencontro, uma viagem ao passado, aos finais dos anos 70, quando conheci essa menina linda, deslumbrante, sensual, amorosa bailarina que por um ano inteiro me encantou. Não consegui filmá-la, mas confesso que era o que mais queria. Não foi possível para mim, mas Rosemberg, em um encontro casual a convidou e ela aceitou participar de seu filme, falo da Paula Nestorov... Menina, você está linda, discreta no personagem, correta na postura e nas inflexões pedidas pelo texto difícil. Paula você é talentosa como eu te imaginava, porque não seguiu no cinema, que desperdício...

A Adriana de Figueiredo é um caso à parte. Uma estrela de primeira grandeza. Sensacional! Senti a falta de mais Wilson Grey, podia tê-lo matado mais tarde.

Enfim, meu querido Rosemberg, você está de parabéns, faz muito tempo que não vejo um bom filme e os seus são os melhores que ultimamente tenho assistido. É preciso lançar esses filmes, não é possível se esconder tão preciosa obra por tanto tempo.

Tudo se anistia nesse país, menos a inteligência de um cinema que pode mexer com as pessoas, martelar suas cabeças ocas com imagens e sons que provoquem risos e dor.

Rosemberg, cuidado com os que fingem não saber o que se passa, pois estes não passam de “pentelhos fantasiosos da alienação”, nada significam para nós, e, mais dia, menos dia, perderão os seus falsos anéis de nobreza e soberba.

Vamos fazer cinema!

O brasileiro tem o direito de conhecer esses seus dois filmes, todos nós temos o dever de saber, de opinar, de criticar, de defender e até de escrever melhor do que eu escrevo sobre o cinema de primeira, inimaginável, que fez e faz o artista Luiz Rosemberg. Ponto. Acabei. O resto eu deixo pra depois do carnaval.

Jose Sette

Cabo Frio, fevereiro de 2011

20/2/1011

Fonte: ViaPolítica/O autor

Publicado no www.kynoma.blogspot.com

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